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domingo, 8 de outubro de 2023

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar os longínquos dias das idades


Victor Hugo e o Sentido da História ~

Victor Hugo acreditava e sabia que a história temporal, não obstante a sua objectividade material, está destinada a voltar ao seio da história divina. Ou seja, que o efeito histórico deverá reintegrar-se no seio do divino para pôr termo a um ''tempo defeituoso'', onde o Ser se debate atacado por duas contradições existenciais.

O poeta francês compreendeu que a verdadeira poesia é uma emanação do mundo interno da natureza e que a sua essência se traduz por uma voz que sobe dos abismos da alma. Descobriu na história uma sucessão de factos cuja finalidade têm a sua raiz nos séculos palingenésicos do Ser. Viu assim que a história das existências se refunde na história dos seres espirituais, em cujo seio está a realidade divina do mundo dos espíritos.

Para Victor Hugo, o apocalipse terreno desembocava num apocalipse espiritual, dois processos que só se explicam pela lei da reencarnação. A história morre, mas renasce com os espíritos; a sua objectividade está determinada pelo encarnar e desencarnar dos seres espirituais, ou seja, pela alma dos homens, antes espíritos, que encarnam e desencarnam. Kant tembém pressentiu este mesmo fenómeno ao reconhecer a realidade de um mundo invisível com a possibilidade de se comunicar com o mundo dos homens.

A reencarnação dos espíritos é a verdadeira base da história humana, a que se mostra como processo visível na causa da história espiritual e divina que a rege. Victor Hugo acreditou nesta dualidade histórica, numa "história humana" fundada na história divina e transcendental".

A reencarnação dos espíritos é uma penetração da história divina temporal e humana. O processo de encarnação e desencarnação a que estão submetidos os espíritos é a base real de todo o mistério histórico. E a poesia de Hugo foi como uma revelação através da qual a beleza contribuiu com o desenvolvimento da história em relação com a história espiritual e divina.

A inspiração do grande poeta francês captou nas suas bases mediúnicas que não haverá história natural e humana sem história espiritual e divina. O seu génio se transfigurou de tal modo que pôde compreender que todo o humano é um processo determinado pela reencarnação dos espíritos, ou seja, que a História e Reencarnação são dois fenómenos movidos pelo mundo invisível.

Espiritismo como manifestação objectiva do Espírito de Verdade é a noção mais positiva para deixar demonstrado que o mundo dos espíritos é a base real do mundo dos homens. Opera-se assim uma transfiguração da morte pela força religiosa da mediunidade. De contrário, o que seria a história sem a potência escatológica da mediunidade? Resultaria um fenómeno sem sentido e um processo caótico destinado à morte e ao nada.

Portanto, se a poesia de Victor Hugo foi profética é porque foi religiosa, apocalíptica porque mediúnica. Ela se uniu ao Espírito de Verdade para proclamar que Deus existe e que tudo avança progressivamente com o fim de se instalar na Cidade dos Espíritos Puros. Os críticos esqueceram que se Hugo foi genial é porque dentro de seu ser imortal estava a luz do mundo invisível e que se a sua poesia determinou um romantismo filosófico e religioso original é porque os tripés da ilha de Jersey lhe abriram as janelas do infinito. Porque o génio de Victor Hugo sem o fenómeno mediúnico resultaria num enigma, do mesmo modo que uma nova visão histórica sem a lei da reencarnação do ser se tornaria um caos entremeado de horror e beleza.

Victor Hugo acreditava na sua espiritualidade pessoal. Achou no seu próprio ser as bases de todo um esquema metafísico e religioso do universo. Sentia-se uma força ultra-material por cujo motivo a sua carne se transfigurava. Era um vidente que via continuamente o para além das coisas, o que o fez não se deter nos caminhos puramente materiais da vida. A existência para o poeta foi uma senda que conduz ao conhecimento dos grandes enigmas da natureza.

