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domingo, 26 de fevereiro de 2023

pensamento espírita argentino ~


CAPÍTULO I 

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história 

Que somos?  
(XI) 

Aksakof, sábio russo, demonstrou na sua valiosa obra Animismo e Espiritismo, refutando Hartmann, que o animismo prova o Espiritismo, sem o qual este não poderia ser explicado; e isto é muito natural, porquanto, para admitir a persistência do espírito depois da morte, havia que deixar assente antes, que o espírito pode actuar, em casos supranormais, sem o auxílio do organismo somático, ter percepções sem órgãos sensoriais, realizar fenómenos de telecinesia, ideoplastia, telepatia, etc., sem o qual haveria uma impossibilidade lógica para admitir o fenómeno propriamente espírita. 

Frank Podmore, inimigo ferrenho que foi do Espiritismo, estabeleceu também a distinção entre fenómenos anímicos e espíritas e reconheceu que as faculdades supranormais do espírito encarnado “demonstram a existência de outro mundo mais elevado, no qual deverão actuar livremente”. 

Gabriel Delanne, nas suas obras Evolução Anímica e O Espiritismo perante a Ciência, amplia a demonstração de Aksakof e demonstra, baseado em observações e experiências científicas, (i) a existência do corpo astral, que serve de intermediário ao espírito para actuar sobre a matéria e construir, sobre o seu modelo, o organismo humano. 

O eminente psiquista, professor Ernesto Bozzano, demonstra, baseando-se nos factos que o Espiritismo científico regista, na sua refutação a René Sudre (ii) e ao professor Richet, que Metapsíquica, como ciência puramente anímica, é insuficiente para explicar todos os fenómenos e manifestações espíritas e o peso de sua lógica é tão esmagador como a evidência dos factos que cita. 

Por sua parte, Camille Flammarion, que dedicou quase toda a sua vida ao estudo do fenomenismo espírita, estabelece na sua magistral obra A Morte e seu Mistério, dentro de uma ordem lógica e rigorosamente científica, a conjugação e continuidade de todos esses fenómenos, que começam no mais rudimentar animismo e se elevam até às manifestações espíritas mais comprobatórias e concludentes. 

Não obstante o peso dos factos, da demonstração que estes implicam e dos argumentos que se aduzem em favor da tese espiritista, os metapsiquistas refractários ao Espiritismo seguem gravitando entre a dúvida e a negação, entre o “poder ser” e o “não ser” e em vez de sujeitar os seus juízos aos factos, sacrificam os factos aos seus conceitos, forçando-os a entrar ora no estreito marco das explicações anímicas, ora no círculo abstracto das hipóteses antiespíritas, filhas da fantasia materialista, como, por exemplo, a da criptomnésia ou memória ancestral, para explicar alguns fenómenos de xenoglossia que não se encaixam no reduzido marco da explicação estritamente anímica; hipóteses que supõem um médium poliglota falando os idiomas dos seus antepassados longínquos, adquiridos por herança fisiológica, ou dando à criptopsiquia (conjunto de faculdades ocultas do psiquismo) projecções fantásticas que fariam de um médium um ser omnisciente, o qual, segundo esta hipótese, poderia captar a consciência ou a memória que, depois da morte de um ser, andaria, momentaneamente, como a fumaça desprendida da chama, flutuando no éter do espaço, como se a consciência e a memória pudessem conceber-se sem o eu espiritual, consciente e por si só capaz de recordação. 

Sem dúvida, deve-se aos metapsiquistas o novo impulso que tomou o Espiritismo e que muitos homens de ciência se tenham interessado pelo seu estudo, em particular o professor Richet, que com o seu Tratado de Metapsíquica rompeu o hermetismo da Academia de Ciências de Paris e fez da Metapsíquica uma ciência oficial, considerada hoje como um ramo das ciências naturais, assim como o grande psicólogo Frederic Myers, com a sua obra A Personalidade Humana e o doutor Gustave Geley com Do Inconsciente ao Consciente, levaram a teoria espiritista às aulas universitárias. 

