domingo, 22 de março de 2026

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


~~~~~ A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia (II) 

Numa obra recente chamada L'Initiation de Vercingétorix (i) o Sr. André Lebey forneceu-nos detalhes muito interessantes sobre a educação religiosa e política do jovem chefe arvernenseInicialmente, ele apresentou-nos muitas cenas vivas e coloridas nas quais os nobres chamados “colares de ouro”, responsáveis pela morte trágica de Celtil, se entregaram a esse género de intriga que pôs a perder a Gália, zelando com um ódio ciumento pelo progresso do jovem varão e temendo represálias. Depois, é a viagem de Vercingétorix, que atravessou as vastas solidões silvestres que separam as tribos, visitando a floresta sagrada dos carnutos, onde ele participa da grande cerimónia anual, presidida pelo arquidruida e pela grande sacerdotisa da Ilha de Sein; e a sua visita a Carnac, onde ele cumpre outros ritos. Ali, nas horas do crepúsculo, ele escuta o canto dos bardos, afirmando o Deus supremo:

“Eu creio em um Deus único, eterno, que não se conhece, que nunca se conhecerá, indubitavelmente. Eu creio naquele que é, naquele que será, visto que é o mesmo, naquele que se revela e existiu sempre, visto que é o mesmo ainda. O caminho que leva à sua incógnita começa no sacrifício voluntário.”

Sob a direcção de um druida, guia tutelar e familiar, ele vai obter nos santuários os conhecimentos dessa grande doutrina, a propósito da qual Dom Martin pode dizer que “ela não foi tomada emprestada de nenhum outro povo”. Sem dúvida, nos seus relatos é preciso levar em conta a fantasia, mas os principais factos repousam numa base histórica. O que há de mais notável nessa obra são as páginas consagradas à conversa solene e secreta dos dois druidas sobre a praia bretã, em frente das ilhas sagradas. Um deles, Divitiac, é admirador e aliado dos romanos; o outro, Macarven, preceptor de Vercingétorix, somente tem em vista o futuro e a grandeza da Gália, o desenvolvimento de seu génio livre, independente de toda a ingerência estrangeira.

Divitiac tinha voltado de uma viagem à cidade Eterna, deslumbrado pela glória política e pelo esplendor monumental de Roma. Ele sonha com uma aliança que julga necessária para completar o poderio da Gália e assegurar a sua função no mundo.

Macarven lembra ao seu interlocutor a corrupção, o cepticismo dos romanos, a sua rapacidade, a sua sede de dominação e, sobretudo, a astúcia e os ardis com os quais eles estão acostumados. Confiante na religião e na prática que ama, ele deposita toda a sua esperança numa Gália independente. Disse ele a Divitiac:

“A minha fé é mais clarividente do que a tua. Para vencer completamente, seria melhor que ela extinguisse as armas manuais, em nome de sua superioridade! O triunfo passageiro da matéria sobre o espírito não pode anular a vida do espírito; ela a consagra ainda mais e a faz ressuscitar eternamente acima da vitória momentânea do inimigo. Ao contrário, aceitando, mesmo por astúcia, o conquistador que a domina, ela se humilha pouco a pouco, ela se entrega. A derrota nobre valeria mais pela sua resistência legítima do que a vitória brutal do número e da força, unicamente. Eu somente confio na estrada perpétua, obstinada da consciência. Porque ela é direita, superior, decisiva entre todos os outros meandros, ela segue mais adiante. Deixá-la, abdicar dela e se perder, talvez morrer, e da morte da qual não se levanta. Essa morte engole tudo, é tão pesada que arrasta a alma esmagada sob o peso de sua nulidade.” (P. 163)

Prosseguindo a sua viagem, Vercingétorix vai consultar as druidisas da Ilha de Sein.

“Tu vieste – lhe dizem elas – nos interrogar sobre o enigma dos mundos. Nós e os nossos sacerdotes te respondemos. Tu chegaste, como nós, ao conhecimento da migração das almas e das leis da vida universal. Agora uma outra tarefa te será imposta; é preciso, doravante, pensar em Roma. Se tudo o que viste do império gaulês te tem feito amá-lo, se tu estás ligado à nossa religião, forte e doce, natural e divina, onde o mal inevitável da vida se esclarece e se resgata pelo sacrifício, depois atinge ao sublime verdadeiro pelo culto equilibrado do espírito; se tu te dás conta de que na cidade fria, sobre a qual vigia o Capitólio, apesar da doçura do clima e da beleza dos montes Apeninos, vencido, tu regressarás para morrer no ar salubre da Gergovie, a lição viva do Puy majestoso, a profundeza calmante de suas florestas, então prepara-te desde agora! Prepara-te para salvar o teu país e a sua religião, única no mundo, a tua nação de águas claras, de corações disputadores, mas bons e quentes. Crê em mim, crê nas minhas irmãs, crê nos nossos sacerdotes; esta virtude particular do nosso solo, onde a raça céltica atinge a sua mais justa expansão, não existe em outra parte.”

Mais tarde, a grande druidisa conduz o chefe arverne sobre o promontório que domina o mar de terror, em frente da ilha sagrada. Nesse tumulto de vagas, que imprime às suas palavras uma espécie de solenidade fatídica, ela lhe lançou estes dizeres em tom imperioso:

“Eleito por todos, tu serás rei e tu nos pertences. Sob este gládio cintilante, acima do abismo, símbolo da vontade, além de todas as agitações humanas, jura dedicar todos os minutos da vida, a tua vida, a tua morte, tudo o que compõe o teu corpo perecível, como também tudo o que prepara a tua alma imortal para o cumprimento da libertação.

Tu estás, aqui, no fim do mundo. Se o teu juramento é sincero, os deuses que velam em torno de nós e nas ilhas, nos confins do santuário de todos os santuários, te atenderão!” (ii)

E no vento e na tempestade, sob o ruído das ondas barulhentas, sob o gládio ensanguentado, Vercingétorix jurou!
/…
(i) Editor Albin Michel, rua Huyghens, 22, Paris.
(ii) Ver L’Initiation de VercingétorixAndré Lebey, pp. 191, 201, 205.

LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte Os Países Célticos, Capítulo V – A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia 2 de 3, 18º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: estátua monumental de Vercingétorix, por Aimé Millet em Alise-Sainte-Reine, Côte-d'Or, région Bourgogne, France) 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Espiritismo na Arte ~


Parte V

– Participação do mundo espiritual na obra humana. – Espiritismo, novo e vigoroso impulso para o pensamento.

