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domingo, 28 de dezembro de 2025

literatura do além-túmulo ~


Capítulo VIII
 (II)

Resta-me tomar em consideração, uma última obra literária, recebida pela mediunidade há algum tempo, que despertou, na Inglaterra, imenso interesse, assim como suscitou vivas discussões em revistas metapsíquicas, espíritas, religiosas e mesmo em jornais políticos, de forma tal que a primeira edição se esgotou em cinco meses. A obra, que tem o título de Os Escritos de Cléofas, é apresentada como uma “crónica sacra” complementar dos “Actos dos Apóstolos”, que chegaram até nós mutilados em algumas partes, em consequência das perseguições de que foram vítimas os primeiros cristãos.

Os Escritos de Cléofas teriam sido transmitidos directamente (ou, para melhor dizer, “inspirados”) pelo discípulo deste nome, um dos dois ao qual o Cristo apareceu no caminho de Emaús, três dias após a sua morte, e com o qual se sentara para comer na cidade homónima de Emaús.

O médium, por intermédio do qual essa notável obra foi ditada, é a srta. Geraldine Cummins, filha do prof. Ashley Cummins, de Cork, Irlanda, doutor em medicina.”

A srta. Cummins é uma escritora elegante, autora de um romance e duas comédias escritas em colaboração com terceiros; é, ao mesmo tempo, hábil jogadora de lawn-tenis.

Cito isto com o fim único de mostrar o perfeito equilíbrio de seu corpo e do seu espírito. Em 1923 ela começou a exercitar-se na escrita automática com a sua amiga srta. Gibbes, e em 1925 obtiveram, repentinamente, os primeiros ditados relativos à história do primeiro século da igreja cristã.

A entidade que os ditava assinava “O Mensageiro” e a sua escrita mediúnica se processava com a médium em estado de meio-transe.

O lápis corria muito rapidamente sobre o papel; 1.400 a 1.500 palavras eram ditadas, sem interrupção, numa hora. O ditado, uma vez terminado, era imediatamente retirado, na ignorância do seu conteúdo, com o fim de se evitarem interferências possíveis de sua subconsciência.

Essa medida de precaução não impedia, entretanto, que o escrito continuasse, invariavelmente, no ponto preciso em que fora interrompido. As pessoas que assistiam ao ditado mediúnico não exerciam nenhuma influência sobre ele. A médium acolhia, amavelmente, todos os que desejavam vê-la psicografar e daí as sessões se realizarem, constantemente, na presença de médicos, padres católicos, pastores protestantes, teólogos, historiadores, jornalistas, assim como na de alguns membros das duas sociedades de pesquisas psíquicas: a inglesa e a americana.

A sensação experimentada pela médium, durante o ditado, era a de uma pessoa que sonha, sem ter qualquer influência sobre o desenvolvimento das fantasias sonhadas. Além desta, ela experimentava a impressão de que o seu cérebro era empregue por outra individualidade que dele se servia, de modo análogo ao telegrafista com o seu aparelho ou ao dactilógrafo com a sua máquina de escrever. (*)

(*) Nota de publicação: Pequeno excerto do início do Capítulo, repetido, para melhor contextualização.

Eis pormenores de aparência insignificante e que são, todavia, muito importantes para as pesquisas acerca da natureza da personalidade mediúnica que transmitiu Os Escritos.

Escreve a srta. Gibbes:

“Em diferentes ocasiões, o “Mensageiro” afirmara que “Cléofas” se valia de numerosas crónicas da época. Seria, então, interessante a descoberta de alguma prova tendente a confirmar essa asserção do “Mensageiro”. Estávamos embaraçados com o caso, quando, nos primeiros tempos da transmissão das “mensagens apostólicas”, uma dessas, ora inclusa no capítulo IV, começou, contra o que era hábito, na “primeira pessoa”. A mensagem dizia: “Estive longamente com Pedro e ouvi-lhe atentamente todas as palavras. Ele tinha o poder de transmitir a outros a faculdade das visões e dos sonhos, por intermédio do poder radioso de sua palavra”. Quinze meses depois, quando se preparava a publicação da primeira série de Os Escritos, pediram-se explicações à personalidade comunicante a respeito da frase que acabo de citar. Foi-nos respondido: “É preciso que saibas que, quando estas palavras foram ditadas, a nossa intenção era a de traduzir para a vossa língua, palavra por palavra, uma antiga crónica daquela época, transmitindo-a ao mundo por intermédio desta mão. O nosso intento, porém, se modificou desde que descobrimos que os corpos espirituais das duas senhoras, de que nos servimos, continham poderes suficientes para receber de nós o ditado dos acontecimentos contidos em várias crónicas. Nessas condições, as palavras da introdução, que ditamos há vários meses, não devem ser entendidas como tendo relação connosco, mas com o autor das crónicas de que tiramos as presentes informações que são constituídas de imagens que “Cléofas” colhia na grande “Árvore das Recordações” para transmiti-las em seguida a nós, seus mensageiros, encarregados de transformá-las em termos acessíveis aos homens de vossa geração. De qualquer maneira, seria conveniente suprimir no texto as palavras de introdução, a fim de evitar toda a confusão possível entre as pessoas que lerem essas crónicas.”

A srta. Gibbes continua, dizendo:

“As palavras da introdução foram então suprimidas do texto publicado. Saliento que a explicação acima era absolutamente inesperada por todos nós. Aliás, a julgar pelo imenso material de factos que foi, em seguida, ditado à srta. Cummins, podemos reconhecer o bom fundamento da afirmação supra, segundo a qual se mudará de intenção desde que se verificou a capacidade mediúnica do “instrumento” que se empregava, isto é, que se decidiu ditar à médium uma história dos tempos apostólicos, infinitamente mais longa e mais completa da que antes se havia combinado.” (Light, 1929, pág. 152).

No que concerne aos fins a que se propuseram os espíritos comunicantes, ditando as crónicas em questão, eis o que eles dizem a respeito:

“A nossa intenção é a de semear, no coração dos homens de vossa geração, o gérmen da fé no Divino Mestre, de modo que essa fé possa reflorescer. Esperamos que o coração dos homens de hoje receba a nossa semente! Entre eles, alguns há que julgam que o Cristo está morto! Absolutamente. Isto não é verdade. Ele vive mais do que nunca e reviverá nos corações e nos espíritos das gerações futuras com mais esplendor do que antes!” (Light, 1929, pág. 147).

Tais são as suas intenções, tais as suas esperanças. Todavia, curioso e interessante é saber, a esse respeito, a opinião de um outro espírito-guia da srta. Cummins, ao qual esta última se dirigiu para ter informações referentes ao “Mensageiro” que ditava as crónicas sacras. O espírito-guia respondeu:

“Desde há muito que uma falange de espíritos envidava esforços para descobrir um sensitivo capaz de receber, através do mecanismo de seu cérebro, a história das origens do cristianismo. Os membros desse grupo pensavam que não poderia haver expediente melhor para encher o horrível vácuo espiritual que existe nas almas da actual geração, vácuo horrível quando é observado do mundo espiritual. Cléofas e os seus auxiliares se propuseram, então, enviar aos humanos o remédio de que tinham necessidade, revelando-lhes a história do período apostólico. Na minha opinião, eles não consideraram, suficientemente, que os horizontes mentais da humanidade se modificaram bastante depois da época em que viveram na Terra. Não perceberam que, na presente sociedade humana, não há quase lugar para a fé, pois a humanidade quer atingir o espiritual através do material.” (Light, 1928, pág. 149).

