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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

agonia das religiões ~


Deus | Espírito e Matéria

Para melhor se entender a expressão Deus, em espírito e matéria, que usei no capítulo anterior, – e melhor se entender também o problema da experiência de Deus no tempo – julgo necessário tratar dos princípios da cosmogonia espírita, na qual se integra a teoria da génese e a formação do espírito. O contra-senso da afirmação bíblica de que Deus criou o mundo do nada, que tanto trabalho deu aos teólogos, é explicado na revelação espírita pela teoria da Trindade Universal. Deus, o Ser Absoluto, é a fonte de toda a Criação. Existindo essa fonte solitária, é logicamente necessário admitir-se um meio em que ela existia. Esse meio, que seria o espaço vazio, foi considerado o nada. Para tratar do Absoluto num plano relativo, como o nosso, é preciso usar expressões relativas.

A concepção espírita do mundo não admite a existência do nada. O Universo é pleno – é uma plenitude – não havendo nele nenhuma possibilidade de vácuo. Essa teoria espírita da plenitude está hoje a ser confirmada pela pesquisa científica do Cosmos. As regiões siderais que poderíamos julgar vazias mostram-se como campos de forças, carregadas de energias que escapam aos nossos sentidos. Esse pré-universo energético seria o que Buda definiu como o mundo sempre existente, que nunca foi criado. Pitágoras, na sua filosofia matemática, considerou Deus como o número 1 que desencadeou a década. O UM, número primeiro, existia imóvel e solitário no Inefável (naquilo que para nós seria o nada) e nesse caso o nada seria a imobilidade absoluta. Houve em certo momento cósmico, não se pode saber como nem porquê, um estremecimento do número 1, que assim produziu o 2 e a seguir os demais números até ao 10. Completando-se a década, tivemos o Todo, a Criação se fizera por si mesma, o Universo surgira e com ele o tempo. É claro que não dispomos de recursos para investigar as origens primeiras e, essas teorias não passam de tentativas de explicação lógica, destinadas a proporcionar-nos uma base alegórica ou hipotética para uma possível concepção do mistério da Criação.

Espiritismo sustenta a possibilidade de conhecermos a verdade a respeito, quando houvermos desenvolvido as potencialidades espirituais que nos elevarão acima da condição humana. Enquanto não chegarmos lá, essas hipóteses devem servir para mostrar-nos que dispomos de capacidade para ir além dos limites do pensamento dialéctico, além do conhecimento indutivo baseado no jogo dos contrastes.

Assim sendo, não podemos aceitar a alegoria bíblica da Criação à letra, como verdade revelada, nem contestá-la orgulhosamente com a arrogância materialista. Na posição do crente temos a ingenuidade e na posição do materialista temos a arrogância do homem, esse pedacinho de fermento pensante, como dizia o Lobo do Mar de Jack London. O espiritualismo simplório e o materialismo atrevido são os dois pólos da estupidez humana. O bom-senso, que é a regra de ouro do Espiritismo, nos livra da estupidez e oferece-nos a possibilidade de chegar à sabedoria sem muito barulho e disputas inúteis.

Partindo do pressuposto de que o mundo deve ter uma origem e aceitando a ideia de que foi criado por Deus – pois assim o afirmam todos os Espíritos Superiores que se referem a este assunto e que revelam uma sabedoria superior à nossa –, Espiritismo admite que a fonte inicial é uma inteligência cósmica. Mas porque uma inteligência e não apenas um centro de forças casualmente aglutinadas no caos primitivo? Porque o Universo se mostra organizado inteligentemente em todas as suas dimensões, até onde podemos observá-lo. Seria ilógico, absurdo, supormos que essa inteligência da estrutura universal, que se manifesta em minúcias ainda inacessíveis à pesquisa científica, desde as partículas atómicas até aos genes biológicos e aos seus códigos admiráveis, seja o resultado de um simples acaso. Nenhuma cabeça bem-pensante poderia admitir isso. A teoria espírita – teoria e não hipótese, pois que já provou a sua validade através de todas as pesquisas possíveis – pode ser resumida neste axioma doutrinário: Não há efeito inteligente sem causa inteligente e, a grandeza do efeito corresponde à grandeza da causa.

Colocando assim o problema, a sua equação torna-se clara. O Espiritismo elabora-a em termos dialécticos: a fonte inicial, Deus, existindo no meio do inefável, constituído de matéria dispersa no espaço, emite o seu pensamento criador que aglutina e estrutura a matéria. Temos assim a Trindade Universal que as religiões apresentam de maneira antropomórfica. Essa trindade não é formada de pessoas, mas de substâncias regidas por uma possível Inteligência, constituindo-se assim: Deus, Espírito e Matéria.

