domingo, 28 de junho de 2026

~ Urânia


~ o infinito e a eternidade ~ o tempo, o espaço e a vida ~ os horizontes celestes ~

O quê! Era verdade? Outro universo descia na nossa direcção! Milhões e milhões de sóis agrupados planavam, – um novo arquipélago celeste – e, todos se iam desenvolvendo qual vasta nuvem de estrelas na proporção a que subíamos. Tentei sondar com a vista, em torno de mim, todas as profundezas, o Espaço infinito, e por toda a parte, avistei clarões análogos, montões de estrelas disseminados a todas as distâncias.
O novo universo em que acabávamos de penetrar, era principalmente composto de sóis vermelhos, das cores rubi e granada. Muitos, tinham absolutamente a cor do sangue.
A sua travessia foi uma verdadeira fulguração. Corríamos, rapidamente, de sol em sol, mas incessantes comoções eléctricas nos atingiam à semelhança dos clarões de uma aurora boreal. Que estranhos estádios, esses mundos iluminados unicamente de sóis rubros! Depois, mais adiante, nesse universo, notamos um grupo secundário, composto de grande número de estrelas cor-de-rosa e outras azuis. De súbito, precipitou-se na nossa direcção e nos envolveu, um enorme cometa, cuja extremidade dianteira se assemelhava a uma garganta colossal. Aconcheguei-me, assustado, ao lado da deusa, que por um momento desapareceu da minha vista em luminosa névoa. Para nos tornamos a encontrar, em escuro deserto, pois que este segundo universo se afastara, tal qual o primeiro.
– A Criação, – disse-me ela – se compõe de um número infinito de universos distintos, separados uns dos outros por abismos de nada.
– Um número infinito?
– Objecção matemática – replicou . Sem dúvida, um número, por muito grande que seja, não pode ser presentemente infinito, pois que, pelo pensamento, podemos aumentá-lo sempre de uma unidade, ou mesmo duplicá-lo, triplicá-lo, centuplicá-lo. Lembra-te, porém, de que o momento actual não é mais do que uma porta por onde o futuro se precipita para o passado. A eternidade não tem fim, e o número dos universos será, ele também, sem fim. Além disso, as estrelas, os sóis e os universos não formam um número. Eles são, para melhor dizer, sem número. Olha! Vês ainda, sempre e por toda a parte, novos arquipélagos de ilhas celestes, novos universos.
– Parece-me, ó Urânia, que há muito tempo já, e com grande velocidade, estamos subindo no céu sem limites!
– Poderíamos sempre subir assim, respondeu ela, sem jamais atingir um limite definitivo. Poderíamos vogar para a esquerda, para a direita, para a frente, para trás, para baixo, para não importa qual direcção, e jamais, em parte nenhuma, depararíamos com uma fronteira... Nunca, nunca um fim. Sabes onde estamos? Sabes que caminho temos já percorrido? Estamos... no vestíbulo do Infinito, tal qual o estávamos na Terra. Não avançamos um único passo!
Grande comoção se apoderara do meu Espírito. As últimas palavras de Urânia tinham-me penetrado até à medula, qual calafrio glacial. Nunca um fim, nunca, nunca! repetia eu. E não podia dizer, nem pensar outra coisa. Entretanto, a magnificência do espectáculo reapareceu aos meus olhos e o aniquilamento deu lugar ao entusiasmo.
– A Astronomia! – exclamei . É tudo! Saber estas coisas; viver no infinito. Urânia! Que são o resto das ideias humanas perante a Ciência! Sombras, fantasmas!
– Oh! – disse ela  tu vais despertar na Terra, tu admirarás ainda, e legitimamente, a ciência de teus mestres; mas, fica sabendo: a Astronomia actual das suas escolas e dos observatórios, a Astronomia matemática, a bela ciência dos Newton, dos Laplace, dos Le Verrier, não é ainda a ciência definitiva.
