Mostrar mensagens com a etiqueta Espírito Victor Hugo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Espírito Victor Hugo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 3 de abril de 2023

~~~ Párias em Redenção ~~~


FÚRIA ASSASSINA 
(III) 

Passados os primeiros dias, em que mergulhara fundo no fosso da libertinagem, com a alma em labéus hediondos, Girólamo acreditou chegado o momento de promover uma entrevista com a comparsa. 

Para tanto, solicitou o auxílio de um jovem servente da casa e pediu-lhe que, em seu nome, procurasse a jovem, convidando-a, em segredo, a vir à villa Angélico, com a maior brevidade. Acrescentou ao recado que ela explicasse, em casa, o impositivo que a reteria fora do lar por toda a tarde, sem entrar em maiores esclarecimentos. Como prova da autenticidade da mensagem, solicitou ao jovem que apresentasse a Assunta o anel que trazia no dedo mínimo e, que seria facilmente identificado. 

Girólamo sabia do local em que se refugiava a Dulcineia e não teve dificuldade em fazer-se compreendido pelo moço, acostumado a serviços dessa natureza. 

Assunta, quando soube que o amante se encontrava em Florença, prorrompeu em ruidosa alegria. Agradeceu ao mensageiro e o despediu festivamente, prometendo comparecer ao encontro na tarde do dia imediato, no local aprazado. Modificou-se, então, inteiramente, justificando em casa a necessidade de encontrar pessoa amiga que, recém-chegada de Siena, trazia notícias agradáveis e lhe impunha a necessidade do encontro. Foi com desregrada ansiedade que aguardou o momento de se dirigir à villa, o que fez sem maiores dificuldades. À entrada, Girólamo a aguardava. Saudou-a, aparentando discrição e, convidou-a a adentrar-se no bosque margeante ao rio, onde poderiam conversar sem testemunhas incómodas. 

A jovem, que se ressentia da ausência do mancebo dissoluto, atirou-se-lhe nos braços, logo pôde fazê-lo e, narrou-lhe os receios, as preocupações, o sonho atemorizante. O amásio fitava-a quase com desprezo. Temendo, porém, ser descoberto nos pensamentos íntimos que acalentava, aparentou, cortês, certo interesse, falando com natural cinismo: 

– Examinemos a nossa situação. Segundo sei, em Siena tudo transcorre conforme planeado. Durante este período de repouso que experimento aqui, pessoas da minha absoluta confiança organizam os meus direitos e os legalizam. Pouco tempo nos separa da ventura. É indispensável, todavia, prosseguir sem despertar suspeitas. Todos os factos ainda estão muito recentes na memória geral. Tão logo eu receba correios do palácio, o que será muito breve, retornaremos e, transcorrido algum tempo, anunciarei o nosso noivado, a nossa boda. De momento, ninguém, a qualquer pretexto, poderá saber dos nossos planos, pois poderia pô-los a perder. 

– Eu pressinto, amado – falou com receio –, que uma nova tragédia se abaterá sobre nós. Tenho a impressão de que a Senhora duquesa me segue, fitando-me com os olhos imensos e tristes… Conseguiste esquecê-la Girólamo? 

– Não me fales dos mortos, – retrucou o moço com enfado. – Os que para lá foram não voltam a perturbar os que aqui ficaram. O que está feito não se poderá refazer. Prefiro o céu na terra à terra do céu… 

E estrugiu ruidosa gargalhada, na qual extravasava as emoções, zombeteiro e cruel. Pela primeira vez, Assunta compreendeu que está diante de um homem totalmente destituído de sentimentos. Dominada por justificável receio, enfrentou-o, azeda: 

– Vê como te portas comigo. Estás amarrado a mim, não esqueças. Não te perdoaria jamais qualquer traição. Irei contigo à força, mas não te livrarás de mim tão facilmente, como fizeste a Lúcia e aos desditos rebentos do duque

– Cala-te, infeliz! Desejas que algum passado te escute? Ignoras como o vento conduz notícias dessa natureza? Não me afastarei de ti, pois que jamais te separarás de mim. Eu te amo e te desejo a meu lado… 

Rapidamente, queimado pelo fogo dos desejos em desalinho, envolveu a moça sufocou-a na paixão desregrada. 

Deambulante entre a violência dos instintos e os albores da razão, Assunta, fascinada pelo idílio criminoso, que se assentava em sangue e lágrimas, deixou-se arrastar cada dia a mais fundo engodo, terminando por entregar-se a Girólamo totalmente, de corpo e alma. Sonhadora e tresloucada trocou os sonhos da pureza pelo abastardamento dos sentidos, em devassidão sempre crescente e insaciável. É verdade que o enceguecimento da razão produz o vaguear nas sombras e o vilipêndio dos sentimentos tresmalha as manifestações da dignidade e do pudor. Cada vez mais embriagada de luxúria, repetia os encontros clandestinos com o moço irresponsável, permitindo-se consumir numa sofreguidão sem medidas. E como a febre dos sentidos somente se extingue com o apagar das próprias fontes do desejo, o amolentamento do carácter progredia na razão directa do devaneio sensual. O refocilar, em casa, que poderia abrir as comportas da mente a nobre inspiração superior, antes servia de pretexto para novas aventuras… O amante escolhera, precavido, local discreto para os sucessivos encontros, de modo a evitar ser identificado ao lado da irresponsável mulher. 

Girólamo, experimentado explorador da sentimentalidade mórbida, apesar da aparente vinculação com a doidivanas, apenas esperava, impaciente, o justo momento para libertar-se do seu jugo, que era penoso, encerrando esse desagradável capítulo da vida. Qual ave de rapina, enrodilhava a vítima na sua armadilha, sonhando com os alcantis mais elevados da ventura e do prazer, esperando o ensejo para despedaçá-la e romper os últimos laços que o retinham prisioneiro aos perigosos cipós com que manipulava e retinha a presa. 

Assim, logo chegaram as primeiras flores da Primavera e os dias se fizeram mais claros e róseos, com o canto das águas do Arno bordando as margens de mais sons e festa, o malfadado descendente dos Cherubini programou com a moça apaixonada uma excursão ao bosque das colinas de San Miniato, onde o dia lhes poderia proporcionar sonhos de prazeres fugidos, que tentariam alongar, quanto pudessem. 

Concertado o convescote para o domingo porvindouro, que lhe facultaria bastante tempo para organizar o hediondo delito, com cuidados especiais, inclusive visitando o local onde deveria consumar a tragédia, a moça, alucinada pela força dos desejos descabidos, esquecida de que somente o equilíbrio dispensa ordem de paz, aceitou o encontro para o dia programado, prometendo estar à frente do Palazzo Vecchio, onde se encontrariam, às primeiras horas, antes do despertar da cidade. 

Conseguido o cabriolé, mediante aluguer na estalagem para onde se transladara, Girólamo rumou em busca da enamorada e, encontrando-a, seguiu pressuroso por caminhos marginais, fora da cidade, vencendo o vale do Arno e dirigindo-se às verdes colinas, sob a pressão de crescente impaciência. Dissimulando com dificuldade os desencontrados sentimentos, tivera antes o cuidado de convencer a jovem de que se despedisse dos familiares, alegando chamado urgente para resolver a Siena e, a ela prometendo uma viagem de recreação, no dia imediato. Cauteloso, a fim de evitar possíveis e remotas suspeitas, Girólamo, despediu-se anteriormente dos amigos, em festa ruidosa, na villa, explicando quanto à necessidade de retornar, embora ainda se demorasse pelo caminho, em visitas a pessoas gradas ao seu coração, prometendo aos amigos uma retumbante recepção no Palácio di Bicci, quando das suas núpcias, em futuro não distante. Astuto e venal, mudou-se cautelosamente para uma hospedaria, à entrada da cidade, onde poderia passar como viajante ignorado, até a consumação do novo crime ardilosamente premeditado. 

Conduzindo matalotagem especial, vinho capitoso e frutos, o casal adentrou-se pelas vias húmidas e perfumadas do bosque em flor. Chilreavam os pássaros ao amanhecer e a Natureza, desabrochando claridade, parecia um convite ao júbilo puro e à emotividade superior, como se as vozes onomatopaicas da vida modulassem nobre pastoral. 

Mais relaxado, agora, quando o bosque era um festival de bênçãos naturais, o moço quase se deixou penetrar pelo bucolismo da paisagem, que tinha por moldura, mais abaixo, as águas do rio cantarolante entre seixos e pedras das bordas. 

Escolhido um lugar discreto, numa clareira natural entre árvores, os jovens saltaram no acume do outeiro, onde a visão era esplendente e, se entregaram ao primeiro repasto, entremeado de libações... 

Motivando a recordação dos dramas que os jungiam um ao outro em canga pesada, Girólamo perguntou à moça em deslumbramento: 

– Deixaste transparecer em casa ou a alguém os nossos objectivos futuros? Fizeste quanto te recomendei? Não ignoras que tudo organizo para o nosso próprio bem. 

– Tranquiliza-te, querido, – informou a companheira inexperiente. – Não seria eu a tonta que poria a perder a cornucópia da fortuna, que agora se volta recheada na minha direcção. Sempre ambicionei a glória e o fastígio. Como tu, eu também caminhava no chão, com gana de galgar a montanha. Se não fosse contigo… Mas, apareceste no meu caminho e não te pude resistir. Puxaste-me para a escalada e aqui estou. Se subo ou desço, ainda não sei… 

– E se, por acaso – aventou o moço, como se falasse imponderadamente –, um mau fado, em circunstância vil, te exigisse denunciar-me, fá-lo-ias? 

– Sabes que não. Eu te pertenço e nunca me permitia trair-te. Excepto… 

– Excepto?! Em que condições me arrojarias ao cárcere e à morte? 

– Se me abandonasses, – falou, com dura franqueza e esfogueada. – Uma mulher ferida nos seus sentimentos é pior do que um animal acossado. Nunca o intentes, porque não te cederei. A minha segurança é o nosso segredo e eu jurei – maledetta vita! – que não terias perdão se um dia te encorajasses a subestimar-me, a trair-me… 

A jovem pusera-se de pé. Todo o seu sangue ferveu, ante a possibilidade da traição do amado. Erguida, contrastava com o sol filtrado pelas árvores e, emocionada, o seu rosto jovem adquirira forte beleza carnal. 

Com o espírito túmido de ódio e trémulo, aguardando o ensejo de desferir certeiro golpe, Girólamo fitou-a e considerando-lhe a beleza, que sempre o fascinava. Mas os apetites, naquele momento, deveriam ceder lugar às ambições desmedidas para o futuro. Como se fora possuído por uma fúria assassina, ergueu-se de um salto e atacou violentamente a moça, que venceu nos braços de aço, dominando-a facilmente. A princípio, Assunta não compreendeu o que ocorria: num relance, porém, em que os seus olhos se cravaram nos do apaixonado, percebeu o que se passava, mas já era tarde. A expressão de horror que se lhe desenhou no rosto congestionado e o grito lancinante que proferiu de nada valeram. Tomando de um punhal que trazia sob a jaqueta de veludo carmesim, desferiu repetidos golpes, desvairado, automaticamente, até certificar-se da extinção da vida naquele corpo terrivelmente mutilado. Sangrando abundantemente, a jovem foi largada no solo, a estremecer, nos últimos reflexos e estertores… 

Com a cabeça a estourar, o moço olhou em derredor, como se sentisse terrível presença a espioná-lo e, nos sentidos aguçados, teve a impressão de que alguém se afastava em disparada sobre folhas e gravetos. Corça ou homem? Que importava! Agora era tarde demais! 

O crime não poderia deixar vestígios. A astúcia do criminoso é a sua arma e a sua perdição. 

Girólamo afastou-se, lépido, do local e, improvisou, numa vala distante, uma sepultura, onde atirou os despojos sangrentos da companheira, cobrindo-os com folhagens e ramos. Logo após, procurou apagar as manchas sanguinolentas na clareira, deixando transparecer que os sinais no solo fossem de feras em luta, que se rebolcassem feridas, pelo chão revolto. Desceu ao rio, para a necessária limpeza das mãos e da indumentária e, tornou a cidade, usando o veículo que deixara antes de galgar o morro. No dia imediato, muito cedo, retornou a Siena, em condução da carreira, anónima, discretamente. 

Girólamo, como todo o criminoso, acreditou que o novo delito passara despercebido e que a mão da Justiça jamais o alcançaria. Reflexionando convencia-se de que Assunta, afinal, não representava nada na vida. Agora, era novo dia que necessitava viver, esquecendo o passado, começando experiências novas… 

/… 


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 4. FÚRIA ASSASSINA (3 de 3), 13º fragmento desta obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO. 
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quinta-feira, 21 de abril de 2022

