O quê! Era verdade? Outro universo descia na nossa
direcção! Milhões e milhões de sóis agrupados planavam, – um
novo arquipélago celeste – e, todos se iam desenvolvendo
qual vasta nuvem de estrelas na proporção a que subíamos. Tentei
sondar com a vista, em torno de mim, todas as profundezas, o Espaço infinito, e
por toda a parte, avistei clarões análogos, montões de estrelas disseminados a
todas as distâncias.
O novo universo em que acabávamos de penetrar, era
principalmente composto de sóis vermelhos, das cores rubi e granada. Muitos,
tinham absolutamente a cor do sangue.
A sua travessia foi uma verdadeira fulguração.
Corríamos, rapidamente, de sol em sol, mas incessantes comoções eléctricas nos
atingiam à semelhança dos clarões de uma aurora boreal. Que
estranhos estádios, esses mundos iluminados unicamente de sóis rubros! Depois,
mais adiante, nesse universo, notamos um grupo secundário, composto de grande
número de estrelas cor-de-rosa e outras azuis. De súbito, precipitou-se na
nossa direcção e nos envolveu, um enorme cometa, cuja extremidade dianteira se
assemelhava a uma garganta colossal. Aconcheguei-me, assustado, ao lado da
deusa, que por um momento desapareceu da minha vista em luminosa névoa.
Para nos tornamos a encontrar, em escuro deserto, pois que este segundo
universo se afastara, tal qual o primeiro.
– A Criação, – disse-me ela – se
compõe de um número infinito de universos distintos, separados uns dos outros
por abismos de nada.
– Um número infinito?
– Objecção matemática – replicou –.
Sem dúvida, um número, por muito grande que seja, não pode ser presentemente
infinito, pois que, pelo pensamento, podemos aumentá-lo sempre de uma unidade,
ou mesmo duplicá-lo, triplicá-lo, centuplicá-lo. Lembra-te, porém, de
que o momento actual não é mais do que uma porta por onde o futuro se precipita
para o passado. A eternidade não tem fim, e o número dos universos será, ele
também, sem fim. Além disso, as estrelas, os sóis e os universos
não formam um número. Eles são, para melhor dizer, sem número. Olha!
Vês ainda, sempre e por toda a parte, novos arquipélagos de ilhas celestes,
novos universos.
– Parece-me, ó Urânia, que há muito tempo já, e com
grande velocidade, estamos subindo no céu sem limites!
– Poderíamos sempre subir assim, respondeu ela, sem
jamais atingir um limite definitivo. Poderíamos vogar para a esquerda,
para a direita, para a frente, para trás, para baixo, para não importa qual
direcção, e jamais, em parte nenhuma, depararíamos com uma
fronteira... Nunca, nunca um fim. Sabes onde estamos? Sabes que
caminho temos já percorrido? Estamos... no vestíbulo do Infinito, tal qual o
estávamos na Terra. Não avançamos um único passo!
Grande comoção se apoderara do meu Espírito. As últimas
palavras de Urânia tinham-me penetrado até à medula, qual calafrio
glacial. Nunca um fim, nunca, nunca! repetia eu. E não podia
dizer, nem pensar outra coisa. Entretanto, a magnificência do espectáculo
reapareceu aos meus olhos e o aniquilamento deu lugar ao entusiasmo.
– A Astronomia! – exclamei –.
É tudo! Saber estas coisas; viver no infinito. Urânia! Que são o resto
das ideias humanas perante a Ciência! Sombras, fantasmas!
– Oh! – disse ela – tu
vais despertar na Terra, tu admirarás ainda, e legitimamente, a ciência de teus
mestres; mas, fica sabendo: a Astronomia actual das suas escolas e dos
observatórios, a Astronomia matemática, a bela ciência dos Newton, dos Laplace,
dos Le Verrier, não é ainda a ciência definitiva.
“Não está lá, meu filho, o fim que busco desde os dias de
Hiparco e de Ptolomeu. Vê esses milhões de sóis análogos àquele que dá vida à
Terra e, tal qual ele, fontes de movimento, de actividade e de esplendor;
pois bem, é esse o objecto da ciência futura: o estudo da vida universal e
eterna. Até hoje, não se há penetrado no templo. Os algarismos não são um fim,
mas um meio; não representam o edifício da Natureza, mas os métodos, os
andaimes. Vais assistir à aurora de um novo dia. A Astronomia matemática vai
ceder o lugar à Astronomia física, ao verdadeiro estudo da Natureza.
