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domingo, 12 de novembro de 2023

belo maio | bela como os lírios ~


XVI

Jeanne d'Arc e o ideal céltico ~

(I de IV)

Ó terra de granito esmaltada de carvalhos!

Uma noite, o Espírito de J. Michelet, precedendo e anunciando o de Jeanne d'Arc, dirigiu-nos estas palavras, no decorrer de uma das nossas reuniões de estudo:

“Jeanne adquiriu nas suas existências anteriores o sentimento dos grandes deveres que teria de cumprir. Encontrámo-nos muitas vezes nesses longínquos tempos. O laço que desde então se estabeleceu entre nós a atrai. Ela vos inspirará, do mesmo modo pelo qual me inspirou a mim. O meu livro não foi mais do que um eco da sua paixão pela França e pela verdade. Vai agora descer, para vos transmitir uma parcela da verdade divina.”

Jeanne, como todas as almas que connosco percorrem o ciclo imenso da evolução, contou numerosas existências na Terra. Algumas foram brilhantes, vividas sobre os degraus de um trono; outras obscuras; todas, porém, de resultados fecundos para o seu próprio adiantamento e benéficas para os seus semelhantes.

As primeiras transcorreram durante o período céltico, no país de Armor. Lá é que a sua personalidade se impregnou dessa natureza particular, feita de ideal, de intrepidez e de mística poesia, que a caracteriza no décimo quinto século.

Desde a infância em Domremy, aprazia-lhe frequentar os lugares onde se celebraram os ritos druídicos: os bosques de carvalho, testemunhas das antigas evocações das almas, as fontes sagradas, os monumentos de pedras brutas, esparsas aqui e ali, nos arredores da aldeia. Gostava de adentrar-se na espessa floresta, para lhe escutar as harmonias, quando, sacudindo-a, o vento a fazia vibrar qual harpa gigantesca. Com o olhar de vidente, distinguia, por sob as abóbadas verdejantes, as misteriosas sombras dos que presidiam àquelas evocações e aos sacrifícios. Entre os seus guias invisíveis, poder-se-ia deparar com os Espíritos protectores das Gálias, os mesmos que em todas as eras prestaram assistência aos filhos de Artur e de Merlin e dão aos que lutam por uma causa nobre a vontade e o amor que conduzem à vitória.

Feneceu nas ramagens o visco, nos lares apagou-se a chama sagrada; mas, no coração de Jeanne, vívida estará sempre a fé nas vidas inextinguíveis e nos mundos superiores. Os historiadores, que lhe souberam analisar e compreender o carácter, reconheceram nele os influxos de uma dupla corrente – céltica e cristã, cuja origem ela própria nos indicará em breve. Henri Martin, notadamente, a acentuou nas páginas de sua História. Em primeiro lugar, ele assinala, nos seguintes termos, as lembranças deixadas pelos Celtas, ainda vivas no tempo da heroína:

“Próximo da casa de Jeanne d'Arc passava uma vereda que, atravessando tufos de groselheiras, subia o outeiro a cujo cimo, coberto de mata, era dado o nome de Bois Chesnu. A meia encosta, debaixo de grande faia isolada, borbotava uma fonte, objecto de culto tradicional. Nas suas águas claras, desde tempos imemoráveis, buscavam a cura os enfermos que a febre atormentava... Seres misteriosos, anteriores entre nós ao cristianismo e que os camponeses nunca assentiram em confundir com os espíritos infernais da legenda cristã, os génios das águas, das pedras e dos bosques, as senhoras fadasfrequentavam a cristalina fonte e a faia secular, que se chamava o Belo Maio. Ao entrar a primavera, vinham as donzelas dançar em baixo da árvore de Maio, “bela como os lírios” e pendurar-lhe nos galhos, em honra das fadas Celtas, grinaldas que desapareciam durante a noite, segundo era voz geral”. (i)

Descreve em seguida as impressões da virgem Lorena:

“As duas grandes correntes que se haviam juntado para dar nascimento à poesia cavalheiresca, a do sentimento céltico e a do sentimento cristão, misturaram-se de novo para formar essa alma predestinada. A jovem pastora umas vezes sonha ao pé da árvore de Maio, ou sob os robles, doutas, passa horas esquecidas no fundo da pequenina igreja, em êxtase diante das santas imagens que resplandecem nas vidraças... Quanto às fadas, ela nunca as viu ao luar, descrevendo os círculos de suas danças, em volta do Belo Maio. A sua madrinha, porém, outrora as encontrara e Jeanne julga perceber de quando em quando formas imprecisas, nos vapores do crepúsculo: gemem vozes à tarde nos ramos dos carvalhos; as fadas já não dançam – choram: é o lamento da velha Gália que expira!”. (ii)

Finalmente, falando do processo de Ruão, diz ainda o mesmo autor: (iii)

“Jeanne soube opor o livre génio gaulês ao clero romano, que intentava pronunciar-se em definitivo sobre a existência da França. Por seu intermédio, o génio místico reivindica os direitos da personalidade humana, com a mesma força que o génio filosófico; a mesma alma, a grande alma da Gália, desabrochada no Santuário do Carvalho, brota igualmente no livre-arbítrio de Lérins e do Paracleto, na soberana independência da inspiração de Jeanne d'Arc e no Eu de Descartes.”