~~~ Párias em Redenção ~~~


FÚRIA ASSASSINA 
(II de III) 

De retorno, na sege especial, Assunta meditava quanto ao próprio destino. 

As circunstâncias precipitaram-se e ela, repentinamente, se vira envolvida por densa treva interior, que a amargurava agora. 

É certo que não sentia o clamor do remorso convocando-a a outra atitude mental, por enquanto. Todavia, quando recordava as personagens assassinadas, um estranho arrepio a fazia gelar. As crianças se lhe entregaram confiantemente e aqueles haviam sido dias de dor no palácio. As suas mãos, sim, aquelas mãos bem talhadas e mimosas adicionaram o entorpecente ao chá, preparando o caminho para o malfeitor. Acontecia, porém, que o bandido era o homem amado. Que não faria por ele!? Amava-o até à loucura, apesar de saber que ele não a amava. Por estranho sortilégio, sabia-se apenas um meio de exploração para o prazer, utilizado por Girólamo. 

E reflectia, enquanto a carruagem vencia as estradas tortuosas, lamacentas e mal cuidadas: amava o rapaz há mais de um ano e a ele se entregara, desde então. Por que somente agora essa volúpia a desgraçara? Ele nunca lhe prometera fidelidade nem matrimónio e ela pouco se importara com as consequências. Ante o aceno de uma ventura, sim, impossível, ela fora capaz de trair aqueles aos quais muito devia e acumpliciar-se num hediondo assassínio, em que a sua amiga e as crianças pequeninas foram vítimas indefesas! 

Recordando os dias que precediam a trágica acção, as lágrimas lhe saltaram dos olhos, desmesuradamente, pôs a mão espalmada sobre o peito ofegante, comprimindo a efígie de delicada madona, uma desconhecida sensação de horror e culpa que lhe estrangulava a garganta, quase impedindo a respiração, que se tornou entrecortada e difícil. 

– Assassina! – pareceu escutar de momento. 

Seria a consciência atormentada? Era má, sem dúvida, no entanto, era também jovem e inexperiente, e se deixara vencer pela impiedade do rapaz cruel. Recordou-se do amante que lhe impunha essa fuga, exactamente a ela que também era vítima e, num relance, veio-lhe a ideia fuzilante de que o companheiro desejava libertar-se dela, para, então, gozar. Por que Girólamo a desposaria, havendo tantas mulheres ricas, formosas e, sendo ele contumaz explorador? Sacudida por essa lembrança violenta, a mágoa e o receio foram substituídos pelo ódio, que lhe irrompeu em catadupa. Desejou retornar, enfrentar o verdugo da sua paz e intimidá-lo, fazendo-o compreender devidamente, repetindo-lhe na face e demonstrando com todo o vigor do seu espírito desesperado a intrepidez com que o enfrentaria, indo até aos últimos lances, na tentativa de o não perder. Contraiu os lábios e sentiu o amargor da situação em que se enleara. Dominou-se, porém, recobrando um pouco a serenidade. 

Longas horas se passaram e o cansaço, o relaxamento repentino substituíram a tensão e a ansiedade dos últimos dias, fazendo-a mergulhar em pesado e incómodo sono. 

Com o espírito atribulado, a moça, logo adormeceu, experimentou a lucidez do despertamento espiritual e viu-se diante da Senhora duquesa, cujo olhar a penetrava dolorosamente. Sentia-se no corpo e fora dele: cansada e consciente. A tez pálida e os grandes olhos nublados pelas lágrimas, na senhora, falavam, sem palavras, duras recriminações. Aquele olhar desnudava-a inteiramente. A veneranda Entidade, que a recebera no seu solar anos antes e que lhe dera a mão de auxílio, quando a adversidade obrigara os seus pais a situar as filhas nos burgos florescentes da Toscana, vítimas que haviam sido das surpresas do destino, parecia perguntar-lhe em silêncio: “Que fora feito do sentimento de gratidão, na tua alma infeliz?” Fitando a protectora, parecia rever as crianças alegres, que brincavam nos seus braços e que dias antes estiveram sob a sua guarda, quando do velório e do sepultamento do Senhor duque. O sorriso inocente e cristalino dos pequeninos percutia nos seus ouvidos, como se os despedaçasse por dentro e, as suas vozes infantis brincavam melodias na acústica do seu espírito atormentado. Revia Lúcia, confiante, deixando-se tranquilizar ante a sua assistência fingida, – Lúcia, que se fizera cão devotado e zeloso dos pequenos rebentos dos di Bicci. Vencida pela tristeza infinita daquela face marmórea, desfigurada e silenciosa, a sequaz de Girólamo ajoelhou-se, visivelmente infeliz e, rogou perdão… 

– Como pudeste, Assunta – indagou, com inexcedível expressão de voz, a Senhora di Bicci –, transformar em veneno o licor da amizade que eu depus na taça do teu coração? Como te foi possível adicionar às minhas dores as brasas do desconforto e da amargura, para que eu acompanhe o duque, hoje esmagado de angústia, transformado em fera impiedosa e irracional, que persegue o seu caçador e terminará por destruí-lo? Os meus filhinhos não morreram: libertaram-se de dura canga; Lúcia não desapareceu nem se consumiu, apenas dorme sob os meus cuidados. Hoje, sou-lhe a servidora devotada e reconhecida. Tenho-a como filha do meu coração, sacrificada pela sanha criminosa de alguém a quem nutri com o leite da misericórdia e da compaixão… Ela resgata e ele se infelicita. Ela sublima a vida e ele aniquila a esperança. Onde colocaste o sentimento, Assunta? Não te comoveu o sono inocente e confiante dos meus filhos? Acreditas em felicidade sobre cadáveres? Crês que o assassino da infância não será, também, oportunamente, o destruidor da viciada? Confias a vida a quem destrói vidas? Apiedo-me de ti e, venho em teu socorro. 

