segunda-feira, 18 de abril de 2016

Giovanna ~

IV (II)

Quais são as necessidades corporais dos habitantes desses mundos?

São quase nulas – continua Giovanna para Maurice – narrando a sua viagem pelos sonhos com os seus amigos invisíveis a outras regiões celestes. – Não conhecem nem o frio, nem a fome, quase nada da fadiga. A sua existência é bem simplificada. Empregam-na na instrução, no estudo do universo, das suas leis físicas e morais. Prestam a Deus um culto magnífico e, desenvolvem em sua honra os esplendores de uma arte desconhecida aqui. Mas a prática das virtudes é, sobretudo, o seu objectivo. A miséria, as doenças, as paixões, a guerra, são quase ignoradas nesses mundos. São moradas de paz, de felicidade, das quais não saberíamos fazer nenhuma ideia no nosso globo de lutas e de lágrimas.

É então para lá que se transportam os homens virtuosos que deixam a Terra?

Há muitos degraus a transpor antes de conseguir a entrada nesses mundos. Esses são os últimos degraus da vida material e, os Seres que os povoam, diáfanos e leves para nós, são ainda grosseiros e pesados comparados aos puros Espíritos. Quanto à nossa Terra, ela não é senão um mundo inferior. É, após aí ter vivido um número de existências suficientes para concluir a sua educação e o seu adiantamento moral, que o Espírito a deixa para abordar esferas mais e mais elevadas e, revestir um corpo menos material, menos sujeito aos males e às necessidades de toda a sorte. Após um número incalculável de vidas, sempre mais longas ao mesmo tempo em que mais doces, crescendo em ciência e em sabedoria, esclarecendo-se, progredindo sem cessar, a alma abandona enfim as moradas corporais e vai perseguir no infinito o curso de sua eterna ascensão. As suas faculdades ampliam-se, uma fonte inesgotável de caridade, de amor flui nela; compreende as leis superiores, conhece o universo, entrevê Deus. Mas pobre de mim! Como estão longe de nós as suas beatitudes, as suas alegrias inefáveis! É preciso elevar-nos para essas alturas sublimes; Deus tem-nos dado os meios. Ele tem querido que sejamos os artesãos de nossa felicidade. A lei do progresso não está escrita na nossa consciência? Não recuemos então diante das lutas, dos sacrifícios, de tudo que purifica, eleva, enobrece. Oh! Se os homens quisessem saber! Se eles se dignassem a procurar o verdadeiro propósito da vida! Que horizontes se abririam perante eles! Como os bens materiais, esses bens efémeros, lhes pareceriam miseráveis, como os rejeitariam para se ligarem ao bem moral, à virtude, que a morte não pode tomar e que, sozinhos, nos abrem o acesso às regiões bem aventuradas.

Assim se escoavam as horas. Maurice inebriava-se das palavras da jovem moça, porque elas lhe ensinavam coisas que tinham sido sempre ignoradas nos seus livros. Era para ele como uma linguagem seráfica, revelando os mistérios do além-túmulo e, com efeito, Giovanna, médium inspirada, era, sem o saber, o eco de uma voz sobre-humana que retinia nas profundezas do seu Ser.

Quase todo o dia, passeavam assim, conversando através dos pequenos bosques perfumados, reaquecidos pelos raios de sol da Itália, acariciados pelo vento, sob o azul profundo do céu. Algumas vezes, subiam num barco com Luísa e deixavam-se deslizar docemente ao sabor das correntes do lago. Pouco a pouco os barulhos enfraquecidos da margem vinham morrer à volta deles. Bem alto, no ar límpido, grandes aves de rapina voavam em giros; peixes prateados saltavam na água transparente. Tudo então os convidava ao devaneio, aos doces desabafos do coração. Mas, reconduzidos por uma força oculta para os assuntos sérios, Giovanna falava de preferência da vida futura, das leis divinas, dos progressos infinitos da alma, de sua depuração pelas provas e sofrimentos.

A dor, dizia, tão temida, tão mal conhecida aqui em baixo, é, na realidade, o ensinamento por excelência, a grande escola onde se aprende as verdades eternas. Ela somente habitua o Ser a se desapegar dos bens pueris, das coisas terrestres, a apreciar o nada. Sem as provas, o orgulho e o egoísmo, esses flagelos da alma, não teriam nenhum freio. É a sua função amolecer os Espíritos rebeldes, os constranger à paciência, à obediência, à submissão. O sofrimento é o grande cadinho da purificação. Como os grãos na joeira, sempre daí se sai melhor. É preciso ter sofrido para compadecer-se com os sofrimentos dos outros. A aflição torna-nos mais sensíveis, inspira-nos mais piedade pelos infelizes. Se os homens fossem esclarecidos, bendiriam a dor como o mais possante agente de progresso, de crescimento, de elevação. Por ela, a razão fortifica-se, o julgamento afirma-se, as enfermidades do coração desaparecem. Mais alto que os bens terrestres, mais alto que o prazer, mais alto que a glória, ela mostra à alma aflita, a grande figura do dever erguendo-se, imponente, augusto, iluminado pelas claridades do fogo que não se extingue.

Essas revelações, essa voz encantadora, esses acentos eloquentes, inspirados, preenchiam Maurice de espanto e de admiração.

Giovanna – dizia – fale ainda, fale sempre, querida; o vivo eco de minhas esperanças, de minha fé, de minha paixão pelo justo e o verdadeiro. Fale! Sou tão feliz de escutá-la, de contemplá-la. E, todavia, me surpreende por vezes o receio de que a nossa felicidade se esvaneça de repente. A nossa felicidade não tem nada de humano. Parece-me que o vento áspero da vida vai soprar sobre o nosso sonho de amor; uma voz secreta me diz que um perigo nos ameaça.

Em vão a jovem moça procurou seguir os seus receios. A aproximação de eventos dolorosos nos preenche de uma apreensão vaga. A alma pressente o porvir? Este é um problema em suspenso, acima da nossa inteligência e que nós não podemos resolver.

Assim como Giovanna tinha dito, quem pode prever o dia de amanhã aqui em baixo?

Alegrias, riquezas, honras, amores insensatos, afeições austeras, tudo passa, tudo escapa entre as mãos do homem como areia subtil. As horas amargas e desoladas da vida podem tocar de perto as horas de felicidade e de paz; mas é raro, quando as primeiras se aproximam, que não sejamos atingidos por um sombrio prognóstico. Assim estava Maurice. Essa conversa sobre a dor – pensava – não seria como um presságio, uma advertência do alto? Uma pressão penosa apertava-lhe o coração quando se separava de Giovanna.

A noite se escoava longa e sem sono. Mas as primeiras claridades da alvorada afastaram as suas impressões e quando retornou para perto de sua bem-amada, vendo-a plena de graça, de jovialidade, de vida, embelezada pelo noivado, os seus últimos receios se esvaneceram como um nevoeiro matinal sob os raios de sol de Agosto.

