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terça-feira, 29 de junho de 2021

as vidas sucessivas | os elementos ~


~~ Experiências magnéticas Regressão da memória e previsão, Caso nº 2 Joséphine

Joséphine é uma jovem de dezoito anos, doméstica na casa de um alfaiate de Voiron, Sr. C., interessado, assim como sua esposa, pelo espiritismo, do qual são os únicos adeptos nesta cidade. Possui inteligência bastante comum e é tratada familiarmente pelos seus patrões, que a acusam apenas de ser um pouco astuciosa. (i)

Adormeci-a por meio de passes longitudinais para conhecer os fenómenos que ela apresentaria e fiquei admirado ao constatar que, sem nenhuma sugestão, eu a fazia remontar ao curso de sua vida, assim como a Laurent, que deixei de observar desde 1893. 

Ei-la com a idade de sete anos. Pergunto-lhe o que faz. 

– Frequento a escola. 

– Você sabe escrever? 

– Sim, estou a começar a aprender. 

Ponho-lhe uma pena na mão, ela escreve muito bem papá e mamã. Continuo os passes magnéticos e levo-a à idade dos cinco anos

Ela escreve por sílabas, pa. Ponho-lhe na mão um lenço dizendo-lhe que é uma boneca; ela parece bastante contente e põe-se a acariciá-la. Apresenta todas as características de uma menina dessa idade. Novos passes. Está agora provavelmente no berço e já não pode falar. Coloco-lhe a extremidade do dedo dentro da boca; ela o chupa. 

Após algumas sessões destinadas a torná-las mais flexíveis e a diminuir o tempo necessário para levá-la ao estado da primeira infância, tive a ideia de continuar os passes longitudinais. Interrogada, Joséphine respondeu por sinais às minhas perguntas, e foi assim que me mostrou pouco a pouco, em diferentes sessões, que não havia ainda nascido, que o corpo no qual devia encarnar estava no ventre de sua mãe à volta de quem ela se enroscava, mas cujas sensações tinham pouca influência sobre si. 

Um novo aprofundamento do sono determinou a manifestação de uma personagem cuja natureza tive a princípio dificuldades em determinar. 

Ela não queria dizer nem quem era, nem onde estava. Respondia-me, em tom brusco e com voz de homem, que estava lá, uma vez que me falava; porém, ela não via nada, encontrava-se na completa escuridão. (ii) 

Tendo-se o sono tornado ainda mais profundo, foi um velho deitado na sua cama e doente há muito tempo quem respondeu às minhas perguntas, após inúmeros rodeios, como um camponês astuto que teme comprometer-se e quer saber por que é interrogado.  
Figura 1 – Caligrafia de Joséphine adormecida e levada à personalidade de Jean-Claude Bourdon, com a idade de quinze anos. 
Figura 2 – Caligrafia de Joséphine, no estado de vigília, a quem dito o nome de Jean-Claude Bourdon. 

Enfim vim a saber que ele se chamava Jean-Claude Bourdon e que o lugarejo onde se encontrava era Champvent, na comuna de Polliat, porém ele não sabia em que departamento. (iii) 

Pouco a pouco consegui captar a sua confiança e eis aqui o que soube de sua vida, cujos diversos períodos fi-los reviver várias vezes. (iv) 

Ele nasceu em Champvent em 1812. (v) 

Frequentou a escola somente até aos dezoito anos, porque não aprendia grande coisa, podendo estar presente apenas durante o inverno e repetidamente faltando às aulas. Fez o serviço militar no 7º Regimento de Artilharia, em Besançon. (vi) 

Devia permanecer no Regimento durante sete anos, porém a morte de seu pai, permitiu a sua liberação, mais cedo, decorridos apenas quatro anos. Não recorda o nome de nenhum de seus oficiais; por outro lado, sabe que se distraía bastante, com os camaradas e as moças, narrando-me as suas escapadelas, enquanto anelava o bigode. 

