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quinta-feira, 20 de março de 2025

apóstolos de verdade ~


A União Artística * do Interior
(prodígios de um adolescente | Herculano Pires por Jorge Rizzini)

Com o lançamento do jornal “O Porvir”, surgiu em Cerqueira César o primeiro grupo de literatos formado por Herculano Pires, Oríchio, Luís Aguiar e o poeta Américo de Carvalho, todos jovens. O carpinteiro Elias Salomão Farah, o mais velho do grupo e que tivera um conto premiado pela “Revista da Semana”, do Rio de Janeiro, e o poeta-telegrafista Benedito Almeida Júnior, vindo de Barra Grande, agregaram-se em seguida. Duílio Gambini, Djalma Noronha, Antônio Roxo Garcia e o poeta Raul Osuna Delgado formavam o grupo da cidade de Avaré, mas já estavam vinculados ao de Cerqueira César. O jornal “O Porvir” foi o elo que uniu esses grupos ao da cidade de Sorocaba constituído por Fuad Bunazar, o poeta Hilário Correa e Alfredo Nagib, que viria a se popularizar em São Paulo como locutor da Rádio Tupi e, posteriormente, se formaria em Direito, especializando-se em Direitos Autorais. Dois intelectuais também se aproximaram do grupo de Cerqueira César, liderado por Herculano Pires: eram eles Pedro José de Camargo e Manuel Cerqueira Leite (este último se tornaria catedrático da Faculdade de Filosofia de Araraquara e livre docente de literatura da Universidade de São Paulo). A literatura acendia o fogo sagrado na imaginação desses rapazes... E eles, unidos, iriam constituir a União Artística do Interior, um empreendimento cultural arrojado para a época e que punha em evidência, mais uma vez, a força idealista de Herculano Pires, não obstante (anotemos) sua pouca idade – Herculano Pires não tinha dezoito anos completos.

Cerqueira César estava vivendo o ciclo obsessivo do algodão. Ninguém mais pensava em rebanhos de gado, criação de porcos e aves, em policultura. O algodão prometia riqueza maior e mais rápida. José Correa Pires não teve dúvida: entregou o comando da pequena tipografia e do jornal ao seu filho e tornou-se gerente de uma máquina de beneficiar algodão, enquanto Ananias Pires e sua família retornavam a Sorocaba. Herculano Pires, então, transformou “O Porvir”, que era jornal político, em jornal literário, um sonho que vinha alimentando fazia tempo... Os seus companheiros de literatura vibraram com o facto, pois traziam sonetos inéditos em todos os bolsos do paletó e das calças...

A acta de fundação da União Artística do Interior (os rapazes diziam UAI para “legitimar a natureza caipira da instituição”), foi lavrada em 5 de junho de 1932. Os seus objectivos: “defesa dos interesses dos nossos escritores, difusão da cultura artística em geral, amparo e incentivo ao desenvolvimento das artes e letras, inclusive a formação de núcleos nas diversas cidades”.

É ainda Herculano Pires quem nos informa em texto publicado quinze anos depois (1947) na “Folha da Manhã”, de São Paulo:

“E não se esquecia da luta contra o analfabetismo, para o que preconizava o estabelecimento de cursos nocturnos de alfabetização de adultos.”

Formavam a comissão fundadora da União Artística do Interior: Herculano PiresBenedito Almeida Júnior, Américo de Carvalho, João Batista Prata, Duílio Gambini, Antônio Roxo Garcia e o contista Luís Aguiar, que residira nas cidades de Cerqueira César, Avaré e Capivari. Deixou-se na acta de fundação uma linha em branco destinada à assinatura de Raul Osuna Delgado. Ele se aborrecera e, poeta temperamental, abandonara a reunião... Mais tarde se uniria ao grupo de amigos.

Herculano Pires foi eleito presidente da instituição. A primeira sugestão sua: “realizar numerosos movimentos literários em várias cidades do interior”, com o fito de incentivar e despertar vocações artísticas. Esse trabalho messiânico foi feito, sistematicamente, apesar da instituição não possuir recursos.