A Metapsíquica, como temos dito, é uma disciplina científica tão antiga como o Espiritismo, posto que não é mais do que este na sua fase experimental; nela há três correntes: uma que podemos chamar de vanguarda, por ser a mais revolucionária na ordem científica e a única perfeitamente definida, como é a corrente espírita, em cuja frente figuram os experimentadores mais eminentes, como WallaceCrookesVarleyde Morgan, Zollner, Podmore, Aksakof, HodgsonBarrettLodgeFlammarionLombroso, Brofferio, Geley, Bozzano, etc; a outra é a corrente centrista, formada pelos sábios indecisos, que vacilam entre a dúvida e a crença, que não se atrevem a negar em absoluto a teoria espírita, nem se arriscam a afirmá-la, temerosos de se equivocarem e que, como o ilustre Charles Richet, longe de negá-la, nela não crêem suficientemente provada e dizem com ele que “é necessário dotá-la de uma base sólida, constituída por factos indiscutíveis”, o que seria muito lógico, se esta base sólida não estivesse, como está, perfeitamente constituída; a retaguarda constitui a corrente conservadora, os não alinhados da ciência, que alimentam as ilusões do paralelismo psicofisiológico e sentem nostalgia do materialismo... 

Aí está, para responder às dúvidas e objecções dos metapsiquistas não-espíritas, a incomparável Katie King, frente a frente com o seu médium, este mostrando-se simultaneamente com ela, perfeitamente visível, tangível e fotografável, vivendo, accionando, pensando, discorrendo, conversando com ela, animando-a e revelando, ambas, duas personalidades física e psicologicamente distintas, duas individualidades biológicas inconfundíveis; aí está Estela de Livermore, manifestando-se durante cinco anos, em 388 sessões, materializando-se e desmaterializando-se à vista de seu esposo e do doutor Juan F. Grau (como o fizera Katie King à vista de William Crookes), beijando aquele, dando-lhe provas de afecto e carinho, falando intimamente com ele, escrevendo com a própria caligrafia que tinha em vida, nas folhas de papel que este lhe dava e perante a sua vista; aí estão estas e outras mil manifestações de espíritos materializados desafiando a absurda hipótese da “prosopopéia-metagnomia” que pretende, arbitrariamente, sejam um produto fantasmal da ideia “plasticizante” do médium; aí estão os fenómenos de correspondência cruzada, que descartam toda a explicação não-sofística, fundada em hipóteses anímicas; os de escrita automática e directa com a caligrafia própria do defunto, com as suas ideias, as suas opiniões e a modalidade própria de cada entidade manifestante; os de voz directa, que constituem, quando o fenómeno é autêntico, a prova mais formidável da comunicação espírita; os de xenoglossia, que, como os observados pelo juiz John W. Edmonds com a sua filha Laura e o obtido pelo médium Valiantini por voz directa, citado por Dennis Bradley, não podem ser explicados pela hipótese metapsíquica de Flournoy e muito menos por revivescências ancestrais; aí estão, enfim, as provas de identidade, obtidas pela mediunidade falante, que, como as expostas por Ernesto Bozzano na obra já mencionada, constituem, com o que expusemos e com o muito que desejamos expor, a base de granito sobre o qual se baseia o Espiritismo. 

O Espiritismo se alça vigoroso e triunfante acima dos ataques e objecções que lhe dirigem os seus inimigos; ergue-se como árvore frondosa, carregada de frutos promissores, frutos que a experiência abonou, que sazonou em quase um século de observação e de estudo e que hoje oferece à humanidade sofrida, como resultado de muitos sacrifícios e dissabores, não para adormecê-la no sono infecundo da quietude, como crêem alguns, mas para estimulá-la com o atractivo da imortalidade, que leva em si mesma todos os nobres anseios da vida e do progresso continuado do espírito, através de vidas sucessivas, de existências sempre renovadas e sempre superadas. 

O Espiritismo é ciência filosófica e ao mesmo tempo filosofia científica: ciência filosófica porque deduz conclusões dos factos que examina e filosofia científica porque repousa nos factos da Psicologia, da Metapsíquica e da ciência em geral, e é também ciência integral e progressiva, porque referindo-se ao espírito humano (sujeito e objecto de seus estudos e sempre perfectível), à sua evolução, ao seu destino, às suas relações com a humanidade e com o universo, nele integra os conhecimentos. 

A sua filosofia é eminentemente dialéctica; a sua concepção da vida, dinâmica; o seu conceito genético (iii) da história. 