De retorno à terra natal, reencontra a sua boa amiga Jeannette a quem devia desposar antes de partir e da qual só me falou depois de corar. Agora sabe que não é preciso desposar as mulheres para servir-se delas; já não quer casar e mantém Jeannette como amante. Observei-lhe que podia engravidar a pobre moça: “Bem, depois! ela não será a primeira nem a última.” Envelheceu isolado fazendo ele próprio a sua comida, limitada a sopa e charcutarias. Tinha na sua terra um irmão casado com filhos, queixa-se dos seus procedimentos para com ele e não os vê. Morre com a idade de setenta anos, após uma longa doença. Durante o período correspondente à doença, pergunto-lhe se não pensa em chamar o padre: “Ah! você está a zombar de mim. Você acredita em todas as besteiras que ele me diz? Ora, vá! quando se morre, é para sempre.” 

Morre. Sente-se sair do seu corpo, mas a ele continua preso durante um tempo bastante longo. Pôde seguir o seu enterro flutuando acima do caixão. Compreendeu vagamente o que as pessoas diziam: “Que grande alívio!” Na igreja, o padre andou em torno do féretro e produziu assim uma espécie de muro um pouco luminoso que o protegia dos maus espíritos que queriam precipitar-se sobre ele. As preces do padre também o acalmaram, porém tudo isso pouco durou. A água benta afastava igualmente os maus espíritos, porque os dissolve em toda a parte onde os alcança. No cemitério, ficou perto do seu corpo e sentiu-lhe a decomposição, o que o fazia sofrer muito. (vii) 

O seu corpo fluídico, que se tornou difuso depois da morte, retomou forma mais compacta. Ele vive na obscuridade, que lhe é penosa, mas não sofre, porque não matou nem roubou. Apenas sente sede algumas vezes, porque era bastante beberrão. Reconhece que a morte não é o que pensava. Não compreende bem o que lhe aconteceu, mas se soubesse antes o que agora sabe não teria zombado tanto do padre. Proponho-lhe fazê-lo reviver: “Ah! se assim o fizer, vou até gostar de você!” 

As trevas nas quais estava mergulhado acabaram por ser abertas por algumas luzes frouxas. Ele teve a inspiração de reencarnar num corpo de mulher, porque as mulheres sofrem mais do que os homens e ele tinha de expiar as faltas que havia cometido abusando das moças. Então aproximou-se daquela que seria a sua mãe, ficou perto dela até que a criança viesse ao mundo e, a seguir, entrou pouco a pouco no corpo dessa criança. Até cerca dos sete anos, havia em torno desse corpo uma espécie de névoa flutuante com a qual ele via muitas coisas que nunca mais voltou a ver. (viii)  

Quando acabei de extrair de Bourdon as informações que julgava úteis. (ix) 

Tentei recuar ainda mais longe no passado. Uma magnetização prolongada durante cerca de 45 minutos, sem demorar-me em nenhuma etapa, levou-me a Jean-Claude muito pequeno. 

Em seguida, nova personalidade. É agora uma senhora idosa que foi muito má, uma má língua que se comprazia em prejudicar as pessoas. Ela também sofre muito, o seu rosto é contraído por convulsões e às vezes ela se torce sobre a cadeira com uma expressão assustadora de dor. Encontra-se nas trevas espessas, cercada de maus espíritos que tomam formas horrendas para atormentá-la e atormentar os vivos quando o podem; é este o maior prazer deles. Algumas vezes ela foi levada também a mudar de forma e a segui-los para fazer mal aos homens. Fala com voz fraca, mas responde sempre de modo preciso às perguntas que lhe faço, ao contrário de argumentar a todo instante, como o fazia Jean-Claude. Ela se chama Philomène Carteron. 

Aprofundando ainda mais o sono, provoco as manifestações de Philomène viva. Ela já não sofre, parece bastante calma, responde sempre muito nitidamente em tom seco. Sabe que não é amada na região e que ninguém perderá nada com a sua ausência e ela saberá muito bem vingar-se na ocasião propícia. Nasceu em 1702, chamava-se Philomène Charpigny quando solteira. O seu avô materno chamava-se Pierre Machon e morava em Ozan. Casou-se em 1732, em Chevroux, com um homem chamado Carteron, com o qual teve dois filhos que perdeu. (x) 

Antes da sua encarnação, Philomène havia sido uma menina, morta na tenra idade. Anteriormente havia sido um homem que tinha matado e roubado, um verdadeiro bandido. É por isso que muito sofreu na completa escuridão a fim de expiar os seus crimes, mesmo depois da sua vida de menina, quando não teve tempo para fazer o mal. 