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Léon Denis, Giovanna_1880, IV (II de II) 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Retrato, pequena pintura que especialistas de arte italiana atribuem a Rafael Sanzio)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

o grande enigma ~

Deus e o Universo (IV)

Não procures Deus nos templos de pedra e de mármore, ó homem que o queres conhecer, e sim no templo eterno da Natureza, no espectáculo dos mundos a percorrer o Infinito, nos esplendores da vida que se expande na sua superfície, na vista dos horizontes variados: planícies, vales, montanhas e mares que a tua morada terrestre te oferece. Por toda a parte, à luz brilhante do dia ou sob o manto constelado das noites, à margem dos oceanos tumultuosos e, assim na solidão das florestas, se te souberes recolher, ouvirás as vozes da Natureza e os subtis ensinamentos que murmuram ao ouvido daqueles que frequentam as suas solidões e estudam os seus mistérios.

A Terra voga sem ruído na extensão. Essa massa de dez mil léguas de circuito desliza sobre as ondas do éter qual um pássaro no Espaço, qual um mosquito na luz. Nada denuncia a sua marcha imponente. Nenhum ranger de rodas, nenhum murmúrio de vagas sob os seus flancos. Silenciosa, ela passa, rola entre as suas irmãs do céu. Toda a potente máquina do Universo se agita; os milhões de sóis e de mundos que a compõem, mundos perto dos qual o nosso vale por uma criança, todos se deslocam, se entrecruzam, prosseguem as suas evoluções com velocidades aterradoras, sem que som algum ou qualquer choque venha trair a acção desse gigantesco aparelho. O Universo continua calmo. É o equilíbrio absoluto; é a majestade de um poder misterioso, de uma Inteligência que não se impõe, que se esconde no seio das coisas e, cuja presença se revela ao pensamento e ao coração e, que atrai o pesquisador qual a vertigem do abismo.

Se a Terra evolucionasse com estrondo, se o mecanismo do mundo se regulasse com fracasso, os homens, aterrorizados, curvar-se-iam e creriam. Mas, não! A obra formidável se executa sem esforço. Globos e sóis flutuam no Infinito, tão livres quanto plumas sob a brisa. Avante, sempre avante! O rondar das esferas se efectua guiado por uma potência invisível.

A vontade que dirige o Universo disfarça-se a todos os olhares. As coisas estão dispostas de maneira que ninguém é obrigado a lhes dar crédito. Se a ordem e a harmonia do Cosmos não bastam para convencer o homem, este é livre no conjecturar. Nada constrange o céptico para ir a Deus.

O mesmo acontece às coisas morais. As nossas existências se desenrolam e os acontecimentos se sucedem sem ligação aparente; mas, a imanente justiça domina ao alto e regula os nossos destinos segundo um princípio imutável, pelo qual tudo se encadeia numa série de causas e de efeitos. O seu conjunto constitui uma harmonia que o espírito emancipado de preconceitos, iluminado por um raio da Sabedoria, descobre e admira. Que nós sabemos do Universo? Nossa vista só percebe um conjunto restrito do império das coisas. Somente os corpos materiais, à nossa semelhança, a afectam. A matéria subtil e difusa nos escapa. (i) Vemos o que há de mais grosseiro, em tudo que nos cerca. Todos os mundos fluídicos, todos os círculos onde a vida superior se agita, a vida radiosa, se eclipsam aos olhos humanos. Distinguimos apenas os mundos opacos e pesados que se movem nos céus. O Espaço que os separa nos parece vazio. Por toda a parte, profundos abismos parecem abrir-se. Erro! O Universo está cheio. Entre essas moradas materiais, no intervalo desses mundos planetários, prisões ou presídios flutuam no Espaço, outros domínios da Vida se estendem, vida espiritual, vida gloriosa, que os nossos sentidos espessos não podem perceber porque, sob as suas radiações, quebraria qual se quebra o vidro ao choque de uma pedra.

A sábia Natureza limitou as nossas percepções e as nossas sensações. É degrau a degrau que ela nos conduz no caminho do saber. É lentamente, trecho por trecho, vidas depois de vidas, que ela nos leva ao conhecimento do Universo, seja visível, seja oculto. O ser sobe, um a um, os degraus da escadaria gigantesca que conduz a Deus. E cada um desses degraus representa para o ser uma longa série de séculos.

Se os mundos celestes nos aparecessem de repente, sem véus, em toda a sua glória, ficaríamos aturdidos, cegos. Mas, os nossos sentidos exteriores foram medidos e limitados. Eles avultam e se apuram à medida que o ser se eleva na escala da existência e dos aperfeiçoamentos. O mesmo se dá com o conhecimento, a possessão das leis morais. O Universo se desvenda aos nossos olhos à proporção que a nossa capacidade de compreender as suas leis se desenvolve e engrandece. Lenta é a incubação das Almas sob a luz divina.

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(i) Actualmente não conhecemos, nem podemos conhecer, na sua essência, nem o Espírito nem a Matéria.



Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 4 de 5, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali)

sexta-feira, 25 de março de 2016

Saberes e o tempo ~

O tempo, o espaço, a matéria primordial ~ O estado molecular ~

Uma das maiores dificuldades com que nos defrontamos quando queremos estudar a Natureza é a de no-la representarmos tal qual ela é. Quando se vêem massas de mármore de granulação fina e cerrada, enormes barras de ferro suportando pesos gigantescos, torna-se difícil admitir que esses corpos são formados de partículas excessivamente pequenas, que não se tocam, chamadas átomos nos corpos simples e moléculas nos corpos compostos. A extrema tenuidade desses átomos escapa à imaginação. O pó mais impalpável é grosseiro, a par da divisibilidade a que pode chegar.

Disso dá Tyndall um exemplo frisante. Dissolvendo-se um grama de resina pura em 87 gramas de álcool absoluto, deitando-se a solução num frasco de água cristalina e agitando-se fortemente o frasco, ver-se-á o líquido tomar uma coloração azul, devido às moléculas da resina em dissolução. Pois bem, Huxley, examinando essa mistura com o seu mais poderoso microscópio, não conseguiu ver partículas distintas: é que elas tinham, de tamanho, menos de um quarto do milésimo de milímetro!

Também o mundo vivente é formado de moléculas orgânicas, em que os átomos entram como partes constituintes. Segundo Angelo Secchi, em certas diátomas circulares, de diâmetro igual ao comprimento de uma onda luminosa (dois milésimos de milímetro), se podem contar, sobre esse diâmetro, mais de cem células, cada uma das quais composta de moléculas de diferentes substâncias!

