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quinta-feira, 19 de junho de 2025

o sentido da vida ~


síntese final (*)

Podemos, já agora, chegar ao fim do nosso trabalho, tentando elaborar uma síntese final do Espiritismo, nos seguintes princípios gerais:

1) Deus é a inteligência suprema do Universo, causa primária de todas as coisas e, o homem é a individualização do princípio inteligente universal, reflectindo a imagem do Criador no seio da criação;

2) O Universo é um processo geral de evolução, em que todas as coisas e todos os seres caminham do menor para o maior, do mal para o bem, das trevas para a luz, do caos para a ordem, do inconsciente para o consciente, através de leis imutáveis, que a tudo presidem e relacionam, tanto no plano material quanto no moral e espiritual;

3) O homem é a resultante de longa elaboração do princípio inteligente, no seio da matéria através das formas orgânicas, mas ainda não chegou ao seu fim, continuando essa elaboração a processar-se no tempo e no espaço, em direcção a um ideal de perfeição, imanente no próprio Universo;

4) Há seres inferiores e superiores ao homem, pertencentes à escala humana e, dos quais podemos ver alguns exemplos na própria Terra, entre as raças primitivas e os indivíduos geniais, destacando-se entre eles a figura ímpar do Cristo, como modelo perfeito da mais alta expressão humana conhecida no planeta;

5) O homem, graças à sua natureza espiritual, pode aceder ao conhecimento do chamado Universo supranormal ou hiperfísico, entrando em relação directa ou indirecta com os seres imateriais, inclusive os próprios homens libertados do organismo físico pelo processo comum da morte.

Rumo às Estrelas

Assim, como afirma Dennis Bradley, não estamos parados na Terra, fixados, como dolorosos bonecos movidos por cordões invisíveis, num pequenino ponto do Universo, a face material do planeta em que decorrem as nossas dores e angústias passageiras. Não somos galés da fatalidade, nem simples fogos-de-artifício que se acendem e apagam, ininterruptamente, no breve intervalo entre o berço e o túmulo. Não somos também o absurdo joguete de uma realidade universal “nominalista”, que, através das nossas individualidades múltiplas e sem sentido, procuraria a consciência de si mesma. Além da concepção estratificada dos dogmas de fé e além da suposição incoerentemente transcendental da ciência materialista, o Espiritismo leva-nos à convicção racional de que somos espíritos em evolução através do tempo e do espaço, partículas de um todo que é a Humanidade universal e, caminhamos da Terra em direcção às estrelas.

“Na casa de meu pai há muitas moradas”, afirmou o Cristo aos seus discípulos. No Universo infinito há inumeráveis mundos habitados. E o destino do homem não é o simples mergulho de uma gota d’água no oceano, mas o encontro consciente de uma realidade superior, de que nos dão notícia os que, como o Buda e o Cristo, atingiram os cumes da consciência liberta da prisão da forma.

Vinde a mim, todos os que andais em trabalho e vos achais carregados e, eu vos aliviarei, repete o Espiritismo aos homens de hoje. Porque os seus ensinamentos dão segurança ao espírito atribulado, consolam os aflitos e desesperados e, abrem à Humanidade sem rumo da era científica, ameaçada de auto-destruição, as portas largas e luminosas de uma compreensão mais humana da vida e do mundo.

Que o contradigam os negativistas, os que não crêem nem podem crer nessa nova e mais ampla visão universal. Mas, quando quiserem acusar-nos de visionários, de sonhadores inconsequentes, de amantes do maravilhoso, que verifiquem primeiro as suas próprias convicções, as bases frágeis em que assentam, já não dizemos os seus sonhos, mas os seus pesadelos. E, quando quiserem negar a evidência dos factos, em que baseamos solidamente a nossa crença, que realizem pesquisas e investigações mais profundas, mais sistemáticas, mais constantes, mais sérias, mais científicas do que as realizadas pelos que nos deram a incomparável bagagem da bibliografia metapsíquica e espírita. Não nos podem contentar, já agora, as simples palavras e as suposições dos que se dizem entendidos. Mais alto do que os argumentos falam os factos. E os factos aí estão, na frente de todos, como um desafio permanente.

/…

José Herculano Pires, O Sentido da Vida (*) / Síntese Final; Rumo às Estrelas, 18º fragmento e o último desta obra.
(imagem de contextualização: Cristo na casa de Marta e Maria (1654-1655), óleo sobre tela de Johannes Vermeer)

sábado, 5 de outubro de 2024

O Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo VII ~

~~ Rumo ao Estado Metapsíquico ~

Se é possível que o espiritual exista na natureza humana, a sua descoberta só poderá obter-se mediante a exploração extrassensorial, segundo a prática da parapsicologia. O raciocínio metafísico e teológico já não convence o espírito crítico da idade actual. Daí que Lecomte du Nouy expressava acertadamente: “Não podemos combater os tanques com a cavalaria, nem os aviões com arcos e as flechas. Utilizou-se a ciência para solapar os fundamentos da religião. Devemos empregar a ciência para consolidá-la.” (i)

A parapsicologia não é uma evasão da realidade material; pelo contrário, é uma tomada de posse dessa realidade, para transformá-la noutra, mais lógica e firme, mediante a descoberta do númeno que a anima. É indubitável que esse espírito que rege a realidade visível será conquistado pela investigação parapsicológica e mediúnica, desde que, por medo às conclusões da verdade espiritual, não se detenha na periferia do Ser.

Apesar das reservas que se adoptem, para que a parapsicologia se abstenha de toda a hipótese que transcenda o domínio estritamente científico(ii) abre-se perante ela uma zona extracientífica que tem relação com o que se pode chamar o ser transcendente do homem. De maneira que manter a parapsicologia nessa ordem psíquica que se assenta apenas em actividades e funções do psiquismo humano, segundo deseja Robert Amadou, é não reconhecer a possível razão que assiste ao filósofo parapsicológico, em favor da imortalidade da alma, quando se defronta com essas tremendas realidades metapsíquicas que apresentam os fenómenos supranormais, como são as materializações de seres vivos, comprovadas e admitidas pelos maiores sábios da humanidade.

O experimentalismo crítico e analítico das ciências parapsicológicas será o único factor positivo que deterá a acção demolidora do materialismo. Não nos esqueçamos de que o chamado realismo marxista é mais poderoso que os milagres e as apelações da teologia. Acreditamos que os únicos elementos espirituais, que poderão salvar o sentido religioso do homem são as realidades do fenómeno espiritista, acompanhadas pelos esforços experimentais da parapsicologia. (iii)

Nos tempos novos, já não se trata de conformismo nem de crenças sem provas: esta atitude será agora a de uma parte mínima da humanidade, mas nunca a dessa maioria ateísta e antiespiritualista que nega enfaticamente hoje o que aceitou até ontem de maneira cândida. Se é certo que existe uma necessidade de acreditar, o desenvolvimento mental do homem exige novo modo de aceitar as crenças: aspira a crer sobre as bases de um seguro realismo religioso, sem medo de se enganar.

Contudo, os chefes das diversas igrejas existentes, em vez de acatarem como uma realidade escatológica o espiritismo, combatem-no em nome do Diabo, sem perceber que estão a desperdiçar uma das melhores oportunidades para refutar com ele as consequências do materialismo.