Não pude levar mais longe a experiência das vidas sucessivas porque, no fim da muito longa magnetização (cerca de duas horas) que era necessária para levá-la ao estado de bandido, o sujet (Joséphine) parecia esgotado. Causava pena vê-la nas suas crises; porém, um dia em que a havia conduzido até esse estado, pressionei-lhe um ponto situado no meio da fronte e que possui a propriedade de despertar a memória sonambúlica, ordenando-lhe que se transportasse a um tempo mais anterior. Ela me diz então, com hesitação e virando a cabeça, parecendo confusa, que tinha sido um macaco, um grande macaco quase semelhante ao homem. Confesso que não esperava esta resposta e o meu pensamento se reportou imediatamente a uma anedota atribuída a Alexandre Dumas pai (tendo alguém perguntado se era verdade que o seu pai era negro, Dumas, que não gostava quando lhe lembravam a sua origem, respondeu: “Certamente, e meu avô era um macaco; a minha família começou por onde a sua termina”). Entretanto, mantendo a seriedade, limitei-me a manifestar a minha admiração por ouvir que uma alma de animal se tornou uma alma de homem. Ela me respondeu que nos animais havia, como nos homens, naturezas boas ou más e que, quando o animal se tornava homem, este permanecia com os instintos do que havia sido como animal. Uma outra vez, nas mesmas circunstâncias, ela me diz que entre o seu estado de bandido e o de macaco havia passado por várias encarnações sucessivas; recordava-se de ter vivido nas florestas matando lobos, e nesse momento o seu rosto tornou-se feroz. 

/... 
(i) Ela é bastante sensível ao magnetismo. Um dia caiu de uma altura de 2,50 m., dando uma forte pancada com uma coxa sobre o ângulo de uma máquina de costura e feriu-se bastante, o que a fazia mancar. Adormeci-a e exteriorizei-lhe o seu duplo, como ela via bem por ele o local da ferida, colocou ali a minha mão, que mantive durante dois minutos; ao despertar estava completamente curada. (Albert de Rochas)
(ii) Encontrava-me assim lançado numa espécie de pesquisa da qual eu estava longe de suspeitar, e para que eu pudesse aí encontrar-me, foram-me necessárias várias sessões durante as quais, trazendo de volta ao presente, envelhecendo ou rejuvenescendo alternadamente o sujet nas suas existências anteriores, através de passes apropriados, coordenei e completei informações que eram frequentemente obscuras para mim, porque eu absolutamente não previa, no inicio, aonde ela queria conduzir-me e porque eu compreendia dificilmente os nomes próprios que se referiam a regiões ou a personagens desconhecidas. Apenas após pesquisas nos mapas e nos dicionários, consegui determinar exactamente os nomes e pude tomar nos próprios locais informações das quais falarei mais adiante. É bom lembrar aqui que, na maioria dos sujet, o sono magnético faz surgir uma série alternada de fases de letargia durante as quais não conseguem dar a conhecer as suas impressões em consequência de uma paralisia momentânea dos seus nervos motores e de fases de sonambulismo durante as quais podem falar, mas apresentam a insensibilidade cutânea. Gozam então de novas faculdades tanto mais desenvolvidas quanto mais profundo seja o sono. Durante as fases de letargia, o sujet continua em relação com uma parte do mundo exterior; se, após o despertar, se pressiona sobre a sua fronte o ponto da memória sonambúlica, desperta-se a memória do que se passou enquanto ele estava adormecido, tanto durante estas fases como durante as outras. (Abert de Rochas) 
(iii) Ele observou que havia dois lugarejos vizinhos que se chamavam Champvent, mas que o seu era o mais próximo de Mézériat e que ele ia com frequência a Saint-Julien, em Reyssouse, a negócios. Esses detalhes permitiram-me encontrar Champvent no departamento de Ain e no mapa do Estado-maior (Folha de Macon, a sudeste). Quanto a Joséphine, nasceu e passou a sua juventude em Manziat, cantão de Bugey-le-Châtel. No estado de vigília ela não se recorda de já ter ouvido falar de Champvent perto de Polliat. (A. de Rochas) 
(iv) Para vencer as suas resistências eu o envelhecia por punição e rejuvenescia-o, ao contrário, como recompensa; e ele me tomava nos últimos tempos por um grande feiticeiro a quem era preciso obedecer. (A. de Rochas) 
(v) As datas variam de dez anos quando comparadas entre si em diferentes momentos de sua personificação e em diferentes sessões. (A. de Rochas
(vi) O 7º Regimento de Artilharia manteve realmente guarnição em Besançon de 1832 a 1837 e é difícil compreender como Joséphine teria sido informada disto. (A. de Rochas) 
(vii) Perguntei-lhe se via os vermes: “Claro, não me atiraram sal”. (A. de Rochas) 
(viii) O povo diz que as crianças riem, com alegria, sem motivo. (A. de Rochas) 
(ix) O padre de Polliat, a quem escrevi para saber se existia na sua paróquia algum vestígio de Jean-Claude Bourdon, respondeu-me que nenhum Bourdon foi nunca conhecido em Polliat, mas que esse nome é bastante difundido num lugar vizinho, em Griège por Pont-de-Veyle (Ain). (A. de Rochas 
(x) Ela não tem nenhum sentimento religioso nem nunca frequentou a igreja e acredita que tudo termina com esta vida. Não sabe escrever. As famílias Charpigny e Carteron realmente existiram em Ozam e em Chevroux, porém não encontrei nenhum vestígio positivo de Philomène. (A. de Rochas) 


