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segunda-feira, 3 de abril de 2023

~~~ Párias em Redenção ~~~


FÚRIA ASSASSINA 
(III) 

Passados os primeiros dias, em que mergulhara fundo no fosso da libertinagem, com a alma em labéus hediondos, Girólamo acreditou chegado o momento de promover uma entrevista com a comparsa. 

Para tanto, solicitou o auxílio de um jovem servente da casa e pediu-lhe que, em seu nome, procurasse a jovem, convidando-a, em segredo, a vir à villa Angélico, com a maior brevidade. Acrescentou ao recado que ela explicasse, em casa, o impositivo que a reteria fora do lar por toda a tarde, sem entrar em maiores esclarecimentos. Como prova da autenticidade da mensagem, solicitou ao jovem que apresentasse a Assunta o anel que trazia no dedo mínimo e, que seria facilmente identificado. 

Girólamo sabia do local em que se refugiava a Dulcineia e não teve dificuldade em fazer-se compreendido pelo moço, acostumado a serviços dessa natureza. 

Assunta, quando soube que o amante se encontrava em Florença, prorrompeu em ruidosa alegria. Agradeceu ao mensageiro e o despediu festivamente, prometendo comparecer ao encontro na tarde do dia imediato, no local aprazado. Modificou-se, então, inteiramente, justificando em casa a necessidade de encontrar pessoa amiga que, recém-chegada de Siena, trazia notícias agradáveis e lhe impunha a necessidade do encontro. Foi com desregrada ansiedade que aguardou o momento de se dirigir à villa, o que fez sem maiores dificuldades. À entrada, Girólamo a aguardava. Saudou-a, aparentando discrição e, convidou-a a adentrar-se no bosque margeante ao rio, onde poderiam conversar sem testemunhas incómodas. 

A jovem, que se ressentia da ausência do mancebo dissoluto, atirou-se-lhe nos braços, logo pôde fazê-lo e, narrou-lhe os receios, as preocupações, o sonho atemorizante. O amásio fitava-a quase com desprezo. Temendo, porém, ser descoberto nos pensamentos íntimos que acalentava, aparentou, cortês, certo interesse, falando com natural cinismo: 

– Examinemos a nossa situação. Segundo sei, em Siena tudo transcorre conforme planeado. Durante este período de repouso que experimento aqui, pessoas da minha absoluta confiança organizam os meus direitos e os legalizam. Pouco tempo nos separa da ventura. É indispensável, todavia, prosseguir sem despertar suspeitas. Todos os factos ainda estão muito recentes na memória geral. Tão logo eu receba correios do palácio, o que será muito breve, retornaremos e, transcorrido algum tempo, anunciarei o nosso noivado, a nossa boda. De momento, ninguém, a qualquer pretexto, poderá saber dos nossos planos, pois poderia pô-los a perder. 

– Eu pressinto, amado – falou com receio –, que uma nova tragédia se abaterá sobre nós. Tenho a impressão de que a Senhora duquesa me segue, fitando-me com os olhos imensos e tristes… Conseguiste esquecê-la Girólamo? 

– Não me fales dos mortos, – retrucou o moço com enfado. – Os que para lá foram não voltam a perturbar os que aqui ficaram. O que está feito não se poderá refazer. Prefiro o céu na terra à terra do céu… 

E estrugiu ruidosa gargalhada, na qual extravasava as emoções, zombeteiro e cruel. Pela primeira vez, Assunta compreendeu que está diante de um homem totalmente destituído de sentimentos. Dominada por justificável receio, enfrentou-o, azeda: 

– Vê como te portas comigo. Estás amarrado a mim, não esqueças. Não te perdoaria jamais qualquer traição. Irei contigo à força, mas não te livrarás de mim tão facilmente, como fizeste a Lúcia e aos desditos rebentos do duque

– Cala-te, infeliz! Desejas que algum passado te escute? Ignoras como o vento conduz notícias dessa natureza? Não me afastarei de ti, pois que jamais te separarás de mim. Eu te amo e te desejo a meu lado… 

Rapidamente, queimado pelo fogo dos desejos em desalinho, envolveu a moça sufocou-a na paixão desregrada. 

