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quinta-feira, 5 de setembro de 2024

pensamento espírita argentino ~


Capítulo II

Espiritismo dialéctico ~

O Espiritismo dialéctico é a concepção científica, dínamo-genético da evolução, que explica as coisas, seres e fenómenos do Universo, no seu movimento causal e dinâmico e nas suas necessárias contradições, sucedendo-se e transformando-se, lenta e gradualmente ou por mutações bruscas, em virtude de uma lei natural, selectiva e finalista, sob a acção psicodinâmica do espírito, nas suas diversas formas e manifestações. Não é, como poderia supor-se, uma inovação sistemática, fundamental, da filosofia espírita: é a mesma doutrina (pelo que respeita os seus princípios fundamentais), tratada dialecticamente à luz da ciência moderna e em concordância com os fenómenos da natureza e da vida e, muito especialmente, com os da Psicologia e da História.

A dialéctica espírita é um método discursivo, aplicado às coisas no processo indefinido do seu desenvolvimento ou, melhor dito, induzido deste processo indefinido; é uma lógica superior, para elevar-se à concepção dínamo-genética da vida em todas as ordens e manifestações, indo do simples ao complexo, do particular ao geral e dos termos opostos à sua síntese, a fim de estabelecer a lei ou o princípio que rege cada ordem de coisas e o que é essencial em todas e em cada uma delas.

Elevar-se da realidade sensível à verdade inteligível é o objecto da verdadeira dialéctica; é a “viagem”, segundo o dizer de Platão, que nos eleva à região luminosa das verdades superiores, viagem que empreendeu Heráclito, pela primeira vez na história da Filosofia, afirmando que nada é, que tudo chega a ser na corrente incessante da vida.

Ter um conceito dínamo-genético do Universo e da vida é pensar a evolução com um critério dialéctico, considerando as coisas, não no repouso em que se apresentam, mas em movimento, como na realidade estão; não num lugar fixo do espaço, nem num determinado momento do tempo, mas num contínuo suceder, num perpétuo câmbio de formas e de qualidades, sem jamais serem coisas perfeitas; é considerar os factos da vida e da história, não isolados e sem conexão, mas nas suas relações e no seu encadeamento causal; é ver nos indivíduos, não agentes desvinculados completamente uns dos outros, mas unidos por vínculos afectivos específicos, relacionados entre si pelo meio social e geográfico, por factores externos, tanto de ordem material como espiritual; não é crer que a sociedade, com o seu determinismo económico e histórico, marche por um lado e o espírito humano com o seu determinismo psicológico, com a sua causalidade moral e espírita, por outro, sem engrenar este com aquela, nem aquela com este, mas considerar as suas influências respectivas numa constante reciprocidade de efeitos e causas, de acções e reacções, de impulsos e resistências, de contradições que se resolvem no tempo, na luta constante de interesses e ideais, com o triunfo das tendências revolucionárias, individuais e, por afinidade, colectivas, que por lei da mesma evolução se apartam das tendências gerais e conservadoras; é crer enfim que, se no processo incessante da História (dentro do limite da existência humana) os indivíduos formam a sociedade, esta, por sua vez, forma os indivíduos e os sujeita às condições de vida estabelecidas, ainda que novas tendências e iniciativas individuais apontem mais tarde novos rumos à sociedade e modifiquem as condições existentes com o máximo de progresso alcançado. Esta concepção dínamo-genética que o Espiritismo dialéctico oferece e que consideramos do mais alto valor filosófico, para melhor compreensão da evolução e da vida, não forma, todavia, um sistema de doutrina completamente separado de elementos estranhos e contrários, em muitos casos, a sua verdadeira essência. Ela se deduz logicamente dos factos e manifestações espíritas, tanto quanto dos fenómenos naturais e históricos. Os elementos doutrinários que a constituem encontram-se disseminados nas obras dos seus mais ilustres mestres.

O método dialéctico, mesmo com alguma diferença no modo de expressão, é que tem sido seguido pelos grandes filósofos espiritualistas, desde Sócrates e Platão até Hegel, e empregado por alguns autores espíritas, ainda que sem uniformidade de critério e sem a precisão e extensão devidas. Daí que o Espiritismo se ressinta no seu valor filosófico e que a sua interpretação doutrinária, no que concerne à evolução e ao modo em que esta se efectua, dê margem a opiniões diversas e contrapostas, a atitudes desde a mais revolucionária até à mais recalcitrante e conservadora, não obstante ser uma doutrina clara nos seus postulados, quando estudados sem preconceitos.

Se Alexandre Herzen pôde dizer, com razão, que a filosofia de Hegel, longe de ser conservadora, é a álgebra da revolução; se Marx e Engels, aproveitando-se do método dialéctico de Hegel, no sentido materialista (que, por ser assim, abrange um só aspecto da verdade) puderam dizer que a sua dialéctica é a álgebra prática que “não se inclina diante de nada e é, por sua essência, crítica e revolucionária”, também podemos afirmar que o Espiritismo, com os seus fenómenos de uma realidade superior, demolidores de velhos preconceitos em todas as ordens da vida, com o seu conceito palingenésico da evolução e a sua moral dinâmica e perfectível, é profundamente mais revolucionário, posto que aprofunda o problema do ser e do destino e o aclara à luz dos factos, assinalando ao espírito humano novas e mais prolongadas actividades, novos e mais dilatados horizontes aos seus ideais, que não ficam truncados com as conquistas (muito justas, sem dúvida) económicas e sociais, dentro do marco estreito da existência humana sobre o planeta que habita. A dialéctica espiritista neste caso vem a ser a álgebra superior, que ninguém poderá aprender definitivamente, mas que vai descobrindo novas equações, novos problemas, em progressão constante de vidas sucessivas, que produz uma revolução mais profunda e de mais vastas projecções, que abrange o espírito e a matéria (sem reduzi-los a termos unitários, como fazem respectivamente o idealismo e o materialismo) numa síntese geral, considerando-se estreitamente unidos e necessários para todas as manifestações da vida e do pensamento. (i)

Poucas pessoas ignoram o que é o Espiritismo na sua essência vulgar e simplista; mas é escassíssimo o número dos que têm estudado a causa dos factos e dos princípios filosóficos que eles encerram, arrastando pela borda o pesado lastro de preconceitos que nele infiltraram as religiões positivas.

