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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

as vidas sucessivas | os elementos ~


Experiências magnéticas – Regressão da memória e previsão – Caso nº 3 – Eugénie, 1904

Na época em que eu fazia experiências em Voiron com Joséphine, encontrei em Grenoble um outro sujet que estudei com a mesma ordem de reflexões com o Dr. Bordier, director da Escola de Medicina e de Farmácia, bastante materialista por educação, porém de espírito aberto a modificar a sua opinião mediante a evidência dos factos.

Esse sujet era uma mulher de trinta e cinco anos chamada Eugénie, viúva com dois filhos, que ganhava a vida fazendo tarefas domésticas. Enquanto o seu marido era vivo, ela trabalhava numa fábrica de luvas e os dois ganhavam bons salários, sem necessidade de economias. A sua natureza é apática, muito franca e pouco curiosa. A saúde, excelente.

Eis o resumo de algumas sessões que tivemos na Escola de Medicina:

Quando se desprende sob a influência dos passes, Eugénie vê formarem-se sucessivamente: um fantasma azul à direita e, em seguida, um outro vermelho à esquerda; esses dois fantasmas reúnem-se a seguir num só, que apresenta a mesma forma do seu corpo físico e que se liga a este através de um laço luminoso. No meio desse laço há uma espécie de bola mais luminosa do que o restante e com a ajuda da qual ela vê simultaneamente os seus dois corpos separados. Ela acredita que se trata do seu espírito. (i)

(i) Obtive a mesma constatação em Paris com Laurent e relatei a observação nos Annales des Sciences Psychiques em setembro de 1895. Isso não se reproduz sempre; a bola brilhante (o corpo mental?) permanece algumas vezes num dos outros dois corpos e então Laurent apenas vê aquele corpo no qual ele não se encontra. (Albert de Rochas)

Ela está adormecida há alguns minutos com o auxílio de passes longitudinais aplicados de cima para baixo. Já a fiz recuar alguns anos. Ela só responde quando é interrogada e não responde se a pergunta é feita durante uma fase de letargia. É preciso, então, aprofundar o sono ou proceder a um despertar parcial para conduzi-la a uma das fases vizinhas, ao sonambulismo.

Continuo os passes longitudinais. Vejo uma lágrima cair-lhe dos olhos. Diz-me que tem vinte e cinco anos e que acaba de perder um filho.

Continuação dos passes – Surge-me a ideia de ver em que dará o instinto do pudor. Levanto levemente o seu vestido; ela o abaixa com vivacidade: “Não, agora não; não é conveniente durante o dia”. Ela me toma por seu marido, tem dezassete anos e casou-se há alguns meses.

Continuação dos passes – Sobressalto brusco com um grito de pavor. Ela viu aparecerem a seu lado os fantasmas da avó e de uma tia, falecidas havia pouco tempo e com alguns dias de intervalo. (ii) Tem agora catorze anos. Novamente levanto a sua saia; ela defende-se e comprime os joelhos. Pergunto-lhe de que tem medo e ela me responde que sabe que não se deve brincar assim com os rapazes.

(ii) Esta aparição, que ocorreu na idade à qual a levei, causou-lhe impressão bastante profunda. (A. de Rochas)

Ei-la agora com onze anos. Vai fazer a primeira comunhão. Os seus maiores pecados foram ter algumas vezes desobedecido à avó e sobretudo ter tirado um soldo (iii) do bolso de seu pai. Sentiu muita vergonha disso e pediu-lhe desculpas. Interrogada se preferia morrer a renunciar à sua religião, ela não responde, porém, a expressão do seu rosto mostra que não aspira ao martírio.

(iii) Soldo – moeda de cobre francesa equivalente à vigésima parte do franco. (N.T.)

Com nove anos – A sua mãe faleceu há oito dias; ela está bastante triste. O seu pai acaba de fazê-la deixar Vinay, onde é tintureiro, para mandá-la para Grenoble para casa do seu avô, a fim de que lá aprenda costura. Ela não tem mais necessidade de ir à escola: sabe ler, escrever e contar. Faço-a escrever.

Nova tentativa com o seu vestido. Ela me dá uma tapa dizendo: “Garoto vilão! Pare com isso!”

Com seis anos – Frequenta a escola em Vinay e já sabe escrever bem.

Com quatro anos – Toma conta de sua irmãzinha quando não está na escola. Começa a fazer exercícios gráfico-motores e a escrever algumas letras: aeiou. Não reage mais ao toque no seu vestido; o seu pudor não foi ainda desperto.

Agora ela é muito pequena. Não sabe a idade que tem, não fala ainda, diz apenas “papa”, “mamã”. Mais adiante falarei sobre as suas impressões durante os seus primeiros anos.

Passes transversais, despertando-a, fazem-na passar exactamente pelas mesmas fases e os mesmos estados de consciência.

Na sessão precedente, deixamos Eugénie na fase de bebé sendo amamentada por sua mãe. Aprofundando bastante o seu sono, determinei uma mudança de personalidade. Ela não estava mais viva, flutuava numa semiobscuridade, não tendo nem pensamento, nem necessidades, nem comunicação com ninguém.

Novos passes determinam um novo estado. Ela se vê dentro de um berço muito pobre. Chamam-na Ninie ou Apollonie. (iv)

(iv) Em poucas sessões, sobretudo no início das nossas experiências, apresentou-se, entre a personalidade actual e a de Apollonie, a de uma criança chamada como ela Eugénie Delpit, falecida muito jovem. A sua mãe teve doze filhos, dos quais a maioria morreu muito cedo; seria ela a reencarnação de um desses filhos que deixou poucos vestígios na sua memória ou seria um simples erro devido à sua imaginação actual? Ver-se-á um caso de intercalação análogo no caso nº 15. (Albert de Rochas)

Ainda mais distante no passado, ela está novamente a flutuar no espaço, num estado de calma comparável à experiência do limbo da igreja católica.

Não ousei levar mais longe o sono, pois a magnetização já durava mais de 45 minutos e ambos, Eugénie e eu, nos sentíamos esgotados; porém, pressionando o ponto frontal da memória sonambúlica, fiz aflorarem-lhe recordações ainda mais remotas. Ela tinha sido anteriormente uma menina, falecida muito jovem, em consequência de uma febre ocasionada pela dentição; vê os pais a chorar junto do seu corpo, do qual se desligou bastante rapidamente.

Procedi em seguida ao despertar, através de passes transversais.