Outros vegetais e infusórios microscópicos são menores, em tamanho, do que uma onda luminosa e, no entanto, possuem todos os órgãos necessários à nutrição e às funções vitais. Em suma, é quase indefinida a divisibilidade da matéria, pois, se considerarmos que um miligrama de anilina pode colorir uma quantidade de álcool cem milhões de vezes maior, forçoso será desistir de fazer qualquer ideia das partes extremas da matéria.

E esses infinitamente pequenos se encontram separados uns dos outros por distâncias maiores do que os seus diâmetros; estão incessantemente animados de movimentos diversos e a mais compacta massa, o metal mais duro corresponde apenas a agregados de partículas semelhantes, porém afastadas umas das outras, em vibrações ou girações perpétuas e sem contacto material entre si. A compressibilidade, isto é, a faculdade que possuem todos os corpos de serem comprimidos, ou, por outra, de ocuparem um volume menor, põem essa verdade fora de toda a dúvida.

A difusão, isto é, o poder que têm duas substâncias de se penetrarem mutuamente, também mostra que a matéria não é contínua.

Examinando-se uma pedra jacente na estrada, julga-se que está em repouso, pois não é vista a deslocar-se. Quem, no entanto, lhe pudesse penetrar na intimidade da substância, logo se convenceria de que todas as suas moléculas se encontram em incessante movimento. No estado ordinário, esse formigamento é de todo imperceptível. Entretanto, poderemos aperceber-nos dele, se bem que de modo grosseiro, se notarmos que os corpos aumentam ou diminuem de volume, isto é, que dilatam ou se contraem – sem que as suas massas sofram qualquer alteração – conforme a temperatura neles se eleva ou decresce. Essas mudanças deixam ver que é variável o espaço que separa as moléculas e guarda relação com a quantidade de calor que os corpos contêm no momento em que são observados.

Desse conhecimento resulta que no interior dos corpos, brutos e na aparência imóveis, se executa um trabalho misterioso, uma infinidade de vibrações infinitamente pequenas, um equilíbrio que de contínuo se destrói e restabelece, e cujas leis, variáveis para cada substância, dão a cada uma a sua individualidade. Do mesmo modo que os homens se distinguem uns dos outros segundo a maneira com que suportam o jugo das paixões ou lutam contra elas, também as substâncias minerais se distinguem umas das outras pela maneira com que suportam os choques e contra eles reagem.

Ter-se-ão estudado esses movimentos internos? Ainda não se puderam observar directamente os deslocamentos moleculares, (I) senão na sua totalidade, pois que os mais poderosos microscópios não nos permitem ver uma molécula; mas, os fenómenos que se produzem nas reacções químicas e a aplicação que se lhes fez da teoria da transformação do calor em trabalho, e reciprocamente, possibilitaram comprovar-se que estas últimas divisões da matéria se encontram submetidas às mesmas leis que presidem às evoluções dos sóis no espaço. Também ao mundo atómico são aplicadas as regras fixas da mecânica celeste, o que mostra, inegavelmente, a admirável unidade que rege o universo. (II)

Graças aos progressos das ciências físicas, admite-se hoje que todos os corpos têm as suas moléculas animadas de duplo movimento: de translação ou oscilação em torno de uma posição mediana e de libração (balanço) ou de rotação em torno de um ou muitos eixos. Esses movimentos se efectuam sob a influência da lei de atracção. Nos corpos sólidos, as moléculas se encontram dispostas segundo um sistema de equilíbrio ou de orientação estável; nos líquidos, encontram-se em equilíbrio instável; nos gases, estão em movimento de rotação e em perpétuo conflito umas com as outras. (III)

Todos os corpos da Natureza, assim inorgânica, como vivente, se encontram submetidos a essas leis. Seja a asa de uma borboleta, a pétala de uma rosa, a face de uma donzela, o ar impalpável, o mar imenso ou o solo que pisamos, tudo vibra, gira, se balança ou se move. Mesmo um cadáver, embora a vida o haja abandonado, constitui um amontoado de matéria, cada uma de cujas moléculas possui energias que não lhe podem ser subtraídas. O Repouso é uma palavra que carece de sentido.

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(I) L’Âme est Immortelle (A Alma é Imortal). Paris: Ed. J. Meyer (B.P.S.), 1897.
(II) Berthelot, Ensaio de mecânica química, t. II, pág. 757.
(III) Moutier, Termodinâmica.


Gabriel Delanne, A Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência Capítulo II O tempo, o espaço, a matéria primordial, O estado molecular – Justificação desta teoria, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)

segunda-feira, 14 de março de 2016

Da sombra do dogma à luz da razão ~

Natureza da ~ Revelação ~ Espírita (IV)     ~

Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional; nascem umas das outras à medida que vão encontrando um ponto de apoio nas ideias e nos conhecimentos anteriores. A astronomia, uma das primeiras a ter sido cultivada, permaneceu nos erros da infância até ao momento em que a física veio revelar a lei da força dos agentes naturais; a química, nada podendo sem a física, iria suceder-lhe de perto, para depois caminharem as duas em conjunto, apoiando-se uma na outra. A anatomia, a fisiologia, a zoologia, a botânica, a mineralogia, só passaram a ser ciências sérias com a ajuda das luzes trazidas pela física e depois pela química. A geologia, nascida ontem, sem a astronomia, a física, a química e todas as outras, teria tido a falta dos seus verdadeiros elementos de vitalidade; só podia ter surgido depois.

A ciência moderna fez justiça aos quatro elementos primitivos dos Antigos e, de observação em observação, chegou à concepção de um só elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria, em si, é inerte; não possui vida, nem pensamento, nem sentimentos; precisa da união com o princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu nem inventou este princípio, mas foi o primeiro a demonstrá-lo por provas irrecusáveis; estudando-o, analisando-o, tornou-lhe a acção evidente. Ao elemento material veio acrescentar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual; eis os dois princípios, as duas forças vivas da natureza. Pela união indissolúvel destes dois elementos, explicam-se sem dificuldade uma quantidade de factos até então inexplicáveis. (i)

O espiritismo, tendo por finalidade o estudo de um dos dois elementos constituintes do Universo, toca na maior parte das ciências; só poderia aparecer depois da sua elaboração e nasceu, pela força das coisas, da impossibilidade de tudo se explicar somente com a ajuda das leis da matéria.