Resulta daí que o espírito-guia da srta. Cummins duvida do sucesso da nobre tentativa de Cléofas e dos seus coadjutores, que se propuseram transmitir aos humanos crónicas autênticas dos tempos apostólicos, na esperança de salvar, assim, a presente humanidade, reconduzindo-a à fé dos cristãos primitivos no seu Mestre. Muitos dos meus leitores compartilham, sem dúvida, da opinião do espírito-guia da srta. Cummins, mas isto não tem importância alguma para o nosso ponto de vista e, unicamente, serve para confirmar uma verdade conhecida desde há muito, isto é, que ninguém se torna omnisciente porque desencarnou, mas que o espírito fica, intelectualmente, no ponto em que estava por ocasião da morte. Não tardam esses seres em assimilar grande número de conhecimentos relativos ao meio espiritual em que se encontram, mas não se despojam, senão muito lentamente, das concepções intelectuais que possuíam e só vagamente entrevêem as verdades espirituais a respeito das quais, assim no além como no mundo dos vivos, cada um tem o dever de exercer livremente o seu discernimento. Tal facto dá lugar, como na Terra, a várias opiniões mais ou menos em desacordo entre si.

Com isto, espero ter citado e comentado, suficientemente, o caso em questão, para dele fazer sobressair o grande valor teórico a favor da interpretação espírita dos factos. O caso é, aliás, semelhante ao de Patience Worth e não lhe é, de modo algum, inferior quanto à natureza maravilhosa do texto obtido mediunicamente. A diferença entre os dois casos é de natureza secundária e consiste em que nas comunicações de Patience Worth se encontram dados – como a sua conversa constante em um dialecto arcaico – que podem servir indirectamente, mas eficazmente, para provar a independência intelectual e, em certo ponto de vista, a própria identificação intelectual da entidade comunicante, ao passo que, no caso de Cléofas, não se vêem aparecer dados desta natureza.

Em todo o caso, isso não apresenta uma importância teórica apreciável, porque, nos dois casos, a eficácia demonstrativa dos factos nada tem que ver com a questão de identificação pessoal, para se concentrar, unicamente, na natureza intrínseca do material psicográfico obtido, cuja proveniência é inexplicável perante toda a hipótese naturalista. Com efeito, mesmo no caso de Cléofas, as hipóteses da telepatia, da criptomnesia, da psicometria, não chegam, de maneira alguma, a considerar o conjunto dos factos, sobretudo se considerando-se não se tratar de indicações isoladas ou de acontecimentos fragmentários susceptíveis de serem atribuídos às emergências da subconsciência da médium (criptomnesia) ou bem ao facto de a médium tê-las captado nas subconsciências dos assistentes ou dos ausentes (clarividência telepática).

Não se trata de “visões psicométricas” em relação com um objecto apresentado ao médium sensitivo e, por consequência, circunscritas pelas “influências” existentes em estado latente no próprio objecto, mas, ao contrário, trata-se de crónicas orgânicas, isto é, de uma narração ordenada de acontecimentos, com numerosas noções geográficas, topográficas, históricas, filológicas, ignoradas da médium e das quais se verificou, em seguida, a autenticidade.

Trata-se, finalmente, em grande parte, de episódios que, referidos obscuramente nos “Actos dos Apóstolos”, agora, ao contrário, são narrados minuciosamente em Os Escritos de Cléofas, o que torna, pela primeira vez, inteligível o texto escriturístico.

Em suma, trata-se de uma obra histórica ordenada, completa, vital, que já se compõe de três grossos volumes e ainda não está terminada. Não é certamente na subconsciência da médium que se deverá buscar a génese de um trabalho que apresenta uma importância real, histórica e religiosa, no qual se encontram dados, indicações, minúcias, que ninguém poderia focalizar sem ser especializado nas ciências histórica, geográfica, teológica e filológica.

Nestas condições, só resta uma coisa a fazer: aceitar, ainda esta vez, em nome da lógica e do bom senso, as explicações fornecidas pelas personalidades mediúnicas que ditaram a obra em questão, isto é, concordar que essas personalidades são espíritos de defuntos que relatam os acontecimentos dos quais foram testemunhas ou que se produziram na época e na região em que viveram.

/…

Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo – Capítulo VIII (2 de 2) 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

pensamento e vontade ~


Conclusões |

(das forças ideoplásticas)

Está terminada a parte demonstrativa desta obra.

Resta-me falar das grandes transformações que devem dar-se, necessariamente, nos domínios das ciências biológicas, fisiológicas, psicológicas e filosóficas, graças ao novo conceito relativo à natureza do espírito humano, conceito esse absolutamente revolucionário, que os factos impõem.

Neste sentido, assim se exprime o Doutor Gustave Geley:

“Que quer dizer o vocábulo ideoplastia? Quer dizer moldagem da matéria viva, feita pela ideia.

A noção da ideoplastia, imposta pelos factos, é capital.

A ideia não é mais um atributo, um produto da matéria. Ao contrário, ela, a ideia, é que modela a matéria e lhe confere a forma e os seus atributos.

Noutros termos, a matéria, a substância única resolve-se, em última análise, num dinamismo superior que a condiciona, estando esse dinamismo também na dependência da ideia.

Ora, isso é o soçobro total da fisiologia materialista.

Disse-o Camille Flammarion, no seu livro admirável As forças naturais desconhecidas, que estas manifestações “confirmam o que, ao demais, sabemos, isto é, que a explicação puramente mecânica da Natureza é insuficiente e existe no Universo alguma outra coisa, além da pretensa matéria. Não é a matéria que rege o mundo, mas um elemento dinâmico e psíquico.”

Sim, as materializações ideoplásticas demonstram que o ser vivo não pode considerar-se um simples complexo celular.

Ele, o ser vivo, aparece-nos, antes de tudo, como um dínamo-psiquismo e o complexo celular que lhe forma o corpo não é mais que um retracto ideoplástico desse dínamo-psiquismo.

Assim, as formas materializadas, nas sessões, se beneficiam do mesmo processo de geração.

Não são mais nem menos miraculosas, nem supranormais, ou, se o preferem, são-no igualmente.

É o mesmo milagre ideoplástico que forma, a expensas do corpo materno, mãos, rosto, vísceras, todos os tecidos, o feto integral; como a expensas do corpo do médium se formam rostos, mãos, ou todo o organismo de uma materialização.

Esta singular analogia, entre a fisiologia normal e a dita supranormal, encontra-se até nos mínimos detalhes.

Um dos principais é este: – a ligação do ectoplasma ao médium por um laço nutritivo, verdadeiro cordão umbilical, comparável ao que liga o embrião ao organismo materno.” (Do Inconsciente ao Consciente, págs. 69-70).

