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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Espiritismo na Arte ~


Parte V

– Participação do mundo espiritual na obra humana. – Espiritismo, novo e vigoroso impulso para o pensamento.

|Maio de 1922|

Num tópico anterior, vimos que a preponderância da literatura francesa se sustentou por muito tempo. Ela possuía tudo o que seduz e cativa. No entanto, uma evolução se impõe, e chega um momento, na história do pensamento, em que a palavra e o gesto já não são suficientes para traduzir as emoções da alma. E é nessa altura que o senso musical desperta e entra em acção na própria literatura, que deve ser como um reflexo da harmonia superior. A manifestação dessa tendência marca um grau a mais na ascensão do espírito em direcção aos níveis mais elevados, assim como acontece no espaço onde a palavra deixa de ser empregada.

Essa evolução do pensamento e das suas manifestações, sob as suas inúmeras formas, arte, ciências, letras, será dirigida por uma participação cada vez mais íntima e profunda do mundo espiritual na obra humana.

revelação espírita proporciona-nos inesgotáveis temas de inspiração e de sensação. Ela nos inicia nas condições de uma vida mais subtil, vida que é a finalidade essencial de toda a ascensão e da qual os detalhes introduzem, nos programas de estudo e pesquisa, uma variedade de elementos que estendem ao infinito os limites das nossas concepções, dos nossos conhecimentos. Daí resulta, forçosamente, uma fecundação, uma renovação completa de ideal que se desfaria e se alteraria sob o domínio das teorias materialistas ou dogmáticas, domínio que vai ter fim, apesar dos esforços desesperados dos seus partidários.

Assim, o Espiritismo dá ao pensamento um novo e vigoroso impulso. Ele traça, na história dos seres e dos mundos, um círculo imenso, que permite todos os sonhos, todos os voos da imaginação; ele abre novas saídas para tudo o que faz o poder, a grandeza, a beleza do Universo.

Até aqui, a forma literária pôde parecer suficiente para exaltar os sentimentos nacionais e tudo o que se relaciona à epopeia das raças humanas e à vida planetária em geral. Ela pôde mesmo parecer excelente e produzir obras-primas que ficarão como monumentos imperecíveis do pensamento e do sentimento. Porém, por mais excelente que ela seja, a literatura torna-se pobre quando se trata de reproduzir as formas superiores da actividade humana.

À medida que os seus horizontes se alargam e que a humanidade se comunica com a vida universal, formas mais perfeitas de expressão e de sensação se tornam necessárias, para responder ao estado vibratório, às radiações crescentes da alma. Uma intuição segura, o instinto do belo, levam o ser espiritual a substituir, na expressão do seu pensamento e no entusiasmo de sua alma, a harmonia pura pela palavra e pela letra. Porém, as revelações do invisível o estimulam a empregar, por sua vez, os procedimentos usados na vida do espaço.

– as qualidades de um belo estilo

O verdadeiro mérito literário, as qualidades de um belo estilo, consistem em provocar no pensamento, as reflexões do leitor, em lhe criar uma atmosfera mental que contribua para desenvolver, para enriquecer as suas faculdades, as suas forças morais.

Sem dúvida, fazer pensar é nobre, mas o que é mais nobre e mais meritório ainda é elevar a alma em direcção às alturas onde todas essas faculdades se desenvolvem na luz e no amor. É ajudá-la a atingir o grau de evolução que lhe permitirá sentir, não pelos seus órgãos materiais, mas nos seus sentidos íntimos e profundos, as alegrias, as satisfações da vida superior; sentir essa vibração suprema que enche o Universo, segundo o ilustre Esteta, e que provoca a comunhão definitiva com o pensamento divino, o êxtase na beleza compreendida e realizada.

– teatro, meio de educação intelectual e moral; a sua decadência

As obras verdadeiramente belas e importantes tornaram-se raras entre os modernos, seja nas letras ou mesmo no teatro. Este poderia ser um poderoso meio de educação intelectual e moral, pela elevação dos pensamentos, dos sentimentos, pelos nobres exemplos postos diante do público.

Porém, em lugar da sua missão grandiosa e benfazeja, o teatro tornou-se muito frequentemente um método para favorecer as paixões doentias, excitar os sentidos. Em todos esses casos, ele se torna a obra de cépticos gozadores, ignorantes ou descuidados do verdadeiro objecto da vida; é a espuma brilhante e insalubre, o fruto mórbido de uma civilização deformada pela sedução do prazer e das riquezas.

Quantas vezes, atraído pelo título de uma nova peça, por um brilhante cartaz, fui aos maiores teatros parisienses, na esperança de ali encontrar um alimento substancial no decorrer de uma noite bem empregada. Pobre de mim! as minhas decepções não se contam mais. Em lugar da substância fecunda que eu esperava, eram cenas banais ou equívocas que se desenrolavam diante dos meus olhos. Muito engenho ali se empregava, sem dúvida. As palavras espirituais brotavam em feixes cintilantes ou flutuavam, como bolhas de sabão irisadas, sob as luzes da ribalta (i), mas que o menor sopro arrasta sem deixar nenhum traço na lembrança nem na consciência do espectador, porquanto, o pensamento elevado, o exemplo encorajador, o ensinamento consolador sempre se encontravam ausentes. Além disso, a impressão que dali emanava era a de um vazio ou de impotência, quando não era ainda pior.

É preciso devolver ao teatro a sua dignidade, reconstituir o ideal da cena desonrado por autores inaptos e corrompidos.

Com o espectáculo a mudar os costumes e os meios sociais, que constituem a trama da comédia, é preciso saber escolher o que pode elevar as inteligências e os corações. No entanto, como nos nossos autores contemporâneos o que domina é sempre o tema do amor culpado, do amor doentio, assim se aguçam os apetites carnais, se alimentam as paixões, precipita-se a decadência do teatro e trabalha-se para a corrupção geral.