A própria Jeanne, confirmando esses modos de ver, assim se exprimia numa mensagem que ditou em Paris, no ano de 1898: (iv)

“Remontemos, por instantes, ao curso das idades, a fim de aprenderdes o caminho que percorri, preparando-me para transpor a etapa dolorosa que conheceis.

“Múltiplas foram as existências que contribuíram para o meu progresso espiritual. Decorreram na velha Armorica, debaixo do zimbório dos grandes robles seculares, cobertos do visco sagrado. Foi lá que, lentamente, me encaminhei para o estudo das leis do Espírito e para o culto da pátria.

“Oh! entre todas, benditas as horas em que o bardo, com os seus cantares alegres, nos fazia palpitar os corações e nos abria os olhos para a luz, permitindo-nos entrever as maravilhas do infinito! Ensinava-nos então que o passar da morte à ressurreição gloriosa do Espírito, no espaço, representa uma simples transformação, sombria, ou luminosa, conforme o homem se conduziu nesse mundo: ou seguindo a estrada da justiça e do amor, ou deixando-se dominar pelas forças avassaladoras da matéria. Fazia-nos compreender as leis da solidariedade e da abnegação; instruía-nos sobre o que era a prece, dizendo: “Orar é triunfar; a prece é o motor de que o pensamento se serve, para estimular as faculdades do Espírito, as quais, no espaço, constituem a sua ferramenta. A prece é o ímã poderoso do qual se desprende o fluido magnético espiritual, que, não só pode aliviar e curar, como também descerra ao Espírito horizontes sem fim e lhe dá azo de satisfazer ao desejo de conhecer e aproximar-se continuamente da fonte divina, donde emanam todas as coisas. A prece é o fio condutor que põe a criatura em relação com o Criador e com os seus missionários.”

“Um dia, compenetrada dessas verdades, adormeci e tive a seguinte visão: Assisti, primeiramente, a muitos combates, oh! impossível de serem evitados por efeito do livre-arbítrio de cada um; mas, sobretudo, por motivo do amor ao ouro e à dominação, os dois flagelos da Humanidade. Depois, descortinei claramente a grandeza futura da França e o seu papel de civilizadora no porvir. Deliberei consagrar-me muito particularmente a essa obra.

“Logo me vi rodeada de uma multidão simpática, que na maior parte chorava e deplorava a minha perda. Em seguida, o veneno, o cadafalso, a fogueira passam vagarosamente por diante de mim. Senti as labaredas devorando-me as carnes e desmaiei!... Vozes amigas chamaram-me à vida e me disseram: “Espera! A falange celeste que tem por missão velar sobre esse globo te escolheu para secundá-la nos seus trabalhos e assim acelerar o teu progresso espiritual. Mortifica a tua carne, a fim de que as suas leis não possam ser obstáculo ao teu Espírito. A provação será curta, porém rude. Ora e a força te será dada: colherás da tua obra todas as bênçãos nos tempos vindouros. Assegurarás a vitória da fé arrazoada contra o erro e a superstição. Prepara-te para fazer em tudo a vontade do Senhor, a fim de que, chegada a ocasião, tenhas adquirido bastante energia moral para resistir aos homens e obedecer a Deus! Seguindo estes conselhos, os mensageiros do céu virão a ti, ouvirás as suas vozes, eles te guiarão e aconselharão; podes ficar tranquila, não te hão de abandonar!”

“Como descrever o supremo anelo que se apoderou de mim! Senti o aguilhão do amor penetrar todo o meu ser. Já não tive outro objectivo que não fosse trabalhar pela libertação espiritual deste país abençoado, em que acabava de saborear o pão da vida e de beber pela taça dos fortes. Essa visão foi para a minha alma um celestial viático.”

/... 
(i) Henri Martin – Histoire de France, t. VI, páginas 138 e 193.
(ii) Ibidem, pág. 140.
(iii) Ibidem, t. VI, pág. 302.
(iv) Ver: Revue Seientifique et Morale du Spiritisme, Janeiro de 1898.


Léon Denis, Jeanne d’Arc Médium, Segunda Parte – As missões de Jeanne d'Arc, XVI Jeanne d’Arc e o ideal céltico (I de IV) 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L'Annonciation, óleo sobre painel (1901), de Edgard Maxence

quarta-feira, 26 de julho de 2023

o sentido da vida ~


Espiritismo e Cristianismo ~ 

Partimos do sentido religioso do Espiritismo, do seu aspecto de consolação e orientação para a vida terrena. Analisamos a sua posição em face de problemas fundamentais da religião, como a existência de Deus, que o Espiritismo coloca em termos racionais e quase objectivos e, entramos no terreno da interpretação filosófica e da comprovação científica dos fenómenos que provam a sobrevivência da alma. Discutimos com os teólogos, os filósofos e os cientistas, mostramos a incoerência da posição actual da ciência em face dos seus próprios princípios e o caminho único que lhe cabe tomar, para a verdadeira solução do problema espírita. Analisamos ainda a posição filosófica da Doutrina dos Espíritos, a conclusão a que os seus postulados nos levam no terreno complexo da sociologia política e alvitramos uma solução para o trabalho social e político dos espíritas, no mundo de desvalorizações em que estamos a viver. Resta-nos agora, antes das conclusões práticas e de tentarmos uma súmula do Espiritismo em rápidos traços, focalizar alguns pontos de exeges teológica, pontos esses que têm servido de armas para o desvio, do caminho espírita, de muitas almas sensíveis e impressionáveis, facilmente confundidas pelos sofismas clericais do catolicismo e do protestantismo. 

