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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

belo maio | bela como os lírios ~


IV

A mediunidade de Jeanne d’Arc; o que eram as suas vozes; fenómenos análogos, antigos e modernos


De pé, banhada em pranto, escuta atentamente

Alguma voz do céu, dolente.

                          Paul Allard

Os fenómenos de visão, de audição, de premonição, que marcam a vida de Jeanne d'Arc deram lugar às mais diversas interpretações. Entre os historiadores, uns não viram neles mais do que casos de alucinação; outros chegaram a falar de histeria ou neurose. Alguns lhe atribuíram carácter sobrenatural e miraculoso.

O fim capital desta obra é analisar tais fenómenos, demonstrar que são reais, que obedecem a leis por muito tempo ignoradas, mas cuja existência se revela, a cada dia, de modo mais imponente e mais preciso.

À medida que se dilata o conhecimento do Universo e do ser, a noção do sobrenatural recua e se apaga. Sabe-se hoje que a Natureza é una; porém, que na sua imensidade encerra domínios, formas de vida, que durante largo tempo nos escaparam aos sentidos. Sendo estes, como são, extremamente limitados, não nos deixam perceber senão as faces mais grosseiras e elementares do Universo e da vida. A sua pobreza e insuficiência se manifestaram sobretudo a partir da invenção dos poderosos instrumentos de óptica, o telescópio e o microscópio, que alargaram em todas as direcções o campo de nossas percepções visuais. Que sabíamos dos infinitamente pequenos, antes da construção dos aparelhos de ampliação? Que sabíamos das inúmeras existências que pululam e se agitam em derredor de nós e em nós mesmos?

Entretanto, isso constitui apenas os baixos da Natureza e, por assim dizer, o substractum da vida. Para o alto sucedem-se e se escalonam planos sobre os quais se graduam existências cada vez mais subtis, etéreas, inteligentes, com um carácter ainda humano; depois, em certas alturas, angélicas, pertencentes sempre, tanto pelo exterior, como pela essência, aos estados imponderáveis da matériaestados que, sob muitos aspectos, a Ciência hoje reconhece, como, por exemplo, na radioactividade dos corpos, nos raios de Röntgen, em todo o conjunto das experiências realizadas sobre a matéria radiante.

Além dos visíveis e tangíveis, que nos são familiares, sabemos agora que a matéria também comporta múltiplos e vários estados invisíveis e impalpáveis, que ela pouco a pouco se apura, se transforma em força e luz, para tornar-se o éter cósmico dos físicos. Em todos esses estados, debaixo de todos esses aspectos, continua sendo substância em que se tecem inúmeros organismos, formas de viver de uma inimaginável tenuidade. Num largo oceano de matéria subtil, intensa a vida palpita por sobre e em torno de nós. Para lá do círculo apertado das nossas sensações, cavam-se abismos, desdobra-se um vasto mundo desconhecido, povoado de forças e de seres que não percebemos, porém que, todavia, participam de nossa existência, de nossas alegrias e sofrimentos, e que, dentro de determinados limites, nos podem influenciar e socorrer. Nesse mundo incomensurável é que uma nova ciência se esforça por penetrar.

Numa conferência que fez, há anos, no Instituto Geral Politécnico, o Doutor Duclaux, director do Instituto Pasteur, se exprimia nos seguintes termos: “Esse mundo, povoado de influências que experimentamos sem as conhecer, penetrado de um quid divinum que adivinhamos sem lhe percebermos as minúcias, é mais interessante do que este em que até agora se confinou o nosso pensamento. Tratemos de abri-lo às nossas pesquisas: há nele, por fazerem-se, infindáveis descobertas, que aproveitarão à Humanidade.”

Oh! maravilha! nós mesmos pertencemos, por uma parte do nosso ser, a mais importante, a esse mundo invisível que dia a dia se desvenda aos observadores atentos. Existe em todo o ser humano uma forma fluídica, um corpo imperceptível, indestrutível, imagem fiel do corpo físico, do qual este último é apenas o revestimento transitório, o estojo grosseiro, dispondo de sentidos próprios, mais poderosos do que os do invólucro material, que não passam de enfraquecido prolongamento dos primeiros. (i)

(i) A existência do duplo eu, ou fantasma dos vivos, está firmada por uma infinidade de factos e de testemunhos. Essa dupla personalidade pode separar-se do envoltório carnal durante o sono, quer naturalmente, quer provocado, e manifestar-se à distância. Os casos de telepatia, os fenómenos de desdobramento, de exteriorização, de aparição de vivos em pontos afastados do lugar em que repousam, relatados tantas vezes por F. MyersC. Flammarion, professor C. Richet, Drs. Dariex e Maxwell, etc., são a demonstração experimental mais evidente daquela existência. Os anais da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, constituída pelos mais eminentes sábios da Inglaterra, se mostram repletos de factos desse género. Ver, para maiores minudências: Léon DenisDepois da Morte (edição de 1909, “O Perispírito, ou corpo fluídico”, cap. XXI, págs. 226 e segs.); No Invisível (“O Espírito e a sua forma”, cap. III, págs. 31 e segs.); G. DelanneLes fantômes des vivants.

No corpo fluídico está a verdadeira sede das nossas faculdades, da nossa consciência, do que os crentes de todas as eras chamaram almaA alma não é uma entidade metafísica, mas, sim, um centro imperecível de força e de vida, inseparável da sua forma subtilíssima. Preexiste ao nosso nascimento, bem como à nossa morte, não tem efeito sobre eles. Vem a encontrar-se, no além-túmulo, na plenitude das suas aquisições intelectuais e morais. Tem por destino continuar, através do tempo e do espaço, a evolver para estados sempre melhores, sempre mais iluminados pela luz da justiça, da verdade e da beleza eterna. O ser, indefinidamente perfectível, colhe aumentados, quando no estado psíquico, os frutos do trabalho, dos sacrifícios e, das provações de todas as suas existências.

Os que viveram entre nós, e continuam a sua evolução no Espaço, não se desinteressam dos nossos sofrimentos e das nossas lágrimas. Dos páramos superiores da vida universal manam continuamente sobre a Terra correntes de força e de inspiração. Vêm daí as centelhas inesperadas do génio, os fortes sopros que passam sobre as multidões, nos momentos decisivos; daí também o amparo e o conforto para os que vergam ao peso do fardo da existência. Misterioso laço une o visível ao invisível. Relações de diversa ordem se podem estabelecer com o Além, mediante o auxílio de certas pessoas especialmente dotadas, nas quais os sentidos profundos, que jazem adormecidos em todo o ser humano, são capazes de despertar e entrar em acção desde a vida terrena. A esses auxiliares é que damos o nome de médiuns. (ii)

(ii) Ver: Léon DenisDepois da Morte, edição de 1959, capítulo II, e No Invisível, caps. IV e V.

No tempo de Jeanne d'Arc essas coisas não eram compreensíveis. As noções sobre o Universo e sobre a verdadeira natureza do ser permaneciam ainda confusas e, em muitos pontos, incompletas, ou erróneas. Entretanto, caminhando, há séculos, de conquista em conquista, mau grado às suas hesitações e incertezas, o espírito humano já hoje começa a levantar o voo. O pensamento do homem se eleva, acabamos de vê-lo, acima do mundo físico e, mergulha nas vastas regiões do mundo psíquico, onde principia a entrever o segredo das coisas, a chave de todos os mistérios, a solução dos grandes problemas da vida, da morte e do destino.