Deambulante entre a violência dos instintos e os albores da razão, Assunta, fascinada pelo idílio criminoso, que se assentava em sangue e lágrimas, deixou-se arrastar cada dia a mais fundo engodo, terminando por entregar-se a Girólamo totalmente, de corpo e alma. Sonhadora e tresloucada trocou os sonhos da pureza pelo abastardamento dos sentidos, em devassidão sempre crescente e insaciável. É verdade que o enceguecimento da razão produz o vaguear nas sombras e o vilipêndio dos sentimentos tresmalha as manifestações da dignidade e do pudor. Cada vez mais embriagada de luxúria, repetia os encontros clandestinos com o moço irresponsável, permitindo-se consumir numa sofreguidão sem medidas. E como a febre dos sentidos somente se extingue com o apagar das próprias fontes do desejo, o amolentamento do carácter progredia na razão directa do devaneio sensual. O refocilar, em casa, que poderia abrir as comportas da mente a nobre inspiração superior, antes servia de pretexto para novas aventuras… O amante escolhera, precavido, local discreto para os sucessivos encontros, de modo a evitar ser identificado ao lado da irresponsável mulher. 

Girólamo, experimentado explorador da sentimentalidade mórbida, apesar da aparente vinculação com a doidivanas, apenas esperava, impaciente, o justo momento para libertar-se do seu jugo, que era penoso, encerrando esse desagradável capítulo da vida. Qual ave de rapina, enrodilhava a vítima na sua armadilha, sonhando com os alcantis mais elevados da ventura e do prazer, esperando o ensejo para despedaçá-la e romper os últimos laços que o retinham prisioneiro aos perigosos cipós com que manipulava e retinha a presa. 

Assim, logo chegaram as primeiras flores da Primavera e os dias se fizeram mais claros e róseos, com o canto das águas do Arno bordando as margens de mais sons e festa, o malfadado descendente dos Cherubini programou com a moça apaixonada uma excursão ao bosque das colinas de San Miniato, onde o dia lhes poderia proporcionar sonhos de prazeres fugidos, que tentariam alongar, quanto pudessem. 

Concertado o convescote para o domingo porvindouro, que lhe facultaria bastante tempo para organizar o hediondo delito, com cuidados especiais, inclusive visitando o local onde deveria consumar a tragédia, a moça, alucinada pela força dos desejos descabidos, esquecida de que somente o equilíbrio dispensa ordem de paz, aceitou o encontro para o dia programado, prometendo estar à frente do Palazzo Vecchio, onde se encontrariam, às primeiras horas, antes do despertar da cidade. 

Conseguido o cabriolé, mediante aluguer na estalagem para onde se transladara, Girólamo rumou em busca da enamorada e, encontrando-a, seguiu pressuroso por caminhos marginais, fora da cidade, vencendo o vale do Arno e dirigindo-se às verdes colinas, sob a pressão de crescente impaciência. Dissimulando com dificuldade os desencontrados sentimentos, tivera antes o cuidado de convencer a jovem de que se despedisse dos familiares, alegando chamado urgente para resolver a Siena e, a ela prometendo uma viagem de recreação, no dia imediato. Cauteloso, a fim de evitar possíveis e remotas suspeitas, Girólamo, despediu-se anteriormente dos amigos, em festa ruidosa, na villa, explicando quanto à necessidade de retornar, embora ainda se demorasse pelo caminho, em visitas a pessoas gradas ao seu coração, prometendo aos amigos uma retumbante recepção no Palácio di Bicci, quando das suas núpcias, em futuro não distante. Astuto e venal, mudou-se cautelosamente para uma hospedaria, à entrada da cidade, onde poderia passar como viajante ignorado, até a consumação do novo crime ardilosamente premeditado. 

Conduzindo matalotagem especial, vinho capitoso e frutos, o casal adentrou-se pelas vias húmidas e perfumadas do bosque em flor. Chilreavam os pássaros ao amanhecer e a Natureza, desabrochando claridade, parecia um convite ao júbilo puro e à emotividade superior, como se as vozes onomatopaicas da vida modulassem nobre pastoral. 

Mais relaxado, agora, quando o bosque era um festival de bênçãos naturais, o moço quase se deixou penetrar pelo bucolismo da paisagem, que tinha por moldura, mais abaixo, as águas do rio cantarolante entre seixos e pedras das bordas. 

Escolhido um lugar discreto, numa clareira natural entre árvores, os jovens saltaram no acume do outeiro, onde a visão era esplendente e, se entregaram ao primeiro repasto, entremeado de libações... 