O espírito que a constitui não é uma entidade definida, mas o pensamento de Deus que se expande no Cosmos sobre a forma de substância. Essa substância espiritual penetra o oceano de matéria rarefeita, dispersa e, aglutina as suas partículas, estruturando-as para a formação das coisas e dos seres. Da tese espiritual e da antítese material resulta a síntese do real, do mundo criado por um poder inteligente.

Qual a razão de ser, o objectivo, a finalidade e o sentido da Criação? Espiritismo admite que não podemos conhecer tudo isso no nosso actual estágio de desenvolvimento, mas podemos, através da nossa inteligência humana, indagar, perquirir, pesquisar e chegar a resultados logicamente possíveis. Os dados científicos da Geologia, por exemplo, mostram-nos a Terra como o resultado de um longo processo de formação, no qual é evidente a intenção de atingir um tipo de perfeição em todas as coisas e todos os seres. As formas imprecisas e grotescas das primeiras idades do planeta se vão aprimorando ao longo do tempo, numa sucessão nítida de fases de elaboração caprichosa. Os dados da Antropologia revelam-nos o aperfeiçoamento do homem nas civilizações sucessivas, a partir das selvas. Os dados da Psicologia desvendam-nos os anseios da alma humana, na busca incessante de transcendência, de superação do seu condicionamento orgânico-material. Os dados da Estética revelam-nos o anseio de belezaperfeição e equilíbrio que rege o desenvolvimento individual e colectivo, o indivíduo e a espécie.

Gustave Geley, no seu livro Do Inconsciente ao Consciente, propõe-nos uma visão dialéctica do mundo em que as coisas se transformam em seres e estes avançam em direcção à consciência. É a mesma visão da teoria dialéctica de HegelOliver Lodge considera o homem actual como um processo em desenvolvimento. O Existencialismo, nas suas várias escolas, encara o homem como um projecto, um vector que se lança na existência em busca da transcendência. Para Sartre, o homem frustra-se nessa busca e se nadifica na morte, se reduz ao nada. Para Heidegger, o homem realiza-se no trajecto existencial e se completa na morte. Para Jaspers, o homem consegue transcender-se em dois sentidos: o horizontal, na relação social, e o vertical, na busca de Deus. Para Léon Denis, todo o processo de transformação se explica por esta frase genial: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. Para Kardec, a transcendência humana leva-nos ao plano da angelitude, pois os anjos nada mais são do que espíritos que superaram as condições inferiores da humanidade.

Temos assim o Universo, com a multiplicidade dos seus mundos rolantes no espaço sideral, dos seus sóis e das suas galáxias, como um fluxo permanente de forças em transformação incessante, objectivando a formação dos seres e a elevação destes a condições divinas. Só a hipótese de Sartre admite a inutilidade como finalidade universal.

Os Espíritos Superiores, nas suas comunicações, desmentem e rejeitam essa hipótese negativa, sustentando a natureza teleológica do Universo. Consideram a Criação como um gigantesco processo que só pode ser definido corno o fiat na sua fase inicial, quando a Mente Suprema emite o seu pensamento para unir essa emanação do seu espírito à matéria dispersa. Depois desse instante criador desencadeia-se o tempo e é nele que o processo criador vai desenvolver-se lentamente através dos milénios. E a superioridade desses Espíritos não é avaliada por medidas ou métodos místicos, mas por verificações racionais. Os Espíritos Superiores não ensinam apenas através de ideias, mas também de factos. Provam, através da produção dos fenómenos paranormais, que possuem uma ciência muito superior à nossa, um conhecimento do espírito e da matéria que estamos longe de atingir e uma compreensão de Deus que supera em muito as nossas interpretações antropomórficas da Inteligência Criadora. Além disso, as suas previsões se confirmam de maneira rigorosa, demonstrando que possuem recursos de futurologia muito mais avançados e seguros que os nossos. As suas proposições são ainda relacionadas com os nossos conhecimentos, completando-se na medida em que o nosso adiantamento permita que nos falem a respeito sem provocar dúvidas ou confusões na nossa mente.

A relação de Deus com o Universo não é apresentada em termos de mistério, mas de realidade verificável. Na Terra, o homem representa o ponto culminante do processo evolutivo. A criação do homem à imagem e semelhança de Deus explica-se em termos espirituais. Porque o homem é o único ser terreno que possui mente criadora, pensamento produtivo e contínuo, psiquismo refinado e complexo, capacidade de percepção e de intuição que lhe permitem penetrar na essência das coisas, ultrapassando a aparência ilusória. Feito assim, como um reflexo da divindade, o homem liga-se a Deus não apenas pelos laços do acto criador, mas também por afinidade psíquica e espiritual. É um herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo, como escreveu Paulo, que se prepara para entrar na herança do futuro.