Não esquecemos ainda a controvérsia de que estes estudos foram objecto, a princípio, nem as críticas acerbas que ferem os que, corajosamente, persistem em semelhantes pesquisas, para manter relações com o invisível. Mas, não zombaram também, até no seio das sociedades sábias, de muitas descobertas que, mais tarde, se impuseram como outras tantas refulgentes verdades? O mesmo se dará com a existência dos Espíritos. Um após outro, os homens de ciência são obrigados a admiti-la e, frequentemente, por efeito de experiências destinadas a demonstrar-lhes a falta de fundamento, Sir W. Crookes, o célebre químico inglês, que pelos seus compatriotas é igualado a Newton, pertence a esse número. Citemos também Russell Wallace e Oliver LodgeLombroso, na Itália; os doutores Paul Gibier e Dariex, na França; na Rússia, o Conselheiro de Estado Aksakof ; na Alemanha, o barão du Prel e o astrónomo Zöllner(iii)

(iii) Conhecem-se as experiências do ilustre físico Sir W. Crookes, que, durante três anos, obteve em sua casa materializações do Espírito de Katie King, em condições de rigorosa fiscalização. Crookes, falando dessas manifestações, declarava: “Não digo que isto é possível; digo: isto é um facto.”

Pretendeu-se que ele se retratasse. Entretanto, W. Stead escrevia ao New York American; “Londres, 7 de fevereiro de 1909. Estive com Sir W. Crookes, no Ghost Club (Clube dos Fantasmas), onde fora jantar, e ele me autoriza a dizer o seguinte: “Depois das minhas experiências acerca do Espiritismo, começadas há trinta anos, nenhuma razão encontro para modificar a minha opinião de outrora”.

Oliver Lodge, reitor da Universidade de Birmingham, membro da Academia Real, escreveu: “Fui levado pessoalmente à certeza da existência futura por provas assentes em bases puramente científicas.”

Frederic Myers, o professor de Cambridge, que o Congresso Oficial e Internacional de Psicologia, de Paris, em 1900, elegera seu presidente honorário, no magnífico livro A Personalidade Humana, chega à conclusão de que do além-túmulo nos vêm vozes e mensagens. Falando do médium Mrs. Thompson, escreve: “Creio que a maior parte dessas mensagens vêm de Espíritos que se servem temporariamente do organismo dos médiuns para no-las transmitir.”

O célebre professor Lombroso, de Turim, declara na Lettura: “Os casos de habitações em que, durante anos, se reproduzem aparições ou ruídos, observados na ausência de médiuns, coincidindo com a narração de mortes trágicas, depõem a favor da acção dos defuntos.” – “Trata-se amiúde de casas desabitadas, onde tais fenómenos se produzem às vezes durante muitas gerações e mesmo durante séculos.” (Ver: Annales des Sciences Psychiques, fevereiro de 1908.)

Compreende-se a importância de tais testemunhos, que poderíamos multiplicar, se o quadro desta obra no-lo permitisse.

Todo o homem sério, que se conserva a igual distância de uma credulidade cega e de uma não menos cega incredulidade, é forçado a reconhecer que as manifestações de que aqui se trata ocorreram em todos os tempos. Encontrá-las-eis em todas as páginas da História, nos livros sagrados de todos os povos, assim entre os videntes da Índia, do Egipto, da Grécia e de Roma, como entre os médiuns de nossos dias. Os profetas da Judeia, os apóstolos cristãos, as druidisas da Gália, os inspirados das Cevenas, na época dos Camisards, tiraram as suas revelações da mesma fonte que a nossa boa virgem lorena.

mediunidade sempre existiu, pois que o homem sempre foi espírito e, como espírito, manteve em todas as épocas uma brecha aberta sobre o mundo inacessível aos nossos sentidos ordinários.

Constantes, permanentes, tais manifestações, em todos os meios, se dão sob todas as formas, das mais comuns às mais grosseiras, como as das mesas falantes, dos transportes de objectos sem contacto, das casas assombradas, até aos mais delicadas e sublimes, como o êxtase ou as altas inspirações, tudo conforme à elevação das inteligências que intervêm.

/...

“Próximo da casa de Jeanne d'Arc passava uma vereda que, atravessando tufos de groselheiras, subia o outeiro a cujo cimo, coberto de mata, era dado o nome de Bois Chesnu. A meia encosta, debaixo de grande faia isolada, borbotava uma fonte, objecto de culto tradicional. Nas suas águas claras, desde tempos imemoráveis, buscavam a cura os enfermos que a febre atormentava... Seres misteriosos, anteriores entre nós ao cristianismo e que os camponeses nunca assentiram em confundir com os espíritos infernais da legenda cristã, os génios das águas, das pedras e dos bosques, as senhoras fadasfrequentavam a cristalina fonte e a faia secular, que se chamava o "Belo Maio". Ao entrar a primavera, vinham as donzelas dançar em baixo da árvore de Maio, “bela como os lírios” e pendurar-lhe nos galhos, em honra das fadas, grinaldas que desapareciam durante a noite, segundo era voz geral”. (*)

                                     Henri Martin – Histoire de France (*), t. VI, páginas 138 e 193.

Léon Denis, Jeanne d’Arc Médium, Primeira Parte – Vida e mediunidade de Jeanne d'Arc, IV A mediunidade de Jeanne d’Arc; o que eram as suas vozes; fenómenos análogos, antigos e modernos (1 de 6), 6º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L'Annonciation, 1901, pintura de Edgard Maxence)

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

o génio céltico ~


a experimentação espírita ~ 

(I de II)

(in Terceira parte, O mundo invisível, Capítulo XI)

Vimos que os druidas só concediam a iniciação a discípulos escolhidos, submetidos a um treino intelectual e moral demorado. Segundo afirmações de autores antigos, esses estudos podiam durar muitos anos e comportar o conhecimento de vinte mil versos. Realmente, o verso, pelo seu ritmo, fixa-se mais facilmente na memória, ele não se altera, nem se deforma como a prosa e, conserva, por mais longo tempo, o seu sentido exacto, a sua primeira originalidade.

Portanto, só após uma longa e paciente reparação é que os discípulos podiam ser admitidos para participar dos ritos sagrados, que eram, na verdade, a comunicação com os espíritos superiores e a prática dos seus ensinos. Esses eram transmitidos ao povo sob uma forma mais concreta e, às vezes, metafórica, sempre aceite com respeito, pois o druida era objecto de uma grande veneração.

Hoje é bem diferente: os recém-chegados, sem preparação, sem estudos, sem cuidados, crêem poder entrar em relação com os seres invisíveis que os cercam. Não se teme a aventurara sem guia, nem bússola, no oceano de forças e de vida em que estamos imersos. Ignora-se, em demasia, que uma multidão de espíritos inferiores rodeie o ambiente terrestre, ao qual ela está ligada pelos seus fluidos materiais. São eles os que respondem, de maior bom grado, aos chamados dos homens com finalidades de divertimento e, muito pouco se pode esperar desse ambiente onde reinam as mais diversas influências, às vezes más, como aquelas muito conhecidas dos mistificadores e dos obsessores. Daí o descrédito que recai, em certos casos, sobre as práticas desprovidas de regra, de método e de seriedade.