“Não está lá, meu filho, o fim que busco desde os dias de Hiparco e de Ptolomeu. Vê esses milhões de sóis análogos àquele que dá vida à Terra e, tal qual ele, fontes de movimento, de actividade e de esplendor; pois bem, é esse o objecto da ciência futura: o estudo da vida universal e eterna. Até hoje, não se há penetrado no templo. Os algarismos não são um fim, mas um meio; não representam o edifício da Natureza, mas os métodos, os andaimes. Vais assistir à aurora de um novo dia. A Astronomia matemática vai ceder o lugar à Astronomia física, ao verdadeiro estudo da Natureza.
“Sim – acrescentou – os astrónomos, que calculam os movimentos aparentes dos astros na sua passagem de cada dia pelo meridiano; os que anunciam a chegada dos eclipses, dos fenómenos celestes, dos cometas periódicos; os que observam com tanta atenção as posições exactas das estrelas, dos planetas de vários graus da esfera celeste; os que descobrem os cometas, os planetas das estrelas variáveis; os que buscam e determinam as perturbações produzidas nos movimentos da Terra, pela atracção da Lua e dos planetas; os que consagram as suas vigílias à descoberta dos elementos fundamentais do sistema do mundo; todos, observadores ou calculistas, são os preparadores de materiais, precursores da nova Astronomia. São imensos trabalhos, labores dignos de admiração, transcendentes obras que põem em evidência as mais elevadas faculdades do espírito humano. Mas é o exército do passado. Matemáticos e geómetras. Doravante o coração dos sábios vai pulsar por uma conquista mais nobre ainda. Todos esses grandes Espíritos, estudando o céu, não têm, na realidade, saído da Terra. O fim da Astronomia não é mostrar a situação aparente de pontos brilhantes, nem pesar pedras em movimentos no Espaço, nem nos fazer conhecer com antecedência os eclipses, as fases da Lua ou as marés. Tudo isso é belo, mas insuficiente.
“Se a vida não existisse na Terra, este planeta seria absolutamente destituído de interesse para qualquer espírito que fosse, e a mesma reflexão se pode aplicar a todos os mundos, que gravitam em torno de milhares de sóis, nas profundezas da imensidade. A vida é o fim da Criação inteira. Se não houvesse vida, nem pensamento, tudo isto seria como que nulo e não acontecido. A Criação é um poema, do qual cada letra é um sol. Estás destinado a assistir a uma completa transformação da Ciência. A Matéria vai ceder lugar ao Espírito.”
– A vida universal! – disse eu –. Os planetas do nosso sistema solar serão todos habitados?... São habitados os milhares de mundos que povoam o infinito?... Essas Humanidades assemelham-se à nossa?... Conhecê-las-emos algum dia?...
– A época em que vives na Terra, a própria duração da Humanidade terrestre não é mais do que um momento na eternidade.
Não compreendi essa resposta às minhas perguntas.
– Nenhuma razão há  acrescentou Urânia  para que todos os mundos sejam habitados agora. A época presente não tem mais importância do que as precedentes ou as que se hão de seguir.
“A duração da existência da Terra será muito mais longa – talvez dez vezes mais longa – do que a do seu período vital humano. Em uma dezena de mundos, tomados ao acaso na imensidade, poderíamos, por exemplo, conforme os casos, achar apenas um actualmente habitado por uma raça inteligente. Uns o foram outrora; outros sê-lo-ão no futuro; estes se acham em via de preparação, aqueles têm percorrido todas as suas fases; aqui, berços; além, túmulos; e depois, uma variedade infinita se revela nas manifestações das forças da Natureza, não sendo a vida terrestre de modo algum o tipo da vida extraterrestre. Seres podem viver em organizações inteiramente diversas das conhecidas no vosso planeta. Os habitantes dos outros não têm a vossa forma, nem os vossos sentidos. São outros.