“Sim – acrescentou – os astrónomos, que
calculam os movimentos aparentes dos astros na sua passagem de cada dia pelo
meridiano; os que anunciam a chegada dos eclipses, dos fenómenos celestes, dos
cometas periódicos; os que observam com tanta atenção as posições exactas das
estrelas, dos planetas de vários graus da esfera celeste; os que descobrem os
cometas, os planetas das estrelas variáveis; os que buscam e determinam as
perturbações produzidas nos movimentos da Terra, pela atracção da Lua e dos
planetas; os que consagram as suas vigílias à descoberta dos elementos
fundamentais do sistema do mundo; todos, observadores ou calculistas, são os preparadores de materiais, precursores
da nova Astronomia. São imensos trabalhos, labores dignos de admiração,
transcendentes obras que põem em evidência as mais elevadas faculdades do
espírito humano. Mas é o exército do passado. Matemáticos e
geómetras. Doravante o coração dos sábios vai pulsar por uma conquista mais
nobre ainda. Todos esses grandes Espíritos, estudando o céu, não têm,
na realidade, saído da Terra. O fim da Astronomia não é mostrar a
situação aparente de pontos brilhantes, nem pesar pedras em movimentos no
Espaço, nem nos fazer conhecer com antecedência os eclipses, as fases da Lua ou
as marés. Tudo isso é belo, mas insuficiente.
“Se a vida não existisse na Terra, este planeta seria
absolutamente destituído de interesse para qualquer espírito que fosse, e
a mesma reflexão se pode aplicar a todos os mundos, que gravitam em torno de
milhares de sóis, nas profundezas da imensidade. A vida é o fim da Criação
inteira. Se não houvesse vida, nem pensamento, tudo isto seria como que nulo e
não acontecido. A Criação é um poema, do qual cada letra é um sol. Estás
destinado a assistir a uma completa transformação da Ciência. A Matéria vai
ceder lugar ao Espírito.”
– A vida universal! – disse eu –. Os
planetas do nosso sistema solar serão todos habitados?... São habitados os
milhares de mundos que povoam o infinito?... Essas Humanidades assemelham-se à
nossa?... Conhecê-las-emos algum dia?...
– A época em que vives na Terra, a própria duração
da Humanidade terrestre não é mais do que um momento na eternidade.
Não compreendi essa resposta às minhas perguntas.
– Nenhuma razão há – acrescentou
Urânia – para que todos os mundos sejam habitados agora. A
época presente não tem mais importância do que as precedentes ou as que se hão
de seguir.
“A duração da existência da Terra será muito mais
longa – talvez dez vezes mais longa – do que a do seu período
vital humano. Em uma dezena de mundos, tomados ao acaso na imensidade,
poderíamos, por exemplo, conforme os casos, achar apenas um actualmente
habitado por uma raça inteligente. Uns o foram outrora; outros sê-lo-ão no
futuro; estes se acham em via de preparação, aqueles têm percorrido todas as
suas fases; aqui, berços; além, túmulos; e depois, uma variedade infinita se
revela nas manifestações das forças da Natureza, não sendo a vida terrestre de
modo algum o tipo da vida extraterrestre. Seres podem viver em
organizações inteiramente diversas das conhecidas no vosso planeta. Os
habitantes dos outros não têm a vossa forma, nem os vossos sentidos. São
outros.
“Dia virá, e muito proximamente, pois que estás chamado a
vê-lo, em que o estudo das condições da vida nas diversas províncias do
Universo será o objecto essencial – e o grande encanto – da
Astronomia. Bem depressa, em vez de se ocuparem simplesmente com a
distância, com o movimento e com a massa material dos vossos planetas vizinhos,
os astrónomos descobrir-lhe-ão a constituição física, os aspectos geográficos,
a climatologia, a meteorologia; penetrarão o mistério da sua organização
vital e discutirão a respeito dos respectivos habitantes. Afirmarão que Marte e
Vénus se acham actualmente povoados de seres pensantes; que Júpiter está ainda
no seu período primário de preparação orgânica; que Saturno plana em condições
inteiramente diferentes das que presidiram ao estabelecimento da vida terrena
e, sem jamais passar por estado análogo ao da Terra, será habitado por seres
incompatíveis com os organismos terrestres. Novos métodos farão conhecer a
constituição física e química dos astros, a natureza das atmosferas.
Instrumentos aperfeiçoados permitirão mesmo descobrir os testemunhos directos
da existência dessas Humanidades planetárias e pensar em estabelecer
comunicação com elas. Eis a transformação científica que há de assinalar o fim
do décimo-nono século e que há de inaugurar o vigésimo.”