O seu génio nunca repeliu o cristianismo; pelo contrário, viu na doutrina de Jesus a mais alta e acabada expressão das revelações divinas. Por isso, a sua criação poética e literária difere da dos seus colegas, que consideravam o homem somente um fenómeno fisiológico. O seu lema era: "Existir para a Verdade", mas este existir não se apoiava na vida efémera material. Ele pressentiu um existir infinito relacionado com o mistério do universo. A vida para o poeta era uma espiritualidade invencível e triunfante.

Acreditava no eterno porque via na natureza e na história um princípio imortal, o que o fez ter fé nessa verdade inalterável procedente de Deus. Acreditou nos "espíritos" da terra e do ar, da água e do vento, como os iniciados medievais. Desde a sua infância, cultivou uma filosofia espiritualista, que confirmou experimentalmente ao conhecer a mensagem que lhe ditaram os tripés na ilha de Jersey.

Auguste Vacquerie, no seu livro As migalhas da história, disse afirmativamente que Victor Hugo era espírita, como o foram Théophile GautierVictorien SardouGiuseppe MazziniCamille Flammarion e outros pensadores dos finais do século XIX. Acreditou realmente na imortalidade da alma e na sua evolução palingenésicaÉmile de Girardin e Eugène Nus deram também testemunho de suas convicções espíritas, como foi confirmado na edição de 7 de maio de 1899 do "Les Annales Politique et Litteraire''.

/…


Humberto Mariotti (i)Victor Hugo Espírita, Victor Hugo e o Sentido da História, 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Oliver Lodge, por que creio na imortalidade da alma ~


Capítulo II 

As sete proposições 

Tomemos as proposições do fim do capítulo anterior e procedamos à sua apreciação. 

(1) 

Primeira proposiçãoO espírito pode agir independentemente dos órgãos corporais. Fiquei certo disso desde 1883 em razão dos casos de telepatia experimental que Sir William Barrett já assinalara num relatório dirigido à British Association em 1876. 

A telepatia experimental, como já se sabe, é a transmissão de uma ideia, imagem ou sensação de um espírito encarnado a outro na mesma condição, sem necessidade dos órgãos materiais. Ela requer a participação de duas pessoas: o agente transmissor e o receptor. O receptor, ou o que recebe a transmissão, é posto ao abrigo de todas as sensações, ao passo que o transmissor pensa em algo, fixa um objecto ou, de uma forma qualquer, procura fixar no seu espírito o que deseja transmitir mentalmente. Já se verificou que, em certas condições bem definidas, algumas pessoas possuíam faculdade receptora, de modo que, após breve intervalo de silêncio, estavam aptas a perceber a ideia e mesmo a fazer um desenho, sem auxílio da visão, da audição ou do tacto. 

Esse facto, cuidadosamente estabelecido por numerosos observadores, serviu para explicar grande número de casos, outrora incompreensíveis, que pareciam causados pela utilização espontânea da faculdade telepática, consciente ou não, sob a influência de forte emoção. Assim, aplicando-se essa concepção – a mais aproximada da vera causa – esperava-se eliminar a superstição e explicar, de forma racional, numerosas lendas contemporâneas, onde se dizia que tal ou qual pessoa recebera de outra pessoa afastada impressão de doença, de perigo ou de morte. 

Sabemos que tais factos ocorreram muitas vezes sob a forma de visão ou aparição de fantasma e supomos que, em semelhantes casos, a impressão mental era de tal forma poderosa que provocava no espírito do percipiente uma alucinação de carácter visual ou auditivo, mentalmente e não fisicamente. Palavras eram ouvidas e uma visão percebida por vias anormais, como uma espécie de reconstrução mental. Nos casos melhores e mais importantes, a impressão era a que chamamos “verídica”, isto é, que corresponde realmente a acontecimentos que se produziram algures, de sorte que se podia provar a sua autenticidade. 