Empregado o Espiritismo para resolver somente problemas metafísicos, próprios da velha escolástica, apenas à investigação do mais além, preso à velha moral das religiões, que ensina a respeitar falsos direitos e privilégios injustos, como coisas absolutamente necessárias e conformes à justiça divina e à causalidade moral de cada ser, perde o seu carácter de ciência integral e progressiva, e em vez de ser um ideal humano, propulsor do progresso e das causas nobres, aberto a toda a iniciativa de bem-estar social, a toda tendência renovadora e libertária, torna-se, nas mãos de espíritos mesquinhos, uma doutrina atrasada e conservadora, uma arma formidável para esmagar consciências e conter todo o impulso generoso que tenda a estabelecer um novo regime social, mais justo e conforme com as exigências do progresso.

Para despojar o Espiritismo das influências conservadoras, dos preconceitos retrógrados que o desvirtuam e lhe tiram vigor como força social, como ideologia chamada a influir na marcha ascendente da humanidade, nada melhor do que abrir o livro da natureza e o da história e interpretar as suas lições à luz da ciência moderna e das manifestações espíritas: neles aprenderemos melhor que nos livros dos filósofos a verdadeira dialéctica dos factos e conheceremos o valor dos factores que os produzem e determinam e formaremos o nosso conceito espírita dínamo-genético da evolução, biológico e histórico. Assim saberemos, no final, como o Espiritismo deve orientar a conduta dos homens para que as consciências se fortifiquem frente aos factos que a vida oferece nas suas múltiplas e variadas manifestações.

/…

(i) O Espiritismo não considera o espírito absolutamente independente de toda a forma de matéria, nem tem a pretensão de saber o que é a matéria nem o espírito na sua essência; considera-os nas suas manifestações e estabelece as diferenças que são próprias de cada um. As manifestações dos espíritos vão sempre acompanhadas de formas subtis que, como já temos indicado, se chamam corpo etéreo, perispírito, etc.


Manuel S. Porteiro, Espiritismo Dialéctico, Capítulo II – Espiritismo dialéctico, 12º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa) 

sábado, 10 de setembro de 2022

~ nas garras do pensamento crítico


Da especulação à experimentação ~ 

Mas Allan Kardec não fala “por ouvir dizer”, ele nunca foi um homem levado pela imaginação: foi um observador rigoroso. E é através da mais pura dialéctica que nos explica a razão dessas vagas aspirações. 

“Se a questão do homem espiritual permaneceu até aos nossos dias em forma de teoria, é porque nos faltaram os meios directos de observação, para constatar o estado do mundo material e, o campo ficou aberto às concepções do espírito humano. Enquanto o homem não conheceu as leis que regem a matéria e não pôde aplicar o método experimental, errou de sistema em sistema, no tocante ao mecanismo do Universo e à formação da Terra. Deu-se na ordem moral o mesmo que na ordem física; para determinar as ideias faltou-nos o elemento essencial: o conhecimento das leis do princípio espiritual. Esse conhecimento estava reservado à nossa época, como o das leis da matéria foi obra dos dois últimos séculos. Até ao presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica, tem sido puramente especulativo e teórico; no Espiritismo é inteiramente experimental.” 

Chegados a este ponto, defrontamo-nos com o aspecto mais crítico da hora presente. De um lado, temos em marcha, com indiscutível eficácia, a aplicação do método dialéctico à história, à política, à sociologia etc., como a mais alta conquista do espírito no terreno prático e objectivo. Do outro, o abuso, que perdura, do método empírico, nas questões espirituais, com as consequentes explorações e deformações da realidade. E no meio, lutando entre as duas correntes, ambas poderosas, o Espiritismo, que não pode trair a realidade espiritual, para endossar a aplicação materialista da dialéctica e, não pode trair a sua própria natureza dialéctica, para apoiar o empirismo da prática espiritual. O resultado, infelizmente, é o que vemos: ele também, o Espiritismo, deformando-se, no aspecto sectário e místico de uma nova religião, ou na estrutura fria e materialista da simples observação metapsíquica. 

Todo o esforço do homem moderno tem de convergir para a superação dessa tremenda crise do conhecimento. E a superação somente se tornará possível com a compreensão dos verdadeiros princípios do Espiritismo como doutrina dialéctica, por isso mesmo capaz de aplicar à história, à política, à sociologia, à economia, à arte, os seus métodos de análise, de observação, de pesquisa, sem se perder na mística de confessionário, nem se confundir com o tumulto dos comícios subversivos. Além do misoneísmo das religiões, do reformismo do socialismo político-liberal e da violência do materialismo-dialéctico, o Espiritismo indicará ao homem o caminho seguro das transformações substanciais da vida social, ou perderá a sua razão de ser. Como esta última hipótese não nos parece possível, o mais certo é que a história nos esteja empurrando, segundo observa Humberto Mariotti, apesar da incapacidade geral e desoladora dos espíritas de hoje, na direcção do Espiritismo Dialéctico, verdadeira síntese do conhecimento, com que nos acena Allan Kardec. 

Humberto Mariotti afirma que “a realidade visível” da acção espírita no mundo se traduz no cultural e, “mais do que em qualquer outra parte, no bibliográfico”, faltando-lhe, entretanto, entrosar-se “no processo histórico da humanidade”. Esse entrosamento faz-se pela penetração nas massas através do seu aspecto “ingénuo”, de seita religiosa. Mas, se não houver, neste momento, a acção da alavanca da filosofia espírita, salvando o Espiritismo da “ingenuidade popular” e transformando-o, já não em simples crença, mas em conhecimento, o processo natural desse entrosamento pode ser desvirtuado, pelo trabalho de sapa das forças contrárias. 