Depois de haver evidenciado as grandiosas consequências biológicas, fisiológicas e psicológicas que a nova teoria sobre a potência criadora da ideia acarretará, julga-se o doutor Gustave Geley no dever de completá-la, notando que a faculdade ideoplástica, inerente à ideia, não representa mais que simples unidade entre as múltiplas faculdades supranormais, que constituem os atributos espirituais do Eu integral, sobrevivente. Diz ele:

“Certo é, pois, que o organismo, longe de ser o organizador da ideia, tal como ensina a teoria materialista, é, muito ao contrário, condicionado pela ideia e, só aparece como produto ideoplástico do que existe de essencial no ser, ou seja, o seu psiquismo subconsciente.

Mas, isto ainda não é tudo.

Esse subconsciente que em si tem as capacidades directoras e centralizadoras do Eu em todas as suas representações, tem também o poder de se elevar acima dessas mesmas representações.

As faculdades telepáticas de acção mento-mental ou de lucidez, são representações que escapam precisamente das condições dinâmicas ou materiais que as regem.

O subconsciente paira mesmo acima do quadro das representações, isto é, do tempo e do espaço, na intuição, na genialidade, na clarividência.

Assim, a tese sustentada por Carl du Prel nas suas obras de admirável intuição; que Frederic Myers baseou em sólida documentação e nós próprios fazemos sobre um raciocínio não contestado, oferece-se agora, em toda a sua amplitude, ao exame e discussão dos sábios e pensadores de boa fé.

Sem reserva, pode afirmar-se:

– Há no ser vivo um dinamismo psíquico que constitui a essência do “Eu” e, que se não pode ligar ao funcionamento dos centros nervosos.

Esse dínamo-psiquismo essencial não é condicionado pelo organismo, mas, muito pelo contrário, tudo se passa como se organismo e funcionamento cerebral fossem por ele condicionados.” (Idem, págs. 142-143).

Esta nova definição científica do Ser vivente decorre irrefutável e segura, deste grande acontecimento: o de haver sido demonstrada pelos factos.

É a definição pela qual o Pensamento e a Vontade são forças plásticas e organizadoras.

E tão grande é o valor teórico dessa demonstração, que abre uma nova época científica, por desmoronar totalmente, antes de tudo, as imponentes, mas fictícias construções laboriosamente estabelecidas por numerosos grupos de investigações pertencentes a todos os ramos científicos, decalcadas no postulado da omnipotência da matéria, quando, na verdade, deverá o templo alicerçar-se no postulado diametralmente contrário, da omnipotência do espírito.

Advertirei, todavia, que a demolição do velho edifício científico não significa, de qualquer modo, que os representantes do saber tenham trabalhado em vão por todo um século.

Longe disso, o novo templo do saber há de ser reconstruído com os materiais preciosos retirados da demolição do templo velho.

Esses materiais eram bons, mas o fundamento estava mal colocado, uma vez que assente sobre as areias enganadoras das aparências fenoménicas, de mistura a prejuízos de escola e, por isso mesmo, fatalmente destinados a esboroarem-se, logo que a realidade, oculta sob as aparências, emergisse de uma análise mais profunda dos fenómenos vitais.

/…


Ernesto Bozzano, Pensamento e Vontade – Conclusões (1 de 4), 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgard Maxence)

terça-feira, 28 de novembro de 2023

literatura do além-túmulo ~


Capítulo VI

 Lembro-me que há alguns anos, tendo consagrado longo estudo à análise das admiráveis provas de identificação pessoal fornecidas pela entidade Oscar Wilde, (i) o célebre poeta e dramaturgo inglês, nas suas comunicações por intermédio da médium Hester Dowden, terminei observando que, no caso em questão, foram dadas todas as provas cumulativas que se estava razoavelmente no direito de exigir nestas circunstâncias.

Enumerei, com efeito, a transmissão de numerosas provas pessoais, ignoradas de todos os assistentes e das quais se constatou a autenticidade; a prova memorável da identidade da escrita, seguida, de modo impecável, no decorrer de várias centenas de páginas; a prova mais importante ainda a da identidade do estilo, ou, para melhor dizer, dos dois estilos que caracterizavam a personalidade literária do defunto; enfim, a mais concludente ainda, da emergência da personalidade intelectual e moral de Oscar Wilde com todas as variedades do seu carácter: personalidade complexa, original, inimitável.

Depois do que acrescentei:

“Noto, finalmente, que Oscar Wilde prometeu, por fim, acrescentar às provas fornecidas até aqui uma nova demonstração: a de uma comédia póstuma com o auxílio de sua médium.”

Ele manteve a palavra dada. A comédia foi ditada à médium logo depois da publicação do seu livro: Psychic messages from Oscar Wilde. Hester Dowden (Travers-Smith) dá, a esse respeito, as seguintes informações:

“Eu nunca fui admiradora das obras de Oscar Wilde, nem a sua personalidade nunca me suscitou interesse. Creio concluir racionalmente então que a minha mão tem escrito algo que não provêm de mim. Oscar Wilde vivera numa época que não a minha e, a partir das suas obras literárias exala algo diferente dos dias de hoje. Eu não posso remontar ao passado, ao período de 1880, como ele fizera e, ele não se pode emancipar dos gostos literários e dos costumes do seu tempo, que eu não vou lembrar-me em tudo. Ora, é nesta condição mental que consiste o traço característico mais saliente de todas as suas mensagens mediúnicas e da sua comédia. Quando me ditava, pediu-me que o informasse sobre os gostos literários e costumes da nossa época e eu lhe expliquei as mudanças radicais que tinham ocorrido, mas ele não as levou em conta e veio a emancipar-se do ambiente em que vivia.

Pessoalmente, considero que a prova mais convincente que se pode imaginar em favor da sobrevivência da alma é a que se refere à personalidade intelectual e moral dos defuntos que se comunicam. As indicações relativas à existência terrestre, sobretudo se desconhecidas de todos os assistentes, são importantes e convincentes, mas quase sempre susceptíveis de serem explicadas pela hipótese das reminiscências latentes nas subconsciências dos assistentes (criptomnesia). Nenhuma intenção tenho de contestar a importância desses informes, que constituem a base sobre a qual repousam as pesquisas experimentais concernentes à questão da sobrevivência; sem elas não se poderia considerar como a identificação do defunto tenha sido provada. Entretanto, cada vez que as informações desse género constituem as únicas provas de que dispomos, não podemos considerar-nos autorizados a afirmar que a personalidade do defunto comunicante estava realmente presente ou que o espírito sobrevive à morte do corpo. É a mentalidade do morto que é preciso salientar nas manifestações mediúnicas; é a sua personalidade intelectual e moral, com todos os matizes do seu temperamento e a maneira de compor as frases que o caracterizavam. Eis o que devemos examinar experimentalmente, se queremos chegar a dissipar qualquer dúvida relativamente ao problema do além. Penso que, no domínio das pesquisas psíquicas, não se compreendeu ainda toda a importância decisiva que reveste a personalidade psíquica da entidade que se comunica e que deveria ser o elemento essencial nas provas de identificação espírita.