Se é certo que o período actual da parapsicologia é o que corresponde à era biológica, segundo o critério de Joseph B. Rhine, a partir de agora devíamos considerar a necessidade de inaugurar a era ontológica da parapsicologia. O problema do Ser, tão estudado no presente, através do que a filosofia denomina Conhecimento do homem, exige do trabalho parapsicológico a demonstração de novas noções ontológicas, que possam tapar a brecha, segundo Rhine, observada na natureza. Essa brecha é, indubitavelmente, o mistério do homem, isto é, a dramática questão apresentada pela filosofia existencial com respeito ao sentido do Ser, relegado apenas à náusea, à angústia, ao nada e à morte.

Que é o homem? Que somos? De onde viemos? E para onde vamos?

Eis aqui as apaixonantes questões que merecem uma resposta categórica.

Francisco Romero, um dos maiores filósofos argentinos, referindo-se ao tema do homem e à posição da filosofia em face desses problemas, escreveu o seguinte:

“O que a presente situação carece exigir da filosofia é uma definição precisa e concreta do homem, uma especificação nítida da sua posição no conjunto e do sentido da sua vida, de acordo com os mais firmes resultados do pensamento e da experiência psicológica e histórica: em suma, uma noção do homem, mais minuciosa, exaustiva e terminante do que as proporcionadas até agora.” (iv)

Como vemos, a necessidade espiritual de um conhecimento definitivo do homem está no íntimo de todos. A filosofia, mais do que em nenhuma outra época, aspira a solucionar o problema do homem. O Ser continua a ser um problema metafísico e religioso, apesar de tudo o que foi dito até agora. A situação dramática em que se encontra a filosofia torna-se mais desesperadora à medida que as teorias, hipóteses e petições de princípio se vão acumulando. Não nos esqueçamos que são numerosos os sistemas e as ideologias filosóficas e religiosas que pretendem interpretar o homem. Não obstante, nenhuma dessas formulações se mostrou capaz de derrotar esta sinistra concepção materialista do mundo: a filosofia do nada. Por outras palavras, o fúnebre sentido desta definição do existencialismo niilista: o homem, é um ser para a morte eterna.

O filósofo alemão Fritz J. Von Rintelen, num belo trabalho, exprimiu-se assim: “Nenhum sentimento já evoca a Deus, mas tão-somente ao Nada.” (v)

Esta conclusiva afirmação reflecte o verdadeiro sentir dos tempos novos. Já não se trata de afirmar a realidade espiritual do homem e da existência, mas procura matar-se o homem, levá-lo ao suicídio, através de um existir fundado no nada. A impressão que se poderia ter é a de que um demónio negador se alojara na mente humana, procurando apenas destruir o Ser espiritual que a anima.

De acordo com o sector materialista da humanidade é mais racional e, até mais científico, dizer que o homem morre para sempre, do que supor que viverá eternamente, na vida do espírito. Parece que, para o homem moderno, seria preferível ser pó ou nada a ser espírito imortal. E, segundo outros argumentos, é mais moral e até mais natural morrer para sempre do que viver eternamente.

A disputa suscitada pelo existencialismo, entre essência e existência, seria facilmente resolvida se a filosofia e a religião levassem em conta as manifestações espirituais dos fenómenos metapsíquicos e parapsicológícos.

Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, esforça-se por fazer prevalecer o Nada sobre o Ser ou a essência espiritual do homem.

Vemos nas suas páginas que o nada foi convertido em valor filosófico, para sustentar a morte eterna e definitiva do indivíduo. Mas não devemos espantar-nos com essa valorização do nada, já que, segundo a bíblia, Deus fez o homem do nada. Consequentemente, esse instinto do nada existencial ressurge com o existencialismo ateu, em forma catastrófica, do inconsciente da espécie, levando de roldão o ético e toda a finalidade transcendente do homem e do Universo.

O Nada, para Deus, era um valor criador; por isso, diz a bíblia que o Criador fez o mundo surgir do nada. Daí se conclui que o Ser e o mundo, como afirma o existencialismo niilista, estão condenados ao nada, o que vale dizer que esse existencialismo, não obstante o seu rigoroso ateísmo, é uma filosofia vinculada a Deus e à bíblia.

metapsíquica e a parapsicologia descobriram, entretanto, que o nada não é verdadeiro; comprovaram que na vida social existe o que Richet chamou de inabitual e, que os fenómenos transcendentais desse campo revelam uma teleologia, tanto para o Ser como para a civilizaçãoA metapsíquica prova que o mundo objectivo pode descentralizar-se, para que a essência psíquica se manifeste na vida espiritual da humanidade. Além disso, estabeleceu que a existência não é atributo exclusivo do homem e do seu mundo, mas que o existir é próprio de outros seres e entidades inteligentes, situados no mundo invisível que nos circunda.

A decadência espiritual do homem e da cultura contemporânea reclamam a colocação de problemas metafísicos e sociais, com o objectivo de alcançar novas interpretações da existência mais edificantes para o destino do espírito encarnado. Chegou a hora de uma metapsíquica existencialresistir a isso é deter a marcha das verdades espirituais. Charles Richet, provando este facto singular e dramático da evolução, declarou: “Amanhã, talvez, a metapsíquica terá o direito de elevar-se mais alto, nos rumos de uma moral, uma sociologia e uma teodiceia novas.” (vi)

Com efeito, a lei dos três estados, de Auguste Comteo teológico, o metafísico e o positivo, permite-nos acrescentar agora um quarto estado: metapsíquicoDesta maneira poderíamos inaugurar uma nova forma de conhecer as três grandes manifestações da história: a sociedade, o Espírito e a divindade. Acreditamos que o melhor campo de investigação metafísica é o próprio homem, porque nele está presente esse quarto estado, que Comte não chegou a conhecer: o estado metapsíquicoMas esse campo, para ser efectivo, deverá entrosar-se com a interpretação espírita do homem e da vida, já que nesta se encontra o fundamento filosófico, teosófico e religioso da continuidade do Ser. (vii)

/…
(i) Leconte du Nouy, O Destino Humano.
(ii) Revue Metapsychique, R. P. Reginaldo Omez, 1950.
(iii) O facto básico de deixar estabelecida a realidade de psi envolve um princípio de grande significação, aplicável a este problema da sobrevivência espiritual. Pois se não houvesse nenhuma evidência de algo que transcenda as leis físicas, se não houvesse nada que desafiasse os limites da interpretação mecanicista do homem e do mundo vivente, não valeria a pena pensar ainda no problema da sobrevivência. (Revista de Parapsicologia, n° 2 - ano 1955).
(iv) Miradas Sobre el Hombre, La Nación - Buenos Aires, 1950. (Edição de 21 de março).
(v) Lá Mística de Ia Muerte y Ia Filosofia Contemporanea, Critério, Buenos Aires, n.° 1.117.
(vi) Tratado de Metapsíquica, Charles Richet, pág. 37, edição espanhola, 1925.
(vii) Na Revista Espírita, de abril de 1858, Kardec aceitou a sugestão de um correspondente de acrescer à lei dos três estados, de Comte, o estado psicológico da evolução humana, iniciado com o espiritismo. O autor renova essa proposição, como vemos, com outra denominação. Essa coincidência e o desenvolvimento actual das pesquisas psíquicas, mostram que Kardec e o correspondente da “Revista” estavam certos. O leitor pode verificar o facto no volume I da colecção da “Revista”, lançada pela Edicel. É o editorial do número de abril, intitulado: “Período Psicológico”. (Nota de J.H.Pires).

Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo VII Rumo ao Estado Metapsíquico, 12º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Inquietações Primaveris ~


A Escada de Jacob ~

O nascimento e a morte determinam o trânsito especial entre o Céu e a Terra. Dia e noite, sem cessar, descem e sobem os anjos pela escada simbólica da visão bíblica de Jacob. Os anjos são espíritos, e o Apóstolo Paulo esclareceu que são mensageiros. Trazem e levam mensagens de um plano para o outro. São mensagens de amor, de estímulo, de orientação e encorajamento. As mensagens são dadas, na maioria, através das intuições, na Terra, aos destinatários encarnados. Mas há também as que são dadas por via mediúnica, através de um médium, ou através dos sonhos. Essa comunhão espiritual permanente é conhecida desde as épocas mais remotas. Mas só em 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em Paris, o problema foi encarado como positivo e levado à consideração dos sábios e das instituições científicas. As Igrejas Cristãs, tendo à frente a Católica Romana, levantaram-se contra essa colocação, que diziam simplória, de um grave problema teológico. Só os clérigos e os teólogos, segundo elas, tinham direito a tratar do assunto. Um século depois, a questão estava nas mãos das Ciências e a Ciência Espírita, fundada por Kardec, era colocada à margem do mundo científico, por não possuir um objecto legitimamente científico, material, ao alcance dos sentidos humanos. Richet levantara, na Metapsíquica, a tese do sexto sentido, e Kardec sustentava que os fenómenos mediúnicos, pelo facto mesmo de serem fenómenos, constituíam o objecto sensível da Ciência Espírita.

Em 1830 os professores Joseph Banques Rhine e William McDougall lançavam na Universidade de Duke, na Carolina do Sul (Estados Unidos da América) a nova Ciência da Parapsicologia, para a investigação desses mesmos fenómenos. E em 1840 ambos proclamavam, com os seus colaboradores, a prova científica da Clarividência. Dali em diante cresceu rapidamente no mundo o interesse pelo assunto e surgiram pesquisas e cátedras em todas as grandes Universidades da América e da Europa. Hoje a questão é pacífica no plano científico, e mesmo no religioso, pois a Igreja aceitou a realidade dos fenómenos e interessou-se efectivamente pelas pesquisas. A Parapsicologia avançou rapidamente, seguindo a trilha da Ciência Espírita, sem nenhum desvio.

Vencida a barreira dos preconceitos e das sistemáticas a que se apegavam numerosos cientistas, a Parapsicologia definiu-se como a Ciência do Homem. Rhine, ao aposentar-se na Universidade de Duke, estabeleceu a Fundação para a Pesquisa da Natureza Humana. A Parapsicologia sustenta a natureza espiritual do homem e as suas possibilidades de acção extensiva e intensiva no plano físico e mental ou espiritual. “A mente, que não é física, age sobre a matéria por vias não físicas”, declarou Rhine, apoiado por grandes nomes da Ciência em todo o mundo. Essa declaração mudou o panorama cultural do planeta. Hoje ninguém duvida, quando nasce uma criança, que se trata de um espírito humano reencarnado biologicamente na Terra. Embora ainda existam sectores científicos infensos à nova Ciência, firmou-se no mundo de maneira definitiva. Os cientistas que a negam ou rejeitam são considerados como retrógrados ou se definem a si mesmos como pertencentes a religiões que não devem aceitar os novos princípios.

A morte perdeu o sentido de negação da vida. Os fenómenos Teta, um dos últimos tipos de fenómenos paranormais pesquisados pela Parapsicologia, nada mais são do que as comunicações mediúnicas. Além do trânsito entre a Terra e o Céu – o mais movimentado do mundo – existe agora a comunicação permanente entre os homens e os espíritos. As descobertas físicas no plano das pesquisas sobre a estrutura da matéria mostraram que não vivemos num mundo tridimensional, mas multidimensional. Os que morrem na Terra passam para os planos da esfera semimaterial, de matéria rarefeita, que a circunda, e, conforme o seu grau evolutivo, para as hipóstases espirituais entrevistas por Plotino, na fase helenista da Filosofia Grega. Nas sessões espíritas, em todo o mundo, milhares de pessoas conseguem conversar com amigos e parentes mortos, que dão provas evidentes de sua sobrevivência após a morte. As restrições dos sistemáticos e preconceituosos continuam, mas a realidade impõe-se de tal maneira que essas restrições já diminuíram assustadoramente. A Terra espiritualiza-se, apesar do materialismo das religiões. E a morte já não amedronta milhares dos milhões de criaturas que morrem todos os dias.

Geralmente não se pensa no que isso representa para a Humanidade. Entregues às suas preocupações absorventes do seu dia a dia, homens e mulheres ainda vivem na Terra como há milhões de anos. Cuidam da vida sem se preocuparem com a morte. Essa posição anestésica é útil na Terra, mas desastrosa nos planos espirituais. Nas manifestações de espíritos (fenómenos teta) pode avaliar-se o prejuízo causado às criaturas por essa alienação à matéria. Embriagados pelos seus anseios de conquistas materiais, praticamente tragados pela vida prática, a maioria dos que morrem não têm a menor noção do que seja a morte. Entram em pânico após o trespasse, apegam-se depois a pessoas amigas de suas relações, perturbando-as sem querer ou procurando, através delas, sentirem um pouco da segurança perdida na Terra. Além desses prejuízos, a falta de educação para a morte causa o prejuízo maior dos desesperos, angústias existenciais e loucuras que hoje varrem a Terra em toda a sua extensão. Por outro lado é preciso considerar-se os prejuízos imensos produzidos pela ignorância das finalidades da vida. As próprias Ciências sofrem dessa ignorância, que lhe barra o caminho de descobertas necessárias para a melhoria das condições da vida terrena.

Por mais atilados e dedicados que sejam os cientistas, se não tiverem conhecimento das leis fundamentais que regem o planeta e condicionam a Humanidade, não podem penetrar nas causas dos males e os problemas que enfrentam. É questão pacífica que a falta de conhecimento preciso e amplo do meio em que estamos nos deixa entregues a perigos que não podemos prever. É o que agora mesmo acontece, no caso da poluição perigosíssima do planeta pelas exigências do desenvolvimento industrial. A falta de interesse pela Ecologia mergulhou o mundo numa situação desastrosa, que ainda não sabemos como poderemos superar. A Ciência ateve-se aos efeitos, deixando as causas por conta da Filosofia e da Religião. Esta última fechou-se nos dogmas ilusórios, mandando às calendas a questão fundamental das causas. Entregues aos conhecimentos empíricos da realidade constatada nos efeitos, os homens conseguiram realizar a façanha trágica da poluição total do planeta, com os mais graves prejuízos para a vida humana, bem como os vegetais e os animais. Descuidamos da morte e perdemos a vida. Se não mudarmos urgente de atitude, transformaremos a Terra numa Lua sem atmosfera.