Motivando a recordação dos dramas que os jungiam um ao outro em canga pesada, Girólamo perguntou à moça em deslumbramento: 

– Deixaste transparecer em casa ou a alguém os nossos objectivos futuros? Fizeste quanto te recomendei? Não ignoras que tudo organizo para o nosso próprio bem. 

– Tranquiliza-te, querido, – informou a companheira inexperiente. – Não seria eu a tonta que poria a perder a cornucópia da fortuna, que agora se volta recheada na minha direcção. Sempre ambicionei a glória e o fastígio. Como tu, eu também caminhava no chão, com gana de galgar a montanha. Se não fosse contigo… Mas, apareceste no meu caminho e não te pude resistir. Puxaste-me para a escalada e aqui estou. Se subo ou desço, ainda não sei… 

– E se, por acaso – aventou o moço, como se falasse imponderadamente –, um mau fado, em circunstância vil, te exigisse denunciar-me, fá-lo-ias? 

– Sabes que não. Eu te pertenço e nunca me permitia trair-te. Excepto… 

– Excepto?! Em que condições me arrojarias ao cárcere e à morte? 

– Se me abandonasses, – falou, com dura franqueza e esfogueada. – Uma mulher ferida nos seus sentimentos é pior do que um animal acossado. Nunca o intentes, porque não te cederei. A minha segurança é o nosso segredo e eu jurei – maledetta vita! – que não terias perdão se um dia te encorajasses a subestimar-me, a trair-me… 

A jovem pusera-se de pé. Todo o seu sangue ferveu, ante a possibilidade da traição do amado. Erguida, contrastava com o sol filtrado pelas árvores e, emocionada, o seu rosto jovem adquirira forte beleza carnal. 

Com o espírito túmido de ódio e trémulo, aguardando o ensejo de desferir certeiro golpe, Girólamo fitou-a e considerando-lhe a beleza, que sempre o fascinava. Mas os apetites, naquele momento, deveriam ceder lugar às ambições desmedidas para o futuro. Como se fora possuído por uma fúria assassina, ergueu-se de um salto e atacou violentamente a moça, que venceu nos braços de aço, dominando-a facilmente. A princípio, Assunta não compreendeu o que ocorria: num relance, porém, em que os seus olhos se cravaram nos do apaixonado, percebeu o que se passava, mas já era tarde. A expressão de horror que se lhe desenhou no rosto congestionado e o grito lancinante que proferiu de nada valeram. Tomando de um punhal que trazia sob a jaqueta de veludo carmesim, desferiu repetidos golpes, desvairado, automaticamente, até certificar-se da extinção da vida naquele corpo terrivelmente mutilado. Sangrando abundantemente, a jovem foi largada no solo, a estremecer, nos últimos reflexos e estertores… 

Com a cabeça a estourar, o moço olhou em derredor, como se sentisse terrível presença a espioná-lo e, nos sentidos aguçados, teve a impressão de que alguém se afastava em disparada sobre folhas e gravetos. Corça ou homem? Que importava! Agora era tarde demais! 

O crime não poderia deixar vestígios. A astúcia do criminoso é a sua arma e a sua perdição. 

Girólamo afastou-se, lépido, do local e, improvisou, numa vala distante, uma sepultura, onde atirou os despojos sangrentos da companheira, cobrindo-os com folhagens e ramos. Logo após, procurou apagar as manchas sanguinolentas na clareira, deixando transparecer que os sinais no solo fossem de feras em luta, que se rebolcassem feridas, pelo chão revolto. Desceu ao rio, para a necessária limpeza das mãos e da indumentária e, tornou a cidade, usando o veículo que deixara antes de galgar o morro. No dia imediato, muito cedo, retornou a Siena, em condução da carreira, anónima, discretamente. 

Girólamo, como todo o criminoso, acreditou que o novo delito passara despercebido e que a mão da Justiça jamais o alcançaria. Reflexionando convencia-se de que Assunta, afinal, não representava nada na vida. Agora, era novo dia que necessitava viver, esquecendo o passado, começando experiências novas… 

/… 


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 4. FÚRIA ASSASSINA (3 de 3), 13º fragmento desta obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO. 
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quinta-feira, 17 de junho de 2021