Aos espíritas, portanto, cabe o dever indeclinável de lutar para que esse entrosamento se realize. A bibliografia espírita – “quiçá insuperável pela de qualquer outro movimento filosófico” – deve descer das estantes e penetrar nas massas, não para se submeter à “ingenuidade” destas, mas para orientá-las no sentido da sua libertação moral, espiritual, intelectual e social. Para tanto, é necessário um novo trabalho de elaboração, de aglutinação, de sistematização do conhecimento espírita, na forma de compêndios culturais e de manuais populares. 

O aspecto religioso ou “ingénuo” do Espiritismo salvou-o da indiferença e da hostilidade conjugada de todas as forças dominantes dos séculos XIX e XX, escondendo-o no coração do povo, onde ele viveu e progrediu em silêncio e, permitindo, ao mesmo tempo, o trabalho cultural dos intelectuais espíritas. Temos hoje uma população espírita no mundo e, temos uma cultura espírita. Mas não temos a sociedade nem a civilização espíritas, como observa Mariotti e, nem mesmo a necessária e prévia ligação entre as massas espíritas e a cultura espírita, para a criação daquelas. Estamos, porém, no caminho dialéctico do desenvolvimento de uma nova civilização e, se compreendermos isso, lutando para alcançar o futuro, chegaremos lá. 

Humberto Mariotti fez uma concessão de boa-vontade ao “pensar naturalista” quando deu ao seu livro o título de Dialéctica e Metapsíquica. Porque o título verdadeiro do volume seria o de Espiritismo e Dialéctica. Evitou assim assustar a lebre na beira da estrada. Não se iludam, porém, os espíritas, mormente os espíritas brasileiros, tão afeitos a deixar de lado o que foge ao aspecto religioso da doutrina. As páginas de Mariotti não se referem apenas a uma controvérsia filosófica entre as duas doutrinas que lhe formam o título eventual. Elas são, pelo contrário, um brado de alerta e um convite sério à meditação e ao estudo. Principalmente ao estudo da natureza dialéctica do Espiritismo e das possibilidades imediatas da sua aplicação ao mundo – para transformá-lo. 

/… 


José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, Da especulação à experimentação, 12º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O Apóstolo de Verdade, José Herculano Pires) 

sexta-feira, 4 de março de 2022

pensamento espírita argentino ~


CAPÍTULO I 

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história 

Que somos? (X) 

A Psicologia chamada positiva não pode, pois, conciliar os seus postulados de paralelismo psicofisiológico e das localizações psíquicas no cérebro, com os factos que acabamos de expor, nem explicar, por eles, os fenómenos da memória, da subconsciência nem da identidade pessoal ou do eu psíquico num organismo mutável, sujeito a constantes transformações, no qual nem um só átomo material, nem uma só célula subsistem. Para admitir a lembrança, a subconsciência e a nossa identidade, através das mudanças materiais e celulares, há de se admitir, queira-se ou não, uma preformação da consciência, um princípio espiritual permanente e um mediador plástico de natureza etérea, semimaterial ou perispiritual, capaz de se relacionar com o espírito e o seu organismo somático e servir de receptor das impressões exteriores e de impulsionador dos movimentos motores. 

Reduzir o campo da actividade sensitiva, motriz ou mental, ao limite periférico do organismo e ao alcance dos órgãos sensoriais, foi o propósito absurdo da Psicologia positiva. A exteriorização da motilidade e da sensibilidade (telestesia), a televisão (ou visão à distância sem o órgão visual), os fenómenos telepáticos, a clarividência, etc. opõem-se a tais pretensões. Eles reclamam uma ciência mais experimental e dedutiva, mais ampla e mais exacta. Como é que um sujeito exterioriza a sua força motriz e põe em movimento, sem contacto, objectos pesados? Como é que um sensitivo ou hipnotizado sente à distância a picada aplicada no ar ou na água em que deixou impregnada a sua sensibilidade? Como ouve o clariaudiente a voz psíquica que impressiona a sua alma sem ferir o órgão auditivo? Como é que, nos casos de autoscopia, o sujeito percebe o interior do seu próprio organismo e descreve minuciosamente a parte afectada de determinado órgão? Como é que uma pessoa, ainda em estado normal, pode transmitir mentalmente a outra uma ordem e esta ser cumprida exactamente? Como é que, nos fenómenos telepáticos, em sonho ou estado de vigília, se transmitem e se recebem mensagens, avisos de doentes, visões simbólicas, ou representativas de lugares, cenas, coisas ocultas, acidentes, etc.? Como é que, enfim, nos casos de previsão e de sonhos premonitórios, se chegam a conhecer acontecimentos que, estando no futuro, não podem impressionar o cérebro? 

Todos estes fenómenos e outros que omitimos são de tão boa lei como qualquer outro fenómeno psicológico, não obstante não entrarem no estreito marco da Psicologia positiva nem poderem ser explicados pelos seus procedimentos empíricos. 

Sem dúvida que os órgãos sensoriais não fazem aqui nenhum papel e que os centros sensitivos e motores pouco ou nada têm que fazer. E se, como dizem os psicólogos empíricos, toda a função psíquica se realiza mediante um órgão e um centro cerebral, quais são os órgãos e os centros cerebrais da telepatia, da clarividência, da premonição etc.? 

Quais as vias fisiológicas pelas quais chegam e saem do campo da consciência? Se podemos receber sensações, ter percepções visuais, auditivas, tácteis (como no fenómeno de desdobramento), actuar à distância, transmitir sensações, ideias, imagens, conhecimentos, sem necessidade dos órgãos sensoriais e, sobretudo, desdobrar a nossa personalidade, sair do nosso corpo e comprovar experimentalmente o eu espírito e não o eu corpo, a que ficam reduzidas as afirmações e todo o castelo de cartas da Psicologia positiva? (1)  

 “A Psicologia contemporânea – diz René Sudre, epilogando Gustave Geley – está num impasse, de onde não sairá senão com o apoio da Metapsíquica.” 

