– Participação do mundo espiritual na obra
humana. – Espiritismo, novo e vigoroso impulso para o pensamento.
|Maio de 1922|
Num tópico anterior, vimos que a preponderância da
literatura francesa se sustentou por muito tempo. Ela possuía tudo o que seduz
e cativa. No entanto, uma evolução se impõe, e chega um momento,
na história do pensamento, em que a palavra e o gesto já não são suficientes
para traduzir as emoções da alma. E é nessa altura que o senso musical
desperta e entra em acção na própria literatura, que deve ser como
um reflexo da harmonia superior. A
manifestação dessa tendência marca um grau a mais na ascensão do
espírito em direcção aos níveis mais elevados, assim como acontece no espaço
onde a palavra deixa de ser empregada.
Essa evolução do pensamento e das suas manifestações, sob
as suas inúmeras formas, arte, ciências, letras, será dirigida por uma
participação cada vez mais íntima e profunda do mundo espiritual na obra
humana.
A revelação espírita proporciona-nos inesgotáveis temas
de inspiração e de sensação. Ela nos inicia nas condições de uma vida
mais subtil, vida que é a finalidade essencial de toda a ascensão e da qual os
detalhes introduzem, nos programas de estudo e pesquisa, uma variedade de
elementos que estendem ao infinito os limites das nossas concepções, dos nossos
conhecimentos. Daí resulta, forçosamente, uma fecundação, uma
renovação completa de ideal que se desfaria e se alteraria sob o domínio das
teorias materialistas ou dogmáticas, domínio que vai ter fim, apesar dos
esforços desesperados dos seus partidários.
Assim, o Espiritismo dá ao pensamento um novo e
vigoroso impulso. Ele traça, na história dos seres e dos mundos, um círculo
imenso, que permite todos os sonhos, todos os voos da imaginação; ele abre
novas saídas para tudo o que faz o poder, a grandeza, a beleza do Universo.
Até aqui, a forma literária pôde parecer suficiente para
exaltar os sentimentos nacionais e tudo o que se relaciona à epopeia das raças
humanas e à vida planetária em geral. Ela pôde mesmo parecer excelente e
produzir obras-primas que ficarão como monumentos imperecíveis do pensamento e
do sentimento. Porém, por mais excelente que ela seja, a literatura
torna-se pobre quando se trata de reproduzir as formas superiores da actividade
humana.
À medida que os seus horizontes se alargam e que a
humanidade se comunica com a vida universal, formas mais perfeitas de expressão
e de sensação se tornam necessárias, para responder ao estado vibratório, às
radiações crescentes da alma. Uma intuição segura, o
instinto do belo, levam o ser espiritual a substituir, na expressão
do seu pensamento e no entusiasmo de sua alma, a harmonia pura
pela palavra e pela letra. Porém, as revelações do invisível o estimulam a
empregar, por sua vez, os procedimentos usados na vida do
espaço.
– as qualidades de um belo estilo
O verdadeiro mérito literário, as qualidades de um belo
estilo, consistem em provocar no pensamento, as reflexões do leitor, em
lhe criar uma atmosfera mental que contribua para desenvolver, para enriquecer
as suas faculdades, as suas forças morais.
Sem dúvida, fazer pensar é nobre, mas o que é mais nobre e
mais meritório ainda é elevar a alma em direcção às alturas onde todas essas
faculdades se desenvolvem na luz e no amor. É ajudá-la a atingir o grau
de evolução que lhe permitirá sentir, não pelos seus órgãos materiais, mas nos
seus sentidos íntimos e profundos, as alegrias, as satisfações da vida
superior; sentir essa vibração suprema que enche o Universo, segundo o
ilustre Esteta, e que provoca a comunhão definitiva com o
pensamento divino, o êxtase na beleza compreendida e realizada.
– teatro, meio de educação intelectual e moral; a sua decadência
As obras verdadeiramente belas e importantes tornaram-se
raras entre os modernos, seja nas letras ou mesmo no teatro. Este poderia ser
um poderoso meio de educação intelectual e moral, pela elevação dos
pensamentos, dos sentimentos, pelos nobres exemplos postos diante do público.
Porém, em lugar da sua missão grandiosa e benfazeja, o
teatro tornou-se muito frequentemente um método para favorecer as paixões
doentias, excitar os sentidos. Em todos esses casos, ele se torna a obra de
cépticos gozadores, ignorantes ou descuidados do verdadeiro objecto da vida; é
a espuma brilhante e insalubre, o fruto mórbido de uma civilização deformada
pela sedução do prazer e das riquezas.
Quantas vezes, atraído pelo título de uma nova peça, por um
brilhante cartaz, fui aos maiores teatros parisienses, na esperança de ali encontrar
um alimento substancial no decorrer de uma noite bem empregada. Pobre de mim!
as minhas decepções não se contam mais. Em lugar da substância fecunda que eu
esperava, eram cenas banais ou equívocas que se desenrolavam diante dos meus
olhos. Muito engenho ali se empregava, sem dúvida. As palavras
espirituais brotavam em feixes cintilantes ou flutuavam, como bolhas de sabão
irisadas, sob as luzes da ribalta (i), mas que o menor sopro arrasta sem
deixar nenhum traço na lembrança nem na consciência do espectador, porquanto, o
pensamento elevado, o exemplo encorajador, o ensinamento consolador sempre se
encontravam ausentes. Além disso, a impressão que dali emanava era a
de um vazio ou de impotência, quando não era ainda pior.
É preciso devolver ao teatro a sua dignidade,
reconstituir o ideal da cena desonrado por autores inaptos e corrompidos.
Com o espectáculo a mudar os costumes e os meios sociais,
que constituem a trama da comédia, é preciso saber escolher o que pode elevar
as inteligências e os corações. No entanto, como nos nossos autores
contemporâneos o que domina é sempre o tema do amor culpado, do amor doentio,
assim se aguçam os apetites carnais, se alimentam as paixões, precipita-se a
decadência do teatro e trabalha-se para a corrupção geral.
Parece que a nossa época tem um gosto particular pelos
tóxicos. Na ordem material, esse gosto traduz-se pelo uso imoderado do álcool e
do tabaco, até mesmo do ópio, do éter e de outras drogas maléficas, de tudo o
que provoca as desordens físicas, arruína a saúde, faz a raça definhar. Na
classe intelectual, esse gosto manifesta-se por uma espécie de predilecção por
uma literatura e espectáculos pervertidos. Aqui o mal é ainda mais
grave, porque é a consciência, o senso moral, a dignidade do homem que são
atingidos. E daí resulta uma expansão dos apetites sensuais, uma
orientação defeituosa da vida e das faculdades.
Eis por que convém procurar todos os meios de elevar as
almas, os pensamentos, em direcção a essas regiões em que as emanações do alto
varrem todas as impurezas.
Desses cumes radiosos, contempla-se e penetra-se melhor a
essência das coisas e de lá se desce com a soma de energia necessária para
prosseguir nas lutas deste mundo e afastar de si as tentações perigosas, os
prazeres aviltantes.
/…
(i) Ribalta: parte dianteira do palco, que se estende para fora
do pano de boca e, onde ficam localizados os reflectores. (N.T.)
LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte
V – Participação do mundo espiritual na obra humana
/ Espiritismo, novo e vigoroso impulso ao pensamento – As
qualidades de um belo estilo / Teatro, meio de educação intelectual e
moral; a sua decadência (1 de 4) 20º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Le Livre de la Paix, pintura
de Edgard Maxence)