A relação de Deus com o homem começa, portanto, muito antes que ele se defina como criatura humana. Desde o momento em que o pensamento de Deus se une à matéria para modelá-la e, nas fases subsequentes, em que espírito e matéria se fundem nas formas substanciais de que tratou Aristóteles, a relação de Deus com o homem desenvolve-se em progressão constante. Quando se estrutura a consciência humana no ser em evolução, a marca de Deus ali está presente, na lei de adoração que é o sentimento inato de sua filiação divina e se manifestará no sentimento religioso, base de todas as experiências religiosas da Humanidade. Temos de dividir o conceito da experiência de Deus, em que tanto se apoiam as religiões formalistas, em dois tipos bem definidos de experiência: a de Deus, que começa no fiat, como elemento ontogenético (elemento constitutivo da própria génese do homem) e a religiosa, que corresponde às tentativas de uma tomada de consciência de Deus através de formulações religiosas por meio de rituais, instituição de igrejas, sistemática litúrgica e sacramental, organização clerical, ordenações e elaboração dogmática. Confundir a experiência genética de Deus com a experiência formal da vivência religiosa é característica do pensamento superficial, que facilmente se acomoda no jogo aparencial das instituições humanas. Deus, espírito e matéria formam o triângulo fundamental de toda a realidade. A omnipresença de Deus não implica o mistério de uma pessoa sobrenatural que se dispersa nas coisas, mas a participação do pensamento criador de Deus em tudo, desde a formação do átomo até à formação da consciência. Compreendendo que o espírito e a matéria são os dois elementos estruturais da realidade, compreendemos que Deus esteja presente em todas as partículas do Universo, como o poder criador, omnisciente, controlador e mantenedor de todo o equilíbrio universal. Deus penetra o mundo e está nele, como a seiva no vegetal, mas não se reduz a ele, pois permanece inalterável como a fonte de que tudo emanou.

A Ciência actual está a chegar rapidamente a essa constatação. Dizia o físico nuclear Arthur Compton, no seu ensaio sobre o lugar do homem no Universo, que descobrimos a energia por trás da matéria, mas já começamos a perceber que por trás da energia existe algo mais, que parece ser o pensamento. A unidade, a coerência, a perfeição dessa concepção espírita do mundo e do homem passam despercebidos no tumultuar das teorias absurdas que, como escreveu Charles Richetatravancam o caminho da nossa Ciência. Mas parece já próximo o momento em que o caminho se tornará livre.

Não há lugar, nessa concepção admirável, para o equívoco da contradição Espiritualismo-Materialismo em que até agora nos debatemos. Espírito e matéria aparecem sempre unidos, interligados e interactuantes, na dialéctica da Criação. E a negação de Deus, como observou Descartes, é tão absurda como pretendermos tirar o Sol do Sistema Solar.

/…

José Herculano Pires, Agonia das Religiões / Capítulo 5 – Deus, Espírito e Matéria, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel).

domingo, 16 de abril de 2023

o grande desconhecido ~


O PROCESSO CULTURAL

No desenvolvimento da Cultura, no nosso mundo, podemos assinalar três fases bem definidas no processo histórico:

A – Culturas Empíricas.
B – Culturas Religiosas.
C – Culturas Científicas.

As Culturas Empíricas desenvolvem-se nas relações primárias do homem com a Natureza, através das experiências naturais. Nessas experiências o homem elabora os três elementos básicos de toda a cultura:

– a linguagem.
– o rito.
– o instrumento.

Não se trata de uma elaboração sucessiva, mas sincrónica, de uma reelaboração das experiências animais.

Tudo se encadeia no Universo, diz O Livro dos Espíritos.

Nesse encadeamento as vozes animais transformam-se na linguagem humana, os ritos em rituais da sociabilidade humana e dos cerimoniais religiosos, as garras dos animais projectam-se nos instrumentos de madeira e pedra de que o homem se serve para agir sabre a Natureza e adaptá-la às suas necessidades de sobrevivência.

As experiências que desenvolvem a Cultura Empírica excitam as potencialidades do espírito, desenvolvendo-as nas tribos e nas hordas. A lei de adoração, proveniente da ideia inata de Deus no homem, gera a reverência pelos poderes misteriosos da Natureza e institui os primeiros rituais de reverência aos pagés ou xamãs e feiticeiros, bem como ao cacique e aos chefes guerreiros. O culto às divindades da selva nasce desses rituais.