Emocionada, compungida, a matrona pôs a mão muito delicada sobre a atormentada mulher e prosseguiu: 

– Foge de Girólamo, enquanto é tempo. Evade-te da Toscana. És jovem e bela. O futuro diminuirá a chama do presente e poderás carpir e resgatar os teus crimes sem te afundares noutros. Utiliza a vida e aprende a amar como Jesus nos amou. Só o amor verdadeiro, fundamentado na compaixão, na misericórdia, na consciência tranquila e na devoção até ao sacrifício, redime a criatura. O teu crime, nascido na insensatez e na lubricidade, exigirá de ti um tributo pesado de dores que poderás pagar se fugires, evitando a hiena que virá, logo mais, despedaçar o cadáver das suas esperanças, tripudiar sobre a vã loucura dos teus desejos, já desprezados por ele… Girólamo está louco e, a sua é uma enfermidade sem remédio, no momento; sem esperança, por enquanto. Evita ficar em Florença… 

– Perdoai-me, senhora! Desgraçada que sou, – bradou a infortunada. 

– Perdão, minha filha, só o do Nosso Pai e, depois, o da nossa consciência. Quando sentires a isenção da culpa, estarás, então, perdoada. Eu não te culpo, nem te exprobro a conduta leviana, cujas consequências, imprevisíveis de momento, não me cabe ajuizar. Distendo-te mãos de socorro, conforme a recomendação do Senhor: “Fazer todo o bem a quem nos faz todo o mal.” O coração materno, fundamente lanhado, vem beber contigo a taça da amargura desmedida. De certo modo, contribuíste para a felicidade e a libertação dos meus amados – lamento profundamente o esposo inditoso, que continua dormindo no desespero! –, liberdade essa que os redime de pesadas culpas, esquecidas, todavia não resgatadas, que clamavam há muito por regularização… Não seria, porém, necessário que fosse o adverso instrumento da Justiça, pois que a Divina Providência possui recursos para cobrança sem criar novos devedores… Não te compliques ainda mais… Foge, portanto, enquanto é tempo e urge a oportunidade. 

– Para onde, senhora, deverei fugir, se atei, inexoravelmente, o meu ao destino do bandido, que amo como obsessão sem lucidez nem raciocínio?! A simples memória de Girólamo me entontece, como licor cujo aroma anuncia a madureza do vinho no barril de carvalho… Agora irei até à destruição total com ele e, se me trair… 

– Nada poderás, minha filha, nada. És fraca e ignorante. Como pode a humilde rolinha, presa no olhar da serpente que prepara o bote, fugir ao esmagamento, ao veneno traiçoeiro, à morte horrível? Não conheces Girólamo, quanto eu conheço. Foge, Assunta e, que Deus tenha piedade da tua alma! 

Aos sacolejos, a carruagem, derrapando e batendo nas pedras da estrada real, foi sacudida com maior violência e a moça, fortemente arrojada do assento veludoso, acordou banhada por álgido e pegajoso suor… Abriu os olhos, fitou a paisagem sombreada por nuvens carregadas e, accionando pequena campainha, que soava ao lado do cocheiro, fê-lo parar o veículo. Muito pálida, abriu a porta e semicambaliante ensaiou alguns passos, para cair… 

O cocheiro saltou pressuroso e carregou-a para dentro do veículo, com receio de algo mau. Após aspergir água fria sobre o seu rosto, despertou-a, indagando quanto ao seu estado de saúde. 

– Sofri um pesadelo, – asseverou. Assunta, preocupada. – Não há de ser nada, pois logo passará. Façamos uma pausa, para um pouco de repouso. O ar frio me fará melhor. 

O restante da viagem transcorreu normalmente, não obstante a preocupação continuasse crescente, no cérebro da jovem. 

Chegando a Florença, onde moravam a genitora e diversos outros parentes, que residiam em sítio próximo à cidade, fronteiriço ao rio, a sege, por indicação sua, seguiu directamente para a casa que a acolheria. 

Recebida com alacridade e júbilo natural pela mãe e demais familiares, relatou em sucintas palavras o ocorrido no Palácio di Bicci e a orientação que lhe dera Dom Girólamo, quanto à necessidade de um repouso, enquanto ele reorganizaria o solar, mandando buscá-la mais tarde. Perfeitamente aceita a explicação – embora todos lamentassem as desgraças que desabaram sobre aquela mansão –, Assunta foi acolhida com carinho e contentamento geral. Novamente no lar, refez-se um pouco dos acontecimentos, apesar de não esquecer o estranho sonho que a acometera na viagem, como se fora pressaga anunciação de novas dores. Mesmo desejando demonstrar alegria, sentia-se interiormente conturbada. As paisagens queridas da infância, conquanto nascida em Chiusi, o clima em renovação, embora frio e húmido, a natureza despertando ainda encharcada do Inverno torrencial, não lhe podiam apagar os sinais da preocupação duramente suportada. Os familiares atribuíam que fossem as consequências do drama horripilante, as saudades da companheira e das crianças, evitando atormentá-la com perguntas inoportunas e descabidas… 

/… 
Párias (i). Nota desta publicação. 