Despertando, ela percorre em sentido contrário todas as fases assinaladas anteriormente e me dá novos detalhes provocados pelas minhas perguntas. Algum tempo antes de sua última encarnação, ela sentiu que era preciso reviver noutra família, aproximou-se daquela que deveria vir a ser sua mãe e que acabava de concebê-la; não entrou no feto, porém ficou à volta de sua mãe até ao momento em que a criança veio ao mundo. Então entrou pouco a pouco, “por ímpetos”, no pequenino corpo e só ficou completamente ligada a ele por volta dos sete anos. Até esse momento viveu parcialmente fora do seu corpo carnal, que ela via nos primeiros meses de sua vida como se estivesse colocada fora dele. (v) Não distinguia bem nessa época os objectos materiais que a cercavam, mas, por outro lado, percebia espíritos a flutuar à sua volta. Alguns, muito luminosos, protegiam-na contra outros, sombrios e maléficos, que procuravam influenciar o seu corpo fluídico; quando estes últimos o conseguiam, provocavam esses acessos de raiva que as mães chamam de pirraça.

(v) As minhas mais antigas recordações remontam a uma cena da qual participei aos dezoito meses; vejo ainda a cena que muito me impressionou e vejo-me a mim mesmo em parte. De uma investigação feita com pessoas das minhas relações, concluo que esse fenómeno é bastante frequente. Como apoio para esta afirmação, citarei um trecho de uma carta que o Dr. Maxwel, então advogado geral em Bordeaux, me escreveu com a data de 18 de janeiro de 1905:

“Conheço uma sensitiva que educa um filho. Ela é um sujet bastante notável e vê naturalmente. A criança não é sua, mas foi-lhe confiada desde o nascimento. Ela, sobretudo na obscuridade, vê ao lado da criança uma sombra luminosa, de traços mais formados do que os da criança e um pouco maior do que esta. Essa sombra, quando a criança nasceu, estava mais afastada dela do que o está agora. Parece penetrar pouco a pouco dentro do corpo. A criança tem catorze meses e a penetração é de cerca de dois terços. Esta sensitiva frequentemente via o corpo astral dos moribundos desprender-se. Parece-lhe acinzentado, estendido acima do corpo e parece flutuar.” (A. de Rochas)

Após uma impressão bastante violenta, (vi) produzida na Escola de Medicina quando de sua passagem casual enquanto estava exteriorizada a um metro de uma estante em que havia um pires com uma quantidade bem pequena de sulfureto de cálcio fosforescente, Eugénie já não quis ir a esse estabelecimento e não pude continuar as minhas experiências com ela a não ser acidentalmente, quando a encontrava em casa de uma familiar sua, Sra. Besson. Foi então que, instruído pelas minhas sessões com Joséphine, a conduzi um dia em direcção ao futuro, através de passes transversais suficientemente prolongados, depois de alguns passes longitudinais destinados a adormecê-la.

(vi) Ela teve uma perna completamente paralisada e já não podia andar. (Albert de Rochas)

Eu a fiz envelhecer pouco a pouco. Com a idade de trinta e sete anos (ela na realidade tinha trinta e cinco), manifestou todos os sintomas do parto e a vergonha desse acontecimento, pois não se havia casado novamente. Isto devia passar-se em 1906. Alguns meses mais tarde ela parece afogar-se. Fi-la envelhecer dois anos; novos sintomas de parto. Pergunto-lhe onde está nesse momento. “Sobre as águas”, diz-me. Essa estranha resposta fez-me supor que ela divagava e reconduzi-a ao estado normal.

Ora, tudo o que ela havia predito realizou-se. Tornou-se amante de um operário da fábrica de luvas, com quem teve uma criança em 1906. Pouco depois, desesperada, atira-se ao rio Isère, e salvam-na, agarrando-a por uma perna. Enfim, em janeiro de 1909, deu à luz uma segunda vez, sobre uma das pontes do rio Isère, onde foi tomada subitamente pelas dores do parto quando voltava dos trabalhos domésticos.

Este caso seria verdadeiramente admirável se eu pudesse afirmá-lo de forma absoluta. Infelizmente, na casa da Sra. Besson, eu me contentava em produzir rapidamente alguns fenómenos, sem tomar nenhuma nota, e nem sequer me impressionei com as suas predições, que eu considerava ou incoerências ou previsões justificadas pela sua nova vida. Foi apenas quando os acontecimentos se produziram que as recordações da Sra. Besson e as minhas nos voltaram; porém, o quanto é preciso desconfiar das lembranças que despertam depois dos acontecimentos!

/…


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 3 – Eugénie, 1904, 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites

segunda-feira, 16 de maio de 2022

as vidas sucessivas | os elementos ~


Experiências magnéticas – Regressão da memória e previsão – Caso nº 2, Joséphine ~ 

(II de III) 

Tendo interrompido durante alguns meses as minhas experiências com Joséphine, fiz uma viagem a Paris e tentei ver que resultados daria o meu modus operandi com a senhora Lambert, um dos meus antigos sujets. Ver-se-á mais adiante uma exposição do seu caso, de como fui conduzido a orientá-la para o futuro ao invés do passado. 

Tão logo retornei a Voiron, tentei com Joséphine esse método de premonição sem nada dizer-lhe sobre as minhas experiências em Paris. Eis o resumo dos resultados obtidos. 


Primeira sessão ~

Adormeço Joséphine através de passes longitudinais de maneira a levá-la aos primeiros anos de sua juventude e, em seguida, desperto-a através de passes transversais. Quando ela retorna o seu estado normal, retoma a sensibilidade; continuo os passes transversais com o pretexto de libertá-la mais completamente. 

Depois de um minuto ou dois, ela me diz que a adormeço ao contrário de despertá-la. Fase de letargia bastante longa. Desperta numa fase de sonambulismo. Pergunto-lhe se continua em casa do Sr. C. Ela responde que não: deixou-o há três anos para voltar à sua terra natal em Manziat. Está em casa de seus pais e tem vinte e cinco anos. 

Novos passes transversais, nova fase de letargia durante a qual ela primeiramente permanece bastante calma, porém, após alguns instantes, mostra todos os sinais de um grande sofrimento. Torce-se sobre a cadeira, em seguida vira a cabeça e esconde o rosto com as mãos, chora e o seu pesar parece tal que a Sra. C., emocionada, se retira para outro aposento. 

Quando chega à fase seguinte de sonambulismo, parece ainda muito triste. Pergunto-lhe o que tem. Ela não quer responder e vira novamente a cabeça como se tivesse vergonha de alguma coisa. Suspeito a causa de seu tormento e pergunto-lhe se está casada agora. Ela me responde: 

– Não, ele não quer. No entanto, havia-me prometido. 

– Diga-me o seu nome; encarregar-me-ei de agir sobre ele, de fazê-lo raciocinar. 

– Você não conseguirá nada, já fiz tudo o que podia. 

Terminei descobrindo que ela continua na sua terra natal, que tem trinta e dois anos e que a sua infelicidade aconteceu há dois anos. Impossível conseguir o nome do sedutor. 

Empenho-a a se deixar levar sem se inquietar com nada. 