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte – Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 2 – Joséphine, 1904 (1 de 3), 9º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar as idades

Um Discurso Palingenésico para Materialistas e Ateus ~

  Depois de um jantar oferecido por Victor Hugo a amigos seus, foi ele convidado a expor os seus pensamentos. Entre os comensais encontravam se ateus, agnósticos e materialistas, mas, apesar disto o poeta derramou o perfume poético e filosófico de suas ideias espirituais. Como sempre as suas asas de águia se abriram por cima de todos e de sua boca brotaram os mais excelsos conceitos, que foram reconhecidos pelo ilustre poeta Arsène Houssaye (i). O autor de Os Miseráveis respondeu assim ao convite:

 "Quem pode dizer-nos que eu não volte a encontrar-me nos séculos futuros? Shakespeare escreveu: 'A vida é um conto de fadas que se lê pela segunda vez'. Poderia ter dito pela milésima vez. Porque não há século pelo qual eu não veja passar a minha sombra.

  "Vós não acreditais nas personalidades moventes, quer dizer, nas reencarnações, com o pretexto de que não recordais nada das vossas existências passadas, mas como as lembranças dos séculos desvanecidos poderiam estar impressas em vós quando não vos recordais nada das mil e uma cenas de vossa vida presente? Desde 1802 hei-de ter tido em mim dez Victor Hugo! Creis vós que me lembro de todas as acções e de todos os seus pensamentos?

  "Quando houver atravessado o túmulo para voltar a encontrar outra luz, todos esses Victor Hugo me serão um pouco estranhos, mas esta será sempre a mesma alma!

  "Sinto em mim toda uma vida nova, toda uma vida futura; sou como a selva que muitas vezes foi derrubada; os jovens rebentos são cada vez mais fortes e vivazes. Eu subo, subo, subo até ao infinito. Tudo é radiante à minha frente, a terra me dá a sua seiva generosa, mas o céu me ilumina com o reflexo dos mundos entrevistos.

  "Dizeis vós que a alma é a expressão das forças corporais: por que então a minha alma é mais luminosa quando as forças corporais já me irão abandonar? O inverno está sobre a minha cabeça, a primavera está na minha alma; aspiro aqui nesta hora às lilases e às rosas como se tivesse vinte anos. À medida que me aproximo da velhice, melhor escuto à minha volta as imortais sinfonias dos mundos que me chamam. É maravilhoso e sensível. É um conto de fadas, mas é uma história.