Não se deve ficar indiferente, sem dúvida, aos apelos misteriosos, aos ruídos, aos golpes que se ouvem à noite nas nossas casas e, que parecem ser promessas de assistência, de protecção, às vezes bem necessárias. Sim, devemos prestar-nos a convites desse género, pois eles podem provir de amigos invisíveis que nos pedem socorro, ou ser o prenúncio de conselhos, de revelações, de ensinos preciosos nos tempos de provações que vivemos. Porém, logo que encontremos um meio de comunicação que se adapte às nossas possibilidades psíquicas, não devemos hesitar em exigir, dos que se nos manifestam, as provas formais de identidade e empregar em todas as nossas relações com o além esse rigoroso espírito de controlo e de exame escrupuloso que não deixa lugar algum às trapaças dos espíritos levianos. (i)

Os espíritas conservam uma ideia regeneradora, bela e fecunda, que não devem deixar ocultar nem depreciar, sob a acusação de credulidade que lhes é dispensada. As verdades superiores não se adquirem sem dificuldade. Só pelos nossos esforços repetidos para nos livrar das incertezas, das trevas, é que os véus da matéria se levantam e as saídas se abrem para a vida espiritual, a vida infinita!

Espiritismo, após 75 anos de experimentação e de trabalhos, tornou-se uma fonte de luz e de ensinamentos. A sua doutrina resulta de mensagens espirituais obtidas por todos os processos mediúnicos, em todos os países e, se completam, se controlam umas às outras. Até ao momento, as religiões e as filosofias somente apresentavam, sobre as condições de vida no Além, simples hipóteses. Actualmente, os que lá vivem descrevem essa vida por si mesmos e nos falam das leis da reencarnação. Com efeito, com algumas excepções assinaladas entre os anglo-saxões, cujo número diminui dia a dia, há uma quantidade enorme de documentos, de testemunhos concordantes, recolhidos desde a América do Sul até às Índias e ao Japão, a favor da reencarnação.

Não é mais, como no passado, um pensador isolado ou mesmo um grupo de pensadores, que vem mostrar à humanidade o caminho que ele pensa ser verdadeiro; é o mundo invisível, todo ele, que se agita e se esforça para tirar o pensamento humano das suas rotinas, dos seus erros, e de lhe revelar, como nos tempos dos druidas, a lei divina da evolução. São os nossos próprios parentes e amigos mortos que nos expõem a sua situação boa ou má e, a consequência dos seus actos, durante sessões ricas de provas de identidade.

Censura-se sempre os espíritas por darem mais importância à teoria do que à prática experimental. No Congresso Oficial de Psicologia de 1900, um sábio nos objectava: “O Espiritismo não é uma ciência, é uma doutrina”. Certamente, consideramos sempre o facto como sendo a base, o fundamento do Espiritismo.

Sabemos que a ciência vê na experimentação o meio mais seguro de chegar ao conhecimento das causas e das leis; mas estas permanecem obscuras, inacessíveis em muitos casos, sem uma teoria que as esclareça e as torne precisas. Quantos pesquisadores ficaram desorientados no emaranhado dos factos, perdidos no labirinto dos fenómenos e, terminaram por se desanimar e renunciar a todas as pesquisas, devido à falta de um fundamento geral que religasse e explicasse esses factos. O eminente Charles Richet, após ter feito experiências durante toda a sua vida, registou os resultados das suas pesquisas num grande volume (Tratado de Metapsíquica), sem conseguir obter uma conclusão.

Poder-se-ia chegar, pelo estudo dos infinitamente pequenos, a uma concepção geral do Universo? Poder-se-ia, pelas manipulações de laboratório, alcançar a compreensão da unidade da substância? Se Newton não tivesse a ideia prévia da gravitação, teria dado alguma importância à queda da maçã? Se Galileu não tivesse a intuição do movimento da Terra, teria prestado atenção às oscilações do candelabro de bronze da catedral de Pisa? A teoria nos parece inseparável da experiência, ela deve mesmo precedê-la, a fim de guiar o observador, a quem a experiência servirá de controlo.

Censuram-nos por chegarmos a conclusões muito apressadamente! Ora, eis aqui fenómenos que se produzem desde os primeiros séculos da história. Eles são comprovados experimental e cientificamente desde há cerca de cem anos e, ainda assim alguns acham que as nossas conclusões são prematuras! Mas em mil anos, ainda haverá os retardatários que acharão que é muito cedo para os concluir. A humanidade experimenta uma necessidade imperiosa de saber e, a desordem moral que castiga a nossa época é devida, em grande parte, à incerteza que reina ainda sobre esta questão essencial da sobrevivência.

Quando, na minha distante juventude, vi um dia, numa montra de uma livraria as duas primeiras obras de Allan Kardec, logo as adquiri e absorvi o seu conteúdo. Nelas encontrei uma solução clara, completa, lógica do problema universal e, a minha convicção ficou assegurada.

Entretanto, apesar de minha juventude, já havia passado pelas alternativas da crença católica e do cepticismo materialista, mas em parte alguma encontrei a chave do mistério da vida. A teoria espírita dissipou a minha indiferença e as minhas dúvidas. Como tantos outros, pesquisei as provas, os factos exactos que viessem a apoiar a minha fé; mas esses factos demoraram a aparecer. No início, insignificantes, contraditórios, mesclados de fraudes e de mistificações, eles estavam longe de me satisfazer e, eu teria renunciado, mais uma vez, a toda a investigação, se não fosse sustentado por uma teoria sólida e por princípios elevados.

Parece, de facto, que o invisível nos queria experimentar, medir o grau de perseverança, exigir uma certa madureza de espírito, antes de nos dar os seus segredos. Todo o bem moral, toda a conquista da alma e do coração parece que deve ser precedida por uma iniciação dolorosa. Enfim, os fenómenos chegaram, comprováveis e notórios. Foram as aparições materializadas, na presença de muitas testemunhas, cujas sensações concordavam; os casos de escrita directa, em plena luz, chegando do Alto, fora do alcance dos assistentes e, que continham predições que foram, desde então, realizadas.

Depois, foram as entidades de valor que se manifestaram por todos os meios à sua disposição, inicialmente pelas mesas, depois pela escrita automática, enfim, e sobretudo pelas incorporações, processo com o auxílio do qual eu converso com os meus guias espirituais, assim como com os homens. A sua colaboração foi preciosa para a redacção das minhas obras, pelas informações recolhidas sobre as condições de vida no Além e sobre todos os problemas que abordei.

Esses espíritos se comunicaram por diversos médiuns, que não se conheciam. Qualquer que fosse o intermediário escolhido, eles apresentavam sempre caracteres pessoais muito contrastantes, alguns de uma originalidade notável, se bem que de uma grande elevação, com detalhes psicológicos, provas de identidade que constituíam o critério de certeza dos mais absolutos. Como é que esses médiuns, que se ignoravam entre si, ou mesmo os seus subconscientes, poderiam ter-se entendido para imitar e reproduzir caracteres tão distintos e, portanto, sempre idênticos a si mesmos, com uma constância e uma fidelidade que persistem há cinquenta anos? Pois, há quase meio século que esses fenómenos se desenrolam à minha volta com uma regularidade matemática, salvo em casos de algumas lacunas, como, por exemplo, quando um dos médiuns desaparece e é preciso um certo tempo para se encontrar um outro sensitivo apropriado.