Na presença de sua dor, que nos emociona a todos, de tão vivamente expressa que é, reconduzo-a ao seu estado normal através de passes longitudinais, passando pelas mesmas fases de letargia e de sonambulismo, com as mesmas expressões de dor. 


Segunda sessão ~

O mesmo processo experimental: primeiramente regressão da memória através de passes longitudinais, depois a caminhada em direcção ao futuro através de passes transversais. Após o estado normal, a letargia calma. Desperta com a idade de vinte e cinco anos na sua terra natal. Segunda letargia com sinais de dor e de vergonha; segundo despertar com trinta e dois anos. Recordo-lhe as nossas antigas relações em Voiron e termino por persuadi-la a confiar-se a mim. Ela murmura confusa o nome de seu sedutor. É um jovem lavrador do local, Eugène F., com quem teve um filho. (i) 

A continuação dos passes transversais: terceira letargia; terceiro despertar. Ela tem então quarenta anos, continua em Manziat e está muito triste. O seu filho morreu há pouco tempo e Eugène casou-se com outra. 

Continuação dos passes transversais: quarta letargia; quarto despertar. Ela tem quarenta e cinco anos e ganha a vida costurando calças para um alfaiate. Está muito triste, já não tem notícias dos seus antigos patrões. Louise, a sua melhor amiga de Voiron, escreveu-lhe três cartas, depois a correspondência cessou. 

Continuo os passes transversais e, já cansado, interrogo-a após alguns minutos de letargia aparente, sem me aperceber de que ela já havia avançado diversas fases. Está agora bastante velha, vive com esforço graças à sua costura, porém acabou por esquecer um pouco as tristezas. Falo-lhe então da morte. Pergunto-lhe se não deseja saber o que lhe acontecerá quando deixar esta vida. Ela diz que sim. “Para isso é necessário que eu a faça envelhecer ainda mais.” Ela hesita um pouco, mas acaba por aceitar quando lhe assegurei que a traria de volta ao seu estado actual. 

Novos passes transversais. Depois de dois ou três minutos ela volta-se para o encosto de sua cadeira com uma expressão de franco sofrimento, escorregando em seguida até ao chão. É a agonia e a morte. Continuo vivamente os passes para transpor esse mau momento e interrogo-a. Ela está morta; não sofre, porém não vê espíritos. Pôde seguir o seu enterro e ouvir o que diziam dela: “Foi bom para a pobre mulher; ela não tinha já razão para viver.” As preces do padre não lhe adiantaram grande coisa, porém a sua presença em torno do caixão afastou os maus espíritos. As ideias espíritas que ela havia adquirido em casa do seu antigo patrão foram-lhe muito úteis porque permitiram-lhe aperceber-se do seu estado. 

Não achei prudente desta vez levar mais longe a experiência. Trouxe o sujet ao seu estado normal através de passes longitudinais que provocaram, por ordem inversa, os mesmos gestos característicos da agonia e da sedução, durante as fases de letargia correspondentes. 


Terceira sessão ~

Um dos meus amigos, cujo genro havia recentemente desaparecido em circunstâncias misteriosas, havia-me enviado uma roupa que tinha pertencido ao desaparecido, suplicando-me que me esforçasse por obter alguns detalhes sobre o trágico acontecimento através de um dos meus sujets

Adormeci Joséphine, após haver colocado a tal roupa entre as suas mãos. Alguns minutos depois, determinei-lhe que procurasse alguma pista da pessoa a quem o objecto havia pertencido. Ela respondeu-me que não sentia nada. Imaginando que ela não estivesse suficientemente desligada do seu corpo físico, aprofundei-lhe o sono através de passes longitudinais. Constatei então, não sem admiração, que durante a fase de letargia que se seguiu à minha ordem ela se entregou à mesma mímica e à qual se abandonava logo que eu a impelia ao futuro, durante as sessões precedentes, através de passes transversais. (ii) Quando ela chegou à fase sonambúlica onde podia responder-me, tinha trinta e cinco anos. Continuei os passes longitudinais e cheguei assim progressivamente até à morte, passando pelo espectáculo da sua agonia e, em seguida, ao seu despertar na vida do espaço. Ela me confirmou o que já havia dito a respeito do seu estado: não sofria, mas encontrava-se numa obscuridade quase completa, iluminada de tempos em tempos por luzes frouxas. Percebia espíritos mais ou menos luminosos que flutuavam à sua volta, porém não podia comunicar-se com nenhum deles. As ideias espíritas que havia adquirido na casa dos seus antigos patrões permitiram-lhe suportar mais pacientemente o seu estado actual, apesar de serem bastante vagas, porque já fazia muito tempo que já não ouvia falar desse assunto. 

Enfim, continuando a magnetização, sentiu a necessidade de reencarnar; e foi durante uma fase de letargia que foi feita a sua entrada no ventre de sua mãe, caracterizada pela posição de feto que ela tomou. 

Agora ei-la menina; morre muito jovem ainda e não vê para que servem todas as reencarnações sucessivas. 

Retorna muito rapidamente ao estado normal sob a influência de passes transversais, auxiliados pela sugestão. 


Quarta sessão ~

Joséphine acaba de deixar a família C., onde achava o serviço penoso demais. Implorou-me que a tomasse provisoriamente ao meu serviço enquanto procurava outro emprego. 

Foi o que fiz. 

Essa quarta sessão teve sobretudo por finalidade provocar em Joséphine a revelação de factos bastante próximos para que eu pudesse controlá-los. 

Adormeço-a através de passes longitudinais conforme o habitual e levo-a ao estado que precede o seu nascimento na vida actual e, onde ela ainda é Jean-Claude. Confirma-me então tudo o que disse nas outras sessões. Pela pressão do meu dedo no meio de sua fronte, procuro saber exactamente em que época foi soldado em Besançon. Ele não me pode dar a data, mas, a meu pedido, diz-me que a grande festa dos soldados não era a 14 de julho, porém em 1º de maio. Era efectivamente no 1º de maio que era festejado o Dia de São Filipe, de 1830 a 1848 e, parece-me muito difícil explicar naturalmente esta recordação. 

Em seguida, trago Joséphine rapidamente à sua idade actual através de passes transversais e continuo esses passes envelhecedores que, como nas sessões precedentes, determinam primeiramente uma longa fase de letargia ao longo da qual se produz a mímica das dores do parto. (A fase de sonambulismo, onde nas sessões precedentes ela tinha vinte e cinco anos, passa-me despercebida, provavelmente porque eu havia dado um passo mais rápido que a sua progressão no tempo.) 