A Cultura Empírica gera a Cultura Religiosa das primeiras tribos sedentárias. A ideia de Deus define-se mais nítida com o desenvolvimento da Razão, sob a influência dos ritos da Natureza, nas primeiras civilizações agrárias e pastoris. O milagre das germinações, no ritmo regular das estações e, a proliferação dos rebanhos provam a existência de inteligências controladoras dos fenómenos naturais e protectoras do homem. O animismo, projecção da alma humana nas coisas, impregna a Natureza com uma vida factícia em que a pedra, a árvore, o rio, o bosque, a montanha, o mar, tudo fala e pensa em condições humanas. As manifestações espíritas provam a realidade anímica da Natureza. A figura de Deus, Ser Superior, criador e dominador do mundo, impõe-se ao homem na forma necessariamente humana. E como Deus não pode estar sozinho, multiplica-se em mitos que simbolizam as suas várias actividades, ligadas às actividades humanas. Ao mesmo tempo, as forças destruidoras e as manifestações de espíritos malignos geram os mitos da oposição a Deus. Nasce o Diabo desse contraste, estabelecendo a luta entre o Bem e o Mal, sujeitando o homem à esperança da protecção divina e ao temor dos poderes maléficos.

A Cultura Religiosa configura-se na síntese dessa dialéctica do invisível e do visível, do sentimento e da sensação, fazendo evoluírem as civilizações agrárias e pastoris para a fase das civilizações teocráticas que se desenvolvem no Oriente, nas regiões em que brilha a luz em cada alvorecer.

Os ritmos da Terra e do Céu: Do dia e da noite, as estações do ano, o Sol e a Lua, as constelações anunciadoras de cada mudança no tempo, a chuva e as Inundações, os terramotos, as erupções vulcânicas, as pestes, as pragas, o relâmpago, o raio, as tempestades exigem a disciplinação do caos e ao mesmo tempo a complexidade dos cultos.

Os soberanos das nações são filhos de Deus e possuem poderes divinos.

A Cultura desenvolve-se na argamassa dos sentimentos e das sensações.

A Fé define-se como sentimento e sensação em misturas condicionadas pela Razão, expressa nas formulações filosóficas.

A Teologia brota desse complexo de mistérios como a Ciência Suprema dos videntes e dos profetas, dos homens mais do que homens de que falaria Descartes, homens privilegiados pela sabedoria infusa que desce do Céu para iluminar a Terra.

A Cultura Religiosa é uma oferenda celeste que os homens simplesmente homens não podem tocar com as suas mãos indignas, não podem avaliar com as suas mentes entorpecidas pelos interesses materiais e as ambições inferiores da vida perecível.

O mundo divide-se em duas partes inconciliáveis: surgem os conceitos do Sagrado e do Profano.

As Culturas Religiosas desligam-se da tradição empírica, rejeitam a experiência natural, relegando-a ao campo do profano, do pecaminoso. Entregam-se à alienação do suposto, do imaginário.

O Cristianismo envolve-se nas contradições humanas:

cai na simonia, no comércio ambicioso de sacramentos e indulgências, pregando a renúncia ao mundo e a santidade da pobreza;

proclama a humildade como virtude e investe-se do poder político;

denuncia o paganismo e o judaísmo como heréticos e assimila os seus elementos rituais e a sua política gananciosa;

prega o Reino de Deus e apossa-se dos reinos terrenos;

impugna a sabedoria grega e constrói o seu saber com decalques de Platão e Aristóteles;

ensina a fraternidade e promove as guerras fratricidas em nome de Deus;

erige-se em religião do Deus Único e divide Deus em três pessoas distintas;

institui o celibato como virtude e faz comércio ambicioso do sacramento do matrimónio;

combate a magia e reveste o seu culto de poderes mágicos;

luta contra as heresias e comete a suprema heresia de submeter Deus ao poder do sacerdócio no acto eucarístico;

profliga a idolatria e enche os seus templos com ídolos copiados da idolatria mitológica, chega ao máximo da alienação estabelecendo o sistema fechado das clausuras e dos mosteiros segregados;

prega o Evangelho e nega ao povo o acesso aos textos que considera privativos do clero;

proclama a supremacia espiritual do amor e semeia o ódio aos que não aceitam os seus

princípios.

A alienação cristã faz da cultura um sincretismo de absurdos assimilados de dogmas e rituais bastardos de igrejas e ordens ocultas da mais alta Antiguidade, transformando o conhecimento em gigantesca manta de retalhos em que as próprias vestes sacerdotais e paramentos do culto são copiados de antigas e condenadas igrejas.