Eu possuo sete grandes volumes de comunicações recebidas no grupo que por muito tempo dirigi e que respondem a todas as questões que a inquietude humana apresenta à sabedoria dos invisíveis. Ora, todos aqueles que consultaram posteriormente esses arquivos ficaram impressionados pela beleza do estilo, assim como pela profundidade das ideias apresentadas. Talvez, um dia, essas mensagens sejam publicadas. Então, ver-se-á que nas minhas obras, eu não fui inspirado somente pelas minhas próprias vistas, mas sobretudo por aquelas do Além. Reconhecer-se-á, sob a variedade das formas, uma grande unidade de princípios e uma perfeita analogia com os ensinos obtidos dos espíritos guias, por todos os meios e, nos quais Allan Kardec se inspirou para traçar as grandes linhas da sua doutrina.

Depois da guerra (a 1ª Guerra Mundial) os nossos instrutores continuaram a manifestar-se por vários médiuns. Através desses diversos mediadores, a personalidade de cada um deles se confirmou pelo seu carácter próprio, de modo a afastar toda a possibilidade de simulação. Pode acompanhar-se, de ano a ano, na La revue Spirite, a quintessência dos ensinos que nos foram dados sobre assuntos sempre substanciais e elevados.

Então, ao aproximar-se o Congresso de 1925, foi o grande Iniciador, ele mesmo, que nos veio certificar do seu concurso e nos esclarecer com os seus conselhos. Actualmente ainda é ele, Allan Kardec, quem nos anima a publicar este estudo sobre o génio céltico e a reencarnação, como se poderá verificar pelas mensagens publicadas mais adiante.

Peço desculpas aos meus leitores por fazer intervir tanto a minha própria personalidade, mas como poderia dedicar-me a uma análise dessa natureza senão sobre mim mesmo e sobre os meus trabalhos? 

Chego, agora, a viver com os espíritos quase tanto quanto com os homens, a sentir a sua influência e distinguir a sua presença pelas sensações fluídicas que experimento. Sei que essas almas constituem a minha família espiritual. Liames bem antigos me unem a elas, liames que se fortificam todos os dias, pela protecção que elas me concedem e o reconhecimento que lhes consagro.

O peso dos anos se faz sentir e a minha cabeça branca se inclina em direcção ao túmulo, mas sei que a morte é apenas uma saída que se abre para a vida infinita. Atravessando esse limiar, estou certo de encontrar essas queridas almas protectoras, assim como os numerosos amigos com os quais lutei aqui por uma causa sagrada. Iremos juntos visitar esses mundos maravilhosos que contemplei e admirei frequentemente no silêncio das noites e que são, para mim, testemunhos do poder, da sabedoria e do génio do Criador.

Na sua obra Evolução Biológica e Espiritual do HomemOliver Lodge fala com entusiasmo “dessas grandes estrelas que são um milhão de vezes maiores do que o Sol e cenários de fenómenos prodigiosos”.

Mais tarde, reviveremos juntos, nesses mundos, a fim de continuar os nossos trabalhos, a nossa ascensão comum em direcção às regiões serenas de paz e de luz.

E quando relembro todas as belezas dessa revelação, todas as promessas de um futuro sem-fim, sinto-me tomado por uma imensa piedade por todos aqueles que, nas suas provas, não são sustentados pela perspectiva das vidas futuras e, cujo estreito horizonte se limita ao nosso mundo de sangue, de lama e de lágrimas.

/...
(i) Ver o meu livro No Invisível, Espiritismo e Mediunidade.


Léon Denis, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Terceira Parte – O mundo invisível, Capítulo XI – A experimentação espírita (I de II), 1º fragmento da terceira parte última desta obra.
(imagem de contextualização: Serenite | 1912, detalhe, pintura de Edgard Maxence)

sábado, 5 de outubro de 2024

O Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo VII ~

~~ Rumo ao Estado Metapsíquico ~

Se é possível que o espiritual exista na natureza humana, a sua descoberta só poderá obter-se mediante a exploração extrassensorial, segundo a prática da parapsicologia. O raciocínio metafísico e teológico já não convence o espírito crítico da idade actual. Daí que Lecomte du Nouy expressava acertadamente: “Não podemos combater os tanques com a cavalaria, nem os aviões com arcos e as flechas. Utilizou-se a ciência para solapar os fundamentos da religião. Devemos empregar a ciência para consolidá-la.” (i)

A parapsicologia não é uma evasão da realidade material; pelo contrário, é uma tomada de posse dessa realidade, para transformá-la noutra, mais lógica e firme, mediante a descoberta do númeno que a anima. É indubitável que esse espírito que rege a realidade visível será conquistado pela investigação parapsicológica e mediúnica, desde que, por medo às conclusões da verdade espiritual, não se detenha na periferia do Ser.

Apesar das reservas que se adoptem, para que a parapsicologia se abstenha de toda a hipótese que transcenda o domínio estritamente científico(ii) abre-se perante ela uma zona extracientífica que tem relação com o que se pode chamar o ser transcendente do homem. De maneira que manter a parapsicologia nessa ordem psíquica que se assenta apenas em actividades e funções do psiquismo humano, segundo deseja Robert Amadou, é não reconhecer a possível razão que assiste ao filósofo parapsicológico, em favor da imortalidade da alma, quando se defronta com essas tremendas realidades metapsíquicas que apresentam os fenómenos supranormais, como são as materializações de seres vivos, comprovadas e admitidas pelos maiores sábios da humanidade.

O experimentalismo crítico e analítico das ciências parapsicológicas será o único factor positivo que deterá a acção demolidora do materialismo. Não nos esqueçamos de que o chamado realismo marxista é mais poderoso que os milagres e as apelações da teologia. Acreditamos que os únicos elementos espirituais, que poderão salvar o sentido religioso do homem são as realidades do fenómeno espiritista, acompanhadas pelos esforços experimentais da parapsicologia. (iii)

Nos tempos novos, já não se trata de conformismo nem de crenças sem provas: esta atitude será agora a de uma parte mínima da humanidade, mas nunca a dessa maioria ateísta e antiespiritualista que nega enfaticamente hoje o que aceitou até ontem de maneira cândida. Se é certo que existe uma necessidade de acreditar, o desenvolvimento mental do homem exige novo modo de aceitar as crenças: aspira a crer sobre as bases de um seguro realismo religioso, sem medo de se enganar.

Contudo, os chefes das diversas igrejas existentes, em vez de acatarem como uma realidade escatológica o espiritismo, combatem-no em nome do Diabo, sem perceber que estão a desperdiçar uma das melhores oportunidades para refutar com ele as consequências do materialismo.