|Maio de 1922|

Num tópico anterior, vimos que a preponderância da literatura francesa se sustentou por muito tempo. Ela possuía tudo o que seduz e cativa. No entanto, uma evolução se impõe, e chega um momento, na história do pensamento, em que a palavra e o gesto já não são suficientes para traduzir as emoções da alma. E é nessa altura que o senso musical desperta e entra em acção na própria literatura, que deve ser como um reflexo da harmonia superior. A manifestação dessa tendência marca um grau a mais na ascensão do espírito em direcção aos níveis mais elevados, assim como acontece no espaço onde a palavra deixa de ser empregada.

Essa evolução do pensamento e das suas manifestações, sob as suas inúmeras formas, arte, ciências, letras, será dirigida por uma participação cada vez mais íntima e profunda do mundo espiritual na obra humana.

revelação espírita proporciona-nos inesgotáveis temas de inspiração e de sensação. Ela nos inicia nas condições de uma vida mais subtil, vida que é a finalidade essencial de toda a ascensão e da qual os detalhes introduzem, nos programas de estudo e pesquisa, uma variedade de elementos que estendem ao infinito os limites das nossas concepções, dos nossos conhecimentos. Daí resulta, forçosamente, uma fecundação, uma renovação completa de ideal que se desfaria e se alteraria sob o domínio das teorias materialistas ou dogmáticas, domínio que vai ter fim, apesar dos esforços desesperados dos seus partidários.

Assim, o Espiritismo dá ao pensamento um novo e vigoroso impulso. Ele traça, na história dos seres e dos mundos, um círculo imenso, que permite todos os sonhos, todos os voos da imaginação; ele abre novas saídas para tudo o que faz o poder, a grandeza, a beleza do Universo.

Até aqui, a forma literária pôde parecer suficiente para exaltar os sentimentos nacionais e tudo o que se relaciona à epopeia das raças humanas e à vida planetária em geral. Ela pôde mesmo parecer excelente e produzir obras-primas que ficarão como monumentos imperecíveis do pensamento e do sentimento. Porém, por mais excelente que ela seja, a literatura torna-se pobre quando se trata de reproduzir as formas superiores da actividade humana.

À medida que os seus horizontes se alargam e que a humanidade se comunica com a vida universal, formas mais perfeitas de expressão e de sensação se tornam necessárias, para responder ao estado vibratório, às radiações crescentes da alma. Uma intuição segura, o instinto do belo, levam o ser espiritual a substituir, na expressão do seu pensamento e no entusiasmo de sua alma, a harmonia pura pela palavra e pela letra. Porém, as revelações do invisível o estimulam a empregar, por sua vez, os procedimentos usados na vida do espaço.

– as qualidades de um belo estilo

O verdadeiro mérito literário, as qualidades de um belo estilo, consistem em provocar no pensamento, as reflexões do leitor, em lhe criar uma atmosfera mental que contribua para desenvolver, para enriquecer as suas faculdades, as suas forças morais.

Sem dúvida, fazer pensar é nobre, mas o que é mais nobre e mais meritório ainda é elevar a alma em direcção às alturas onde todas essas faculdades se desenvolvem na luz e no amor. É ajudá-la a atingir o grau de evolução que lhe permitirá sentir, não pelos seus órgãos materiais, mas nos seus sentidos íntimos e profundos, as alegrias, as satisfações da vida superior; sentir essa vibração suprema que enche o Universo, segundo o ilustre Esteta, e que provoca a comunhão definitiva com o pensamento divino, o êxtase na beleza compreendida e realizada.

– teatro, meio de educação intelectual e moral; a sua decadência

As obras verdadeiramente belas e importantes tornaram-se raras entre os modernos, seja nas letras ou mesmo no teatro. Este poderia ser um poderoso meio de educação intelectual e moral, pela elevação dos pensamentos, dos sentimentos, pelos nobres exemplos postos diante do público.

Porém, em lugar da sua missão grandiosa e benfazeja, o teatro tornou-se muito frequentemente um método para favorecer as paixões doentias, excitar os sentidos. Em todos esses casos, ele se torna a obra de cépticos gozadores, ignorantes ou descuidados do verdadeiro objecto da vida; é a espuma brilhante e insalubre, o fruto mórbido de uma civilização deformada pela sedução do prazer e das riquezas.

Quantas vezes, atraído pelo título de uma nova peça, por um brilhante cartaz, fui aos maiores teatros parisienses, na esperança de ali encontrar um alimento substancial no decorrer de uma noite bem empregada. Pobre de mim! as minhas decepções não se contam mais. Em lugar da substância fecunda que eu esperava, eram cenas banais ou equívocas que se desenrolavam diante dos meus olhos. Muito engenho ali se empregava, sem dúvida. As palavras espirituais brotavam em feixes cintilantes ou flutuavam, como bolhas de sabão irisadas, sob as luzes da ribalta (i), mas que o menor sopro arrasta sem deixar nenhum traço na lembrança nem na consciência do espectador, porquanto, o pensamento elevado, o exemplo encorajador, o ensinamento consolador sempre se encontravam ausentes. Além disso, a impressão que dali emanava era a de um vazio ou de impotência, quando não era ainda pior.

É preciso devolver ao teatro a sua dignidade, reconstituir o ideal da cena desonrado por autores inaptos e corrompidos.

Com o espectáculo a mudar os costumes e os meios sociais, que constituem a trama da comédia, é preciso saber escolher o que pode elevar as inteligências e os corações. No entanto, como nos nossos autores contemporâneos o que domina é sempre o tema do amor culpado, do amor doentio, assim se aguçam os apetites carnais, se alimentam as paixões, precipita-se a decadência do teatro e trabalha-se para a corrupção geral.

Parece que a nossa época tem um gosto particular pelos tóxicos. Na ordem material, esse gosto traduz-se pelo uso imoderado do álcool e do tabaco, até mesmo do ópio, do éter e de outras drogas maléficas, de tudo o que provoca as desordens físicas, arruína a saúde, faz a raça definhar. Na classe intelectual, esse gosto manifesta-se por uma espécie de predilecção por uma literatura e espectáculos pervertidos. Aqui o mal é ainda mais grave, porque é a consciência, o senso moral, a dignidade do homem que são atingidos. E daí resulta uma expansão dos apetites sensuais, uma orientação defeituosa da vida e das faculdades.