Até meados do século passado, o Espiritismo não formou um corpo de doutrina. Os elementos desta ciência profunda do espírito, tanto no que se refere aos fenómenos como aos conceitos filosóficos, achavam-se dispersos por todos os povos da Terra e encontram-se em todas as épocas da história misturados com as mais diversas crenças e práticas religiosas. As pessoas dotadas de faculdades mediúnicas foram consideradas ora como deuses ou adivinhos, ora como demoníacas, bruxos ou feiticeiros. As práticas foram de domínio esotérico das religiões e por isso, em alguns casos, conservam esse selo de misticismo e de superstição do qual o Espiritismo ainda não se tem podido desprender, não obstante os avanços da ciência e da crítica razoável. 

Os fenómenos foram aceitos sem classificação nem ordem, tomando-se as manifestações anímicas por revelações espíritas, ou estas por aquelas, e muitas vezes a charlatanice e a sofisticação, pela verdade. E não é estranho que haja, todavia, muitas pessoas que creiam firmemente que tudo o que sai da boca de um médium é manifestação genuína do além. 

Se isto aconteceu com os fenómenos, que se poderia esperar da teoria? Esta adoeceu e adoece ainda de defeitos análogos, defeitos de interpretação e, portanto, de uniformidade filosófica e ideológica, tudo devido à influência das religiões, ao carácter de revelação providencial, de infalibilidade ou de superioridade que a gente simples ou ignorante atribui às comunicações espíritas e a essa tendência ao sincretismo que tudo quer conciliar – até mesmo os absurdos religiosos maiores, com os factos e conceitos mais claros e verdadeiros –, tendência que se nota em quase todos os autores clássicos e não em poucos modernos, que ainda vivem presos à rocha dos prejuízos da velha escolástica. Eis porque o Espiritismo, como filosofia, resulta numa doutrina heterogénea e em alguns casos contraditória, cujos princípios e preceitos diferem entre si, a tal ponto que originam duas correntes opostas: religiosa e conservadora, outra racionalista e revolucionária, que hoje se manifestam pronunciadamente. 

Em 1857, Léon Hippolyte Denisard Rivail – Allan Kardec –, espírito observador e de uma penetração pouco comum, examinou, compilou e classificou os factos, formulou a teoria e estabeleceu a nomenclatura espírita, criando um vocabulário com o qual expressou os factos e os conceitos doutrinários que deles resultam. Mas a doutrina de Kardec e dos seus colaboradores, mesmo sendo verdadeira nos seus princípios fundamentais, não pôde ultrapassar os limites de sua época nem romper por completo com os moldes religiosos aos quais se ajustou. Kardec buscou conciliar o Espiritismo, por um lado, com a ciência; por outro, com as religiões, usando métodos, procedimentos de lógica, formas de pensamento e de linguagem próprios dos dois. Isto pôde ser conveniente no seu tempo, em que a fé religiosa, à falta de melhor compreensão dos fenómenos espiritistas e do carácter de revelação que se lhes atribuía, desempenhava um papel primordial no ânimo dos adeptos, diferente dos que buscavam a verdade pela experiência e o raciocínio, mesmo sabendo-a possível e demonstrável. Por outro lado, a crença na sobrevivência do espírito ainda não havia sido desalojada da ciência pelo positivismo e pelo materialismo. Hoje, as exigências do espírito científico e filosófico, que abarcam horizontes mais amplos, não se satisfazem com os expedientes religiosos e morais de São Luís, de Santo Agostinho ou de qualquer outro santo filósofo ou teólogo, nem com versículos, preceitos ou parábolas extraídos da Bíblia. 

A moderna concepção do Espiritismo veio elaborando-se com a experiência dos factos, não só no terreno da Psicologia experimental, no fenomenismo metapsíquico e espírita – que lhe serve de base fundamental –, como também abonando este terreno com a contribuição das demais ciências físicas e naturais e com as reflexões filosóficas que estas sugerem. Por outras palavras, podemos afirmar que o Espiritismo, durante o processo de sua evolução, estava em gestação na consciência e na mente dos homens que o levariam a uma nova concepção científica e filosófica, estava formando a nova dialéctica espiritualista ajustada aos factos da Psicologia moderna e da concepção espírita dínamo-genética da vida e da história. 

Os novos tempos, os novos homens, as novas concepções do Universo, as novas ideologias e as novas formas das ideias. 