Se é certo que o período actual da parapsicologia é o que corresponde à era biológica, segundo o critério de Joseph B. Rhine, a partir de agora devíamos considerar a necessidade de inaugurar a era ontológica da parapsicologia. O problema do Ser, tão estudado no presente, através do que a filosofia denomina Conhecimento do homem, exige do trabalho parapsicológico a demonstração de novas noções ontológicas, que possam tapar a brecha, segundo Rhine, observada na natureza. Essa brecha é, indubitavelmente, o mistério do homem, isto é, a dramática questão apresentada pela filosofia existencial com respeito ao sentido do Ser, relegado apenas à náusea, à angústia, ao nada e à morte.

Que é o homem? Que somos? De onde viemos? E para onde vamos?

Eis aqui as apaixonantes questões que merecem uma resposta categórica.

Francisco Romero, um dos maiores filósofos argentinos, referindo-se ao tema do homem e à posição da filosofia em face desses problemas, escreveu o seguinte:

“O que a presente situação carece exigir da filosofia é uma definição precisa e concreta do homem, uma especificação nítida da sua posição no conjunto e do sentido da sua vida, de acordo com os mais firmes resultados do pensamento e da experiência psicológica e histórica: em suma, uma noção do homem, mais minuciosa, exaustiva e terminante do que as proporcionadas até agora.” (iv)

Como vemos, a necessidade espiritual de um conhecimento definitivo do homem está no íntimo de todos. A filosofia, mais do que em nenhuma outra época, aspira a solucionar o problema do homem. O Ser continua a ser um problema metafísico e religioso, apesar de tudo o que foi dito até agora. A situação dramática em que se encontra a filosofia torna-se mais desesperadora à medida que as teorias, hipóteses e petições de princípio se vão acumulando. Não nos esqueçamos que são numerosos os sistemas e as ideologias filosóficas e religiosas que pretendem interpretar o homem. Não obstante, nenhuma dessas formulações se mostrou capaz de derrotar esta sinistra concepção materialista do mundo: a filosofia do nada. Por outras palavras, o fúnebre sentido desta definição do existencialismo niilista: o homem, é um ser para a morte eterna.

O filósofo alemão Fritz J. Von Rintelen, num belo trabalho, exprimiu-se assim: “Nenhum sentimento já evoca a Deus, mas tão-somente ao Nada.” (v)

Esta conclusiva afirmação reflecte o verdadeiro sentir dos tempos novos. Já não se trata de afirmar a realidade espiritual do homem e da existência, mas procura matar-se o homem, levá-lo ao suicídio, através de um existir fundado no nada. A impressão que se poderia ter é a de que um demónio negador se alojara na mente humana, procurando apenas destruir o Ser espiritual que a anima.

De acordo com o sector materialista da humanidade é mais racional e, até mais científico, dizer que o homem morre para sempre, do que supor que viverá eternamente, na vida do espírito. Parece que, para o homem moderno, seria preferível ser pó ou nada a ser espírito imortal. E, segundo outros argumentos, é mais moral e até mais natural morrer para sempre do que viver eternamente.

A disputa suscitada pelo existencialismo, entre essência e existência, seria facilmente resolvida se a filosofia e a religião levassem em conta as manifestações espirituais dos fenómenos metapsíquicos e parapsicológícos.

Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, esforça-se por fazer prevalecer o Nada sobre o Ser ou a essência espiritual do homem.

Vemos nas suas páginas que o nada foi convertido em valor filosófico, para sustentar a morte eterna e definitiva do indivíduo. Mas não devemos espantar-nos com essa valorização do nada, já que, segundo a bíblia, Deus fez o homem do nada. Consequentemente, esse instinto do nada existencial ressurge com o existencialismo ateu, em forma catastrófica, do inconsciente da espécie, levando de roldão o ético e toda a finalidade transcendente do homem e do Universo.

O Nada, para Deus, era um valor criador; por isso, diz a bíblia que o Criador fez o mundo surgir do nada. Daí se conclui que o Ser e o mundo, como afirma o existencialismo niilista, estão condenados ao nada, o que vale dizer que esse existencialismo, não obstante o seu rigoroso ateísmo, é uma filosofia vinculada a Deus e à bíblia.

metapsíquica e a parapsicologia descobriram, entretanto, que o nada não é verdadeiro; comprovaram que na vida social existe o que Richet chamou de inabitual e, que os fenómenos transcendentais desse campo revelam uma teleologia, tanto para o Ser como para a civilizaçãoA metapsíquica prova que o mundo objectivo pode descentralizar-se, para que a essência psíquica se manifeste na vida espiritual da humanidade. Além disso, estabeleceu que a existência não é atributo exclusivo do homem e do seu mundo, mas que o existir é próprio de outros seres e entidades inteligentes, situados no mundo invisível que nos circunda.

A decadência espiritual do homem e da cultura contemporânea reclamam a colocação de problemas metafísicos e sociais, com o objectivo de alcançar novas interpretações da existência mais edificantes para o destino do espírito encarnado. Chegou a hora de uma metapsíquica existencialresistir a isso é deter a marcha das verdades espirituais. Charles Richet, provando este facto singular e dramático da evolução, declarou: “Amanhã, talvez, a metapsíquica terá o direito de elevar-se mais alto, nos rumos de uma moral, uma sociologia e uma teodiceia novas.” (vi)

Com efeito, a lei dos três estados, de Auguste Comteo teológico, o metafísico e o positivo, permite-nos acrescentar agora um quarto estado: metapsíquicoDesta maneira poderíamos inaugurar uma nova forma de conhecer as três grandes manifestações da história: a sociedade, o Espírito e a divindade. Acreditamos que o melhor campo de investigação metafísica é o próprio homem, porque nele está presente esse quarto estado, que Comte não chegou a conhecer: o estado metapsíquicoMas esse campo, para ser efectivo, deverá entrosar-se com a interpretação espírita do homem e da vida, já que nesta se encontra o fundamento filosófico, teosófico e religioso da continuidade do Ser. (vii)

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(i) Leconte du Nouy, O Destino Humano.
(ii) Revue Metapsychique, R. P. Reginaldo Omez, 1950.
(iii) O facto básico de deixar estabelecida a realidade de psi envolve um princípio de grande significação, aplicável a este problema da sobrevivência espiritual. Pois se não houvesse nenhuma evidência de algo que transcenda as leis físicas, se não houvesse nada que desafiasse os limites da interpretação mecanicista do homem e do mundo vivente, não valeria a pena pensar ainda no problema da sobrevivência. (Revista de Parapsicologia, n° 2 - ano 1955).
(iv) Miradas Sobre el Hombre, La Nación - Buenos Aires, 1950. (Edição de 21 de março).
(v) Lá Mística de Ia Muerte y Ia Filosofia Contemporanea, Critério, Buenos Aires, n.° 1.117.
(vi) Tratado de Metapsíquica, Charles Richet, pág. 37, edição espanhola, 1925.
(vii) Na Revista Espírita, de abril de 1858, Kardec aceitou a sugestão de um correspondente de acrescer à lei dos três estados, de Comte, o estado psicológico da evolução humana, iniciado com o espiritismo. O autor renova essa proposição, como vemos, com outra denominação. Essa coincidência e o desenvolvimento actual das pesquisas psíquicas, mostram que Kardec e o correspondente da “Revista” estavam certos. O leitor pode verificar o facto no volume I da colecção da “Revista”, lançada pela Edicel. É o editorial do número de abril, intitulado: “Período Psicológico”. (Nota de J.H.Pires).

Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo VII Rumo ao Estado Metapsíquico, 12º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali

domingo, 24 de setembro de 2023

a pedra e o joio ~


Quem não pode | o menos ~

Os investigadores científicos dos fenómenos espíritas operam no campo da matéria. Não são espíritas, mas cientistas interessados pela fenomenologia que dá base concreta à doutrina. Por isso já dissemos, há tempos, a respeito, que a ciência espírita, no que toca às manifestações materiais do espírito, vêm sendo construída pelos adversários do Espiritismo. É este um facto único na história do conhecimento e, uma das maiores glórias da doutrina espírita. CrookesRichetGeleyCrawford, ao iniciarem as suas pesquisas, não eram espíritas, como PriceRhine e Bjorkhem, das Universidade de Oxford, de Duke (EE. UU.) e, de Upsala (Suécia), respectivamente, não são espíritas. Mas todos contribuem para a ciência espírita.

Não cabe a nós, espíritas, formular nenhuma teoria científica para investigação dos fenómenos supranormais ou para demonstração da realidade da sobrevivência. O Espiritismo, nos seus três aspectos, o científico, o filosófico e o religioso, possui métodos próprios de observação e investigação, e já provou há muito a realidade da sobrevivência. Os cientistas materialistas, ou pelo menos cépticos, é que devem tratar de provar, através de suas teorias e de seus métodos, que o Espiritismo se encontra em erro. Querer, pois, dotar o Espiritismo de “teorias que lhe facultem o avanço seguro na estrada da pesquisa metódica de laboratório”, como pretende o Sr. Guimarães Andrade, na sua Teoria Corpuscular do Espírito, é invadir atribuições alheias. E dizer que o Espiritismo não possui teorias orientadoras de pesquisas científicas é negar a própria doutrina e esquecer os seus efeitos no mundo científico.

Humberto Mariotti, o conhecido escritor espírita argentino, encerra o seu livro Dialéctica e Metapsíquica, réplica a um livro materialista de Emílio Troise, com esta advertência: “A filosofia espírita, sempre pronta a renovar-se, espera, pois, para o fazer, uma prova científica de seu opositor: o materialismo. Enquanto isso, continuará forjando o aço desse novo mundo espiritual, que vem lançando por entre os factos da psicologia supranormal, até que a prova mencionada seja produzida”. A teoria espírita, como a chamaram os cientistas, não é apenas teoria, mas toda uma doutrina, solidamente construída sobre um vasto e profundo alicerce de factos, comprovados por adeptos e adversários, crentes ou descrentes. Ela se impõe por si mesma, ou “pela força mesma das coisas”, como dizia Allan Kardec. Não espera as nossas elaborações teóricas para cumprir a sua missão.

Grande e belo exemplo é o que nos dá Charles Richet, na carta que dirigiu a Ernesto Bozzano, rendendo-se à evidência espírita. Construtor, ele mesmo, de uma teoria, exclama, diante dos argumentos espíritas de Bozzano: “Eles formam um estranho contraste com as nebulosas teorias que atravancam a nossa ciência”. Ao contrário disso, o Sr. Guimarães Andrade pretende que deixemos de lado, considerando-os obsoletos, os conceitos clássicos da doutrina, para construirmos mais uma teoria nebulosa e, com ela aumentarmos o atravancamento científico.

Nós, espíritas, temos por acaso alguma dúvida a respeito da sobrevivência do espírito e da sua possibilidade de acção sobre a matéria? Precisamos de novas teorias para investigar os fenómenos impropriamente chamados de supranormais? Não. Logo, não nos compete a formulação de teorias novas. Por outro lado, duvidamos da solidez das provas e do acervo gigantesco de factos da biblioteca espírita, sempre aberta ao possível interesse dos materialistas? Também não. Logo, a estes é que compete e, não a nós, quebrar a cabeça de encontro à rocha em que nos firmamos. O nosso papel, pelo contrário, é o de continuarmos firmes sobre a rocha, que tem resistido, até aqui, a todos os cabeçudos.

Pergunta o confrade Guimarães: “Será que já conhecemos tudo a respeito do fascinante problema do espírito, das suas relações com o mundo físico, das suas propriedades, da sua natureza real?” Podemos responder com outra pergunta: “Conhecem os materialistas tudo o que se relaciona com o fascinante problema da matéria, das suas relações com forças desconhecidas, das suas propriedades, da sua natureza real?” Estamos e, eles também o estão, absolutamente certos de que não. Então, como pretendermos colocar, na mesma mesa da ciência materialista, servindo-nos dos seus instrumentos rudimentares, ainda em elaboração, o problema espiritual? Se ela é impotente para dizer tudo a respeito da matéria, como querermos que o diga a respeito do espírito? O mais certo, o mais prudente, é admitirmos a explicação de Kardec: “O Espiritismo não é da alçada da ciência”. Sê-lo-á mais tarde. Mas, para tanto, a ciência precisa concluir a sua tarefa no terreno material, o que ainda está longe de fazer.

Poderão objectar-nos que as pesquisas dos sábios materialistas concorreram para a comprovação da doutrina. Mas não dizemos o contrário. O que dizemos é que isso compete a eles. Quando os sábios, operando no campo da matéria, comprovam os princípios da ciência espírita, contribuem para esta e, só temos que agradecer-lhes. Aquilo que chamamos, com Allan Kardec, a Ciência Espírita, não é mais do que o aspecto científico da doutrina. Neste aspecto, há uma zona fronteiriça, em que a ciência material pode comprovar os factos espíritas. A da fenomenologia mediúnica. Nesta zona é que o materialismo vem construindo, sem querer, a contragosto, a ciência espírita acessível à compreensão materialista.

O confrade Guimarães Andrade quer que ajudemos os sábios oferecendo-lhes uma teoria espírita que eles possam aceitar. A intenção é boa, mas conduz a desvios perigosos, como já vimos e ainda veremos, na análise de A Teoria Corpuscular do Espírito. Além disso, é conveniente lembrarmos o velho adágio: “Cada macaco no seu galho”. O Espiritismo, como diz Mariotti no mesmo livro acima citado, “é uma estrela de amor”. Essa estrela brilha sobre o atravancamento de hipóteses nebulosas da ciência materialista e, ainda, segundo o mesmo autor, “ilumina os caminhos de todos os peregrinos que vão em busca da verdade”. Não basta isso? Queremos também acompanhar os peregrinos, oferecendo-lhes cajados que eles não nos pedem e, até mesmo rejeitam com desprezo?

O livro do Sr. Guimarães Andrade é simplesmente um equívoco. E como tal, só pode fazer mal à doutrina e ao movimento espírita. Pedimos desculpa ao confrade, por esta rude franqueza. Mas, em questões doutrinárias, é preferível a dureza da verdade. Pensamos já haver demonstrado, até aqui, os vários enganos do autor. Mas prosseguiremos ainda, para que não digam amanhã, como disseram certa vez, a respeito de outra crítica, que passamos ao de leve sobre o assunto.

