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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

pensamento e vontade ~


Conclusões |

(das forças ideoplásticas)

Está terminada a parte demonstrativa desta obra.

Resta-me falar das grandes transformações que devem dar-se, necessariamente, nos domínios das ciências biológicas, fisiológicas, psicológicas e filosóficas, graças ao novo conceito relativo à natureza do espírito humano, conceito esse absolutamente revolucionário, que os factos impõem.

Neste sentido, assim se exprime o Doutor Gustave Geley:

“Que quer dizer o vocábulo ideoplastia? Quer dizer moldagem da matéria viva, feita pela ideia.

A noção da ideoplastia, imposta pelos factos, é capital.

A ideia não é mais um atributo, um produto da matéria. Ao contrário, ela, a ideia, é que modela a matéria e lhe confere a forma e os seus atributos.

Noutros termos, a matéria, a substância única resolve-se, em última análise, num dinamismo superior que a condiciona, estando esse dinamismo também na dependência da ideia.

Ora, isso é o soçobro total da fisiologia materialista.

Disse-o Camille Flammarion, no seu livro admirável As forças naturais desconhecidas, que estas manifestações “confirmam o que, ao demais, sabemos, isto é, que a explicação puramente mecânica da Natureza é insuficiente e existe no Universo alguma outra coisa, além da pretensa matéria. Não é a matéria que rege o mundo, mas um elemento dinâmico e psíquico.”

Sim, as materializações ideoplásticas demonstram que o ser vivo não pode considerar-se um simples complexo celular.

Ele, o ser vivo, aparece-nos, antes de tudo, como um dínamo-psiquismo e o complexo celular que lhe forma o corpo não é mais que um retracto ideoplástico desse dínamo-psiquismo.

Assim, as formas materializadas, nas sessões, se beneficiam do mesmo processo de geração.

Não são mais nem menos miraculosas, nem supranormais, ou, se o preferem, são-no igualmente.

É o mesmo milagre ideoplástico que forma, a expensas do corpo materno, mãos, rosto, vísceras, todos os tecidos, o feto integral; como a expensas do corpo do médium se formam rostos, mãos, ou todo o organismo de uma materialização.

Esta singular analogia, entre a fisiologia normal e a dita supranormal, encontra-se até nos mínimos detalhes.

Um dos principais é este: – a ligação do ectoplasma ao médium por um laço nutritivo, verdadeiro cordão umbilical, comparável ao que liga o embrião ao organismo materno.” (Do Inconsciente ao Consciente, págs. 69-70).

Depois de haver evidenciado as grandiosas consequências biológicas, fisiológicas e psicológicas que a nova teoria sobre a potência criadora da ideia acarretará, julga-se o doutor Gustave Geley no dever de completá-la, notando que a faculdade ideoplástica, inerente à ideia, não representa mais que simples unidade entre as múltiplas faculdades supranormais, que constituem os atributos espirituais do Eu integral, sobrevivente. Diz ele:

“Certo é, pois, que o organismo, longe de ser o organizador da ideia, tal como ensina a teoria materialista, é, muito ao contrário, condicionado pela ideia e, só aparece como produto ideoplástico do que existe de essencial no ser, ou seja, o seu psiquismo subconsciente.

Mas, isto ainda não é tudo.

Esse subconsciente que em si tem as capacidades directoras e centralizadoras do Eu em todas as suas representações, tem também o poder de se elevar acima dessas mesmas representações.

As faculdades telepáticas de acção mento-mental ou de lucidez, são representações que escapam precisamente das condições dinâmicas ou materiais que as regem.

O subconsciente paira mesmo acima do quadro das representações, isto é, do tempo e do espaço, na intuição, na genialidade, na clarividência.

Assim, a tese sustentada por Carl du Prel nas suas obras de admirável intuição; que Frederic Myers baseou em sólida documentação e nós próprios fazemos sobre um raciocínio não contestado, oferece-se agora, em toda a sua amplitude, ao exame e discussão dos sábios e pensadores de boa fé.

Sem reserva, pode afirmar-se:

– Há no ser vivo um dinamismo psíquico que constitui a essência do “Eu” e, que se não pode ligar ao funcionamento dos centros nervosos.

Esse dínamo-psiquismo essencial não é condicionado pelo organismo, mas, muito pelo contrário, tudo se passa como se organismo e funcionamento cerebral fossem por ele condicionados.” (Idem, págs. 142-143).

Esta nova definição científica do Ser vivente decorre irrefutável e segura, deste grande acontecimento: o de haver sido demonstrada pelos factos.

É a definição pela qual o Pensamento e a Vontade são forças plásticas e organizadoras.

E tão grande é o valor teórico dessa demonstração, que abre uma nova época científica, por desmoronar totalmente, antes de tudo, as imponentes, mas fictícias construções laboriosamente estabelecidas por numerosos grupos de investigações pertencentes a todos os ramos científicos, decalcadas no postulado da omnipotência da matéria, quando, na verdade, deverá o templo alicerçar-se no postulado diametralmente contrário, da omnipotência do espírito.

Advertirei, todavia, que a demolição do velho edifício científico não significa, de qualquer modo, que os representantes do saber tenham trabalhado em vão por todo um século.

Longe disso, o novo templo do saber há de ser reconstruído com os materiais preciosos retirados da demolição do templo velho.

Esses materiais eram bons, mas o fundamento estava mal colocado, uma vez que assente sobre as areias enganadoras das aparências fenoménicas, de mistura a prejuízos de escola e, por isso mesmo, fatalmente destinados a esboroarem-se, logo que a realidade, oculta sob as aparências, emergisse de uma análise mais profunda dos fenómenos vitais.

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Ernesto BozzanoPensamento e Vontade – Conclusões (1 de 4), 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgard Maxence)

domingo, 8 de outubro de 2023

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar os longínquos dias das idades


Victor Hugo e o Sentido da História ~

Victor Hugo acreditava e sabia que a história temporal, não obstante a sua objectividade material, está destinada a voltar ao seio da história divina. Ou seja, que o efeito histórico deverá reintegrar-se no seio do divino para pôr termo a um ''tempo defeituoso'', onde o Ser se debate atacado por duas contradições existenciais.

O poeta francês compreendeu que a verdadeira poesia é uma emanação do mundo interno da natureza e que a sua essência se traduz por uma voz que sobe dos abismos da alma. Descobriu na história uma sucessão de factos cuja finalidade têm a sua raiz nos séculos palingenésicos do Ser. Viu assim que a história das existências se refunde na história dos seres espirituais, em cujo seio está a realidade divina do mundo dos espíritos.

Para Victor Hugo, o apocalipse terreno desembocava num apocalipse espiritual, dois processos que só se explicam pela lei da reencarnação. A história morre, mas renasce com os espíritos; a sua objectividade está determinada pelo encarnar e desencarnar dos seres espirituais, ou seja, pela alma dos homens, antes espíritos, que encarnam e desencarnam. Kant tembém pressentiu este mesmo fenómeno ao reconhecer a realidade de um mundo invisível com a possibilidade de se comunicar com o mundo dos homens.

A reencarnação dos espíritos é a verdadeira base da história humana, a que se mostra como processo visível na causa da história espiritual e divina que a rege. Victor Hugo acreditou nesta dualidade histórica, numa "história humana" fundada na história divina e transcendental".

A reencarnação dos espíritos é uma penetração da história divina temporal e humana. O processo de encarnação e desencarnação a que estão submetidos os espíritos é a base real de todo o mistério histórico. E a poesia de Hugo foi como uma revelação através da qual a beleza contribuiu com o desenvolvimento da história em relação com a história espiritual e divina.

A inspiração do grande poeta francês captou nas suas bases mediúnicas que não haverá história natural e humana sem história espiritual e divina. O seu génio se transfigurou de tal modo que pôde compreender que todo o humano é um processo determinado pela reencarnação dos espíritos, ou seja, que a História e Reencarnação são dois fenómenos movidos pelo mundo invisível.

Espiritismo como manifestação objectiva do Espírito de Verdade é a noção mais positiva para deixar demonstrado que o mundo dos espíritos é a base real do mundo dos homens. Opera-se assim uma transfiguração da morte pela força religiosa da mediunidade. De contrário, o que seria a história sem a potência escatológica da mediunidade? Resultaria um fenómeno sem sentido e um processo caótico destinado à morte e ao nada.

Portanto, se a poesia de Victor Hugo foi profética é porque foi religiosa, apocalíptica porque mediúnica. Ela se uniu ao Espírito de Verdade para proclamar que Deus existe e que tudo avança progressivamente com o fim de se instalar na Cidade dos Espíritos Puros. Os críticos esqueceram que se Hugo foi genial é porque dentro de seu ser imortal estava a luz do mundo invisível e que se a sua poesia determinou um romantismo filosófico e religioso original é porque os tripés da ilha de Jersey lhe abriram as janelas do infinito. Porque o génio de Victor Hugo sem o fenómeno mediúnico resultaria num enigma, do mesmo modo que uma nova visão histórica sem a lei da reencarnação do ser se tornaria um caos entremeado de horror e beleza.

Victor Hugo acreditava na sua espiritualidade pessoal. Achou no seu próprio ser as bases de todo um esquema metafísico e religioso do universo. Sentia-se uma força ultra-material por cujo motivo a sua carne se transfigurava. Era um vidente que via continuamente o para além das coisas, o que o fez não se deter nos caminhos puramente materiais da vida. A existência para o poeta foi uma senda que conduz ao conhecimento dos grandes enigmas da natureza.

O seu génio nunca repeliu o cristianismo; pelo contrário, viu na doutrina de Jesus a mais alta e acabada expressão das revelações divinas. Por isso, a sua criação poética e literária difere da dos seus colegas, que consideravam o homem somente um fenómeno fisiológico. O seu lema era: "Existir para a Verdade", mas este existir não se apoiava na vida efémera material. Ele pressentiu um existir infinito relacionado com o mistério do universo. A vida para o poeta era uma espiritualidade invencível e triunfante.

Acreditava no eterno porque via na natureza e na história um princípio imortal, o que o fez ter fé nessa verdade inalterável procedente de Deus. Acreditou nos "espíritos" da terra e do ar, da água e do vento, como os iniciados medievais. Desde a sua infância, cultivou uma filosofia espiritualista, que confirmou experimentalmente ao conhecer a mensagem que lhe ditaram os tripés na ilha de Jersey.

Auguste Vacquerie, no seu livro As migalhas da história, disse afirmativamente que Victor Hugo era espírita, como o foram Théophile GautierVictorien SardouGiuseppe MazziniCamille Flammarion e outros pensadores dos finais do século XIX. Acreditou realmente na imortalidade da alma e na sua evolução palingenésicaÉmile de Girardin e Eugène Nus deram também testemunho de suas convicções espíritas, como foi confirmado na edição de 7 de maio de 1899 do "Les Annales Politique et Litteraire''.

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Humberto Mariotti (i)Victor Hugo Espírita, Victor Hugo e o Sentido da História, 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)