Não esmiuçaremos o problema histórico das acusações de satanismo, formuladas pelos clérigos de várias igrejas cristãs, porque como vimos, esse problema resolve-se à luz dos textos sagrados, ao mesmo tempo em que, hoje em dia, está perdendo sentido nos próprios meios clericais. Mas há outras acusações que devem ser estudadas. Entre elas, sobressai, a nosso ver, a que nega ao Espiritismo a natureza de terceira e última revelação cristã, elo final do conjunto bíblico, obra do Espírito da Verdade, do Paracleto, do consolador prometido por Cristo

Desde as suas primeiras manifestações, os espíritos incumbidos de transmitir a Allan Kardec os princípios fundamentais da nova doutrina fizeram sentir a estreita relação existente entre a mesma e o Cristianismo. O Espírito da Verdade foi o seu guia e, já em O Livro dos Espíritos, pedra fundamental da doutrina, vemos como se entranham o Espiritismo e o Cristianismo, de tal maneira, que separá-los seria produzir uma dupla mutilação. 

Há alguns espíritas que dizem o contrário e, sabemos que mesmo entre nós, no Brasil, houve, desde os primórdios da preparação do Espiritismo, elementos que se diziam “Espíritas puros”, ou seja, simplesmente espíritas, firmados nos princípios de O Livro dos Espíritos, sem nenhuma ligação com o Cristianismo. Se, entretanto, nos dermos ao trabalho de ler aquele livro, veremos que essa atitude não passa de um dos muitos equívocos a que tão facilmente se entregam os intelectuais, mormente em face de doutrinas novas. O espírita não cristão pode basear-se em tudo, menos no O Livro dos Espíritos, que é um texto cristão, prosseguindo naturalmente de O Novo Testamento, como este o é do Verbo

Nos Estados Unidos e em alguns países da América Central firmou-se há tempos um movimento de características regionalistas, que pretendia apresentar o Espiritismo como doutrina americana, surgida e propagada na América. Rejeitava-se assim a codificação kardeciana, para tomar como base alguns estudos esparsos elaborados na América. O Espiritismo teria nascido, não em Paris, com o lançamento, a 18 de Abril de 1857, de O Livro dos Espíritos, mas em Hydesville, nos Estados Unidos, a 31 de Março de 1948, com o aparecimento dos fenómenos históricos da casa da família Fox. Chegou mesmo a fixar-se, no local onde existiu a cabana das famosas irmãs Fox, um obelisco com os dizeres Aqui nasceu o Neo-Espiritualismo

A verdade dos factos mostra-nos, porém, o contrário. Fenómenos espíritas ocorreram em todos os tempos e, os verificados com as irmãs Fox não foram nem os primeiros nem os últimos. Nem mesmo na época, tiveram eles qualquer primazia. Basta lembrar os trabalhos magníficos de Jonathan Koons e a sua câmara-espírita, lá mesmo, nos Estados Unidos e, o estupendo florescimento de mediunidades na Europa, com a multiplicação de médiuns e fenómenos por todo o velho continente, para compreendermos que os factos da família Fox atingiram a proeminência em virtude de circunstâncias particulares, que os destacaram face à opinião pública americana e os projectaram mais tarde na mundial. Constituíram, sem dúvida, um dos meios utilizados pelo Espírito da Verdade, para a mais rápida propagação dos princípios espíritas e o início da nova era na Terra. Mas somente em França, com Allan Kardec e, através de O Livro dos Espíritos, o Espiritismo tomou corpo, se firmou como doutrina filosófica, de bases científicas e de consequências religiosas, de natureza essencialmente cristã. 

Afirmam os livros da codificação kardeciana, afirmaram-no os espíritos que presidiram ao trabalho de Kardec, que o Espiritismo é obra do Espírito da Verdade, incumbido de preparar na Terra o advento do Reino de Deus, ou seja, de um mundo melhor e mais puro, de justiça e verdade prevalecendo sobre a injustiça e a mentira hoje dominantes. Os teólogos das várias igrejas cristãs não aceitam essa afirmativa, negando ao Espiritismo a natureza de prosseguimento do trabalho de Cristo entre os homens. Para isso alegam várias razões, entre as quais a mais forte é a de que o consolador, também chamado Espírito Santo e incluído na Santíssima Trindade como terceira pessoa, já teria vindo, depois do sacrifício de Jesus, no Dia de Pentecostes, em Jerusalém. 

Para bem esclarecermos este assunto, devemos analisar a própria natureza do consolador anunciado por Jesus, segundo os textos evangélicos. Diz o capítulo 14 de o Evangelho segundo João: 

“Se me amais, guardai os meus mandamentos e, eu rogarei ao Pai e, Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito da Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhecem. Mas vós o conhecereis, porque ele ficará convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós.” 