A U.A.I. tinha um patrono que mereceu registo especial. Era Rodrigues de Abreu, poeta de versos fortes e sofridos, autor de Casa DestelhadaA escolha do nome de Rodrigues de Abreu trazia um sentido simbólico, diria depois Herculano Pires, acrescentando que o poeta “era o rapaz do interior, pobre e obscuro, que apesar de esmagado pela miséria e pela doença, conseguira triunfar pela força da inteligência e a grandeza do estro”.

A gestão da primeira directoria da U.A.I. terminou em 1933. Na eleição seguinte, Ruad Bunazar, de Sorocaba, fora eleito presidente. Mas não pôde assumir o cargo devido à saúde precária e Herculano Pires continuou na presidência da instituição. Partira de Bunazar a feliz ideia de a U.A.I. patrocinar um concurso para contos, mas foi Herculano Pires quem o tornou realidade. A comissão julgadora congregava intelectuais de Sorocaba, destacando-se o professor Renato Sêneca Fleury, autor de inúmeros livros infantis que o Brasil inteiro conhecia.

O vencedor foi o sorocabano Sílvio de Almeida, humilde ferroviário, autor do conto Dentro do TúnelElias Salomão Farah, de Cerqueira César, obteve menção honrosa. A entrega dos prémios foi feita (notemos) em sessão solene no auditório da Biblioteca Municipal de Sorocaba.

O sucesso do concurso estimula Herculano Pires a fazer com que a U.A.I., sediada em Cerqueira César, lançasse em 21 de outubro de 1934 um outro, desta vez de poesias. As suas bases foram publicadas nos grandes jornais paulistas e em revistas de circulação nacional como o “Fon-Fon” e “O Malho”. Poetas de todo o país se inscreveram em busca de um lugar ao sol, inclusive do Território do Acre. Mais de duzentos trabalhos foram remetidos à cidadezinha de Cerqueira César, embora os quatro prémios tivessem pouco valor material (livros e um estojo de caneta e lapiseira).

Treze anos depois Herculano Pires iria referir-se ao concurso numa matéria publicada na “Folha de São Paulo”, em 13 de julho de 1947:

“A realização do concurso acarretou um excesso de trabalho para o pessoal da Agência do Correio de Cerqueira César. A pacata repartição, acostumada a um volume mais ou menos certo de correspondência, viu-se de súbito invadida por uma infinidade de pacotes e canudos registados, procedentes de todo o Brasil, trazendo para o concurso a variada produção dos nossos poetas anónimos, sempre numerosos.

Um incidente curioso verificou-se, por esse motivo, e bem merece ser evocado. O Sr. João Mericofer, geralmente conhecido por Zico, era o agente postal da cidade. Temperamento retraído, secarrão, o Zico quase não falava. Desincumbia-se humildemente da sua tarefa diária, dava umas voltas rápidas pela cidadezinha e voltava para o correio. Logo, porém, que o concurso tomou vulto e a correspondência começou a abarrotar a agência, encaminhou-se ele à redacção de “O Porvir”, o semanário local dirigido pelo Sr. José Pires Correia, e fez a sua reclamação:

Esse concurso prejudica o comércio da cidade! Chegam tantas cartas e tantos “registos”, que eu não posso distribuir a correspondência na hora de costume!”

E prossegue o memorialista Herculano Pires:

“Entre os duzentos e tantos trabalhos concorrentes, impunha-se como vitoriosa a forma moderna de poesia. Havia numerosos sonetos e alguns trabalhos extensos, metrificados e rimados com todo o rigor da forma parnasiana. Mas os poemas modernos, de estro livre, eram em muito maior número. Nada, entretanto, de futurismo, simbolismo ou coisa semelhante. A liberdade métrica e a substituição dos efeitos de rima pelas do ritmo e de imagens eram os característicos da maioria dos concorrentes.

Havia versos como estes, de Pedro José de Camargo, de Itapetininga, descrevendo uma mulata sambista, num poema que obteve “menção honrosa”:

Quanto ela ri,
Seus dentes simétricos, leitosos,
São duas carreiras de grãos de milho verde.

E outros de um sabor estranho, lembrando a influência do sangue árabe na nossa formação racial, como este de Pedro Chacair, de Santo António da Alegria:

Pudesse eu ser Maomé moderno,
De espada em punho e o “Crê ou morres” na alma,

E diria a teu pau:

– Crê no amor, ou morres!

Ou ainda do mesmo poeta:

Quero dormir, sonhar!
Que ideal, viver assim,
a vibrar, a esquecer, a enlouquecer aos poucos,
ao sabor voluptuoso de “haschich”!”

