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domingo, 14 de julho de 2019

do país da luz ~

a Silva Pinto 
(II)
Quando li ao Ex.mo Senhor Silva Pinto a segunda carta a ele dirigida, este grande espírito, disse, profundamente comovido, que se era bem Camilo que se lhe dirigia, como parecia ser, visto não poder admitir que houvesse quem escrevesse aquela carta senão Camilo, lhe dissesse o que havia de fazer; que o acompanhasse; porque ele era ainda obra sua; o seu modo de pensar, a sua descrença, eram ainda produto das suas lições; porque nunca lhe ouvira coisa que se parecesse com o que lhe dizia agora.

Outras coisas disse mais sob penosa e estranha impressão, a que Camilo respondeu simplesmente:

– Responderei.

Dias depois escreveu a comunicação inserta na página 81. (Comunicação transcrita imediatamente a seguir)

Camilo Castelo Branco
(18 de Novembro de 1906)

Meu querido médium:

Ainda não pude falar depois da tua comunicação ao Silva Pinto. Eu estava presente quando a fizeste. Em frente dos dois examinava, comovido, as impressões que se iam produzindo na alma iluminada daquele amargurado sonhador.

Com a sua face parada; o seu olhar vagueando pelo infinito, dando a impressão de duas lentes quais procurassem perscrutar o mistério, parecia a estátua da Atonia.

Entretanto, no fundo impenetrável da sua grande Alma tumultuava um mundo novo de paixões, de crenças e de desenganos.

Acima de tudo, a querer subjugar a lucidez daquele generoso espírito o orgulho maldito e torturante arremessava-lhe ao cérebro irritantes prejuízos infantis, apertando-o na férrea coroa inquisitorial da vaidade e do preconceito.

O seu talento enorme batia-se a largas rajadas de bom senso. Via bem que o que lhe lias, era meu e bem meu. Que era eu que lhe falava daqui, a gritar-lhe, na aflitiva ânsia de um irmão quase perdido a que se não perdesse também.

Ele via-o, ele sentia-o. O seu coração dizia-lhe alto, apressado, apelante, que era bem a alma de Camilo quem lhe falava assim; que ele, Silva Pinto, ermo de afectos, órfão da amizade, desenganado do mundo, não podia ter outro que assim o advertisse e acompanhasse senão eu.

A sua razão e a sua lógica procuravam convencê-lo, demonstrando-lhe, com a tenacidade matemática de um pêndulo e com a força perfurante de um parafuso mecanicamente comprimido, que tu mal o conheces para que pusesses toda a tua alma nas palavras magoadas como gritos de dor de mãe, que constituíam a carta que ele ouvia ler, assombrado, perplexo; mas o orgulho gritava-lhe: – Olha que tens que aniquilar a tua obra de riso e de ódio; olha que tens de destruir o teu bloco de egoísmo e de aborrecimento; olha que tendo que perdoar, humilhas-te; tendo de esquecer, aniquilas-te; olha que se crês, subordinas-te e, um homem nem a um Deus deve ser subordinado… Eu também ouvi durante muitos anos esses gritos horrorosos como berros de precito; eu também os ouvi por meu mal; e por mal maior até deliciosos cantos de sereia pareciam à minha consciência pela vaidade obcecada.

Eu também os ouvi; e por bem os conhecer os quis pôr de atalaia contra eles.

Louvores a Deus, muito consegui!

Naquela alma confrangida pela dor sem refrigério, as minhas palavras puseram a dúvida. É a primeira alavanca para derruir o edifício. A primeira e a mais poderosa.

A sua razão sente-se abalada. Ele vê oscilar todo o edifício de dor e ódio levantado pelo sofrimento com sanguinolentos materiais que a desilusão e a ingratidão carregaram dedicadamente.

Vê que tudo oscila e treme e, a fraqueza da sua força apavora-o com a lembrança egoísta de que tem de refundir toda a sua vida, num esforço titânico e supremo. Esquece de que um outro grande espírito ao chegar-se ao umbral misterioso e terrível do desconhecido, renegou num grito toda a sua vida de erro, dizendo ao mundo e ao futuro que «sabia morrer quem viver não tinha sabido».

Não viste nunca, amigo, como um cabouqueiro arranca um bloco que destruiria um regimento na passagem e arrasaria uma povoação?