Logo a seguir, no versículo 26 do mesmo capítulo: 

“Mas o consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e, vos fará lembrar de tudo o que eu vos tenho dito.” 

No capítulo 16 encontramos estes versículos: 

“Mas eu vos digo a verdade; a vós, convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, não virá a vós o Consolador, mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei. E ele, quando vier, arguirá o mundo do pecado e, da justiça e do juízo. Sim, do pecado, porque não crêem em mim. E da justiça, porque eu vou para o Pai e, não me vereis mais. Do juízo, enfim, porque o príncipe deste mundo já está julgado. Eu tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora. Quando vier, porém, aquele Espírito da Verdade, ele vos ensinará todas as verdades, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e, anunciar-vos-á as coisas que estão para vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e, vo-lo-á anunciar. Todas quantas coisas tem o Pai, são minhas. Por isso é que eu vos disse que ele há de receber do que é meu e, vo-lo anunciará.” 

Estas são as palavras de João registando a promessa do Consolador, na tradução do Padre Figueiredo. 

Como vemos, o Espírito da Verdade é um enviado de Deus, a pedido do Cristo, para dar prosseguimento à obra deste na Terra. A sua natureza é espiritual e a sua função pode ser assim dividida: 

a) permanecer com os homens, estando mesmo nos homens, integrado na própria existência humana; 

b) ensinar aos homens todas as coisas, relembrando-lhes os ensinamentos do Cristo; 

c) arguir o mundo do pecado, da justiça e do juízo; 

d) receber a revelação das verdades divinas e proporcioná-las ao homem. 

Ouçamos agora o próprio Kardec, em A Génese, sobre a vinda do Consolador no Dia de Pentecostes: 

“O Espírito Santo não realizou, no Pentecostes, o que Jesus anunciara a respeito do Consolador, o Espírito da Verdade. Do contrário, os apóstolos teriam elucidado, em sua vida, tudo quanto ficou obscuro no Evangelho até hoje e, cuja interpretação contraditória deu lugar às numerosas seitas que dividiram o Cristianismo desde os primeiros séculos, em lutas sem tréguas, por questões de exegese, de interpretação, lutas que chegaram a produzir grandes morticínios. Se na época em que Jesus falava os homens não se encontravam em estado de compreender as coisas que ficaram por dizer, não seria em algumas semanas que eles poderiam adquirir as luzes necessárias. Para a compreensão de certas partes do Evangelho, com excepção dos preceitos de moral, eram precisos conhecimentos que só o progresso das ciências nos daria e, que só poderiam ser obra do tempo e de muitas gerações. Se, pois, o novo Messias viesse pouco tempo depois do Cristoteria encontrado o terreno nas mesmas condições e, não faria mais do que Ele fez. Ora, desde Cristo até aos nossos dias, não se produziu nenhuma grande revelação, que completasse o sentido do Evangelho e elucidasse os pontos obscuros, como indício certo de que o enviado ainda não apareceu.” 

Mais adiante, no mesmo primeiro capítulo de A Génese, completa Kardec o seu pensamento, com as seguintes palavras: 

O Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, pelo contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da natureza, que revela, tudo quanto Cristo disse e realizou. Elucida os pontos obscuros do ensino cristão, de tal sorte, que aqueles para quem eram ininteligíveis certas partes do Evangelho, ou pareciam inadmissíveis, elas se tornam compreensíveis e, eles as admitem, sem dificuldade, graças ao auxílio desta doutrina. Vêem melhor ao seu alcance e podem distinguir entre a realidade e a alegoria. Cristo lhes parece maior: Ele já não é simplesmente um filósofo, mas um Messias divino.” 

A seguir, encontramos: 

“Se se considerar, por outro lado, o poder moralizador do Espiritismo, pela finalidade que assinala a todas as acções da vida, pelas consequências do bem e do mal que ele torna palpáveis, a força moral, a coragem, as consolações que ele dá nas aflições, por uma inalterável confiança no porvir, pelo pensamento de ter cada um junto de si os seres a quem amou, a certeza de os rever, a possibilidade de confabular com eles, a certeza, enfim, de que tudo quanto se fez, tudo quanto se adquiriu em inteligência, em sabedoria, em moralidade, até à última hora da vida, não fica perdido; pois tudo aproveita o adiantamento do espírito, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas de Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito da Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se encontra assim cumprida, porque, de facto, é ele o verdadeiro Consolador. 

Vemos, diante de todos esses argumentos, que a alegação de que o Consolador teria vindo no Dia do Pentecostes não tem razão de ser, não encontra base nenhuma no próprio texto evangélico. É, pelo contrário, uma verdadeira negação do Consolador. Nenhuma das tarefas assinaladas por Cristo ao Espírito da Verdade são cumpridas no Pentecostes. O que se verificou naquele dia foi apenas o auxílio do Alto aos apóstolos espavoridos, a fim de alentar-lhes a fé e predispô-los à grande luta da pregação da Boa-Nova. A vinda do Espírito da Verdade, para ficar com os homens, se daria mais tarde, quando os tempos decorridos houvessem permitido o amadurecimento necessário do pensamento humano, sem o qual nenhuma revelação de verdades novas, o ensinamento de todas as coisas, não seria possível. E por que relembrar os ensinamentos de Cristo, naquela hora, em que eles ainda ecoavam no espírito dos apóstolos? Só mais tarde, depois das deturpações teológicas, que fatalmente ocorreriam, como ocorreram, seria possível o restabelecimento anunciado por Cristo e, que hoje de facto se verifica, através do Espiritismo