E nós poderíamos dizer – se a Metapsíquica fosse uma ciência definida – também ela está num impasse do qual não sairá senão apoiada no Espiritismo, que lhe dá vida e a orienta na busca da verdade, assinalando-lhe os extravios. Mas como não é uma ciência definida e autónoma, posto que depende do Espiritismo, do qual é o seu aspecto científico-experimental e a ele está ligada, queira-o ou não, pelos factos que lhe dão fundamento e correspondem à ciência espírita, que os abraça e classifica segundo a sua origem anímica ou espírita e, como os metapsiquistas mais destacados (salvo raras excepções) foram e são espiritistas, cremos que o metapsiquismo, depois de suas incursões pelo mundo das hipóteses anímicas e extramateriais, voltará a integrar-se no Espiritismo, salvando-se assim do seu impasse. 

O Metapsiquismo (ou Metapsíquica, que é igual) é o Espiritismo com a teoria de menos e muitas hipóteses forçadas ou absurdas de mais; é uma ciência nova para o nome, mas o seu conteúdo fenomenológico é o mesmo que abarca o Espiritismo, ainda que este não o faça com maior amplitude. 

Quanto às explicações anímicas racionais que dá dos factos, são as mesmas que o Espiritismo dá também a determinada categoria de fenómenos e não a todos, porque muitos deles ultrapassam o limite do anímico; reduzi-los a este limite seria igual a reduzir os fenómenos supranormais da percepção psíquica, etc. à categoria de fenómenos psicofisiológicos; seria ir contra a natureza e evidência dos mesmos factos. São estes factos que o Espiritismo não inclui na categoria anímica são os que os metapsiquistas não-espiritistas dizem que “se podem explicar”, mas que “não explicam”, com as suas hipóteses ou teorias chamadas “naturais”, por oposição à teoria espiritista, que eles supõem “sobrenatural”, mas que se apresenta à razão científica com mais naturalidade e também com mais verdade. 

As mesmas objecções que fazem ao Espiritismo os metapsiquistas modernos não-espiritistas são as dos sábios espíritas no começo de suas experiências e investigações. Crookes, que também punha os seus senões à tese espírita e aplicou a severa frase de Faraday à forma de raciocínio de alguns dos seus partidários de que “muitos cães poderiam chegar a conclusões mais lógicas”, acabou a dizer que um homem pode ser um verdadeiro sábio e sem dúvida estar de acordo com o professor de Morgan, quando este diz: 

“Fácil tem sido dar explicações naturais, mas até agora insuficientes: e por outra parte, subsiste a dificuldade de admitir a hipótese espírita, que é a mais satisfatória.” (ver A Força Psíquica, de William Crookes). 

Objecções análogas fizeram o doutor Otero Acevedo, sábio céptico, a quem Aksakof chamou o Torquemada do Espiritismo; Flammarion, que duvidou durante 50 anos que os espíritos dos mortos interviessem nos fenómenos mediúnicos e que declinou logo o seu cepticismo perante a evidência das provas post-mortem; Varley, Wallace, Hodgson, Barrett, Myers e mil outros que do Animismo se passaram ao Espiritismo; Lombroso foi talvez o sábio mais refractário à teoria espiritista; depois de estudar os factos que havia negado a priori, formulou a sua famosa teoria psiquiátrica, com a qual quis explicar todos os factos, teoria que foi demolida pela crítica científica; logo, um estudo mais profundo e as provas que dele adquiriu, convenceram-no da verdade espírita e ele terminou procurando nas obras de Allan Kardec a explicação de muitos factos, que as hipóteses “naturais” não lhe haviam dado. 

Que sábio espiritista não passou pela fase do “metapsiquismo” antes de haver obtido um convencimento completo? Leia-se toda a literatura científica do Espiritismo e se verá a resistência, a repugnância, melhor diríamos, que muitos sábios e pensadores espíritas sentiram pela nossa doutrina, por crê-la uma de tantas religiões que enganam o mundo. É que o Espiritismo não é coisa fácil de ser admitida, depois das afirmações do positivismo materialista impermeabilizando as almas para toda a noção espiritualista, especialmente para o sábio que, além dos seus prejuízos de escola e da responsabilidade de suas afirmações, tem muitas saídas na mente por onde escorrer os factos, quando estes vêm atirar por terra teorias e afirmações preconcebidas. 

A Metapsíquica (2) não constitui uma ciência nova, posto que os fenómenos que estuda são os que o Espiritismo vem estudando desde há três quartos de século e os seus métodos de experimentação, ainda que aperfeiçoados com o progresso da ciência e devido em grande parte ao aporte dos sábios espíritas, não têm variado fundamentalmente. O nome de Metapsíquica (mais além da Psicologia) é igualmente aplicado ao Espiritismo, que é um metapsiquismo mais completo e concorde com a variedade dos factos. 

O fenómeno espírita está, pois, constituído por uma variedade de factos e manifestações de origem anímica e espírita, vale dizer: de fenómenos supranormais que provam a existência do espírito como entidade distinta do corpo somático e sem intervenção neles de entidades extraterrenas e de outros fenómenos metapsíquico-espíritas, que provam a preexistência e sobrevivência da alma e a intercomunicação entre os espíritos encarnados e desencarnados. 

A distinção destas duas categorias de fenómenos de idêntica natureza foi estabelecida – até ao limite que permitem a ciência e a lógica – por homens experimentados no estudo do fenomenismo espírita, sobre a base dos mesmos fenómenos e o conteúdo das manifestações feitas pelas mesmas entidades, como pelas do mesmo médium (ou do sujeito hipnotizado) que se manifesta subconscientemente, ou pelos que se comunicam por seu intermédio e dão provas, em muitos casos, de sua identidade. 