Eis por que convém procurar todos os meios de elevar as almas, os pensamentos, em direcção a essas regiões em que as emanações do alto varrem todas as impurezas.

Desses cumes radiosos, contempla-se e penetra-se melhor a essência das coisas e de lá se desce com a soma de energia necessária para prosseguir nas lutas deste mundo e afastar de si as tentações perigosas, os prazeres aviltantes.

/…

(i) Ribalta: parte dianteira do palco, que se estende para fora do pano de boca e, onde ficam localizados os reflectores. (N.T.)


LÉON DENISO Espiritismo na Arte, Parte V – Participação do mundo espiritual na obra humana / Espiritismo, novo e vigoroso impulso ao pensamento – As qualidades de um belo estilo / Teatro, meio de educação intelectual e moral; a sua decadência (1 de 4) 20º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Le Livre de la Paix, pintura de Edgard Maxence)

domingo, 28 de dezembro de 2025

literatura do além-túmulo ~


Capítulo VIII
 (II)

Resta-me tomar em consideração, uma última obra literária, recebida pela mediunidade há algum tempo, que despertou, na Inglaterra, imenso interesse, assim como suscitou vivas discussões em revistas metapsíquicas, espíritas, religiosas e mesmo em jornais políticos, de forma tal que a primeira edição se esgotou em cinco meses. A obra, que tem o título de Os Escritos de Cléofas, é apresentada como uma “crónica sacra” complementar dos “Actos dos Apóstolos”, que chegaram até nós mutilados em algumas partes, em consequência das perseguições de que foram vítimas os primeiros cristãos.

Os Escritos de Cléofas teriam sido transmitidos directamente (ou, para melhor dizer, “inspirados”) pelo discípulo deste nome, um dos dois ao qual o Cristo apareceu no caminho de Emaús, três dias após a sua morte, e com o qual se sentara para comer na cidade homónima de Emaús.

médium, por intermédio do qual essa notável obra foi ditada, é a srta. Geraldine Cummins, filha do prof. Ashley Cummins, de Cork, Irlanda, doutor em medicina.”

srta. Cummins é uma escritora elegante, autora de um romance e duas comédias escritas em colaboração com terceiros; é, ao mesmo tempo, hábil jogadora de lawn-tenis.

Cito isto com o fim único de mostrar o perfeito equilíbrio de seu corpo e do seu espírito. Em 1923 ela começou a exercitar-se na escrita automática com a sua amiga srta. Gibbes, e em 1925 obtiveram, repentinamente, os primeiros ditados relativos à história do primeiro século da igreja cristã.

A entidade que os ditava assinava “O Mensageiro” e a sua escrita mediúnica se processava com a médium em estado de meio-transe.

O lápis corria muito rapidamente sobre o papel; 1.400 a 1.500 palavras eram ditadas, sem interrupção, numa hora. O ditado, uma vez terminado, era imediatamente retirado, na ignorância do seu conteúdo, com o fim de se evitarem interferências possíveis de sua subconsciência.

Essa medida de precaução não impedia, entretanto, que o escrito continuasse, invariavelmente, no ponto preciso em que fora interrompido. As pessoas que assistiam ao ditado mediúnico não exerciam nenhuma influência sobre ele. A médium acolhia, amavelmente, todos os que desejavam vê-la psicografar e daí as sessões se realizarem, constantemente, na presença de médicos, padres católicos, pastores protestantes, teólogos, historiadores, jornalistas, assim como na de alguns membros das duas sociedades de pesquisas psíquicas: a inglesa e a americana.

A sensação experimentada pela médium, durante o ditado, era a de uma pessoa que sonha, sem ter qualquer influência sobre o desenvolvimento das fantasias sonhadas. Além desta, ela experimentava a impressão de que o seu cérebro era empregue por outra individualidade que dele se servia, de modo análogo ao telegrafista com o seu aparelho ou ao dactilógrafo com a sua máquina de escrever. (*)

(*) Nota de publicação: Pequeno excerto do início do Capítulo, repetido, para melhor contextualização.

Eis pormenores de aparência insignificante e que são, todavia, muito importantes para as pesquisas acerca da natureza da personalidade mediúnica que transmitiu Os Escritos.

Escreve a srta. Gibbes:

“Em diferentes ocasiões, o “Mensageiro” afirmara que “Cléofas” se valia de numerosas crónicas da época. Seria, então, interessante a descoberta de alguma prova tendente a confirmar essa asserção do “Mensageiro”. Estávamos embaraçados com o caso, quando, nos primeiros tempos da transmissão das “mensagens apostólicas”, uma dessas, ora inclusa no capítulo IV, começou, contra o que era hábito, na “primeira pessoa”. A mensagem dizia: “Estive longamente com Pedro e ouvi-lhe atentamente todas as palavras. Ele tinha o poder de transmitir a outros a faculdade das visões e dos sonhos, por intermédio do poder radioso de sua palavra”. Quinze meses depois, quando se preparava a publicação da primeira série de Os Escritos, pediram-se explicações à personalidade comunicante a respeito da frase que acabo de citar. Foi-nos respondido: “É preciso que saibas que, quando estas palavras foram ditadas, a nossa intenção era a de traduzir para a vossa língua, palavra por palavra, uma antiga crónica daquela época, transmitindo-a ao mundo por intermédio desta mão. O nosso intento, porém, se modificou desde que descobrimos que os corpos espirituais das duas senhoras, de que nos servimos, continham poderes suficientes para receber de nós o ditado dos acontecimentos contidos em várias crónicas. Nessas condições, as palavras da introdução, que ditamos há vários meses, não devem ser entendidas como tendo relação connosco, mas com o autor das crónicas de que tiramos as presentes informações que são constituídas de imagens que “Cléofas” colhia na grande “Árvore das Recordações” para transmiti-las em seguida a nós, seus mensageiros, encarregados de transformá-las em termos acessíveis aos homens de vossa geração. De qualquer maneira, seria conveniente suprimir no texto as palavras de introdução, a fim de evitar toda a confusão possível entre as pessoas que lerem essas crónicas.”