Herculano Pires recorda o curioso incidente devido à participação de seu amigo Raul Osuna Delgado, poeta irreverente:

“O Porvir, pequeno semanário de Cerqueira César, tornou-se o órgão oficial do concurso. Divulgava as bases, noticiava o recebimento de originais, informava os concorrentes sobre o andamento do certame. Por isso mesmo, recusou-se a aceitar a reclamação do Zico Mericofer. Mas quando começou a publicar os trabalhos distinguidos com “menção honrosa”, provocou certa vez um verdadeiro escândalo entre os leitores da população pacata e religiosa de Cerqueira César. Foi no domingo em que inseriu o soneto “SE...”, de Raul Osuna Delgado, um jornalista da vizinha cidade de Avaré, já falecido.

Osuna Delgado foi uma das figuras mais interessantes do jornalismo de nosso interior. Inteligente, espírito vibrante, era dotado de uma combatividade que transformou a sua existência numa luta contínua. O actual prefeito avareense, Romeu Bretas, que ainda agora esteve em foco na Assembleia Legislativa do Estado com o “caso” da agressão a um jornalista da terra, teve lutas sérias com Osuna, que naturalmente não “levou a melhor”, dado o regime discricionário que vigorava na ocasião...

Fiel à sua vocação combativa, Osuna Delgado inscrevera no concurso um soneto que mereceu a “menção honrosa” em virtude mesmo da sua audácia. Não negaremos ao leitor o prazer de saborear esse interessante soneto, que tantos aborrecimentos causou ao pessoal de “O Porvir”, quando de sua publicação:

Se aqui junto de Deus existe, realmente,
A desejada paz de inúmeros mortais;
Se aqui junto de Deus, sob a luz dos vitrais,
O cura tem o dom de perdoar a gente;

Se aqui junto de Deus este ou aquele crente
Está longe da mão dos anjos infernais;
Se aqui junto de Deus os grandes temporais
Encontram um titã de força omnipotente;

Se aqui junto de Deus se ocultam mil cruzadas,
Capazes de abater milhões de renegados
Por esse mesmo Deus... então, da igreja eu saio

E olhando para a cruz, além do campanário,
Eu pergunto, de chofre: ilustre e bom vigário,
Que diabo faz, na torre, aquele para-raio?

O padre José Julianetti, já falecido, que por mais de vinte anos foi vigário da paróquia, fez uma pregação especial contra o poeta, o concurso e o jornal...”

Aberto em 21 de outubro de 1934, o concurso encerrou-se a 21 de janeiro de 1935. A comissão julgadora era constituída por dois consagrados intelectuais de São Paulo, os poetas Ribeiro Couto e Menotti Del Picchia, mais Nair Mesquita, directora da revista “Vanítas”, que atribuíra o primeiro prémio ao poema “Rodrigues de Abreu”, de autoria de Jerônimo Leite, poeta do território do Acre. Houve catorze menções honrosas, entre as quais se destacava mais um poeta acreano, José Carlos da Silva Pires, residente em Saboeiro, Alto Juruá.

Entre 1934 e 1935 o Brasil viveu poderosas agitações políticas, que atingiram também elementos da U.A.I.. Aproximava-se o fim da instituição. A última acta, a de número 12, foi lavrada a 28 de maio de 1935 e mostra a sua situação precária. Presentes à reunião apenas três membros: Herculano Pires, que assinou-a, o poeta Américo de Carvalho e o contista Luís Aguiar. O último aparecimento público da nobre instituição se verificou uma semana depois, no dia 5 de junho, através de uma conferência pronunciada pelo médico baiano Adalberto de Assis Nazaré, no Cine Rio Branco, perante público reduzido.

“A U.A.I. – escreveu doze anos depois Herculano Pires – exerceu, durante os seus três anos de funcionamento, influência considerável no interior paulista, em favor da popularização da poesia e das artes modernas. O seu trabalho foi tão revolucionário e atabalhoado quanto o da “Semana de Arte Moderna”, podendo considerar-se como um reflexo caboclo desse grande movimento paulista.”