  ''Faz meio século que escrevo o meu pensamento em prosa e em verso, história e filosofia, drama, novela, legenda, sátira, ode, canção; de tudo tenho tratado, mas sinto que não disse mais que a milionésima parte do que é meu. Quando estiver no túmulo poderei dizer, como tantos outros: ''terminei a minha jornada!" e não "terminei a minha vida". A minha jornada recomeçará no outro dia, de manhã. O túmulo não é um labirinto sem saída; é uma avenida, que se fecha no crepúsculo e volta a abrir-se pela aurora.

  "Se eu não perco um minuto é porque amo este mundo como a uma pátria, porque a verdade me atormenta, como atormentou Voltaire, esse deus humano. A minha obra não é mais do que um começo; o meu monumento apenas saiu da terra; quisera eu vê-lo subir ainda; subir sempre. A sede de infinito prova o infinito. Que dizeis vós, senhores ateus?

  "Escuta-me. O homem não é mais do que um exemplar de Deus infinitamente pequeno, a edição em 32 do in-fólio gigantesco, mas o mesmo livro. Glória inaudita para o homem! Eu sou o homem, eu, uma partícula invisível, uma gota no oceano, um grão de areia na praia. Contudo, pequeno que sou, sinto-me deus porque também desenvolvo o caos que está em mim. Eu faço livros – quer dizer, sonhos – que são os mundos. Oh! falo sem orgulho porque já não tenho mais vaidade que a formiga que edificou a Babilónia, nem vaidade como o menor dos pássaros, que canta no coro universal.

  "Eu não sou nada. Jaz aqui Victor Hugo, um abismo, um eco que passa, uma nuvem que foi, uma onda que morre na praia. Eu não sou nada, mas deixa-me continuar a minha obra começada; deixa-me subir de século em século a todas as rochas, todos os perigos, todos os amores, todas as paixões, todas as angústias. Quem vos disse que um dia, depois de milhares de ascensões, não haveria eu, como todos os homens de boa vontade, conquistado um posto de ministro no supremo conselho desse adorável tirano que se chama Deus''.

  Como vemos, Victor Hugo falou de personalidades moventes, quer dizer, de seres dinâmicos que, sobrepujando as trevas do sepulcro, avançam para o verdadeiro Ser, para a aquisição da soberana personalidade espiritual. Essas personalidades moventes assinaladas pelo poeta representam a evolução palingenésica do espírito que, como vemos, constitui a base da sua obra poética e filosófica.

  Reconhece-se ele mesmo uma série de Victor Hugo, que vem ascendendo através da história espiritual do Ser. A perene evolução do seu Espírito aproximou-o de Deus até vencer as trevas do nada e da morte. Esta catarse não foi experimentada por Jean-Paul Sartre e o existencialismo ateu que ele encabeça, pois só o Espírito como entidade palingenésica poderá dar ao homem moderno o verdadeiro existencialismo: a existência baseada nas vidas sucessivas da alma.

 Frente ao nada, Victor Hugo proclamou a vida eterna; frente ao túmulo, aceitou a revelação mediúnica dos Espíritos, cuja valorização filosófica e religiosa se encontra na obra ''O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec.

 De facto, o poeta das grandes iluminações espirituais era espírita porque não pôde ser um espiritualista sem bases verdadeiras nem mediúnicas. Foi espírita porque comprovou que a morte não aniquila o homem, cujo espírito imortal e divino é quem rege os processos do mundo material. Sentiu a presença dos mortos como uma protecção e inspiração que eleva e transforma a condição humana. Repeliu o mundo estático e fixo para aceitar a filosofia da vida universal, concebendo que almas e mundos se enlaçam dialecticamente à causa da lei da reencarnação a que tudo está submetido.