Quando as mensagens de Oscar Wilde se sucediam diariamente, eu lhe perguntava se não podia ditar-me alguma obra literária, a título de prova ulterior de sua presença. Dirigindo-lhe este pedido, não pensava absolutamente numa produção de teatro mas, antes, nos seus ensaios literários, onde, a meu ver, se encontra o que de melhor o seu talento produziu. Foi o próprio Oscar Wilde que me declarou que ia escrever uma comédia e que se sentia em condições de o fazer. Quanto a mim, fiquei antes céptica a esse respeito: tinha notado, com efeito, que, na mediunidade psicográfica, as sessões curtas são as únicas que dão bons resultados e considerava então como irrealizável o seu projecto de me ditar uma comédia inteira.

As primeiras tentativas pareceram, de facto, justificar o meu cepticismo: Oscar Wilde era um comunicante indeciso, difícil, autoritário, por vezes de um humor muito desagradável. Durante as primeiras cinco ou seis sessões, ele discutiu comigo a respeito das condições mediúnicas; informou-me que já tinha concebido o cenário de uma comédia inteira, que eu nada tinha a preocupar-me; que se sentia em condições de dispor as cenas, de escolher os nomes dos seus personagens, de desenvolver os diferentes caracteres utilizando eficazmente a técnica do drama. Fiz-lhe notar que as antigas modalidades tradicionais dos cenários tinham sofrido, nos nossos dias, grandes mudanças, como, por exemplo, os “à parte” tinham sido abolidos. Ele respondia, da mesma maneira, a todas as minhas observações, isto é, advertindo-me que eu não era autora dramática e que como ele já tinha na sua cabeça todo o entrecho do drama, não poderia desistir...

Com efeito, desde o começo, era manifesto que Oscar Wilde tinha organizado, no seu espírito, todo o enredo da comédia, ainda que não chegasse a desenvolver o seu diálogo do modo que desejava. Devo reconhecer, sinceramente, que a falta era minha, pois estava nessa época sobrecarregada de trabalhos urgentes que me absorviam a actividade.

Durante os meses de junho e julho de 1923, o primeiro ditado do drama foi executado; ele tão-só constituía, entretanto, uma espécie de rascunho que veio a ser posto em causa mais tarde pelo próprio. Não quero com isso dizer que ele tenha depois refeito a ordem das cenas, pois esta ficou tal qual era, mas os caracteres dos personagens foram, ao contrário, sensivelmente reformados.

Depois, no mês de agosto, pude consagrar, regularmente, três ou quatro sessões por semana a Oscar Wilde: isso se dava habitualmente das 11 às 13 horas.

O sistema de trabalho que Wilde tinha adoptado consistia num retorno contínuo para trás. Quando ele tinha ditado um acto de sua comédia, a minha auxiliar, srta. Cummins, devia relê-lo em alta voz e, Oscar Wilde a interrompia a todo o instante, sugerindo correcções que sempre constituíam uma melhoria sensível sobre o que ditara anteriormente. A sua diligência era extraordinária, ela excedia muito a minha força de trabalho. Ele refazia, aperfeiçoava, intercalava um período com cuidados tão meticulosos que se tornava penoso continuar, tal o sentimento pesado de monotonia que, transformando-se em sonolência, me causava.

Tinha resolvido nunca reler o que tinha sido transmitido mediunicamente, a fim de evitar que a minha mente subconsciente pudesse exercer certa influência sobre o ditado em curso; pensava então que não havia nessa comédia nenhuma ideia coerente e me sentiria desencorajada se a srta. Cummins não estivesse aí para garantir-me, de tempos a tempos, que o tema se desenvolvia, diariamente, de maneira precisa e interessante.

A obra dramática foi intitulada pelo seu autor: Uma comédia extraordinária. Se ela devesse ser representada, duvido que os directores de teatro consentissem em conservar tal título, mas creio que Oscar Wilde não veria com bons olhos a modificação.

Oscar Wilde explicou que se propusera delinear na sua comédia a continuidade inalterada da existência humana – nos seus alvos e nas suas aspirações – assim também antes como depois da crise da morte e, que, por consequência, o último acto ia desenrolar-se no mundo espiritual. Quando ele exprimiu esta proposta, voltou-me o desânimo, sabendo eu bem que nada é tão árduo em literatura como inserir cenas do além numa comédia. Quando se quer aí introduzir este elemento, vai-se, inevitavelmente, ao encontro do insucesso. Tais eram as minhas preocupações quando Oscar Wilde anunciou que o último acto de sua comédia se devia desenrolar nas esferas espirituais...

Quando o drama foi terminado, li-o para uma das minhas amigas, que possui grande experiência de teatro. Logo que cheguei ao meio do segundo acto, ela me interrompeu, notando: “Tudo isso é tão mundano que o autor jamais chegará a passar a ponte que separa o visível do invisível. Eis uma tarefa impossível!”

Terminada, porém, a leitura, a minha amiga teve exclamações de surpresa e admiração pela genialidade com a qual o autor tinha sabido vencer o obstáculo. Nenhuma solução de continuidade no desenvolvimento do drama, embora os dois primeiros actos sejam de um género ligeiro, análogo à comédia do mesmo autor: A importância de ser sério.

O drama termina com uma nota consoladora: o amor pode, ou não, existir no além tal como o conhecemos aqui. Nas esferas espirituais, o amor-paixão não deixa de existir, o amor se manifesta na pesquisa da “alma gémea”, complemento de nós mesmos. Nós nos completamos: tal é a aspiração suprema de todo o espírito; quando o fim é atingido, os espíritos casados vêem nítida e luminosamente o caminho ascensional que lhes resta a percorrer, unidos um ao outro.” (Light, 1925, pág. 524).

Tal é a interessante e instrutiva descrição feita pela sra. Hester Dowden a respeito da maneira pela qual foi ditada a comédia de Oscar Wilde. Para completá-la, vou reproduzir uma alínea de um artigo que foi consagrado ao memorável acontecimento pelo Sr. David Gow, director da revista Light. Escreve ele:

“Notarei de passagem que assisti, pessoalmente, ao ditado mediúnico do drama de Oscar Wilde durante o qual o autor morto ocupou a médium e a sua secretária por várias semanas consecutivas, corrigindo, refazendo, suprimindo, dando tantas disposições e ordens que tornava muito penosa a existência das duas damas. Tudo se desenrolou como se o autor invisível, mas absolutamente real, se metesse febrilmente ao trabalho, desenvolvendo alternativamente um temperamento irritável, choramingador, brilhante cínico e, algumas vezes dócil e simpático. A comédia, que veio assim à luz, parece uma obra de arte extraordinária, mas é preciso notar a esse respeito que um director de teatro a quem ela foi oferecida para ser representada, depois de a ter lido, relido e pesado, declarou que ele renunciava a pô-la em cena, não porque não fosse obra de Oscar Wilde, mas porque era dele mesmo! Ele queria, com estas palavras, fazer alusão ao assunto e à técnica do desenvolvimento das comédias de Oscar Wilde, que julgava, para o futuro, fora de moda.” (Light, 1828, pág. 18).