A cultura cristã desenvolve-se com pressupostos falaciosos e um fabulário ridículo enxameado de superstições erigidas em verdades absolutas, provindas de revelações divinas.

A verdade artificial da sabedoria eclesiástica encobre a realidade com o espesso véu das elucubrações dos teólogos, modelos de esquizofrenia catatónica e megalomania delirante.

A cultura em evolução nas fases anteriores cai na estagnação de um charco de mentiras sagradas, pílulas doiradas de um anestésico.

Interrompe-se o processo cultural.

Não se pode conhecer mais nada. Cada Igreja tem a sua verdade própria e inverificável, sendo a Igreja Cristã a mais poderosa barreira a qualquer tentativa de investigação da realidade. A morte cruel é o prémio dos que se atreverem a rasgar o Véu de Isis para mostrar o corpo da Verdade Nua.

O desenvolvimento da imaginação criadora levara a cultura a um solipsismo devorador.

Tudo estava esclarecido, a imaginação dos poetas (considerados profetas) resolvia todos os mistérios em termos de mitologia grega ou tradição romana, os teólogos solucionavam os problemas da vida e da morte com belas frases em latim, as Igrejas detinham a Verdade Absoluta, amaldiçoando-se entre si e, velavam pela ordem cultural perseguindo e matando em nome de Deus os atrevidos que tentassem profanar a Palavra de Deus, escrita na Bíblia por velhíssimos judeus que haviam, num complô com César e o seu legado Pilatos, condenado à flagelação e à cruz um jovem carpinteiro que tivera a audácia de se apresentar como o Messias de Israel.

A Cultura Científica teve de romper a golpes de atrevimento a selva selvaggia dessa cultura religiosa inconsequente, contraditória e arrogante, empalhada como um pássaro morto em velhos pergaminhos de uma sabedoria feita de suposições e elucubrações pretensiosas.

O mundo dos homens desligara-se totalmente da realidade, fechando-se num casulo de formulações abstractas.

Mais bizantina que Bizâncio, Roma sofismava sobre problemas que se recusava a conhecer. Só a ignorância total e a ingenuidade das populações bárbaras poderiam aceitar. Após a queda do Império do Ocidente, comprovava-se historicamente a afirmação evangélica de que o ensino de Jesus seria deturpado e necessitaria de tempo para que os homens pudessem compreendê-lo.

O milénio medieval teria a função de desenvolver a razão como guia do pensamento e freio da imaginação, ao fogo das tragédias e loucuras de um misticismo criminoso, para que, no Renascimento, os frutos de experiências dolorosas abrissem perspectivas para o desenvolvimento de uma cultura realista, apoiada em pesquisas metódicas da realidade.

Foi então que a esquizofrenia mundial se revelou em definitivo: o espírito humano estava dividido numa cultura fantasiosa, formada pela dogmática absurda das religiões e, numa cultura rebelde, atrevida e exigente, que arrancava os homens da ilusão de um saber confuso, para oferecer-lhes o saber legítimo que iniciara a fase das experiências empíricas e se negara a si mesma no desenvolvimento alucinado do fanatismo religioso.

O movimento da Reforma, desencadeado por Lutero, em consequência das lutas de Abelardo e das proposições de Erasmo de Roterdão, em conjugação aparentemente ocasional com as tentativas de pesquisas objectivas de GalileuCopérnicoGiordano Bruno e outros mártires da Ciência nascente, marcavam os rumos de uma nova concepção do mundo e do homem.

Abelardo foi o precursor medieval de Descartes, que por sua vez foi o precursor de Kardec.

Aos fundamentos emocionais da Fé absurda e cega, os pioneiros do retomo ao real ofereciam os fundamentos da Razão esclarecida e da pesquisa científica.

A Verdade ressurgia das cinzas das fogueiras criminosas e a Fé de olhos abertos substituía a ceguinha esclerótica das sacristias.

Mas a luta pela Verdade da concepção cristã restabelecida só atingiria o seu apogeu nos meados do Século XIX, com a Codificação do Espiritismo, através das pesquisas pioneiras de Kardec sobre os fenómenos mediúnicos, hoje admitidos pela Ciência com a denominação de paranormais.

Kardec provara que os médiuns não eram anormais, como pretendiam os investigadores da Medicina e da Psicologia, nem sobrenaturais, como pretendiam os defensores de dogmas obsoletos, mas naturais e normais.