A srta. Gibbes continua, dizendo:

“As palavras da introdução foram então suprimidas do texto publicado. Saliento que a explicação acima era absolutamente inesperada por todos nós. Aliás, a julgar pelo imenso material de factos que foi, em seguida, ditado à srta. Cummins, podemos reconhecer o bom fundamento da afirmação supra, segundo a qual se mudará de intenção desde que se verificou a capacidade mediúnica do “instrumento” que se empregava, isto é, que se decidiu ditar à médium uma história dos tempos apostólicos, infinitamente mais longa e mais completa da que antes se havia combinado.” (Light, 1929, pág. 152).

No que concerne aos fins a que se propuseram os espíritos comunicantes, ditando as crónicas em questão, eis o que eles dizem a respeito:

“A nossa intenção é a de semear, no coração dos homens de vossa geração, o gérmen da fé no Divino Mestre, de modo que essa fé possa reflorescer. Esperamos que o coração dos homens de hoje receba a nossa semente! Entre eles, alguns há que julgam que o Cristo está morto! Absolutamente. Isto não é verdade. Ele vive mais do que nunca e reviverá nos corações e nos espíritos das gerações futuras com mais esplendor do que antes!” (Light, 1929, pág. 147).

Tais são as suas intenções, tais as suas esperanças. Todavia, curioso e interessante é saber, a esse respeito, a opinião de um outro espírito-guia da srta. Cummins, ao qual esta última se dirigiu para ter informações referentes ao “Mensageiro” que ditava as crónicas sacras. O espírito-guia respondeu:

“Desde há muito que uma falange de espíritos envidava esforços para descobrir um sensitivo capaz de receber, através do mecanismo de seu cérebro, a história das origens do cristianismo. Os membros desse grupo pensavam que não poderia haver expediente melhor para encher o horrível vácuo espiritual que existe nas almas da actual geração, vácuo horrível quando é observado do mundo espiritual. Cléofas e os seus auxiliares se propuseram, então, enviar aos humanos o remédio de que tinham necessidade, revelando-lhes a história do período apostólico. Na minha opinião, eles não consideraram, suficientemente, que os horizontes mentais da humanidade se modificaram bastante depois da época em que viveram na Terra. Não perceberam que, na presente sociedade humana, não há quase lugar para a fé, pois a humanidade quer atingir o espiritual através do material.” (Light, 1928, pág. 149).

Resulta daí que o espírito-guia da srta. Cummins duvida do sucesso da nobre tentativa de Cléofas e dos seus coadjutores, que se propuseram transmitir aos humanos crónicas autênticas dos tempos apostólicos, na esperança de salvar, assim, a presente humanidade, reconduzindo-a à fé dos cristãos primitivos no seu Mestre. Muitos dos meus leitores compartilham, sem dúvida, da opinião do espírito-guia da srta. Cummins, mas isto não tem importância alguma para o nosso ponto de vista e, unicamente, serve para confirmar uma verdade conhecida desde há muito, isto é, que ninguém se torna omnisciente porque desencarnou, mas que o espírito fica, intelectualmente, no ponto em que estava por ocasião da morte. Não tardam esses seres em assimilar grande número de conhecimentos relativos ao meio espiritual em que se encontram, mas não se despojam, senão muito lentamente, das concepções intelectuais que possuíam e só vagamente entrevêem as verdades espirituais a respeito das quais, assim no além como no mundo dos vivos, cada um tem o dever de exercer livremente o seu discernimento. Tal facto dá lugar, como na Terra, a várias opiniões mais ou menos em desacordo entre si.

Com isto, espero ter citado e comentado, suficientemente, o caso em questão, para dele fazer sobressair o grande valor teórico a favor da interpretação espírita dos factos. O caso é, aliás, semelhante ao de Patience Worth e não lhe é, de modo algum, inferior quanto à natureza maravilhosa do texto obtido mediunicamenteA diferença entre os dois casos é de natureza secundária e consiste em que nas comunicações de Patience Worth se encontram dados – como a sua conversa constante em um dialecto arcaico – que podem servir indirectamente, mas eficazmente, para provar a independência intelectual e, em certo ponto de vista, a própria identificação intelectual da entidade comunicante, ao passo que, no caso de Cléofas, não se vêem aparecer dados desta natureza.

Em todo o caso, isso não apresenta uma importância teórica apreciável, porque, nos dois casos, a eficácia demonstrativa dos factos nada tem que ver com a questão de identificação pessoal, para se concentrar, unicamente, na natureza intrínseca do material psicográfico obtido, cuja proveniência é inexplicável perante toda a hipótese naturalista. Com efeito, mesmo no caso de Cléofas, as hipóteses da telepatia, da criptomnesia, da psicometria, não chegam, de maneira alguma, a considerar o conjunto dos factos, sobretudo se considerando-se não se tratar de indicações isoladas ou de acontecimentos fragmentários susceptíveis de serem atribuídos às emergências da subconsciência da médium (criptomnesia) ou bem ao facto de a médium tê-las captado nas subconsciências dos assistentes ou dos ausentes (clarividência telepática).

Não se trata de “visões psicométricas” em relação com um objecto apresentado ao médium sensitivo e, por consequência, circunscritas pelas “influências” existentes em estado latente no próprio objecto, mas, ao contrário, trata-se de crónicas orgânicas, isto é, de uma narração ordenada de acontecimentos, com numerosas noções geográficas, topográficas, históricas, filológicas, ignoradas da médium e das quais se verificou, em seguida, a autenticidade.

Trata-se, finalmente, em grande parte, de episódios que, referidos obscuramente nos “Actos dos Apóstolos”, agora, ao contrário, são narrados minuciosamente em Os Escritos de Cléofas, o que torna, pela primeira vez, inteligível o texto escriturístico.

Em suma, trata-se de uma obra histórica ordenada, completa, vital, que já se compõe de três grossos volumes e ainda não está terminada. Não é certamente na subconsciência da médium que se deverá buscar a génese de um trabalho que apresenta uma importância real, histórica e religiosa, no qual se encontram dados, indicações, minúcias, que ninguém poderia focalizar sem ser especializado nas ciências histórica, geográfica, teológica e filológica.

Nestas condições, só resta uma coisa a fazer: aceitar, ainda esta vez, em nome da lógica e do bom senso, as explicações fornecidas pelas personalidades mediúnicas que ditaram a obra em questão, isto é, concordar que essas personalidades são espíritos de defuntos que relatam os acontecimentos dos quais foram testemunhas ou que se produziram na época e na região em que viveram.