Essa declaração de um director de teatro é verdadeiramente preciosa e muito significativa.

Resumindo o que se acaba de ler e concluindo, noto que, sob o ponto de vista teórico, todas as circunstâncias que acabo de transmitir tomam, cumulativamente, valor enorme em favor da interpretação espírita do caso de que nos ocupamos. Os que leram a comédia póstuma de Oscar Wilde são acordes em afirmar que ela constitui uma obra de arte magistralmente orientada e que é uma reprodução maravilhosa do estilo, da forma, da técnica teatral que caracterizavam, no seu conjunto, um só autor: Oscar Wilde, quando vivo. E se isso não bastar para identificar uma personalidade literária, é preciso ajuntar aí o incidente tão eloquente de um director de teatro ter declarado que a comédia em questão não poderia ser representada com sucesso pelo facto do seu assunto e seu desenvolvimento terem envelhecido meio século. Não se poderia imaginar confirmação mais eficaz em favor da identidade pessoal da entidade comunicante, pois que a reputação de Oscar Wilde atingira o seu apogeu há meio século e os dramas escritos por ele, quando vivo, apresentam todos os mesmos defeitos assinalados pelo director do teatro, ao mesmo tempo que todas as grandes qualidades literárias e as idiossincrasias psíquicas muito especiais de que acabamos de nos ocupar.

Agora, voltando ao que antes fiz notar, lembro que Oscar Wilde tinha, antecipadamente, dado todas as provas de identificação pessoal que se pode razoavelmente exigir de um morto que se comunique. Recordo haver feito notar que a única prova que ele poderia fornecer ainda seria a de demonstrar aos vivos que a sua intelectualidade, o seu temperamento de autor, a sua virtuosidade incomparável de cinzelador de frases e de artista apaixonado das palavras permaneceram intactas depois da morte do corpo. Ora, ele deu também esta prova última, que reveste valor probante superior a qualquer outro, embora não se possa passar pelos outros para atingir a demonstração experimental, sobre a base dos factos, da sobrevivência de uma individualidade pensante.

Noto, enfim, que o valor teórico desta última “prova literária” é a tal ponto eficaz que triunfa mesmo sobre uma objecção apoiada numa hipótese metafísica fundada em memórias de amplidão infinita. Faço alusão à velha hipótese, agora novamente em moda, formulada com um fim puramente especulativo, pelo professor William James, segundo a qual não se poderia teoricamente excluir a possibilidade da existência, no universo, de um “reservatório cósmico de memórias individuais”, do qual os médiuns extrairiam as indicações verídicas relativamente às personificações de defuntos desconhecidos de todos. Não é agora o momento de discutir essa hipótese, que tenho longamente analisado e refutado, mantendo-me no terreno dos factos, numa monografia especial; noto somente aqui que, mesmo concedendo-se à hipótese em questão a extensão incomensurável que lhe conferem os seus defensores, ela não chegaria mesmo a fornecer provas de identificação espírita análogas às que venho a relatar, pois que não se referem ao que se deveria encontrar num “reservatório cósmico de memórias individuais”. É claro, com efeito, que, no nosso caso, não se trata de lembranças de espécie alguma, mas de um trespassado que se manifesta ditando uma obra literária, isto é, executando uma acção que se desenrola no presente e, que não se poderia então encontrar em parte alguma, em estado de vibração latente.

Repito, então, que a circunstância de ter chegado a triunfar também da hipótese metafísica do “reservatório cósmico de memórias individuais” constitui uma circunstância teoricamente muito importante. De facto, ela equivale a afirmar que nenhuma hipótese não-espiritualista chegará jamais a explicar, no seu conjunto, o memorável caso de identificação espírita do qual o falecido escritor Oscar Wilde foi protagonista.

Inútil é acrescentar que isto serve para fazer ressaltar o valor teórico muito especial que podem revestir os casos em geral de comunicações psicográficas na base de “ensaios literários”, ditados por entidades espirituais que afirmam ser autores conhecidos, isto é, “ensaios literários” susceptíveis de serem submetidos aos processos de análise comparada.

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(i) Bozzano refere-se ao artigo Le retour d’Oscar Wilde, incluído na obra Cinco Excepcionais Casos de Identificação de Espíritos (Publicações Lachâtre), sob o título “Surpreendente Caso de Identificação Espírita”. (N.E.)


Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo – Capítulo VI, 7º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

domingo, 24 de setembro de 2023

a pedra e o joio ~


Quem não pode | o menos ~

Os investigadores científicos dos fenómenos espíritas operam no campo da matéria. Não são espíritas, mas cientistas interessados pela fenomenologia que dá base concreta à doutrina. Por isso já dissemos, há tempos, a respeito, que a ciência espírita, no que toca às manifestações materiais do espírito, vêm sendo construída pelos adversários do Espiritismo. É este um facto único na história do conhecimento e, uma das maiores glórias da doutrina espírita. Crookes, Richet, Geley, Crawford, ao iniciarem as suas pesquisas, não eram espíritas, como Price, Rhine e Bjorkhem, das Universidade de Oxford, de Duke (EE. UU.) e, de Upsala (Suécia), respectivamente, não são espíritas. Mas todos contribuem para a ciência espírita.

Não cabe a nós, espíritas, formular nenhuma teoria científica para investigação dos fenómenos supranormais ou para demonstração da realidade da sobrevivência. O Espiritismo, nos seus três aspectos, o científico, o filosófico e o religioso, possui métodos próprios de observação e investigação, e já provou há muito a realidade da sobrevivência. Os cientistas materialistas, ou pelo menos cépticos, é que devem tratar de provar, através de suas teorias e de seus métodos, que o Espiritismo se encontra em erro. Querer, pois, dotar o Espiritismo de “teorias que lhe facultem o avanço seguro na estrada da pesquisa metódica de laboratório”, como pretende o Sr. Guimarães Andrade, na sua Teoria Corpuscular do Espírito, é invadir atribuições alheias. E dizer que o Espiritismo não possui teorias orientadoras de pesquisas científicas é negar a própria doutrina e esquecer os seus efeitos no mundo científico.

Humberto Mariotti, o conhecido escritor espírita argentino, encerra o seu livro Dialéctica e Metapsíquica, réplica a um livro materialista de Emílio Troise, com esta advertência: “A filosofia espírita, sempre pronta a renovar-se, espera, pois, para o fazer, uma prova científica de seu opositor: o materialismo. Enquanto isso, continuará forjando o aço desse novo mundo espiritual, que vem lançando por entre os factos da psicologia supranormal, até que a prova mencionada seja produzida”. A teoria espírita, como a chamaram os cientistas, não é apenas teoria, mas toda uma doutrina, solidamente construída sobre um vasto e profundo alicerce de factos, comprovados por adeptos e adversários, crentes ou descrentes. Ela se impõe por si mesma, ou “pela força mesma das coisas”, como dizia Allan Kardec. Não espera as nossas elaborações teóricas para cumprir a sua missão.