Acusa-se o espiritismo de parentesco com a magia e com a feitiçaria, mas esquecemos que a astronomia tem como antepassada a astrologia judiciária, que não está assim tão longe de nós; que a química é filha da alquimia, com que nenhum homem de juízo se atreveria a ocupar-se nos dias de hoje. No entanto, ninguém nega que esteve na astrologia e na alquimia o germe das verdades de onde saíram as ciências actuais. Apesar das suas fórmulas ridículas, a alquimia abriu o caminho para o estudo dos corpos simples e para a descoberta da lei das afinidades; a astrologia, apoiando-se na posição e no movimento dos astros que tinha estudado; mas na ignorância das verdadeiras leis que regem o mecanismo do Universo, os astros eram, para o comum, entes misteriosos a que a superstição atribuía uma influência moral e um sentido revelador. Quando GalileuNewton ou Kepler deram a conhecer estas leis, quando o telescópio rasgou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar que certas pessoas consideram indiscreto, os planetas apareceram-nos como simples mundos semelhantes ao nosso e a pirâmide do maravilhoso desmoronou-se.

Passa-se o mesmo com o Espiritismo em relação à magia e à feitiçaria; estas também se apoiavam na manifestação dos astros; mas, na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, misturavam nessa relação práticas e crenças ridículas a que o espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação, fez justiça. Com toda a certeza, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior do que a existe entre a astronomia e a astrologia, a química e a alquimia; querer confundi-las é provar que desconhecemos tudo.

Só o facto de existir a possibilidade de comunicarmos com os seres do mundo espiritual tem consequências incalculáveis da maior gravidade; é todo um mundo novo que se nos revela e que tem tanto mais importância quanto atinge todos sem excepção. Este conhecimento não pode deixar de causar, ao generalizar-se, uma modificação profunda nos costumes, no carácter, nos hábitos e nas crenças, que têm uma tão grande influência nas relações sociais. É uma total revolução que se opera nas ideias, tanto maior e tão mais poderosa quanto atinge o coração de todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.

É portanto com razão que o Espiritismo é considerado a terceira grande revelação. Vejamos em que diferem essas revelações e por que laço se ligam umas às outras.

MOISÉS, como profeta, revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, Senhor Supremo e Criador de todas as coisas; promulgou a lei do Sinai e estabeleceu os fundamentos da fé verdadeira; como homem, foi o legislador do povo através do qual esta fé primitiva que, depurada, se viria um dia a espalhar por toda a Terra.

CRISTO, retirando da lei antiga o que é eterno e divino e rejeitando o que era só transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescenta a revelação da vida futura, de que Moisés não tinha falado, a dos castigos e recompensas que esperam o homem depois da morte (ver Revista Espírita, 1861, pp. 90 e 280).

A parte mais importante da revelação de Cristo, no que ela é de fonte primeira, pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista totalmente novo sob o qual dá a aperceber a Divindade. Já não é o Deus terrível, ciumento, vingativo de Moisés, o Deus cruel e impiedoso que rega a Terra com sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio dos povos, sem exceptuar as mulheres, as crianças e os velhos, que castiga os que poupam as vítimas; já não é o Deus injusto que castiga um povo inteiro pelo erro do seu chefe, que se vinga do culpado na pessoa do inocente, que fere as crianças devido ao erro do pai; mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, pleno de brandura e de misericórdia, que perdoa ao pecador arrependido e dá a cada um consoante as suas obras; já não é o Deus de um só povo privilegiado, o Deus dos exércitos a presidir aos combates para sustentar a sua própria causa contra o deus dos outros povos, mas o Pai comum do género humano, que estende a Sua protecção a todos os Seus filhos e os chama todos a si; já não é o Deus que recompensa e castiga com os bens da Terra, que faz com que a glória e a felicidade consistam na submissão dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas que diz aos homens: «A vossa verdadeira pátria não é neste mundo, mas no reino celeste; é aí que os de coração humilde serão elevados e os orgulhosos serão rebaixados.» Já não é um Deus que faz da vingança uma virtude e manda que se troque olho por olho, dente por dente; mas o Deus de misericórdia que diz: «Perdoai as ofensas se quereis que vos sejam perdoadas; devolvei o bem contra o mal; não façais aos outros o que não quereis que vos façam.» Já não é o deus mesquinho e meticuloso que impõe, sob os mais rigorosos castigos, a forma como deseja Ser adorado, que Se ofende com a inobservância de uma fórmula; mas o Deus grande que considera o pensamento e não se honra com a forma. Já não é, enfim, o Deus que quer ser temido mas o Deus que quer ser amado.

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(i)  A palavra elemento não é aqui aplicada no sentido de corpo simples, elementar, de moléculas primitivas, mas no de parte constituinte de um todo. Neste sentido, podemos dizer que o elemento espiritual tem parte activa na economia do Universo, tal como dizemos que o elemento civil e o elemento militar figuram no montante de uma população; o elemento religioso entra na educação; que, na Argélia, existe o elemento árabe e o elemento europeu. (N. do A.)



ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 17 a 23 (IV), 6º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Comunicação de Galileu ~

aumento ou diminuição | do volume da Terra

O volume da Terra aumenta, diminui ou está estacionado?

A favor do aumento de volume da Terra, algumas pessoas se baseiam no facto das plantas darem ao solo mais do que dele retiram, o que é verdade num sentido e não noutro. As plantas alimentam-se tanto e até mais das substâncias gasosas que vão buscar à atmosfera e das que aspiram pelas raízes; ora, a atmosfera faz parte integrante do globo; os gases que a constituem provêm da decomposição dos corpos sólidos e estes, ao recomporem-se, retomam-lhes o que lhe tinham dado. É uma troca ou, melhor, uma troca perpétua, de tal modo que o crescimento dos vegetais e dos animais, operando-se com a ajuda dos elementos constituintes do globo, os seus detritos, por consideráveis que sejam, não acrescentam um átomo à massa. Se a parte sólida do globo aumentasse por esse motivo de forma permanente, seria à custa da atmosfera que diminuiria outro tanto, acabando por se tornar imprópria para a vida se não recuperasse, pela decomposição dos corpos sólidos, o que perde na sua composição.

Na origem da Terra, as primeira camadas geológicas formaram-se com matérias sólidas momentaneamente volatilizadas por efeito da elevada temperatura e que mais tarde, condensadas pelo arrefecimento, se precipitaram. Elevaram incontestavelmente um pouco à superfície do globo, mas sem nada acrescentar à massa total, dado não ser mais do que uma deslocação da matéria. Quando a atmosfera, purificada dos elementos estranhos que detinha em suspensão, se encontrou no seu estado normal, as coisas seguiram o curso regular que passaram depois a ter. Hoje, a mais pequena modificação na constituição da atmosfera traria forçosamente a destruição dos habitantes actuais; mas provavelmente também se formariam novas raças noutras condições.

Considerada sob este ponto de vista, a massa do globo, quer dizer, a soma das moléculas que compõem o conjunto das suas partes sólidas, líquidas e gasosas, é incontestavelmente a mesma desde a sua origem; se sofresse uma dilatação ou uma condensação, o seu volume aumentaria ou diminuiria, sem que a massa sofresse qualquer alteração. Se portanto a Terra aumentasse de massa, seria por efeito de uma causa estranha, dado que não poderia ir buscar a si mesma os elementos necessários ao seu aumento.