A Mediunidade impunha-se à pesquisa dos cientistas exponenciais da época, que rasgavam ao mesmo tempo o Véu do Templo, revelando os seus mistérios, os Véus de Isis, para desvendar o sentido dos símbolos mitológicos.

Os homens começaram então a aprender que não sabiam nada e tinham de lutar para descobrir a Verdade escondida atrás da aparência enganosa das coisas dos seres.

A Ciência Espírita instalou-se no mundo, com as consequências necessárias da Filosofia Espírita e da Religião em Espírito e Verdade.

Espiritismo, nos seus três aspectos, está hoje confirmado pela Cultura Científica e o seu alcance cósmico confirma-se ao ritmo acelerado das conquistas culturais do século, restabelecendo o ensino deturpado pelas ambições humanas, que Jesus de Nazaré semeou em palavras de vida e imortalidade nas almas de todos os tempos.

/…


José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, I – O PROCESSO CULTURAL, 2º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O monge estuda as Escrituras | 1877, lápis e giz-estudo ao painel “A Educação de São Luís” Panteão, Paris (a mesma imagem, do monge, aos pés de Branca de Castela e de São Luís, nesse painel, óleo sobre tela) ambos de Alexandre Cabanel

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Inquietações Primaveris ~


Inquietações Primaveris ~~

A adolescência é a fase mais difícil e perigosa da vida, mas também a mais bela. Tudo é esperança e sonho, mesmo para os espíritos mais práticos. Mas existem as adolescências desastradas, carregadas de provas esmagadoras. É nessa fase – entre os 13 e os 14 anos até aos 18 ou 20 –, que o jovem toma consciência de suas novas responsabilidades, na sua nova residência na Terra, para lembrarmos o título de um dos mais belos livros de poemas de Pablo Neruda. Nesse período as lições e os exemplos da infância amadurecem lentamente e precisam, mais do que nunca, ser acrescidos de novos e vigorosos estímulos. Porque, nessa primavera da vida avivam-se o perfume das flores, o cheiro estonteante do pólen e as condições de vagas lembranças do passado. O adolescente sente-se atraído por sectores diversos de actividades e é arrastado para comportamentos anteriores quase sempre perigosos. Ele se mostra rebelde, insatisfeito, opõe-se aos pais e pretende corrigi-los. Torna-se crítico, irónico, não raro zombeteiro, pretensioso, acreditando saber mais do que os outros, especialmente do que os mais velhos. É o momento da reelaboração da experiência das gerações anteriores, bem acentuado na obra de Dewey. Ele tem razão e sabe que a tem, mas não sabe como a definir, expor e orientar o seu pensamento ainda informe e já ansioso por se externar e se impor ao mundo. Não se pode contrariá-lo frontalmente nem aprová-lo sem restrições. Qualquer dessas atitudes poderá mesmo exasperá-lo. Deve-se tratá-lo com cuidado, evitando excessos e, dar-lhe exemplos positivos sem alarde, sem propaganda. Ele, só ele, é quem deve perceber o que se faz de bom ou de mau à sua volta. Estímulos bons e tentações perigosas perturbam a sua alegria, pequenas decepções parecem-lhe definitivas. É nessa fase que se pode perceber, mais ou menos, quais os tipos de experiências por que ele passou na última encarnação. Essa percepção oferece indicações importantes para a orientação do processo educativo, desde que consideradas com cautela e confrontadas com outras manifestações que as corroborem. De qualquer maneira, não se deve dar ciência dessas observações ao jovem. Elas servem apenas para os pais e os familiares integrados no trabalho de orientação. Comunicações de entidades sérias e suficientemente conhecidas poderão também auxiliar. 

Nas famílias espíritas, bem integradas na Doutrina, o processo torna-se mais facilmente realizável. Nas famílias católicas e protestantes, ou integradas em seitas anti-reencarnacionistas, as dificuldades são maiores, mas não insuperáveis. A leitura e o estudo das obras de Allan Kardec ajudarão muito o desenvolvimento do processo educativo, desde que o adolescente se mostre interessado pelo conhecimento do problema. Forçá-lo a isso seria contraproducente. Tudo o que representar ou parecer imposição será fatalmente rejeitado. A leitura referida poderá ser sugerida por outro adolescente, sem que se deixe transparecer o dedo de um adulto por trás da tentativa. 