/… 
(1) Conviria que os materialistas dialécticos, que ainda seguem parafraseando Soreal ou apoiados por Feuerbach, meditassem sobre estes factos, em vez de negá-los por espírito de sistema: eles lhe diriam qual é o “ser real”, o “sujeito e o objecto” e se a entidade psíquica, o eu espiritual, pode ou não desvincular-se do corpo e ser tão real, ainda que não tão material como este. 
(2) Conhecida também como Parapsicologia. 


Manuel S. Porteiro, Espiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (X), 10º fragmento da obra. 
(imagem de ilustração: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

domingo, 26 de setembro de 2021

~ nas garras do pensamento crítico


O velho | e o novo 

É evidente que o conhecimento da sobrevivência alarga a concepção humana da vida e do mundo, muito para além dos limites terrenos ou orgânicos da concepção materialista. Oliver Lodge classificou o Espiritismo de “nova revolução copérnica”. 

Assim como Copérnico rompeu de vez o ergástulo mental do geocentrismo, a revolução espírita desloca dos organismos materiais o conceito de vida, rompe o organocentrismo da biologia moderna e reduz a uma simples confusão do efeito pela causa o chamado “materialismo-psicológico”. 

Em consequência, leis e perspectivas novas aparecem, exigindo verdadeira revisão dos conhecimentos do homem e do seu modo de encarar a vida e o mundo. Mais uma vez nos deparamos com a luta clássica entre o velho e o novo tão bem definida no Evangelho do Cristo e nas obras de Allan Kardec. 

Vagas aspirações ~~

Alegam os mais ferrenhos materialistas que o conhecimento da sobrevivência – se de facto ela existisse – não serviria senão para perturbar a visão presente do homem, desviando-o da execução pura e simples das tarefas imediatas. Kardec, que condenou a vida contemplativa e, pregou a necessidade da acção contínua, dando o exemplo concreto da sua própria vida de militante espírita, replica: “...a incerteza, no tocante às coisas da vida futura, faz que o homem se lance, com uma espécie de frenesim, sobre as da vida material.” 

A réplica de Kardec não exige demonstrações. A vida moderna, baseada no materialismo prático do mundo capitalista, vale por uma experiência natural, em escala de assombro. Nunca se viu tamanho frenesim na procura dos bens materiais. A advertência de Francis Bacon: “Busca primeiro as boas coisas do espírito, que o resto será suprido ou não sentirás a sua falta”, com base naquela do Cristo: “Busca primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça e, tudo o mais te será dado por acréscimo”, não soa ao coração, mas apenas aos tímpanos desatentos do homem moderno. Diante disso, poderíamos esperar do materialismo teórico ou filosófico uma nova aplicação do princípio de Hahnemann, – similia similibus curantur – para curar o mundo desse delírio febril? 

Kardec diz ainda: “Esse é o inevitável efeito das épocas de transição. O edifício do passado rui, sem que o do futuro esteja construído. O homem é como um adolescente, que já não tem a crença ingénua dos primeiros anos e não adquiriu ainda os conhecimentos da idade madura. Não possui mais do que vagas aspirações, que não sabe definir.” 

A sociedade socialista, baseada na filosofia materialista mais avançada, terminaria atormentada por essas “vagas aspirações” de que nos fala Kardec. E mais uma vez surgiria, no seu próprio seio, a luta entre o velho e o novo. A hipótese não é gratuita, pois para tal não acontecer, seria necessário que não existisse uma vida futura, que a sobrevivência não fosse uma das realidades do Universo. 

/… 


José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, "O velho e o novo / Vagas aspirações", 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 6 de junho de 2021

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo V 

O SIGNIFICADO ESPÍRITA do Materialismo Dialéctico 
(II de III) 

Mas, para explicar claramente essa lei dialéctica, será preciso interpretar o Ser como uma tese essencial que, segundo a filosofia espírita, contém o Universo inteiro, e que começa o seu desenvolvimento no inconsciente das coisas, até chegar, mais tarde, ao grau de consciência. Este estado alcançado pela tese do Ser se transformará mais adiante; no contrário do seu primeiro período evolutivo, isto é, negará a sua condição anterior ao penetrar na de antítese, que representa uma etapa mais desenvolvida que a primeira, até se situar na de síntese, resumo superior dos seus dois tempos primitivos e tudo isso nos dará o seguinte: O presente é o que não existia ontem, mas esse ontem é a negação da qual surgiu o hoje; logo, deste hoje resultará a negação da qual surgirá o amanhã. 

Nisto consiste, pois, a lei chamada negação da negação ou evolução da involução, a interpretação espírita que nos mostra agora o desenvolvimento palingenésico como um processo dialéctico do Ser. Assim, vemos como o homem, ao nascer, é uma entidade espiritual de natureza dialéctica, chamada a desenvolver-se continuamente através do processo histórico. 

Pelo exemplo seguinte, vejamos como se desenvolve a lei denominada negação da negação: 

Tomemos um grão de trigo, o qual representa a tese. Que faremos, para que esse grão de trigo se torne o ponto de partida de um processo de desenvolvimento”? Enterramo-lo e, isso determina a etapa de antítese (ou de encarnação do Ser). Que sucederá então? Assistiremos à negação do grão de trigo, para que nasça a espiga. Primeira negação: o grão de trigo desapareceu, mas se transformou numa planta. Esta planta cresceu e produz grãos de trigo, como é natural e depois morre. Segunda negação: A planta desapareceu, depois de reproduzir o grão de trigo que a originou. Não nos esqueçamos, porém, de que não produziu um só grão de trigo, mas uma grande quantidade, que inclusive poderá suscitar novas qualidades. (*) 

Transportada a ideia do processo dialéctico para o desenvolvimento do Ser, vemos que esta negação da negação só poderá efectuar-se pela parte psíquica de sua natureza, que permitirá essa transformação. Estes processos dialécticos, que têm a virtude de revelar novas qualidades nas coisas de acordo com a filosofia espírita, explicam o desenvolvimento do dinamopsiquismo essencial, mediante a evolução da involução, isto é, a essência evoluída, fazendo desenvolver a essência ainda não-evoluída. 