Há uma opinião segundo a qual o globo aumentaria de massa e de volume através do afluxo de matéria cósmica interplanetária. Esta ideia não tem nada de irracional, mas é demasiado hipotética para ser admitida como princípio. Não passa de uma teoria combatida por teorias contrárias sobre as quais a ciência não está de modo nenhum fixada. Aqui está, a este respeito, a opinião do Espírito eminente que ditou os sábios estudos uranográficos relatados acima, no Capítulo VI:


«Os mundos esgotam-se, envelhecendo, e tendem a dissolver-se para servirem de elementos de formação a outros universos. Entregam a pouco e pouco ao fluído cósmico universal do espaço o que lhe retiraram para se formarem. Além disso, todos os corpos se gastam pela fricção; o movimento rápido e constante do globo através do fluído cósmico tem como efeito diminuir constantemente a massa, apesar de em quantidade desprezível, num tempo determinado. (*)

»A existência dos mundos pode, na minha opinião, dividir-se em três períodos: primeiro período – condensação da matéria durante a qual o volume do globo diminui consideravelmente, permanecendo a massa igual; é o período da infância. Segundo período – contracção, solidificação da crosta; eclosão de germes, desenvolvimento da vida até ao aparecimento do tipo mais perfectível. Neste momento, o globo está em toda a sua plenitude, é a idade da virilidade; perde, mas muito pouco, os seus elementos constituintes. À medida que os seus habitantes progridem espiritualmente, passa ao período de decrescimento material; perde não só devido à fricção mas também pela desagregação das moléculas, como uma pedra dura que, roída pelo tempo, acaba por se transformar em poeira. No seu duplo movimento de rotação e de translação, deixa no espaço parcelas fluídicas da sua substância até ao momento em que a sua dissolução seja completa.

»Mas então, como a força de atracção está na razão da massa, não digo volume, diminuindo a massa do globo, as suas condições de equilíbrio no espaço modificam-se; dominado por globos mais poderosos que não pode enfrentar, sofre por isso desvios nos seus movimentos e, como consequência, também profundas alterações nas condições de vida à superfície. Assim: nascimento, vida e morte; ou infância, virilidade e decrepitude, são estas as três fases por que passa toda a aglomeração de matéria orgânica ou inorgânica; só o Espírito, que não é de modo nenhum matéria, é indestrutível

                                                                                                 
                                                                GALILEU, Sociedade Espírita de Paris /1868

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(*) No seu movimento de translação à volta do Sol, a velocidade da Terra é de 400 léguas por minuto. Sendo a sua circunferência de 9000 léguas, no seu movimento de rotação sobre o eixo, cada ponto do equador percorre 9000 léguas em 24 horas ou 6,3 léguas por minuto. (N. do A.)





ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo – Capítulo IX, REVOLUÇÕES DO GLOBO – Aumento ou diminuição do volume da Terra, tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Zaratustra e Ptolomeu, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio /1509)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

As vidas sucessivas | os elementos ~

Experiências magnéticas
(Regressão da memória e previsão)
Caso nº 1  Laurent (I)

Quando iniciei este trabalho, ignorava o facto de que outros magnetizadores haviam feito constatações análogas, as quais exponho no capítulo 4 da terceira parte. Procurei sempre, nas minhas sessões experimentais, ter presente, para tomar notas à medida que esses fenómenos se produziam, uma terceira pessoa que não corria o risco de ser influenciada, como eu teria podido ser, pela expectativa do que eu supunha dever produzir-se.

Os resumos reproduziam variações e erros já esperados, os quais têm a sua importância porque mostram bem a influência, no momento da experiência, do estado de espírito do sujet sobre os fenómenos ainda inexplicados de regressão da memória e de previsões. (*)

(*) O autor chama de previsões o que, actualmente, se tem preferido denominar de progressão da memória, em contraposição à regressão de memória. Entre as obras que tratam mais profundamente do assunto, indicamos "A memória e o tempo", Publicações Lachâtre, de Hermínio C. Miranda. (N.E.)

Os numerosos e precisos detalhes relativos aos graus de sono e aos fenómenos físicos que os caracterizam não me parecem inúteis, porque vêm em apoio de classificações que os médicos hipnotizadores não admitem, sem dúvida porque não tiveram oportunidade de os observar.

Caso nº 1 – Laurent, 1893

As minhas primeiras experiências relativas à regressão da memória datam de 1893. Foi totalmente ao acaso que fui levado a constatar esse fenómeno num jovem de vinte anos que fazia a sua licenciatura em letras, sujet dos mais preciosos, porque não somente era sensível ao agente magnético, como também e sobretudo porque, dotado de uma viva curiosidade científica e de um grande espírito de análise, empenhava-se bastante em aperceber-se por si próprio dos fenómenos físicos e psíquicos produzidos por este agente.

Empreendi, então, com ele experiências seguidas, mas graduadas, com precaução, de maneira a não fatigar o seu sistema nervoso nem prejudicar os seus outros estudos, tendo o cuidado, em cada sessão, primeiramente de chamar a sua atenção para o que ele sentia antes e durante o sono magnético e depois dar-lhe a sugestão de, ao despertar, recordar-se das suas impressões.

Aconselhei, além do mais, o meu jovem amigo Laurent a redigir ele próprio, depois de cada sessão, as impressões que poderiam ser mais tarde, tanto para ele quanto para mim, uma fonte de informações muito ricas, visto ser a primeira vez que foram estudados desta maneira os fenómenos da hipnose.

Eis o diário (I) no qual eu não quis mudar uma palavra sequer, limitando-me a dar em notas, algumas explicações ou modificações. Este começou alguns dias depois da primeira tentativa que fiz com Laurent, no salão de sua mãe, e terminou quando, pelo aprofundamento progressivo da hipnose, me deparei com espécies de fenómenos particulares relativos à formação dos fantasmas dos vivos.

As impressões de um magnetizado relatadas por ele próprio

21 de Julho de 1893.

O Sr. de R. renovou em mim, esta manhã, porém mais minuciosamente, as experiências que havia feito outro dia no salão.

– Que aroma você deseja sentir? O aroma da violeta? Tente lembrar-se dele.

Fiz esforço, mas sem resultado preciso. Então o Sr. de R. apresentou bruscamente dois dedos de uma mesma mão, separados, sob cada uma de minhas narinas, e o aroma da violeta fez-se sentir a tal ponto que eu acreditaria, se não tivesse os olhos abertos, que um buquê me era passado sob o nariz.

– Como você se chama?

– Laurent.