“Dia virá, e muito proximamente, pois que estás chamado a vê-lo, em que o estudo das condições da vida nas diversas províncias do Universo será o objecto essencial – e o grande encanto – da Astronomia. Bem depressa, em vez de se ocuparem simplesmente com a distância, com o movimento e com a massa material dos vossos planetas vizinhos, os astrónomos descobrir-lhe-ão a constituição física, os aspectos geográficos, a climatologia, a meteorologia; penetrarão o mistério da sua organização vital e discutirão a respeito dos respectivos habitantes. Afirmarão que Marte e Vénus se acham actualmente povoados de seres pensantes; que Júpiter está ainda no seu período primário de preparação orgânica; que Saturno plana em condições inteiramente diferentes das que presidiram ao estabelecimento da vida terrena e, sem jamais passar por estado análogo ao da Terra, será habitado por seres incompatíveis com os organismos terrestres. Novos métodos farão conhecer a constituição física e química dos astros, a natureza das atmosferas. Instrumentos aperfeiçoados permitirão mesmo descobrir os testemunhos directos da existência dessas Humanidades planetárias e pensar em estabelecer comunicação com elas. Eis a transformação científica que há de assinalar o fim do décimo-nono século e que há de inaugurar o vigésimo.”
Eu, escutava – enlevado – as palavras da musa celeste, que iluminavam para mim, com luz inteiramente nova, os destinos da Astronomia e me inundavam de ardor mais vivo ainda. Tinha debaixo dos olhos o panorama dos mundos inumeráveis que rolam no Espaço, e compreendi que o fim da Ciência devia ser, tornar conhecidos esses longínquos universos, fazer-nos viver nesses horizontes imensos. A formosa deusa continuou:
– A missão da Astronomia será mais elevada ainda. Depois de vos haver feito sentir e dado a conhecer que a Terra não é mais do que uma cidade na pátria celeste e que o homem é cidadão do céu, irá mais longe. Descobrindo o plano sobre o qual o universo físico está construído, mostrará que o universo moral se acha alicerçado sobre esse mesmo plano; que os dois mundos não formam senão um mesmo mundo e que o Espírito governa a Matéria. O que ela houver feito quanto ao Espaço, realizará quanto ao Tempo.
“Depois de haveres apreciado a imensidade do Espaço, e reconhecido que as mesmas leis reinam simultaneamente em todos os lugares e fazem do imensurável Universo uma exclusiva unidade, sabereis que os séculos do passado e do futuro estão associados ao tempo presente, e que as mónadas pensantes viverão eternamente, por transformações sucessivas e progressivas; aprendereis que há Espíritos incomparavelmente superiores aos maiores Espíritos da Humanidade terrestre, e que tudo progride para a perfeição suprema; ficareis sabendo também que o mundo material não é mais do que uma aparência e que o ser real consiste em uma força imponderável, invisível e intangível.
“A Astronomia será, pois, eminentemente e antes de tudo, a directriz da Filosofia. Os que raciocinarem fora dos conhecimentos astronómicos ficarão à margem da Verdade. Os que, fiéis, seguirem o seu farol, irão subindo gradualmente na solução dos grandes problemas.
“A filosofia astronómica será a religião dos espíritos superiores.
“Deves assistir  acrescentou ela  a essa dupla transformação da Ciência. Quando deixares o mundo terrestre, a ciência astronómica, que tão legitimamente já admiras, estará de todo renovada, tanto na forma quanto na essência.