O sinal do evidente progresso do Espiritismo na actualidade é a sua grandiosa concepção dialéctica, cujos elementos fundamentais expomos nesta obra, bem como enriquecimentos de sua terminologia, que sofreu uma sensível renovação e foi aumentada consideravelmente com neologismos apropriados, necessários para a compreensão e devida classificação dos factos, das ideias e conceitos. 

Não há ciência nem filosofia que, no curso de sua evolução, não sofra modificações, não mude em algum dos seus conceitos e nos limites do conhecimento, à medida que este se faz mais extensivo, mais claro, mais compreensível, mais ajustado à verdade essencial que encarnam os factos ou fenómenos estudados. 

A concepção dialéctica e a sua lógica científica põem de manifesto a renovação e o avanço do Espiritismo, despojando-o de todo o elemento alheio ao seu conteúdo científico e filosófico e reafirmando um dos mais formosos princípios de sua doutrina: O Espiritismo, marchando de acordo com os progressos da ciência, nada tem a temer. 

/... 
(i) Ver também, As Vidas Sucessivas, do mesmo autor. 
(ii) O autor refere-se à obra A Propósito da “Introdução à Metapsíquica Humana”, que teve o objectivo de refutar as teorias de René Sudre em sua obra Introdução à Metapsíquica Humana. (N.E.)
(iii) Ciência filosófica porque estuda e resume na sua vasta filosofia todos os princípios filosóficos relacionados com o ser e o pensar, e filosofia científica porque repousa em factos experimentais e de observação, partindo da Psicologia e da Metapsíquica e estendendo-se às ciências em geral e, por conseguinte, considerado nas suas relações e projecções com as ciências particulares. 


Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (XI), 11º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Oliver Lodge, por que creio na imortalidade da alma ~


Capítulo II 

As sete proposições 

Tomemos as proposições do fim do capítulo anterior e procedamos à sua apreciação. 

(1) 

Primeira proposiçãoO espírito pode agir independentemente dos órgãos corporais. Fiquei certo disso desde 1883 em razão dos casos de telepatia experimental que Sir William Barrett já assinalara num relatório dirigido à British Association em 1876. 

A telepatia experimental, como já se sabe, é a transmissão de uma ideia, imagem ou sensação de um espírito encarnado a outro na mesma condição, sem necessidade dos órgãos materiais. Ela requer a participação de duas pessoas: o agente transmissor e o receptor. O receptor, ou o que recebe a transmissão, é posto ao abrigo de todas as sensações, ao passo que o transmissor pensa em algo, fixa um objecto ou, de uma forma qualquer, procura fixar no seu espírito o que deseja transmitir mentalmente. Já se verificou que, em certas condições bem definidas, algumas pessoas possuíam faculdade receptora, de modo que, após breve intervalo de silêncio, estavam aptas a perceber a ideia e mesmo a fazer um desenho, sem auxílio da visão, da audição ou do tacto. 

Esse facto, cuidadosamente estabelecido por numerosos observadores, serviu para explicar grande número de casos, outrora incompreensíveis, que pareciam causados pela utilização espontânea da faculdade telepática, consciente ou não, sob a influência de forte emoção. Assim, aplicando-se essa concepção – a mais aproximada da vera causa – esperava-se eliminar a superstição e explicar, de forma racional, numerosas lendas contemporâneas, onde se dizia que tal ou qual pessoa recebera de outra pessoa afastada impressão de doença, de perigo ou de morte. 

Sabemos que tais factos ocorreram muitas vezes sob a forma de visão ou aparição de fantasma e supomos que, em semelhantes casos, a impressão mental era de tal forma poderosa que provocava no espírito do percipiente uma alucinação de carácter visual ou auditivo, mentalmente e não fisicamente. Palavras eram ouvidas e uma visão percebida por vias anormais, como uma espécie de reconstrução mental. Nos casos melhores e mais importantes, a impressão era a que chamamos “verídica”, isto é, que corresponde realmente a acontecimentos que se produziram algures, de sorte que se podia provar a sua autenticidade. 