  Victor Hugo foi o gigante da visões cósmicas, o poeta dos salmos e odes que igualaram as mais belas páginas dos profetas bíblicos. Tinha no seu espírito a poesia e o saber da filosofia espírita. Sentiu de forma ampla os postulados da ciência da alma em relação com a ciência do céu. Foi assim que compreendeu que o ser passa de um mundo ao outro mediante vidas e mortes sucessivas, para se transformar num colaborador do Plano Divino.

 Do pensamento filosófico e poético de Victor Hugo deduz-se que não haverá autêntico espiritualismo sem as bases mediúnicas do Espiritismo. Toda a verdadeira concepção espiritualista deverá assentar-se sobre a concepção revelada pelo génio espiritual e religioso do mundo invisível. Para o poeta, as manifestações mediúnicas não eram o resultado de sombras larvais, de resíduos psíquicos do ser nem de sedutores demónios. As manifestações, para Victor Hugo, eram mensagens dos mundos imateriais destinadas a penetrar a natureza humana para iluminá-la pelo amor e pela beleza.

  No seu país, outro génio poético das vidas sucessivas foi Alphonse de Lamartine, que cantou a concepção da reencarnação da alma. A história espiritual que anima os seus dois livros - A queda de um anjo Jocelyn - está entretecida pelo amor entre dois seres que se buscam através dos tempos. Lamartine, na sua obra Uma viagem ao Oriente, revela as reminiscências palingenésicas de passado distante. Disse assim num dos seus capítulos: "Quando visitei a Judeia, não tinha nas mãos nem a Bíblia nem mapas, nada que me servisse de indicação de lugares, sequer uma pessoa capaz de me dar o nome actual dos lugares nem o antigo dos vales e montanhas. Apesar disso, reconheci imediatamente o Vale de Terebinto e o campo de batalha de Saul. Quando fomos ao convento, os padres me confirmaram a exactidão de minhas previsões. Os meus companheiros ficaram admirados e apenas davam crédito a isso.

  "Em Sephora, designei com o dedo e mencionei pelo nome uma colina coroada por um castelo arruinado, como o provável lugar do nascimento de Maria. No dia seguinte, ao pé de uma montanha árida, reconheci o túmulo dos macabeus, no que disse a verdade sem o saber. Exceptuando os vales do Líbano, não tenho encontrado na Judeia um lugar, uma coisa que não fosse para mim como uma recordação.

  "Temos vivido, pois, duas vezes ou mil? A nossa memória não é quiçá mais que uma imagem adormecida, que o sopro de Deus faz reanimar" (ii). Victor Hugo e Alfonso de Lamartine coincidem nesta concepção palingenésica do ser. Ambos sentiam ''misteriosos estremecimentos'' ao encontrarem-se frente a ruínas antigas; percebiam como a sombra de "outra sombra" se projectava sobre o presente. De facto, estes génios da gaia ciência somente pela ideia da pré-existência das almas puderam alcançar tão alto nível lírico e religioso. Isto nos mostra que a criação poética voltará às suas verdadeiras fontes quando o poeta se reconhecer como um ser que nasce, morre e renasce. Em suma, a poesia palingenésica será o que despertará a alma encarnada do seu sono terreno e que lhe fará recordar as suas vidas anteriores entretecidas de misteriosas longitudes espirituais.

/...
(i) Suzanne Misset-Hopes: Presença de Victor Hugo, Ed Amoure Vie, Bugnolet (Sense,
França). N. do Autor.
(ii) Citado por Petit de Julleville em sua Histoire de la literature française, t. VII. N. do Autor.


Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, UM DISCURSO PALINGENÉSICO PARA MATERIALISTAS E ATEUS, 9º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

sábado, 6 de junho de 2020

o sentido da vida ~


Sobrevivência e Imortalidade ~

Prega a ciência moderna, como já vimos, baseada nos seus resultados materialistas, a imortalidade do homem e de todas as coisas através da eternidade do Universo. A imagem do mar, eterno no seu conteúdo e, no seu aspecto e, variável na sucessão das ondas, dá-nos maior compreensão desse quadro transcendente e supranormal que a ciência materialista nos pinta. Os homens e as coisas são como simples vagas, que aparecem e desaparecem. Não têm qualquer espécie de forma permanente. Só a água, o conteúdo universal, é que sobrevive através dos tempos, renovando as formas, sem qualquer continuidade daquelas em si mesmas.