A nossa insistência na consideração escatológica da morte, na sua função essencialmente destruidora – negando-lhe o papel fundamental de controladora da vida e a de renovadora das civilizações –, parece ter provocado uma reacção na nossa própria estrutura ôntica que nos transformou em nadificadores de nós mesmos e de toda a realidade. O estranho privilégio que pretendemos, de sermos os únicos seres condenados ao nada, um Universo em que tudo se renova e se eleva, constitui a mais espantosa contradição de toda a História Humana. Essa contradição monstruosa deforma a figura do homem no mundo que ao contrário de imagem e semelhança de Deus, aparece como a fera mais temível do planeta, onde as feras selvagens são sistematicamente destruídas e devoradas pelo animal dotado de inteligência criadora, sentimento, moral, compreensão de sua espiritualidade e sensibilidade ética e estética. O humanismo apaixonado de Marx, que sonhava sem o saber com o Reino de Deus na Terra, negou-se a si mesmo ao formular a teoria do poder totalitário e absoluto de uma classe social contra as outras. Larissa Reissner, que lutou pelos bolchevistas de armas na mão, mostra-se desolada, nas páginas brilhantes de seu livro Homens e Máquinas, ao referir-se aos campos de trabalhos forçados da URSS, em que antigos e bravos companheiros de luta pagavam sob o poder soviético o preço de suas ilusões para o fortalecimento do Estado-Leviatã de Hobbes. A terrível dialéctica das revoluções sociais materialistas, sem Deus e sem coração, levou o Marxismo ao pelourinho da lei de negação da negação, negando-se a si mesma no processo histórico. Sem o respeito do homem por si mesmo, pela sua condição humana, todas as tentativas de melhorar o mundo acabam na asfixia da liberdade, nadificando o homem depois de transformá-lo em objecto. É essa também a contradição fundamental de Sartre em O Ser e o Nada e na Crítica da Razão DialécticaMas é precisamente das contradições entre a tese e antítese que podemos obter a síntese que nos dá a verdade possível de cada problema.

Os anjos que descem pela escada de Jacob, na alegoria bíblica, representam a tese da proposição existencial – a verdade possível do Céu, ou seja, dos planos divinos, entendendo-se por divino aquilo que supera a condição material. Mas são esses mesmos anjos que voltam para o Céu representando a antítese. O trânsito espacial resulta da síntese humana em que a proposta terrena e a resposta celeste se fundem no processo existencial da transcendência. Por isso Kardec rejeitou as revelações proféticas do passado, individuais e exclusivistas, que geraram as religiões da morte, estabelecendo o princípio das revelações conjugadas, de natureza científica, em que o mundo é a tese, o homem é a antítese e a verdade é a síntese. Essa síntese, como acentuou Léon Denis, é a mundividência espírita, de difícil compreensão para os anjos que descem e ficam na rotina terrena, no círculo vicioso das reencarnações repetitivas. A verdade possível é-lhes interditada, não por condenação divina, mas por opção própria. Quando eles romperem o círculo vicioso poderão compreender essa verdade, a verdade possível, ao alcance do homem que soube transcender-se. Na dialéctica espírita o homem propõe a tese, o espírito responde com a antítese e a Razão elabora a síntese do conhecimento possível. A religião, como ensinou Kardec, é a consequência da revelação espiritual fundida com a revelação científica. A verdade possível tem a sua legitimidade e a sua validade precisamente nessa fusão. Os limites da vida terrena condicionam a realidade humana às possibilidades cognitivas da mente humana actualizada na matéria. O espírito revela um princípio espiritual e o cientista revela a lei terrena a ela correspondente. Só nesse processo de perfeito equilíbrio o homem pode evitar os perigos do misticismo alienante, para viver na Terra em marcha para a transcendência, através da Existência. É esse o processo que permite a fusão dialéctica da Ciência com a Religião, como fundamento de toda a verdade possível na Era Cósmica. Por isso, não insistimos no Espiritismo por sectarismo ou proselitismo, mas pelo facto incontestável de só ele nos oferecer os instrumentos conceptuais necessários à conquista da realidade. Sem a fusão da afectividade com a razão não poderíamos atingir a síntese do conhecimento geral, na fragmentação dos efeitos sem o esclarecimento das causas. O método indutivo da Ciência permite-nos reunir os efeitos para a compreensão possível da causa única e transcendente.

/…


José Herculano Pires – Educação para a Morte, A Escada de Jacob, 13º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

quarta-feira, 15 de março de 2023

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo VI 

A Realidade Viva do Pensamento Espírita 

a) A Necessidade Ideológica do Estudo da Filosofia 

É indiscutível que, para o estudo do novo espiritualismo, se torna necessário conhecer os princípios essenciais da filosofia. Mas porque é que é necessário este conhecimento? Porque o kardecismo está estreitamente ligado à filosofia espiritualista, sem a qual não poderíamos compreender exactamente os valores e o alcance da teoria e a prática do espiritismo. (1) 

Torna-se indispensável o conhecimento filosófico para a refutação com êxito das falsas imputações feitas ao espiritismo, pelas correntes eclesiásticas e materialistas. Mas o que é a teoria filosófica? Segundo o critério geral, é aquela que abrange a própria essência do Conhecimento; sem uma teoria filosófica amplamente desenvolvida na mente e na consciência, será de todo impossível chegar-se a compreender o sentido real da concepção kardecista. 

E o que é a prática filosófica? É o acto volitivo de converter a teoria em factos, mas factos reais e positivos. Sem a prática filosófica, não haveria uma filosofia objectiva do espiritualismo espírita, nem a acção social e espiritual do kardecismo. 

Na filosofia, é indispensável conjugar a teoria com a prática. É necessário que o ideal se aposse do real. De contrário, haveria desvinculação entre o espírito e a forma, isto é, entre a essência e a existência. Mas a teoria espírita é exequível? Sim, a teoria espírita é exequível, porque é uma realidade espiritual, cuja finalidade é ordenar e transformar a ordem imperfeita da existência, isto é, da sociedade e de toda a humanidade. A prática do espiritualismo, através do kardecismo, é a melhor demonstração da objectividade que se consegue alcançar, com referência à espiritualidade do homem e da natureza. Desta maneira, fica desmentida a negação assacada contra o idealismo pelo materialismo, porém, sempre e quando o idealismo se apoiar no espiritualismo espírita. É por isso que todo o homem activo deverá conhecer os princípios fundamentais da filosofia, único meio de passar do espiritualismo teórico ao kardecismo prático. (2) 

b) Em Que se Baseia a Filosofia? 