E, em outra crónica, Herculano assumiu a mesma posição e fez uma justa reivindicação:

“Os historiadores da literatura brasileira ainda não tomaram conhecimento dessa revolução literária das províncias, que partiu de Cerqueira César e empolgou o Brasil. Não teve ela as proporções nem o brilho da famosa Revolução de 22, mas foi, de certa maneira, uma das suas consequências. A U.A.I. representou uma tomada de consciência dos que sofriam no interior o isolamento cultural. Os dois concursos que ela promoveu tiveram grande repercussão na imprensa nacional, e um dia, forçosamente, alguém se lembrará desse feito cerqueirense.”
/...

Jorge RizziniJosé Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, (2) Prodígios de um adolescente / A União Artística do Interior, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel

terça-feira, 16 de julho de 2024

apóstolos de verdade ~


CULTO DE ADORAÇÃO A DEUS OU A JESUS (?)

Há muito tempo venho observando que se tornou hábito tanto nas sessões espíritas como nas reuniões, congressos e encontros, a invocação do nome de Jesus tanto no início dos trabalhos como no encerramento, o que, a meu ver, constitui um erro. Se não, vejamos.

As obras da Codificação deixaram bem claro dois pontos importantes: a existência de Deus e a personalidade de Jesus. Assim, para nós, espíritas só kardecistas, Deus é a "inteligência suprema, causa primária de todas as coisas" (L.E. cap. I), cabendo-nos, portanto, cumprir a Lei de Adoração, que "consiste na elevação do nosso pensamento a Deus" (idem, cap. II da parte III). Segundo disseram os Espíritos Superiores a Allan Kardec "é pela adoração que o homem aproxima a sua alma de Deus". Neste sentido, a prece nada mais é do que "um acto de adoração" pois, "orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com Ele". (idem,) E três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar a Deus, pedir-lhe alguma coisa em nosso benefício e dos outros, e agradecer-lhe o que temos recebido " (idem, n. 658 e 659). E Kardec, em "A Génese" (cap. I, nº 13) deixou bem claro que a Revelação Espírita sobre ser científica é também, e, principalmente divina, porque procede directamente de Deus, através dos seus emissários, os Espíritos Superiores sob a direcção do Espírito de Verdade.

Na colectânea de preces espíritas, que Kardec colocou no final de "O evangelho s/o Espiritismo", ele cita várias passagens do Novo Testamento, em que Jesus, o Homem de Nazaré, nos ensina como devemos dirigir-nos a Deus nas nossas preces, a começar pela "Oração dominical", que começa com um veemente apelo ao "Pai nosso que estais no céu". E o próprio Espírito de Santo Agostinho, que, segundo Erasto, Discípulo de São Paulo, foi "um dos maiores divulgadores do Espiritismo", disse que "a prece nos leva ao caminho que nos conduz a Deus". E nas preces que Allan Kardec nos apresenta, no final do seu livro, ele sempre começa invocando a figura de Deus Todo-Poderoso e não de Jesus. Justamente porque, para nós, espíritas não roustainguistas, Jesus não foi, nem é Deus, e sim um Espírito Superior, que, ao encarnar, na Terra, para cumprir uma sagrada missão, tomou um corpo de homem, e viveu trinta e três anos, deixando-nos um grande exemplo e uma sublime mensagem de amor, de paz e de esperança no futuro. Isto ficou bem evidente em "A Génese", cap. XV, que mostra a superioridade da natureza de Jesus, e em "Obras Póstumas", em que o querido mestre lionês nos prova, com todo o rigor científico que o caracterizava, que nem o próprio Jesus se considerava um Deus. É justamente o contrário do que afirmam a Igreja Católica e "Os Quatro Evangelhos de J.B.Roustaing".