Grande e belo exemplo é o que nos dá Charles Richet, na carta que dirigiu a Ernesto Bozzano, rendendo-se à evidência espírita. Construtor, ele mesmo, de uma teoria, exclama, diante dos argumentos espíritas de Bozzano: “Eles formam um estranho contraste com as nebulosas teorias que atravancam a nossa ciência”. Ao contrário disso, o Sr. Guimarães Andrade pretende que deixemos de lado, considerando-os obsoletos, os conceitos clássicos da doutrina, para construirmos mais uma teoria nebulosa e, com ela aumentarmos o atravancamento científico.

Nós, espíritas, temos por acaso alguma dúvida a respeito da sobrevivência do espírito e da sua possibilidade de acção sobre a matéria? Precisamos de novas teorias para investigar os fenómenos impropriamente chamados de supranormais? Não. Logo, não nos compete a formulação de teorias novas. Por outro lado, duvidamos da solidez das provas e do acervo gigantesco de factos da biblioteca espírita, sempre aberta ao possível interesse dos materialistas? Também não. Logo, a estes é que compete e, não a nós, quebrar a cabeça de encontro à rocha em que nos firmamos. O nosso papel, pelo contrário, é o de continuarmos firmes sobre a rocha, que tem resistido, até aqui, a todos os cabeçudos.

Pergunta o confrade Guimarães: “Será que já conhecemos tudo a respeito do fascinante problema do espírito, das suas relações com o mundo físico, das suas propriedades, da sua natureza real?” Podemos responder com outra pergunta: “Conhecem os materialistas tudo o que se relaciona com o fascinante problema da matéria, das suas relações com forças desconhecidas, das suas propriedades, da sua natureza real?” Estamos e, eles também o estão, absolutamente certos de que não. Então, como pretendermos colocar, na mesma mesa da ciência materialista, servindo-nos dos seus instrumentos rudimentares, ainda em elaboração, o problema espiritual? Se ela é impotente para dizer tudo a respeito da matéria, como querermos que o diga a respeito do espírito? O mais certo, o mais prudente, é admitirmos a explicação de Kardec: “O Espiritismo não é da alçada da ciência”. Sê-lo-á mais tarde. Mas, para tanto, a ciência precisa concluir a sua tarefa no terreno material, o que ainda está longe de fazer.

Poderão objectar-nos que as pesquisas dos sábios materialistas concorreram para a comprovação da doutrina. Mas não dizemos o contrário. O que dizemos é que isso compete a eles. Quando os sábios, operando no campo da matéria, comprovam os princípios da ciência espírita, contribuem para esta e, só temos que agradecer-lhes. Aquilo que chamamos, com Allan Kardec, a Ciência Espírita, não é mais do que o aspecto científico da doutrina. Neste aspecto, há uma zona fronteiriça, em que a ciência material pode comprovar os factos espíritas. A da fenomenologia mediúnica. Nesta zona é que o materialismo vem construindo, sem querer, a contragosto, a ciência espírita acessível à compreensão materialista.

O confrade Guimarães Andrade quer que ajudemos os sábios oferecendo-lhes uma teoria espírita que eles possam aceitar. A intenção é boa, mas conduz a desvios perigosos, como já vimos e ainda veremos, na análise de A Teoria Corpuscular do Espírito. Além disso, é conveniente lembrarmos o velho adágio: “Cada macaco no seu galho”. O Espiritismo, como diz Mariotti no mesmo livro acima citado, “é uma estrela de amor”. Essa estrela brilha sobre o atravancamento de hipóteses nebulosas da ciência materialista e, ainda, segundo o mesmo autor, “ilumina os caminhos de todos os peregrinos que vão em busca da verdade”. Não basta isso? Queremos também acompanhar os peregrinos, oferecendo-lhes cajados que eles não nos pedem e, até mesmo rejeitam com desprezo?

O livro do Sr. Guimarães Andrade é simplesmente um equívoco. E como tal, só pode fazer mal à doutrina e ao movimento espírita. Pedimos desculpa ao confrade, por esta rude franqueza. Mas, em questões doutrinárias, é preferível a dureza da verdade. Pensamos já haver demonstrado, até aqui, os vários enganos do autor. Mas prosseguiremos ainda, para que não digam amanhã, como disseram certa vez, a respeito de outra crítica, que passamos ao de leve sobre o assunto.

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José Herculano Pires (i) – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. Quem não pode o menos, fragmento 13º desta obra.
(imagem de contextualização: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

sábado, 17 de setembro de 2022

literatura do além-túmulo ~


Capítulo V 
(II de II) 

Fica então demonstrado que William Sharp escrevia, por um impulso estranho à sua vontade, as obras de Fiona Macleod, o que deixa supor que ele era médium inspirado. 

Isso, aliás, ressalta, em toda a parte, de modo certo, de várias passagens das memórias publicadas pela sua viúva. Assim, por exemplo, na página 424, ela escreve: 

“Encontrei-me, muitas vezes, ao lado dela, quando caía em transe; então todo o ambiente palpitava, tudo entrava em intensa vibração. Deploro não ter logo tomado nota dessas experiências, que eram frequentes e constituíam um traço característico de nossa vida íntima.” 

E William Sharp, escrevendo à sua esposa, na data de 20 de fevereiro de 1895, assim se exprimia: 

“Que coisa bizarra e electrizante é o facto de existirem em mim duas pessoas, ainda que íntimas! E, entretanto, elas são tão diferentes! Sinto às vezes como se Fiona estivesse adormecida no quarto ao lado e eu me surpreendesse na atitude de escutar para lhe perceber os passos ou ver abrir a porta e Fiona aparecer. Quando, porém, ela se comunica comigo, é a falar, interiormente, em voz baixa. Espero agora, com ansiedade, saber como desenvolverá ela o assunto do novo romance The Mountain Lovers. Como é estranha esta impressão de me sentir aqui sozinho com ela.” (pág. 244). 

A certeza de ter uma companheira invisível, na vida, estava de tal modo arraigada nele que ela o levava a coisas curiosas. Assim, por ocasião da data do seu aniversário, ele escreveu a si próprio uma carta de felicitações provinda de Fiona; em seguida escreveu outra de agradecimentos a ela mesma e colocou ambas no correio. Encontraram-se na sua biblioteca vários volumes com a dedicatória: “A William Sharp, a sua colaboradora e amiga Fiona Macleod.” 

Ao que parece, essas dedicatórias eram autênticas, sob certo ponto de vista, pois que provinham de uma personalidade mediúnica que as firmava e eram transcritas automaticamente pelo médium. 

Um amigo de juventude de William Sharp narra na Light (1910, pág. 598) um episódio que confirma ulteriormente a sua mediunidade. Escreve ele: 

“Há vários anos (por volta de 1878), conheci William Sharp e tornei-me seu amigo. Ele não era ainda casado e morava num pequeno apartamento, perto do nosso. Certo dia, aconteceu-me fazer-lhe referências, em conversa, ao neo-espiritualismo e ele declarou que nunca assistira a experiências dessa natureza e que as veria com prazer, se uma oportunidade se lhe apresentasse. Convidei-o então para tomar parte no nosso círculo familiar. Alguém perguntou: “Quem são os guias espirituais do sr. Sharp?” A mesa respondeu, lentamente, um nome da família escocesa “Macleod” (não me lembro bem do nome próprio que deu). Isto me levou a perguntar ao sr. Sharp: “Os seus antepassados eram escoceses?” 