“Isso, porém, não é tudo. A renovação de uma ciência antiga pouco serviria ao progresso geral da Humanidade, se esses sublimes conhecimentos, que desenvolvem o Espírito, iluminam a Alma e a libertam das mediocridades sociais, ficassem encerrados no acanhado círculo dos astrónomos de profissão. Esse tempo vai passar também. O alqueire deve ser entornado. Cumpre empunhar o facho, aumentar-lhe o fulgor, levá-lo às praças públicas, às ruas populosas, até às mais escusas vielas. Todo o mundo é chamado a receber a luz; estão todos sequiosos dela, principalmente os humildes, principalmente os deserdados da fortuna, pois esses pensam mais, estão ávidos de ciência, enquanto que os satisfeitos do século nem suspeitam da sua própria ignorância e têm quase orgulho em permanecer assim. Sim, a luz da Astronomia deve ser espalhada pelo mundo; deve penetrar até às massas populares, iluminar as consciências, elevar os corações. E será essa a sua mais bela missão; será esse o seu benefício.”
/...

(Urânia – a Musa da Astronomia: obra que é um misto de romance e ciência. Nela Flammarion aborda o encontro onírico entre um jovem e Urânia, fazendo considerações de espiritualismo. São narrados vários contactos espirituais que foram comprovados experimentalmente. Através da alternância entre a realidade científica e a ficção, fala da vida noutros planetas, da extensão e constituição do Universo, da realidade do Espírito e do Plano Espirituais. Este livro é um ensaio que reúne factos, investigações e reflexões trazendo, assim, informação preciosa à compreensão do grande problema do homem: conhecer o Universo e a sua origem.


Camille Flammarion, Urânia – Primeira Parte (L'observatoire de C. Flammarion), A Musa do Céu  IV O infinito e a eternidade – O tempo, o espaço e a vida – Os horizontes celestes, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Musa Urânia (anónimo clássico) 130-140 d. C., encontrada por volta de 1500, em Tivoli, no “Teatro da Academia” ou Odeion da Villa do Imperador Adriano, réplica romana, Museu Nacional do Prado) 

domingo, 22 de março de 2026

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


~~~~~ A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia (II) 

Numa obra recente chamada L'Initiation de Vercingétorix (i) o Sr. André Lebey forneceu-nos detalhes muito interessantes sobre a educação religiosa e política do jovem chefe arvernenseInicialmente, ele apresentou-nos muitas cenas vivas e coloridas nas quais os nobres chamados “colares de ouro”, responsáveis pela morte trágica de Celtil, se entregaram a esse género de intriga que pôs a perder a Gália, zelando com um ódio ciumento pelo progresso do jovem varão e temendo represálias. Depois, é a viagem de Vercingétorix, que atravessou as vastas solidões silvestres que separam as tribos, visitando a floresta sagrada dos carnutos, onde ele participa da grande cerimónia anual, presidida pelo arquidruida e pela grande sacerdotisa da Ilha de Sein; e a sua visita a Carnac, onde ele cumpre outros ritos. Ali, nas horas do crepúsculo, ele escuta o canto dos bardos, afirmando o Deus supremo:

“Eu creio em um Deus único, eterno, que não se conhece, que nunca se conhecerá, indubitavelmente. Eu creio naquele que é, naquele que será, visto que é o mesmo, naquele que se revela e existiu sempre, visto que é o mesmo ainda. O caminho que leva à sua incógnita começa no sacrifício voluntário.”

Sob a direcção de um druida, guia tutelar e familiar, ele vai obter nos santuários os conhecimentos dessa grande doutrina, a propósito da qual Dom Martin pode dizer que “ela não foi tomada emprestada de nenhum outro povo”. Sem dúvida, nos seus relatos é preciso levar em conta a fantasia, mas os principais factos repousam numa base histórica. O que há de mais notável nessa obra são as páginas consagradas à conversa solene e secreta dos dois druidas sobre a praia bretã, em frente das ilhas sagradas. Um deles, Divitiac, é admirador e aliado dos romanos; o outro, Macarven, preceptor de Vercingétorix, somente tem em vista o futuro e a grandeza da Gália, o desenvolvimento de seu génio livre, independente de toda a ingerência estrangeira.

Divitiac tinha voltado de uma viagem à cidade Eterna, deslumbrado pela glória política e pelo esplendor monumental de Roma. Ele sonha com uma aliança que julga necessária para completar o poderio da Gália e assegurar a sua função no mundo.