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 4. FÚRIA ASSASSINA (II de III), 12º fragmento desta obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO. 
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quinta-feira, 17 de junho de 2021

~~~ Párias em Redenção ~~~


FÚRIA ASSASSINA ~ 

Florença nada perdera do esplendor antigo, quando República próspera e invejada. Os seus palácios misturavam-se aos museus, as bibliotecas e os conventos disputavam a glória da maior posse de objectos de arte: pinturas, afrescos, porcelanas, instrumentos de música, esculturas. As ruas pareciam patentear os dias gloriosos do passado, quando os génios do Renascimento se refugiavam nas suas tascas para o prazer fugidio do vinho capitoso, em noites festivas, ou nos palácios, onde o luxo ostentava o poder, afogando nas paixões da lubricidade e das aventuras de todos os matizes a ardência dos desejos infrenes. 

A cidade verdejante exibia as suas igrejas sobranceiras, de torres e pórticos que a celebrizaram, onde se guardam as obras geniais de Donatello, com o seu realismo medieval, Botticelli e suas madonas, Miguel ÂngeloMasaccioFra AngélicoGhirlandaioRosselliCellinida Vinci… 

O fastígio passado ainda hoje ressurge, demora-se e teima por continuar, conquanto a desgraça de que fora vítima no século XV, pela cobardia moral de Pedro de Médici e os sofrimentos experimentados com Savonarola… Logo depois deles, porém, voltou ao esplendor, até à morte de João Gastão, o último dos Médici… 

Permanece continuadora fiel dos seus antepassados, na pintura, na escultura, na arquitectura, na literatura, como se o Renascimento não houvesse passado de todo. Não surgiam agora, é certo, novos vates nem artistas, mas o orgulho nacional, inigualável, cultivava, como no passado, os gozos que a faziam invejada, pelas noites orgíacas em que o mundanismo invadia palácios e templos, tabernas e solares, onde o crime do suborno e do homicídio recebiam altos salários, e em que se eliminavam as pessoas caídas em desagrado, sob o olhar complacente da justiça, regida pelos poderosos, com a maior facilidade. As sombras da Idade Média, de certo modo, perduravam na Capital da Toscana, na exuberância verde das colinas de San Miniato de Fiesole, e o Arno, no seu passar contínuo, lambendo os alicerces da cidade que se exaltava, impotente, junto às suas águas, prossegue, sendo testemunha silenciosa e túmulo discreto para cadáveres em quantidade, que lhe são arrojados na calada das noites e dormem no seu seio líquido, prateado. 

Girólamo, amigo das dissipações e já conhecedor da vida desregrada das noites de Florença, necessitava fugir do olhar sempre desconfiado e perquiridor dos conhecidos, que não deixavam de pensar, examinando a possibilidade de Lúcia assassinar as crianças para se transformar na possuidora dos haveres do duque, que Girólamo, pelas mesmas razões, se enquadrava na acusação que imputava à vítima do seu punhal certeiro e criminoso. A evasão, pois, tinha vários objectivos de alta importância: fugir à constante suspeição e embriagar-se de prazer antecipado, encontrando, também, meios de se libertar de Assunta. É certo que lhe não fizessem propícios os fados, para livra-se em definitivo de qualquer perigo. Era jovem e ambicionava o poder, no qual mergulharia com indescritível avidez. Para tanto, não tergiversara nem temera embrenhar-se no matagal dos nefandos delitos, e não cessaria de praticá-los senão quando estivesse asserenada a fúria interior que o conduzia. 

Visitado por pensamentos descontrolados e atormentado pela tensão de poder dar largas ao ânimo íntimo, longe dos olhares percucientes e indagadores; obrigado ali, por motivos óbvios, a manter luto e tristeza, em homenagem aos familiares e protectores falecidos, impondo-se um sacrifício crescente; objecto permanente, em Siena, da admiração de uns e da inveja de outros, não suportaria continuar, pelo que resolveu evadir-se, através da viagem que saberia justificar. 

Tendo entregue ao Senhor Bispo, seu novo protector, e ao testamenteiro, seu áulico ambicioso, a regularização dos documentos e a temporária guarda dos bens do Palácio di Bicci, o aventureiro tomou a diligência que fazia o percurso normal entre as duas cidades e, justificando a necessidade do afastamento, rumou na direcção da metrópole, Florença. 

Amainava a quadra hibernal e as chuvas eram, agora, escassas. A cidade se recuperava do rigor das tempestades e da humidade. As velhas e tortuosas ruas recobravam o movimento diminuído pela imposição da estação chuvosa e a alegria voltava a explodir estuante nas praças e lugares públicos. Só o frio permanecia rigoroso. 

De imediato, o jovem senense formou alegre roda em torno de sua pessoa, hóspede que se fizera de Donato Angélico, que na villa reunia a juventude irresponsável e gozadora da cidade. Homem abastado, aquele Donato Angélico era comerciante de tecidos e importador de destaque, tendo-se transformado em figura obrigatória de todas as rodas da frivolidade dourada, contribuindo com a bolsa larga para noitadas alegres, em que se misturavam o vício e o luxo em duelo de corrupção violenta. 

villa, ajardinada e discretamente resguardada por árvores de nobre porte e ciprestes altaneiros, parecia repousar dolentemente à margem direita do rio, que a contornava em parte, aumentando a sumptuosidade da sua arquitectura, que procedia do século XVI, adornada de peças de alto valor, disputadas pelos museus em prosperidade crescente. 

A sociedade burguesa, que fora responsável pela glória da cidade, e de cujo seio saíram os melhores administradores e protectores do seu progresso, continuava o ciclo de domínio. As rédeas do poder haviam passado, depois dos Médici, a uma outra casta dominadora, conquanto sob a suserania da Casa de Áustria, mas a cidade nas mãos dos banqueiros e industriais do lanifício e das sedas, já que os remanescentes da nobreza e o povo em geral se encontravam dominados pela força do comércio, sempre lucrativo e generoso. 

Desse modo, Dom Donato e os seus pares se permitiam exorbitâncias somente concedidas a pequenos monarcas, alimentando o tédio e a ociosidade dos seus convidados em longos dias de repouso e demoradas noites de desperdício. Era exactamente o local próprio, em cujo clima de viciação Girólamo anestesiava o torpe espírito. A ambição desmedida fazia-o sonhar com a forma eficaz de utilizar os haveres, que desde já lhe soavam aos ouvidos. A tragédia em que terminara os dias a família di Bicci di M. não repercutia em Florença e, embora a cidade fervilhasse de comentários infelizes, a corte da irresponsabilidade na Capital não se inteirara dos detalhes horripilantes do infortúnio que se consumara nos arredores de Siena, uma das suas cidades rivais e, por isso, detestada pelos florentinos. 

Apesar de acontecimentos funestos dessa natureza não sensibilizaram demasiado a sociedade contemporânea a que nos referimos, não passariam sem a mordacidade dos maus e dos folgazões, através de comentários ácidos; e as intrigas forjadas junto aos ouvidos das autoridades, não obstante inexpressivas, sem valor diante das classes poderosas, que as impunham e retiravam como peças de um jogo de xadrez desinteressante, poderiam criar dificuldades para Girólamo. 

Os conceitos de ordem, justiça, verdade e amor eram cavilosamente considerados no mundo profano e, mesmo entre os seguidores do Crucificado, na vida religiosa, a consciência se deixava intoxicar pelo miasma do dinheiro, fechando os olhos aos deslizes morais, dos quais se podia ser absolvido com alguns “sacrifícios”, convertidos em moeda sonante, tais como: o arrependimento, orações, jaculatórias, punições aos transgressores da Lei Divina, como se a prece, o arrependimento dos erros e a renovação interior devessem ser tidos na condição punitiva e não piedosa, de cuja atitude a alma se retira lenida pela paz e refeita nas energias gastas, quando das jornadas pelos corredores sombrios do pecado! 

Os remanescentes da família di Bicci di M., logo retornaram a Florença, tentaram um cometimento junto às autoridades relapsas, cujo poder, todavia, não atingia Siena, especialmente após informadas da conivência do Bispo daquela cidade, em atitude protectoral ao miserando herdeiro. Incomodar um “príncipe” da Igreja naqueles dias ainda era considerado uma temeridade… Desaconselhados de abrirem uma contenda inútil, desde que o testamento era válido e Girólamo fora adoptado legalmente pelo duque, tornado o seu herdeiro natural, portanto, perante a lei e pela vontade do extinto, o assunto morreu, asfixiado em licores e esquecido quase de imediato. 

Os primeiros dias transcorriam, pois, na villa Angélico, em alacridade festiva e ociosidade remunerada. 

/… 


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 4. FÚRIA ASSASSINA 1 de 3, 11º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

domingo, 2 de fevereiro de 2020

~~~Párias em Redenção~~~

O TESTAMENTO
(III)

Ante a efervescência dos convidados do Solar di Bicci e a leitura do testamento, o Espírito atribulado do Senhor duque, que se encontrava entorpecido no vágado demorado, de que fora vítima desde a hora em que Girólamo cometera os crimes sórdidos, despertou e, dominado por inenarrável fúria, acompanhou a leitura e os conchavos maléficos realizados no grande refeitório do solar, explodindo em cólera de louco. Identificando no sobrinho o autor de tantas desgraças, atirou-se sobre ele, punhos cerrados e dentes rilhados, sem, no entanto, conseguir atingi-lo.

À semelhança de um animal ferido, o Espírito do duque ululava, entre sombras espessas, de cujo bojo se destacavam o vulto odiento do sobrinho e o das personagens presentes, indiferentes ao seu próprio estado. Compreendeu, ante a leitura ouvida, que se encontrava definitivamente morto e que o ser sofria e se esganava em superlativa aflição e desconforto era ele mesmo, sim, em espírito vivo e indestrutível…

Embora a dor que o dilacerava, recordou-se dos filhos trucidados, de Lúcia, da esposa, enquanto as lágrimas, como aço derretido, lhe escorriam ardentes, lenhando-o externa e interiormente.

Sem o conforto de uma fé religiosa legítima, acostumado apenas ao culto externo e vazio da tradição, foi dominado pelo furor do ódio, deixando à margem toda a ternura e misericórdia de que ouvira falar e, de que se fizera portador aquele Nazareno Crucificado, em nome do Pai e, que dera a Sua pelas vidas dos homens de todos os tempos, ensinando mansidão e amor, até ao sacrifício supremo.

Em esgares, transformando-se lentamente, porque vencido pela própria desdita, o antigo Senhor di Bicci di M., desde aquele momento, se converteu em obsessor de Girólamo, seguindo-o implacável, tentando uma comunhão psíquica que hoje ou depois se faria, irreversivelmente, pois o ódio – o amor desvairado – vibra, poderoso e, encontra sintonia naquele a quem se dirige por um processo natural de harmonia vibratória, em considerando as baixas faixas mentais e morais em que se demoram os homens. Poderoso, o ódio atrai à sua força imantadora aqueles que se comprazem na invigilância e na irresponsabilidade, pois que somente a abnegação, a humildade, o amor, a caridade – as virtudes clássicas! – são antídoto específico capaz de dissolvê-lo.

sombra de que se supunha seguido, conforme relatara Girólamo, eram os primeiros fios invisíveis do remorso que o atariam à sua vítima central, por cujos liames se apertariam as teias da trama da vingança cega e louca do desafecto nascido pela traição e pelo homicídio múltiplo. Utilizando-se do remorso que teceria as malhas de imantação entre um e o outro, Dom Giovanni penetraria no recesso da consciência anestesiada do jovem e exerceria o seu predomínio em curso longo de obsessão vingadora, a se demorar pela esteira imensa do tempo. Não agora, porém, começariam os primeiros tormentos do criminoso. A Misericórdia Divina concede a bênção do tempo, em mil oportunidades, para o celerado reabilitar-se, mediante o arrependimento honesto em termos de acção pelo trabalho e pelo socorro ao próximo, através da construção do bem, dentro e fora do ergástulo em que se demora na carne. Todavia, soezes e frívolos, os facínoras se esquecem da justiça, e, quando esta não os alcança de imediato, supõem-se livres, prosseguindo na desenfreada cupidez, alucinação e prepotência, adicionando aos antigos novos débitos, acumpliciados com as mais vis manifestações do instinto, não totalmente domado ainda e, que lhes são portas da loucura inominável, em cujo corredor se atiram, sem possibilidade de próxima salvação. Era o que ocorria com Girólamo.