O Sr. de R., pressionando fortemente com o seu polegar o meio de minha fronte, onde se inicia o nariz, faz-me de novo a mesma pergunta. Hesito, penso. Tenho a representação visual do meu nome escrito, mas é-me absolutamente impossível pronunciá-lo; balbucio.

– Vou adormecê-lo – diz-me o Sr. de R.

Um vago temor me invade. A ideia de um sono onde a minha vontade será aniquilada me faz quase recusar a prestar-me a esta experiência se o medo de ser considerado medroso não se opusesse. Sentimento bastante complexo: o pavor do desconhecido, um respeito humano no fundo bastante banal e – o que de repente predomina – uma confiança encorajadora no experimentador. No entanto, é com emoção bastante viva que me entrego às mãos do Sr. de R. e, também com a esperança de que eu não seja susceptível de ser adormecido.

O Sr. de R. senta-se diante de mim, segura os meus polegares e fixa os seus olhos nos meus. O seu olhar incomoda-me; primeiro, eu me enrijeço; depois, experimentando uma sensação dolorosa, como uma crispação dos músculos da pálpebra, tento desviar os olhos; mas não consigo! Então deixo-me levar; sinto que o Sr. de R. fecha os meus olhos com os dedos; e não percebo mais nada.

De repente, ouço o Sr. de R. me ordenar que abra os olhos. Faço-o facilmente e parece-me que me encontro em estado normal. Fico bastante admirado quando o Sr. de R. me diz: “Você está adormecido.”

E, efectivamente, não consigo, se ele me proíbe, levantar nem um braço, nem uma perna, nem fazer qualquer movimento. No entanto, à minha volta distingo todas as coisas como neste momento. Lembro-me até mesmo de ter ouvido baterem à porta e o Sr. de R. responder: “Daqui a pouco!”

Nada me escapa e tudo é preciso.

– Vou despertá-lo para que não se fatigue demais esta primeira vez – diz-me o Sr. de R.

– Você se apercebeu de tudo o que experimentou? Você se lembrará quando estiver acordado... Ah! dê-me o seu lenço. (Eu lhe dou.) Bem! Observe que você me deu o seu lenço. Você não se lembrará mais deste acto quando estiver acordado, mas se lembrará de todos os outros.

O Sr. de R. sopra sobre os meus olhos. Sinto que me enrijeço. Perco a consciência do que se passa. Em seguida reabro os olhos, um pouco aturdido, como ao despertar de manhã. Já posso levantar-me e andar à vontade.

– Você lembra-se do que fizemos e dissemos enquanto estava adormecido? –  pergunta-me o Sr. de R.

Alguns segundos de esforço, seguidos de uma resposta afirmativa.

– Eu lhe disse para me dar seu lenço?

– Sim.

– Você mo deu?

– Não.

– Então, dê-mo.

Revisto os meus bolsos; não o encontro. Como vou objectar que provavelmente não o encontro porque não o coloquei no bolso, o Sr. de R. me diz:

– Você me deu o seu lenço; mas eu lhe tinha ordenado que esquecesse o facto. Ei-lo, e vá passear ao ar puro.

Sinto realmente necessidade de respirar; os meus nervos têm sobressaltos violentos. Revejo, caminhando, como que alucinado, todos os detalhes dos móveis do gabinete do Sr. de R. Eu já havia lá entrado outrora, mas é certo que jamais tinha guardado lembranças tão nítidas do gabinete. Será que a ordem, recebida durante a hipnose, de lembrar-se do que se faz, do que se diz, do que se vê, tem influência sobre a intensidade da lembrança? Por outras palavras, a imagem dos objectos que impressionaram a minha retina durante o sono magnético não reaparece mais vivamente sob a influência de uma sugestão do que depois da contemplação desses objectos durante a vigília? Na verdade, a ordem dada pelo Sr. de R. não indicava que eu devia rever tudo alucinadamente, mas que, simplesmente, eu devia lembrar-me de uma maneira geral do que havia visto. Ora, sob esse aspecto, nenhuma dúvida: o escritório, a portinhola, os quadros se objectivavam e me apareciam como reais.

Mas por que a alucinação não se estendia a todas as outras lembranças? Eu revia o cómodo; por que não ouvia a voz do Sr. de R.? Por que as sensações auditivas que tive, adormecido, não se objectivavam como as sensações visuais?

A sugestão apurou o poder da lembrança, exagerou as minhas faculdades habituais, mas provavelmente sem nada alterar a sua relação entre si.

Sou bom vidente, medíocre audiente. A sugestão desenvolveu igualmente as minhas faculdades auditivas e visuais, se assim posso exprimir-me, de forma que, sob a sua influência, permaneci bom vidente, medíocre audiente. O mesmo desenvolvimento era suficiente para levar-me à alucinação da faculdade visual, já grande, o que não acontecia com a faculdade auditiva, mais fraca. Entre as duas a relação continua constante. É uma hipótese que será preciso verificar nas experiências seguintes.

Depois de duas horas a lembrança enfraqueceu.

23 de Julho de 1893

Estou acordado.

O Sr. de R. aplica-me passes ao longo do meu braço e da minha mão esquerda; sinto pouco a pouco o meu braço enrijecer-se. Vejo o Sr. de R. me beliscar a pele da mão tão fortemente que a marca das suas unhas aí fica; no entanto, não sinto nenhuma dor. Então o Sr. de R. afasta a sua mão da minha, progressivamente, pressionando várias vezes a unha do seu polegar contra a do seu indicador como que para beliscar. A uma certa distância, sinto de repente do outro lado da mão um beliscão bastante forte. A mão do Sr. de R. continua a afastar-se. É-lhe necessário percorrer uma nova distância, maior do que a primeira, para que eu sinta um segundo beliscão, aliás consideravelmente mais fraco do que o primeiro. O Sr. de R. afasta-se ainda mais. A uma distância maior do que a primeira, maior do que esta o foi de minha mão, o beliscão no vazio repercute novamente sobre a minha mão, mas com a sensação atenuada. Em seguida, muito mais longe, eu não sinto mais do que um vago toque; e, a partir daí, absolutamente nada.

Várias vezes repetida, esta experiência permite-me concluir que camadas sensíveis se formam à volta das partes magnetizadas do meu corpo e que a distância da primeira camada para a pele é de cerca da metade da distância que separa as outras camadas.

Que experimento a sensação acima mencionada quando a mão do Sr. de R. age sobre as camadas abc, etc., isto é inegável; mas que papel assume aqui a sugestão? Um papel muito grande, creio.

Com efeito, se fecho os olhos, enquanto o Sr. de R. percorre, beliscando o vazio, a distância entre a minha pele e a camada sensível c, que é a mais distante, confesso francamente que antes imagino a sensação do que realmente a experimento; ela é suposta, e não experimentada. Apenas, desde que reabro os olhos, ela se torna perfeitamente consciente, mais fraca em c do que em b, e em b do que em a, como já mencionei anteriormente.

Um espectador poderia supor que engano. “O sujet – diria ele – deve sentir da mesma forma, quer veja ou não a mão do magnetizador beliscar o vazio, quando esta passa em ab e c. Ora, isto não acontece. É preciso que ele se aperceba do ponto do espaço onde se encontra a mão do magnetizador para reagir a uma dada excitação a um pretendido fluido que eu gostaria de ver para crer. Na realidade ele não sente nada, de olhos fechados ou abertos; ele simula a sensação.”

O espectador, a meu ver, tem razão quando afirma que eu deveria sentir da mesma forma, de olhos fechados como abertos; é à sugestão seguramente que é preciso perguntar a causa dessa irregularidade.

Mas no que se refere a sentir realmente, o espectador comete um erro quando o nega. Sou plenamente sincero, e mesmo que seja necessário procurar a causa desses fenómenos na pura sugestão, ou ainda efectivamente no fluido exteriorizado, ou provavelmente nos dois ao mesmo tempo, a sensação é realmente experimentada; eu reajo sem simulação. (II)

O Sr. de R. me adormece. Abandono-me ao sono com confiança, sem o medo do primeiro dia. As mesmas experiências renovadas dão o mesmo resultado. As minhas observações de hoje confirmam o que eu supunha, outro dia, relativamente à relação constante entre as minhas faculdades auditivas e as visuais sob a influência da sugestão, como também no estado normal.

Tem lugar uma nova experiência.

Pense em alguém – diz o Sr. de R. – Você vai ver a pessoa em quem pensa sentada numa poltrona à sua direita.

Penso na minha irmã, sem nada dizer. Volto-me e emito um “oh!” de surpresa, vendo, com efeito, a minha irmã no local indicado. Continuo com os olhos fixos algum tempo sobre ela, que não se mexe. Mas desvio-os, em seguida, por um segundo, e torno a dirigi-los, agora em vão, para a poltrona onde ela me apareceu; a visão desvaneceu-se e seria preciso uma nova ordem do Sr. de R. para que ela me reaparecesse.

Durante a passagem do sono para o estado de vigília, não experimento nenhuma sensação particular; ou então ela é tão vaga que não posso defini-la.

25 de Julho de 1893

O Sr. de R. adormece-me e diz-me:

– Há um buquê de rosas num vaso com água sobre a mesa atrás de você. Vá tocá-lo.

Sem hesitação caminho na direcção da mesa. Há aí, efectivamente, um buquê que retiro do vaso com água. Tento sentir o aroma das rosas, mas elas não exalam nenhum perfume.

– Friccione a sua fronte vigorosamente – diz-me o Sr. de R.

Faço-o e, imediatamente em seguida, o buquê desaparece.

Desta forma a alucinação limitou-se à exacta sugestão dadaveja e toque, mas não me foi dito para sentir o aroma.

Continuo adormecido.

O Sr. de R. começa por renovar as experiências de anteontem sobre a exteriorização do fluido sensível. Toco um objecto; não o sinto. A sensação do contacto existe somente se o objecto é colocado à distância e de acordo com as leis de distanciamento observadas anteontem sobre a minha mão, enquanto que apenas o meu braço estava magnetizado. Mas não é somente a sensação do contacto que posso agora experimentar, de acordo com as mesmas leis.

O Sr. de R. pega um frasco tapado e passa-o sob o meu nariz, bem contra as narinas. Não sinto absolutamente nada. Ele então distancia o frasco. Tão logo este se encontra a uma certa distância, na primeira camada sensível, a, reconheço o aroma da erva-ursa. Quando o frasco se distancia entre a primeira camada sensível a e uma segunda camada sensível b, não sinto mais nada. Volto a sentir em b; depois mais nada entre b e c; depois de novo, porém mais fracamente, em c; mais distante não posso distinguir mais nada; as distâncias entre a e b e entre b e c são mais ou menos iguais entre si e o dobro da distância entre a minha pele e a primeira camada sensível a.

Vejo o Sr. de R. pegar uma bonequinha de cera vermelha; ele a mantém imóvel por um momento na camada a; sinto muito bem o objecto. Retira-a em seguida para além da camada c e a espeta com um alfinete. Não sinto nada.

– Ah! Ah! Não se pode enfeitiçá-lo (III) – diz o Sr. de R. –, provavelmente porque o seu fluido não se dissolve na cera; mas talvez consigamos com água.

Demoradamente o Sr. de R. mantém um copo de água na camada a. Tenho ainda a sensação do contacto de um objecto; porém, se eu não olhasse, ser-me-ia impossível especificar a natureza e a forma desse objecto. Em seguida o Sr. de R. afasta o copo, mergulha o dedo na água e a agita. Ainda nada.

Vejamos com o ferro.

Na camada a o Sr. de R. mantém um molho de chaves sobre sua mão aberta. Nova sensação de contacto, e desta vez um inexplicável sentimento de incómodo: absorção de fluido por um corpinho estranho? Feitiço? O certo é que me lamento de contactos dolorosos quando o Sr. de R., afastando-se, esfrega as chaves dentro de sua mão fechada; precipito-me com uma raiva ciumenta e obstino-me em tê-las vários minutos em minha posse como se eu tivesse medo de ver arrancado um membro, retirada uma parcela de minha vida.

Para fazer cessar esse estado de exaltação, o Sr. de R. me desperta.

– Você poderá tornar-se, depois de muitas sessões, um sujet precioso – diz-me ele rindo –, mas devolva-me minhas chaves. Tenho que levá-las comigo!

/…
(I) Esse diário foi publicado em Junho de 1895 nos "Analles des Sciences Psychiques". (A.R.)
(II) Para mim a verdadeira explicação é que, da mesma forma que sobre a pele normal, o grau de sensibilidade varia com o grau de atenção. Olhando o local onde se é beliscado, o "sujet" acumula sobre esse ponto uma quantidade maior de fluido, que, assim, aumenta consideravelmente a sensação. Todo a gente sabe que, quando um médico quer dar uma injecção num doente e diminuir-lhe a dor, ele aconselha-o a não olhar para o local da aplicação. (A.R.)
(III) O verbo enfeitiçar neste texto (no original em francês, "envoûter" assume o sentido de fazer um feitiço, um boneco de cera à semelhança da pessoa a quem se queira mal, infligindo a este boneco certos martírios que, segundo se acredita, vem a padecer a pessoa que ele representa. (N.T.)