Macarven lembra ao seu interlocutor a corrupção, o cepticismo dos romanos, a sua rapacidade, a sua sede de dominação e, sobretudo, a astúcia e os ardis com os quais eles estão acostumados. Confiante na religião e na prática que ama, ele deposita toda a sua esperança numa Gália independente. Disse ele a Divitiac:

“A minha fé é mais clarividente do que a tua. Para vencer completamente, seria melhor que ela extinguisse as armas manuais, em nome de sua superioridade! O triunfo passageiro da matéria sobre o espírito não pode anular a vida do espírito; ela a consagra ainda mais e a faz ressuscitar eternamente acima da vitória momentânea do inimigo. Ao contrário, aceitando, mesmo por astúcia, o conquistador que a domina, ela se humilha pouco a pouco, ela se entrega. A derrota nobre valeria mais pela sua resistência legítima do que a vitória brutal do número e da força, unicamente. Eu somente confio na estrada perpétua, obstinada da consciência. Porque ela é direita, superior, decisiva entre todos os outros meandros, ela segue mais adiante. Deixá-la, abdicar dela e se perder, talvez morrer, e da morte da qual não se levanta. Essa morte engole tudo, é tão pesada que arrasta a alma esmagada sob o peso de sua nulidade.” (P. 163)

Prosseguindo a sua viagem, Vercingétorix vai consultar as druidisas da Ilha de Sein.

“Tu vieste – lhe dizem elas – nos interrogar sobre o enigma dos mundos. Nós e os nossos sacerdotes te respondemos. Tu chegaste, como nós, ao conhecimento da migração das almas e das leis da vida universal. Agora uma outra tarefa te será imposta; é preciso, doravante, pensar em Roma. Se tudo o que viste do império gaulês te tem feito amá-lo, se tu estás ligado à nossa religião, forte e doce, natural e divina, onde o mal inevitável da vida se esclarece e se resgata pelo sacrifício, depois atinge ao sublime verdadeiro pelo culto equilibrado do espírito; se tu te dás conta de que na cidade fria, sobre a qual vigia o Capitólio, apesar da doçura do clima e da beleza dos montes Apeninos, vencido, tu regressarás para morrer no ar salubre da Gergovie, a lição viva do Puy majestoso, a profundeza calmante de suas florestas, então prepara-te desde agora! Prepara-te para salvar o teu país e a sua religião, única no mundo, a tua nação de águas claras, de corações disputadores, mas bons e quentes. Crê em mim, crê nas minhas irmãs, crê nos nossos sacerdotes; esta virtude particular do nosso solo, onde a raça céltica atinge a sua mais justa expansão, não existe em outra parte.”

Mais tarde, a grande druidisa conduz o chefe arverne sobre o promontório que domina o mar de terror, em frente da ilha sagrada. Nesse tumulto de vagas, que imprime às suas palavras uma espécie de solenidade fatídica, ela lhe lançou estes dizeres em tom imperioso:

“Eleito por todos, tu serás rei e tu nos pertences. Sob este gládio cintilante, acima do abismo, símbolo da vontade, além de todas as agitações humanas, jura dedicar todos os minutos da vida, a tua vida, a tua morte, tudo o que compõe o teu corpo perecível, como também tudo o que prepara a tua alma imortal para o cumprimento da libertação.

Tu estás, aqui, no fim do mundo. Se o teu juramento é sincero, os deuses que velam em torno de nós e nas ilhas, nos confins do santuário de todos os santuários, te atenderão!” (ii)

E no vento e na tempestade, sob o ruído das ondas barulhentas, sob o gládio ensanguentado, Vercingétorix jurou!
/…
(i) Editor Albin Michel, rua Huyghens, 22, Paris.
(ii) Ver L’Initiation de VercingétorixAndré Lebey, pp. 191, 201, 205.

LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte Os Países Célticos, Capítulo V – A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia 2 de 3, 18º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: estátua monumental de Vercingétorix, por Aimé Millet em Alise-Sainte-Reine, Côte-d'Or, région Bourgogne, France) 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Espiritismo na Arte ~


Parte V

– Participação do mundo espiritual na obra humana. – Espiritismo, novo e vigoroso impulso para o pensamento.

|Maio de 1922|

Num tópico anterior, vimos que a preponderância da literatura francesa se sustentou por muito tempo. Ela possuía tudo o que seduz e cativa. No entanto, uma evolução se impõe, e chega um momento, na história do pensamento, em que a palavra e o gesto já não são suficientes para traduzir as emoções da alma. E é nessa altura que o senso musical desperta e entra em acção na própria literatura, que deve ser como um reflexo da harmonia superior. A manifestação dessa tendência marca um grau a mais na ascensão do espírito em direcção aos níveis mais elevados, assim como acontece no espaço onde a palavra deixa de ser empregada.

Essa evolução do pensamento e das suas manifestações, sob as suas inúmeras formas, arte, ciências, letras, será dirigida por uma participação cada vez mais íntima e profunda do mundo espiritual na obra humana.

revelação espírita proporciona-nos inesgotáveis temas de inspiração e de sensação. Ela nos inicia nas condições de uma vida mais subtil, vida que é a finalidade essencial de toda a ascensão e da qual os detalhes introduzem, nos programas de estudo e pesquisa, uma variedade de elementos que estendem ao infinito os limites das nossas concepções, dos nossos conhecimentos. Daí resulta, forçosamente, uma fecundação, uma renovação completa de ideal que se desfaria e se alteraria sob o domínio das teorias materialistas ou dogmáticas, domínio que vai ter fim, apesar dos esforços desesperados dos seus partidários.

Assim, o Espiritismo dá ao pensamento um novo e vigoroso impulso. Ele traça, na história dos seres e dos mundos, um círculo imenso, que permite todos os sonhos, todos os voos da imaginação; ele abre novas saídas para tudo o que faz o poder, a grandeza, a beleza do Universo.

Até aqui, a forma literária pôde parecer suficiente para exaltar os sentimentos nacionais e tudo o que se relaciona à epopeia das raças humanas e à vida planetária em geral. Ela pôde mesmo parecer excelente e produzir obras-primas que ficarão como monumentos imperecíveis do pensamento e do sentimento. Porém, por mais excelente que ela seja, a literatura torna-se pobre quando se trata de reproduzir as formas superiores da actividade humana.

À medida que os seus horizontes se alargam e que a humanidade se comunica com a vida universal, formas mais perfeitas de expressão e de sensação se tornam necessárias, para responder ao estado vibratório, às radiações crescentes da alma. Uma intuição segura, o instinto do belo, levam o ser espiritual a substituir, na expressão do seu pensamento e no entusiasmo de sua alma, a harmonia pura pela palavra e pela letra. Porém, as revelações do invisível o estimulam a empregar, por sua vez, os procedimentos usados na vida do espaço.

– as qualidades de um belo estilo

O verdadeiro mérito literário, as qualidades de um belo estilo, consistem em provocar no pensamento, as reflexões do leitor, em lhe criar uma atmosfera mental que contribua para desenvolver, para enriquecer as suas faculdades, as suas forças morais.

Sem dúvida, fazer pensar é nobre, mas o que é mais nobre e mais meritório ainda é elevar a alma em direcção às alturas onde todas essas faculdades se desenvolvem na luz e no amor. É ajudá-la a atingir o grau de evolução que lhe permitirá sentir, não pelos seus órgãos materiais, mas nos seus sentidos íntimos e profundos, as alegrias, as satisfações da vida superior; sentir essa vibração suprema que enche o Universo, segundo o ilustre Esteta, e que provoca a comunhão definitiva com o pensamento divino, o êxtase na beleza compreendida e realizada.