Limitado pelas comportas carnais, podia ver as cenas de primitivismo a que se atirava o pai adoptivo, tentando feri-lo, destruí-lo, exacerbado no próprio desespero. Deambulando pelo imenso solar, agora sem visitas, com os poucos servidores já recolhidos, repassava, o moço, as cenas ali vividas e se sentia o senhor absoluto da herdade, antegozando a hora em que, triunfante, com os documentos de posse, viesse a residir no palácio, demoradamente ambicionado. A realidade daquela hora parecia tirar-lhe a razão: sorria em alegria quase louca e bebia eufórico, seguido pela sombra do perseguidor.

A Senhora Ângela, em espírito, que também estivera presente à leitura do testamento, permanecera orando, tentando penetrar os crepes pesados que envolviam o esposo, de modo a acenar-lhe com as bênçãos do perdão ao infractor, que não jornadearia impune para sempre, libertando-o dos miasmas do ódio, em que se consumia lentamente. Fechado a qualquer comunicação exterior, o lampejo da lembrança dos seres queridos foi logo abafado pelo fervor da paixão odienta e nefasta que o venceu terrivelmente. Assim, a nobre Entidade, que socorria, a seu turno, os filhinhos recém-chegados e a antiga serva, abandonou o recinto, buscando a esfera da paz em que amparava os amores, confiando no Pai de Misericórdia e na Mãe Santíssima, a Eles entregando o esposo perdido nas trevas da ignorância e da vingança…

/…


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 3. O TESTAMENTO (3 de 3), 10º fragmento desta obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quarta-feira, 14 de março de 2018

~~~Párias em Redenção~~~


O TESTAMENTO (II)

Passados os dias mais angustiantes do luto, as autoridades se reuniram no Palácio di Bicci para a leitura do testamento. Foram convidadas algumas famílias e compareceram, também, convocados pela Justiça, alguns remanescentes da família di Bicci di M., vinculados ao Senhor duque.

Os archotes fumegantes voltaram a arder em brasas vivas no solar e, embora todos se encontrassem em pesado luto, o vinho capitoso escorria abundante, por ordem de Girólamo, que contratara alguns áulicos novos para ajudar os fâmulos remanescentes.

O inverno rigoroso ainda não amainara de todo. Após as chuvas torrenciais e as trovoadas retumbantes, o frio cortava e as estradas se apresentavam quase intransitáveis. De quando em quando, uma pancada de água caía inesperada, ameaçando de interrupção total as péssimas vias de comunicação.

Todos, portanto, desejavam libertar-se daquele desagradável dever para o qual foram convocados, excepto os interessados. Por uma hábil manobra, Girólamo convidara especialmente Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo de Siena para presidir à solenidade, de forma a sentir-se amparado pela velha astúcia do mau e cobiçoso sacerdote, que o defenderia diante da família do extinto, caso os que viessem aventurar-se criassem dificuldades em face do vasto espólio, ou para qualquer outra inesperada emergência.

Com a intuição da possível vantagem, o prelado se fez acompanhar do séquito que o acolitava e antes que a Justiça terrena realizasse o seu mister apresentou-se como representante da Justiça Divina, abençoando o remanescente da família devorada pela tragédia e rogando a todos conformação ante os desejos do duque extinto. Terminada a oração, sem qualquer tónica de inspiração e autenticidade, o juiz convocou o notário à leitura do testamento, que, apresentado às testemunhas, estas declararam serem autênticos os selos e o documento, reconhecendo ter sido aquele que assinaram por solicitação de Dom Giovanni di Bicci di M.

Estavam presentes, também, diversos membros do clã dos M., recém-chegados de várias cidades da Toscana: Florença, Siena, Pisa…, interessados na descoberta de qualquer haver que pudessem arrojar aos excessos e desperdícios a que se encontravam e, que igualmente examinaram o documento.

Após pigarrear grotesco e asmático, o notário deu início à leitura, com voz fanhosa:

“Eu, abaixo assinado, Giovanni di Bicci di M., duque pertencente ao grão-ducado da Toscana, viúvo e morador no Palácio di Bicci, nos arredores de Siena, achando-me com saúde, em meu perfeito juízo e livre de toda e qualquer coação, faço meu testamento do modo seguinte: Primeiro – Declaro que sou natural de Florença, donde procedem os meus ancestrais, todos eles comerciários e homens públicos, já falecidos; Segundo – Que me tendo consorciado com Ângela Venturi di Bicci, já falecida, tive do matrimónio três filhos: Grazziella, Carlo e Juliana, todos menores, vivos; Terceiro – Que me sendo permitido por lei dispor de minha terça e desejando favorecer aqueles que me têm servido e a quem amo, aos quais sempre tenho protegido e, não desejando que fiquem pela minha morte privados dos recursos necessários para a subsistência, resolvi utilizar da minha terça pela forma abaixo declarada; e nesta conformidade: Quarto – Determino que uma terça parte do que me pertence e de que posso dispor seja entregue à Catedral de Siena, para obras de piedade e celebração de missas pela minha e pela alma da Senhora duquesa, ficando as partes restantes para Lúcia, que serviu admiravelmente à minha esposa e a mim me tem servido com devoção. Deixo a cada um dos meus criados, quando eu vier a falecer e, que ainda estiverem ao meu serviço, a importância de mil escudos, moeda toscana que lhes será entregue dentro de trinta dias, a contar da minha morte; Quinto – Como pelo falecimento de minha mulher os meus filhos já são possuidores das duas terças que lhes pertencem, a eles peço manter os meus desejos, já que lhes não fará falta o de que disponho, sendo esta a minha vontade; Sexto – Se, todavia, alguma desgraça vier a suceder aos meus filhos, de que lhes resulte a morte, todos os meus pertences devem passar à propriedade da aia de minha mulher, Lúcia di Francesco Felsina, a quem nomeio, desde já, tutora dos referidos menores, pela minha exclusiva vontade e com permissão da Justiça; Sétimo – Para Girólamo, a quem a minha extinta mulher tanto queria, este espólio somente lhe chegará às mãos por extinção das pessoas citadas neste testamento; e quando ele falecer, tudo será encaminhado à Ordem da Penitência, em Florença, sendo metade para obras de arte e a outra metade para missas pelos meus familiares; Oitavo – Excluo deste testamento quaisquer pessoas que se apresentem como meus familiares, aqui não referidos e que não necessitam do meu auxílio; Nono – E por esta forma tenho feito o meu testamento, pelo qual revogo todos os outros que fiz; e como me seria penoso escrevê-lo, pedi-o ao notário Dom Germano Victorio, a quem nomeio meu testamenteiro desta cidade, para que o fizesse por mim e, eu vou rubricar depois de lido e certificado de que está tal qual eu ditei e quero. Siena, doze de Janeiro de mil setecentos e quarenta e três.”

– Devidamente assinado e aprovado, como pode ser visto – arrematou o tabelião –, devemos atender às exigências de Dom Giovanni.

Irromperam entre os assistentes diversas exclamações de ódio e violência, surgindo alterações entre membros da família, que se acreditavam ludibriados. Revoltados, informaram que apelariam para a Justiça da Capital.

Girólamo, abraçado pelo Bispo, chorava ou fazia crer que chorava. Dizia desconhecer o documento, no que foi ratificado pelo notário, que informou jamais o ter revelado a alguém – conquanto fosse conhecido dipsomaníaco, na cidade –, e pelo prelado da diocese, que se sentia ufano de ter sido a Igreja lembrada pelo falecido. Rejubilava-se, acreditando poder receber, também, um largo quinhão de Girólamo, quando este entrasse na posse dos bens, tendo em vista serem amigos e ter-se transformado em seu protector desde os aziagos acontecimentos já narrados.

O Senhor Bispo, tomando a palavra no tumulto geral, tornando-se juiz da questão, levantou a voz e bradou:

– Como os demais herdeiros – as crianças de di Bicci e a criminosa Lúcia – se encontram mortos, todo o espólio por lei e direito pertence, desde este momento, a Girólamo, a quem cumpre o dever de atender os desejos do seu tio e pai adoptivo, Dom Giovanni – que Deus lhe guarde a alma, nos Céus!

– Não posso receber nada, – falou o rapaz. – Esta casa está manchada pelo sangue de inocentes vítimas e esse dinheiro é amaldiçoado. Não posso, não posso!

– Acalme-se, meu filho! – redarguiu o Bispo. – Celebraremos algumas missas aqui e abençoaremos o solar. Você ajudará a Igreja, terá o que merece e o que lhe pertence pela vontade de Deus e do Senhor di Bicci.

Os familiares di Bicci di M., talvez recordando o antigo prestígio de que gozavam até há pouco, ameaçaram, furibundos, tudo retomar, utilizando-se do fastígio que lhes aureolava o nome, junto a Francisco de Lorena, da Áustria, e prometeram regularizar a situação posteriormente, expulsando a espadas o usurpador. Blasfemando, encolerizados, saíram em direcção a Siena…

Asserenadamente, deixaram-se ficar alguns convidados, as testemunhas, que assinaram o documento, o notário e o Senhor Bispo, para uma demorada comemoração em família.

Girólamo, aparentando uma emoção, uma tristeza que estava longe de sentir, solicitou ao testamenteiro e ao Senhor Bispo que cuidassem das questões legais, enquanto ele se afastaria com destino a Florença para um justo repouso, a fim de reorganizar as ideias, muito violentadas nos últimos tempos. Voltaria um mês depois, quando, de posse dos haveres, saberia recompensá-los devida, regiamente.

Os olhos dos comensais espúrios do favor nefando brilharam e a noite continuou sombria, piscando estrelas no alto.

/…


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 3. O TESTAMENTO (2 de 3), 9º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

domingo, 16 de abril de 2017