/…

Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo  Capítulo VIII (2 de 2) 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

belo maio | bela como os lírios ~


IV

A mediunidade de Jeanne d’Arc; o que eram as suas vozes; fenómenos análogos, antigos e modernos


De pé, banhada em pranto, escuta atentamente

Alguma voz do céu, dolente.

                          Paul Allard

Os fenómenos de visão, de audição, de premonição, que marcam a vida de Jeanne d'Arc deram lugar às mais diversas interpretações. Entre os historiadores, uns não viram neles mais do que casos de alucinação; outros chegaram a falar de histeria ou neurose. Alguns lhe atribuíram carácter sobrenatural e miraculoso.

O fim capital desta obra é analisar tais fenómenos, demonstrar que são reais, que obedecem a leis por muito tempo ignoradas, mas cuja existência se revela, a cada dia, de modo mais imponente e mais preciso.

À medida que se dilata o conhecimento do Universo e do ser, a noção do sobrenatural recua e se apaga. Sabe-se hoje que a Natureza é una; porém, que na sua imensidade encerra domínios, formas de vida, que durante largo tempo nos escaparam aos sentidos. Sendo estes, como são, extremamente limitados, não nos deixam perceber senão as faces mais grosseiras e elementares do Universo e da vida. A sua pobreza e insuficiência se manifestaram sobretudo a partir da invenção dos poderosos instrumentos de óptica, o telescópio e o microscópio, que alargaram em todas as direcções o campo de nossas percepções visuais. Que sabíamos dos infinitamente pequenos, antes da construção dos aparelhos de ampliação? Que sabíamos das inúmeras existências que pululam e se agitam em derredor de nós e em nós mesmos?

Entretanto, isso constitui apenas os baixos da Natureza e, por assim dizer, o substractum da vida. Para o alto sucedem-se e se escalonam planos sobre os quais se graduam existências cada vez mais subtis, etéreas, inteligentes, com um carácter ainda humano; depois, em certas alturas, angélicas, pertencentes sempre, tanto pelo exterior, como pela essência, aos estados imponderáveis da matériaestados que, sob muitos aspectos, a Ciência hoje reconhece, como, por exemplo, na radioactividade dos corpos, nos raios de Röntgen, em todo o conjunto das experiências realizadas sobre a matéria radiante.

Além dos visíveis e tangíveis, que nos são familiares, sabemos agora que a matéria também comporta múltiplos e vários estados invisíveis e impalpáveis, que ela pouco a pouco se apura, se transforma em força e luz, para tornar-se o éter cósmico dos físicos. Em todos esses estados, debaixo de todos esses aspectos, continua sendo substância em que se tecem inúmeros organismos, formas de viver de uma inimaginável tenuidade. Num largo oceano de matéria subtil, intensa a vida palpita por sobre e em torno de nós. Para lá do círculo apertado das nossas sensações, cavam-se abismos, desdobra-se um vasto mundo desconhecido, povoado de forças e de seres que não percebemos, porém que, todavia, participam de nossa existência, de nossas alegrias e sofrimentos, e que, dentro de determinados limites, nos podem influenciar e socorrer. Nesse mundo incomensurável é que uma nova ciência se esforça por penetrar.

Numa conferência que fez, há anos, no Instituto Geral Politécnico, o Doutor Duclaux, director do Instituto Pasteur, se exprimia nos seguintes termos: “Esse mundo, povoado de influências que experimentamos sem as conhecer, penetrado de um quid divinum que adivinhamos sem lhe percebermos as minúcias, é mais interessante do que este em que até agora se confinou o nosso pensamento. Tratemos de abri-lo às nossas pesquisas: há nele, por fazerem-se, infindáveis descobertas, que aproveitarão à Humanidade.”

Oh! maravilha! nós mesmos pertencemos, por uma parte do nosso ser, a mais importante, a esse mundo invisível que dia a dia se desvenda aos observadores atentos. Existe em todo o ser humano uma forma fluídica, um corpo imperceptível, indestrutível, imagem fiel do corpo físico, do qual este último é apenas o revestimento transitório, o estojo grosseiro, dispondo de sentidos próprios, mais poderosos do que os do invólucro material, que não passam de enfraquecido prolongamento dos primeiros. (i)

(i) A existência do duplo eu, ou fantasma dos vivos, está firmada por uma infinidade de factos e de testemunhos. Essa dupla personalidade pode separar-se do envoltório carnal durante o sono, quer naturalmente, quer provocado, e manifestar-se à distância. Os casos de telepatia, os fenómenos de desdobramento, de exteriorização, de aparição de vivos em pontos afastados do lugar em que repousam, relatados tantas vezes por F. MyersC. Flammarion, professor C. Richet, Drs. Dariex e Maxwell, etc., são a demonstração experimental mais evidente daquela existência. Os anais da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, constituída pelos mais eminentes sábios da Inglaterra, se mostram repletos de factos desse género. Ver, para maiores minudências: Léon DenisDepois da Morte (edição de 1909, “O Perispírito, ou corpo fluídico”, cap. XXI, págs. 226 e segs.); No Invisível (“O Espírito e a sua forma”, cap. III, págs. 31 e segs.); G. DelanneLes fantômes des vivants.

No corpo fluídico está a verdadeira sede das nossas faculdades, da nossa consciência, do que os crentes de todas as eras chamaram almaA alma não é uma entidade metafísica, mas, sim, um centro imperecível de força e de vida, inseparável da sua forma subtilíssima. Preexiste ao nosso nascimento, bem como à nossa morte, não tem efeito sobre eles. Vem a encontrar-se, no além-túmulo, na plenitude das suas aquisições intelectuais e morais. Tem por destino continuar, através do tempo e do espaço, a evolver para estados sempre melhores, sempre mais iluminados pela luz da justiça, da verdade e da beleza eterna. O ser, indefinidamente perfectível, colhe aumentados, quando no estado psíquico, os frutos do trabalho, dos sacrifícios e, das provações de todas as suas existências.