Vai o pobre miserável cabouqueiro armado da sua marreta e de uma cunha férrea.

Olha a rocha que parece desafiar os elementos e os séculos. Mísero verme de quem a sombra mal se projecta no sopé! Rodeia-a, bate-a, sonda-a, examina-a. Descobre-lhe a fenda. É o calcanhar daquele colossal Aquiles de granito. Mete a cunha. Insignificante ponto na monstruosa pedra! Bate-a, aprofunda-a, arranca-a. Mete-a noutro sítio. A ajudá-lo tem dois grandes obreiros, os maiores de todos os tempos: – a paciência e a persistência. Insiste. Fere novos golpes pequeníssimos. A sequência desses golpes abre fendas maiores.

Insiste mais. A rocha parece que se ri dos esforços máximos daquele minúsculo lutador. Prossegue, golpeia, bate, luta, insiste, durante horas sucessivas até que consegue aluir um pouco o colosso.

Insiste mais, insiste ainda, insiste sempre, sem afrouxar, sem desfalecer com a inteira certeza de que vencerá. As brechas aumentam; os golpes do camartelo são mais certeiros; o ruído menos firme e, a rocha parece tremer. Mais um esforço, mais outro; a rocha alui-se nos fundamentos seculares; e um impulso mais desliga-a da terra mãe. Ei-la a vencida, subjugada, partida! O mísero cabouqueiro fez o que não fez o tempo, supremo destruidor; lento corrosivo; o raio, a mais fulminante força.

Sejamos nós o cabouqueiro.

Metamos a pequena cunha da dúvida na rocha do orgulho de Silva Pinto.

Persistamos pacientemente, tenazmente. Desfaçamos naquela alma amargada o que o mundo tem feito. O mundo e ele. Façamos luz naquela alma entenebrecida pelo sofrimento que ela mesma acalenta e em que voluptuosamente se compraz.

Façamos-lhe sentir que não há maior fraqueza do que a fraqueza de opinião. Que não há mais condenável obsessão do que a do vidente que fecha os olhos para não ver a claridade. Digamos-lhe que há alguma coisa superior à coragem de sustentar o erro a todo o transe: – é a de confessá-lo e destruí-lo.

Tem alguma coisa de maior, de mais belo e de mais altruísta e exemplar que conservar uno, compacto, inquebrado e inquebrável o bloco da sua obra: é o quebrá-lo, deixando dele só o quartzo aurífero e arremessando fora a lama, o lodo, a vasa, o excremento, o fel, secos, solidificados, que por desgraça nesse bloco possam existir.

Ficou pequeno? Não, ficou grande, ficou maior, descomunalmente maior, porque ficou purificado, porque ficou brilhante como o sol, como que um pedaço do luminoso astro, a ele arrancado pelo talento e pela bondade.

A persistência no erro conhecido é dos fátuos e imbecis e, será o mais fátuo e o mais pícaro imbecil de todos os que a idiotia humana possa ter produzido o que por longínquas suspeitas se lembre da possibilidade de que o Silva Pinto seja um imbecil!

Na minha e na vida dele há um fundo, um sangrento, um luminoso exemplo da grandeza que existe na confissão do erro e na abjuração da mentira e no desprezo da vaidade…

E desse exemplo quanta alegria, quanta felicidade, quanta amizade e reconhecimento íntimo e mútuo brotou… Quanta seiva pujante e generosa brota dele ainda para me incitar à luta que venho mantendo para que a sua vista exausta e cansada veja agora o que não soube ver quando era nova e de lince; para que se deixe iluminar pelo raio divino, pela claridade celestial da fé, da resignação e da piedade; para que o seu coração, tão grande como o seu cérebro, faça quebrar o férreo arganel do preconceito e expelir o fel do azedume paciente e longamente segregado pelas atribulações da sua vida sempre incerta, sempre martirizada, deixando que aquele hercúlio músculo onde a convenção humana localizou a bondade, se mostre grande, radiante, feliz e doce, como Deus lho entregou; para que o seu cérebro tão grande e tão belo como o seu coração deixe irradiar, liberto e brilhante, as ondulações luminosíssimas do prodigioso talento que Deus lhe deu e, vá acariciar consoladamente, como a benéfica luz do sol, as chagas pustulentas e carbunculosas que a sua análise e a sua dor têm posto a nu no esquelético e sifilítico corpo da sociedade.