~~~Párias em Redenção~~~

O TESTAMENTO (I)

Terminados os ofícios fúnebres dedicados aos infortunados descendentes do duque di Bicci di M., os despojos mortais das crianças foram inumados no mausoléu da família, na delicada capela fronteiriça à casa senhorial, na qual dias antes fora depositado o corpo de Dom Giovanni. Lúcia, acusada vilmente por Girólamo, que se fazia acompanhar do falso testemunho de Assunta, teve negada pela Igreja “terra sagrada” ao seu corpo, que não mereceu exéquias de qualquer natureza, sendo sepultada na floresta, como animal batido em refrega selvagem.

As autoridades policiais fizeram ligeira investigação e, como faltasse um móbil para outras suspeitas, o “caso” foi encerrado dentro das disposições legais e as sombras fantasmagóricas da tragédia caíram pesadamente sobre o palácio, onde antes abundavam a alegria e a fartura, a arte e a beleza, quando nos dias da Senhora duquesa Ângela.

Girólamo, por autorização da Justiça de Siena, despediu os servos, permitindo somente a alguns que se fixassem no local, nos mesmos terrenos da propriedade do seu tio e pai adoptivo, enquanto se tomavam as providências para abertura do testamento, em data a ser fixada, logo diminuísse o impacto do infortúnio que enlutara toda a região. Fâmulos e servos foram dispensados, ficando, apenas, alguns zeladores para guarda e conservação da casa, amanho do solo e protecção aos animais…

Fingindo um abatimento profundo e recusando alimentos, em ardilosa atitude, estudada para escapar a quaisquer suspeitas, o moço malsinado concertou com Assunta os planos para o futuro.

– Acredito conveniente – arengou, logo pôde encontrar-se com a sórdida companheira de crimes – que nos separemos por algum tempo e que te dirijas à Capital (*), de modo a evitar desconfianças quanto aos acontecimentos últimos do Palácio di Bicci.

Procurando demonstrar um amor e afecto que estava longe de sentir, envolveu a jovem irresponsável com braços de lânguida sensualidade e, persuadindo-a, serpente que hipnotiza a pomba invigilante para a devorar depois, continuou:

– Não ignoras o imenso amor que me devora a alma por ti. Sabes da chama que me queima e requeima, somente diminuindo de intensidade quando em comunhão contigo. Anelo a bênção do matrimónio, a fim de regularizar a nossa incómoda situação, quando, passado algum tempo e o esquecimento tudo tiver envolvido, retornares à nossa casa, na condição de senhora.

 – Temo, Girólamo! Pressinto que nunca poderei ser feliz a teu lado, por mais que o cobice. Devorada pela paixão, não titubeei em ser-te fiel até ao crime. Por ti faria muito mais. Esta loucura, que me cega e que me conduz à destruição em passos de corcel veloz, me domina cada dia, e temo. Não me enganas: somos da mesma têmpera e feitos do mesmo material. Eu te amo, embora não creia no teu afecto. Pressinto que te queres apartar de mim e que, no resultado final da escolha, ficarei à margem. Seleccionarás uma dessas mulheres que são adorno social, para compartir as homenagens e glórias contigo, embora me busques às escapadas, para o leito da animalidade. Não te atrevas, porém, a trair-me. Sabes que nós, os etruscos, especialmente os nascidos em Chiusi, somos violentos e apaixonados; recorda que os nossos ascendentes, que antes dominaram estas terras, defenderam-na até à total extinção da raça. Já te disse muitas vezes que não sou daquelas que cedem ou que se conformam com a derrota. Arrastaste-me ao crime e tens agora o teu destino ao meu ligado…

Repentinamente, desapareceram do rosto da jovem os sinais da ternura e da afectividade, transformando-se a face, visivelmente conturbada. Os olhos se dilataram e, afastando-se do amante com gesto brusco, gargalhou, transtornada, falando com os dentes rilhados:

– Qualquer traição da tua parte será cobrada com o ácido da vindita. Denunciar-te-ei às autoridades, narrando toda a infâmia, desde os seus primeiros planos; direi a forma como me seduziste, arrastando-me contigo à perene desdita, mesmo que, com a denúncia da tua pessoa, eu pague o suplício a teu lado. Nunca te cederei a outra, não esqueças!

Muito pálido, o moço, acobardado ante a acusação que temia e esperava, avançou e esbofeteou a jovem, enquanto lhe gritava:

– Não me repitas mais esta acusação; nunca mais! Desgraçados já o somos desde a hora do nosso conúbio para o homicídio e a desonra. A memória da minha tia me persegue e um surdo ódio ainda me extravasa do coração quando recordo o duque, e sinto algo, como se a sua sombra hedionda me seguisse os passos. As artimanhas do remorso já tomam forma na minha memória e procuro apagá-las… Tu, também, te levantas para me incriminar, sabendo que tudo foi feito para nossa felicidade, porque te amo e desejo a paz para nós? Antes, a nossa união seria impossível… Agora, quando tudo se regularize e eu passe a ostentar o poder, quem me censurará a escolha? Não sabes que o dinheiro e a posição tudo conseguem no mundo? Cala e ouve!

A encenação desmedida produzida por Girólamo impressionou favoravelmente a companheira inexperiente.

Ele a fitou, e enquanto os seus olhos brilhavam – ninguém poderia saber se de volúpia, aumentada pela ardência do atrito, se de paixão de homem desregrado, ou de medo da ameaça –, imprimiu a fogo as palavras proferidas pela moça, no adito da memória, para estar sempre vigilante, constatando que ela o faria, assim se sentisse ludibriada na posse devastadora da carne.

Girólamo, conquanto jovem, desde cedo acostumara-se às astúcias do crime, Espírito endividado em muitas existências, trazia consigo as sementes da violência e da alucinação cobarde, conhecendo os meandros sórdidos da consciência muitas vezes ultrajada e, interiormente, se acreditava capaz de qualquer tentame nos arraiais da delinquência. Por isso se identificara facilmente com Assunta que, a seu lado, repetia experiência insana, tentando regularizar débitos pretéritos, que complicava ainda mais pela invigilância actual, enrodilhando-se em cipós de cruel aflição, para futuro próximo.

É claro que desde a elaboração do plano do homicídio múltiplo ele cuidara, também de tomar uma medida para ser executada oportunamente, de modo a libertar-se da única testemunha da sua crueza criminosa. Agora, no entanto, era necessário silenciar-lhe a voz temporariamente, mediante o afastamento dos sítios de Siena, para evitar complicações. Aproveitava-se, logicamente da justificativa de despedir os fâmulos e serviçais para, assim, prosseguir aguardando os resultados da leitura do testamento.