De maneira geral, a observação da vocação e das tendências do adolescente são importantes. Mas o mais importante será sempre o exemplo dos mais velhos, na família e na escola, pois o instinto de imitação da criança subsiste no adolescente e se prolonga, geralmente, na maturidade, diluído, mas constante, o que podemos verificar facilmente no meio social comum. Os tempos actuais não são favoráveis a bons exemplos, mas há sempre bons livros a se presentear a um adolescente no seu aniversário, sem se deixar perceber qualquer intenção orientadora. Os livros que tratam de problemas espirituais e morais devem ser de autores arejados, que encarem o mundo e a vida de maneira objectiva, sem cair no sermonário ou no misticismo piegas. Ou tratamos com os jovens numa linguagem clara, directa e positiva ou não seremos ouvidos. As novas gerações são vanguardistas de um novo mundo e não querem compromissos com o mundo de mentiras e hipocrisias em que vivemos até agora. 

Não se pense, porém, que todos os adolescentes são difíceis. No seu excelente estudo A Crise da AdolescênciaMaurice Debesse tem muito para nos ensinar. 

As inquietações primaveris da adolescência reflectem amarguras e alegrias de outras encarnações. As amarguras correspondem a fracassos dolorosos de uma vida passada, que tanto pode ser a última como também uma encarnação anterior, até mesmo longínqua. As alegrias reflectem acontecimentos felizes, que por isso carregam também as sombras da saudade, gerando no adolescente estranhas e profundas nostalgias. Não se trata propriamente de lembranças ou recordações, mas apenas de um eco soturno que parece ressoar nas profundezas de uma gruta. O adolescente sofre essas repercussões sem as identificar, sem saber de onde chegam à sua acústica interior esses ruídos semelhantes ao das vagas das ondas numa praia deserta. Anseios indefinidos brotam do seu coração, tentando arrastá-lo para distâncias desconhecidas, mundos perdidos no tempo, criaturas amadas, mas desconhecidas que o chamam e anseiam por encontrá-lo. Os sonhos o embalam às vezes, ao dormir, em situações que o confundem, pois, as imagens de outros tempos e as do presente se embaralham no processo onírico, não lhe permitindo a identificação de lugares, edifícios, cidades em que ele parece ter vivido. Os terrores nocturnos o assaltam com visões que muitas vezes nada têm de trágico ou perigoso, mas que, não obstante o despertam apavorado e trémulo. Atrevido e audacioso à luz do dia, disposto a enfrentar o mundo dos velhos e transformá-lo heroicamente num mundo melhor, mostra-se infantil e frágil nesses momentos de ressonância imprecisa do passado. Às vezes um pequeno incidente do presente, uma troca de palavras ásperas com alguém, uma jovem que o encarou distraidamente na rua e depois lhe virou abruptamente o rosto, é suficiente para levá-lo a fugir para o seu quarto, fechando-se à chave para chorar angustiado sem saber por que motivo chora. A crise da adolescência não é fatal, obrigatória, pelo menos nessa intensidade. Varia enormemente nos graus de sua manifestação e em alguns adolescentes parece nunca se manifestar. Na verdade, manifesta-se atenuada, traduzindo-se em caprichos estranhos, numa espécie de esquizofrenia incipiente, que logra os psicólogos e psiquiatras. São as variações de temperamento, de situações vividas, de sensibilidade mais ou menos aguçada, de maior ou menor integração do espírito na nova encarnação, que determinam essa variedade. A ressonância existe sempre, mas nem sempre desencadeia a crise. Os temperamentos estéticos, sonhadores, são os mais afectados. Os espíritos práticos apegam-se mais facilmente à nova realidade e a ressonância produz-se neles de maneira esmaecida, sem afectar o seu comportamento. 

Há criaturas que desde a infância começam a sentir os sintomas da crise. Certos adolescentes passam pelo período da crise como abobados, em estado de permanente distracção. Rejeitam o mundo e o meio em que vivem e desejam morrer. Acham que nunca se integrarão na realidade presente. Realidade que vai aos poucos se impondo a essas criaturas que acabam por se adaptarem a ela. A vida tem as suas leis e sabe domar a rebeldia humana. Algumas dessas almas rebeladas acomodam-se ao mundo, mas nunca o aceitam de bom grado. Parecem exiladas no nosso planeta. O período mais difícil que atravessam é o da adolescência, rejeitando companhias, fugindo às reuniões festivas, entregues a uma espécie de desânimo permanente. 

Na pesquisa espírita verifica-se, na maioria desses casos, a presença de entidades inconformadas que aumentam a inquietação desses espíritos saudosistas. Nas reuniões mediúnicas e através de passes encontram geralmente a solução dessa nostalgia aparentemente sem motivo. 