A filosofia baseia-se no conhecimento da essência que informa as coisas, a individualidade e a personalidade do homem. É um método para reflexionarmos sobre a própria existência e a existência dos demais; para observarmos de que maneira essa existência está vinculada ao semelhante e ao dessemelhante, fundando-se especialmente neste fio essencial que unifica a todo o existente. É por meio desta noção ideológica que a filosofia espiritualista se fortifica, mediante o kardecismo, passando a ser uma filosofia prática da realidade. A teoria filosófica se transforma em acção e prática da existência espiritual, única forma de evidenciar a convicção ideológica que emana da realidade espírita. A filosofia torna-se prática, além disso, ao demonstrar a essência real do Ser encarnado e do seu espírito imortal, o que ainda se reafirma pelos fenómenos da mediunidade. 

c) O método Kardecista Como Fundamento do Espiritualismo Positivo 

O kardecismo constitui, no novo desenvolvimento do espírito filosófico, o método racional pelo qual se poderá estabelecer, — como já se vem fazendo, — a realidade do espiritualismo espírita e positivo. O antigo espiritualismo está viciado, como se sabe, por crenças e supostos metafísicos que não se conformam com o pensamento científico dos novos tempos. O seu conteúdo é uma mixórdia de ideias sustentadas no passado, que não se apresentam harmónicas nem uniformes. A mentalidade moderna busca uma doutrina baseada na verdade, mas concorde e objectiva em relação ao mundo. O espiritualismo antigo foi apenas um desejo de conhecer o passado, mas nunca poderá aspirar a apresentar-se como uma real filosofia espiritualista, já que a sua parte essencial está recoberta por uma carapaça impenetrável. 

O espiritualismo positivo nasce, entretanto, com o método kardecista e, se expressa vivamente através de uma filosofia que prepara o espírito, fazendo-o penetrar a fundo nos problemas da existência. Isso se deve ao facto de ser o espiritualismo espírita a consequência natural do fenómeno metapsíquico, cuja realidade fundamentou o conhecimento filosófico da Terceira Revelação. Daí a conclusão de que o verdadeiro espiritualismo deve estar apoiado no método kardecista, pois todo o espiritualismo proveniente de tradições e lendas, mescladas caoticamente, não chegará nunca ao grau de veracidade necessária e, não passará nunca de um pensamento espiritual híbrido e desvitalizado. 

No antigo espiritualismo predominou sempre, por mais adiantado que se apresentasse, o método eclesiástico e ritualístico, pela sua absoluta adesão ao passado. Ao contrário, o espiritualismo espírita é a resultante de uma evolução mental e espiritual do homem. Por isso é que o método kardecista nos leva do espiritualismo ao espiritismo, revelando-nos que este último é a concepção espiritual mais adequada para penetrarmos no conhecimento do Espírito e, como dizia o filósofo e biólogo alemão Hans Driesch, no mundo dos espíritos. O antigo espiritualismo, por não avançar para a concepção espírita, mantém-se na sua ambiguidade filosófica; admite o insustentável, por medo ao espiritismo; mas tarde ou cedo o realismo metapsíquico o fará aproximar-se da concepção kardecista, para se transformar em espiritualismo positivo. 

d) A Dialéctica Palingenésica do Kardecismo 

O método kardecista baseia-se na dialéctica palingenésica do progresso e da evolução, enquanto o antigo espiritualismo se funda numa concepção fatalista, no que respeita à lei de causalidade ou de causa e efeito. A dialéctica de Hegel é o grande instrumento com que se pode conhecer o fenómeno palingenésico, a que está sujeito o Ser na sua ascendente evolução. Além disso, é por meio da dialéctica que se poderá transformar a ideia da reencarnação, que nos vem do Oriente, em renascimento ou palingenésia dinâmica, para a civilização do Ocidente. Sem o método dialéctico e kardecista, a reencarnação continuará sendo um exotismo oriental, sem ligação nem entrosamento com o processo histórico. 

Quem velou sempre, com o seu conceito quietista, a reencarnação, foi esse antigo espiritualismo, inspirado, por assim dizer, na ideologia eclesiástica a que já nos temos referido. O kardecismo, ao contrário, apresenta-se como uma consequência das três etapas que presidem à revelação espiritual: a mosaica, a crística e a mediúnica. Como se sabe, a Terceira Revelação é o produto desse espírito invisível que passou através da história, até se sintetizar no método kardecista, que está a elaborar a nova consciência religiosa da humanidade por meio do espiritualismo espírita e cristão. 

O professor Asmara, destacado filósofo espanhol, dizia que o espiritismo dialéctico havia nascido no Congresso Espírita de Barcelona; mas os pregadores do espiritismo, posteriores a Denis e Delanne, esqueceram-se desse aspecto original da filosofia espírita, que nada mais era do que a reafirmação do kardecismo. Outro que também realizou uma ampla interpretação dialéctica do espiritismo foi o nosso compatriota Manuel S. Porteiro, com o seu livro Espiritismo Dialéctico(3) no qual se observa como a filosofia espírita determinou a aparição de um espiritualismo positivo, em relação com os fenómenos históricos. 

Na ideologia dialéctica do kardecismo o processo palingenésico do Ser revela uma evolução incessante, que nos coloca em novos ambientes espirituais, determinando ainda uma nova visão religiosa para a consciência humana. Com efeito, se o processo dialéctico da história se interpretasse na sua exacta realidade, seria preciso aplicar-lhe o sentido palingenésico do espírito, mas recorrendo ao kardecismo, que nos fará ver a intervenção do mundo espiritual no referido processo. 

e) Oposição da Ideologia Dogmática ao Kardecismo 

A ideologia dogmática coloca-se decididamente contrária ao kardecismo e ao espiritualismo espírita, do que se deduz que essa ideologia está em crise e, que já não resiste ao transformismo espiritual que o método kardecista realiza no social e no espiritual, juntamente com o fenómeno mediúnico, sobre o qual se baseia a realidade espírita. 

Se o espiritualismo espírita fosse um erro, não haveria motivos para temê-lo nem para sair-lhe ao encontro. Entretanto, a ideologia dogmática bem sabe que o kardecismo é uma realidade positiva e que avança conduzida pelo Espírito de Verdade. Por isso o enfrenta e combate, tratando de preservar os seus domínios espirituais. Mas o espiritismo proclamou esta sentença histórica: São chegados os tempos, e isso é o que está motivando um novo ideal nas consciências, ao calor de um novo espírito religioso. Já não haverá uma só ideologia religiosa; futuramente, o ideal deísta será um imperativo da consciência, visto que o aparecimento desse novo espírito religioso não dependerá da exterioridade do indivíduo, mas do fundo do seu inconsciente. Isto quer dizer que o progresso religioso provirá da zona interna do Ser, estando assim no próprio inconsciente do homem o maior adversário da ideologia dogmática. 

Oprimir o mundo interno do homem, por meio de ideias já superadas, seria provocar uma rebelião anímica e espiritual, capaz de fazer desmoronar violentamente as antigas formas religiosas. Não se deve esquecer que a opressão do inconsciente significaria, além disso, uma oposição obstinada ao que tem que vir: o novo mundo religioso, que é um mundo do espírito, o que vale dizer que surgirá, apesar dos obstáculos, das profundas raízes do Eu. 

