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quinta-feira, 20 de março de 2025

apóstolos de verdade ~


A União Artística * do Interior
(prodígios de um adolescente | Herculano Pires por Jorge Rizzini)

Com o lançamento do jornal “O Porvir”, surgiu em Cerqueira César o primeiro grupo de literatos formado por Herculano Pires, Oríchio, Luís Aguiar e o poeta Américo de Carvalho, todos jovens. O carpinteiro Elias Salomão Farah, o mais velho do grupo e que tivera um conto premiado pela “Revista da Semana”, do Rio de Janeiro, e o poeta-telegrafista Benedito Almeida Júnior, vindo de Barra Grande, agregaram-se em seguida. Duílio Gambini, Djalma Noronha, Antônio Roxo Garcia e o poeta Raul Osuna Delgado formavam o grupo da cidade de Avaré, mas já estavam vinculados ao de Cerqueira César. O jornal “O Porvir” foi o elo que uniu esses grupos ao da cidade de Sorocaba constituído por Fuad Bunazar, o poeta Hilário Correa e Alfredo Nagib, que viria a se popularizar em São Paulo como locutor da Rádio Tupi e, posteriormente, se formaria em Direito, especializando-se em Direitos Autorais. Dois intelectuais também se aproximaram do grupo de Cerqueira César, liderado por Herculano Pires: eram eles Pedro José de Camargo e Manuel Cerqueira Leite (este último se tornaria catedrático da Faculdade de Filosofia de Araraquara e livre docente de literatura da Universidade de São Paulo). A literatura acendia o fogo sagrado na imaginação desses rapazes... E eles, unidos, iriam constituir a União Artística do Interior, um empreendimento cultural arrojado para a época e que punha em evidência, mais uma vez, a força idealista de Herculano Pires, não obstante (anotemos) sua pouca idade – Herculano Pires não tinha dezoito anos completos.

Cerqueira César estava vivendo o ciclo obsessivo do algodão. Ninguém mais pensava em rebanhos de gado, criação de porcos e aves, em policultura. O algodão prometia riqueza maior e mais rápida. José Correa Pires não teve dúvida: entregou o comando da pequena tipografia e do jornal ao seu filho e tornou-se gerente de uma máquina de beneficiar algodão, enquanto Ananias Pires e sua família retornavam a Sorocaba. Herculano Pires, então, transformou “O Porvir”, que era jornal político, em jornal literário, um sonho que vinha alimentando fazia tempo... Os seus companheiros de literatura vibraram com o facto, pois traziam sonetos inéditos em todos os bolsos do paletó e das calças...

A acta de fundação da União Artística do Interior (os rapazes diziam UAI para “legitimar a natureza caipira da instituição”), foi lavrada em 5 de junho de 1932. Os seus objectivos: “defesa dos interesses dos nossos escritores, difusão da cultura artística em geral, amparo e incentivo ao desenvolvimento das artes e letras, inclusive a formação de núcleos nas diversas cidades”.

É ainda Herculano Pires quem nos informa em texto publicado quinze anos depois (1947) na “Folha da Manhã”, de São Paulo:

“E não se esquecia da luta contra o analfabetismo, para o que preconizava o estabelecimento de cursos nocturnos de alfabetização de adultos.”

Formavam a comissão fundadora da União Artística do Interior: Herculano PiresBenedito Almeida Júnior, Américo de Carvalho, João Batista Prata, Duílio Gambini, Antônio Roxo Garcia e o contista Luís Aguiar, que residira nas cidades de Cerqueira César, Avaré e Capivari. Deixou-se na acta de fundação uma linha em branco destinada à assinatura de Raul Osuna Delgado. Ele se aborrecera e, poeta temperamental, abandonara a reunião... Mais tarde se uniria ao grupo de amigos.

Herculano Pires foi eleito presidente da instituição. A primeira sugestão sua: “realizar numerosos movimentos literários em várias cidades do interior”, com o fito de incentivar e despertar vocações artísticas. Esse trabalho messiânico foi feito, sistematicamente, apesar da instituição não possuir recursos.

A U.A.I. tinha um patrono que mereceu registo especial. Era Rodrigues de Abreu, poeta de versos fortes e sofridos, autor de Casa DestelhadaA escolha do nome de Rodrigues de Abreu trazia um sentido simbólico, diria depois Herculano Pires, acrescentando que o poeta “era o rapaz do interior, pobre e obscuro, que apesar de esmagado pela miséria e pela doença, conseguira triunfar pela força da inteligência e a grandeza do estro”.

A gestão da primeira directoria da U.A.I. terminou em 1933. Na eleição seguinte, Ruad Bunazar, de Sorocaba, fora eleito presidente. Mas não pôde assumir o cargo devido à saúde precária e Herculano Pires continuou na presidência da instituição. Partira de Bunazar a feliz ideia de a U.A.I. patrocinar um concurso para contos, mas foi Herculano Pires quem o tornou realidade. A comissão julgadora congregava intelectuais de Sorocaba, destacando-se o professor Renato Sêneca Fleury, autor de inúmeros livros infantis que o Brasil inteiro conhecia.

O vencedor foi o sorocabano Sílvio de Almeida, humilde ferroviário, autor do conto Dentro do TúnelElias Salomão Farah, de Cerqueira César, obteve menção honrosa. A entrega dos prémios foi feita (notemos) em sessão solene no auditório da Biblioteca Municipal de Sorocaba.

O sucesso do concurso estimula Herculano Pires a fazer com que a U.A.I., sediada em Cerqueira César, lançasse em 21 de outubro de 1934 um outro, desta vez de poesias. As suas bases foram publicadas nos grandes jornais paulistas e em revistas de circulação nacional como o “Fon-Fon” e “O Malho”. Poetas de todo o país se inscreveram em busca de um lugar ao sol, inclusive do Território do Acre. Mais de duzentos trabalhos foram remetidos à cidadezinha de Cerqueira César, embora os quatro prémios tivessem pouco valor material (livros e um estojo de caneta e lapiseira).

Treze anos depois Herculano Pires iria referir-se ao concurso numa matéria publicada na “Folha de São Paulo”, em 13 de julho de 1947:

“A realização do concurso acarretou um excesso de trabalho para o pessoal da Agência do Correio de Cerqueira César. A pacata repartição, acostumada a um volume mais ou menos certo de correspondência, viu-se de súbito invadida por uma infinidade de pacotes e canudos registados, procedentes de todo o Brasil, trazendo para o concurso a variada produção dos nossos poetas anónimos, sempre numerosos.

Um incidente curioso verificou-se, por esse motivo, e bem merece ser evocado. O Sr. João Mericofer, geralmente conhecido por Zico, era o agente postal da cidade. Temperamento retraído, secarrão, o Zico quase não falava. Desincumbia-se humildemente da sua tarefa diária, dava umas voltas rápidas pela cidadezinha e voltava para o correio. Logo, porém, que o concurso tomou vulto e a correspondência começou a abarrotar a agência, encaminhou-se ele à redacção de “O Porvir”, o semanário local dirigido pelo Sr. José Pires Correia, e fez a sua reclamação:

Esse concurso prejudica o comércio da cidade! Chegam tantas cartas e tantos “registos”, que eu não posso distribuir a correspondência na hora de costume!”

E prossegue o memorialista Herculano Pires:

“Entre os duzentos e tantos trabalhos concorrentes, impunha-se como vitoriosa a forma moderna de poesia. Havia numerosos sonetos e alguns trabalhos extensos, metrificados e rimados com todo o rigor da forma parnasiana. Mas os poemas modernos, de estro livre, eram em muito maior número. Nada, entretanto, de futurismo, simbolismo ou coisa semelhante. A liberdade métrica e a substituição dos efeitos de rima pelas do ritmo e de imagens eram os característicos da maioria dos concorrentes.

Havia versos como estes, de Pedro José de Camargo, de Itapetininga, descrevendo uma mulata sambista, num poema que obteve “menção honrosa”:

Quanto ela ri,
Seus dentes simétricos, leitosos,
São duas carreiras de grãos de milho verde.

E outros de um sabor estranho, lembrando a influência do sangue árabe na nossa formação racial, como este de Pedro Chacair, de Santo António da Alegria:

Pudesse eu ser Maomé moderno,
De espada em punho e o “Crê ou morres” na alma,

E diria a teu pau:

– Crê no amor, ou morres!

Ou ainda do mesmo poeta:

Quero dormir, sonhar!
Que ideal, viver assim,
a vibrar, a esquecer, a enlouquecer aos poucos,
ao sabor voluptuoso de “haschich”!”