Assim, livre do orgulho, da vaidade, da prevenção, que constituem a fraqueza doble do seu alquebradíssimo cavername de lutador do pensamento, poderá morrer tranquilo, confiado, sem sofrimento e sem remorso e, entrar na grande vida onde há a suprema paz e a suprema angústia, o supremo amor e o martírio supremo, sereno e consciente, de ter cumprido o seu dever.

E quando não existisse essa vida?

Eu, menos do que ninguém, quero fazer a Silva Pinto o gravame injusto de supor que a sua consciência esteja tão cega e tão desequilibrada, que lhe não tenha feito ver nos seus longos momentos de cogitação, que mesmo que a morte o conduzisse ao aniquilamento, era bem mais digno da sua envergadura de lutador e mais belo, mais grande e generoso descer à terra-mater, ao refúgio último, com a serenidade no olhar, a paz no íntimo, o sorriso nos lábios, fazendo pairar por todo o seu ser em evolução derradeira a doce unção que se exala da bondade e da generosidade e nimba os humildes e os santos, do que desaparecer com o ódio a fulminar dos olhos e a torturar o coração; o ríctus contorcendo-se na raiva como a serpente no fogo, a fisionomia a convulsionar-se no esgare macabro da dúvida e do pavor, que não deixaria de permitir convulsionar o próprio Ateísmo, a própria Negação, se esses dois dilectos filhos do orgulho e do egoísmo da humanidade se pudessem personificar na hora última da vida carnal.

Amigo Silva Pinto: alija de ti essa horrorosa túnica de Nessus! Sou eu, o grande Camilo, como me chamavas, que entrou na imortalidade envolvido nessa tortura, que te grita como se gritasse ao ver um filho querido, com os olhos vendados, à orla extrema de um abismo insondável: – Recua! Recua! Salva-te! Salva-te! Que a teus pés está o abismo pavoroso, onde o teu corpo ao cair pode fragmentar-se em esquírolas insignificantes e em que cada esquírola pode condensar-se numa dor de todas aquelas que na tua vida inteira te trucidaram e trituraram pavorosamente!

Recua, amigo, recua, que Deus te estenderá a mão!

Recuar será avançar para a luz; avançar será cair nas trevas.

E que trevas, meu Deus! Que trevas!!!...

A ti, Fernando, instrumento boníssimo das minhas súplicas e do meu desejo, o meu perdurável reconhecimento.

Camilo Castelo Branco

 /…


Fernando de Lacerda, Do País da Luz, Comunicações mediúnicas recebidas por este médium (i) – Camilo Castelo Branco (18 de Novembro de 1906) a Silva Pinto, Volume I, 3º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel, detalhe, de Edgard Maxence)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

do país da luz ~

a Silva Pinto

Uma noite, ao deitar-me, pareceu-me ouvir junto a mim, falar ao Ex.mo Sr. Silva Pinto, e dizer qualquer coisa, em uma frase sintética, para lhe transmitir.

Apurei a atenção; mas não podendo fixar bem a frase, pedi para a repetirem. Acederam; mas não a fixando ainda bem, pedi que a dissessem novamente. Ouvi então dizer-me:

– Tem paciência. Levanta-te e vai escrever.

Obedeci. Fui para o meu escritório, na persuasão de que ia escrever a aludida frase.

Sentei-me e comecei a escrever. Não me levantei sem ter concluído a comunicação inserta na pág. 60, a primeira desta estranha série de escritos.

Devo acrescentar que as minhas relações com o ilustre escritor, Sr. Silva Pinto, ao tempo, eram limitadas a mera cortesia.

Depois de escrita a comunicação (transcrita abaixo), perguntei:

– E a mim quer dizer alguma coisa?

– Não. Melhor do que eu sabes tudo. Quererei sempre ouvir-te, pois que só da tua palavra conheço o carinho e a bondade; só por ti recebo o raio de luz que ilumina a treva do meu viver.

– Não sei se será assim… Em todo o caso não desejo falar de mim. Não é por modéstia nem por falsa modéstia. É porque é coisa mínima e desnecessária.