Alguns anos mais tarde, convidei-o para ir a minha casa, por ter necessidade de um conselho seu, a respeito do título de um livro de versos que desejava publicar e, confiei-lhe que havia escrito vários poemas do volume por “inspiração”. Ele exortou-me, vivamente, a ocultar isso se não quisesse comprometer-me perante os críticos... Noutra ocasião e a propósito dos poemas de Fiona, ele me exprimiu a mesma preocupação: “Fiona morre se descobrem o segredo da sua existência.” 

Parece-me que tudo isto basta para esclarecer o mistério. Sharp era médium inspirado, mas temia que o descobrissem. As admiráveis colecções de versos que publicou constituíam impressões de uma inteligência espiritual que era verdadeiramente o seu espírito guia: “o seu nome devia ser realmente aquele que tinha sido transmitido, pela primeira vez, no nosso círculo familiar: Macleod – o que se verificou vários anos antes que Fiona Macleod se manifestasse a Sharp.” 

Sem dúvida, se nos propuséssemos examinar os factos sob um ponto de vista estritamente psicológico, poderíamos pensar num caso de personalidades alternantes. Há, porém, muitas diferenças entre os casos patológicos das personalidades múltiplas provenientes do fenómeno de desintegração psíquica e o caso que estudamos aqui. No Journal of the Society for Psychical Research (vol. XIX, pág. 57), assinalaram-se algumas dessas diferenças radicais: 

“As duas personalidades de William Sharp – escreve o crítico – eram coordenadas entre si, sob certo ponto de vista: não se notava nenhuma superioridade nítida e precisa de uma sobre a outra, tanto moral como intelectualmente; as alternativas, com as quais se manifestavam, não pareciam associadas a elementos patológicos. Eram ambas acentuadas por um temperamento muito sensitivo e em alta tensão, mas nenhuma das duas mostrou nunca lacunas no seu equilíbrio mental e no controle de si mesmas. Ambas produziram obras literárias de uma beleza especial, embora Fiona ultrapassasse muito a outra em originalidade, em poder descritivo e em imaginação. Além disso, o traço característico das personalidades alternantes: o das notáveis variações de humor entre elas – variações que determinam mudanças mais ou menos grandes no carácter e conduzem a uma alternativa real das personalidades – é considerado pelos psicólogos como sendo dependente do facto de que há ou não lacunas mnemónicas entre os diferentes estados mentais... Ora, não havia lacuna mental entre William Sharp e Fiona Macleod e a conclusão de que deve tratar-se de duas personalidades diferentes parece fundar-se na impressão precisa e insofismável de que assim era, experimentada pelas próprias personalidades, impressão que não parecia, todavia, excluir a outra, segundo a qual havia entre elas uma unidade misteriosa, oculta sob as diferenças.” 

Assim como fiz notar anteriormente, esta última impressão de Sharp sobre a existência de uma unidade fundamental, apesar da diferença existente entre a personalidade de Fiona e a sua própria, era causada por especiais reminiscências segundo as quais lhe parecia ter vivido uma outra existência sob a forma de uma mulher. 

A esse respeito, declaro francamente que essas espécies de impressões experimentadas por William Sharp não se prestam, de modo algum, a esclarecer o mistério, longe disso! Com efeito, se a hipótese psicológica das personalidades alternantes parece facilmente eliminável, estando em contradição evidente com o conjunto dos factos, as outras duas hipóteses, que devem ser tomadas em consideração, reconhecendo-se-lhes igualdade de direitos (pois que as impressões experimentadas pelo protagonista não contam para a pesquisa das coisas), não parecem facilmente conciliáveis entre si. Se apenas se trata de uma entidade espiritual, que tivesse transmitido telepaticamente as suas criações literárias ao médium, o caso em questão poderia ser explicado muito facilmente; a hipótese reencarnacionista, porém, contribui para obscurecê-la. Com efeito, nestas condições, seria necessário admitir que uma fracção da personalidade integral do médium – fracção representando uma de suas próprias individualizações encarnadas, que existiu em época recuada – tenha podido emergir e se manifestar à sua individualização actualmente encarnada, nas condições de intelectualidade que a caracterizaram. 

Compreende-se que esta suposição é muito fantástica, literalmente gratuita e teoricamente inconcebível. A melhor solução do mistério consistiria então em retornar à hipótese de uma Fiona Macleod, espírito-guia de William Sharp e, aí parar. Nesse caso, se poderia resolver legítima e racionalmente o problema das reminiscências, fazendo notar que as impressões do médium, que se sentia às vezes invadido por sentimentos femininos com reminiscências de uma vida passada sob a forma de uma mulher, deveriam ser atribuídas à circunstância da realização de interferências fugitivas entre a consciência normal do médium e a memória pessoal do espírito-guia que lhe controlava então o órgão cerebral e lhe influenciava telepaticamente o pensamento. 

Faço notar que, nas experiências de psicometria, encontra-se muitas vezes a circunstância de terem os sensitivos a impressão de ser identificados na personalidade de um vivo ou de um morto, com o qual entram em relação, ao ponto de experimentarem as idiossincrasias de temperamento deles, com o despertar de reminiscências a respeito das suas modalidades de existência, impressões do meio no qual viveram, como se estivessem momentaneamente unificados com eles, embora conservando a própria consciência. 

Na minha monografia Os Enigmas da Psicometria, citei exemplos nos quais essa identificação do sensitivo nos acontecimentos da existência de outras pessoas se realiza, mesmo quando se trata de colocação em relação com animais. 

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Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo – Capítulo V (II de II), 6º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

pensamento e vontade ~


Ideoplastia ~
 
(II) 

Por sua vez, a srta. Felicia Scatcherd assim se refere à atitude do ectoplasma, no decurso de uma das suas numerosas sessões: 

“Almoçamos com Marta (Eva C...) e, quando terminamos o almoço, ela manifestou o desejo de me proporcionar uma sessão. Resistia-lhe ao propósito, com receio de a fatigar, mas, foi por sua insistência, que a Sra. Bisson acabou intervindo e opinando que seria melhor não lhe contrariar os desejos. Iniciado o trabalho, a médium caiu logo em profundo transe, cabeça pendida para trás, de modo que nada lhe seria possível perceber na sua frente, ainda que acordada estivesse. Abertas ficaram as cortinas do gabinete mediúnico, cuja luz baixamos um pouco. Ainda estávamos a conversar, quando, de repente, vimos aparecer no chão abundante massa de substância, a cerca de 18 polegadas de distante e à esquerda da cadeira da médium. 

Essa substância era de alvura extraordinária e ligeiramente luminosa. 

Para comigo, pensei: “Como se pode produzir semelhante coisa? Quem sabe se essa substância está ligada à médium?” 

E o controle da médium logo respondeu à minha pergunta mental, dizendo: “Não há ligações quaisquer; pode passar a mão entre a substância e o corpo da médium.” 