Herculano Pires recorda o curioso incidente devido à participação de seu amigo Raul Osuna Delgado, poeta irreverente:

“O Porvir, pequeno semanário de Cerqueira César, tornou-se o órgão oficial do concurso. Divulgava as bases, noticiava o recebimento de originais, informava os concorrentes sobre o andamento do certame. Por isso mesmo, recusou-se a aceitar a reclamação do Zico Mericofer. Mas quando começou a publicar os trabalhos distinguidos com “menção honrosa”, provocou certa vez um verdadeiro escândalo entre os leitores da população pacata e religiosa de Cerqueira César. Foi no domingo em que inseriu o soneto “SE...”, de Raul Osuna Delgado, um jornalista da vizinha cidade de Avaré, já falecido.

Osuna Delgado foi uma das figuras mais interessantes do jornalismo de nosso interior. Inteligente, espírito vibrante, era dotado de uma combatividade que transformou a sua existência numa luta contínua. O actual prefeito avareense, Romeu Bretas, que ainda agora esteve em foco na Assembleia Legislativa do Estado com o “caso” da agressão a um jornalista da terra, teve lutas sérias com Osuna, que naturalmente não “levou a melhor”, dado o regime discricionário que vigorava na ocasião...

Fiel à sua vocação combativa, Osuna Delgado inscrevera no concurso um soneto que mereceu a “menção honrosa” em virtude mesmo da sua audácia. Não negaremos ao leitor o prazer de saborear esse interessante soneto, que tantos aborrecimentos causou ao pessoal de “O Porvir”, quando de sua publicação:

Se aqui junto de Deus existe, realmente,
A desejada paz de inúmeros mortais;
Se aqui junto de Deus, sob a luz dos vitrais,
O cura tem o dom de perdoar a gente;

Se aqui junto de Deus este ou aquele crente
Está longe da mão dos anjos infernais;
Se aqui junto de Deus os grandes temporais
Encontram um titã de força omnipotente;

Se aqui junto de Deus se ocultam mil cruzadas,
Capazes de abater milhões de renegados
Por esse mesmo Deus... então, da igreja eu saio

E olhando para a cruz, além do campanário,
Eu pergunto, de chofre: ilustre e bom vigário,
Que diabo faz, na torre, aquele para-raio?

O padre José Julianetti, já falecido, que por mais de vinte anos foi vigário da paróquia, fez uma pregação especial contra o poeta, o concurso e o jornal...”

Aberto em 21 de outubro de 1934, o concurso encerrou-se a 21 de janeiro de 1935. A comissão julgadora era constituída por dois consagrados intelectuais de São Paulo, os poetas Ribeiro Couto e Menotti Del Picchia, mais Nair Mesquita, directora da revista “Vanítas”, que atribuíra o primeiro prémio ao poema “Rodrigues de Abreu”, de autoria de Jerônimo Leite, poeta do território do Acre. Houve catorze menções honrosas, entre as quais se destacava mais um poeta acreano, José Carlos da Silva Pires, residente em Saboeiro, Alto Juruá.

Entre 1934 e 1935 o Brasil viveu poderosas agitações políticas, que atingiram também elementos da U.A.I.. Aproximava-se o fim da instituição. A última acta, a de número 12, foi lavrada a 28 de maio de 1935 e mostra a sua situação precária. Presentes à reunião apenas três membros: Herculano Pires, que assinou-a, o poeta Américo de Carvalho e o contista Luís Aguiar. O último aparecimento público da nobre instituição se verificou uma semana depois, no dia 5 de junho, através de uma conferência pronunciada pelo médico baiano Adalberto de Assis Nazaré, no Cine Rio Branco, perante público reduzido.

“A U.A.I. – escreveu doze anos depois Herculano Pires – exerceu, durante os seus três anos de funcionamento, influência considerável no interior paulista, em favor da popularização da poesia e das artes modernas. O seu trabalho foi tão revolucionário e atabalhoado quanto o da “Semana de Arte Moderna”, podendo considerar-se como um reflexo caboclo desse grande movimento paulista.”

E, em outra crónica, Herculano assumiu a mesma posição e fez uma justa reivindicação:

“Os historiadores da literatura brasileira ainda não tomaram conhecimento dessa revolução literária das províncias, que partiu de Cerqueira César e empolgou o Brasil. Não teve ela as proporções nem o brilho da famosa Revolução de 22, mas foi, de certa maneira, uma das suas consequências. A U.A.I. representou uma tomada de consciência dos que sofriam no interior o isolamento cultural. Os dois concursos que ela promoveu tiveram grande repercussão na imprensa nacional, e um dia, forçosamente, alguém se lembrará desse feito cerqueirense.”
/...

Jorge RizziniJosé Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, (2) Prodígios de um adolescente / A União Artística do Interior, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel

quarta-feira, 31 de maio de 2023

apóstolos de verdade ~


~ o menino ~ poeta 
(Herculano Pires por Jorge Rizzini) 

O ano de 1914 é um marco doloroso na história da humanidade. No dia 1º de agosto daquele ano a Alemanha declarou guerra à Rússia e dois dias depois à França. No dia seguinte invadiu a Bélgica. Vinte e quatro horas depois, exactamente à meia noite, a Inglaterra atacou a Alemanha. O rastilho de pólvora alastrou-se e antes de findar agosto o Japão investiu contra a China, tomando-lhe várias ilhas. A ânsia do poder enlouquecera a humanidade. A guerra espalhava-se rapidamente em todos os continentes, envolvendo também o Brasil. 

Primeira Guerra Mundial foi uma das provas mais estarrecedoras do atraso espiritual da humanidade. Durou exactamente quatro anos e três meses. Desencarnou e aleijou milhões de pessoas. Mas a Espiritualidade jamais deixara de enviar missionários à Terra e, na madrugada do dia 25 de setembro de 1914 (cerca de dois meses após eclodir a Primeira Grande Guerra) um Espírito Superior reencarnou na antiga Província do Rio Novo – hoje a bela cidade de Avaré no interior do Estado de São Paulo. Sua missão: defender a pureza doutrinária e consolidar a Doutrina Espírita em terras brasileiras. 

José Herculano Pires, filósofo, parapsicólogo, educador, romancista, poeta, jornalista, tradutor – esse legítimo apóstolo de Allan Kardec –, era filho primogénito de José Pires Correa (um farmacêutico que abandonaria a profissão para tornar-se um dos mais vibrantes jornalistas do interior paulista) e de Bonina Amaral Simonetti Pires, descendente de antiga família de Avaré e distinta pianista. O casal teve sete filhos: Herculano, Geraldo, Renê, Lourdes, Marília, Diógenes e Nancy, os dois últimos desencarnados com tenra idade. 

O nascimento de Herculano Pires se deu na residência de seus pais, uma ampla casa pintada de verde no meio do quarteirão da Rua Rio Grande do Sul, no Largo São João, onde José Pires Correa instalara também a sua farmácia. O parto não foi tranquilo... 

Em um diário íntimo escreveu Herculano Pires que ao nascer se viu em apuros: 

“Eram cinco horas de uma fria madrugada de setembro – fim de inverno e início da primavera –, quando abri os olhos para a visão caótica do mundo. Estávamos em 1914, ano da primeira guerra mundial. Nasci ameaçado pelo cordão umbilical que me apertava o pescoço. Mundo ingrato. Mal nascia e as próprias cordas da vida me agrediam na forma de tenazes da morte.” 

Nesse diário, em cujas páginas foram, infelizmente, registadas poucas reminiscências, ainda nos dá Herculano Pires informações sobre o seu nome e a sua infância: 

“Mamãe me contou que eu já trazia um nome. Não o trazia escrito na testa, mas na folhinha, pois o 25 de setembro é o dia de São Herculano. Tio Franco sugeriu que para reforçar a minha protecção – pois esse São Herculano não era muito conhecido – me dessem também o nome popular de São José. Assim, ao nome que eu trouxera, a família juntava outro.” 

E o menino, então reencarnado em família católica, ganhou o nome completo de José Herculano Pires. Não foi garoto robusto. 

“Tive uma infância com problemas de saúde que me acompanhariam por toda a vida. Mas a terra de Avaré e as águas do Rio Novo me fortaleceram. Na gripe de 1918, que completou no Brasil a matança da guerra na Europa, flutuei sobre as águas e continuei. O tifo era endémico na região e depois da gripe fez grandes devastações, mas dele também  me livrei.” 

Os problemas de saúde não impediram, no entanto, que a sua infância fosse feliz. Era Avaré uma cidade jovem por demais agradável. A paisagem era bucólica: as ruas de areia, a matriz, o Jardim São Paulo com a sua banda aos domingos e o coaxar dos sapos... O Rio Novo de águas cristalinas, onde homens e crianças pescavam, os carros de bois com as rodas rangendo alto no Largo da Estação e, naturalmente, o famoso trenzinho da Sorocabana soltando muita fumaça quando atingia 40 quilómetros por hora, a velocidade máxima... 