E, para concluir, citamos o grande Léon Denis, que, no seu magnífico livro "Depois da morte", declarou o seguinte: "Quanto às teorias que de Jesus fazem uma das três pessoas da Trindade (dogma do Catolicismo) ou um ser puramente fluídico (dogma do docetismo/roustainguismo) uma e outra parecem pouco fundadas, porque Jesus revelou-se homem, sujeito ao temor , aos desfalecimentos. Como nós, homens, sofreu e chorou..." (p. 75). A propósito, tenho aberto, diante de mim, o livro "Doutrina Cristã", escrita pelo padre Francisco Pascucci, onde, na pág. 12, Jesus Cristo aparece como sendo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o que constitui um grande mistério para o Catolicismo Romano. O mesmo se encontra em "Os Quatro Evangelhos" de J. B. Roustaing, onde se lê que Jesus, que já foi criado perfeito, sem mácula, foi concebido pelo Espírito Santo, embora no seio de Maria, sua mãe carnal. Portanto, para os roustainguistas, Jesus também era Deus, embora eles garantam que não era nem Deus, nem homem, apenas um corpo fluídico, um agénere, mas com todas as prerrogativas de um Deus e a aparência de um homem. Por isso mesmo, tem que ser adorado, como se fosse o próprio Deus. Daí, certamente, o hábito que se criou de se invocar Jesus Cristo, nas preces e orações, na abertura e encerramento de qualquer reunião espírita.

Mas é claro que, nas nossas preces, devemos também dirigir-nos a Jesus, na certeza, porém, de que se trata de um intermediário, um intercessor, como Allan Kardec deixou bem evidente em "O Evangelho s/o Espiritismo", cap. XXVII, nº 9)…

O que não podemos nem devemos é continuar por aí, rezando a "Ave, Maria", como fazem os católicos, e como o próprio Chico fez muitas vezes.

NAZARENO TOURINHO ESTÁ CERTO

Em seu livro "Cartas a Jesus" – Edição Especial - disse, com muita propriedade o grande escritor, jornalista e conferencista Nazareno Tourinho, (i) de Belém / PA:

"... o que vem acontecendo, Jesus, é melancólico. Passaram-se vinte séculos depois da tua visita a este mundo. Os Evangelhos foram propagados no território de quase todas as nações, recebendo louvores em aldeias e metrópoles, porém até hoje os homens e as mulheres que te aceitam, de um modo geral, ainda não aprenderam nem sequer a orar a DEUS, como ensinaste: esquecendo o PAI, que está nos Céus, ou seja, em todos os lugares, oram quase sempre para ti, que deves recolher as preces com imensa tristeza, falando para o próprio coração: - Eles nem ao menos começaram a me entender!..." (pág. 18/19).

Bravos, valoroso Companheiro Nazareno Tourinho! É assim que se fala!...

/...


Erasto de Carvalho Prestes, in O Franco Paladino, Julho de 2003 / Órgão de divulgação do Espiritismo codificado pelo mestre Allan Kardec – Culto de Adoração a Deus ou a Jesus (?), 3º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)

quarta-feira, 31 de maio de 2023

apóstolos de verdade ~


~ o menino ~ poeta 
(Herculano Pires por Jorge Rizzini) 

O ano de 1914 é um marco doloroso na história da humanidade. No dia 1º de agosto daquele ano a Alemanha declarou guerra à Rússia e dois dias depois à França. No dia seguinte invadiu a Bélgica. Vinte e quatro horas depois, exactamente à meia noite, a Inglaterra atacou a Alemanha. O rastilho de pólvora alastrou-se e antes de findar agosto o Japão investiu contra a China, tomando-lhe várias ilhas. A ânsia do poder enlouquecera a humanidade. A guerra espalhava-se rapidamente em todos os continentes, envolvendo também o Brasil. 

Primeira Guerra Mundial foi uma das provas mais estarrecedoras do atraso espiritual da humanidade. Durou exactamente quatro anos e três meses. Desencarnou e aleijou milhões de pessoas. Mas a Espiritualidade jamais deixara de enviar missionários à Terra e, na madrugada do dia 25 de setembro de 1914 (cerca de dois meses após eclodir a Primeira Grande Guerra) um Espírito Superior reencarnou na antiga Província do Rio Novo – hoje a bela cidade de Avaré no interior do Estado de São Paulo. Sua missão: defender a pureza doutrinária e consolidar a Doutrina Espírita em terras brasileiras. 

José Herculano Pires, filósofo, parapsicólogo, educador, romancista, poeta, jornalista, tradutor – esse legítimo apóstolo de Allan Kardec –, era filho primogénito de José Pires Correa (um farmacêutico que abandonaria a profissão para tornar-se um dos mais vibrantes jornalistas do interior paulista) e de Bonina Amaral Simonetti Pires, descendente de antiga família de Avaré e distinta pianista. O casal teve sete filhos: Herculano, Geraldo, Renê, Lourdes, Marília, Diógenes e Nancy, os dois últimos desencarnados com tenra idade. 