~~~ Párias em Redenção ~~~


FÚRIA ASSASSINA ~ 

Florença nada perdera do esplendor antigo, quando República próspera e invejada. Os seus palácios misturavam-se aos museus, as bibliotecas e os conventos disputavam a glória da maior posse de objectos de arte: pinturas, afrescos, porcelanas, instrumentos de música, esculturas. As ruas pareciam patentear os dias gloriosos do passado, quando os génios do Renascimento se refugiavam nas suas tascas para o prazer fugidio do vinho capitoso, em noites festivas, ou nos palácios, onde o luxo ostentava o poder, afogando nas paixões da lubricidade e das aventuras de todos os matizes a ardência dos desejos infrenes. 

A cidade verdejante exibia as suas igrejas sobranceiras, de torres e pórticos que a celebrizaram, onde se guardam as obras geniais de Donatello, com o seu realismo medieval, Botticelli e suas madonas, Miguel ÂngeloMasaccioFra AngélicoGhirlandaioRosselliCellinida Vinci… 

O fastígio passado ainda hoje ressurge, demora-se e teima por continuar, conquanto a desgraça de que fora vítima no século XV, pela cobardia moral de Pedro de Médici e os sofrimentos experimentados com Savonarola… Logo depois deles, porém, voltou ao esplendor, até à morte de João Gastão, o último dos Médici… 

Permanece continuadora fiel dos seus antepassados, na pintura, na escultura, na arquitectura, na literatura, como se o Renascimento não houvesse passado de todo. Não surgiam agora, é certo, novos vates nem artistas, mas o orgulho nacional, inigualável, cultivava, como no passado, os gozos que a faziam invejada, pelas noites orgíacas em que o mundanismo invadia palácios e templos, tabernas e solares, onde o crime do suborno e do homicídio recebiam altos salários, e em que se eliminavam as pessoas caídas em desagrado, sob o olhar complacente da justiça, regida pelos poderosos, com a maior facilidade. As sombras da Idade Média, de certo modo, perduravam na Capital da Toscana, na exuberância verde das colinas de San Miniato de Fiesole, e o Arno, no seu passar contínuo, lambendo os alicerces da cidade que se exaltava, impotente, junto às suas águas, prossegue, sendo testemunha silenciosa e túmulo discreto para cadáveres em quantidade, que lhe são arrojados na calada das noites e dormem no seu seio líquido, prateado. 

Girólamo, amigo das dissipações e já conhecedor da vida desregrada das noites de Florença, necessitava fugir do olhar sempre desconfiado e perquiridor dos conhecidos, que não deixavam de pensar, examinando a possibilidade de Lúcia assassinar as crianças para se transformar na possuidora dos haveres do duque, que Girólamo, pelas mesmas razões, se enquadrava na acusação que imputava à vítima do seu punhal certeiro e criminoso. A evasão, pois, tinha vários objectivos de alta importância: fugir à constante suspeição e embriagar-se de prazer antecipado, encontrando, também, meios de se libertar de Assunta. É certo que lhe não fizessem propícios os fados, para livra-se em definitivo de qualquer perigo. Era jovem e ambicionava o poder, no qual mergulharia com indescritível avidez. Para tanto, não tergiversara nem temera embrenhar-se no matagal dos nefandos delitos, e não cessaria de praticá-los senão quando estivesse asserenada a fúria interior que o conduzia. 

Visitado por pensamentos descontrolados e atormentado pela tensão de poder dar largas ao ânimo íntimo, longe dos olhares percucientes e indagadores; obrigado ali, por motivos óbvios, a manter luto e tristeza, em homenagem aos familiares e protectores falecidos, impondo-se um sacrifício crescente; objecto permanente, em Siena, da admiração de uns e da inveja de outros, não suportaria continuar, pelo que resolveu evadir-se, através da viagem que saberia justificar. 

Tendo entregue ao Senhor Bispo, seu novo protector, e ao testamenteiro, seu áulico ambicioso, a regularização dos documentos e a temporária guarda dos bens do Palácio di Bicci, o aventureiro tomou a diligência que fazia o percurso normal entre as duas cidades e, justificando a necessidade do afastamento, rumou na direcção da metrópole, Florença. 

Amainava a quadra hibernal e as chuvas eram, agora, escassas. A cidade se recuperava do rigor das tempestades e da humidade. As velhas e tortuosas ruas recobravam o movimento diminuído pela imposição da estação chuvosa e a alegria voltava a explodir estuante nas praças e lugares públicos. Só o frio permanecia rigoroso. 