Essa visão, que muito se assemelha à do antigo panteísmo e à de certas escolas de ocultismo, que consideram o homem como fagulha divina momentaneamente destacada de Deus, e que a Ele voltará depois da morte – excluindo-se naturalmente as que assim pensam dentro da linha reencarnacionista – já foi estudada por Allan Kardec em O Livro dos Espíritos.

Em certo momento pergunta ali o codificador:

“Que nos importa ter uma alma, se, extinguindo-se-nos a vida, ela desaparece na imensidade, como as gotas d’água no oceano? A perda da nossa individualidade não equivale, para nós, ao nada?”

Realmente, duas concepções existem, que conduzem o homem à desesperança. A de aniquilamento total do ser por meio da morte física e a dessa imortalidade por transmissão, que nada significa. Também a ideia da imortalidade através da sobrevivência de um princípio místico e misterioso, que seria a alma destinada ao inferno ou ao céu, não satisfaz a nenhuma inteligência racionalista. Somente a concepção espírita, aliás, comprovada pela observação, que nos fala da imortalidade pessoal, oferece ao homem a visão real do seu destino e, mais do que isso, da sua responsabilidade em face da vida e do mundo.

Entre os que aceitam o Espiritismo, subsiste, entretanto, uma pequena divergência de opinião, no tocante à interpretação do sentido imortalista da sobrevivência. Provamos, através das comunicações e dos fenómenos espíritas, a sobrevivência do homem. Provamos que a morte física não é o fim do indivíduo consciente. Provamos mesmo, que essa morte não chega a modificar o homem, pois ele continua, na vida espiritual, com todas as suas características individuais da vida material. A perda do corpo unicamente priva o indivíduo do contacto visível com a matéria. Assemelha-se extraordinariamente ao abandono do escafandro pelo escafandrista, que, longe de perder em si mesmo alguma coisa com isso, readquire a sua agilidade corporal e perde apenas a capacidade de viver no fundo do mar.

Entretanto, isso não nos prova a imortalidade, que implica na eternidade do ser. Imortalidade pessoal, portanto, é um termo com o qual se procura interpretar uma suposição, decorrente da verificação do facto real da sobrevivência. Nesse caso, dizem alguns, o que está provado é a sobrevivência, não a imortalidade.

Os espíritos que transmitiram a Kardec as linhas mestras da doutrina ensinaram que o homem é imortal. Seguiram, aliás, a linha tradicional dos ensinamentos superiores, das revelações dadas ao homem em todos os tempos, pelas forças do Alto. Todas as religiões afirmam o carácter imortalista do homem e as ordens ocultas e esotéricas do passado, algumas das quais ainda sobrevivem, também ensinaram sempre a mesma coisa. A revelação espírita não fugiu a essa norma geral e o simples facto dessa concordância nos faz pensar na possibilidade de se tratar de um facto real.

Do ponto de vista espírita, entretanto, essa questão não tem razão de ser. O Espiritismo não se perde em cogitações dessa natureza, tão semelhante às infindáveis controvérsias escolásticas da idade média. Se não temos recursos para investigar a possibilidade dessa coisa que mal podemos compreender, a imortalidade, que equivale à eternidade, como poderemos manter discussões estéreis a respeito? Basta-nos, evidentemente, saber que há a sobrevivência. E é indiscutível que a sobrevivência nos autoriza a super-existência ilimitada, pelo menos com os seus limites muito além das possibilidades de verificação.

No primeiro capítulo de O Livro dos Espíritos, questão nº 14, título Panteísmo, os espíritos que orientavam Kardec deixaram de maneira clara, bem definida, a posição do Espiritismo em face desses enigmas escolásticos.