O nascimento de Herculano Pires se deu na residência de seus pais, uma ampla casa pintada de verde no meio do quarteirão da Rua Rio Grande do Sul, no Largo São João, onde José Pires Correa instalara também a sua farmácia. O parto não foi tranquilo... 

Em um diário íntimo escreveu Herculano Pires que ao nascer se viu em apuros: 

“Eram cinco horas de uma fria madrugada de setembro – fim de inverno e início da primavera –, quando abri os olhos para a visão caótica do mundo. Estávamos em 1914, ano da primeira guerra mundial. Nasci ameaçado pelo cordão umbilical que me apertava o pescoço. Mundo ingrato. Mal nascia e as próprias cordas da vida me agrediam na forma de tenazes da morte.” 

Nesse diário, em cujas páginas foram, infelizmente, registadas poucas reminiscências, ainda nos dá Herculano Pires informações sobre o seu nome e a sua infância: 

“Mamãe me contou que eu já trazia um nome. Não o trazia escrito na testa, mas na folhinha, pois o 25 de setembro é o dia de São Herculano. Tio Franco sugeriu que para reforçar a minha protecção – pois esse São Herculano não era muito conhecido – me dessem também o nome popular de São José. Assim, ao nome que eu trouxera, a família juntava outro.” 

E o menino, então reencarnado em família católica, ganhou o nome completo de José Herculano Pires. Não foi garoto robusto. 

“Tive uma infância com problemas de saúde que me acompanhariam por toda a vida. Mas a terra de Avaré e as águas do Rio Novo me fortaleceram. Na gripe de 1918, que completou no Brasil a matança da guerra na Europa, flutuei sobre as águas e continuei. O tifo era endémico na região e depois da gripe fez grandes devastações, mas dele também  me livrei.” 

Os problemas de saúde não impediram, no entanto, que a sua infância fosse feliz. Era Avaré uma cidade jovem por demais agradável. A paisagem era bucólica: as ruas de areia, a matriz, o Jardim São Paulo com a sua banda aos domingos e o coaxar dos sapos... O Rio Novo de águas cristalinas, onde homens e crianças pescavam, os carros de bois com as rodas rangendo alto no Largo da Estação e, naturalmente, o famoso trenzinho da Sorocabana soltando muita fumaça quando atingia 40 quilómetros por hora, a velocidade máxima... 

Avaré, embora pacata, uma vez por outra era sacudida por acontecimentos dramáticos. Quis a Espiritualidade que Herculano Pires presenciasse alguns, certamente para fazê-lo compreender, embora ainda criança, que a terra era um planeta de angústias e que muito havia por se fazer em prol da espiritualização do povo. 

Em seu diário escreveu ele: 

“Ainda criança, vi muita maldade fervendo em Avaré. Vi, à distância de um quarteirão, o velho João do Prado, grandalhão, sair de um cartório da Rua São Paulo, dar alguns passos e cair fulminado pelos tiros de revólver que um advogado lhe desfechara nas costas. Vi, no Largo do Mercado, um homem tombar esfaqueado por outro, esvaindo-se em sangue. Vi Rosinha casar-se por amor e por amor suicidar-se tomando formicida. Vi um homem com a cabeça arrebentada pela própria esposa. E vi crianças chorando na orfandade súbita, porque o pai e a mãe haviam sido mortos pela ferocidade de alguns parentes. E vi ainda – meu Deus, que horror! – um homem carregar pelas ruas da cidade, obrigado pela Polícia, o tronco carbonizado da vítima que tentara destruir pelo fogo.” 

Esses bárbaros crimes de morte, evidentemente, levaram Herculano Pires, menino ainda de cinco ou seis anos de idade, mas dotado de aguda inteligência, a pensar em Deus com frequência. A verdade é que já estava sendo preparado pelos Espíritos, a fim de, quando adulto, cumprir bem a sua missão. 