Do seu mundo inconsciente dependerá o verdadeiro sentimento religioso do homem. Nesta realidade psíquica do Eu é que jazem os germes da nova consciência religiosa, elaborada, como sabemos, pelo processo palingenésico a que ele está sujeito. Isto nos está a indicar que o Ser espiritual não é a consequência do corpo físico: o Eu é a divina essência que avança através das idades, levando consigo todo o saber adquirido. Resulta, assim, num resumo das múltiplas existências vividas pelo espírito. Daí que a Divina Sabedoria surgirá ao desenvolvimento da consciência, sendo o obstáculo principal do dogma o inconsciente do indivíduo, de cujas profundezas surgirá a religião-Sabedoria, que fará vibrar unissonamente com o Universo o corpo psíquico da humanidade. 

No mistério interno do Eu radica-se a chave das novas ideias religiosas que vão aparecendo. A psicologia do Ser agora se reestuda através de introspecções e explorações íntimas. Nestes novos tempos, o Espírito se está a libertar das influências dogmáticas, para se sentir na plenitude de si mesmo. É por essa evolução que o Eu se vai afirmando como independente e individual, livrando-se de falsos instrutores para entrar nas profundas regiões da sua natureza imortal e conseguir, por ele mesmo, a luz e a sabedoria de que tanto necessita. (4) 

f) O Que é a Filosofia Espiritualista? 

A filosofia espiritualista do kardecismo é a prova fenomenológica da realidade espiritual do espiritismo. Não nos esqueçamos de que o espiritismo é o clímax da filosofia espiritualista e, que se apoia positivamente no método kardecista. Sem espiritismo, o espiritualismo resulta numa utopia filosófica; mas, com o espiritismo, os seus princípios se nutrem da realidade espiritual. De maneira que todo o espiritualismo filosófico, que aspire objectivar a sua ideologia, deverá apoiar-se no espiritismo e no seu método kardecista. 

A verdadeira filosofia espiritualista é uma consequência iniludível do fenómeno espírita e metapsíquico, constituindo uma interpretação normal e supranormal do homem e do Universo, se é que não abandonamos a lógica irrefutável do kardecismo. 

g) As Relações Entre o Espiritualismo e o Kardecismo 

A realidade do espiritualismo deverá basear-se na objectividade filosófica; sem esta objectividade espiritualismo será uma metafísica irreal, com vida temporária. Se é certo que se relaciona subjectivamente com o homem, sem objectividade não penetrará no âmbito real do Ser e por essa razão terá de assimilar o kardecismo, um dos melhores métodos para reconhecer a realidade existente nas diversas utopias espirituais. Repetimos que o espiritualismo só se afirmará quando se transformar em espiritismo e se afastar das nebulosidades metafísicas. A filosofia do kardecismo é um método lógico para captar a realidade espiritual do mundo. Disto se deduz que o Espírito imortal está a demonstrar pelos mesmos espíritos comunicantes, que têm expressado o seguinte entimema: Existo: logo, o nada não existe. (5) Por conseguinte, qualquer espiritualismo dogmático, que não esteja demonstrado por esse realismo mediúnico-comunicante, está viciado nas suas bases e se encontra frente à possibilidade de ser anulado pelas ciências materialistas. Pelo contrário, no espiritualismo espírita existe uma certeza racional, um idealismo lógico e objectivo, cujo testemunho favorável se encontra na comunicação espírita. Por isso, o método kardecista é o resultado de uma experiência metapsíquica do fenómeno mediúnico. 

O espiritualismo espírita, condicionado pelo kardecismo, é a resultante de uma verdade substancial emanada do próprio processo evolutivo da inteligência. Esta é a razão das suas sólidas bases ideológicas e, porque resiste filosoficamente às contradições da existência. 

h) A Transformação do Fenómeno Mediúnico em Comunicação Espírita 

A tríade dialéctica constitui o método sobre o qual se baseia a filosofia palingenésica do kardecismo. O fenómeno mediúnico veio confirmar o antigo conceito de Heráclito: “Tudo passa e se transforma”, pois a matéria, ao ser movida pelo referido fenómeno, revelou o estado vibratório do mundo atómico e a possibilidade da sua fusão nuclear. (6) 

Esse primeiro efeito do fenómeno mediúnico resultou realmente extraordinário, visto haver determinado a transformação do espiritualismo em espiritismo. Esta transformação dialéctica determinou, por sua vez, uma evolução do sentido espiritual da filosofia. O espiritualismo dogmático possuía apenas um vago sentido do Espírito. Com o fenómeno mediúnico e a acção dos espíritos comunicantes, transformou-se em espiritismo, isto é, produziu o enlace e a relação entre o visível e o invisível. Com o kardecismo, essência pura da filosofia espírita, revelou-se a influência do mundo dos espíritos sobre a história e a natureza. 

O fenómeno mediúnico foi considerado, desde o início, como perigoso pelo espiritualismo dogmático. Não obstante essa apreciação, ao lado do mesmo se fez presente um númeno espiritual que, com a dialéctica kardecista, expressando: Todo o efeito inteligente possui uma causa inteligente, trocou o seu primeiro sentido de fenómeno pelo de comunicação. Foi desta maneira que se teve consciência da mensagem dos espíritos, os quais fundaram o método kardecista do espiritualismo. 

Com o fim de refutar os erros e contradições do materialismo, o fenómeno mediúnico continua sendo uma necessidade. Mas, nos tempos actuais, é justamente avaliado como uma evolução para a revelação e comunicação dos espíritos superiores. Esta etapa alcançada pela mediunidade corresponde a um grau superior da consciência religiosa e filosófica da humanidade. Por isso é que o espiritualismo espírita é como uma síntese de todo o antigo espiritualismo, depurado e renovado pelo kardecismo. 

A única esperança do espiritualismo dogmático, de vencer o espiritismo, consistia em mostrá-lo como uma causa do demónio, à base da irrealidade da comunicação dos espíritos. Mas o caso é que esta comunicação ou revelação se acentuou cada vez mais, ao ponto de se tornar impossível contê-la e proscrevê-la. A sua constante e crescente actualização está a mostrar, aos antigos espiritualistas, que o espiritismo não é uma invocação dos mortos pelos homens, como eles o afirmavam até há pouco, mas um chamamento espiritual dos mortos ao homem, para que este se faça consciente da realidade do além-túmulo e da ligação constante que existiu, existe e existirá sempre, entre o visível e o invisível. 

i) Do Espiritualismo Inconsciente ao Espiritualismo Consciente 

O espiritualismo inconsciente, adequada definição do espiritualismo dogmático, foi superado pelo kardecismo, isto é, pela forma consciente do novo espiritualismo expresso na filosofia espírita. Gustave Geley confirmou cientificamente o kardecismo, este notável método que permitiu a transformação do espiritualismo em espiritismo. A partir desse momento, a consciência espiritual do homem se fez consciente de sua ideologia espiritualista, que se afastou inteiramente das velhas crenças religiosas. Assim se une o Ser com a grandeza do Universo, sentindo-se actor consciente no grande processo da evolução e, reconhecendo que Deus está presente e actua no próprio seio do Cosmos. 

Pelo espiritualismo consciente, o seu ideal filosófico se ajusta com a amplitude do Universo: o homem encara a Terra como uma estação de paragem, mas sabendo que no espaço existem outras, onde ainda voltará a deter-se, para recolher novos ensinamentos que auxiliem o desenvolvimento da sua natureza divina e, assim prosseguir na sua carreira infinita. 