Diga-me: – concede que eu mostre, como seu, o que deixa dito, a mais alguém do que àquele a quem é dirigido?

– É coisa embaraçosa essa que me propões.

Há, porém, um meio de tudo conciliar. Se o publicares algum dia, e o Silva Pinto for vivo, suprime-lhe o nome.

Cabe bem a toda a gente o que disse; e praza a Deus que a alguém possa produzir o bem que desejo para aquele meu dilécto amigo.

– Creio que não faz justiça a si próprio.

Confesso – e sabe-o muito bem – pouco conheço das suas obras; com vergonha o digo; mas delas o que conheço dá-me a nítida impressão de que era bem melhor do que aquilo porque se quer fazer passar. Quase todas essas obras que conheço traduzem tanta dor que me fazia chorar…

– Pára, pára aqui! A dor que te fazia chorar estava em ti, e não na obra. Tu é que recebias a sensação do sofrimento que eu procurava descrever; e a impressão que ela te causava dava-te dor, ou evocava a dor na tua sensibilidade de bom. Quantos ao lerem essas mesmas passagens que te comoviam até às lágrimas, se rirão e me acharão piegas?

É porque a dor não está no que escrevi, que é frio como o aço de um espelho.

A alma de cada um é que ao mirar-se a esse espelho encontra os caminhantes da sua sensibilidade.

Evoca as tuas recordações.

Quantas vezes um aspecto de miséria e do sofrimento te provoca o repelão, quando em outra oportunidade te compungirá até às lágrimas mais sentidas? Entretanto o aspecto é sempre o mesmo.

Tu é que mudavas; a impressão que recebias é que era diversa em cada um dos momentos que o apreciavas.

– Será assim; mas para descrever a dor é preciso conhecê-la e senti-la bem intensamente, e que dela se esteja bem possuído…

– É verdade. E eu sofri como poucos podem sofrer.

Conheci a dor em todas as suas manifestações; mas por bem a conhecer e a sentir não se segue que ela me modificasse no meu estado espiritual e me conduzisse à bondade e à tolerância. Servia-me dela para agredir os outros, para os torturar, como ela me torturava a mim.

– Sendo Camilo quem escreve, certamente poderia com mais facilidade e brilho expor as suas ideias…

– Não era isso que querias dizer. Querias dizer que sendo eu Camilo poderia versar com mais competência qualquer assunto de subida importância. Não era isso?

– Aproximadamente…

– Não é tanto assim. Nós aqui só podemos trabalhar com o instrumento que se nos depara e nas circunstâncias em que ele se nos depara.

Para falar de coisas que tu não conheces, era necessário que estivesses em estado absolutamente inconsciente, ou ter que empregar, persistentemente, uma grande contensão de vontade sobre ti para nos sobrepormos à tua personalidade.

Assim como estás, não.

Só posso servir-me com os elementos que me forneças. Não posso ir muito além dos teus próprios conhecimentos.

A tua personalidade em estado consciente, impedirá que possa apresentar coisas que te sejam desconhecidas.

Só me prestarás para dizer o que caiba dentro da soma de saber por ti adquirido.

O teu corpo material serve de instrumento a ti e a mim; e eu só poderei empregá-lo no sentido em que o tenhas educado. É como um instrumento preparado para ser utilizado por um indivíduo direito. Um indivíduo esquerdo não poderá trabalhar com ele.

Um médium em estado inconsciente, deixa de ser instrumento de si próprio, mas equivale-se a instrumento para dextros…

(Nesta altura, eu, que ia lendo o que se ia escrevendo, hesitei sobre o emprego da palavra dextro, porque só conhecia destro, e fui ver a um dicionário. Reconhecendo que tinha sido apanhado em ignorância, coloquei a pena em seguida àquela palavra e prossegui) e sinistro.

Não podia esperar nem desejar tão pronto exemplo como o que acabava de passar-se com a palavra dextro.

Eu, consciente da propriedade da palavra, escrevi dextro, como significando um homem direito de manejo, como vulgarmente se diz: –  e a tua ignorância sobre essa propriedade levou-te à hesitação e a buscares a confirmação no dicionário. Vês? Se estivesses em estado inconsciente escreverias essa e quantas outras palavras que eu quisesse escrever. Não teria eu dificuldade alguma nisso. Assim, até a mim embaraças. Não te desconsoles, porém. Na tua ignorância sabes mais do que a quase totalidade dos sábios do mundo, porque sabes o que é preciso saber. O que eles sabem não serve para aqui, e o que serve para aqui não sabem eles.