Notemos agora que desde menino tinha visões espirituais. Esse facto, que teria importância fundamental no decorrer de toda a sua vida, Herculano Pires revelou a Rizzini numa entrevista gravada. Ouçamos as suas palavras: 

“Não eram visões místicas. Eram visões reais. Eu via Espíritos andando pela casa, à noite. Ainda me lembro muito bem, eu era pequenino, me levantava, me firmava na guarda do berço e ficava olhando os Espíritos vagarem pela casa. Não eram apenas Espíritos de mortos. Eu via o Espírito de minha mãe, que estava viva, andar pela casa. Minha mãe dormia e o seu Espírito se desprendia. E isto eu via com bastante frequência. Esses factos provocaram alarme em casa porque, às vezes, via certos Espíritos que me assustavam e então eu gritava e acordava todo o mundo. Vinham saber de mim o que acontecera e meu pai dizia: “Ele está delirando, é preciso saber o que tem esse menino.” Mas, eu explicava o que tinha visto. Certa vez me aconteceu também um facto muito curioso. Eu já tinha uns sete ou oito anos e na casa do meu avô materno, em Avaré, havia um quintal muito grande (meu avô materno era italiano e minha avó materna brasileira). E eu, brincando com as crianças no fundo do quintal cheio de grandes mangueiras, de repente ouvi um estalo esquisito, estranho. Olhei para o lado. Vinha vindo uma velhinha, mais ou menos apressada, com um vestido que parecia estrangeiro e com meias listadas de vermelho e azul; listas circulares em torno da perna. E ainda me lembro também dos sapatões, para mim esquisitos... Ela não me deu satisfação, passou perto de mim e se dirigiu para uma espécie de depósito que havia no quintal, abriu a porta e entrou. A porta bateu e, com o estalo, voltei a mim. Quer dizer, saí daquele encantamento. Fui correndo desesperado para casa, gritando. Meu avô foi o primeiro a sair ao meu encontro: “O que há?”. Eu contei. “Repita isso!” Eu repeti. “Como era ela?” Eu contei. E dei dois detalhes de que hoje não me lembro. Então ele virou-se para minha avó e disse: “É minha mãe! É minha mãe!” Foi um fenómeno que ficou gravado na minha memória.” 

A família de Herculano Pires, já o dissemos, era, então, católica. É inegável que essas visões na infância tinham o objectivo maior de levá-lo, posteriormente, ao encontro do Espiritismo

Herculano Pires, quando criança, foi uma prova vigorosa da reencarnação. Ele trazia da Espiritualidade um lastro cultural vastíssimo adquirido em vidas anteriores e uma vocação perfeitamente definida. Menino notável, com nove anos de idade, calças curtas, ainda nos bancos de uma escola primária na cidade de Itaí, para onde a sua família se transferira em 1920, ele se revelou poeta. Já conhecedor das leis rígidas da arte poética (que prodígio!), o menino redigiu em versos decassílabos um soneto que é, ao contrário do que o vulgo pensa, a forma poética mais difícil de ser dominada. O tema escolhido pelo garoto foi o Largo São João, de Avaré; tema adulto e árido. 

Viveu Herculano Pires em Itaí dos seis aos dez anos de idade. No dia 7 de setembro de 1922 (relembraria ele cinquenta anos depois em uma crónica), “era então um menino de oito anos e formava numa tropa de escoteiros, orgulhoso do meu uniforme cáqui e do meu lenço vermelho tatalando ao pescoço. Meu comandante era o professor Victorino, gordinho e baixo, também vestido de uniforme. E quem proferiu o discurso mais bonito e mais retumbante, comemorando o primeiro centenário da Independência do Brasil, foi naturalmente o meu pai. Na festinha da escola, em dias feriados, éramos dois, eu e a menina Adélia, minha namorada (os primeiros das duas turmas: masculina e feminina), que ficávamos em pé ladeando o mastro, na hora do hasteamento”. 

Quatro anos depois o seu pai, buscando melhoria financeira, fixou residência na cidade de Cerqueira César. Mas por pouco tempo. Voltou a residir com a família em Avaré, onde matriculou o filho na Escola de Comércio, fundada e dirigida pelo Professor Jonas Alves de Almeida, de quem, ao longo da vida, guardaria Herculano Pires a mais grata recordação. Mas não pôde concluir o curso. 

A vida profissional de José Pires Correa não era fácil. E assim, buscando sempre melhores condições para o sustento da família, tornou a residir na cidade de Cerqueira César. Herculano tinha, então, doze anos de idade e... continuava a escrever poesias. 

/... 


Jorge RizziniJosé Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, 1 – O menino poeta, 2º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)