Tal foi a conclusão de um livro, em dois volumes, cuidadosamente escrito e editado em 1886 sob o título de Phantasms of the Living (Fantasmas dos Vivos), cujos autores foram Myers e Gurney, com a colaboração de Podmore. Grande número de acontecimentos misteriosos, devidamente atestados, ocorrendo, constantemente, em todas as partes do mundo, se explicam, assim, de modo racional, sobre a fase do facto observado da comunicação psíquica, facto esse descoberto por meio da telepatia experimental. A aparição ou o fantasma, visto pelo percipiente sensitivo e que, até aqui, tinha naturalmente sido considerado como efeito de uma presença real e misteriosa, podia ser assim atribuído a uma impressão viva produzida, telepaticamente e sem o seu conhecimento, por uma pessoa afastada, em angústia, perigo e mesmo prestes a falecer. 

Numerosos casos análogos foram reunidos pelos seguidores daqueles e examinados a fundo por investigadores sérios e hábeis num livro intitulado Census of Hallucinations (Censo de Alucinações). Foi uma tarefa trabalhosa, executada antes e durante o ano de 1894, tratando abertamente dos fantasmas dos vivos, bem como dos mortos. Depois da eliminação de todos os casos duvidosos, apresentados os pontos fracos e as explicações segundo as hipóteses normais, a conclusão dos investigadores foi resumida, nos Proceedings of the Society for Psychical Research, vol. X, pág. 394, da seguinte maneira: 

“Existe, entre os casos de morte e as aparições de moribundos, uma relação que não é consequência só do acaso. Consideramo-la como um facto certo. A discussão de tudo que ela implica não pode ser feita só nesta obra e, provavelmente, não será mesmo esgotada na nossa época.” 

Esse relatório, longo e extremamente consciencioso, estava assinado pelo professor Henry Sidgwick e a Sra. e trazia também outras assinaturas. Não pretendo impor dogmaticamente a ideia de que a hipótese de telepatia do agente transmissor ao receptor seja realmente a explicação completa dessas experiências. Creio que existem outras explicações suplementares assim como outras causas. Em todos os casos, porém, a hipótese telepática, entre as duas pessoas em relação, é a mais plausível e a mais racional. 

Interessante recordar que o grande filósofo Kant se ocupou, em certa época, dos estudos psíquicos e examinou mesmo dois ou três casos notáveis, referentes a Swedenborg. O falecido professor William Wallace fez notar, no seu ensaio sobre Kant, que é possível considerar as aparições sob um ponto de vista subjectivo e termina com uma citação de Kant, que estava certamente a par da explicação telepática sugerida muito mais tarde por Myers e Gurney em sua obra Phantasms of the Living

Eles se apoiam particularmente no facto de que tais visões, qualquer que seja a sua origem, são autênticas, podendo acontecer mesmo que tenham mais importância do que a que lhes queria Kant conferir. 

Eis a citação de Kant, feita por William Wallace: 

“A possibilidade da comunicação entre um espírito puro e um espírito revestido do seu invólucro carnal depende do estabelecimento de uma ligação entre ideias abstractas e espirituais e imagens da mesma espécie, revelando concepções sensoriais que são análogas e simbólicas. Tais associações se encontram em pessoas que têm uma constituição especial. Em dados momentos esses videntes são assaltados por aparições que não são (como supõem) entidades espirituais, mas apenas ilusão da imaginação, que submetem as suas próprias imagens a influências reais e espirituais imperceptíveis à grosseira alma humana. Assim, a alma dos mortos e os espíritos puros, ainda que não possam nunca produzir certa impressão aos nossos sentidos exteriores ou entrar em contacto com a matéria, são, todavia, susceptíveis de actuar sobre a alma humana, que pertence, como eles, à grande comunidade espiritual. Destarte, as ideias que imprimem na alma se vestem, segundo a lei da fantasia, nas imagens ligadas e criam, fora do vidente, a aparição de objectos correspondentes.” 

Dos milagres, o maior é este – que tu és tu 
Com poder sobre os teus próprios actos e o mundo 
Deste mundo real dentro do mundo que vemos 
Do qual o nosso é apenas uma zona limítrofe. 

                                            (De um poema de Tennyson

/… 


Oliver LodgePor que creio na imortalidade da Alma, Capítulo II As sete proposições, proposição primeira (1), 4º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Luz e Cor (Teoria de Goethe) - A manhã após o Dilúvio - Moisés escreve o livro Génese, pintura de Joseph Mallord William Turner)