De imediato, o jovem senense formou alegre roda em torno de sua pessoa, hóspede que se fizera de Donato Angélico, que na villa reunia a juventude irresponsável e gozadora da cidade. Homem abastado, aquele Donato Angélico era comerciante de tecidos e importador de destaque, tendo-se transformado em figura obrigatória de todas as rodas da frivolidade dourada, contribuindo com a bolsa larga para noitadas alegres, em que se misturavam o vício e o luxo em duelo de corrupção violenta. 

villa, ajardinada e discretamente resguardada por árvores de nobre porte e ciprestes altaneiros, parecia repousar dolentemente à margem direita do rio, que a contornava em parte, aumentando a sumptuosidade da sua arquitectura, que procedia do século XVI, adornada de peças de alto valor, disputadas pelos museus em prosperidade crescente. 

A sociedade burguesa, que fora responsável pela glória da cidade, e de cujo seio saíram os melhores administradores e protectores do seu progresso, continuava o ciclo de domínio. As rédeas do poder haviam passado, depois dos Médici, a uma outra casta dominadora, conquanto sob a suserania da Casa de Áustria, mas a cidade nas mãos dos banqueiros e industriais do lanifício e das sedas, já que os remanescentes da nobreza e o povo em geral se encontravam dominados pela força do comércio, sempre lucrativo e generoso. 

Desse modo, Dom Donato e os seus pares se permitiam exorbitâncias somente concedidas a pequenos monarcas, alimentando o tédio e a ociosidade dos seus convidados em longos dias de repouso e demoradas noites de desperdício. Era exactamente o local próprio, em cujo clima de viciação Girólamo anestesiava o torpe espírito. A ambição desmedida fazia-o sonhar com a forma eficaz de utilizar os haveres, que desde já lhe soavam aos ouvidos. A tragédia em que terminara os dias a família di Bicci di M. não repercutia em Florença e, embora a cidade fervilhasse de comentários infelizes, a corte da irresponsabilidade na Capital não se inteirara dos detalhes horripilantes do infortúnio que se consumara nos arredores de Siena, uma das suas cidades rivais e, por isso, detestada pelos florentinos. 

Apesar de acontecimentos funestos dessa natureza não sensibilizaram demasiado a sociedade contemporânea a que nos referimos, não passariam sem a mordacidade dos maus e dos folgazões, através de comentários ácidos; e as intrigas forjadas junto aos ouvidos das autoridades, não obstante inexpressivas, sem valor diante das classes poderosas, que as impunham e retiravam como peças de um jogo de xadrez desinteressante, poderiam criar dificuldades para Girólamo. 

Os conceitos de ordem, justiça, verdade e amor eram cavilosamente considerados no mundo profano e, mesmo entre os seguidores do Crucificado, na vida religiosa, a consciência se deixava intoxicar pelo miasma do dinheiro, fechando os olhos aos deslizes morais, dos quais se podia ser absolvido com alguns “sacrifícios”, convertidos em moeda sonante, tais como: o arrependimento, orações, jaculatórias, punições aos transgressores da Lei Divina, como se a prece, o arrependimento dos erros e a renovação interior devessem ser tidos na condição punitiva e não piedosa, de cuja atitude a alma se retira lenida pela paz e refeita nas energias gastas, quando das jornadas pelos corredores sombrios do pecado! 

Os remanescentes da família di Bicci di M., logo retornaram a Florença, tentaram um cometimento junto às autoridades relapsas, cujo poder, todavia, não atingia Siena, especialmente após informadas da conivência do Bispo daquela cidade, em atitude protectoral ao miserando herdeiro. Incomodar um “príncipe” da Igreja naqueles dias ainda era considerado uma temeridade… Desaconselhados de abrirem uma contenda inútil, desde que o testamento era válido e Girólamo fora adoptado legalmente pelo duque, tornado o seu herdeiro natural, portanto, perante a lei e pela vontade do extinto, o assunto morreu, asfixiado em licores e esquecido quase de imediato. 

Os primeiros dias transcorriam, pois, na villa Angélico, em alacridade festiva e ociosidade remunerada. 

/… 


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 4. FÚRIA ASSASSINA 1 de 3, 11º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)