Os que viveram entre nós, e continuam a sua evolução no Espaço, não se desinteressam dos nossos sofrimentos e das nossas lágrimas. Dos páramos superiores da vida universal manam continuamente sobre a Terra correntes de força e de inspiração. Vêm daí as centelhas inesperadas do génio, os fortes sopros que passam sobre as multidões, nos momentos decisivos; daí também o amparo e o conforto para os que vergam ao peso do fardo da existência. Misterioso laço une o visível ao invisível. Relações de diversa ordem se podem estabelecer com o Além, mediante o auxílio de certas pessoas especialmente dotadas, nas quais os sentidos profundos, que jazem adormecidos em todo o ser humano, são capazes de despertar e entrar em acção desde a vida terrena. A esses auxiliares é que damos o nome de médiuns. (ii)

(ii) Ver: Léon DenisDepois da Morte, edição de 1959, capítulo II, e No Invisível, caps. IV e V.

No tempo de Jeanne d'Arc essas coisas não eram compreensíveis. As noções sobre o Universo e sobre a verdadeira natureza do ser permaneciam ainda confusas e, em muitos pontos, incompletas, ou erróneas. Entretanto, caminhando, há séculos, de conquista em conquista, mau grado às suas hesitações e incertezas, o espírito humano já hoje começa a levantar o voo. O pensamento do homem se eleva, acabamos de vê-lo, acima do mundo físico e, mergulha nas vastas regiões do mundo psíquico, onde principia a entrever o segredo das coisas, a chave de todos os mistérios, a solução dos grandes problemas da vida, da morte e do destino.

Não esquecemos ainda a controvérsia de que estes estudos foram objecto, a princípio, nem as críticas acerbas que ferem os que, corajosamente, persistem em semelhantes pesquisas, para manter relações com o invisível. Mas, não zombaram também, até no seio das sociedades sábias, de muitas descobertas que, mais tarde, se impuseram como outras tantas refulgentes verdades? O mesmo se dará com a existência dos Espíritos. Um após outro, os homens de ciência são obrigados a admiti-la e, frequentemente, por efeito de experiências destinadas a demonstrar-lhes a falta de fundamento, Sir W. Crookes, o célebre químico inglês, que pelos seus compatriotas é igualado a Newton, pertence a esse número. Citemos também Russell Wallace e Oliver LodgeLombroso, na Itália; os doutores Paul Gibier e Dariex, na França; na Rússia, o Conselheiro de Estado Aksakof ; na Alemanha, o barão du Prel e o astrónomo Zöllner(iii)

(iii) Conhecem-se as experiências do ilustre físico Sir W. Crookes, que, durante três anos, obteve em sua casa materializações do Espírito de Katie King, em condições de rigorosa fiscalização. Crookes, falando dessas manifestações, declarava: “Não digo que isto é possível; digo: isto é um facto.”

Pretendeu-se que ele se retratasse. Entretanto, W. Stead escrevia ao New York American; “Londres, 7 de fevereiro de 1909. Estive com Sir W. Crookes, no Ghost Club (Clube dos Fantasmas), onde fora jantar, e ele me autoriza a dizer o seguinte: “Depois das minhas experiências acerca do Espiritismo, começadas há trinta anos, nenhuma razão encontro para modificar a minha opinião de outrora”.

Oliver Lodge, reitor da Universidade de Birmingham, membro da Academia Real, escreveu: “Fui levado pessoalmente à certeza da existência futura por provas assentes em bases puramente científicas.”

Frederic Myers, o professor de Cambridge, que o Congresso Oficial e Internacional de Psicologia, de Paris, em 1900, elegera seu presidente honorário, no magnífico livro A Personalidade Humana, chega à conclusão de que do além-túmulo nos vêm vozes e mensagens. Falando do médium Mrs. Thompson, escreve: “Creio que a maior parte dessas mensagens vêm de Espíritos que se servem temporariamente do organismo dos médiuns para no-las transmitir.”

O célebre professor Lombroso, de Turim, declara na Lettura: “Os casos de habitações em que, durante anos, se reproduzem aparições ou ruídos, observados na ausência de médiuns, coincidindo com a narração de mortes trágicas, depõem a favor da acção dos defuntos.” – “Trata-se amiúde de casas desabitadas, onde tais fenómenos se produzem às vezes durante muitas gerações e mesmo durante séculos.” (Ver: Annales des Sciences Psychiques, fevereiro de 1908.)

Compreende-se a importância de tais testemunhos, que poderíamos multiplicar, se o quadro desta obra no-lo permitisse.

Todo o homem sério, que se conserva a igual distância de uma credulidade cega e de uma não menos cega incredulidade, é forçado a reconhecer que as manifestações de que aqui se trata ocorreram em todos os tempos. Encontrá-las-eis em todas as páginas da História, nos livros sagrados de todos os povos, assim entre os videntes da Índia, do Egipto, da Grécia e de Roma, como entre os médiuns de nossos dias. Os profetas da Judeia, os apóstolos cristãos, as druidisas da Gália, os inspirados das Cevenas, na época dos Camisards, tiraram as suas revelações da mesma fonte que a nossa boa virgem lorena.

mediunidade sempre existiu, pois que o homem sempre foi espírito e, como espírito, manteve em todas as épocas uma brecha aberta sobre o mundo inacessível aos nossos sentidos ordinários.

Constantes, permanentes, tais manifestações, em todos os meios, se dão sob todas as formas, das mais comuns às mais grosseiras, como as das mesas falantes, dos transportes de objectos sem contacto, das casas assombradas, até aos mais delicadas e sublimes, como o êxtase ou as altas inspirações, tudo conforme à elevação das inteligências que intervêm.

/...

“Próximo da casa de Jeanne d'Arc passava uma vereda que, atravessando tufos de groselheiras, subia o outeiro a cujo cimo, coberto de mata, era dado o nome de Bois Chesnu. A meia encosta, debaixo de grande faia isolada, borbotava uma fonte, objecto de culto tradicional. Nas suas águas claras, desde tempos imemoráveis, buscavam a cura os enfermos que a febre atormentava... Seres misteriosos, anteriores entre nós ao cristianismo e que os camponeses nunca assentiram em confundir com os espíritos infernais da legenda cristã, os génios das águas, das pedras e dos bosques, as senhoras fadasfrequentavam a cristalina fonte e a faia secular, que se chamava o "Belo Maio". Ao entrar a primavera, vinham as donzelas dançar em baixo da árvore de Maio, “bela como os lírios” e pendurar-lhe nos galhos, em honra das fadas, grinaldas que desapareciam durante a noite, segundo era voz geral”. (*)

                                     Henri Martin – Histoire de France (*), t. VI, páginas 138 e 193.