Ouçamos ainda as palavras de Kardec, desta vez no capítulo sexto de O Evangelho segundo o Espiritismo

“O Espiritismo vem no tempo determinado, cumprir a promessa do Cristo. O Espírito da Verdade preside ao seu advento, chama os homens à observância da lei e ensina todas as coisas, fazendo compreender aquilo que Jesus só disse em parábolas. Vemos assim respondidos os itens que estabelecemos acima, tratando das funções do Consolador. Resta-nos dizer que, graças aos princípios do Espiritismo, o Espírito da Verdade pode, realmente, não apenas permanecer entre os homens, mas integrar-se na carne, no pensamento, no espírito, na vida dos homens, como norma de conduta para todos os que o recebem e compreendem, como directriz permanente dos seus pensamentos e acções.” 

Quanto ao item “c” da divisão que estabelecemos e, em que incluímos as palavras do Evangelho “arguir o mundo do pecado, da justiça e do juízo”ele envolve, segundo pensamos, a acção social do Espiritismo, como reformador do mundo, como iniciador da sociologia, segundo disse Emmanuel. Essa tarefa será cumprida pelo Espiritismo, também a seu tempo, como vimos no capítulo anterior. Mesmo porque, como diz o Eclesiastes, Deus fez tempo para tudo e, cada coisa há de chegar a seu tempo, nem antes, nem depois. 

Verificado assim que o Espiritismo é de facto o Consolador prometido por Cristo, não nos devemos perturbar com a oposição dos clérigos, sejam eles católicos ou protestantes. A história nos revela que a igreja constituída, baseada em cânones definitivos, estratificada nos seus princípios, ossificada nos seus dogmas de fé e materializada no interesse profissional dos seus sacerdotes, não é a primeira vez que se recusa a aceitar o cumprimento das profecias em que assentou os seus próprios alicerces. É o texto sagrado mesmo, são as passagens evangélicas, que nos falam da maneira pela qual a igreja judaica, cega no seu orgulho, não aceitou na vinda do Cristo o cumprimento da anunciação do Messias. 

O mesmo que a igreja da época fez com relação a Cristo a igreja de hoje faz, no tocante ao Espiritismo. Aliás, as semelhanças históricas são muito profundas. Os judeus se consideravam sentados na cadeira de Moisés e, do alto dessa cátedra anatematizaram o Messias. Os cristãos de hoje se julgam sentados na cadeira de Pedro, de cima da qual dardejam os raios da sua maldição sobre o Consolador prometido. Mas da mesma maneira pela qual Cristo respondeu aos seus acusadores, através das suas obras, o Espiritismo responde aos seus detractores, mostrando-lhes os frutos da sua propagação na Terra, frutos de cura e de consolação para todos os deserdados e infelizes, ricos ou pobres, onde quer que se encontrem e a ele se dirijam. 

Seria fastidioso enumerarmos outras várias objecções teológicas levantadas contra o Espiritismo. A teologia é terreno fértil em afirmações e contestações de toda a espécie. Nunca, talvez, a imaginação humana tenha encontrado campo mais vasto, em que melhor se pudesse sentir, para o livre exercício de seu poder de auto-contradição. Um rápido olhar para a história escolástica da Idade Média nos dará a medida dos exageros e dos absurdos a que o pensamento teológico conseguiu chegar, muitos dos quais ainda continuam sustentados, em pleno século vinte. 

Contra a lei da reencarnação, afirmam os teólogos que o Evangelho não a menciona, muito embora a natureza explícita das referências de Jesus ao renascimento de Elias na pessoa de João Baptista, o precursor. Quando citamos o diálogo de Jesus e Nicodemos, uma das mais belas passagens evangélicas referentes à reencarnação, os teólogos procuram escapar pela tangente do renascimento do espírito, esquecidos de que o texto fala em renascer da água e do espírito e, de que o elemento água representava, para os antigos, a própria matéria. Quando negamos a existência de penas eternas, por contrariarem o princípio da mais elementar justiça humana, quanto mais a de Deus, alguns nos respondem, franzindo o cenho, como se nos olhassem do próprio íntimo das verdades supremas, que não somos capazes de medir a justiça de Deus, que não podemos avaliar o seu significado e que ela será para sempre um terreno misterioso, vedado à razão e à lógica frágil dos homens. Se evocamos o verdadeiro sentido da palavra grega eon, traduzida por eterno, ou se lembramos o uso das metáforas em larga escala, o costume da linguagem figurada, em todo o Oriente, mormente no passado, eles se fecham em copas, respondendo somente que a eternidade das penas é o princípio indiscutível da igreja. Evidentemente não se pode nem se deve discutir com homens que assim pensam, negando o mais poderoso atributo da própria natureza pensante da espécie humana. 

Um ponto, entretanto, que tem sido motivo de grande celeuma, principalmente nos meios protestantes, é o da proibição da evocação de espíritos por Moisés. O próprio Kardec já tratou do assunto, a seu tempo, fazendo notar a incoerência daqueles que desejam impor um versículo isolado do texto como lei de alcance geral. No seu livro De cá e de lá, o confrade Romeu do Amaral Camargo, que foi presbítero evangélico, tece considerações interessantes a respeito, fazendo ver que os livros citados para essa condenação do Espiritismo, o Levítico e o Deuteronómio, contêm numerosas outras condenações e prescreve numerosos castigos já há muito relegados ao esquecimento, por judeus e cristãos. Lá, entretanto, no meio de toda uma montanha de velharias abandonadas – as leis civis da época, estabelecidas por Moisés –, vão os inimigos do Espiritismo buscar um versículo que condena a evocação dos mortos, para então afirmarem, radiantes, que a nossa doutrina é contrária ao texto bíblico. 

Lembra o confrade Amaral Camargo que, contra a ordem de Moisés, segundo vemos em I Reis, capítulo 28, o rei Saul foi consultar o espírito de Samuel, através da pitonisa de Endor. Para os protestantes, apegados ao texto, lembraremos ainda que a Bíblia não endossa a teoria da manifestação de Satanás em lugar dos espíritos. Pelo contrário, o texto diz claramente que quem se manifestou foi o espírito de Samuel. A Bíblia confirma, pois, de maneira mais plena, a realidade das comunicações espíritas. 

Kardec diz, a propósito, no livro O Céu e o Inferno, capítulo XI: 

“A proibição de Moisés era assaz justa, porque a evocação dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito, afeição ou piedade para com eles, sendo antes um recurso para adivinhações, tal como os augúrios e presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Essas práticas, ao que parece, também eram objecto de negócio e, Moisés, por mais que fizesse, não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares.” 

E acrescenta: 

“Se Moisés proibiu evocar os mortos, é que estes podiam vir, pois, do contrário, inútil fora a proibição. Ora, se os mortos podiam vir naquele tempo, também o podem hoje e, se são espíritos de mortos os que vêm, não são exclusivamente demónios. Ao demais, Moisés, de modo algum, fala nesses últimos.” 

As proibições de Moisés se referem à evocação de espíritos para finalidades condenáveis. Consultem-se os textos bíblicos, com olhos de ver, com isenção de ânimo e, compreender-se-á facilmente que nenhuma ligação há entre eles e o Espiritismo. Além disso, o episódio relatado no capítulo 11, versículos 26 a 29, do livro de Números, contradiz flagrantemente a afirmativa de condenação da mediunidade e da comunicação dos espíritos. Vemos ali dois médiuns, que não entretinham comércio com os espíritos, para fins adivinhatórios ou de lucros, Eldad e Medad, subitamente tomados pelo espírito, no campo. Um jovem, que presenciava a cena, corre apressado e comunica o facto a Josué, ministro de Moisés, que pede a este a proibição da comunicação. Moisés, entretanto, responde: 

“Que zelos são esses que mostras por mim? Quem me dera que todo o povo profetizasse e que o Senhor lhe desse o seu espírito.” 

O confrade Amaral Camargo conclui que Moisés suspirava pelo mediunismo generalizado. Ele queria o cumprimento da profecia de Daniel, no tocante ao derramamento do espírito do Senhor sobre toda a carne, ao advento, enfim, do Espírito da Verdade. E Kardec já declarava, no livro O Céu e o Inferno, há tantas dezenas de anos: 

“Se os que clamam injustamente contra os espíritas se aprofundassem mais no sentido das palavras bíblicas, reconheceriam que nada existe de análogo entre os princípios do Espiritismo e o que se passava entre os hebreus. A verdade é que o Espiritismo condena tudo aquilo que motivou a condenação de Moisés. Mas os seus adversários, no afã de encontrar argumentos para rebater as novas ideias, nem se apercebem de que tais argumentos são negativos, por serem absolutamente falsos.” 

/… 


José Herculano Pires (i)O Sentido da Vida / Espiritismo e Cristianismo, 13º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

domingo, 16 de abril de 2023

o grande desconhecido ~


O PROCESSO CULTURAL

No desenvolvimento da Cultura, no nosso mundo, podemos assinalar três fases bem definidas no processo histórico:

A – Culturas Empíricas.
B – Culturas Religiosas.
C – Culturas Científicas.

As Culturas Empíricas desenvolvem-se nas relações primárias do homem com a Natureza, através das experiências naturais. Nessas experiências o homem elabora os três elementos básicos de toda a cultura:

– a linguagem.
– o rito.
– o instrumento.

Não se trata de uma elaboração sucessiva, mas sincrónica, de uma reelaboração das experiências animais.

Tudo se encadeia no Universo, diz O Livro dos Espíritos.

Nesse encadeamento as vozes animais transformam-se na linguagem humana, os ritos em rituais da sociabilidade humana e dos cerimoniais religiosos, as garras dos animais projectam-se nos instrumentos de madeira e pedra de que o homem se serve para agir sabre a Natureza e adaptá-la às suas necessidades de sobrevivência.

As experiências que desenvolvem a Cultura Empírica excitam as potencialidades do espírito, desenvolvendo-as nas tribos e nas hordas. A lei de adoração, proveniente da ideia inata de Deus no homem, gera a reverência pelos poderes misteriosos da Natureza e institui os primeiros rituais de reverência aos pagés ou xamãs e feiticeiros, bem como ao cacique e aos chefes guerreiros. O culto às divindades da selva nasce desses rituais.

A Cultura Empírica gera a Cultura Religiosa das primeiras tribos sedentárias. A ideia de Deus define-se mais nítida com o desenvolvimento da Razão, sob a influência dos ritos da Natureza, nas primeiras civilizações agrárias e pastoris. O milagre das germinações, no ritmo regular das estações e, a proliferação dos rebanhos provam a existência de inteligências controladoras dos fenómenos naturais e protectoras do homem. O animismo, projecção da alma humana nas coisas, impregna a Natureza com uma vida factícia em que a pedra, a árvore, o rio, o bosque, a montanha, o mar, tudo fala e pensa em condições humanas. As manifestações espíritas provam a realidade anímica da Natureza. A figura de Deus, Ser Superior, criador e dominador do mundo, impõe-se ao homem na forma necessariamente humana. E como Deus não pode estar sozinho, multiplica-se em mitos que simbolizam as suas várias actividades, ligadas às actividades humanas. Ao mesmo tempo, as forças destruidoras e as manifestações de espíritos malignos geram os mitos da oposição a Deus. Nasce o Diabo desse contraste, estabelecendo a luta entre o Bem e o Mal, sujeitando o homem à esperança da protecção divina e ao temor dos poderes maléficos.

A Cultura Religiosa configura-se na síntese dessa dialéctica do invisível e do visível, do sentimento e da sensação, fazendo evoluírem as civilizações agrárias e pastoris para a fase das civilizações teocráticas que se desenvolvem no Oriente, nas regiões em que brilha a luz em cada alvorecer.

Os ritmos da Terra e do Céu: Do dia e da noite, as estações do ano, o Sol e a Lua, as constelações anunciadoras de cada mudança no tempo, a chuva e as Inundações, os terramotos, as erupções vulcânicas, as pestes, as pragas, o relâmpago, o raio, as tempestades exigem a disciplinação do caos e ao mesmo tempo a complexidade dos cultos.

Os soberanos das nações são filhos de Deus e possuem poderes divinos.

A Cultura desenvolve-se na argamassa dos sentimentos e das sensações.

A Fé define-se como sentimento e sensação em misturas condicionadas pela Razão, expressa nas formulações filosóficas.

A Teologia brota desse complexo de mistérios como a Ciência Suprema dos videntes e dos profetas, dos homens mais do que homens de que falaria Descartes, homens privilegiados pela sabedoria infusa que desce do Céu para iluminar a Terra.

A Cultura Religiosa é uma oferenda celeste que os homens simplesmente homens não podem tocar com as suas mãos indignas, não podem avaliar com as suas mentes entorpecidas pelos interesses materiais e as ambições inferiores da vida perecível.

O mundo divide-se em duas partes inconciliáveis: surgem os conceitos do Sagrado e do Profano.

As Culturas Religiosas desligam-se da tradição empírica, rejeitam a experiência natural, relegando-a ao campo do profano, do pecaminoso. Entregam-se à alienação do suposto, do imaginário.

O Cristianismo envolve-se nas contradições humanas:

cai na simonia, no comércio ambicioso de sacramentos e indulgências, pregando a renúncia ao mundo e a santidade da pobreza;

proclama a humildade como virtude e investe-se do poder político;

denuncia o paganismo e o judaísmo como heréticos e assimila os seus elementos rituais e a sua política gananciosa;

prega o Reino de Deus e apossa-se dos reinos terrenos;

impugna a sabedoria grega e constrói o seu saber com decalques de Platão e Aristóteles;

ensina a fraternidade e promove as guerras fratricidas em nome de Deus;

erige-se em religião do Deus Único e divide Deus em três pessoas distintas;

institui o celibato como virtude e faz comércio ambicioso do sacramento do matrimónio;

combate a magia e reveste o seu culto de poderes mágicos;

luta contra as heresias e comete a suprema heresia de submeter Deus ao poder do sacerdócio no acto eucarístico;

profliga a idolatria e enche os seus templos com ídolos copiados da idolatria mitológica, chega ao máximo da alienação estabelecendo o sistema fechado das clausuras e dos mosteiros segregados;

prega o Evangelho e nega ao povo o acesso aos textos que considera privativos do clero;

proclama a supremacia espiritual do amor e semeia o ódio aos que não aceitam os seus

princípios.

A alienação cristã faz da cultura um sincretismo de absurdos assimilados de dogmas e rituais bastardos de igrejas e ordens ocultas da mais alta Antiguidade, transformando o conhecimento em gigantesca manta de retalhos em que as próprias vestes sacerdotais e paramentos do culto são copiados de antigas e condenadas igrejas.

A cultura cristã desenvolve-se com pressupostos falaciosos e um fabulário ridículo enxameado de superstições erigidas em verdades absolutas, provindas de revelações divinas.

A verdade artificial da sabedoria eclesiástica encobre a realidade com o espesso véu das elucubrações dos teólogos, modelos de esquizofrenia catatónica e megalomania delirante.