Eu, escutava – enlevado – as palavras da musa celeste, que
iluminavam para mim, com luz inteiramente nova, os destinos da Astronomia e me
inundavam de ardor mais vivo ainda. Tinha debaixo dos olhos o panorama
dos mundos inumeráveis que rolam no Espaço, e compreendi que o fim da Ciência
devia ser, tornar conhecidos esses longínquos universos, fazer-nos viver nesses
horizontes imensos. A formosa deusa continuou:
– A missão da Astronomia será mais elevada ainda.
Depois de vos haver feito sentir e dado a conhecer que a Terra não é mais do
que uma cidade na pátria celeste e que o homem é cidadão do céu, irá mais
longe. Descobrindo o plano sobre o qual o universo físico está construído,
mostrará que o universo moral se acha alicerçado sobre esse mesmo plano; que os
dois mundos não formam senão um mesmo mundo e que o Espírito governa a Matéria.
O que ela houver feito quanto ao Espaço, realizará quanto ao Tempo.
“Depois de haveres apreciado a imensidade do Espaço, e reconhecido que as
mesmas leis reinam simultaneamente em todos os lugares e fazem do imensurável
Universo uma exclusiva unidade, sabereis que os séculos do passado e do futuro
estão associados ao tempo presente, e que as mónadas pensantes viverão
eternamente, por transformações sucessivas e progressivas; aprendereis que
há Espíritos incomparavelmente superiores aos maiores Espíritos da Humanidade
terrestre, e que tudo progride para a perfeição suprema; ficareis sabendo
também que o mundo material não é mais do que uma aparência e que o ser real
consiste em uma força imponderável, invisível e intangível.
“A Astronomia será, pois, eminentemente e antes de tudo,
a directriz da Filosofia. Os que raciocinarem fora dos conhecimentos
astronómicos ficarão à margem da Verdade. Os que, fiéis, seguirem o seu farol,
irão subindo gradualmente na solução dos grandes problemas.
“A filosofia astronómica será a religião dos espíritos
superiores.
“Deves assistir – acrescentou ela – a
essa dupla transformação da Ciência. Quando deixares o mundo terrestre, a
ciência astronómica, que tão legitimamente já admiras, estará de todo renovada,
tanto na forma quanto na essência.
“Isso, porém, não é tudo. A renovação de uma ciência
antiga pouco serviria ao progresso geral da Humanidade, se esses sublimes
conhecimentos, que desenvolvem o Espírito, iluminam a Alma e a libertam das
mediocridades sociais, ficassem encerrados no acanhado círculo dos astrónomos
de profissão. Esse tempo vai passar também. O alqueire deve ser
entornado. Cumpre empunhar o facho, aumentar-lhe o fulgor, levá-lo às
praças públicas, às ruas populosas, até às mais escusas vielas. Todo o
mundo é chamado a receber a luz; estão todos sequiosos dela, principalmente os
humildes, principalmente os deserdados da fortuna, pois esses pensam mais,
estão ávidos de ciência, enquanto que os satisfeitos do século nem suspeitam da
sua própria ignorância e têm quase orgulho em permanecer assim. Sim, a luz
da Astronomia deve ser espalhada pelo mundo; deve penetrar até às massas
populares, iluminar as consciências, elevar os corações. E será essa a sua mais
bela missão; será esse o seu benefício.”
/...
(Urânia – a Musa da Astronomia: obra que é um
misto de romance e ciência. Nela Flammarion aborda o encontro onírico entre um
jovem e Urânia, fazendo considerações de espiritualismo. São narrados vários
contactos espirituais que foram comprovados experimentalmente. Através da
alternância entre a realidade científica e a ficção, fala da vida noutros
planetas, da extensão e constituição do Universo, da realidade do Espírito e do
Plano Espirituais. Este livro é um ensaio que reúne factos, investigações e
reflexões trazendo, assim, informação preciosa à compreensão do grande problema
do homem: conhecer o Universo e a sua origem.
Camille Flammarion, Urânia – Primeira Parte
(L'observatoire de C. Flammarion), A Musa do
Céu – IV O infinito e a eternidade – O tempo, o
espaço e a vida – Os horizontes celestes, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Musa Urânia (anónimo
clássico) 130-140 d. C., encontrada por volta de 1500, em Tivoli, no “Teatro da
Academia” ou Odeion da Villa do Imperador Adriano, réplica
romana, Museu Nacional do Prado)
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