O estado de antítese, ou de encarnação do Ser, Gustave Geley nolo apresentou do seguinte modo: “Tudo ocorre como se cada existência terrestre, cada objectivação orgânica, ou, podemos dizer, cada encarnação, seria para a actividade do Ser uma limitação no espaço e nos meios; seria como uma sujeição a um trabalho limitado e especializado, a um esforço quase exclusivo, em uma única direcção.” 

Por último, a antítese, ou estado de encarnação do Ser é, como bem disse Geley, um processo de análise. É, acrescentava ele, a subdivisão da consciência em faculdades diversas e, do sentido único em sentidos múltiplos, para facilitar o seu exercício e promover o seu desenvolvimento. 

Como se verá, nesta limitação espiritual aparece o que se chama a etapa de antítese do Ser. Esta antítese consiste em não poder ele recordar o passado nem estender a visão além do físico e, ainda mais, em não dispor das faculdades metapsíquicas que o espírito possui em forma latente. Tudo isto corresponde ao que se chama antítese do Ser, dado que o mundo físico é como uma negação do mundo espiritual, receptáculo maravilhoso onde o indivíduo guarda todos os valores de sua evolução. 

Impulsionado o Ser pelo processo dialéctico, entrará no seu terceiro tempo: a sua existência de síntese. Esta síntese está baseada na dialéctica da desencarnação ou da morte; representa a reunião de todas as faculdades espirituais numa só; é o que se chama, na linguagem espírita, estado do Ser desencarnado. Este estado, disse Geley, constitui uma espécie de produto sintético dos elementos diversos das personalidades anteriores. Em resumo, a desencarnação é um processo de síntese, de síntese orgânica e de síntese psíquica do Ser. 

É nesta unidade, em que a tese e a antítese do indivíduo se transformam numa síntese, – que se opera na consciência por causa da desencarnação, – que o espírito se sente em toda a sua plenitude. Porque é nesta síntese que os valores humanos se convertem em valores divinos e onde se reconhece que a raiz de todos os fenómenos sociais e morais está no mundo espiritual. 

Nesta análise sobre os três tempos dialécticos do espírito, podemos notar a profundidade da dialéctica hegeliana, destacando-se, em compensação, à limitação ideológica do materialismo dialéctico, no que respeita ao homem, ao considerá-lo, como o faz o existencialismo ateu, um ser para a morte e para o nada eterno. Entretanto, o marxismo pretende refutar ideologicamente o pensamento existencialista, sem levar em conta que os seus princípios estão baseados, também, sobre o nada do ser. 

Para a filosofia espírita, o processo histórico é produto da acção do espírito e não o resultado dos modos de produção; por conseguinte, ela não admite uma evolução exclusivamente material. Esta concepção é também sustentada pela lógica formal, na qual os seres e as coisas aparecem em estado imóvel e de repouso. Esta tese, porém, é inadmissível num tipo de materialismo considerado dialéctico, cuja doutrina sustenta que as coisas são e não são ao mesmo tempo, pela razão de que tudo está em perpétua transformação e que o movimento é que dá impulso aos fenómenos materiais. Sobre este ponto, convém fazer algumas reflexões. 

Se o movimento da matéria, de acordo com Georgi Plekanov, destacado expositor do materialismo dialéctico, é a base de todos os fenómenos da natureza e, se as moléculas da matéria em movimento, ao se unirem umas às outras, formam determinadas combinações, que são os seres e as coisas; se estas combinações se distinguem por uma solidez menor ou maior e, existem durante um tempo mais ou menos longo, desaparecendo finalmente, para serem substituídas por outras e, se o que é eterno é somente o movimento da matéria e a matéria em si como substância indestrutível, podemos formular as seguintes perguntas: Que maravilhoso demiurgo é a matéria, para possuir tantas propriedades e, o que é o movimento em si mesmo? 

Do ponto de vista espírita e metapsíquico, a matéria é uma objectivação que se traduz em movimento, mediante uma perimatéria, a qual é a força que dá conformação e existência à matéria, mas nunca a matéria em si. O materialismo dialéctico, ao conceber o movimento como qualidade da matéria, admite a possibilidade de um princípio psíquico, já que o psíquico não é mais do que movimento, como o por ele atribuído à matéria. Daí que a filosofia espírita sustente que não podemos admitir nem o materialismo nem o espiritualismo puros. 

Foi Geley quem disse que tudo nos induz a crer que não há matéria sem inteligência, nem inteligência sem matéria. Esta é a razão pela qual o espiritismo pode oferecer um campo de reconhecimento entre o materialismo e o espiritualismo clássico. O mesmo Geley, para confirmar esta asserção, escreveu o seguinte: “Desde o momento em que, na teoria espírita, espírito, força e matéria estão sempre juntos e são inseparáveis; e que não podemos e não devemos supô-los com vida própria e isolados uns dos outros, a doutrina espírita pode ser desde logo admitida, tanto pelos que fazem da inteligência um produto da evolução avançada da matéria, como por aqueles que sustentam não ser a matéria nem mais nem menos do que uma manifestação do espírito.” A força, para Geley, nas duas hipóteses, constitui o princípio intermediário a que chamamos perimatéria. 

Pelo exposto, se deduz que a filosofia espírita pode ser aceite, no seu aspecto palingenésico, tanto pelo pensamento materialista como pelo espiritualista, desde que o espírito fosse a causa de um movimento ascendente do Universo. Em consequência, poder-se-ia dizer que o materialismo só é admissível na sua concepção mecanicista, mas nunca do ponto de vista materialista dialéctico, o qual se baseia na lei do movimento e na dinâmica do Universo, gérmen de uma possível entidade inteligente. 

/… 
(*) A. Thalheimer, Introdução ao Materialismo Dialéctico. 