Podemos dizer que o espiritualismo consciente é uma consequência do método kardecista, que une o Espírito com a vida Universal e o maravilhoso Plano Divino, sob cuja influência se desenvolve a evolução palingenésica dos seres e das formas. 

/… 
(1) Veja-se o n°1, “Espiritismo e Espiritualismo”, na “Introdução da Doutrina espírita”, em O Livro dos Espíritos. (Nota de J. H. Pires). 
(2) Embora Kardec recusasse a expressão kardecismo, por humildade, Mariotti a emprega, como vemos nesta frase, num sentido de objectivação da teoria espírita. Realmente, a teoria objectivou-se através da acção prática de Allan Kardec. (Nota de José Herculano Pires). 
(3) Espiritismo Dialéctico, de Manuel S. Porteiro, Editorial Victor Hugo, Buenos, Aires, 1960, aparecerá também na Colecção Filosófica Edicel. Porteiro e Mariotti participaram do Congresso de Barcelona, em 1934. (Nota de J. H. Pires). Esse livro, traduzido por José Rodrigues, foi lançado pelo Pense em edição digital, em 2001 e pelo CE João Barroso, em formato de livro. (Nota do Pense).
(4) Leia-se o Cap. I de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Com os novos tempos, surge a religião em espírito e verdade, livre de exigências materiais e de sectarismo, como Jesus anunciou à mulher samaritana. João, 4:5-24. (Nota de J.H. Pires). 
(5) Allan KardecA Génese, cap. I. 
(6) Vejam-se as pesquisas de Friedrich Zollner, em Provas Científicas da Sobrevivência, Colecção Científica Edicel, 1966. (Nota de J.H. Pires). 


Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo VI – A REALIDADE VIVA DO PENSAMENTO ESPÍRITA, 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Inquietações Primaveris ~


Inquietações Primaveris ~~

A adolescência é a fase mais difícil e perigosa da vida, mas também a mais bela. Tudo é esperança e sonho, mesmo para os espíritos mais práticos. Mas existem as adolescências desastradas, carregadas de provas esmagadoras. É nessa fase – entre os 13 e os 14 anos até aos 18 ou 20 –, que o jovem toma consciência de suas novas responsabilidades, na sua nova residência na Terra, para lembrarmos o título de um dos mais belos livros de poemas de Pablo Neruda. Nesse período as lições e os exemplos da infância amadurecem lentamente e precisam, mais do que nunca, ser acrescidos de novos e vigorosos estímulos. Porque, nessa primavera da vida avivam-se o perfume das flores, o cheiro estonteante do pólen e as condições de vagas lembranças do passado. O adolescente sente-se atraído por sectores diversos de actividades e é arrastado para comportamentos anteriores quase sempre perigosos. Ele se mostra rebelde, insatisfeito, opõe-se aos pais e pretende corrigi-los. Torna-se crítico, irónico, não raro zombeteiro, pretensioso, acreditando saber mais do que os outros, especialmente do que os mais velhos. É o momento da reelaboração da experiência das gerações anteriores, bem acentuado na obra de Dewey. Ele tem razão e sabe que a tem, mas não sabe como a definir, expor e orientar o seu pensamento ainda informe e já ansioso por se externar e se impor ao mundo. Não se pode contrariá-lo frontalmente nem aprová-lo sem restrições. Qualquer dessas atitudes poderá mesmo exasperá-lo. Deve-se tratá-lo com cuidado, evitando excessos e, dar-lhe exemplos positivos sem alarde, sem propaganda. Ele, só ele, é quem deve perceber o que se faz de bom ou de mau à sua volta. Estímulos bons e tentações perigosas perturbam a sua alegria, pequenas decepções parecem-lhe definitivas. É nessa fase que se pode perceber, mais ou menos, quais os tipos de experiências por que ele passou na última encarnação. Essa percepção oferece indicações importantes para a orientação do processo educativo, desde que consideradas com cautela e confrontadas com outras manifestações que as corroborem. De qualquer maneira, não se deve dar ciência dessas observações ao jovem. Elas servem apenas para os pais e os familiares integrados no trabalho de orientação. Comunicações de entidades sérias e suficientemente conhecidas poderão também auxiliar. 

Nas famílias espíritas, bem integradas na Doutrina, o processo torna-se mais facilmente realizável. Nas famílias católicas e protestantes, ou integradas em seitas anti-reencarnacionistas, as dificuldades são maiores, mas não insuperáveis. A leitura e o estudo das obras de Allan Kardec ajudarão muito o desenvolvimento do processo educativo, desde que o adolescente se mostre interessado pelo conhecimento do problema. Forçá-lo a isso seria contraproducente. Tudo o que representar ou parecer imposição será fatalmente rejeitado. A leitura referida poderá ser sugerida por outro adolescente, sem que se deixe transparecer o dedo de um adulto por trás da tentativa. 

De maneira geral, a observação da vocação e das tendências do adolescente são importantes. Mas o mais importante será sempre o exemplo dos mais velhos, na família e na escola, pois o instinto de imitação da criança subsiste no adolescente e se prolonga, geralmente, na maturidade, diluído, mas constante, o que podemos verificar facilmente no meio social comum. Os tempos actuais não são favoráveis a bons exemplos, mas há sempre bons livros a se presentear a um adolescente no seu aniversário, sem se deixar perceber qualquer intenção orientadora. Os livros que tratam de problemas espirituais e morais devem ser de autores arejados, que encarem o mundo e a vida de maneira objectiva, sem cair no sermonário ou no misticismo piegas. Ou tratamos com os jovens numa linguagem clara, directa e positiva ou não seremos ouvidos. As novas gerações são vanguardistas de um novo mundo e não querem compromissos com o mundo de mentiras e hipocrisias em que vivemos até agora. 

Não se pense, porém, que todos os adolescentes são difíceis. No seu excelente estudo A Crise da AdolescênciaMaurice Debesse tem muito para nos ensinar. 