Avaré, embora pacata, uma vez por outra era sacudida por acontecimentos dramáticos. Quis a Espiritualidade que Herculano Pires presenciasse alguns, certamente para fazê-lo compreender, embora ainda criança, que a terra era um planeta de angústias e que muito havia por se fazer em prol da espiritualização do povo. 

Em seu diário escreveu ele: 

“Ainda criança, vi muita maldade fervendo em Avaré. Vi, à distância de um quarteirão, o velho João do Prado, grandalhão, sair de um cartório da Rua São Paulo, dar alguns passos e cair fulminado pelos tiros de revólver que um advogado lhe desfechara nas costas. Vi, no Largo do Mercado, um homem tombar esfaqueado por outro, esvaindo-se em sangue. Vi Rosinha casar-se por amor e por amor suicidar-se tomando formicida. Vi um homem com a cabeça arrebentada pela própria esposa. E vi crianças chorando na orfandade súbita, porque o pai e a mãe haviam sido mortos pela ferocidade de alguns parentes. E vi ainda – meu Deus, que horror! – um homem carregar pelas ruas da cidade, obrigado pela Polícia, o tronco carbonizado da vítima que tentara destruir pelo fogo.” 

Esses bárbaros crimes de morte, evidentemente, levaram Herculano Pires, menino ainda de cinco ou seis anos de idade, mas dotado de aguda inteligência, a pensar em Deus com frequência. A verdade é que já estava sendo preparado pelos Espíritos, a fim de, quando adulto, cumprir bem a sua missão. 

Notemos agora que desde menino tinha visões espirituais. Esse facto, que teria importância fundamental no decorrer de toda a sua vida, Herculano Pires revelou a Rizzini numa entrevista gravada. Ouçamos as suas palavras: 

“Não eram visões místicas. Eram visões reais. Eu via Espíritos andando pela casa, à noite. Ainda me lembro muito bem, eu era pequenino, me levantava, me firmava na guarda do berço e ficava olhando os Espíritos vagarem pela casa. Não eram apenas Espíritos de mortos. Eu via o Espírito de minha mãe, que estava viva, andar pela casa. Minha mãe dormia e o seu Espírito se desprendia. E isto eu via com bastante frequência. Esses factos provocaram alarme em casa porque, às vezes, via certos Espíritos que me assustavam e então eu gritava e acordava todo o mundo. Vinham saber de mim o que acontecera e meu pai dizia: “Ele está delirando, é preciso saber o que tem esse menino.” Mas, eu explicava o que tinha visto. Certa vez me aconteceu também um facto muito curioso. Eu já tinha uns sete ou oito anos e na casa do meu avô materno, em Avaré, havia um quintal muito grande (meu avô materno era italiano e minha avó materna brasileira). E eu, brincando com as crianças no fundo do quintal cheio de grandes mangueiras, de repente ouvi um estalo esquisito, estranho. Olhei para o lado. Vinha vindo uma velhinha, mais ou menos apressada, com um vestido que parecia estrangeiro e com meias listadas de vermelho e azul; listas circulares em torno da perna. E ainda me lembro também dos sapatões, para mim esquisitos... Ela não me deu satisfação, passou perto de mim e se dirigiu para uma espécie de depósito que havia no quintal, abriu a porta e entrou. A porta bateu e, com o estalo, voltei a mim. Quer dizer, saí daquele encantamento. Fui correndo desesperado para casa, gritando. Meu avô foi o primeiro a sair ao meu encontro: “O que há?”. Eu contei. “Repita isso!” Eu repeti. “Como era ela?” Eu contei. E dei dois detalhes de que hoje não me lembro. Então ele virou-se para minha avó e disse: “É minha mãe! É minha mãe!” Foi um fenómeno que ficou gravado na minha memória.” 

A família de Herculano Pires, já o dissemos, era, então, católica. É inegável que essas visões na infância tinham o objectivo maior de levá-lo, posteriormente, ao encontro do Espiritismo

Herculano Pires, quando criança, foi uma prova vigorosa da reencarnação. Ele trazia da Espiritualidade um lastro cultural vastíssimo adquirido em vidas anteriores e uma vocação perfeitamente definida. Menino notável, com nove anos de idade, calças curtas, ainda nos bancos de uma escola primária na cidade de Itaí, para onde a sua família se transferira em 1920, ele se revelou poeta. Já conhecedor das leis rígidas da arte poética (que prodígio!), o menino redigiu em versos decassílabos um soneto que é, ao contrário do que o vulgo pensa, a forma poética mais difícil de ser dominada. O tema escolhido pelo garoto foi o Largo São João, de Avaré; tema adulto e árido. 

Viveu Herculano Pires em Itaí dos seis aos dez anos de idade. No dia 7 de setembro de 1922 (relembraria ele cinquenta anos depois em uma crónica), “era então um menino de oito anos e formava numa tropa de escoteiros, orgulhoso do meu uniforme cáqui e do meu lenço vermelho tatalando ao pescoço. Meu comandante era o professor Victorino, gordinho e baixo, também vestido de uniforme. E quem proferiu o discurso mais bonito e mais retumbante, comemorando o primeiro centenário da Independência do Brasil, foi naturalmente o meu pai. Na festinha da escola, em dias feriados, éramos dois, eu e a menina Adélia, minha namorada (os primeiros das duas turmas: masculina e feminina), que ficávamos em pé ladeando o mastro, na hora do hasteamento”. 

Quatro anos depois o seu pai, buscando melhoria financeira, fixou residência na cidade de Cerqueira César. Mas por pouco tempo. Voltou a residir com a família em Avaré, onde matriculou o filho na Escola de Comércio, fundada e dirigida pelo Professor Jonas Alves de Almeida, de quem, ao longo da vida, guardaria Herculano Pires a mais grata recordação. Mas não pôde concluir o curso. 

A vida profissional de José Pires Correa não era fácil. E assim, buscando sempre melhores condições para o sustento da família, tornou a residir na cidade de Cerqueira César. Herculano tinha, então, doze anos de idade e... continuava a escrever poesias. 

/... 


Jorge RizziniJosé Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, 1 – O menino poeta, 2º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)

sábado, 14 de janeiro de 2023

apóstolos de verdade ~


Emmanuel, Kardec e a Codificação Espírita 

|João Roberto do Nascimento| 

"Emmanuel, sem dúvida alguma, é o Espírito que mais prestígio tem no cenário espírita brasileiro. O seu trabalho junto do médium mineiro Chico Xavier, é notável em todos os aspectos. Se o Chico triunfou no seu mediunato, não podemos negar, muito deve ao seu Guia Espiritual, Emmanuel, cujo trabalho literário é extenso e envolve todos os ramos do conhecimento. Os seus romances são jóias de inestimável valor. Todavia, mesmo no meio de tanta admiração e respeito que nutrimos por esse Espírito, ainda encontramos lacunas e perguntas relacionadas a alguns assuntos, que nos parecem pouco explicados. 

Algumas vezes, percebo que Emmanuel vai na contramão daquilo que escreveu o Codificador. E, entre Emmanuel e Allan Kardec, eu não tibubeio, fico com Kardec. E lembro hoje de um bate-papo que tive com o Dr. Ary Lex, - inteligente velhinho - que, em certo momento me falou: ‘... não há como negar, os Espíritos que trabalharam com Kardec, eram de longe, muito mais evoluídos e preparados na exposição do Espiritismo do que os Espíritos que hoje se manifestam através do Chico, do Divaldo, ou qualquer outro médium que seja...’, no que concordei plenamente. 

"Quanto a Emmanuel, tenho algumas indagações, que julgo importantes e precisam ser analisadas, levando-se em conta o alto apreço e aceitação que esse Espírito tem no movimento espírita. 

"O escritor Jorge Rizzini, ao escrever o Prefácio do livro "O Corpo Fluídico" de Wilson Garcia, chega mesmo a dizer: ‘... A grande verdade é esta: o Guia do Espiritismo no Brasil, não obstante a publicidade secular da FEB, não é o Espírito Roustainguista Ismael, e, sim, Emmanuel! A obra de Emmanuel prova, de sobejo, a afirmativa’. E é ainda nesse belo Prefácio, que o Rizzini, inspiradíssimo e com fino humor, melhor definiu o Anjo Ismael, dizendo: ‘... Espírito que se diz ‘Anjo’, mas que aconselha Roustaing ao povo ao invés de Kardec, está pedindo doutrinação!’. Nada mais verdadeiro. 