Humberto Mariotti, O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo V – O Significado Espírita do Materialismo Dialéctico (II de III), 9º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)

terça-feira, 11 de maio de 2021

pensamento espírita argentino ~


CAPÍTULO I 

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história ~ 

Que somos? 
(IX) 

Nos casos de desdobramento observa-se que; "enquanto o corpo do médium ou do hipnotizado" fica reduzido a uma vida puramente vegetativa ou orgânica e as funções de relação suspensas durante o transe, se exterioriza o corpo fluídico ou astral, tomando, este, aspectos e cores determinados que variam segundo as pessoas. Albert de Rochas, que o estudou na sua exteriorização, em especialidade, sustenta que é exactamente a reprodução do corpo físico. Esta é também a afirmação do engenheiro Gabriel Delanne, para quem não se limita à reprodução dos contornos exteriores do ser material, mas também na interioridade da estrutura perispiritual. Dito de outro modo: todos os órgãos do ser humano existem na reprodução fantasmal, em virtude de uma preformação etérea, a qual, se nos ativermos aos factos, pode variar e tomar formas, modalidades e até personalidade distintas. 

O mesmo acontece nos casos de bilocação, em que o espírito do sonâmbulo, ou do extático, se translada com o perispírito a um lugar distante, onde se encontra o seu corpo, com todas as suas faculdades psíquicas e, se faz visível em muitos casos. 

Mas onde o perispírito se manifesta em todo o seu poder e o facto tem um valor mais probatório e significativo é quando se exterioriza parcial ou totalmente fora do organismo, como nos fantasmas dos doentes e dos chamados mortos, muitas vezes vistos, observados e até fotografados, como se pode comprovar em fotografias transcendentais. 

“... A parte que há em nós de idealista e transcendental – diz o eminente físico Oliver Lodge – é associada permanentemente com o eterno, para a actividade e a intercomunicação igual à que mantemos agora com a matéria.” 

Nesta super-estrutura etérea ou perispiritual é que se radica o “mistério” das transformações psicofisiológicas e onde se deve ir procurar a explicação de todo o fenómeno psíquico normal e supranormal. Ela é o verdadeiro meio transformador das sensações em percepções. 

Sendo uma substância maleável e dúctil por sua natureza etérea e estando subordinada à vontade do espírito, é capaz de adaptar-se às várias condições do plano físico e, afinando-se a ele, servir-lhe de veículo. 

O facto notório de que os amputados continuam a sentir dores e impressões originadas por causas anteriores e que experimentem sensações térmicas no lugar do membro amputado, prova a existência do perispírito e que as supostas localizações cerebrais não são senão os verdadeiros centros perispirituais, onde o espírito regista e conserva (apesar da constante renovação da matéria e das células cerebrais) o conhecimento e a memória onde têm origem todos os fenómenos psicológicos. 

“... O sentido da integridade do membro amputado é a tal ponto real – diz o professor Bozzano – que se se conseguir distrair a atenção do mutilado, este percebe inclusive as sensações que o membro inexistente deveria perceber, se não lhe faltasse” (i) e considera esse facto como uma das modalidades do fenómeno de bilocação, que não pode ser logicamente explicado se não se admitir o corpo fluídico ou perispiritual. 

Não faltam psicólogos que consideram este fenómeno como o resultado de um hábito adquirido nas sensações reais e continuado nas pseudo-sensações depois da amputação. Mas esta hipótese perde todo o seu valor perante o conhecimento experimental que hoje se tem do perispírito e que oferece uma explicação que nos põe em condições de poder compreender e explicar este e outros fenómenos psíquicos e metapsíquicos não explicáveis pela primeira hipótese. 

Alguns metapsiquistas qualificaram a hipótese científica do perispírito hoje perfeitamente demonstrada pelos factos de “pura ilusão”, não obstante terem que fazer uso dela para explicar o fantasma fluídico dos bilocados. 

Respondendo a tal objecção, o professor Ernesto Bozzano ressalta as diferentes modalidades pelas quais se determina o fenómeno da exteriorização do corpo fluídico, demonstrando com factos a sua objectividade e eliminando as hipóteses onírica e alucinatória que, segundo ele, são as únicas que se podem opor a fenómenos desta classe. E a tal objecto, estabelece as diversas gradações em que se produzem os fenómenos de bilocação, começando pelos já mencionados da sensação de integridade dos mutilados e seguindo com os fenómenos de autoscopia ou de desdobramento apenas esboçado, em que o sujeito tem consciência de si mesmo e percebe o seu fantasma à distância. São, portanto, os casos em que o espírito percebe o seu corpo à distância; os fenómenos de desdobramento durante o sono natural; os do sonambulismo provocado; os de desdobramento por acção anestésica; o que se produz nos estados comatosos ou pré-agónicos; o do fantasma de um vivo, visto simultânea ou separadamente por várias pessoas; o do duplo, visto por sensitivos, e, por último, o percebido pelos assistentes de uma pessoa no momento da morte. 

O fenómeno da memória para ser explicado exige a existência de algo permanente. A identidade e permanência das lembranças exigem a identidade e permanência do eu. A lembrança não pode existir se faltar a unidade psicológica que perdure. Se o espírito pode recordar faltando-lhe (como nos casos de ablação mencionados) os centros cerebrais da memória, é lógico afirmar que esta não se radica no cérebro. 

É certo que para lembrar dos conhecimentos adquiridos – isto é, aqueles que impressionaram o nosso cérebro – se requer, em estado normal, determinadas condições psicofisiológicas, pois ainda que os conhecimentos estejam gravados no perispírito, estando este ligado ao cérebro, normalmente dele necessita para recordá-los, como no estado normal ou ordinário necessita dos órgãos e centros de percepção para ver, ouvir, etc. Mas, nem é o cérebro que possui os conhecimentos, nem os centros da memória que os recordam, assim como não são os olhos que vêem nem os ouvidos que ouvem. 

A conservação dos conhecimentos adquiridos pode existir (e existe de facto) sem a lembrança; esta pode desaparecer do campo da consciência e permanecer oculta durante a maior parte de nossa vida e reviver logo na mente, em virtude de circunstâncias favoráveis à memória ou por acidentes que afectem a normalidade do cérebro, ou ainda nas afluências mnemónicas dos doentes... 