As inquietações primaveris da adolescência reflectem amarguras e alegrias de outras encarnações. As amarguras correspondem a fracassos dolorosos de uma vida passada, que tanto pode ser a última como também uma encarnação anterior, até mesmo longínqua. As alegrias reflectem acontecimentos felizes, que por isso carregam também as sombras da saudade, gerando no adolescente estranhas e profundas nostalgias. Não se trata propriamente de lembranças ou recordações, mas apenas de um eco soturno que parece ressoar nas profundezas de uma gruta. O adolescente sofre essas repercussões sem as identificar, sem saber de onde chegam à sua acústica interior esses ruídos semelhantes ao das vagas das ondas numa praia deserta. Anseios indefinidos brotam do seu coração, tentando arrastá-lo para distâncias desconhecidas, mundos perdidos no tempo, criaturas amadas, mas desconhecidas que o chamam e anseiam por encontrá-lo. Os sonhos o embalam às vezes, ao dormir, em situações que o confundem, pois, as imagens de outros tempos e as do presente se embaralham no processo onírico, não lhe permitindo a identificação de lugares, edifícios, cidades em que ele parece ter vivido. Os terrores nocturnos o assaltam com visões que muitas vezes nada têm de trágico ou perigoso, mas que, não obstante o despertam apavorado e trémulo. Atrevido e audacioso à luz do dia, disposto a enfrentar o mundo dos velhos e transformá-lo heroicamente num mundo melhor, mostra-se infantil e frágil nesses momentos de ressonância imprecisa do passado. Às vezes um pequeno incidente do presente, uma troca de palavras ásperas com alguém, uma jovem que o encarou distraidamente na rua e depois lhe virou abruptamente o rosto, é suficiente para levá-lo a fugir para o seu quarto, fechando-se à chave para chorar angustiado sem saber por que motivo chora. A crise da adolescência não é fatal, obrigatória, pelo menos nessa intensidade. Varia enormemente nos graus de sua manifestação e em alguns adolescentes parece nunca se manifestar. Na verdade, manifesta-se atenuada, traduzindo-se em caprichos estranhos, numa espécie de esquizofrenia incipiente, que logra os psicólogos e psiquiatras. São as variações de temperamento, de situações vividas, de sensibilidade mais ou menos aguçada, de maior ou menor integração do espírito na nova encarnação, que determinam essa variedade. A ressonância existe sempre, mas nem sempre desencadeia a crise. Os temperamentos estéticos, sonhadores, são os mais afectados. Os espíritos práticos apegam-se mais facilmente à nova realidade e a ressonância produz-se neles de maneira esmaecida, sem afectar o seu comportamento. 

Há criaturas que desde a infância começam a sentir os sintomas da crise. Certos adolescentes passam pelo período da crise como abobados, em estado de permanente distracção. Rejeitam o mundo e o meio em que vivem e desejam morrer. Acham que nunca se integrarão na realidade presente. Realidade que vai aos poucos se impondo a essas criaturas que acabam por se adaptarem a ela. A vida tem as suas leis e sabe domar a rebeldia humana. Algumas dessas almas rebeladas acomodam-se ao mundo, mas nunca o aceitam de bom grado. Parecem exiladas no nosso planeta. O período mais difícil que atravessam é o da adolescência, rejeitando companhias, fugindo às reuniões festivas, entregues a uma espécie de desânimo permanente. 

Na pesquisa espírita verifica-se, na maioria desses casos, a presença de entidades inconformadas que aumentam a inquietação desses espíritos saudosistas. Nas reuniões mediúnicas e através de passes encontram geralmente a solução dessa nostalgia aparentemente sem motivo. 

O mundo actual pressiona de maneira arrasadora essas almas sensíveis, que muitas vezes estão a passar pelos resgates de privilégios que usaram e abusaram aqui mesmo, na Terra. As mudanças de posição social, a troca de um meio refinado pelas situações inferiores, no processo reencarnatório, causa os desajustes naturais de todas as mudanças. Mas cada alma já vem preparada espiritualmente para superar essas dificuldades dos períodos de adaptação. 

Na Educação para a Morte esses casos são naturalmente prevenidos através dos esclarecimentos da finalidade da existência. Ensinando-se e provando-se, com os dados científicos hoje amplamente conseguidos, que a evolução é lei geral do Universo e que a evolução humana se desenvolve em etapas sucessivas que nos levam sempre a situações melhores, as inquietações da adolescência são compensadas pela esperança e até mesmo a certeza de um futuro melhor. O desespero e o desânimo são sempre produzidos pela ausência da esperança. Em geral essa ausência decorre de informações negativas sobre o destino humano. As informações positivas e desinteressadas, fornecidas por cientistas que buscam a verdade e não a ilusão mística das religiões, sempre interessadas no proselitismo de que vivem, são mais facilmente aceites e compreendidas. A desmoralização natural das religiões da morte abriu as portas do mundo às concepções negativas do materialismo e do ateísmo. Por isso o mundo se tornou mais árido e insuportável, uma espécie de prisão espacial em que a espécie humana está condenada a uma vida de réprobos sem perspectiva. E de tal forma essa prisão asfixiou a Terra que os próprios cientistas, adversos à questão espiritual, se incumbiram de derrubar a Ditadura da Física, como assinalou Rhine. O cálculo de probabilidades substituiu a rigidez das operações exactas e invariáveis da concepção mecanicista. Introduzido o espírito nas equações físicas, a liberdade se impôs nas avaliações da mecânica e da dinâmica da Natureza. Em vão surgiu a revolta filosófica do Estruturalismo de Strauss, que não passou de sonho de uma noite de verão para os anti-evolucionistas apegados ao bolor rançoso do Fixismo dogmático. As perspectivas actuais, não obstante as loucuras do momento, são de esperança para a Terra e para o Homem. Bastaria esse facto para alentar os corações inquietos e as mentes perturbadas. O princípio da Ordem Universal perdeu a sua rigidez estática e o fluir da vida revelou a sua fluidez na surpreendente flexibilidade das estruturas vivas. 

Já não há lugar para os adeptos da nadificação na nossa cultura. O Universo revelou-se energético de força, espírito e matéria. Já não se pode falar, como no tempo de Bukner, apenas em força e matéria. Voltamos ao pensamento grego de Tales de Mileto, o vidente que dizia: “O Mundo é pleno de deuses.” Na época, os deuses eram os espíritos que o povoavam e, por sua natureza específica, pairavam acima da natureza humana comum. Todos os sofismas da Mística milenar e todas as dúvidas do Cepticismo antigo e moderno morreram nas explosões atómicas de Hiroshima e Nagasaki. Nada se perde, nada se acaba, tudo se integra, desintegra e reintegra nas incessantes metamorfoses do Cosmos. Inadmissível o conceito vazio do Nada, esse buraco no absurdo. O Nada não existe em parte alguma e a vida não é chama que se apague ao sopro de deuses ou demónios. As sondagens astronáuticas provaram o princípio kardeciano da relação criadora e dialéctica entre força e a matéria. Ninguém, nenhuma coisa ou objecto, nenhum ser se frustra em parte alguma, simplesmente porque as coordenadas do tempo e do espaço repousam na duração, esse conceito moderno e dinâmico que substituiu o conceito estático de eternidade. 

A natureza ôntica revela a essência do ser como síntese consciencial da dialéctica espírito e matéria. Como Geley demonstrou, a realidade una e densa é um fluxo energético ininterrupto que vai do inconsciente ao consciente. Léon Denis, que Conan Doyle chamou de O Druída de Lorena, ofereceu-nos a síntese poética e racional (Razão e Poesia – confirmando o hilosoismo grego) nesta visão espantosa da realidade universal: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. A consciência é potência no mineral, desenvolvimento progressivo no vegetal, onde a sensibilidade aflora, transição vital no animal, que desenvolve a motilidade e, acto no homem, a caminho inevitável e irreversível da transcendência na existência. Deus, a Consciência Absoluta, não é o Primeiro motor Imóvel de Aristóteles, mas a Consciência Funcional do Cosmos. Como na definição da Educação por Hubert, Deus é a Consciência Plena que eleva e atrai sem cessar as consciências embrionárias para integrá-las na sua plenitude Divina. 

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José Herculano Pires – Educação para a Morte, Inquietações Primaveris, 12º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)