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José Herculano Pires (i) – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. Quem não pode o menos, fragmento 13º desta obra.
(imagem de contextualização: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

domingo, 26 de fevereiro de 2023

pensamento espírita argentino ~


CAPÍTULO I 

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história 

Que somos?  
(XI) 

Aksakof, sábio russo, demonstrou na sua valiosa obra Animismo e Espiritismo, refutando Hartmann, que o animismo prova o Espiritismo, sem o qual este não poderia ser explicado; e isto é muito natural, porquanto, para admitir a persistência do espírito depois da morte, havia que deixar assente antes, que o espírito pode actuar, em casos supranormais, sem o auxílio do organismo somático, ter percepções sem órgãos sensoriais, realizar fenómenos de telecinesia, ideoplastia, telepatia, etc., sem o qual haveria uma impossibilidade lógica para admitir o fenómeno propriamente espírita. 

Frank Podmore, inimigo ferrenho que foi do Espiritismo, estabeleceu também a distinção entre fenómenos anímicos e espíritas e reconheceu que as faculdades supranormais do espírito encarnado “demonstram a existência de outro mundo mais elevado, no qual deverão actuar livremente”. 

Gabriel Delanne, nas suas obras Evolução Anímica e O Espiritismo perante a Ciência, amplia a demonstração de Aksakof e demonstra, baseado em observações e experiências científicas, (i) a existência do corpo astral, que serve de intermediário ao espírito para actuar sobre a matéria e construir, sobre o seu modelo, o organismo humano. 

O eminente psiquista, professor Ernesto Bozzano, demonstra, baseando-se nos factos que o Espiritismo científico regista, na sua refutação a René Sudre (ii) e ao professor Richet, que Metapsíquica, como ciência puramente anímica, é insuficiente para explicar todos os fenómenos e manifestações espíritas e o peso de sua lógica é tão esmagador como a evidência dos factos que cita. 

Por sua parte, Camille Flammarion, que dedicou quase toda a sua vida ao estudo do fenomenismo espírita, estabelece na sua magistral obra A Morte e seu Mistério, dentro de uma ordem lógica e rigorosamente científica, a conjugação e continuidade de todos esses fenómenos, que começam no mais rudimentar animismo e se elevam até às manifestações espíritas mais comprobatórias e concludentes. 

Não obstante o peso dos factos, da demonstração que estes implicam e dos argumentos que se aduzem em favor da tese espiritista, os metapsiquistas refractários ao Espiritismo seguem gravitando entre a dúvida e a negação, entre o “poder ser” e o “não ser” e em vez de sujeitar os seus juízos aos factos, sacrificam os factos aos seus conceitos, forçando-os a entrar ora no estreito marco das explicações anímicas, ora no círculo abstracto das hipóteses antiespíritas, filhas da fantasia materialista, como, por exemplo, a da criptomnésia ou memória ancestral, para explicar alguns fenómenos de xenoglossia que não se encaixam no reduzido marco da explicação estritamente anímica; hipóteses que supõem um médium poliglota falando os idiomas dos seus antepassados longínquos, adquiridos por herança fisiológica, ou dando à criptopsiquia (conjunto de faculdades ocultas do psiquismo) projecções fantásticas que fariam de um médium um ser omnisciente, o qual, segundo esta hipótese, poderia captar a consciência ou a memória que, depois da morte de um ser, andaria, momentaneamente, como a fumaça desprendida da chama, flutuando no éter do espaço, como se a consciência e a memória pudessem conceber-se sem o eu espiritual, consciente e por si só capaz de recordação. 

Sem dúvida, deve-se aos metapsiquistas o novo impulso que tomou o Espiritismo e que muitos homens de ciência se tenham interessado pelo seu estudo, em particular o professor Richet, que com o seu Tratado de Metapsíquica rompeu o hermetismo da Academia de Ciências de Paris e fez da Metapsíquica uma ciência oficial, considerada hoje como um ramo das ciências naturais, assim como o grande psicólogo Frederic Myers, com a sua obra A Personalidade Humana e o doutor Gustave Geley com Do Inconsciente ao Consciente, levaram a teoria espiritista às aulas universitárias. 

A Metapsíquica, como temos dito, é uma disciplina científica tão antiga como o Espiritismo, posto que não é mais do que este na sua fase experimental; nela há três correntes: uma que podemos chamar de vanguarda, por ser a mais revolucionária na ordem científica e a única perfeitamente definida, como é a corrente espírita, em cuja frente figuram os experimentadores mais eminentes, como WallaceCrookesVarleyde Morgan, Zollner, Podmore, Aksakof, HodgsonBarrettLodgeFlammarionLombroso, Brofferio, Geley, Bozzano, etc; a outra é a corrente centrista, formada pelos sábios indecisos, que vacilam entre a dúvida e a crença, que não se atrevem a negar em absoluto a teoria espírita, nem se arriscam a afirmá-la, temerosos de se equivocarem e que, como o ilustre Charles Richet, longe de negá-la, nela não crêem suficientemente provada e dizem com ele que “é necessário dotá-la de uma base sólida, constituída por factos indiscutíveis”, o que seria muito lógico, se esta base sólida não estivesse, como está, perfeitamente constituída; a retaguarda constitui a corrente conservadora, os não alinhados da ciência, que alimentam as ilusões do paralelismo psicofisiológico e sentem nostalgia do materialismo... 

Aí está, para responder às dúvidas e objecções dos metapsiquistas não-espíritas, a incomparável Katie King, frente a frente com o seu médium, este mostrando-se simultaneamente com ela, perfeitamente visível, tangível e fotografável, vivendo, accionando, pensando, discorrendo, conversando com ela, animando-a e revelando, ambas, duas personalidades física e psicologicamente distintas, duas individualidades biológicas inconfundíveis; aí está Estela de Livermore, manifestando-se durante cinco anos, em 388 sessões, materializando-se e desmaterializando-se à vista de seu esposo e do doutor Juan F. Grau (como o fizera Katie King à vista de William Crookes), beijando aquele, dando-lhe provas de afecto e carinho, falando intimamente com ele, escrevendo com a própria caligrafia que tinha em vida, nas folhas de papel que este lhe dava e perante a sua vista; aí estão estas e outras mil manifestações de espíritos materializados desafiando a absurda hipótese da “prosopopéia-metagnomia” que pretende, arbitrariamente, sejam um produto fantasmal da ideia “plasticizante” do médium; aí estão os fenómenos de correspondência cruzada, que descartam toda a explicação não-sofística, fundada em hipóteses anímicas; os de escrita automática e directa com a caligrafia própria do defunto, com as suas ideias, as suas opiniões e a modalidade própria de cada entidade manifestante; os de voz directa, que constituem, quando o fenómeno é autêntico, a prova mais formidável da comunicação espírita; os de xenoglossia, que, como os observados pelo juiz John W. Edmonds com a sua filha Laura e o obtido pelo médium Valiantini por voz directa, citado por Dennis Bradley, não podem ser explicados pela hipótese metapsíquica de Flournoy e muito menos por revivescências ancestrais; aí estão, enfim, as provas de identidade, obtidas pela mediunidade falante, que, como as expostas por Ernesto Bozzano na obra já mencionada, constituem, com o que expusemos e com o muito que desejamos expor, a base de granito sobre o qual se baseia o Espiritismo. 