“Quando a lesão cerebral é grave, quando a memória das palavras está atacada profundamente, sucede que uma excitação mais ou menos forte, uma emoção, por exemplo, devolve-nos a lembrança que parecia perdida para sempre. 

“Seria possível isso se a lembrança houvesse sido depositada na matéria cerebral alterada ou destruída? O fenómeno produz-se como se o cérebro servisse mais para rememorar a lembrança do que para conservá-la.” 

E acrescenta: 

“Se a lembrança não foi armazenada no cérebro, onde se conserva? A pergunta onde, acaso tem sentido, quando nos referimos a outra coisa que não um corpo? Os clichés se conservam numa caixa, os discos fonográficos em embalagens, mas por que as lembranças, que não são coisas visíveis nem tangíveis, terão necessidade de um continente e como seria possível tê-lo? Essas lembranças estão noutra parte que não no espírito?” (ii) 

Sem dúvida, tanto a nova como a velha Psicologia pretendem que a memória e, por consequência, as lembranças se prendem ao cérebro, mas nem todos os seus representantes estão de acordo (e a razão é obvia) sobre a natureza das impressões ou sinais cerebrais da memória. Desde Platão a Ribot, não há mais do que hipóteses que se desvanecem sob o peso dos factos que apontamos e outros que em continuação mencionaremos. Descartes acreditava nas circunvoluções do cérebro, onde as lembranças estariam arquivadas; Malebranche, em supostos sulcos comunicantes; Moleschott e os seus seguidores, nas vibrações fosforescentes da matéria cerebral; Ribot e os psicofisiologistas, nas marcas produzidas (não se sabe como, nem em que consistem) por certas modificações dos movimentos nos centros corticais, transformados uns em arquivo das palavras, outros dos movimentos, aquele da música, este da pintura e, enfim, cada um com encargo e aptidão especiais. A recordação é, pois, uma função privativa de certos centros: o Mozart músico está todo contido no centro musical; o Vernet pintor, no centro pictórico (iii) e assim todos os demais. 

A tudo isto acrescentaremos os fenómenos supranormais de subconsciência medianímica, em que o sujeito revela conhecimentos não fixados nem arquivados no cérebro material, por não os haver adquirido durante a vida terrena; o das crianças-prodígio, para quem, segundo a frase de Platão, aprender é recordar; os fenómenos assombrosos de regressão da memória obtidos pelo sonambulismo. Neste caso, o sujeito hipnotizado retrocede no tempo, passando por diversas fases de sua vida terrena até entrar no claustro materno e aparecer imediatamente numa existência anterior com uma nova personalidade, completamente diferente e alheia à primeira, a qual, por sua vez, seguindo um processo regressivo análogo, desaparece e, assim, umas sucedendo-se a outras, vão desaparecendo as diversas personalidades de um mesmo indivíduo, de um mesmo eu, ignorando uma à outra e todas deixando dados mais precisos de suas respectivas vidas. 

A memória subconsciente supranormal manifesta-se também em muitas pessoas, como no caso de Lamartine, do catedrático Damiani, dos escritores Ponson du Terrail, Dumas e Theóphile Gautier, do poeta Mery e mil outros, que têm afirmado (e em alguns casos demonstrado) possuir lembranças de existências passadas, ou que reviram esse passado à vista de paisagens ou diante de factos ou circunstâncias que lhes trouxeram à memória, ou, como no caso do doutor Gustave Geley, que conservava lembranças pré-natais dos momentos próximos à entrada na vida material. 

Ainda podemos juntar ao exposto os casos de loucura em que a Psicofisiologia (e a Psiquiatria, inclusive) pretende ver factos que negam o espírito como entidade substancial e distinta do organismo. 

Na loucura não há loucos, não há demência, senão diversos modos anormais de se mostrarem ajuizados em razão de uma desordem orgânica ou desarmónica nas relações do cérebro e o perispírito, ou por uma obsessão fixada no cérebro e da qual o espírito não pode subtrair-se enquanto não seja neutralizada por uma sugestão de si mesmo ou com a ajuda de outro poder sugestivo superior. O corpo não é louco, o perispírito tampouco (e ainda menos o espírito), mas um ou o outro ou ambos podem ser a causa da loucura e desde que aí suprimidas as causas, ficam suprimidos os efeitos. Há loucos que não apresentam qualquer lesão no cérebro e há ajuizados que têm o cérebro feito em pasta. 

Surya (iv) conheceu um demente que, na véspera de morrer, recobrou toda a lucidez do seu espírito e pôde conversar com os seus parentes e amigos com o juízo e a lógica mais seguros. 

/... 
(i) O autor deste livro pode corroborar este facto com a sua experiência pessoal: tendo perdido uma perna, conserva a sensação constante da sua existência e mais de uma vez, esquecendo a falta do dito membro, reagiu a uma sensação de prurido, de pressão ou de dor, levando a mão ou o pé da outra perna ao lugar onde havia a sensação. E é curioso que nunca tenha podido localizar no coto estas sensações que sentiu diferentemente nas diversas partes do membro amputado, até ter a certeza da distância e do lugar exactos onde as percebia. É significativo, por outra lado, que tendo sofrido uma ferida profunda no dedo grande da perna amputada, sinta no mesmo lugar a sensação característica da pressão e adormecimento dolorosos que sentiu durante 30 anos e que persiste ainda quatro anos depois da amputação. Também assinalo que não poucas vezes, distraído, busque com insistência a perna para vestir a calça ou calçar o sapato e mais de uma vez sucedeu firmar o coto pensando firmar o pé. 
(ii) O Materialismo Actual. Veja-se também Matéria e Memória. 
(iii) Ver J. Patrascoiu: Psicologia.
(iv) Ver a revista La Luz del Porveni (Barcelona) ou o número de La Idea mencionado. 


Manuel S. Porteiro, Espiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (IX), 9º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)