O mundo actual pressiona de maneira arrasadora essas almas sensíveis, que muitas vezes estão a passar pelos resgates de privilégios que usaram e abusaram aqui mesmo, na Terra. As mudanças de posição social, a troca de um meio refinado pelas situações inferiores, no processo reencarnatório, causa os desajustes naturais de todas as mudanças. Mas cada alma já vem preparada espiritualmente para superar essas dificuldades dos períodos de adaptação. 

Na Educação para a Morte esses casos são naturalmente prevenidos através dos esclarecimentos da finalidade da existência. Ensinando-se e provando-se, com os dados científicos hoje amplamente conseguidos, que a evolução é lei geral do Universo e que a evolução humana se desenvolve em etapas sucessivas que nos levam sempre a situações melhores, as inquietações da adolescência são compensadas pela esperança e até mesmo a certeza de um futuro melhor. O desespero e o desânimo são sempre produzidos pela ausência da esperança. Em geral essa ausência decorre de informações negativas sobre o destino humano. As informações positivas e desinteressadas, fornecidas por cientistas que buscam a verdade e não a ilusão mística das religiões, sempre interessadas no proselitismo de que vivem, são mais facilmente aceites e compreendidas. A desmoralização natural das religiões da morte abriu as portas do mundo às concepções negativas do materialismo e do ateísmo. Por isso o mundo se tornou mais árido e insuportável, uma espécie de prisão espacial em que a espécie humana está condenada a uma vida de réprobos sem perspectiva. E de tal forma essa prisão asfixiou a Terra que os próprios cientistas, adversos à questão espiritual, se incumbiram de derrubar a Ditadura da Física, como assinalou Rhine. O cálculo de probabilidades substituiu a rigidez das operações exactas e invariáveis da concepção mecanicista. Introduzido o espírito nas equações físicas, a liberdade se impôs nas avaliações da mecânica e da dinâmica da Natureza. Em vão surgiu a revolta filosófica do Estruturalismo de Strauss, que não passou de sonho de uma noite de verão para os anti-evolucionistas apegados ao bolor rançoso do Fixismo dogmático. As perspectivas actuais, não obstante as loucuras do momento, são de esperança para a Terra e para o Homem. Bastaria esse facto para alentar os corações inquietos e as mentes perturbadas. O princípio da Ordem Universal perdeu a sua rigidez estática e o fluir da vida revelou a sua fluidez na surpreendente flexibilidade das estruturas vivas. 

Já não há lugar para os adeptos da nadificação na nossa cultura. O Universo revelou-se energético de força, espírito e matéria. Já não se pode falar, como no tempo de Bukner, apenas em força e matéria. Voltamos ao pensamento grego de Tales de Mileto, o vidente que dizia: “O Mundo é pleno de deuses.” Na época, os deuses eram os espíritos que o povoavam e, por sua natureza específica, pairavam acima da natureza humana comum. Todos os sofismas da Mística milenar e todas as dúvidas do Cepticismo antigo e moderno morreram nas explosões atómicas de Hiroshima e Nagasaki. Nada se perde, nada se acaba, tudo se integra, desintegra e reintegra nas incessantes metamorfoses do Cosmos. Inadmissível o conceito vazio do Nada, esse buraco no absurdo. O Nada não existe em parte alguma e a vida não é chama que se apague ao sopro de deuses ou demónios. As sondagens astronáuticas provaram o princípio kardeciano da relação criadora e dialéctica entre força e a matéria. Ninguém, nenhuma coisa ou objecto, nenhum ser se frustra em parte alguma, simplesmente porque as coordenadas do tempo e do espaço repousam na duração, esse conceito moderno e dinâmico que substituiu o conceito estático de eternidade. 

A natureza ôntica revela a essência do ser como síntese consciencial da dialéctica espírito e matéria. Como Geley demonstrou, a realidade una e densa é um fluxo energético ininterrupto que vai do inconsciente ao consciente. Léon Denis, que Conan Doyle chamou de O Druída de Lorena, ofereceu-nos a síntese poética e racional (Razão e Poesia – confirmando o hilosoismo grego) nesta visão espantosa da realidade universal: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. A consciência é potência no mineral, desenvolvimento progressivo no vegetal, onde a sensibilidade aflora, transição vital no animal, que desenvolve a motilidade e, acto no homem, a caminho inevitável e irreversível da transcendência na existência. Deus, a Consciência Absoluta, não é o Primeiro motor Imóvel de Aristóteles, mas a Consciência Funcional do Cosmos. Como na definição da Educação por Hubert, Deus é a Consciência Plena que eleva e atrai sem cessar as consciências embrionárias para integrá-las na sua plenitude Divina. 

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José Herculano Pires – Educação para a Morte, Inquietações Primaveris, 12º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)