Respondendo a uma pergunta do codificador sobre a natureza de Deus, responderam eles:

“Deus existe; disso não podeis duvidar e é o essencial. Crede-me, não avanceis além. Não vos percais num labirinto donde não lograríeis sair. Isso não vos tornaria melhores, antes um pouco mais orgulhosos, pois que acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai, pois, de lado todos esses sistemas; tendes muitas coisas que vos tocam mais de perto, a começar por vós mesmos. Estudai as vossas próprias imperfeições, a fim de vos libertardes delas, o que será mais útil do que pretender penetrar no que é impenetrável.”

Afirma a ciência moderna que o homem é limitado na sua capacidade de conhecimento. O Espiritismo concorda com essa afirmação, não procurando iludir-se e iludir os demais a respeito de coisas inverificáveis. A natureza experimental da doutrina não nos permite essas fugas para o mais além. E embora os materialistas nos acusem de desertores, repetindo, como papagaios, que não sabemos enfrentar a realidade, os que se derem ao trabalho de estudar a doutrina verificarão que, pelo contrário, procuramos enfrentar a realidade num sentido muito mais amplo, racional e coerente do que o defendido pelos materialistas.

Basta-nos, pois, verificar o facto, já agora incontestável, da sobrevivência, que continuaremos a chamar de imortalidade porque ela representa, na verdade, a negação da morte.

Aos conceitos pretensamente científicos de imortalidade-cósmica, num sentido geral e não individual, opomos o resultado das nossas experiências, que demonstram à saciedade a sobrevivência pessoal. Contra factos não há argumentos, nem prevalecem os raciocínios, por mais bem tecidos que se nos apresentem.

Os espíritas não inventaram uma explicação para os fenómenos; foram estes mesmos que revelaram a sua natureza íntima. Os próprios espíritos desencarnados se incumbiram de dizer aos homens, por múltiplas formas e em múltiplas ocasiões, dirigindo-se a sábios, filósofos, teólogos e simples curiosos, que eram eles os agentes, conscientes e intencionais, dos fenómenos observados. Eles mesmos se incumbiram de provar que não eram entidades misteriosas, pertencentes a qualquer escala desconhecida de seres infernais ou celestiais, mas simplesmente as almas daqueles que haviam morrido.

A nossa crença na imortalidade pessoal não se baseia, pois, em suposições, mas em factos concretos, mil vezes repetidos e comprovados, e cuja ocorrência jamais se interrompeu na face da Terra.

A essa convicção, que podemos sem a menor dúvida chamar de científica, pretendem alguns eruditos de hoje opor, em nome da própria investigação científica, o absurdo da imortalidade cósmica, através dos elementos naturais e da sua constante transformação. Não se baseiam, para isso, em nenhuma experiência demonstrativa. Partem apenas da base frágil das suposições e, mais espantoso é que, defendendo os métodos científicos, não se lembram de que toda a teoria contraditada pelos factos não pode subsistir.

Uma das teses mais recentes e perigosas é a de que a imortalidade individual contradiz o princípio da evolução geral. Afirma-se isso com foros de grande e profunda verdade, com a intenção evidente de fechar a porta, de uma vez por todas, a qualquer tentativa de esclarecimento do assunto. Mas temos o direito de perguntar ainda aqui os motivos dessa contradição e, de afirmar justamente o inverso do que pretendem dizer os defensores ilustres desse ponto de vista. Para isso, não precisamos de silogismos de espécie alguma. Basta-nos lembrar que toda a evolução das coisas, à nossa volta e nas imensas extensões do Universo conhecido, se processa através de um único método, firmado pela natureza em toda a parte, sem excepção: o da evolução individual.

Evoluem os espécimes, para que evolua a espécie. Evoluem os homens, evoluem os povos, uns se adiantando aos outros para que evolua a humanidade. Evoluem os elementos, para que evolua a Terra. Evoluem os mundos no espaço para que, certamente, evoluam os sistemas planetários e o próprio cosmos. Por que estranha razão, mais uma vez encontramos o pensamento humano deslocado da ordem geral, no momento em que tem de encarar o problema da própria evolução? Por que motivo misterioso a evolução individual, unicamente no tocante ao problema da sobrevivência, teria de contrariar o princípio da evolução geral? Mistérios, ou melhor, delícias da caturrice humana. 

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Sobrevivência e Imortalidade, 10º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)