Tal foi a conclusão de um livro, em dois volumes, cuidadosamente escrito e editado em 1886 sob o título de Phantasms of the Living (Fantasmas dos Vivos), cujos autores foram Myers e Gurney, com a colaboração de Podmore. Grande número de acontecimentos misteriosos, devidamente atestados, ocorrendo, constantemente, em todas as partes do mundo, se explicam, assim, de modo racional, sobre a fase do facto observado da comunicação psíquica, facto esse descoberto por meio da telepatia experimental. A aparição ou o fantasma, visto pelo percipiente sensitivo e que, até aqui, tinha naturalmente sido considerado como efeito de uma presença real e misteriosa, podia ser assim atribuído a uma impressão viva produzida, telepaticamente e sem o seu conhecimento, por uma pessoa afastada, em angústia, perigo e mesmo prestes a falecer. 

Numerosos casos análogos foram reunidos pelos seguidores daqueles e examinados a fundo por investigadores sérios e hábeis num livro intitulado Census of Hallucinations (Censo de Alucinações). Foi uma tarefa trabalhosa, executada antes e durante o ano de 1894, tratando abertamente dos fantasmas dos vivos, bem como dos mortos. Depois da eliminação de todos os casos duvidosos, apresentados os pontos fracos e as explicações segundo as hipóteses normais, a conclusão dos investigadores foi resumida, nos Proceedings of the Society for Psychical Research, vol. X, pág. 394, da seguinte maneira: 

“Existe, entre os casos de morte e as aparições de moribundos, uma relação que não é consequência só do acaso. Consideramo-la como um facto certo. A discussão de tudo que ela implica não pode ser feita só nesta obra e, provavelmente, não será mesmo esgotada na nossa época.” 

Esse relatório, longo e extremamente consciencioso, estava assinado pelo professor Henry Sidgwick e a Sra. e trazia também outras assinaturas. Não pretendo impor dogmaticamente a ideia de que a hipótese de telepatia do agente transmissor ao receptor seja realmente a explicação completa dessas experiências. Creio que existem outras explicações suplementares assim como outras causas. Em todos os casos, porém, a hipótese telepática, entre as duas pessoas em relação, é a mais plausível e a mais racional. 

Interessante recordar que o grande filósofo Kant se ocupou, em certa época, dos estudos psíquicos e examinou mesmo dois ou três casos notáveis, referentes a Swedenborg. O falecido professor William Wallace fez notar, no seu ensaio sobre Kant, que é possível considerar as aparições sob um ponto de vista subjectivo e termina com uma citação de Kant, que estava certamente a par da explicação telepática sugerida muito mais tarde por Myers e Gurney em sua obra Phantasms of the Living

Eles se apoiam particularmente no facto de que tais visões, qualquer que seja a sua origem, são autênticas, podendo acontecer mesmo que tenham mais importância do que a que lhes queria Kant conferir. 

Eis a citação de Kant, feita por William Wallace: 

“A possibilidade da comunicação entre um espírito puro e um espírito revestido do seu invólucro carnal depende do estabelecimento de uma ligação entre ideias abstractas e espirituais e imagens da mesma espécie, revelando concepções sensoriais que são análogas e simbólicas. Tais associações se encontram em pessoas que têm uma constituição especial. Em dados momentos esses videntes são assaltados por aparições que não são (como supõem) entidades espirituais, mas apenas ilusão da imaginação, que submetem as suas próprias imagens a influências reais e espirituais imperceptíveis à grosseira alma humana. Assim, a alma dos mortos e os espíritos puros, ainda que não possam nunca produzir certa impressão aos nossos sentidos exteriores ou entrar em contacto com a matéria, são, todavia, susceptíveis de actuar sobre a alma humana, que pertence, como eles, à grande comunidade espiritual. Destarte, as ideias que imprimem na alma se vestem, segundo a lei da fantasia, nas imagens ligadas e criam, fora do vidente, a aparição de objectos correspondentes.” 

Dos milagres, o maior é este – que tu és tu 
Com poder sobre os teus próprios actos e o mundo 
Deste mundo real dentro do mundo que vemos 
Do qual o nosso é apenas uma zona limítrofe. 

                                            (De um poema de Tennyson

/… 


Oliver LodgePor que creio na imortalidade da Alma, Capítulo II As sete proposições, proposição primeira (1), 4º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Luz e Cor (Teoria de Goethe) - A manhã após o Dilúvio - Moisés escreve o livro Génese, pintura de Joseph Mallord William Turner)