Ela tem agora trinta e cinco anos, o seu pai morreu, a sua mãe e o seu filho vivem ainda. Pergunto-lhe o que fez desde que deixou o casal C., em casa de quem ela havia trabalhado durante longo tempo em Voiron. Responde-me que primeiro trabalhou como doméstica na casa do coronel de Rochas, enquanto esperava uma vaga nas Galerias Modernas de Grenoble, a qual obteve depois de um mês e meio; mas que permaneceu apenas três meses como vendedora nessa grande loja, retornando então à casa dos seus pais aproximadamente no Dia de Todos os Santos (1904). Depois recebeu uma carta do coronel que a convidava a ir a Voiron para experiências. Dispunha-se a partir, quando a sua mãe faleceu. Desde então já não obteve notícias dele. (iii) 


Quinta sessão ~

Começo por pressionar a fronte de Joséphine e ela desperta. Ela recorda-se pouco a pouco da sua vida passada, que eu apenas faço aflorar rapidamente. Diz-me que, quando era pequena, antes de ser Philomène, se chamava Alice e que, antes de ser o homem que matou, tinha tido diversas encarnações, entre as quais uma de macaco, mas que não se recorda delas. Tudo de que se lembra é que sofria nos intervalos. Confirma-nos que há animais bons e maus. 

Digo-lhe em seguida que a adormecerei através de passes longitudinais e que desejo que caminhe para o futuro. Conta-me então que está empregada como vendedora nas Galerias Modernas, recebendo um franco e meio por dia, alimentada e alojada num quartinho que dá para uma rua de fundos (facto que, como eu já disse, não ocorreu). Faço-a passar rapidamente pela fase dolorosa que corresponde à sedução e na qual ela ainda se torce de dor. Quando pode responder-me, tem trinta e cinco anos. (iv) Falo-lhe de sua vida em Voiron; ela já não obteve mais notícias dos seus antigos patrões, excepto através da sua amiga Louise, (v) que lhe escreveu apenas três vezes. Recebeu, há sete ou oito anos, (vi) uma carta do coronel de Rochas convidando-a a ir à sua casa em Agnèles para experiências. Estava pronta para partir quando a sua mãe adoeceu, precisando então ficar perto dela. A mãe curou-se e morreu somente há dois anos (isto é, em 1919). 

/…  
(i) Tirei informações no local. Eugène F. lá vive actualmente, pertence a uma família de lavradores abastados e nasceu em 1885. Eugène e Joséphine moravam em casas vizinhas, têm a mesma idade e fizeram juntos a primeira comunhão. (A.R.
(ii) Disso parece resultar que o método de magnetização, ou seja, a direcção dos passes, não tem importância de maior. O essencial parece ser o relaxamento dos laços que unem ao corpo físico o corpo astral para permitir a este último retomar a direcção já por ele seguida ou a que se lhe sugere e, sem dúvida, para também lhe permitir retomar mais facilmente as formas diversas das épocas evocadas. (A.R.) 
(iii) Ela realmente veio a minha casa como camareira, onde permaneceu um mês; porém não pôde obter a vaga que desejava nas Galerias Modernas, partindo directamente de minha casa para a sua cidade. Ainda não lhe escrevi, pedindo-lhe que regressasse a Voiron para novas experiências. (A.R.) 
(iv) Ela tinha dezoito anos em 1904; estará com trinta e cinco anos em 1921. (A.R.) 
(v) Encontrar-se-á explicação mais adiante sobre o caso de Louise (caso nº 5). (A.R.) 
(vi) Consequentemente, 1921 menos oito, isto é, em 1913, ela teria então cerca de 27 / 28 anos. (A.R.) 


Albertde RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 2 – Joséphine, 1904 (II de III) 10º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites

terça-feira, 29 de junho de 2021

as vidas sucessivas | os elementos ~


~~ Experiências magnéticas Regressão da memória e previsão, Caso nº 2 Joséphine

Joséphine é uma jovem de dezoito anos, doméstica na casa de um alfaiate de Voiron, Sr. C., interessado, assim como sua esposa, pelo espiritismo, do qual são os únicos adeptos nesta cidade. Possui inteligência bastante comum e é tratada familiarmente pelos seus patrões, que a acusam apenas de ser um pouco astuciosa. (i)

Adormeci-a por meio de passes longitudinais para conhecer os fenómenos que ela apresentaria e fiquei admirado ao constatar que, sem nenhuma sugestão, eu a fazia remontar ao curso de sua vida, assim como a Laurent, que deixei de observar desde 1893. 

Ei-la com a idade de sete anos. Pergunto-lhe o que faz. 

– Frequento a escola. 

– Você sabe escrever? 

– Sim, estou a começar a aprender. 

Ponho-lhe uma pena na mão, ela escreve muito bem papá e mamã. Continuo os passes magnéticos e levo-a à idade dos cinco anos

Ela escreve por sílabas, pa. Ponho-lhe na mão um lenço dizendo-lhe que é uma boneca; ela parece bastante contente e põe-se a acariciá-la. Apresenta todas as características de uma menina dessa idade. Novos passes. Está agora provavelmente no berço e já não pode falar. Coloco-lhe a extremidade do dedo dentro da boca; ela o chupa. 

Após algumas sessões destinadas a torná-las mais flexíveis e a diminuir o tempo necessário para levá-la ao estado da primeira infância, tive a ideia de continuar os passes longitudinais. Interrogada, Joséphine respondeu por sinais às minhas perguntas, e foi assim que me mostrou pouco a pouco, em diferentes sessões, que não havia ainda nascido, que o corpo no qual devia encarnar estava no ventre de sua mãe à volta de quem ela se enroscava, mas cujas sensações tinham pouca influência sobre si. 

Um novo aprofundamento do sono determinou a manifestação de uma personagem cuja natureza tive a princípio dificuldades em determinar. 

Ela não queria dizer nem quem era, nem onde estava. Respondia-me, em tom brusco e com voz de homem, que estava lá, uma vez que me falava; porém, ela não via nada, encontrava-se na completa escuridão. (ii) 

Tendo-se o sono tornado ainda mais profundo, foi um velho deitado na sua cama e doente há muito tempo quem respondeu às minhas perguntas, após inúmeros rodeios, como um camponês astuto que teme comprometer-se e quer saber por que é interrogado.  
Figura 1 – Caligrafia de Joséphine adormecida e levada à personalidade de Jean-Claude Bourdon, com a idade de quinze anos. 
Figura 2 – Caligrafia de Joséphine, no estado de vigília, a quem dito o nome de Jean-Claude Bourdon. 

Enfim vim a saber que ele se chamava Jean-Claude Bourdon e que o lugarejo onde se encontrava era Champvent, na comuna de Polliat, porém ele não sabia em que departamento. (iii) 

Pouco a pouco consegui captar a sua confiança e eis aqui o que soube de sua vida, cujos diversos períodos fi-los reviver várias vezes. (iv) 

Ele nasceu em Champvent em 1812. (v) 

Frequentou a escola somente até aos dezoito anos, porque não aprendia grande coisa, podendo estar presente apenas durante o inverno e repetidamente faltando às aulas. Fez o serviço militar no 7º Regimento de Artilharia, em Besançon. (vi) 

Devia permanecer no Regimento durante sete anos, porém a morte de seu pai, permitiu a sua liberação, mais cedo, decorridos apenas quatro anos. Não recorda o nome de nenhum de seus oficiais; por outro lado, sabe que se distraía bastante, com os camaradas e as moças, narrando-me as suas escapadelas, enquanto anelava o bigode. 

De retorno à terra natal, reencontra a sua boa amiga Jeannette a quem devia desposar antes de partir e da qual só me falou depois de corar. Agora sabe que não é preciso desposar as mulheres para servir-se delas; já não quer casar e mantém Jeannette como amante. Observei-lhe que podia engravidar a pobre moça: “Bem, depois! ela não será a primeira nem a última.” Envelheceu isolado fazendo ele próprio a sua comida, limitada a sopa e charcutarias. Tinha na sua terra um irmão casado com filhos, queixa-se dos seus procedimentos para com ele e não os vê. Morre com a idade de setenta anos, após uma longa doença. Durante o período correspondente à doença, pergunto-lhe se não pensa em chamar o padre: “Ah! você está a zombar de mim. Você acredita em todas as besteiras que ele me diz? Ora, vá! quando se morre, é para sempre.” 

Morre. Sente-se sair do seu corpo, mas a ele continua preso durante um tempo bastante longo. Pôde seguir o seu enterro flutuando acima do caixão. Compreendeu vagamente o que as pessoas diziam: “Que grande alívio!” Na igreja, o padre andou em torno do féretro e produziu assim uma espécie de muro um pouco luminoso que o protegia dos maus espíritos que queriam precipitar-se sobre ele. As preces do padre também o acalmaram, porém tudo isso pouco durou. A água benta afastava igualmente os maus espíritos, porque os dissolve em toda a parte onde os alcança. No cemitério, ficou perto do seu corpo e sentiu-lhe a decomposição, o que o fazia sofrer muito. (vii) 

O seu corpo fluídico, que se tornou difuso depois da morte, retomou forma mais compacta. Ele vive na obscuridade, que lhe é penosa, mas não sofre, porque não matou nem roubou. Apenas sente sede algumas vezes, porque era bastante beberrão. Reconhece que a morte não é o que pensava. Não compreende bem o que lhe aconteceu, mas se soubesse antes o que agora sabe não teria zombado tanto do padre. Proponho-lhe fazê-lo reviver: “Ah! se assim o fizer, vou até gostar de você!” 

As trevas nas quais estava mergulhado acabaram por ser abertas por algumas luzes frouxas. Ele teve a inspiração de reencarnar num corpo de mulher, porque as mulheres sofrem mais do que os homens e ele tinha de expiar as faltas que havia cometido abusando das moças. Então aproximou-se daquela que seria a sua mãe, ficou perto dela até que a criança viesse ao mundo e, a seguir, entrou pouco a pouco no corpo dessa criança. Até cerca dos sete anos, havia em torno desse corpo uma espécie de névoa flutuante com a qual ele via muitas coisas que nunca mais voltou a ver. (viii)  

Quando acabei de extrair de Bourdon as informações que julgava úteis. (ix) 

Tentei recuar ainda mais longe no passado. Uma magnetização prolongada durante cerca de 45 minutos, sem demorar-me em nenhuma etapa, levou-me a Jean-Claude muito pequeno. 

Em seguida, nova personalidade. É agora uma senhora idosa que foi muito má, uma má língua que se comprazia em prejudicar as pessoas. Ela também sofre muito, o seu rosto é contraído por convulsões e às vezes ela se torce sobre a cadeira com uma expressão assustadora de dor. Encontra-se nas trevas espessas, cercada de maus espíritos que tomam formas horrendas para atormentá-la e atormentar os vivos quando o podem; é este o maior prazer deles. Algumas vezes ela foi levada também a mudar de forma e a segui-los para fazer mal aos homens. Fala com voz fraca, mas responde sempre de modo preciso às perguntas que lhe faço, ao contrário de argumentar a todo instante, como o fazia Jean-Claude. Ela se chama Philomène Carteron. 

Aprofundando ainda mais o sono, provoco as manifestações de Philomène viva. Ela já não sofre, parece bastante calma, responde sempre muito nitidamente em tom seco. Sabe que não é amada na região e que ninguém perderá nada com a sua ausência e ela saberá muito bem vingar-se na ocasião propícia. Nasceu em 1702, chamava-se Philomène Charpigny quando solteira. O seu avô materno chamava-se Pierre Machon e morava em Ozan. Casou-se em 1732, em Chevroux, com um homem chamado Carteron, com o qual teve dois filhos que perdeu. (x) 

Antes da sua encarnação, Philomène havia sido uma menina, morta na tenra idade. Anteriormente havia sido um homem que tinha matado e roubado, um verdadeiro bandido. É por isso que muito sofreu na completa escuridão a fim de expiar os seus crimes, mesmo depois da sua vida de menina, quando não teve tempo para fazer o mal. 

Não pude levar mais longe a experiência das vidas sucessivas porque, no fim da muito longa magnetização (cerca de duas horas) que era necessária para levá-la ao estado de bandido, o sujet (Joséphine) parecia esgotado. Causava pena vê-la nas suas crises; porém, um dia em que a havia conduzido até esse estado, pressionei-lhe um ponto situado no meio da fronte e que possui a propriedade de despertar a memória sonambúlica, ordenando-lhe que se transportasse a um tempo mais anterior. Ela me diz então, com hesitação e virando a cabeça, parecendo confusa, que tinha sido um macaco, um grande macaco quase semelhante ao homem. Confesso que não esperava esta resposta e o meu pensamento se reportou imediatamente a uma anedota atribuída a Alexandre Dumas pai (tendo alguém perguntado se era verdade que o seu pai era negro, Dumas, que não gostava quando lhe lembravam a sua origem, respondeu: “Certamente, e meu avô era um macaco; a minha família começou por onde a sua termina”). Entretanto, mantendo a seriedade, limitei-me a manifestar a minha admiração por ouvir que uma alma de animal se tornou uma alma de homem. Ela me respondeu que nos animais havia, como nos homens, naturezas boas ou más e que, quando o animal se tornava homem, este permanecia com os instintos do que havia sido como animal. Uma outra vez, nas mesmas circunstâncias, ela me diz que entre o seu estado de bandido e o de macaco havia passado por várias encarnações sucessivas; recordava-se de ter vivido nas florestas matando lobos, e nesse momento o seu rosto tornou-se feroz. 

/... 
(i) Ela é bastante sensível ao magnetismo. Um dia caiu de uma altura de 2,50 m., dando uma forte pancada com uma coxa sobre o ângulo de uma máquina de costura e feriu-se bastante, o que a fazia mancar. Adormeci-a e exteriorizei-lhe o seu duplo, como ela via bem por ele o local da ferida, colocou ali a minha mão, que mantive durante dois minutos; ao despertar estava completamente curada. (Albert de Rochas)
(ii) Encontrava-me assim lançado numa espécie de pesquisa da qual eu estava longe de suspeitar, e para que eu pudesse aí encontrar-me, foram-me necessárias várias sessões durante as quais, trazendo de volta ao presente, envelhecendo ou rejuvenescendo alternadamente o sujet nas suas existências anteriores, através de passes apropriados, coordenei e completei informações que eram frequentemente obscuras para mim, porque eu absolutamente não previa, no inicio, aonde ela queria conduzir-me e porque eu compreendia dificilmente os nomes próprios que se referiam a regiões ou a personagens desconhecidas. Apenas após pesquisas nos mapas e nos dicionários, consegui determinar exactamente os nomes e pude tomar nos próprios locais informações das quais falarei mais adiante. É bom lembrar aqui que, na maioria dos sujet, o sono magnético faz surgir uma série alternada de fases de letargia durante as quais não conseguem dar a conhecer as suas impressões em consequência de uma paralisia momentânea dos seus nervos motores e de fases de sonambulismo durante as quais podem falar, mas apresentam a insensibilidade cutânea. Gozam então de novas faculdades tanto mais desenvolvidas quanto mais profundo seja o sono. Durante as fases de letargia, o sujet continua em relação com uma parte do mundo exterior; se, após o despertar, se pressiona sobre a sua fronte o ponto da memória sonambúlica, desperta-se a memória do que se passou enquanto ele estava adormecido, tanto durante estas fases como durante as outras. (Abert de Rochas) 
(iii) Ele observou que havia dois lugarejos vizinhos que se chamavam Champvent, mas que o seu era o mais próximo de Mézériat e que ele ia com frequência a Saint-Julien, em Reyssouse, a negócios. Esses detalhes permitiram-me encontrar Champvent no departamento de Ain e no mapa do Estado-maior (Folha de Macon, a sudeste). Quanto a Joséphine, nasceu e passou a sua juventude em Manziat, cantão de Bugey-le-Châtel. No estado de vigília ela não se recorda de já ter ouvido falar de Champvent perto de Polliat. (A. de Rochas) 
(iv) Para vencer as suas resistências eu o envelhecia por punição e rejuvenescia-o, ao contrário, como recompensa; e ele me tomava nos últimos tempos por um grande feiticeiro a quem era preciso obedecer. (A. de Rochas) 
(v) As datas variam de dez anos quando comparadas entre si em diferentes momentos de sua personificação e em diferentes sessões. (A. de Rochas
(vi) O 7º Regimento de Artilharia manteve realmente guarnição em Besançon de 1832 a 1837 e é difícil compreender como Joséphine teria sido informada disto. (A. de Rochas) 
(vii) Perguntei-lhe se via os vermes: “Claro, não me atiraram sal”. (A. de Rochas) 
(viii) O povo diz que as crianças riem, com alegria, sem motivo. (A. de Rochas) 
(ix) O padre de Polliat, a quem escrevi para saber se existia na sua paróquia algum vestígio de Jean-Claude Bourdon, respondeu-me que nenhum Bourdon foi nunca conhecido em Polliat, mas que esse nome é bastante difundido num lugar vizinho, em Griège por Pont-de-Veyle (Ain). (A. de Rochas 
(x) Ela não tem nenhum sentimento religioso nem nunca frequentou a igreja e acredita que tudo termina com esta vida. Não sabe escrever. As famílias Charpigny e Carteron realmente existiram em Ozam e em Chevroux, porém não encontrei nenhum vestígio positivo de Philomène. (A. de Rochas) 


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte – Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 2 – Joséphine, 1904 (1 de 3), 9º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites

terça-feira, 3 de março de 2020

as vidas sucessivas | os elementos ~

~ Experiências magnéticas 
Regressão da memória e previsão 
~ Caso nº 1 / Laurent (IV)

"27 de Outubro de 1893|

Sessão bastante longa; mas, tendo o Sr. de Rochas se esquecido de sugerir-me a lembrança do que se passaria, não me recordo de nada. Parece que se pode, pressionando-se fortemente a fronte, evocar as sensações experimentadas, todavia, ao menos no que me concerne, a imaginação parece-me então alterar a memória. Não apresentando a lembrança certeza absoluta, como a que se tem sob a influência da sugestão, é mais sensato não lhe dar crédito. (i)

8 de Novembro de 1893

É necessário que eu fale sobre um fenómeno que frequentemente tenho observado nestes dias.

Tão logo na presença do Sr. de R., sinto-me sob a sua influência, mesmo que na nossa conversa não se trate de hipnotismo e, sem que ele me aplique passes ou me fixe para levar-me ao sonambulismo.

No jardim do Luxemburgo, anteontem, enquanto eu passeava com ele, o Sr. de R. deu-me esta ordem: “Você já não pode andar.” Imediatamente permaneci no mesmo lugar, as pernas rígidas, um pouco apavorado, mas sem razão, pois, tão logo me apercebo de que estou sob a influência de uma sugestão, por si só os meus músculos se relaxam e continuo o passeio sem a mínima dificuldade.

Advertido assim de que o Sr. de R. procura nesse momento tentar o seu poder sobre um sujet desperto, permaneço atento, acreditando que a minha vontade será capaz de lutar contra as ordens recebidas. E, efectivamente, reagindo de alguma forma com antecedência logo que o Sr. de R. abre a boca, chego a impedir que a sugestão se realize, sem todavia poder reter um gesto levemente esboçado, que é o começo da realização.

– Deixemos isso – diz-me o Sr. de R. – e falemos de outra coisa.

Já não penso numa possível sugestão quando o Sr. de R. bruscamente exclama:

– Abra a sua mão direita.

Apanhado de surpresa, obedeço imediatamente e a minha bengala cai no chão.

Esta manhã, a simples presença do magnetizador foi suficiente para fazer-me cair na primeira letargia. Sem dúvida eu tinha vindo ao seu gabinete para ser adormecido, eu já estava até sentado diante dele, eu não tinha a ideia de resistir à sua influência magnética (e estas são condições essenciais do fenómeno que se produziu) e, ainda mais, foi a primeira vez que observei isso e adormeci sem o concurso directo do magnetizador.

O Sr. de R. leva-me ao terceiro estado, o estado de rapport. A mesma obliteração da memória de tudo o que se refere ao período de minha vida transcorrido desde a idade dos nove anos. Na verdade, admiro-me por voltar de repente a essa idade sem passar por etapas progressivas. (ii) O facto não é menos verdadeiro; raciocino claramente, entretanto exprimo-me com um vocabulário restrito. Estou nas quatro operações em matemática e cometo erros de ortografia, ao escrever. A minha letra é infantil; lamento não poder compará-la com a que eu rabiscava os meus cadernos escolares perdidos. Não me recordo de ter tido, hoje, esse súbito lampejo de consciência que me fez perceber, em um segundo, durante a sessão precedente, que eu estava adormecido.

É necessário observar que a sugestão possui menos força nesse terceiro estado do que nos estados precedentes. De acordo com o Sr. de R., sou um dos mais sensíveis a isso; não obstante, cedo menos facilmente do que no segundo estado (sonambulismo).

Se, por exemplo, nesse segundo estado o Sr. de R. me ordena, quando está atrás de mim, que o veja em carne e osso na poltrona que está diante de mim, a alucinação é completa: vejo e toco efectivamente uma pessoa viva e, a sensação não se torna mais nítida quando o Sr. de R. se senta ele próprio na poltrona.

Ao contrário, no terceiro estado, sob a ordem do Sr. de R., vejo-o bem e sinto-o lá onde ele não está; mas se ele se dirige realmente ao local onde creio vê-lo, apercebo-me do meu erro, enquanto, no segundo estado, entre a sua imagem e ele, eu não encontrava diferença.

12 de Novembro de 1893

Experiências feitas novamente no terceiro estado.

exteriorização da sensibilidade segue as mesmas leis observadas no segundo estado. Há zonas sensíveis distribuídas em torno do meu corpo e separadas por intervalos constantes onde a excitação é vã. Essas zonas sensíveis são, aliás, invisíveis para mim; não vejo vestígios de eflúvios. Além do mais, observo sempre que a reacção à excitação é mais viva e a sensação mais nítida quando sou advertido e vejo o ponto da zona sobre a qual é dirigida a excitação.

Apagam-se as luzes e deixa-se o cómodo numa obscuridade completa. O Sr. de R. apresenta-me então um diamante, inesperadamente. Passado um momento distingo duas frouxas luminosidades em alguma parte no espaço. É precisamente aí que encontro o diamante. Aliás, essas luminosidades são tão vagas para os meus olhos que não posso definir exactamente a sua cor.

O Sr. de R. estende-me em seguida os seus dedos, que não me parecem mais luminosos do que como os vejo habitualmente. De qualquer forma, não vejo nenhum eflúvio saindo deles.

Enfim, o Sr. de R., colocando a sua mão sobre o peito, pergunta-me se não vejo dentro dele. – Absolutamente não. E não vejo também nada em mim mesmo. (iii)

Acho prudente encerrar aqui estas anotações. À medida que o sujet chega a um estado mais profundo, a sugestão adquire cada vez menos poder sobre ele. Por conseguinte, apesar de o Sr. de R. me sugerir a recordação do que se passa comigo durante o meu sono, desperto, eu não me recordo de nenhuma de minhas acções, de nenhuma das minhas palavras. Eu disse que, pressionando-se fortemente a fronte e, por um esforço persistente, se podiam evocar palavras e acções que se crê terem sido ditas e realizadas; porém também acrescentei que isso parecia como que uma ilusão.

A partir do momento em que entrei nos estados mais profundos do que o terceiro, tive de resignar-me a já não me observar e, por conseguinte saber o que se passou comigo, fixar-me nas observações do Sr. de Rochas, o que faço sem esforço.

                                                                                                                        Laurent
/...
(i) Constatei nesta sessão, com o auxílio de perguntas versando sucessivamente sobre acontecimentos desde os mais recentes até ao nome do seu professor da 3ª série, que as suas recordações se concentravam sobre aqueles cada vez mais distantes à medida que a hipnose se aprofundava. (A. de Rochas)
(ii) As etapas progressivas existem realmente, mas eu não interrogava o sujet durante a sua duração, porque na sessão de 27 de Outubro eu já havia estudado o que podia interessar-me. (A. de Rochas)
(iii) Essas tentativas tinham por finalidade constatar se Laurent gozava da propriedade descrita nos estados profundos da hipnose. (A. de Rochas)


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão, Caso nº 1 – Laurent, 1893 (por ele próprio) 4 de 4, 8º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)

sábado, 7 de abril de 2018

as vidas sucessivas | os elementos ~

~ Experiências magnéticas ~ Regressão da memória e previsão, Caso n.º 1 ~ Laurent (III)

21 de Outubro de 1893

Hoje, a repetição de todos os fenómenos já observados no segundo e no terceiro estados. Continuo muito lento para passar do sonambulismo ao estado de relação. Talvez porque eu seja desconfiado, ou porque uma auto-sugestão, que consiste no firme desejo de não tomar o falso pelo verdadeiro, persista até no sono e faça antagonismo às influências magnéticas.

O Sr. de Rochas, a propósito de uma pergunta que me faz e à qual não respondo, fazendo no entanto esforço para recordar-me do facto que me permitiria responder, observa que, nesse terceiro estado, perdi a memória do presente. Por exemplo, não sei onde estou. Sei que é o Sr. de R. quem se encontra diante de mim; porém eu não poderia dizer o que ele é: Administrador da Escola Politécnica ou exercendo qualquer outra profissão. Todavia, guardo intacta a lembrança das experiências precedentes.

Para estabelecer com exactidão o período de minha vida que foge à minha memória, o Sr. de R. emprega este engenhoso meio:

– Você teve aulas de filosofia? – pergunta-me ele.

Sorrio e respondo: “Oh, não!”, como poderia dizer um jovem escolar que consideraria a aula de filosofia alguma coisa de muito bonita e bastante distante.

– De retórica? Cursou o 1º ano do 2º grau? A 8ª série? A 7ª série? (*)

A resposta é sempre negativa e pronta.

– A 6ª série? A 5ª?

Aqui eu me perturbo, reflicto, hesito. É lamentável que, no momento em que escrevo, apesar da ordem recebida de lembrar-me das sensações experimentadas durante o sono, eu não consiga refazer exactamente o trabalho que se operou em mim nesse minuto. Apenas creio que vi passar a imagem de meu professor da 5ª série, sem poder estabelecer se era realmente o da 5ª série ou o da 4ª. Foi por isso, sem dúvida, que hesitei. De qualquer forma, ainda respondi “não”.

Foi apenas no momento em que o Sr. de R. me perguntou: “Você se recorda de seu professor da 3ª série?”, que espontaneamente afirmei vê-lo.

– Mas você o vê como se ele estivesse aqui? – insiste o Sr. de R.

– Sim, sim, é o meu professor.

– Enfim, você distingue bem se, sim ou não, você é um aluno da 3ª série? Este homem é seu professor desta série ou simplesmente você se recorda de tê-lo tido como professor?

Após um esforço bastante grande, arrisco uma resposta confusa:

– Creio que ele foi meu professor; mas depois dele não tive outros, me parece.

Aqui, por felicidade, reencontro as fases pelas quais passou o meu espírito. Enquanto eu fazia um esforço sincero para responder com exactidão à pergunta feita, a verdadeira solução não se apresentando e eu me fatigando ao procurá-la, disse-me a mim mesmo: “Ah! Vou responder qualquer coisa.” Mas imediatamente em seguida: “Não! Não posso enganar.”

Fenómeno singular! Em um segundo tive consciência de que eu servia de sujet a um magnetizador, que eu era o que na realidade sou e não um aluno da 3ª série e que era necessário permitir a conclusão da experiência, apesar de tudo. Ignoro o que eu teria inventado se este brusco chamamento à realidade não tivesse intervindo para fazer empenhar-me com a sinceridade. “Não, não posso enganar.” Na realidade, esta frase veio-me ao espírito durante o lampejo de consciência que me representou aos olhos como que um jovem de vinte anos, prestando-se a experiências de hipnotismo para sua instrução, preocupado em não errar e, além do mais, interessado em não enganar o experimentador, o que seria enganar-se a si próprio. (**)

Que teria acontecido se o despertar de minha personalidade não tivesse acontecido? Eu teria, sem dúvida, cedido ao desejo de fazer cessar o esforço fatigante; eu teria respondido ao acaso com qualquer coisa aproximativa; depois, para não me contradizer (pois observei em outros sujets, que certamente se crêem de boa fé, que é impossível fazê-los confessar que se enganaram, por mais manifesto que seja o seu erro), eu teria chegado, por uma série de respostas aproximativas, à pura mentira, à invenção, à simulação. E como o Sr. de R. se teria apercebido?

Aliás, eu não consigo explicar essa súbita consciência da realidade que durou apenas o tempo de eu me dizer: “Não posso enganar.” Tenho o hábito de me repetir esta frase como uma sugestão durante a vigília. Seria uma espécie de auto-sugestão quando me vem durante o sono: Mas é admissível que alguém possa, no estado de rapport, obedecer a uma ordem a si próprio dada quando acordado? (***) Isto parece ainda mais inverosímil quando, tendo perdido a lembrança dos factos mais recentes de minha vida, não havia razão para que eu me recordasse preferencialmente de uma frase pensada antes de ser ordenada do que de qualquer outra.

Fica então estabelecido, sem mais comentários, que um sujet adormecido pode dar-se conta de que ele sirva de sujet; isso deve ser bastante raro. Entretanto, essa consciência, de alguma forma virtual, do estado em que se está, não deve deixar de influir surdamente sobre as respostas do sujet às perguntas que lhe são feitas e de representar um papel importante nessa simulação inconsciente que o Sr. Bergson assinalou outrora. (Revue Philosophique, 1888.)

Porém, quando ela se determina, que perturbação profunda deve causar no decorrer da experiência! Ela conduz o sujet a si mesmo. O perigo é em parte afastado quando o sujet, voltando a si, deseja ser sincero. Mas se, ao invés de se dizer “Não enganemos”, ele é indiferente e pouco preocupado com a verdade, como habitualmente acontece? Se, além do mais, ele sente esse desejo que observei de fazer a experiência alcançar êxito? Se, naturalmente comediante, vem-lhe a ideia de representar um papel tão logo volta a si?

Para retornar à experiência, o Sr. de R. volta às suas perguntas.

– Como se diz rosa em latim?

Não há resposta. Com efeito, na 3ª série, ninguém me ensinou ainda o latim.

– Quem matou o gigante Golias?

– Davi.

– Quem foi o sucessor de Henrique IV?

– Não sei.

Na 3ª série eu era sem dúvida mais instruído em história sacra do que em história da França.

Depois seguem-se perguntas sobre as quatro operações. Apreende-se nitidamente deste exame que tudo o que aprendi a partir da idade de cerca de nove anos escapa-me completamente.

Aqui uma nova resposta a uma pergunta de outro género tenderia ainda a fazer-me achar que, apesar de tudo, dou-me conta de que estou adormecido.

–Você tem uma irmã? – pergunta o Sr. de R.

– Sim, mas só me lembro dela muito pequena.

– O que faz o seu pai?

– Já não o tenho.

Eis o que respondo. Ora, quando eu tinha nove anos meu pai ainda vivia. É necessário então que eu tenha noção do presente para que seja o meu eu actual quem fale neste caso.
A sessão termina. Muita fadiga.

Ao despertar-me, o Sr. de R. pergunta-me se vi um estranho durante o sono. Afirmo ter apenas ouvido o Sr. de R. falar a outra pessoa além de mim, mas sem ver ninguém. É entretanto real que um empregado veio pedir uma informação ao Sr. de R. enquanto eu estava adormecido; porém, no terceiro estado, o sujet vê apenas, como eu já disse, o magnetizador e os objectos que ele toca. A minha resposta confirma esta lei.

/... 
(*) O original francês difere, pois os níveis escolares na França tinham e têm outra nomenclatura. A tradutora optou por fazer uma correlação com os níveis vigentes no Brasil. (N.E.)
(**) Fenómeno a relacionar com esta observação do Dr. Gibier: “Conheci um médium, jovem bastante honesto, que não praticava a sua mediunidade e com a qual se observavam diversos fenómenos de levitação e de movimentos de objectos absolutamente reais. Confessou-me ele que diversas vezes se tinha sentido como que impelido a acrescentar alguma coisa ao que produziria; sentia um desejo violento de simular um fenómeno qualquer, enquanto que podia com as suas faculdades naturais obtê-lo melhor. Analisando esta espécie de impulsão, ele me dizia que ela nascia, por um lado, do desejo de causar admiração aos assistentes; por outro lado, do desejo de enganar o seu semelhante; em terceiro lugar, do receio de fadiga, já que, após sessões nas quais fenómenos intensos são obtidos, os médiuns ficam às vezes extenuados. Porém ele acrescentava que qualquer outra causa de que não se dava conta (sem dúvida de natureza impulsiva) se juntava a todas as precedentes e fazia-se sentir mais insistente. Assegurava-me, aliás, que tinha sempre resistido à tentação.” (Analyse des choses). Esta propensão a enganar parece ser inerente ao organismo dos sensitivos e dos médiuns. É preciso levar isto em consideração na observação dos factos, mas não cometer a imprudência de tudo atribuir à fraude, quando já se observou um caso desses. (A.R.)
(***) Isto é não apenas admissível, mas verdadeiro. Tive numerosos exemplos com outros sujets. (A.R.)



Albertde RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão, Caso n. 1 – Laurent, 1893 3 de 4, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)