O Espiritismo se alça vigoroso e triunfante acima dos ataques e objecções que lhe dirigem os seus inimigos; ergue-se como árvore frondosa, carregada de frutos promissores, frutos que a experiência abonou, que sazonou em quase um século de observação e de estudo e que hoje oferece à humanidade sofrida, como resultado de muitos sacrifícios e dissabores, não para adormecê-la no sono infecundo da quietude, como crêem alguns, mas para estimulá-la com o atractivo da imortalidade, que leva em si mesma todos os nobres anseios da vida e do progresso continuado do espírito, através de vidas sucessivas, de existências sempre renovadas e sempre superadas. 

O Espiritismo é ciência filosófica e ao mesmo tempo filosofia científica: ciência filosófica porque deduz conclusões dos factos que examina e filosofia científica porque repousa nos factos da Psicologia, da Metapsíquica e da ciência em geral, e é também ciência integral e progressiva, porque referindo-se ao espírito humano (sujeito e objecto de seus estudos e sempre perfectível), à sua evolução, ao seu destino, às suas relações com a humanidade e com o universo, nele integra os conhecimentos. 

A sua filosofia é eminentemente dialéctica; a sua concepção da vida, dinâmica; o seu conceito genético (iii) da história. 

Até meados do século passado, o Espiritismo não formou um corpo de doutrina. Os elementos desta ciência profunda do espírito, tanto no que se refere aos fenómenos como aos conceitos filosóficos, achavam-se dispersos por todos os povos da Terra e encontram-se em todas as épocas da história misturados com as mais diversas crenças e práticas religiosas. As pessoas dotadas de faculdades mediúnicas foram consideradas ora como deuses ou adivinhos, ora como demoníacas, bruxos ou feiticeiros. As práticas foram de domínio esotérico das religiões e por isso, em alguns casos, conservam esse selo de misticismo e de superstição do qual o Espiritismo ainda não se tem podido desprender, não obstante os avanços da ciência e da crítica razoável. 

Os fenómenos foram aceitos sem classificação nem ordem, tomando-se as manifestações anímicas por revelações espíritas, ou estas por aquelas, e muitas vezes a charlatanice e a sofisticação, pela verdade. E não é estranho que haja, todavia, muitas pessoas que creiam firmemente que tudo o que sai da boca de um médium é manifestação genuína do além. 

Se isto aconteceu com os fenómenos, que se poderia esperar da teoria? Esta adoeceu e adoece ainda de defeitos análogos, defeitos de interpretação e, portanto, de uniformidade filosófica e ideológica, tudo devido à influência das religiões, ao carácter de revelação providencial, de infalibilidade ou de superioridade que a gente simples ou ignorante atribui às comunicações espíritas e a essa tendência ao sincretismo que tudo quer conciliar – até mesmo os absurdos religiosos maiores, com os factos e conceitos mais claros e verdadeiros –, tendência que se nota em quase todos os autores clássicos e não em poucos modernos, que ainda vivem presos à rocha dos prejuízos da velha escolástica. Eis porque o Espiritismo, como filosofia, resulta numa doutrina heterogénea e em alguns casos contraditória, cujos princípios e preceitos diferem entre si, a tal ponto que originam duas correntes opostas: religiosa e conservadora, outra racionalista e revolucionária, que hoje se manifestam pronunciadamente. 

Em 1857, Léon Hippolyte Denisard Rivail – Allan Kardec –, espírito observador e de uma penetração pouco comum, examinou, compilou e classificou os factos, formulou a teoria e estabeleceu a nomenclatura espírita, criando um vocabulário com o qual expressou os factos e os conceitos doutrinários que deles resultam. Mas a doutrina de Kardec e dos seus colaboradores, mesmo sendo verdadeira nos seus princípios fundamentais, não pôde ultrapassar os limites de sua época nem romper por completo com os moldes religiosos aos quais se ajustou. Kardec buscou conciliar o Espiritismo, por um lado, com a ciência; por outro, com as religiões, usando métodos, procedimentos de lógica, formas de pensamento e de linguagem próprios dos dois. Isto pôde ser conveniente no seu tempo, em que a fé religiosa, à falta de melhor compreensão dos fenómenos espiritistas e do carácter de revelação que se lhes atribuía, desempenhava um papel primordial no ânimo dos adeptos, diferente dos que buscavam a verdade pela experiência e o raciocínio, mesmo sabendo-a possível e demonstrável. Por outro lado, a crença na sobrevivência do espírito ainda não havia sido desalojada da ciência pelo positivismo e pelo materialismo. Hoje, as exigências do espírito científico e filosófico, que abarcam horizontes mais amplos, não se satisfazem com os expedientes religiosos e morais de São Luís, de Santo Agostinho ou de qualquer outro santo filósofo ou teólogo, nem com versículos, preceitos ou parábolas extraídos da Bíblia. 

A moderna concepção do Espiritismo veio elaborando-se com a experiência dos factos, não só no terreno da Psicologia experimental, no fenomenismo metapsíquico e espírita – que lhe serve de base fundamental –, como também abonando este terreno com a contribuição das demais ciências físicas e naturais e com as reflexões filosóficas que estas sugerem. Por outras palavras, podemos afirmar que o Espiritismo, durante o processo de sua evolução, estava em gestação na consciência e na mente dos homens que o levariam a uma nova concepção científica e filosófica, estava formando a nova dialéctica espiritualista ajustada aos factos da Psicologia moderna e da concepção espírita dínamo-genética da vida e da história. 

Os novos tempos, os novos homens, as novas concepções do Universo, as novas ideologias e as novas formas das ideias. 

O sinal do evidente progresso do Espiritismo na actualidade é a sua grandiosa concepção dialéctica, cujos elementos fundamentais expomos nesta obra, bem como enriquecimentos de sua terminologia, que sofreu uma sensível renovação e foi aumentada consideravelmente com neologismos apropriados, necessários para a compreensão e devida classificação dos factos, das ideias e conceitos. 

Não há ciência nem filosofia que, no curso de sua evolução, não sofra modificações, não mude em algum dos seus conceitos e nos limites do conhecimento, à medida que este se faz mais extensivo, mais claro, mais compreensível, mais ajustado à verdade essencial que encarnam os factos ou fenómenos estudados. 

A concepção dialéctica e a sua lógica científica põem de manifesto a renovação e o avanço do Espiritismo, despojando-o de todo o elemento alheio ao seu conteúdo científico e filosófico e reafirmando um dos mais formosos princípios de sua doutrina: O Espiritismo, marchando de acordo com os progressos da ciência, nada tem a temer. 

/... 
(i) Ver também, As Vidas Sucessivas, do mesmo autor. 
(ii) O autor refere-se à obra A Propósito da “Introdução à Metapsíquica Humana”, que teve o objectivo de refutar as teorias de René Sudre em sua obra Introdução à Metapsíquica Humana. (N.E.)
(iii) Ciência filosófica porque estuda e resume na sua vasta filosofia todos os princípios filosóficos relacionados com o ser e o pensar, e filosofia científica porque repousa em factos experimentais e de observação, partindo da Psicologia e da Metapsíquica e estendendo-se às ciências em geral e, por conseguinte, considerado nas suas relações e projecções com as ciências particulares. 


Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (XI), 11º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)