A cultura em evolução nas fases anteriores cai na estagnação de um charco de mentiras sagradas, pílulas doiradas de um anestésico.

Interrompe-se o processo cultural.

Não se pode conhecer mais nada. Cada Igreja tem a sua verdade própria e inverificável, sendo a Igreja Cristã a mais poderosa barreira a qualquer tentativa de investigação da realidade. A morte cruel é o prémio dos que se atreverem a rasgar o Véu de Isis para mostrar o corpo da Verdade Nua.

O desenvolvimento da imaginação criadora levara a cultura a um solipsismo devorador.

Tudo estava esclarecido, a imaginação dos poetas (considerados profetas) resolvia todos os mistérios em termos de mitologia grega ou tradição romana, os teólogos solucionavam os problemas da vida e da morte com belas frases em latim, as Igrejas detinham a Verdade Absoluta, amaldiçoando-se entre si e, velavam pela ordem cultural perseguindo e matando em nome de Deus os atrevidos que tentassem profanar a Palavra de Deus, escrita na Bíblia por velhíssimos judeus que haviam, num complô com César e o seu legado Pilatos, condenado à flagelação e à cruz um jovem carpinteiro que tivera a audácia de se apresentar como o Messias de Israel.

A Cultura Científica teve de romper a golpes de atrevimento a selva selvaggia dessa cultura religiosa inconsequente, contraditória e arrogante, empalhada como um pássaro morto em velhos pergaminhos de uma sabedoria feita de suposições e elucubrações pretensiosas.

O mundo dos homens desligara-se totalmente da realidade, fechando-se num casulo de formulações abstractas.

Mais bizantina que Bizâncio, Roma sofismava sobre problemas que se recusava a conhecer. Só a ignorância total e a ingenuidade das populações bárbaras poderiam aceitar. Após a queda do Império do Ocidente, comprovava-se historicamente a afirmação evangélica de que o ensino de Jesus seria deturpado e necessitaria de tempo para que os homens pudessem compreendê-lo.

O milénio medieval teria a função de desenvolver a razão como guia do pensamento e freio da imaginação, ao fogo das tragédias e loucuras de um misticismo criminoso, para que, no Renascimento, os frutos de experiências dolorosas abrissem perspectivas para o desenvolvimento de uma cultura realista, apoiada em pesquisas metódicas da realidade.

Foi então que a esquizofrenia mundial se revelou em definitivo: o espírito humano estava dividido numa cultura fantasiosa, formada pela dogmática absurda das religiões e, numa cultura rebelde, atrevida e exigente, que arrancava os homens da ilusão de um saber confuso, para oferecer-lhes o saber legítimo que iniciara a fase das experiências empíricas e se negara a si mesma no desenvolvimento alucinado do fanatismo religioso.

O movimento da Reforma, desencadeado por Lutero, em consequência das lutas de Abelardo e das proposições de Erasmo de Roterdão, em conjugação aparentemente ocasional com as tentativas de pesquisas objectivas de GalileuCopérnicoGiordano Bruno e outros mártires da Ciência nascente, marcavam os rumos de uma nova concepção do mundo e do homem.

Abelardo foi o precursor medieval de Descartes, que por sua vez foi o precursor de Kardec.

Aos fundamentos emocionais da Fé absurda e cega, os pioneiros do retomo ao real ofereciam os fundamentos da Razão esclarecida e da pesquisa científica.

A Verdade ressurgia das cinzas das fogueiras criminosas e a Fé de olhos abertos substituía a ceguinha esclerótica das sacristias.

Mas a luta pela Verdade da concepção cristã restabelecida só atingiria o seu apogeu nos meados do Século XIX, com a Codificação do Espiritismo, através das pesquisas pioneiras de Kardec sobre os fenómenos mediúnicos, hoje admitidos pela Ciência com a denominação de paranormais.

Kardec provara que os médiuns não eram anormais, como pretendiam os investigadores da Medicina e da Psicologia, nem sobrenaturais, como pretendiam os defensores de dogmas obsoletos, mas naturais e normais.

A Mediunidade impunha-se à pesquisa dos cientistas exponenciais da época, que rasgavam ao mesmo tempo o Véu do Templo, revelando os seus mistérios, os Véus de Isis, para desvendar o sentido dos símbolos mitológicos.

Os homens começaram então a aprender que não sabiam nada e tinham de lutar para descobrir a Verdade escondida atrás da aparência enganosa das coisas dos seres.

A Ciência Espírita instalou-se no mundo, com as consequências necessárias da Filosofia Espírita e da Religião em Espírito e Verdade.

Espiritismo, nos seus três aspectos, está hoje confirmado pela Cultura Científica e o seu alcance cósmico confirma-se ao ritmo acelerado das conquistas culturais do século, restabelecendo o ensino deturpado pelas ambições humanas, que Jesus de Nazaré semeou em palavras de vida e imortalidade nas almas de todos os tempos.

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, I – O PROCESSO CULTURAL, 2º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O monge estuda as Escrituras | 1877, lápis e giz-estudo ao painel “A Educação de São Luís” Panteão, Paris (a mesma imagem, do monge, aos pés de Branca de Castela e de São Luís, nesse painel, óleo sobre tela) ambos de Alexandre Cabanel