Léon Denis, Jeanne d’Arc Médium, Primeira Parte – Vida e mediunidade de Jeanne d'Arc, IV A mediunidade de Jeanne d’Arc; o que eram as suas vozes; fenómenos análogos, antigos e modernos (1 de 6), 6º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L'Annonciation, 1901, pintura de Edgard Maxence)

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

agonia das religiões ~


Deus | Espírito e Matéria

Para melhor se entender a expressão Deus, em espírito e matéria, que usei no capítulo anterior, – e melhor se entender também o problema da experiência de Deus no tempo – julgo necessário tratar dos princípios da cosmogonia espírita, na qual se integra a teoria da génese e a formação do espírito. O contra-senso da afirmação bíblica de que Deus criou o mundo do nada, que tanto trabalho deu aos teólogos, é explicado na revelação espírita pela teoria da Trindade Universal. Deus, o Ser Absoluto, é a fonte de toda a Criação. Existindo essa fonte solitária, é logicamente necessário admitir-se um meio em que ela existia. Esse meio, que seria o espaço vazio, foi considerado o nada. Para tratar do Absoluto num plano relativo, como o nosso, é preciso usar expressões relativas.

A concepção espírita do mundo não admite a existência do nada. O Universo é pleno – é uma plenitude – não havendo nele nenhuma possibilidade de vácuo. Essa teoria espírita da plenitude está hoje a ser confirmada pela pesquisa científica do Cosmos. As regiões siderais que poderíamos julgar vazias mostram-se como campos de forças, carregadas de energias que escapam aos nossos sentidos. Esse pré-universo energético seria o que Buda definiu como o mundo sempre existente, que nunca foi criado. Pitágoras, na sua filosofia matemática, considerou Deus como o número 1 que desencadeou a década. O UM, número primeiro, existia imóvel e solitário no Inefável (naquilo que para nós seria o nada) e nesse caso o nada seria a imobilidade absoluta. Houve em certo momento cósmico, não se pode saber como nem porquê, um estremecimento do número 1, que assim produziu o 2 e a seguir os demais números até ao 10. Completando-se a década, tivemos o Todo, a Criação se fizera por si mesma, o Universo surgira e com ele o tempo. É claro que não dispomos de recursos para investigar as origens primeiras e, essas teorias não passam de tentativas de explicação lógica, destinadas a proporcionar-nos uma base alegórica ou hipotética para uma possível concepção do mistério da Criação.

Espiritismo sustenta a possibilidade de conhecermos a verdade a respeito, quando houvermos desenvolvido as potencialidades espirituais que nos elevarão acima da condição humana. Enquanto não chegarmos lá, essas hipóteses devem servir para mostrar-nos que dispomos de capacidade para ir além dos limites do pensamento dialéctico, além do conhecimento indutivo baseado no jogo dos contrastes.

Assim sendo, não podemos aceitar a alegoria bíblica da Criação à letra, como verdade revelada, nem contestá-la orgulhosamente com a arrogância materialista. Na posição do crente temos a ingenuidade e na posição do materialista temos a arrogância do homem, esse pedacinho de fermento pensante, como dizia o Lobo do Mar de Jack London. O espiritualismo simplório e o materialismo atrevido são os dois pólos da estupidez humana. O bom-senso, que é a regra de ouro do Espiritismo, nos livra da estupidez e oferece-nos a possibilidade de chegar à sabedoria sem muito barulho e disputas inúteis.

Partindo do pressuposto de que o mundo deve ter uma origem e aceitando a ideia de que foi criado por Deus – pois assim o afirmam todos os Espíritos Superiores que se referem a este assunto e que revelam uma sabedoria superior à nossa –, Espiritismo admite que a fonte inicial é uma inteligência cósmica. Mas porque uma inteligência e não apenas um centro de forças casualmente aglutinadas no caos primitivo? Porque o Universo se mostra organizado inteligentemente em todas as suas dimensões, até onde podemos observá-lo. Seria ilógico, absurdo, supormos que essa inteligência da estrutura universal, que se manifesta em minúcias ainda inacessíveis à pesquisa científica, desde as partículas atómicas até aos genes biológicos e aos seus códigos admiráveis, seja o resultado de um simples acaso. Nenhuma cabeça bem-pensante poderia admitir isso. A teoria espírita – teoria e não hipótese, pois que já provou a sua validade através de todas as pesquisas possíveis – pode ser resumida neste axioma doutrinário: Não há efeito inteligente sem causa inteligente e, a grandeza do efeito corresponde à grandeza da causa.

Colocando assim o problema, a sua equação torna-se clara. O Espiritismo elabora-a em termos dialécticos: a fonte inicial, Deus, existindo no meio do inefável, constituído de matéria dispersa no espaço, emite o seu pensamento criador que aglutina e estrutura a matéria. Temos assim a Trindade Universal que as religiões apresentam de maneira antropomórfica. Essa trindade não é formada de pessoas, mas de substâncias regidas por uma possível Inteligência, constituindo-se assim: Deus, Espírito e Matéria.

O espírito que a constitui não é uma entidade definida, mas o pensamento de Deus que se expande no Cosmos sobre a forma de substância. Essa substância espiritual penetra o oceano de matéria rarefeita, dispersa e, aglutina as suas partículas, estruturando-as para a formação das coisas e dos seres. Da tese espiritual e da antítese material resulta a síntese do real, do mundo criado por um poder inteligente.

Qual a razão de ser, o objectivo, a finalidade e o sentido da Criação? Espiritismo admite que não podemos conhecer tudo isso no nosso actual estágio de desenvolvimento, mas podemos, através da nossa inteligência humana, indagar, perquirir, pesquisar e chegar a resultados logicamente possíveis. Os dados científicos da Geologia, por exemplo, mostram-nos a Terra como o resultado de um longo processo de formação, no qual é evidente a intenção de atingir um tipo de perfeição em todas as coisas e todos os seres. As formas imprecisas e grotescas das primeiras idades do planeta se vão aprimorando ao longo do tempo, numa sucessão nítida de fases de elaboração caprichosa. Os dados da Antropologia revelam-nos o aperfeiçoamento do homem nas civilizações sucessivas, a partir das selvas. Os dados da Psicologia desvendam-nos os anseios da alma humana, na busca incessante de transcendência, de superação do seu condicionamento orgânico-material. Os dados da Estética revelam-nos o anseio de belezaperfeição e equilíbrio que rege o desenvolvimento individual e colectivo, o indivíduo e a espécie.