~


Camilo Castelo Branco
(28 de Outubro de 1906)



a Silva Pinto



A tua amizade, a tua saudade, a tua lembrança são elos que ainda me prendem ao mundo. São dos poucos que me recordam raros momentos de felicidade na terra, se na terra há que se possa chamar felicidade.

A minha vida depois da morte, (que estranha heresia te parecerá isto!) tem sido a coroação da vida de sofrimento e de martírio que nesse mundo de lama e pus levei!

Com a minha passagem consegui a certeza da torturante expectativa que dominou toda a minha existência aí: – Haveria Deus? Existiria a alma? Sofri ou continuei a sofrer tanto e tão intensa, tão condensadamente, que, conquanto não pudesse duvidar da persistência da vida, cheguei a descrer da existência de Deus.

Factos que não é oportuno narrar agora trouxeram-me a consoladora certeza de que Ele existia, e de que não desconhecia a minha torturada existência daí e daqui; e então, meu velho, meu querido amigo, alma gémea da minha na amargura, tive a certeza de que a vida na terra seria a antecâmara da felicidade se soubéssemos aproveitá-la.

Assim, como a fazemos, é coisa tão desprezível que não merece o nosso desprezo.

Tu tens levado todo o teu tempo a protestar e a maldizer…

Pobre mártir, pobre vítima da Dor, que não tens conseguido mais que queimar a tua própria alma e despertar o riso daqueles que te não compreendem!

Meu amigo, meu irmão, meu doce e carinhoso irmão: a experiência que tens, estranhamente exagerada, das coisas que te cercam deve servir só para te desprenderes delas.

Deves libertar o teu espírito ao alto; e quando o fizeres verás que tudo que te afadiga e tortura é tão mesquinho, tão insignificante que não merece que por ele vibre a mais grosseira fibra de teu coração!

Águia de talento, espírito de eleição, eleva-te acima do charco em que a fatalidade ou a lei fatal do progresso humano te colocou passageiramente na terra, e terás assombro de ti próprio por teres chegado a indignar-te com as coisas necessárias que não compreendes!

Por amor de mim consegue libertar-te das ideias grosseiras que a vida da matéria te pôde incutir no cérebro privilegiado e deixa que a santa filosofia dos teus cabelos brancos possa ver sem azedume, sem rancor, as misérias dos teus irmãos, e ante-gozarás a maravilha esplendorosa da criação! Lembra-te que os melhores lameiros são os que dão mais pão; que os terrenos mais adubados com a podridão são os que dão mais iriadas e odoríferas flores e os mais deliciosos frutos.

Pensa! Reflecte! Experimenta! Pega em uma planta e dispõe-na em um vaso de terra limpa, lavada, odorífera, e essa planta, se chegar a lançar raízes, estiolará e em breve morrerá. Dispõe planta igual em vaso de terra apodrecida, engordurada com o excremento mais imundo e ela vegetará luxuriantemente, elevará os seus ramos para o céu numa manifestação de vida feliz, e desentranhar-se-á em flores de uma beleza rara, de um aveludado inigualável e de um viço pujante.

Que grande lição te dá Deus na vida dessas duas plantas! Medita! Deixa que a luz do teu talento ilumine a tua razão!

Porque hás-de passar o resto dos teus dias, aí, na calcinante agrura de querer emendar o que está optimamente feito?

Pois se o homem pode modificar a planta selvagem pela cultura; se a base da cultura é a adubação da planta, e a matéria do adubo é a podridão; como queres impedir que Deus se sirva de processo semelhante para aquilatar o mérito da mais complicada obra de toda a criação e para cultivar a mais perfeita e estranha planta de todas que fabricou?

O meu mal foi não ter tido nunca a felicidade de ver a vida por este prisma!

Quando a vi assim… era tarde; e então o pavor de uma vida que nem nos teus momentos mais esmagantes terás podido sonhar!

A resignação em uns é o desprezo pelos outros; em outros é a piedade pelas faltas alheias. Tu não és um resignado. Nunca foste. Tens piedade, mas a piedade ainda te não levou à resignação! Sê benévolo, sê piedoso, e terás atingido aí uma culminância que te permitirá na hora extrema da passagem desferir um voo para a felicidade.

Sabes que os grandes pássaros, os condores por exemplo, precisam subir a eminências para poderem voar largo.

Tu és um condor de bondade e de talento.

Não fiques, não persistas na planície lamacenta da vida mesquinha e material, porque, meu querido, meu queridíssimo amigo dilécto, na hora da despedida, colhido de surpresa pela rajada da morte que o Criador mandar para te fazer mudar de poiso, não terás tempo de formar voo para te alçares ao espaço largo e luminoso; e ficarás, como eu, por sabe Deus quanto tempo, no convívio das corujas e das gralhas. A eminência a que tens que elevar-te é a bondade purificada pelo sofrimento que a linguagem humana classifica de resignação. Educa o teu espírito de revolta. Se for necessário, a tua razão que o iluda, transigindo, convencendo-o de é por desprezo que abandonará o rancor, a fermentação do ódio, que só conduz ao desespero.

Procura convencê-lo de que é tudo tão mau que não merece a consideração da revolta de um justo e um bom como és; e insensivelmente, sem dares por isso, terás adquirido a incomparável felicidade de conheceres que os maus não são tão maus como supões; que são mais desgraçados do que maus, e mais dignos de lástima do que de rancor; que o mal é um bem necessário; que a justiça divina, escrevendo direito por linhas tortas, como aos nossos olhos se afigura, é de uma grandeza e de uma impecabilidade incomensuráveis, e de que a piedade e o perdão são as únicas coisas que aproximam o homem da Divindade!

Pois se basta que o homem ponha lunetas para ver tudo negro; amarelas para ver tudo dourado; rosadas para ver tudo cor-de-rosa; porque é que a vida não há-de mostrar só a faceta que cada um dela quer ver?

Queiras ver a faceta boa e vê-la-ás. Por mais que faças não verás outra, por pior que seja aquilo sobre que fixares a tua vista e a tua análise.

Se quiseres ver pela faceta má tudo verás mau, por mais santo, por mais belo por mais grandioso que seja.

Eu passei a minha vida terrena a ver tudo pelos óculos pretos; e tão preto vi que Deus deu-me aí a escuridão da cegueira. E, meu santo amigo, essa escuridão acompanhou-me horrorosamente aqui, e poucas são as nesgas de luz que conseguem vir quebrá-la ainda!

Medita pois. Experimenta.

Acerca-te de um ramo de lírios brancos, alvos como a neve, puros como a pureza e a bondade de Deus, olha-os através de um vidro fumado, e vê-los-ás negros, sujos, repelentes; aproxima-te de um monte de impurezas, de um cadáver putrefacto, esverdeado, caindo a pedaços pela decomposição, coisa horrenda de pensar quanto mais de ver; olha-o por vidros alaranjados e verás tudo coberto de um delicioso nimbo dourado, como se dessa imundice irradiasse a luz solar.

Porque não fazes a mesma coisa à vida?

Imaginemos…

Não, não imaginemos; vou ao alcance da tua objecção:

– Mas os vidros não mudam a natureza das coisas; 

– Os lírios não deixam de ser brancos por se verem por lentes negras, nem a podridão deixa de ser ascorosa por parecer dourada!

É verdade; parecerá à primeira vista, ou á nossa razão desarmada de reflexão.

Reflexionemos, porém.

Qual é a natureza das coisas na terra?

É a que vimos? É a que nos parece?

Não. É a que é.

E qual é a que é no exemplo citado?

A vista irreflexiva dá ao lírio a alvura e à podridão o asco.

Entretanto a reflexão mudará em breve o asco para o lírio, a causa admirativa para a podridão.

O lírio será a curto trecho putrefacto, nauseante; e o cadáver, o monturo, transformar-se-á benevolamente nos gazes que dão a vida e nos sais que alimentam as rosas e o trigo.

E quando assim não fosse?

As cores, obedecendo à nossa vontade, tinham-nos dado a sensação de que era assim; e tudo na vida tem as sensações que conseguem impressionar-nos. O amor às coisas horrorosas não deixa de ser amor se as amamos; e o ódio às coisas belas não deixa de ser ódio se as detestamos.

Exige a razão ponderada e fria que assim não seja; mas quem pode gabar-se de ser suficientemente justo e equilibrado que consiga ver as coisas sempre como elas realmente são? E não podendo ter a certeza de que tem essa justeza de vista, quem pode afirmar que a sua maneira de ver é a melhor?

Medita, Silva Pinto, medita!

Pensa que as tuas dores te hão-de servir para mais do que para atravessares a vida a maldizê-las!

Mal haja a experiência que nos traz a benevolência e a tolerância!

Sabes tu melhor do que ninguém que eu jamais pensei assim aí. As minhas novelas estão cheias de fel que a amargura fazia destilar à minha vida; e por mor desgraça não tive nunca boca amiga que tivesse autoridade no conselho para me obrigar à reflexão desapaixonada sobre as causas das coisas. Quando muito, sentia-me envolvido na piedade e no dó; e esses sentimentos alheios irritavam-me, feriam-me, feriam o meu orgulho…

Orgulho!!! Fatal e hórrida palavra! Causa suprema do meu, do teu, do mal de todos!

Primacial origem da minha vida de mártir aí e de martírio da minha vida aqui! Fonte de todas as dores; início de todas as maldades; causal de todos os desesperos!!!

Que de coisa trêdas eu podia dizer, evocadas por a lembrança que aquela palavra trouxe aos bicos da pena!

Não era esse o meu propósito, porém, ao escrever-te.

Não quero afastar-me do que me impeliu a dirigir-me a ti.

Havia um sentimento no mundo que poderia ter iluminado a negrura da minha vida: – era a religião de Cristo; – mas esse sentimento era facilmente suplantado pela dúvida torturante da minha vida amargurada e pelo orgulho desmesurado de todo o meu ser atrabiliário e revoltoso.

Para ti… para ti…

Silva Pinto. É bem estranha e bem inacreditável coisa esta de eu te falar, escrevendo pela mão de um quase desconhecido para nós ambos; mas bem estranhas e inacreditáveis coisas têm modificado o mundo e o homem no seu evolucionar progressivo através dos séculos.

Não te detenhas a pensar nisso. Pouco vale. Não queiras descobrir em um momento o que outros não conseguem com o sacrifício da sua vida inteira.

Vê, passa pelo cadinho purificador da tua análise de bom e de homem de coração o que deixo dito.

Lembra-te de que, quando mesmo seja dito pelo homem que escreve, o que ele escreve está sob a égide do meu nome. Para o escrever pensou em mim, no teu amigo, no teu companheiro, no maior de todos, como me chamas. Isto deve ser para ti respeitável.

Quando queiras reagir contra a crença de que sou eu quem te aconselha, quem te suplica, quem te implora numa grande ânsia de obtenção, que desvies a tua vista cansada, quase gasta, quase a desaparecer, do marnel das paixões terrenas e a eleves ao alto, onde reside Deus, a Bondade e o Belo, pensa, vê, que esse faz o abnegado serviço de te dizer coisas estranhas e dedicadas o faz em meu nome e como se de mim fossem.

São boas? São más?

Se são boas aceita-as em lembrança minha; se são más deita-as fora, porque nem em meu nome te dão coisa boa.

Mas pela experiência feita de dores te digo que são boas; e se como tais as não receberes e usares, ai de ti meu querido irmão na tortura, ai de ti, que será sempre tarde de mais para arrepiares caminho, e cedo em demasia para verificares o erro!

Meu querido amigo, meu santo amigo, tu, que és ainda um pouco do meu sofrimento na terra, um pouco obra do meu orgulho, do meu egoísmo, do meu amargor, ouve-me e atende-me.

Não sei se poderei ainda falar-te de novo e a tempo! E não será a menor das dores para mim se tiver de reconhecer que não pude pôr a força de persuasão bastante para fazer-te o bem quando tanta tive para te fazer o mal!

Camilo Castelo Branco

/…




Fernando de Lacerda, Do País da Luz, Comunicações mediúnicas recebidas por este médium – Camilo Castelo Branco (28 de Outubro de 1906) a Silva Pinto, Volume I, 2º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel, detalhe, de Edgard Maxence)