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte – Experiências magnéticas, Capítulo II Regressão da memória e previsão, Caso nº 1 – Laurent, 1893 1 de 4, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

~~~Párias em Redenção~~~

ALUCINAÇÃO E CRIME (IV)

Horas avançadas, Girólamo caminhava pela alcova, agitado, em trajes de dormir.

O punhal afiado brilhava aos reflexos do luar que por vezes penetrava no quarto, colocado sobre delicada arca de cânfora trabalhada.

Pensava, em tumulto íntimo, na agressão que deveria perpetrar e que culminaria no homicídio múltiplo.

Repentinamente, percebeu-se recordando o pai adoptivo, recém-falecido e surda revolta lhe assomou à mente. Como se se sentisse realizado em poder vingar-se da antipatia natural que ambos nutriam reciprocamente, monologava: “Esta é a hora do meu desforço. Estás morto, miserável! Tudo me pertencerá, logo mais. E agora, Senhor di Bicci di M.?”

O pensamento em desalinho martelava, repetia, disparava dardos de ódio que buscavam o alvo…

Conquanto a enfermidade o vitimasse com rapidez, o duque sabia que se acercava da porta da Imortalidade. No íntimo, acalentava, quase desejoso, poder dar o grande passo, que o colocaria ao lado da esposa idolatrada. Homem lutador, não cultivara, todavia, os sentimentos da fé, deixando o problema da religião ao sacerdote que mantinha no palácio para cuidar das responsabilidades da alma, como se outrem pudesse responder pelos deveres espirituais que a cada um nós cabe, no cômputo da existência planetária. Ignorando totalmente as realidades espirituais, sentia a desvitalização orgânica e a paralisia cerebral, compreendendo ser a aproximação da morte, vencido de angústia pelo destino dos filhos e de Lúcia, que ficariam a sós, num mundo de ódios e vinganças qual aquele, apesar dos cuidados que tivera na distribuição dos bens.

Mesmo após estarem paradas as carnes pela morte e ser o seu espírito sacudido por diversos delíquios, experimentava sensações estranhas. A morte não lhe dominou o raciocínio. Seria aquilo morrer?! – pensou. Somente, então, recordou-se de que nunca dera atenção a tão importante questão da vida. Acompanhou, sem compreender, o velório, as exéquias, os prantos e a cerimónia final, com os sentidos atordoados, desconexos, observando o que se passava, sem inteirar-se totalmente da realidade. Sim – pensava –, deveria ter morrido, pois que não conseguia comunicar-se com as pessoas presentes, e todos aqueles apetrechos lutuosos traduziam o desaparecimento do senhor da herdade, como era tradição. Ele, porém, continuava a viver, experimentando as dominadoras sensações de sempre. Que era, porém, a morte? Não podia examinar o palpitante assunto naquele instante. A dor visitava-o, a fraqueza que o imobilizara no corpo continuava a sua acção nos departamentos diversos do seu ser, tonturas constantes e frio cortante venciam-no lentamente. Desejou andar, traduzir as aflições do momento, agasalhar-se, e não pôde. Estava ligado aos despojos orgânicos que, sem saber precisar como, conduziram-no ao esquife e ao mausoléu...

Encontrava-se em agonias longas, com dificuldade respiratória, quando pareceu escutar soturna voz que o chamava com veemência, exercendo, sobre a sua mente, desconhecido poder. Padecimentos mais fortes assaltaram-no, qual se uma chibata habilmente manipulada o açoitasse. Incapaz de compreender quanto se passava, foi subitamente arrastado da capela mortuária, em que jazia o corpo, por estranho sortilégio, aos aposentos de Girólamo e pôde, então, identificar o sobrinho, cujos dentes rilhados pronunciavam-lhe o nome, blasfemando, irado, venal…

A pobre entidade, ainda esmagada pelas sensações e emoções do túmulo, em recomeço difícil, recordou a surda antipatia que sempre lhe inspirara o moço e, sentindo-se alvo do ódio do ingrato, começou a revidar, desavisado, esquecido da situação nova, quando observou que o jovem se acercou da arca, sacou do punhal reluzente e avançou pelo longo corredor em trevas, na direcção da ampla alcova das crianças e de Lúcia.

Sentindo-se aniquilar pelo horror que dele se apossava, o Espírito perturbado em si mesmo seguiu-o e, em superlativa amência, acompanhou o trágico desfecho da insanidade.

Girólamo, tomando um travesseiro de plumas leves, acercou-se do leito de Grazziella e asfixiou-a impiedoso, enquanto a menina, adormecida e impossibilitada de respirar, debatia-se sem forças até à parada total dos movimentos, qual ave fraca e inocente nas garras odientas do abatedor. Concluía a primeira etapa, o homicida repetiu a experiência com as demais crianças, após o que se acercou de Lúcia, dominado por infeliz e desconcertante vindita, apunhalando-a repetidas vezes, enquanto gritava, totalmente louco…

A jovem nem sequer despertou do torpor que a venceu. Emitiu surdos ruídos e desfaleceu, moribunda, e logo morta, atirada ao solo pelo implacável tirano.

 Aos gritos do moço, os servos acorreram, trazendo archotes, e depararam com a cena funesta, indescritível. O moço, banhado pelo sangue da vítima, apontava-a morta, enquanto bradava:

– Fui obrigado a matá-la. Surpreendi a infame asfixiando as crianças, meus primos, com o travesseiro, naturalmente para ficar herdeira única. Não resisti, e apunhalei-a quanto pude!

“Nada há mais que fazer. Está morta; estão todos mortos! A assassina, serpe venenosa que se nutriu do leite que a vitalizou, terminou por picar o seio no qual se alimentava. Vingança, vingança!”

Ante os brados dos servidores, desesperados, estupidificados, o palácio se transformou imediatamente num pandemónio terrível.

Girólamo despachou servos na direcção de Siena, para que as autoridades fossem notificadas da tragédia inominável e viessem tomar conta dos acontecimentos chocastes.

A manhã surgiu na densa neblina, enquanto o palácio do Senhor di Bicci di M. enlutava-se outra vez, no curso da mesma semana, agora sob o estigma de inconcebível catástrofe.

O Espírito do duque, face ao infortúnio, desfaleceu ali mesmo, no recinto da desgraça, vencido por inexplicável dor.

Simultaneamente, a sombra augusta da duquesa, em prece, acompanhava, comovida, o desenrolar do drama, buscando receber nos braços os espíritos colhidos ao império da Lei de Causa e Efeito. Acolitada por Emissários do amor, oferecia assistência a Lúcia e aos filhos, que chegavam à vida nova em circunstâncias trágicas, porém libertados dos cruéis liames com a retaguarda. Infelizmente, e porque se vinculasse pelo revide mórbido a Girólamo, não pôde ser amparado com a mesma segurança o duque, dolorosamente esmagado pelas agonias que o desequilibravam.

/…


VICTOR HUGO, Espírito "PÁRIAS EM REDENÇÃO" – LIVRO PRIMEIRO, 2. ALUCINAÇÃO E CRIME (4 de 4), 7º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’Âme de la Florêt_1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)