Gustave Geley, no seu livro Do Inconsciente ao Consciente, propõe-nos uma visão dialéctica do mundo em que as coisas se transformam em seres e estes avançam em direcção à consciência. É a mesma visão da teoria dialéctica de HegelOliver Lodge considera o homem actual como um processo em desenvolvimento. O Existencialismo, nas suas várias escolas, encara o homem como um projecto, um vector que se lança na existência em busca da transcendência. Para Sartre, o homem frustra-se nessa busca e se nadifica na morte, se reduz ao nada. Para Heidegger, o homem realiza-se no trajecto existencial e se completa na morte. Para Jaspers, o homem consegue transcender-se em dois sentidos: o horizontal, na relação social, e o vertical, na busca de Deus. Para Léon Denis, todo o processo de transformação se explica por esta frase genial: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. Para Kardec, a transcendência humana leva-nos ao plano da angelitude, pois os anjos nada mais são do que espíritos que superaram as condições inferiores da humanidade.

Temos assim o Universo, com a multiplicidade dos seus mundos rolantes no espaço sideral, dos seus sóis e das suas galáxias, como um fluxo permanente de forças em transformação incessante, objectivando a formação dos seres e a elevação destes a condições divinas. Só a hipótese de Sartre admite a inutilidade como finalidade universal.

Os Espíritos Superiores, nas suas comunicações, desmentem e rejeitam essa hipótese negativa, sustentando a natureza teleológica do Universo. Consideram a Criação como um gigantesco processo que só pode ser definido corno o fiat na sua fase inicial, quando a Mente Suprema emite o seu pensamento para unir essa emanação do seu espírito à matéria dispersa. Depois desse instante criador desencadeia-se o tempo e é nele que o processo criador vai desenvolver-se lentamente através dos milénios. E a superioridade desses Espíritos não é avaliada por medidas ou métodos místicos, mas por verificações racionais. Os Espíritos Superiores não ensinam apenas através de ideias, mas também de factos. Provam, através da produção dos fenómenos paranormais, que possuem uma ciência muito superior à nossa, um conhecimento do espírito e da matéria que estamos longe de atingir e uma compreensão de Deus que supera em muito as nossas interpretações antropomórficas da Inteligência Criadora. Além disso, as suas previsões se confirmam de maneira rigorosa, demonstrando que possuem recursos de futurologia muito mais avançados e seguros que os nossos. As suas proposições são ainda relacionadas com os nossos conhecimentos, completando-se na medida em que o nosso adiantamento permita que nos falem a respeito sem provocar dúvidas ou confusões na nossa mente.

A relação de Deus com o Universo não é apresentada em termos de mistério, mas de realidade verificável. Na Terra, o homem representa o ponto culminante do processo evolutivo. A criação do homem à imagem e semelhança de Deus explica-se em termos espirituais. Porque o homem é o único ser terreno que possui mente criadora, pensamento produtivo e contínuo, psiquismo refinado e complexo, capacidade de percepção e de intuição que lhe permitem penetrar na essência das coisas, ultrapassando a aparência ilusória. Feito assim, como um reflexo da divindade, o homem liga-se a Deus não apenas pelos laços do acto criador, mas também por afinidade psíquica e espiritual. É um herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo, como escreveu Paulo, que se prepara para entrar na herança do futuro.

A relação de Deus com o homem começa, portanto, muito antes que ele se defina como criatura humana. Desde o momento em que o pensamento de Deus se une à matéria para modelá-la e, nas fases subsequentes, em que espírito e matéria se fundem nas formas substanciais de que tratou Aristóteles, a relação de Deus com o homem desenvolve-se em progressão constante. Quando se estrutura a consciência humana no ser em evolução, a marca de Deus ali está presente, na lei de adoração que é o sentimento inato de sua filiação divina e se manifestará no sentimento religioso, base de todas as experiências religiosas da Humanidade. Temos de dividir o conceito da experiência de Deus, em que tanto se apoiam as religiões formalistas, em dois tipos bem definidos de experiência: a de Deus, que começa no fiat, como elemento ontogenético (elemento constitutivo da própria génese do homem) e a religiosa, que corresponde às tentativas de uma tomada de consciência de Deus através de formulações religiosas por meio de rituais, instituição de igrejas, sistemática litúrgica e sacramental, organização clerical, ordenações e elaboração dogmática. Confundir a experiência genética de Deus com a experiência formal da vivência religiosa é característica do pensamento superficial, que facilmente se acomoda no jogo aparencial das instituições humanas. Deus, espírito e matéria formam o triângulo fundamental de toda a realidade. A omnipresença de Deus não implica o mistério de uma pessoa sobrenatural que se dispersa nas coisas, mas a participação do pensamento criador de Deus em tudo, desde a formação do átomo até à formação da consciência. Compreendendo que o espírito e a matéria são os dois elementos estruturais da realidade, compreendemos que Deus esteja presente em todas as partículas do Universo, como o poder criador, omnisciente, controlador e mantenedor de todo o equilíbrio universal. Deus penetra o mundo e está nele, como a seiva no vegetal, mas não se reduz a ele, pois permanece inalterável como a fonte de que tudo emanou.

A Ciência actual está a chegar rapidamente a essa constatação. Dizia o físico nuclear Arthur Compton, no seu ensaio sobre o lugar do homem no Universo, que descobrimos a energia por trás da matéria, mas já começamos a perceber que por trás da energia existe algo mais, que parece ser o pensamento. A unidade, a coerência, a perfeição dessa concepção espírita do mundo e do homem passam despercebidos no tumultuar das teorias absurdas que, como escreveu Charles Richetatravancam o caminho da nossa Ciência. Mas parece já próximo o momento em que o caminho se tornará livre.

Não há lugar, nessa concepção admirável, para o equívoco da contradição Espiritualismo-Materialismo em que até agora nos debatemos. Espírito e matéria aparecem sempre unidos, interligados e interactuantes, na dialéctica da Criação. E a negação de Deus, como observou Descartes, é tão absurda como pretendermos tirar o Sol do Sistema Solar.

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José Herculano Pires, Agonia das Religiões / Capítulo 5 – Deus, Espírito e Matéria, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel).