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domingo, 12 de novembro de 2023

belo maio | bela como os lírios ~


XVI

Jeanne d'Arc e o ideal céltico ~

(I de IV)

Ó terra de granito esmaltada de carvalhos!

Uma noite, o Espírito de J. Michelet, precedendo e anunciando o de Jeanne d'Arc, dirigiu-nos estas palavras, no decorrer de uma das nossas reuniões de estudo:

“Jeanne adquiriu nas suas existências anteriores o sentimento dos grandes deveres que teria de cumprir. Encontrámo-nos muitas vezes nesses longínquos tempos. O laço que desde então se estabeleceu entre nós a atrai. Ela vos inspirará, do mesmo modo pelo qual me inspirou a mim. O meu livro não foi mais do que um eco da sua paixão pela França e pela verdade. Vai agora descer, para vos transmitir uma parcela da verdade divina.”

Jeanne, como todas as almas que connosco percorrem o ciclo imenso da evolução, contou numerosas existências na Terra. Algumas foram brilhantes, vividas sobre os degraus de um trono; outras obscuras; todas, porém, de resultados fecundos para o seu próprio adiantamento e benéficas para os seus semelhantes.

As primeiras transcorreram durante o período céltico, no país de Armor. Lá é que a sua personalidade se impregnou dessa natureza particular, feita de ideal, de intrepidez e de mística poesia, que a caracteriza no décimo quinto século.

Desde a infância em Domremy, aprazia-lhe frequentar os lugares onde se celebraram os ritos druídicos: os bosques de carvalho, testemunhas das antigas evocações das almas, as fontes sagradas, os monumentos de pedras brutas, esparsas aqui e ali, nos arredores da aldeia. Gostava de adentrar-se na espessa floresta, para lhe escutar as harmonias, quando, sacudindo-a, o vento a fazia vibrar qual harpa gigantesca. Com o olhar de vidente, distinguia, por sob as abóbadas verdejantes, as misteriosas sombras dos que presidiam àquelas evocações e aos sacrifícios. Entre os seus guias invisíveis, poder-se-ia deparar com os Espíritos protectores das Gálias, os mesmos que em todas as eras prestaram assistência aos filhos de Artur e de Merlin e dão aos que lutam por uma causa nobre a vontade e o amor que conduzem à vitória.

Feneceu nas ramagens o visco, nos lares apagou-se a chama sagrada; mas, no coração de Jeanne, vívida estará sempre a fé nas vidas inextinguíveis e nos mundos superiores. Os historiadores, que lhe souberam analisar e compreender o carácter, reconheceram nele os influxos de uma dupla corrente – céltica e cristã, cuja origem ela própria nos indicará em breve. Henri Martin, notadamente, a acentuou nas páginas de sua História. Em primeiro lugar, ele assinala, nos seguintes termos, as lembranças deixadas pelos Celtas, ainda vivas no tempo da heroína:

“Próximo da casa de Jeanne d'Arc passava uma vereda que, atravessando tufos de groselheiras, subia o outeiro a cujo cimo, coberto de mata, era dado o nome de Bois Chesnu. A meia encosta, debaixo de grande faia isolada, borbotava uma fonte, objecto de culto tradicional. Nas suas águas claras, desde tempos imemoráveis, buscavam a cura os enfermos que a febre atormentava... Seres misteriosos, anteriores entre nós ao cristianismo e que os camponeses nunca assentiram em confundir com os espíritos infernais da legenda cristã, os génios das águas, das pedras e dos bosques, as senhoras fadas, frequentavam a cristalina fonte e a faia secular, que se chamava o Belo Maio. Ao entrar a primavera, vinham as donzelas dançar em baixo da árvore de Maio, “bela como os lírios” e pendurar-lhe nos galhos, em honra das fadas Celtas, grinaldas que desapareciam durante a noite, segundo era voz geral”. (i)

Descreve em seguida as impressões da virgem Lorena:

“As duas grandes correntes que se haviam juntado para dar nascimento à poesia cavalheiresca, a do sentimento céltico e a do sentimento cristão, misturaram-se de novo para formar essa alma predestinada. A jovem pastora umas vezes sonha ao pé da árvore de Maio, ou sob os robles, doutas, passa horas esquecidas no fundo da pequenina igreja, em êxtase diante das santas imagens que resplandecem nas vidraças... Quanto às fadas, ela nunca as viu ao luar, descrevendo os círculos de suas danças, em volta do Belo Maio. A sua madrinha, porém, outrora as encontrara e Jeanne julga perceber de quando em quando formas imprecisas, nos vapores do crepúsculo: gemem vozes à tarde nos ramos dos carvalhos; as fadas já não dançam – choram: é o lamento da velha Gália que expira!”. (ii)

Finalmente, falando do processo de Ruão, diz ainda o mesmo autor: (iii)

“Jeanne soube opor o livre génio gaulês ao clero romano, que intentava pronunciar-se em definitivo sobre a existência da França. Por seu intermédio, o génio místico reivindica os direitos da personalidade humana, com a mesma força que o génio filosófico; a mesma alma, a grande alma da Gália, desabrochada no Santuário do Carvalho, brota igualmente no livre-arbítrio de Lérins e do Paracleto, na soberana independência da inspiração de Jeanne d'Arc e no Eu de Descartes.”

A própria Jeanne, confirmando esses modos de ver, assim se exprimia numa mensagem que ditou em Paris, no ano de 1898: (iv)

“Remontemos, por instantes, ao curso das idades, a fim de aprenderdes o caminho que percorri, preparando-me para transpor a etapa dolorosa que conheceis.

“Múltiplas foram as existências que contribuíram para o meu progresso espiritual. Decorreram na velha Armorica, debaixo do zimbório dos grandes robles seculares, cobertos do visco sagrado. Foi lá que, lentamente, me encaminhei para o estudo das leis do Espírito e para o culto da pátria.

“Oh! entre todas, benditas as horas em que o bardo, com os seus cantares alegres, nos fazia palpitar os corações e nos abria os olhos para a luz, permitindo-nos entrever as maravilhas do infinito! Ensinava-nos então que o passar da morte à ressurreição gloriosa do Espírito, no espaço, representa uma simples transformação, sombria, ou luminosa, conforme o homem se conduziu nesse mundo: ou seguindo a estrada da justiça e do amor, ou deixando-se dominar pelas forças avassaladoras da matéria. Fazia-nos compreender as leis da solidariedade e da abnegação; instruía-nos sobre o que era a prece, dizendo: “Orar é triunfar; a prece é o motor de que o pensamento se serve, para estimular as faculdades do Espírito, as quais, no espaço, constituem a sua ferramenta. A prece é o ímã poderoso do qual se desprende o fluido magnético espiritual, que, não só pode aliviar e curar, como também descerra ao Espírito horizontes sem fim e lhe dá azo de satisfazer ao desejo de conhecer e aproximar-se continuamente da fonte divina, donde emanam todas as coisas. A prece é o fio condutor que põe a criatura em relação com o Criador e com os seus missionários.”

“Um dia, compenetrada dessas verdades, adormeci e tive a seguinte visão: Assisti, primeiramente, a muitos combates, oh! impossível de serem evitados por efeito do livre-arbítrio de cada um; mas, sobretudo, por motivo do amor ao ouro e à dominação, os dois flagelos da Humanidade. Depois, descortinei claramente a grandeza futura da França e o seu papel de civilizadora no porvir. Deliberei consagrar-me muito particularmente a essa obra.

“Logo me vi rodeada de uma multidão simpática, que na maior parte chorava e deplorava a minha perda. Em seguida, o veneno, o cadafalso, a fogueira passam vagarosamente por diante de mim. Senti as labaredas devorando-me as carnes e desmaiei!... Vozes amigas chamaram-me à vida e me disseram: “Espera! A falange celeste que tem por missão velar sobre esse globo te escolheu para secundá-la nos seus trabalhos e assim acelerar o teu progresso espiritual. Mortifica a tua carne, a fim de que as suas leis não possam ser obstáculo ao teu Espírito. A provação será curta, porém rude. Ora e a força te será dada: colherás da tua obra todas as bênçãos nos tempos vindouros. Assegurarás a vitória da fé arrazoada contra o erro e a superstição. Prepara-te para fazer em tudo a vontade do Senhor, a fim de que, chegada a ocasião, tenhas adquirido bastante energia moral para resistir aos homens e obedecer a Deus! Seguindo estes conselhos, os mensageiros do céu virão a ti, ouvirás as suas vozes, eles te guiarão e aconselharão; podes ficar tranquila, não te hão de abandonar!”

“Como descrever o supremo anelo que se apoderou de mim! Senti o aguilhão do amor penetrar todo o meu ser. Já não tive outro objectivo que não fosse trabalhar pela libertação espiritual deste país abençoado, em que acabava de saborear o pão da vida e de beber pela taça dos fortes. Essa visão foi para a minha alma um celestial viático.”

/... 
(i) Henri Martin – Histoire de France, t. VI, páginas 138 e 193.
(ii) Ibidem, pág. 140.
(iii) Ibidem, t. VI, pág. 302.
(iv) Ver: Revue Seientifique et Morale du Spiritisme, Janeiro de 1898.


Léon Denis, Jeanne d’Arc Médium, Segunda Parte – As missões de Jeanne d'Arc, XVI Jeanne d’Arc e o ideal céltico (I de IV) 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L'Annonciation, óleo sobre painel (1901), de Edgard Maxence) 

domingo, 18 de dezembro de 2022

a floresta ~


Alma humana… 

A floresta é o adorno da Terra e a verdadeira conservadora do globo. Sem ela, o solo, arrastado pelas chuvas, cedo voltaria aos abismos do mar imenso. Ela retém as largas gotas da tempestade nos seus tapetes de relva, no enredo das suas raízes; ela as encaminha para as fontes e as entrega, pouco a pouco, transformadas, tornadas fertilizantes e não devastadoras. Por toda a parte em que as árvores desaparecem, a terra empobrece, perde a sua beleza. Gradualmente, chega à monotonia, à aridez e depois à morte. Regeneradora por excelência, a respiração dos seus milhares de folhas destila o ar e purifica a atmosfera. 

Do ponto de vista psíquico, já vimos, o papel da floresta não é menos considerável. Ela foi sempre o asilo do pensamento recolhido e sonhador. Quantas obras delicadas e fortes têm sido meditadas na sua sombra fresca e mutável, na paz das suas potentes e fraternais ramadas! Quem quer que possua alma de artista, de escritor, de poeta, saberá haurir nessa fonte viva e transbordante a inspiração fecunda. Com o seu ritmo majestoso, a floresta embalou a infância das religiões. A arquitectura sagrada, nas suas mais altivas audácias, não tem feito mais que copiá-la. As naves góticas das nossas catedrais, não são mais que a imitação de pedra, das mil colunatas e das abóbadas imponentes dos bosques? A voz dos órgãos não é o frémito do vento, que, segundo a hora, suspira nos roseirais, ou faz gemer os grandes pinheiros? 

A floresta serviu de modelo às manifestações mais altas da ideia religiosa na sua expansão estética. Nas primeiras idades, ela cobria a superfície quase inteira do globo. 

Nada mais impressionante para os nossos pais, que a antiga e profunda selva dos gauleses, na sua grandeza misteriosa, com os seus santuários naturais, onde se consumavam os ritos sagrados, os retiros por vezes cheios de horror, quando os rumores da tempestade faziam ressoar o eco dos bosques e, do seio das touceiras, subiam o grito das feras; cheia de encanto e de poesia, quando, vindo à calma, o céu azul, a cristalina luz aparecia através da ramada e o canto dos pássaros celebrava a festa eterna da vida. De século em século, a alma céltica guardou o forte cunho da floresta primitiva e o amor dos seus santuários, morada dos Espíritos tutelares que Vercingétorix e Jeanne d'Arc veneraram, dos quais ouviram, na verde solidão, as vozes inspiradoras. 

O espírito céltico é ávido de claridade e de espaço, apaixonado da liberdade; possui intuição profunda das coisas da alma que reclamam revelação directa, comunhão pessoal com a Natureza visível e invisível. Eis por que ele estará sempre em oposição à Igreja Romana, desconfiada dessa Natureza e cuja doutrina é toda cheia de compressão e de autoridade. Os druidas e os bardos foram-lhe rebeldes. Apesar das conquistas romanas e das invasões bárbaras que facilitaram a expansão do Cristianismo, a alma céltica, por uma espécie de instinto, sempre se sentiu herdeira de uma fé mais larga e mais livre que a de Roma. 

Inutilmente os monges procurarão impor-lhe a ideia de ascetismos e de renúncia, a submissão a dogmas rígidos, a uma concepção lúgubre da morte e do Além; o espírito céltico, na sua sede ardente de saber, de viver e de agir, escapará a esse círculo estreito. 

A ideia fundamental do druidismo é a evolução, a ideia do progresso e do desenvolvimento na liberdade. Essa ideia é tomada, em certa medida, à Natureza e completada pela Revelação. 

Com efeito, a impressão geral que ressalta do espectáculo do mundo é um sentimento de harmonia, uma noção de encadeamento, uma ideia de fim e de lei, isto é, relações eternas dos seres e das coisas. A concepção evolutiva emana do estudo dessas leis. Há uma direcção, uma finalidade na evolução, e esse rumo traz o conjunto das vidas, por gradações insensíveis e seculares, para um estado sempre melhor. 

O Cristianismo, ou antes, o Catolicismo afastou essa ideia, mas a Ciência torna a levar-nos para ela. Primeiramente, esta espiritualiza a matéria, reduzindo-a a centros de força e nos mostra o sistema nervoso, complicando-se cada vez mais na escala dos seres, para chegar ao homem. As espécies bravias tendem a desaparecer diante da superioridade do homem. Com o desenvolvimento do cérebro, o pensamento triunfa. A consciência executa a sua ascensão paralela. Há aproximação entre as leis morais e as certezas físicas e biológicas. A ordem que se manifesta nos dois domínios chega a conclusões análogas. A Natureza é plástica, móvel quanto elas, e sofre a influência do Espírito Divino. 

Sendo essa evolução a lei central do Universo, o principal papel da ordem social é facilitá-la a todos os seus componentes. A vida é, pois, boa, útil e fecunda. Diante das perspectivas infinitas que ela nos abre, todos os sentimentos deprimentes, pessimismo, dúvida, tristeza, desespero, desaparecem para dar lugar às inspirações imortais, à esperança imperecível. 

É esse génio da nossa raça, sobrelevando à onda das invasões, sobrevivendo a todas as vicissitudes da História, reaparecendo sobre vinte formas diversas, depois de períodos de eclipse e de silêncio, que explica a grande missão e a irradiação da França na obra da civilização. Mais que qualquer outra raça, os celtas, cujas origens se perdem no longínquo vertiginoso dos tempos, se aproximam, pelo instinto hereditário, do mundo das causas e das fontes da vida. Tanto na Ciência quanto na Filosofia, eles conseguiram muitas vezes aplicar o pensamento desnorteado ao sentimento da Natureza e das suas leis reveladoras, a uma concepção mais clara dos princípios eternos. Se o entusiasmo e a lei célticos pudessem extinguir-se, haveria menos luz e alegria no mundo, menos transportes apaixonados para a Verdade e para o Bem. Desde há mais de um século, o materialismo alemão entenebreceu o pensamento, paralisou o seu surto; podemos ver por toda a parte, à nossa volta, os resultados funestos da sua influência. Mas, eis que o génio céltico reaparece sob a forma de espiritualismo moderno, para esclarecer de novo a Alma humana na sua ascensão; ele oferece, a todos aqueles cujos lábios estão secos pelo áspero vento da vida, a taça da esperança e da imortalidade. 

/... 


LÉON DENIS, O Grande Enigma, Segunda parte, O Livro da Natureza 3º fragmento, XI – A floresta (2 de 2). 
(imagem de contextualização: Head of Divine Vengeance, pintura de Pierre-Paul Prud'hon)  

sábado, 12 de dezembro de 2020

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


A Irlanda 
(III de III) 

Através da história dramática dessa ilha que soube, pelos seus próprios meios e sem nenhum auxílio externo, reconquistar a sua independência, reencontrar-se, sob a pena dos seus escritores, esse mesmo gosto dos mistérios do Além, do sentido encoberto das coisas, desse sentimento profundo do oculto que caracteriza esta raça. 

Sob os véus do Cristianismo aparece a alma primitiva dos antigos celtas. Ela vibra na poesia gaélica como nas cordas das harpas de Ossian. O mundo invisível é, para os seus bardos, uma realidade viva e, se lhes acontece, algumas vezes, atribuir-lhe nomes e formas fantasiosas, eles não reconhecem menos, sob os seus aspectos diversos e inconstantes, a sobrevivência e a imortalidade da alma humana. 

Portanto, nos nossos dias, o sentimento do oculto tomou, na Irlanda, nuances mais nítidas e mais precisas. Ele se revestiu de uma forma experimental, tornando-se uma ciência, um método que tem as suas regras e as suas leis. Neste país, como em todo o ocidente, os fenómenos do Além são agora observados, estudados por técnicos conhecedores dos processos de laboratório e que prosseguem essas experiências num rigoroso espírito de controlo com uma atenção escrupulosa. 

Os resultados obtidos pelo professor Crawford, de Belfast, com a Srta. Goligher tiveram grande repercussão. Mas a obra mais importante sobre esses fenómenos é, certamente, a de Sir William Barrett, professor da Universidade de Dublin, membro da Academia Real de Ciências e um dos fundadores da “Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres”, da qual foi presidente honorário. O seu livro No Limiar do Invisível, traduzido para o francês (e para o português), publicado em 1923, é um dos mais notáveis que têm sido escritos sobre este vasto assunto. Ele resume, de forma clara e em grande profundidade de vistas, os frutos de meio século de observações e experiências. 

Recomendamos a sua leitura e dele nos limitaremos a citar as belas conclusões: 

“A mudança mais radical do pensamento, desde a era cristã, será, provavelmente, a aceitação, pela ciência, da imanência do mundo espiritual. A fé cessará de hesitar ao se esforçar em conceber a vida do invisível, a morte se despojará do terror que inspira aos próprios corações cristãos, os milagres parecerão apenas relíquias supersticiosas de um tempo bárbaro. Pelo contrário, se, como eu acredito, a telepatia é indiscutível, se os seres da criação se impressionam reciprocamente sem a voz nem a palavra, o Espírito Infinito, cuja sombra nos cobre, será, sem dúvida, revelado, no correr dos séculos, aos corações humanos capazes de entendê-lo. 

Para algumas almas privilegiadas foram dadas a intuição, a clarividência, a palavra inspirada, mas todos nós, às vezes, percebemos uma voz dentro de nós mesmos, débil eco dessa vida mais ampla que a humanidade expressa lentamente, porém, seguramente, à medida que os séculos passam. Mesmo para aqueles que estudarão esses fenómenos apenas sob o ponto de vista científico, o benefício será imenso, fazendo-lhes mais evidente a solidariedade humana, a imanência do invisível, a soberania do pensamento e do espírito, noutras palavras, a unidade transcendental e a continuidade da vida. 

Não estamos separados do Cosmo nem perdidos nele: a luz dos sóis e das estrelas alcança-nos, a força misteriosa da gravitação une as diferentes partes do Universo num todo orgânico; a mais pequena molécula e a mais distante trajectória estão sujeitas ao mesmo meio. Mas acima e além desses vínculos materiais, está a solidariedade do espírito. Do mesmo modo que a significação essencial e a unidade de um favo de mel não estão na cera dos alvéolos, mas na vida e no propósito dos seus construtores, do mesmo modo o verdadeiro sentido da natureza não está no mundo material, mas no espírito que lhe dá a sua interpretação, que suporta e une, que vai além e cria o mundo fenomenal através do qual cada um de nós passa um momento.” 

/… 


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO II – A Irlanda (III de III), 10º fragmento desta obra) 
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, Ossian, Desaix, Kléber, Marceau, Hoche, Championnet, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)