Após a demorada reflexão, durante a qual fixava a jovem dominada pelo seu encanto maléfico, propôs:

– Demandarás à Capital e lá te quedarás por algum tempo. Sei que tens família entre os florentinos e tomarás precauções extremas, evitando aventuras ou excessos e cultivando o recato, pois em breve serás a esposa de um Cherubini… Irei visitar-te sempre que o possa fazer, sem que a minha ausência venha a levantar suspeição aqui. Encontrar-nos-emos e, felizes, traçaremos planos para o nosso futuro. Serás minha desde hoje e ninguém mais te possuirá. Evita os teus amos, caso necessites de servir alguém, e esquece tudo quanto aconteceu no Palácio di Bicci. Irei preparar a mentalidade dos meus amigos e de algumas famílias locais, logo entre na posse dos bens, para que todos te recebem fidalgamente. O tronco da família donde procedes dar-te-á entrada fácil na nossa sociedade agrícola, tão corrupta quanto a citadina, bem o sei…

E tomando a jovem, com a violência da paixão desregrada, nublou-lhe a mente, dominando-lhe o corpo e a alma…

Assunta despediu-se dos últimos servos, arrumou os pertences e partiu numa sege especial a expensas de Girólamo. Afastou-se do amante com lágrimas, e este, quando viu a carruagem desaparecer entre os cedros que bordavam a estrada, respirou fundo e sorriu em misterioso júbilo, como se tudo estivesse a transcorrer conforme planeado.
/...
(*) Florença.


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 3. O TESTAMENTO (1 de 3), 8º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

~~~Párias em Redenção~~~

ALUCINAÇÃO E CRIME (IV)

Horas avançadas, Girólamo caminhava pela alcova, agitado, em trajes de dormir.

O punhal afiado brilhava aos reflexos do luar que por vezes penetrava no quarto, colocado sobre delicada arca de cânfora trabalhada.

Pensava, em tumulto íntimo, na agressão que deveria perpetrar e que culminaria no homicídio múltiplo.

Repentinamente, percebeu-se recordando o pai adoptivo, recém-falecido e surda revolta lhe assomou à mente. Como se se sentisse realizado em poder vingar-se da antipatia natural que ambos nutriam reciprocamente, monologava: “Esta é a hora do meu desforço. Estás morto, miserável! Tudo me pertencerá, logo mais. E agora, Senhor di Bicci di M.?”

O pensamento em desalinho martelava, repetia, disparava dardos de ódio que buscavam o alvo…

Conquanto a enfermidade o vitimasse com rapidez, o duque sabia que se acercava da porta da Imortalidade. No íntimo, acalentava, quase desejoso, poder dar o grande passo, que o colocaria ao lado da esposa idolatrada. Homem lutador, não cultivara, todavia, os sentimentos da fé, deixando o problema da religião ao sacerdote que mantinha no palácio para cuidar das responsabilidades da alma, como se outrem pudesse responder pelos deveres espirituais que a cada um nós cabe, no cômputo da existência planetária. Ignorando totalmente as realidades espirituais, sentia a desvitalização orgânica e a paralisia cerebral, compreendendo ser a aproximação da morte, vencido de angústia pelo destino dos filhos e de Lúcia, que ficariam a sós, num mundo de ódios e vinganças qual aquele, apesar dos cuidados que tivera na distribuição dos bens.

Mesmo após estarem paradas as carnes pela morte e ser o seu espírito sacudido por diversos delíquios, experimentava sensações estranhas. A morte não lhe dominou o raciocínio. Seria aquilo morrer?! – pensou. Somente, então, recordou-se de que nunca dera atenção a tão importante questão da vida. Acompanhou, sem compreender, o velório, as exéquias, os prantos e a cerimónia final, com os sentidos atordoados, desconexos, observando o que se passava, sem inteirar-se totalmente da realidade. Sim – pensava –, deveria ter morrido, pois que não conseguia comunicar-se com as pessoas presentes, e todos aqueles apetrechos lutuosos traduziam o desaparecimento do senhor da herdade, como era tradição. Ele, porém, continuava a viver, experimentando as dominadoras sensações de sempre. Que era, porém, a morte? Não podia examinar o palpitante assunto naquele instante. A dor visitava-o, a fraqueza que o imobilizara no corpo continuava a sua acção nos departamentos diversos do seu ser, tonturas constantes e frio cortante venciam-no lentamente. Desejou andar, traduzir as aflições do momento, agasalhar-se, e não pôde. Estava ligado aos despojos orgânicos que, sem saber precisar como, conduziram-no ao esquife e ao mausoléu...

Encontrava-se em agonias longas, com dificuldade respiratória, quando pareceu escutar soturna voz que o chamava com veemência, exercendo, sobre a sua mente, desconhecido poder. Padecimentos mais fortes assaltaram-no, qual se uma chibata habilmente manipulada o açoitasse. Incapaz de compreender quanto se passava, foi subitamente arrastado da capela mortuária, em que jazia o corpo, por estranho sortilégio, aos aposentos de Girólamo e pôde, então, identificar o sobrinho, cujos dentes rilhados pronunciavam-lhe o nome, blasfemando, irado, venal…

A pobre entidade, ainda esmagada pelas sensações e emoções do túmulo, em recomeço difícil, recordou a surda antipatia que sempre lhe inspirara o moço e, sentindo-se alvo do ódio do ingrato, começou a revidar, desavisado, esquecido da situação nova, quando observou que o jovem se acercou da arca, sacou do punhal reluzente e avançou pelo longo corredor em trevas, na direcção da ampla alcova das crianças e de Lúcia.

Sentindo-se aniquilar pelo horror que dele se apossava, o Espírito perturbado em si mesmo seguiu-o e, em superlativa amência, acompanhou o trágico desfecho da insanidade.

Girólamo, tomando um travesseiro de plumas leves, acercou-se do leito de Grazziella e asfixiou-a impiedoso, enquanto a menina, adormecida e impossibilitada de respirar, debatia-se sem forças até à parada total dos movimentos, qual ave fraca e inocente nas garras odientas do abatedor. Concluía a primeira etapa, o homicida repetiu a experiência com as demais crianças, após o que se acercou de Lúcia, dominado por infeliz e desconcertante vindita, apunhalando-a repetidas vezes, enquanto gritava, totalmente louco…

A jovem nem sequer despertou do torpor que a venceu. Emitiu surdos ruídos e desfaleceu, moribunda, e logo morta, atirada ao solo pelo implacável tirano.

 Aos gritos do moço, os servos acorreram, trazendo archotes, e depararam com a cena funesta, indescritível. O moço, banhado pelo sangue da vítima, apontava-a morta, enquanto bradava:

– Fui obrigado a matá-la. Surpreendi a infame asfixiando as crianças, meus primos, com o travesseiro, naturalmente para ficar herdeira única. Não resisti, e apunhalei-a quanto pude!

“Nada há mais que fazer. Está morta; estão todos mortos! A assassina, serpe venenosa que se nutriu do leite que a vitalizou, terminou por picar o seio no qual se alimentava. Vingança, vingança!”

Ante os brados dos servidores, desesperados, estupidificados, o palácio se transformou imediatamente num pandemónio terrível.

Girólamo despachou servos na direcção de Siena, para que as autoridades fossem notificadas da tragédia inominável e viessem tomar conta dos acontecimentos chocastes.

A manhã surgiu na densa neblina, enquanto o palácio do Senhor di Bicci di M. enlutava-se outra vez, no curso da mesma semana, agora sob o estigma de inconcebível catástrofe.

O Espírito do duque, face ao infortúnio, desfaleceu ali mesmo, no recinto da desgraça, vencido por inexplicável dor.

Simultaneamente, a sombra augusta da duquesa, em prece, acompanhava, comovida, o desenrolar do drama, buscando receber nos braços os espíritos colhidos ao império da Lei de Causa e Efeito. Acolitada por Emissários do amor, oferecia assistência a Lúcia e aos filhos, que chegavam à vida nova em circunstâncias trágicas, porém libertados dos cruéis liames com a retaguarda. Infelizmente, e porque se vinculasse pelo revide mórbido a Girólamo, não pôde ser amparado com a mesma segurança o duque, dolorosamente esmagado pelas agonias que o desequilibravam.

/…


VICTOR HUGO, Espírito "PÁRIAS EM REDENÇÃO" – LIVRO PRIMEIRO, 2. ALUCINAÇÃO E CRIME (4 de 4), 7º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’Âme de la Florêt_1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

domingo, 26 de abril de 2015

~~~Párias em Redenção~~~

ALUCINAÇÃO E CRIME (III)

A noite avançava lavada e varrida pelas chuvas e ventos, que desabavam abundantes, e o moço revira-se impaciente no leito, desassossegado. A avançadas horas, deixou-se abater por torpor dominante e, assaltado por esquisito pesadelo, sentiu-se amarrado ao leito, experimentando os sentidos psíquicos exaltados. Foi dominado pela sensação desusada de que, embora caído pesadamente sobre a cama, podia locomover-se no quarto em brumas espessas, entre as quais, direcção estóica e hierática, como sempre o fora. Agitando-se penosamente e desejando evadir-se do desagradável e insólito fenómeno que o avassalava, compreendeu-se vencido ante aquela que lhe fora mãe espiritual dedicada e cujo amor ele estava prestes a desrespeitar, por meio de hediondo crime. A entidade acercou-se dele e, traduzindo inconfundível melancolia na voz, marcada por acento de doída angustia, inquiriu:

– Que pretendes, Girólamo? Assim retribuis, através do crime nefário que premeditas, o calor da afeição pura e da dedicação que recebeste deste lar? Substituíste por ácido o sangue que pulsa nas tuas veias para, enlouquecido, te comprometeres por penosos séculos de infeliz peregrinação ressarcidora? Susta o golpe, antes que o golpe te vença, sem que consigas aniquilar-te a ti mesmo. Ninguém tem o direito de erguer a mão, que se torna sacrílega quando investe contra a vida de outrem. Mesmo diante do revel, a nós não nos pertence o direito de destruir, e sim Àquele que o produz, e que se utiliza de recursos que nos escapam, para equilibrar tudo, no padrão da Sua Sabedoria. Estaca, e modifica a intenção! Ignoras que a vida não cessa e que nós outros, os que antecipamos na jornada do túmulo, vivemos?!

Desfigurado pela visita inusitada, o moço, em febre, arguiu, desafiadoramente:

– Deliro, oh! Deus. Enlouqueço! Ninguém volta da morte. Você está morta, titia! Deixe-me em paz, antes que me estourem os miolos avassalados por demónios perversos. Não pode ser você. Deve ser algum enviado das geenas, para aniquilar-me.

– Não, filho, sou eu mesma, quem retorna. É a voz da minha alma que te fala hoje, como fizera ontem, despertando as mínimas expressões de consciência, de dignidade, na tua razão, obnubilada pela ambição ignóbil que te vence. Morri, mas não fiquei destruída. Não encontrei o céu de repouso ou o inferno de desdita. Deparei-me com a vida estuante, colocada pela Excelsa Misericórdia Divina ao alcance dos que Lhe respeitam as leis. A vida aqui é a razão da vida daí. Ressurgimos do portal de cinzas da sepultura com as asas de anjos ou os pesados grilhões atros, resultantes das nossas atitudes na Terra, que nos alçam a regiões de paz inefável ou nos conduzem a abismos de dores demoradamente remissíveis, até a consciência ferida no seu mais fundo sentir experimente a necessidade de tudo recomeçar e refazer… Somos os construtores da nossa ventura como também do nosso infortúnio. Por isso, reprime o passo e detém-te, antes que seja tarde demais.

– Agora já é tarde demais! O ódio que me arde na alma destruir-me-á antes que eu possa recuar. Tenho que cumprir esse destino…

– O destino nos pertence. A cada instante estamos a elaborá-lo, modificando-o ou estabelecendo-o através do que pensamos, do que dizemos, do que fazemos. Cada um consegue o que cultiva, quanto acontece ao agricultor que recolhe a resposta da terra através do grão que lhe atira na cova. Susta o vil pensamento e reflecte. Por que te voltas contra a inocência de Lúcia e a pureza das crianças? Que te fizeram, revel? O ódio que lhes devotas são as farpas da inveja e do despautério do teu espírito ingrato. Volta-te para Deus e escuta a insuperável mensagem de amor do Seu Filho Jesus. Escolhe: agora, ou será tarde demais, realmente. Esquece a sandice e não serás esquecido pela Justiça Celeste. Este é o momento da tua redenção: pára! Ignoras as realidades da vida: do ontem e do amanhã…

– Não posso, não posso. É muito tarde para mim. Tudo está pronto. Não posso, nem desejo recuar…

– Eu lamento, por ti e por outrem que não está em condições de perguntar-te e de amar-te. Na minha imensa, incomparável dor, eu te perdoo e choro por ti e por alguém mais. No entanto, ouve-me, Girólamo, é tempo. Foge, viaja, sai desta casa, evade-te ainda hoje, buscando renovação noutros sítios e retorna depois. Serás sempre bem recebido. Terás o de que necessitas, o que ambicionas, porém, por outros meios. Vai em busca da paz, enquanto luze a oportunidade, pelo amor de Deus eu te rogo, meu filho!

Tresloucado, espírito em alucinação, o moço gritou:

– Nunca! Agora irei até ao fim, até à minha total desgraça ou ventura. Não pararei!

– Atingirás, sim, a desgraça. Deus tenha piedade de ti! Eu te perdoo, filho. Perdoe-nos Senhor a todos nós!

A emissária espiritual levou a nívea mão ao peito levemente ofegante e lágrimas silenciosas, longas, lhe escorreram pela face venerada. Um olhar de indizível dor foi endereçado ao moço, conduzido pela teimosa incoerência de raciocínios e, embora distendendo, logo após, os braços para recolhê-lo outra vez no seio sofrido, Girólamo, como se libertasse do magnetismo que o retinha preso, atirou-se na direcção do corpo que se debatia em desespero no leito e despertou gritando, de olhar esgazeado, suado, aturdido…

Ergueu-se de um salto, apoiou-se à janela, abriu-a e aspirou o ar húmido e frio da noite para recobrar a lucidez e coordenar as ideias assaltadas pela quase demência.

Transcorridos alguns minutos, aumentando a luz no quarto, entregou-se aos sombrios pensamentos já habituais, enquanto ruminava com a desconcertante visão, que parecia persegui-lo, embora desperto. Sentia-se assistido pela tia; conquanto não a pudesse ver naquele instante, percebia-se por ela visitado. Deixou repentinamente a alcova, desceu ao patamar da parte térrea, abriu a porta de entrada, procurando, sem saber exatamente o quê, meios de reencontrar-se. A chuva torrencial, porém, prosseguia. Em derredor da herdade, os rios transbordavam, as estradas estavam quase intransponíveis…

Em inquisição crescente, aguardou a madrugada e o dia brumoso raiou. O cansaço venceu-o com a chegada da manhã, quando, então, se recolheu por algumas horas, em pesado e tormentoso sono.

Levantou-se tarde e não compareceu à refeição matinal.

Amainada a tormenta, deambulou a esmo pela terra encharcada e ao retornar, com a alma em frangalhos, foi recebido pela vigilante Assunta, que o aguardava ansiosamente.

Higienizando-se tomou caldo quente e reparador, que a serva lhe trouxe. Amolentado de carácter, deixou-se arrastar pelas paixões absorventes e cuidou, com a consócia, do crime em delineamento, sobre todos os detalhes da tragédia que logo mais seria consumada. Buscou repousar, enquanto Assunta, que guardara o soporífico que ele lhe entregara, desceu à cozinha.

Naquela noite, Assunta oferecera-se a Lúcia para cuidar do repasto das crianças, prontificando-se a ajudá-las a se recolherem ao leito, informando que também lhe traria a refeição, contanto que descansasse das últimas e longas fadigas.

Embora pressentindo a borrasca que a ameaçava, Lúcia, exaurida pelo cansaço, aceitou a oferenda da mulher pusilânime e se quedou em leve recreio com os pequenos órfãos.

Após servir a refeição frugal, Assunta trouxe imensa bandeja de prata com chávenas e bule de chá fumegante, bolinhos de milho, leite e açúcar. Antes, porém, adicionara forte quantidade de pó sonífero, que se misturara ao chá, e, sorridente, serviu às vítimas em potencial, que ignorando a trama cruel, se deixaram conduzir inermes pela má e injusta adversária gratuita. Transcorridos poucos minutos, e não podendo vencer a moleza e o sono que de todos se apossou, recolheram-se aos leitos, vestidos conforme se encontravam.

A astuta comparsa de Girólamo trocou os trajes das crianças, que ressonavam sob o peso do produto forte, e as depôs nas respetivas camas. Lúcia, porém, foi arrastada, como se encontrava, para o lado do cataló da menina Grazziella, ali ficando adormecida, enquanto a relutância que oferecera ao invencível mal-estar. Isto feito, Assunta cerrou a porta, deu ciência a Girólamo de toda a ocorrência e demandou, por sua vez, o próprio dormitório.

A noite, embora ameaçadora, não se encontrava sacudida pelas chuvas nem pelos ventos da véspera. Uma lua fria e triste espiava entre nuvens carregadas. O relâmpago aparecia de longe em longe e a voz do trovão chegava cansada e rouca aos cenários dos próximos e tristes acontecimentos.

Horas avançadas, Girólamo caminhava pela alcova, agitado, em trajes de dormir.

O punhal afiado brilhava aos reflexos do luar que por vezes penetrava no quarto, colocado sobre delidada arca de cânfora trabalhada.

/...


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO ” – LIVRO PRIMEIRO, 2. ALUCINAÇÃO E CRIME (3 de 4), 6º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt_1898, pintura de Edgard Maxence)