Assim fiz, sem inconvenientes. 

Depois, coloquei um lenço branco, perfeitamente limpo, ao lado da substância, a fim de lhe avaliar a alvura e verifiquei que o lenço me parecia antes cinzento, comparado com a substância misteriosa. 

Coloquei-me, depois, de modo a poder tocar a substância sem ser vista, mas, quando estava a ponto de o fazer, todo o corpo da médium se contorceu em convulsivo espasmo e, o controle exclamou: 

– “Não me toque, não me toque, porque me mataria!” 

Arrependida da tentativa inconsiderada, humildemente procurei desculpar-me. 

Todavia, mais tarde, espontaneamente me autorizaram esse toque e, assim constatei que essa substância oferece certa resistência ao tacto, comparável à clara de ovo. 

E quanto à sua temperatura, pareceu-me um pouco inferior à do ambiente em que nos encontrávamos. 

Seria interessante pesar essa substância, disse eu à Sra. Bisson, mas compreendo, ao mesmo tempo, que se nos torna impossível fazê-lo, uma vez que o seu manuseio pode prejudicar a médium. 

Sorriu-se a Sra. Bisson e, dirigindo-se à filha, pediu-lhe que fosse à cozinha buscar uma balança. 

Entretanto, a mágica substância alongou-se, tomou a forma de um réptil, donde, concluo houvesse compreendido o que dela pretendíamos. 

Chegada a balança, foi-me dado experimentar uma das mais fortes emoções da minha vida. 

É que a substância, qual serpente que se levantasse sobre a cauda, viera colocar-se num dos pratos da balança, que estava sobre um pedestal, à altura de 28 centímetros do chão. 

E ali permaneceu todo o tempo necessário à verificação do seu peso, por mim julgado levíssimo, em relação ao volume. 

Serpeando depois para trás, deixou o prato e baixou ao soalho, para retomar o primitivo aspecto informe. 

Depois, enquanto a observava, sumiu-se. Não se retraiu, não se dissolveu; simplesmente – desapareceu.” (Light, 1921, págs. 809-810). 

Seria inútil perdermo-nos em conjecturas sobre a natureza dessa substância viva, sensível, inteligente, capaz de aparecer e desaparecer num relâmpago, pois isso equivaleria a pretendermos explicar o mistério da vida, que é segredo de Deus. 

Contentemo-nos em registar o que ressalta da nossa mentalidade finita, à qual não é lícito ultrapassar as leis reguladoras dos fenómenos. 

Limitar-me-ei, portanto, a anotar que, neste caso, tudo contribui para demonstrar que a substância viva, exteriorizada, obedece à vontade do subconsciente do médium. 

Daí, importa inferir que, da mesma forma pela qual, graças à vontade do médium, essa substância consegue moldar-se à forma de réptil para alçar-se a balanças e deixar-se pesar, assim também, noutras circunstâncias, ela consegue moldar semblantes humanos, conhecidos do médium, como a demonstrar que o pensamento e a vontade subconscientes são, precisamente, forças plásticas e organizadoras. 

Mas isto não é tudo, porquanto, ensinando-nos outras experiências que, muitas vezes, os semblantes materializados são desconhecidos do médium, embora o sejam dos assistentes, conclui-se que a substância viva é capaz de obedecer à vontade subconsciente de terceiras pessoas presentes, ou de lhes sofrer a influência, através do médium. 

Finalmente, como noutras circunstâncias ocorrem, nas quais as formas materializadas, vivas e falantes, são pessoas já falecidas e desconhecidas do médium e dos assistentes, devemos deduzir que a substância viva exteriorizada é susceptível de obedecer a entidades espirituais de desencarnados, ou – o que vem a dar no mesmo – de sofrer-lhes as influências através do médium. 

Posto isto, convém nunca perder de vista as conclusões expostas, mediante as quais constatamos que, se é verdade que a substância viva, exteriorizada, obedece a uma força organizadora inerente ao pensamento e vontade humana, também é verdade que tais – pensamento e vontade – não pertencem exclusivamente à personalidade integral subconsciente do médium, mas provêm, algumas vezes, dos experimentadores e, muitas outras vezes, de entidades espirituais, de criaturas falecidas. 

Desta terceira categoria de manifestações não me ocuparei, visto que o tema aqui versado se prende aos casos em que a vontade organizadora é a do médium e dos assistentes, ou seja, dos vivos. 

Resta-me, apenas, passar em revista alguns casos mais importantes desse género. 

Começo por assinalar um fenómeno curioso, contra a realização do qual importa saibam prevenir-se os experimentadores. 

Esse fenómeno decorre da ductilidade com a qual a mentalidade subconsciente do médium de materializações absorve as ideias nitidamente definidas, formuladas verbal e mesmo mentalmente pelos experimentadores e pelos circunstantes. 

Assim se constata que, se o experimentador imagina uma teoria a priori, mais ou menos mecânica e mediante a qual se opera um dado fenómeno físico, vê-la-á confirmada a posteriori. 

Terá ele, então, a ilusão de haver sido instruído da verdade, quando realmente mais não fez que sugestionar o médium, predispondo-o a reproduzir, com a substância ectoplásmica, o modelo concreto da sua própria teoria. 

Assim, por exemplo, o Dr. Crawford, professor de mecânica psíquica, tendo imaginado a priori que as levitações da mesa se davam graças a uma “alavanca fluídica” que, saindo do organismo do médium, descia até ao chão para distender-se depois em braço vertical que tocasse o fundo da mesa e a levantasse, teve a surpresa de verificar que as provas fotográficas dessas levitações lhe davam absoluta razão, isto é: a tal “alavanca fluídica” existia, de facto, constituída pela forma imaginada. 

Mas, essa verificação de um facto não significava de modo nenhum que as levitações de mesa, em geral, se operassem dessa maneira, pois na verdade era a vontade subconsciente do médium que, tendo agasalhado a sugestão verbal de Crawford, lhe proporcionara docilmente a “alavanca” por ele pressuposta. 

Esta explicação do fenómeno em apreço já ninguém mais recusa, nem dela duvida. 

Dá-se, em suma, com as materializações, a mesma coisa que já se dera com o hipnotismo, a respeito do qual os primeiros investigadores científicos, inclusive o eminente Charcot, tinham nitidamente formulado, baseando-se em factos, as leis da sugestão e as fases específicas do sono letárgico e cataléptico dos pacientes; leis e fases que, na realidade, mais não eram que a consequência sugestiva das ideias teóricas preconcebidas pelos diferentes hipnotizadores. 

É o que observamos actualmente a propósito do polimorfismo da substância ectoplásmica exteriorizada, que pode por sugestão ou auto-sugestão revestir todas as formas imagináveis. 

Daí resulta que os experimentadores devem manter-se em condições mentais absolutamente neutras, no que toca às modalidades das representações materializadas, deixando aos processos científicos da análise comparada e da convergência das provas a tarefa difícil de esclarecer o grande mistério. 

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Ernesto Bozzano, Pensamento e Vontade – Ideoplastia (2 de 3), 10º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgard Maxence)