– teatro, meio de educação intelectual e moral; a sua decadência

As obras verdadeiramente belas e importantes tornaram-se raras entre os modernos, seja nas letras ou mesmo no teatro. Este poderia ser um poderoso meio de educação intelectual e moral, pela elevação dos pensamentos, dos sentimentos, pelos nobres exemplos postos diante do público.

Porém, em lugar da sua missão grandiosa e benfazeja, o teatro tornou-se muito frequentemente um método para favorecer as paixões doentias, excitar os sentidos. Em todos esses casos, ele se torna a obra de cépticos gozadores, ignorantes ou descuidados do verdadeiro objecto da vida; é a espuma brilhante e insalubre, o fruto mórbido de uma civilização deformada pela sedução do prazer e das riquezas.

Quantas vezes, atraído pelo título de uma nova peça, por um brilhante cartaz, fui aos maiores teatros parisienses, na esperança de ali encontrar um alimento substancial no decorrer de uma noite bem empregada. Pobre de mim! as minhas decepções não se contam mais. Em lugar da substância fecunda que eu esperava, eram cenas banais ou equívocas que se desenrolavam diante dos meus olhos. Muito engenho ali se empregava, sem dúvida. As palavras espirituais brotavam em feixes cintilantes ou flutuavam, como bolhas de sabão irisadas, sob as luzes da ribalta (i), mas que o menor sopro arrasta sem deixar nenhum traço na lembrança nem na consciência do espectador, porquanto, o pensamento elevado, o exemplo encorajador, o ensinamento consolador sempre se encontravam ausentes. Além disso, a impressão que dali emanava era a de um vazio ou de impotência, quando não era ainda pior.

É preciso devolver ao teatro a sua dignidade, reconstituir o ideal da cena desonrado por autores inaptos e corrompidos.

Com o espectáculo a mudar os costumes e os meios sociais, que constituem a trama da comédia, é preciso saber escolher o que pode elevar as inteligências e os corações. No entanto, como nos nossos autores contemporâneos o que domina é sempre o tema do amor culpado, do amor doentio, assim se aguçam os apetites carnais, se alimentam as paixões, precipita-se a decadência do teatro e trabalha-se para a corrupção geral.

Parece que a nossa época tem um gosto particular pelos tóxicos. Na ordem material, esse gosto traduz-se pelo uso imoderado do álcool e do tabaco, até mesmo do ópio, do éter e de outras drogas maléficas, de tudo o que provoca as desordens físicas, arruína a saúde, faz a raça definhar. Na classe intelectual, esse gosto manifesta-se por uma espécie de predilecção por uma literatura e espectáculos pervertidos. Aqui o mal é ainda mais grave, porque é a consciência, o senso moral, a dignidade do homem que são atingidos. E daí resulta uma expansão dos apetites sensuais, uma orientação defeituosa da vida e das faculdades.

Eis por que convém procurar todos os meios de elevar as almas, os pensamentos, em direcção a essas regiões em que as emanações do alto varrem todas as impurezas.

Desses cumes radiosos, contempla-se e penetra-se melhor a essência das coisas e de lá se desce com a soma de energia necessária para prosseguir nas lutas deste mundo e afastar de si as tentações perigosas, os prazeres aviltantes.

/…

(i) Ribalta: parte dianteira do palco, que se estende para fora do pano de boca e, onde ficam localizados os reflectores. (N.T.)


LÉON DENISO Espiritismo na Arte, Parte V – Participação do mundo espiritual na obra humana / Espiritismo, novo e vigoroso impulso ao pensamento – As qualidades de um belo estilo / Teatro, meio de educação intelectual e moral; a sua decadência (1 de 4) 20º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Le Livre de la Paix, pintura de Edgard Maxence)