"De nossa parte, notamos que em muitos pontos, Emmanuel contraria Kardec; a) não aconselha, por exemplo, a evocação dos Espíritos, em nenhum caso (O Consolador); b) defende a teoria das Almas Gémeas (ídem), em flagrante contradição com aquilo que disseram os Espíritos a Kardec (O Livro dos Espíritos); c) Apoia a teoria do Corpo Fluídico de Jesus, como declarou o jornalista Luciano dos Anjos, roustainguista declarado, no seu livro ‘Os Adeptos de Roustaing’. E, para comprovar que Emmanuel também é roustainguista, como ele, Luciano dos Anjos cita trechos do livro ‘Vida de Jesus’ de Antonio Lima, e ‘Brasil, coração do Mundo e...’ de Humberto de Campos (Espírito) (...) Mas, não podemos negar, o facto é que todas essas passagens, citadas por Luciano dos Anjos, foram tiradas de livros publicados pela FEB. Ficamos então a meditar se a FEB não teve o cuidado de maquiar ou adulterar trechos, que pudessem ferir os absurdos de Roustaing. De minha parte, acredito que sim, pois acho que a FEB é bem capaz desse artifício. É facto, não é boato, que, para manter o prestígio dessa teoria esdrúxula, a FEB não mediu esforços, nem agiu dignamente em diversas ocasiões, para não ferir a sua convicção, ou denegrir o seu estatuto, que, em seu art. 1º, § único, manda que todos rezem pela cartilha de Roustaing e ainda se intitulam de "Casa Mater do Espiritismo", ignorando que Kardec pulverizou a teoria do corpo fluídico no livro A Génese, no cap. XV, itens 64 a 67, usando de bom senso e de uma lógica irretocável. Seja como for, se Emmanuel realmente aprovava a teoria de Roustaing, ele nunca o declarou abertamente... 

"Outro episódio em que noto contradição entre o que Kardec escreveu e o que Emmanuel ensina, é aquele em que Jesus nos fala da multiplicação dos pães. Para Kardec, foi figurada, visando apenas a um ensino de ordem moral. Já para Emmanuel não foi figurada coisa nenhuma, foi material; sim, o facto ocorreu, materialmente. (...) E Emmanuel chegou mesmo a afirmar que sua esposa Lívia, na época em que ele era senador romano, fora uma das beneficiadas daquele banquete de pão e peixe. (livro "Há 2.000 anos", cap. VII – As pregações do Tiberíades). 

"O escritor A. N. Wilson, que não é espírita, também pensa como Kardec. Foi o que deixou bem claro no seu livro "Jesus, um retracto do homem", edição Ediouro: ‘O fenómeno da multiplicação dos pães não passa de um ensino figurado, de ordem moral, sem a necessidade de ter ocorrido materialmente. E, para se chegar a esta conclusão, basta usar de bom senso, levando-se em conta o que Jesus dizia de si mesmo: ‘Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome’ (João, cap. VI). É o que, por lógica, deduzimos. 

"Agora, vou apontar uma omissão, encontrada no livro "Paulo e Estêvão" do Espírito Emmanuel, psicografado por Chico Xavier. Emmanuel, em parte alguma, cita o nome de Erasto, Discípulo de Paulo. Por que será? E Paulo, o Apóstolo dos Gentios, em sua terceira viagem, enviou dois de seus discípulos à Macedónia. É o que se lê em Actos, cap. XIX, v. 22: ‘E, enviando à Macedónia, dois daqueles que o seguiam, Tomóteo e Erasto, ficou ele por algum tempo na Ásia" e esta outra: "Erasto ficou em Corinto, e deixei Trofimo doente em Mileto" (II Timóteo, cap. IV, v. 20). 

"Como sabemos, Erasto, no tempo da Codificação do Espiritismo, iria desempenhar, e desempenhou, realmente, importante papel junto à falange do Espírito de Verdade. Foi ele quem mais chamou a atenção para o perigo de ideias fantasiosas no meio espírita. É mesmo dele a frase, que se tornou célebre: ‘É preferível rejeitar nove verdades, que aceitar uma só mentira", contida em "O Livro dos Médiuns". E, pergunto, existe mentira maior do que aquela que foi propalada por Roustaing, defendida e divulgada por "uns poucos"?!... 

"Emmanuel, ainda em "Paulo e Estêvão" dá, claramente, a entender que não considera Tiago como irmão de Jesus, contrariando assim o que disse o próprio Paulo. Fico com a pulga atrás da orelha, e reflicto: será que Emmanuel ainda não se encontra em processo de desligamento dos artigos de fé católica?! Pois só para a Igreja, na sua visão obtusa, é que é inadmissível o facto de Jesus ter tido irmãos, pois isto contraria o dogma da virgindade perpétua de Maria. E além da Igreja, também temos o Sr. J.B. Roustaing e a sua ‘Revelação da Revelação’ (ou seria ‘Mistificação da Mistificação?!’) que revive o dogma católico da virgindade de Maria. Quanta bizarria! 

"Emmanuel, em muitos de seus trabalhos literários, romanceia passagens contidas em Actos dos Apóstolos e nos Evangelhos e, ás vezes muda até o próprio contexto das Escrituras. Emmanuel - não podemos negar -, tem uma capacidade invejável, e consegue florir os relatos com uma forte dose de sentimentalismo religioso, sem, contudo, deixar de dar a sua opinião, que pode ser certa ou não, pois é a opinião de um Espírito que abraçou o Espiritismo, mas que ainda guarda consigo - é o que percebemos – ideias e conceitos que se cristalizaram através dos tempos no seu foro íntimo, nas suas encarnações pretéritas, quando viveu na condição de padre e submisso aos dogmas católicos. 

"Estas opiniões particulares de Espíritos que ocupam lugar de destaque no movimento espírita, tornam-se verdades indiscutíveis, devido à falta de estudo de grande parte da comunidade espírita, que, infelizmente, coloca os livros da Codificação em segundo plano, em detrimento de outros livros mediúnicos com conteúdos meio (ou muito) duvidosos. É de se lamentar certas atitudes! 

"Não menosprezamos o trabalho de Emmanuel, de forma alguma, pois reconhecemos o seu valor e admiramos o trabalho gigantesco desse mineirinho querido, que foi o nosso doce Chico Xavier. Mas também não podemos fugir aos imperativos do Espiritismo, que manda que devemos passar tudo pelo crivo da razão e do bom senso" (João Roberto Nascimento é militante espírita de São Paulo/SP e um importante colaborador do Centro de Estudos Espíritas Allan Kardec, do Centro Espírita Três de Outubro, do Centro Espírita Nova Era, do Centro Espírita "O Semeador" e do Centro Espírita Seara do Mestre). 


NOSSO COMENTÁRIO 

Caro companheiro João Roberto Nascimento, os nossos parabéns sinceros pelo trabalho brilhante de crítica doutrinária que realizou, em relação à obra de Emmanuel, onde aparecem, realmente, muitos pontos contraditórios em relação às do Mestre e Missionário Allan Kardec

Mas, de minha parte, não compartilho, de modo algum dos elogios efusivos que você dirigiu ao Guia e Mentor Espiritual de Chico Xavier. 

Para mim, o ex-padre Manoel da Nóbrega só retornou à antiga Colónia, hoje "Pátria do Evangelho", para atrapalhar e mesmo impedir o retorno de Allan Kardec ao planeta, para completar a sua missão, como anunciara o Espírito de Verdade. Obra, portanto, dos jesuítas, inimigos do verdadeiro Espiritismo. Para isso, provocaram uma verdadeira enxurrada de mensagens e livros psicografados, para, assim, desviarem a atenção dos ingénuos, incautos e ignorantes e mesmo de muitos letrados. Chegaram até ao cúmulo de enfiar na cabeça deles que se cumpriu a profecia contida em "Obras Póstumas", pois o Mestre de Lyon, desta vez voltou com feições efeminadas, pusilânime, com uma grande dose de carolismo, um pouco vaidoso e submisso à FEB roustainguista. Grande palhaçada!... 

/... 


Erasto de Carvalho Prestes, in O Franco Paladino, Julho de 2003 / Órgão de divulgação do Espiritismo codificado pelo Mestre Allan Kardec – EMMANUEL, KARDEC E A CODIFICAÇÃO ESPÍRITA / João Roberto do Nascimento, 2º fragmento solto desta obra. 
(imagem de contextualização: Erasto de Carvalho Prestes, O Franco Paladino de Kardec, fotografia de 2009)

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

apóstolos de verdade ~


“Nada há encoberto que não venha a ser descoberto” (Lucas 12:2). 

Elaborar a apresentação desta obra é uma honra. Trata-se de histórica homenagem à maior pena espírita de todos os tempos, por ocasião dos trinta anos de seu passamento. Com muita felicidade e propriedade, o querido mentor espiritual Emmanuel diz ser José Herculano Pires “o metro que melhor mediu Kardec” e “a maior inteligência espírita contemporânea”. De facto, ninguém conseguiu, com tanta maestria e segurança, ser tão profundo no contexto doutrinário, em perfeita sintonia com Jesus e o codificador do Espiritismo, como J. Herculano Pires, “O Apóstolo de Kardec”, assim denominado com máxima justiça por seu amigo e biógrafo Jorge Rizzini

Dotado de incomparável cultura geral e doutrinária, Herculano destaca-se no Jornalismo, na Filosofia e na Parapsicologia. Exímio escritor, poeta e romancista. Emérito educador e fiel tradutor da codificação kardeciana, dedicou quase toda a sua vida à excelsa doutrina, por ele muito amada, o que o tornou seu grande intérprete e defensor. 

Distanciados desse “metro”, alguns irmãos espíritas, infelizmente, fazem ouvidos moucos a devidas advertências em face da intromissão de pensamentos divergentes no nosso meio doutrinário. Claro que todos têm o direito de manifestar seus os pontos de vista. Mas uma coisa é respeitar o pensamento alheio, outra, completamente diferente, é concordar com a tentativa de desfiguração de uma doutrina, como poucas, muito bem nascida. Pode-se até tolerar, porém jamais convir com qualquer ingerência descabida no pensamento espiritista. Aliás, a grande missão do espírita hodierno, singularmente encarnada por J. Herculano Pires, é preservar para as gerações seguintes o inigualável património intelecto-moral codificado por Allan Kardec

A grandiosa obra de amor e de redenção realizada pelo codificador da doutrina espírita não pode ser maculada, directa ou indirectamente, de forma ostensiva ou não. Aquele que, em pretéritas existências, já se revelara destemido e valoroso, personificando um dos mais sapientes sacerdotes celtas (druidas) e, igualmente, o aguerrido reformador religioso John Huss, assassinado pela Inquisição em 1415, tem credenciais inatas para inaugurar a Era do Espírito, sistematizando a doutrina profetizada pelo Cristo, quando este nos prometeu enviar o Consolador. (Cf. João 14, 15 e 16.) 

Muito cómodo é estar na faixa da indiferença; todavia, a voz da consciência soará mais alto na dimensão extrafísica, no momento do autojulgamento, na hora de o ser se encontrar diante de si mesmo... 

A doutrina rustenista, oriunda do livro Os Quatro Evangelhos (Federação Espírita Brasileira), ao lado da ubaldiana, da laicista pan-americana e da ramatisista, embora tenham o propósito de macular o Espiritismo, afiguram-se inofensivas à opinião desavisada de alguns profitentes da Terceira Revelação. Em vez de se informarem sobre tais ideários, verificando os seus ensinos aberrantes, e em seguida participarem dos debates abertos, situam-se na inércia, optando por “ficar em cima do muro”. É que assim estarão sempre “de bem”, poderão frequentar todos os círculos, sem se comprometerem. Alegam vivenciar, desse modo, a caridade, ser fraternos. Mas, em verdade, desconsideram a doutrina espírita e até os ensinos do Cristo, os quais repelem o comodismo dos “lobos fingindo-se de ovelhas” e a “paz de pantanal”. 

O nosso querido Herculano Pires, agindo como verdadeiro cristão, enfrentou com galhardia todos os adversários da luz. Não se omitiu em nenhum momento, mesmo quando as palavras malsãs eram proferidas por amigos. Conhecia muito bem os ensinos de Jesus e exercitava-os com afinco. Compreendia por demais a profundidade da doutrina cristã e a necessidade de preservá-la; por isso, não fugia à luta, em nome da integridade e pureza do Cristianismo, ressuscitado pelo próprio Jesus, na companhia dos “anjos do céu” e, na Terra, erguida sob os cuidados daquela mente grandiosa, encarnada na cidade francesa de Lyon, em 3 de Outubro de 1804: Hippolyte Léon Denisard Rivail

J. Herculano Pires estava ciente do alcance do episódio do Apocalipse em que Jesus abomina a inércia no exercício da religiosidade: “Conheço as tuas obras, que nem és frio, nem quente. Quem dera fosses frio, ou quente! Assim, porque és morno, nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (3:15-16). 

E eis aqui outros ensinos de Jesus contrários à falta de acção: 

“Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura”; “Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte”; “Ninguém pode servir a dois senhores; porque há de aborrecer-se de um e amar ao outro. (Mateus 9:16; 5:13-14 e 6:24.) 

Infelizmente, existem espíritas que se mostram em posição de suposta neutralidade... Algumas vezes, a tolerância excessiva mascara outra apresentação, veste outro significado: a hipocrisia. Verifica-se então o fingimento, a impostura, a simulação dentro do contexto religioso. O Mestre nos alerta: 

Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Nada há encoberto que não venha a ser revelado; e oculto que não venha a ser conhecido. Porque tudo o que dissestes às escuras, será ouvido em plena luz; e o que dissestes aos ouvidos, no interior da casa, será proclamado dos eirados. (Lucas 12:1-3.) 

A união dos espíritas não pode ser imaginária, forçada, fingida. Os que seguem Kardec, diante de conceitos anti-doutrinários, não podem ficar quietos e calados, em nome de uma falsa tolerância ou unidade aparente, voltada tão só a proveitos próprios. Por se haver conservado imune a tudo isso, Herculano merece de todos os seguidores do Espírito de Verdade o devido respeito, numa muito sincera consideração; trata-se de exemplo a ser sempre recordado e com máximo empenho vivido, donde ser para nós matéria estatutária: 

Art. 4.º [...] Parágrafo único. Para inspirá-la à consecução de sua finalidade, a ADE-RJ adoptará como referência a vida e a obra do jornalista, professor, escritor e filósofo José Herculano Pires (1914-1979), cuja memória homenageará todos os anos, em setembro, assim como a de Allan Kardec, em outubro. 

Congratulo-me com a ADE-RJ e com o estimado e corajoso Sergio F. Aleixo pela feitura de tão dignificante obra, fundamental para a implementação de uma nova postura a ser exercitada pelas futuras gerações de espíritas, em homenagem àquele que por excelência a antecipou: o maior defensor da integridade e pureza doutrinária do Espiritismo, vindo a esta dimensão em 1914, na antiga Província do Rio Novo, hoje a cidade de Avaré, no interior do Estado de São Paulo, e liberto daquela vida física em 1979, na Capital: José Herculano Pires, que reverenciamos com esta publicação. 


/... 


Américo Domingos Nunes Filho, in Prefácio à obra de Sergio F. Aleixo – O METRO QUE MELHOR MEDIU KARDEC JOSÉ HERCULANO PIRES, UMA PROFISSÃO DE FÉ ESPÍRITA EM LINHA RETA, fragmento solto desta obra. 
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)

segunda-feira, 13 de junho de 2022

apóstolos de verdade ~


Apresentação ~
(Herculano Pires por Jorge Rizzini) 

Laureado pela Academia Brasileira de Letras e pela Câmara Brasileira do Livro, Caio Porfírio Carneiro (escritor sem vínculo com o Espiritismo) publicou no jornal “Linguagem Viva”, edição de outubro de 2000, uma crónica sobre Herculano Pires, da qual extraio os seguintes tópicos que retractam o mestre: 

“Parece que estou a ver Herculano Pires sentado no bar, em frente ao prédio dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, aqui em São Paulo, onde trabalhava, naquela tarde ensolarada, cercado de amigos, bebendo qualquer coisa, creio que nada alcoólico e, respondendo a nossas perguntas curiosas sobre Espiritismo. Era ele um estudioso e devoto da doutrina, kardecista famoso, convidado anualmente pela direcção do Bradesco para a festa na Cidade de Deus, criação do presidente do Banco, Amador Aguiar, para os funcionários. Era e sempre foi uma festa belíssima do dia de acção de Graças. Compareciam representantes de destaque das mais diversas religiões cristãs. O único que representava uma corrente espiritual não religiosa era Herculano Pires. Quando chegava a sua vez de falar e abria o verbo, encantava a todos. (...) Tipo mais ou menos gordo, estatura mediana, óculos, andar meio bamboleante, rosto cheio, corado, irradiava uma simpatia pessoal muito grande. (...) Não externava a sua cultura, a sua vasta leitura em praticamente todos os campos do conhecimento. Criatura modesta, cavalheiro de primeira linha, simples por natureza. Apenas quando soltava o verbo, como nas festas da Cidade de Deus, o vulcão vinha ao vivo, mostrava-se fulgurante, brilhante, dono de uma inteligência privilegiada.” 

Observações precisas, as de Caio Porfírio Carneiro

José Herculano Pires foi o que podemos chamar homem múltiplo. Em todas as áreas do conhecimento em que desenvolveu actividades – dentro e fora do movimento doutrinário – a sua inteligência superior iluminada pela Doutrina Espírita e pela cultura humanística brilhava com grande magnitude, fazendo o povo crescer espiritualmente. 

Herculano Pires foi mestre em Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia de Araraquara e membro da Sociedade Brasileira de Filosofia. Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e fundador do Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo, que presidiu por longos anos. Director da União Brasileira de Escritores e vice-presidente do Sindicato dos Escritores de São Paulo. Presidente do Instituto Paulista de Parapsicologia. Romancista, recebeu em São Paulo o “Prémio Municipal de Cultura” e foi reconhecido pela crítica como um dos renovadores do romance brasileiro. 

E, o que é mais importante: espírita desde os vinte e dois anos de idade, ninguém no Brasil e no estrangeiro mergulhou tão fundo nas águas cristalinas da Codificação Kardeciana e ninguém defendeu mais – e com mais competência do que ele – a pureza doutrinária, que colocava acima das instituições e dos homens, de que é exemplo a batalha dantesca que travou quando uma edição adulterada de trinta mil exemplares de O Evangelho Segundo o Espiritismo fora publicada por uma das maiores federações espíritas do Brasil. 

“Todo o espírita consciente de suas responsabilidades humanas e doutrinárias está no dever intransferível de lutar contra essas ondas de poluição espiritual que pesam na atmosfera terrena. Ninguém tem o direito de cruzar os braços em nome de uma falsa tolerância que os levará à cumplicidade”, declarou o mestre. (1) 

Para comer o pão da verdade só necessitamos dos dentes do bom-senso, dizia ele. 

Herculano Pires, desde o ano da conversão ao Espiritismo ao de sua desencarnação, ou seja, durante quarenta e três anos ininterruptos, ampliou superlativamente a cultura espírita, propagou e defendeu os princípios doutrinários na Rádio, na TV, nos jornais, no livro e na tribuna. Ele foi o fermento de que nos fala o Evangelho. E, notemos, foi imbatível esse apóstolo de Allan Kardec! As suas principais batalhas doutrinárias estão relatadas nesta biografia com absoluta fidelidade, pois além de testemunhá-las, participei de algumas e seu vasto acervo doutrinário, incluindo o diário íntimo, (2) me fora cedido pela esposa. 

Reencontrei Herculano Pires nesta existência no ano de 1952 na cidade de São Paulo, na tradicional Livraria Teixeira – ponto de encontro de escritores e poetas. Tinha eu vinte e oito anos de idade e ele trinta e oito. É curioso: reencarnamos no dia 25 de setembro. Ele em 1914, durante a primeira grande guerra, e eu dez anos depois, durante a revolução de 1924. Mas a nossa amizade tem raízes em vidas anteriores – desde o tempo de Roma Imperial. Quando as nossas vozes eram ouvidas no senado romano trabalhamos secretamente em favor do triunfo das ideias revolucionárias de Cristo. E, como toquei agora em assunto tão delicado que, certamente, despertará a curiosidade dos leitores, convido-os a ler o trecho de uma conversa de Herculano Pires comigo e por mim gravada em 1972, trecho que somente hoje dou à publicidade, no qual relata ele uma encarnação sua no século XIX (ao tempo de Allan Kardec), quando foi eminente historiador, romancista e poeta português.  

O referido trecho do saudoso companheiro de batalhas espirituais encontra-se no fim deste volume. 

São Paulo, 1º de Dezembro de 2000. 

Jorge Rizzini 

~~*~

Apêndice 

Herculano Pires revela uma sua encarnação 

Na noite de 14 de julho de 1972 gravei em fita magnética a conversa que mantive com Herculano Pires no seu lar após os trabalhos mediúnicos. Trata-se de uma entrevista longa e informal, improvisada, durante a qual ele revelou uma sua encarnação. Eu lhe havia prometido que somente a divulgaria após a sua passagem para o Grande Além. Eis o trecho em questão: (3) 

(Rizzini) – Suponhamos que você, Herculano, estivesse vivendo no século XIX na França e visse nas livrarias de Paris O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, lançado nesse dia nas livrarias. Qual a sua impressão após a leitura da obra? 

(Herculano) – Jorge Rizzini, você me dá a oportunidade de fazer aqui (já que você não pretende divulgar imediatamente; esta é uma fita que vai ficar para o futuro. Eu nunca pensei que tivesse a oportunidade de falar para o futuro. Acho que é uma pretensão muito grande. Mas, em todo o caso, como você está a abrir essa porta, eu vou falar para o futuro). Eu queria dizer que no século passado (XIX) e, isto não é um sonho, uma ilusão, é uma convicção adquirida através de pesquisas que eu fiz e que nunca revelei a ninguém, levado por uma revelação; uma revelação inesperada através de um médium inteiramente ignorante do assunto e que me abriu o caminho para uma possibilidade muito interessante. Vamos esclarecer isto. No século XIX eu estive na França, realmente, mas não era francês. Eu era português. Eu morava em Portugal, onde tive uma encarnação. Eu fui parar a França como exilado. E como exilado tomei conhecimento do Espiritismo, mas não o aceitei porque eu era católico. E era um tipo católico muito comum, aliás, em Portugal, naquela época. Discordava dos padres, brigava com o clero e não aceitava muito o catolicismo. O meu desejo era encontrar uma forma de fazer o Cristianismo voltar ao seu estado primitivo, quer dizer, voltar à verdade pura do Cristo. Era este o meu desejo. Como naquela época eu era também jornalista, como sou hoje, isso ficou gravado em alguns jornais portugueses, o que se pode constatar. 

(Rizzini) – Um pormenor, Herculano. Você se lembraria do nome que tinha? 

(Herculano) – Eu não quero dizer, Rizzini. Você me perdoa isso, mas eu não quero dizer. Eu sei que nessa ocasião... 

(Rizzini) – Mas esta é uma entrevista para o futuro. 

(Herculano) – Sim, eu sei, mas o futuro depois verá. Mas eu tive, então, oportunidade de saber que se estava processando uma nova revelação, mas Portugal era um país profundamente católico e qualquer infiltração de outra religião lá seria prejudicial, porque o povo não estava à altura, segundo eu pensava, de aceitar uma nova concepção de Deus. Então, não adoptei o Espiritismo. Continuei católico até ao fim, mas um católico às avessas, porque continuamente em luta com o próprio clero. Então, eu diria a você: não tenho a certeza que eu vi algum livro espírita, mas sei que tive conhecimento do Espiritismo. Mas se eu visse O Livro dos Espíritos em Paris, nesse dia 14 de julho, naquela época (na data da tomada da Bastilha) eu, certamente, não teria o impacto que hoje me provocaria essa visão. Porque não sabia ainda o que era o Espiritismo, nem tinha possibilidade de saber que ele realizava aquele meu sonho: o sonho da volta ao Cristianismo primitivo. Só depois de passar para o mundo espiritual foi que eu tive contacto pleno com a nova revelação. Interessante: foi no Espaço que eu me tornei espírita. Quando eu vim para a Terra, portanto, nascendo aqui no Brasil dessa vez – e nascendo em Avaré, no Estado de São Paulo, no dia 25 de setembro de 1914... 

(Rizzini) – E no meio católico... 

(Herculano) – Também numa família católica. Tendo educação católica, eu, entretanto, já trazia ideias espíritas bem acentuadas, que se foram revelando em mim independentemente de qualquer influência exterior. De maneira que, agora sim, se eu tivesse depois disso um encontro com O Livro dos Espíritos numa livraria de Paris, para mim seria uma grande emoção, uma emoção extraordinária. 

(Rizzini) – E se você encontrasse numa das ruas do centro de Paris, de súbito, ao dobrar uma esquina, a figura de Allan Kardec? 

(Herculano) – Bem... Se eu o encontrasse agora, nesta época, quer dizer, depois que sou espírita, então para mim seria uma coisa extraordinária, porque Allan Kardec representa a figura exponencial dos novos tempos na Terra. Jesus veio para implantar no mundo o Reino de Deus – e realmente ele realizou esse trabalho maravilhoso, pois implantou-o no coração e na consciência dos poucos homens que foram capazes de compreendê-lo até hoje – e o Reino de Deus vai desenvolvendo-se lentamente através dos séculos, vai realizando-se apesar dos homens. De maneira que Jesus representou essa figura extraordinária, e Kardec é o seu continuador. Kardec foi aquele que veio trabalhar na era decisiva da implantação do Reino de Deus em maior amplitude. Kardec é quem trouxe a revelação que o Espírito de Verdade transmitiu; ele trouxe essa possibilidade extraordinária de abrir as perspectivas do mundo para uma era inteiramente nova que está nascendo aos nossos olhos neste momento, neste século XX. 

Herculano Pires, certamente tomado por um súbito sentimento de pejo, não revelou o nome que tivera na existência anterior em Portugal, mas anos depois de sua desencarnação pesquisei a vida dos grandes vultos da literatura lusitana do século XIX e descobri inúmeros pontos de contacto (a começar pelo nome) entre ele e o célebre jornalista, romancista, poeta e historiador Alexandre Herculano, o qual ao tempo de Allan Kardec se exilara na França. O mesmo carácter impoluto e inflexível; o sentimento religioso; a oposição ao clero; o amor à literatura, particularmente à poesia e ao romance; e, sobretudo, a fidelidade à verdade. 

A propósito da extremada fidelidade à verdade, medite o leitor sobre o seguinte texto, mas procurando descobrir se o autor é o Herculano nascido em Portugal ou o brasileiro: 

“Quando a justiça de Deus põe a pena na destra do historiador, ao passo que lhe põe na esquerda os documentos indubitáveis de crimes que pareciam escondidos para sempre debaixo das lousas, ele deve seguir avante sem hesitar, embora a hipocrisia ruja em redor, porque a missão do historiador tem nesse caso o que quer que seja de divina.” (4) 

Parece-nos evidente tratar-se de um só Espírito. 

As informações sobre a reencarnação de Herculano Pires foram por mim guardadas, sigilosamente, durante décadas. Somente dias atrás, em conversa com Heloísa Pires, me referi à pesquisa, mas antes que lhe revelasse o resultado ela exclamou sorrindo: 

– Meu pai é a reencarnação de Alexandre Herculano. O pai, certa vez, comentou isso! 

Não foi, pois, por outra razão que quatro anos antes da desencarnação Herculano Pires redigira um extenso e belo artigo exaltando a sua antiga pátria e o renascimento do movimento espírita lusitano. (5) 

Não estamos, porém, dogmatizando, mesmo porque o julgamento final cabe, evidentemente, ao leitor. 

/... 
(1) Vide a obra Curso Dinâmico de Espiritismo, capítulo 20, editora Paidéia. 
(2) Herculano Pires desde menino gostava de fazer anotações num diário. Escreveu vários. Num deles anotou estes pensamentos: “Às vezes me pergunto por que este prazer mórbido de registar num diário os acontecimentos, os pensamentos, as emoções, as ocorrências de uma vida obscura. (...) O facto é que anoto, registo, comento, protesto, censuro e louvo para mim mesmo – ao menos assim me parece – mas nem por isso deixo de pensar, às vezes, que estes rabiscos possam ter um destino diferente, um endereço oculto.” Palavras proféticas, porque os rabiscos de Herculano Pires tinham, realmente, um endereço oculto: o meu, o de seu futuro biógrafo. 
(3) A entrevista completa encontra-se no meu livro Imortalidade
(4) Texto extraído do volume terceiro, página 192, da obra Opúsculos, de Alexandre Herculano (autor, inclusive, da História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal). 
(5) Vide a revista “Estudos Psíquicos”, de Lisboa, edição de junho de 1975. 


Jorge RizziniJosé Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, Apresentação e, Apêndice – Herculano Pires revela uma sua encarnação, 1º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Jorge Rizzini, o homem) 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

apóstolos de verdade ~

Apresentação '

Laureado pela Academia Brasileira de Letras e pela Câmara Brasileira do Livro, Caio Porfírio Carneiro (escritor sem vínculo com o Espiritismo) publicou no jornal “Linguagem Viva”, edição de outubro de 2000, uma crónica sobre Herculano Pires, da qual extraio os seguintes tópicos que retratam o mestre:

“Parece que estou vendo Herculano Pires sentado no bar, em frente ao prédio dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, aqui em São Paulo, onde trabalhava, naquela tarde ensolarada, cercado de amigos, bebendo qualquer coisa, creio que nada alcoólico, e respondendo nossas perguntas curiosas sobre Espiritismo. Era ele um estudioso e devoto da doutrina, kardecista famoso, convidado anualmente pela direcção do Bradesco para a festa na Cidade de Deus, criação do presidente do Banco, Amador Aguiar, para os funcionários. Era e sempre foi uma festa belíssima do dia de acção de Graças. Compareciam representantes de destaque das mais diversas religiões cristãs. O único que representava uma corrente espiritual não religiosa era Herculano Pires. Quando chegava a sua vez de falar e abria o verbo, encantava a todos. (...) Tipo mais ou menos gordo, estatura mediana, óculos, andar meio bamboleante, rosto cheio, corado, irradiava uma simpatia pessoal muito grande. (...) Não externava sua cultura, sua vasta leitura em praticamente todos os campos do conhecimento. Criatura modesta, cavalheiro de primeira linha, simples por natureza. Apenas quando soltava o verbo, como nas festas da Cidade de Deus, o vulcão vinha ao vivo, mostrava-se fulgurante, brilhante, dono de uma inteligência privilegiada.”

Observações precisas, as de Caio Porfírio Carneiro.

José Herculano Pires foi o que podemos chamar homem múltiplo. Em todas as áreas do conhecimento em que desenvolveu actividades – dentro e fora do movimento doutrinário – a sua inteligência superior iluminada pela Doutrina Espírita e pela cultura humanística brilhava com grande magnitude, fazendo o povo crescer espiritualmente.

Herculano Pires foi mestre em Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia de Araraquara e membro da Sociedade Brasileira de Filosofia. Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e fundador do Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo, que presidiu por longos anos. Director da União Brasileira de Escritores e vice-presidente do Sindicato dos Escritores de São Paulo. Presidente do Instituto Paulista de Parapsicologia. Romancista, recebeu em São Paulo o “Prémio Municipal de Cultura” e foi reconhecido pela crítica como um dos renovadores do romance brasileiro.

E, o que é mais importante: espírita desde os vinte e dois anos de idade, ninguém no Brasil e no estrangeiro mergulhou tão fundo nas águas cristalinas da Codificação Kardeciana e ninguém defendeu mais – e com mais competência do que ele – a pureza doutrinária, que colocava acima das instituições e dos homens, de que é exemplo a batalha dantesca que travou quando uma edição adulterada de trinta mil exemplares de O Evangelho Segundo o Espiritismo fora publicada por uma das maiores federações espíritas do Brasil.

“Todo espírita consciente de suas responsabilidades humanas e doutrinárias está no dever intransferível de lutar contra essas ondas de poluição espiritual que pesam na atmosfera terrena. Ninguém tem o direito de cruzar os braços em nome de uma falsa tolerância que os levará à cumplicidade”, declarou o mestre. (i)

(i) Vide a obra Curso Dinâmico de Espiritismo, capítulo 20, editora Paidéia.

Para comer o pão da verdade só necessitamos dos dentes do bom-senso, dizia ele.

Herculano Pires, desde o ano da conversão ao Espiritismo ao de sua desencarnação, ou seja, durante quarenta e três anos ininterruptos, ampliou superlativamente a cultura espírita, propagou e defendeu os princípios doutrinários no Rádio, na TV, nos jornais, no livro e na tribuna. Ele foi o fermento de que nos fala o Evangelho. E, notemos, foi imbatível esse apóstolo de Allan Kardec! As suas principais batalhas doutrinárias estão relatadas nesta biografia com absoluta fidelidade, pois além de testemunhá-las, participei de algumas e seu vasto acervo doutrinário, incluindo o diário íntimo, (ii) me fora cedido pela esposa.

(ii) Herculano Pires desde menino gostava de fazer anotações num diário. Escreveu vários. Num deles anotou estes pensamentos: “Às vezes me pergunto por que este prazer mórbido de registar num diário os acontecimentos, os pensamentos, as emoções, as ocorrências de uma vida obscura. (...) O facto é que anoto, registo, comento, protesto, censuro e louvo para mim mesmo – ao menos assim me parece – mas nem por isso deixo de pensar, às vezes, que estes rabiscos possam ter um destino diferente, um endereço oculto.” Palavras proféticas, porque os rabiscos de Herculano Pires tinham, realmente, um endereço oculto: o meu, o de seu futuro biógrafo.

Reencontrei Herculano Pires nesta existência no ano de 1952 na cidade de São Paulo, na tradicional Livraria Teixeira – ponto de encontro de escritores e poetas. Tinha eu vinte e oito anos de idade e ele trinta e oito. É curioso: reencarnamos no dia 25 de setembro. Ele em 1914, durante a primeira grande guerra, e eu dez anos depois, durante a revolução de 1924. Mas a nossa amizade tem raízes em vidas anteriores – desde o tempo de Roma Imperial. Quando as nossas vozes eram ouvidas no senado romano trabalhamos secretamente em favor do triunfo das ideias revolucionárias de Cristo. E, como toquei agora em assunto tão delicado que, certamente, despertará a curiosidade dos leitores, convido-os a ler o trecho de uma conversa de Herculano Pires comigo e por mim gravada em 1972, trecho que somente hoje dou à publicidade, no qual relata ele uma encarnação sua no século XIX (ao tempo de Allan Kardec), quando foi eminente historiador, romancista e poeta português.

O referido trecho do saudoso companheiro de batalhas espirituais encontra-se no fim deste volume.

São Paulo, 1º de Dezembro de 2000.

Jorge Rizzini
Apêndice

Herculano Pires revela uma sua encarnação

Na noite de 14 de julho de 1972 gravei em fita magnética a conversa que mantive com Herculano Pires no seu lar após os trabalhos mediúnicos. Trata-se de uma entrevista longa e informal, improvisada, durante a qual ele revelou uma sua encarnação. Eu lhe havia prometido que somente a divulgaria após a sua passagem para o Grande Além. Eis o trecho em questão: (iii)

(iii) A entrevista completa encontra-se no meu livro Imortalidade.

(Rizzini) – Suponhamos que você, Herculano, estivesse vivendo no século XIX na França e visse nas livrarias de Paris O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, lançado nesse dia nas livrarias. Qual a sua impressão após a leitura da obra?

(Herculano) – Jorge Rizzini, você me dá a oportunidade de fazer aqui (já que você não pretende divulgar imediatamente; esta é uma fita que vai ficar para o futuro. Eu nunca pensei que tivesse a oportunidade de falar para o futuro. Acho que é uma pretensão muito grande. Mas, em todo o caso, como você está abrindo essa porta, eu vou falar para o futuro). Eu queria dizer que no século passado (XIX), e isto não é um sonho, uma ilusão, é uma convicção adquirida através de pesquisas que eu fiz e que nunca revelei a ninguém, levado por uma revelação; uma revelação inesperada através de um médium inteiramente ignorante do assunto e que me abriu o caminho para uma possibilidade muito interessante. Vamos esclarecer isto. No século XIX eu estive na França, realmente, mas não era francês. Eu era português. Eu morava em Portugal, onde tive uma encarnação. Eu fui parar a França como exilado. E como exilado tomei conhecimento do Espiritismo, mas não o aceitei porque eu era católico. E era um tipo católico muito comum, aliás, em Portugal, naquela época. Discordava dos padres, brigava com o clero e não aceitava muito o catolicismo. O meu desejo era encontrar uma forma de fazer o Cristianismo voltar ao seu estado primitivo, quer dizer, voltar à verdade pura do Cristo. Era este o meu desejo. Como naquela época eu era também jornalista, como sou hoje, isso ficou gravado em alguns jornais portugueses, o que se pode constatar.

(Rizzini) – Um pormenor, Herculano. Você se lembraria do nome que tinha?

(Herculano) – Eu não quero dizer, Rizzini. Você me perdoa isso, mas eu não quero dizer. Eu sei que nessa ocasião...

(Rizzini) – Mas esta é uma entrevista para o futuro.

(Herculano) – Sim, eu sei, mas o futuro depois verá. Mas eu tive, então, oportunidade de saber que se estava processando uma nova revelação, mas Portugal era um país profundamente católico e qualquer infiltração de outra religião lá seria prejudicial, porque o povo não estava à altura, segundo eu pensava, de aceitar uma nova concepção de Deus. Então, não adoptei o Espiritismo. Continuei católico até ao fim, mas um católico às avessas, porque continuamente em luta com o próprio clero. Então, eu diria a você: não tenho certeza que eu vi algum livro espírita, mas sei que tive conhecimento do Espiritismo. Mas se eu visse O Livro dos Espíritos em Paris, nesse dia 14 de julho, naquela época (na data da tomada da Bastilha) eu, certamente, não teria o impacto que hoje me provocaria essa visão. Porque não sabia ainda o que era o Espiritismo, nem tinha possibilidade de saber que ele realizava aquele meu sonho: o sonho da volta ao Cristianismo primitivo. Só depois de passar para o mundo espiritual foi que eu tive contacto pleno com a nova revelação. Interessante: foi no Espaço que eu me tornei espírita. Quando eu vim para a Terra, portanto, nascendo aqui no Brasil dessa vez – e nascendo em Avaré, no Estado de São Paulo, no dia 25 de setembro de 1914...

(Rizzini) – E no meio católico...

(Herculano) – Também numa família católica. Tendo educação católica, eu, entretanto, já trazia ideias espíritas bem acentuadas, que se foram revelando em mim independentemente de qualquer influência exterior. De maneira que, agora sim, se eu tivesse depois disso um encontro com O Livro dos Espíritos numa livraria de Paris, para mim seria uma grande emoção, uma emoção extraordinária.

(Rizzini) – E se você encontrasse numa das ruas do centro de Paris, de súbito, ao dobrar uma esquina, a figura de Allan Kardec?

(Herculano) – Bem... Se eu o encontrasse agora, nesta época, quer dizer, depois que sou espírita, então para mim seria uma coisa extraordinária, porque Allan Kardec representa a figura exponencial dos novos tempos na Terra. Jesus veio para implantar no mundo o Reino de Deus – e realmente ele realizou esse trabalho maravilhoso, pois o implantou no coração e na consciência dos poucos homens que foram capazes de compreendê-lo até hoje – e o Reino de Deus vai desenvolvendo-se lentamente através dos séculos, vai realizando-se apesar dos homens. De maneira que Jesus representou essa figura extraordinária, e Kardec é o seu continuador. Kardec foi aquele que veio trabalhar na era decisiva da implantação do Reino de Deus em maior amplitude. Kardec é quem trouxe a revelação que o Espírito de Verdade transmitiu; ele trouxe essa possibilidade extraordinária de abrir as perspectivas do mundo para uma era inteiramente nova que está nascendo aos nossos olhos neste momento, neste século XX.

Herculano Pires, certamente tomado por um súbito sentimento de pejo, não revelou o nome que tivera na existência anterior em Portugal, mas anos depois de sua desencarnação pesquisei a vida dos grandes vultos da literatura lusitana do século XIX e descobri inúmeros pontos de contacto (a começar pelo nome) entre ele e o célebre jornalista, romancista, poeta e historiador Alexandre Herculano, o qual ao tempo de Allan Kardec se exilara na França. O mesmo carácter impoluto e inflexível; o sentimento religioso; a oposição ao clero; o amor à literatura, particularmente à poesia e ao romance; e, sobretudo, a fidelidade à verdade.

A propósito da extremada fidelidade à verdade, medite o leitor sobre o seguinte texto, mas procurando descobrir se o autor é o Herculano nascido em Portugal ou o brasileiro:

“Quando a justiça de Deus põe a pena na destra do historiador, ao passo que lhe põe na esquerda os documentos indubitáveis de crimes que pareciam escondidos para sempre debaixo das lousas, ele deve seguir avante sem hesitar, embora a hipocrisia ruja em redor, porque a missão do historiador tem nesse caso o que quer que seja de divina.” (iv)

(iv) Texto extraído do volume terceiro, página 192, da obra Opúsculos, de Alexandre Herculano (autor, inclusive, da História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal).

Parece-nos evidente tratar-se de um só Espírito.

As informações sobre a reencarnação de Herculano Pires foram por mim guardadas, sigilosamente, durante décadas. Somente dias atrás, em conversa com Heloísa Pires, me referi à pesquisa, mas antes que lhe revelasse o resultado ela exclamou sorrindo:

– Meu pai é a reencarnação de Alexandre Herculano. O pai, certa vez, comentou isso!

Não foi, pois, por outra razão que quatro anos antes da desencarnação Herculano Pires redigira um extenso e belo artigo exaltando a sua antiga pátria e o renascimento do movimento espírita lusitano. (v)

(v) Vide a revista “Estudos Psíquicos”, de Lisboa, edição de junho de 1975.

Não estamos, porém, dogmatizando, mesmo porque o julgamento final cabe, evidentemente, ao leitor.

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Jorge Rizzini, José Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, Apresentação e, Apêndice – Herculano Pires revela uma sua encarnação, 1º.s fragmentos soltos da obra.
(imagem de ilustração: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)