Parece que a nossa época tem um gosto particular pelos tóxicos. Na ordem material, esse gosto traduz-se pelo uso imoderado do álcool e do tabaco, até mesmo do ópio, do éter e de outras drogas maléficas, de tudo o que provoca as desordens físicas, arruína a saúde, faz a raça definhar. Na classe intelectual, esse gosto manifesta-se por uma espécie de predilecção por uma literatura e espectáculos pervertidos. Aqui o mal é ainda mais grave, porque é a consciência, o senso moral, a dignidade do homem que são atingidos. E daí resulta uma expansão dos apetites sensuais, uma orientação defeituosa da vida e das faculdades.

Eis por que convém procurar todos os meios de elevar as almas, os pensamentos, em direcção a essas regiões em que as emanações do alto varrem todas as impurezas.

Desses cumes radiosos, contempla-se e penetra-se melhor a essência das coisas e de lá se desce com a soma de energia necessária para prosseguir nas lutas deste mundo e afastar de si as tentações perigosas, os prazeres aviltantes.

/…

(i) Ribalta: parte dianteira do palco, que se estende para fora do pano de boca e, onde ficam localizados os reflectores. (N.T.)


LÉON DENISO Espiritismo na Arte, Parte V – Participação do mundo espiritual na obra humana / Espiritismo, novo e vigoroso impulso ao pensamento – As qualidades de um belo estilo / Teatro, meio de educação intelectual e moral; a sua decadência (1 de 4) 20º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Le Livre de la Paix, pintura de Edgard Maxence)

domingo, 28 de dezembro de 2025

literatura do além-túmulo ~


Capítulo VIII
 (II)

Resta-me tomar em consideração, uma última obra literária, recebida pela mediunidade há algum tempo, que despertou, na Inglaterra, imenso interesse, assim como suscitou vivas discussões em revistas metapsíquicas, espíritas, religiosas e mesmo em jornais políticos, de forma tal que a primeira edição se esgotou em cinco meses. A obra, que tem o título de Os Escritos de Cléofas, é apresentada como uma “crónica sacra” complementar dos “Actos dos Apóstolos”, que chegaram até nós mutilados em algumas partes, em consequência das perseguições de que foram vítimas os primeiros cristãos.

Os Escritos de Cléofas teriam sido transmitidos directamente (ou, para melhor dizer, “inspirados”) pelo discípulo deste nome, um dos dois ao qual o Cristo apareceu no caminho de Emaús, três dias após a sua morte, e com o qual se sentara para comer na cidade homónima de Emaús.

médium, por intermédio do qual essa notável obra foi ditada, é a srta. Geraldine Cummins, filha do prof. Ashley Cummins, de Cork, Irlanda, doutor em medicina.”

srta. Cummins é uma escritora elegante, autora de um romance e duas comédias escritas em colaboração com terceiros; é, ao mesmo tempo, hábil jogadora de lawn-tenis.

Cito isto com o fim único de mostrar o perfeito equilíbrio de seu corpo e do seu espírito. Em 1923 ela começou a exercitar-se na escrita automática com a sua amiga srta. Gibbes, e em 1925 obtiveram, repentinamente, os primeiros ditados relativos à história do primeiro século da igreja cristã.

A entidade que os ditava assinava “O Mensageiro” e a sua escrita mediúnica se processava com a médium em estado de meio-transe.

O lápis corria muito rapidamente sobre o papel; 1.400 a 1.500 palavras eram ditadas, sem interrupção, numa hora. O ditado, uma vez terminado, era imediatamente retirado, na ignorância do seu conteúdo, com o fim de se evitarem interferências possíveis de sua subconsciência.

Essa medida de precaução não impedia, entretanto, que o escrito continuasse, invariavelmente, no ponto preciso em que fora interrompido. As pessoas que assistiam ao ditado mediúnico não exerciam nenhuma influência sobre ele. A médium acolhia, amavelmente, todos os que desejavam vê-la psicografar e daí as sessões se realizarem, constantemente, na presença de médicos, padres católicos, pastores protestantes, teólogos, historiadores, jornalistas, assim como na de alguns membros das duas sociedades de pesquisas psíquicas: a inglesa e a americana.

A sensação experimentada pela médium, durante o ditado, era a de uma pessoa que sonha, sem ter qualquer influência sobre o desenvolvimento das fantasias sonhadas. Além desta, ela experimentava a impressão de que o seu cérebro era empregue por outra individualidade que dele se servia, de modo análogo ao telegrafista com o seu aparelho ou ao dactilógrafo com a sua máquina de escrever. (*)

(*) Nota de publicação: Pequeno excerto do início do Capítulo, repetido, para melhor contextualização.

Eis pormenores de aparência insignificante e que são, todavia, muito importantes para as pesquisas acerca da natureza da personalidade mediúnica que transmitiu Os Escritos.

Escreve a srta. Gibbes:

“Em diferentes ocasiões, o “Mensageiro” afirmara que “Cléofas” se valia de numerosas crónicas da época. Seria, então, interessante a descoberta de alguma prova tendente a confirmar essa asserção do “Mensageiro”. Estávamos embaraçados com o caso, quando, nos primeiros tempos da transmissão das “mensagens apostólicas”, uma dessas, ora inclusa no capítulo IV, começou, contra o que era hábito, na “primeira pessoa”. A mensagem dizia: “Estive longamente com Pedro e ouvi-lhe atentamente todas as palavras. Ele tinha o poder de transmitir a outros a faculdade das visões e dos sonhos, por intermédio do poder radioso de sua palavra”. Quinze meses depois, quando se preparava a publicação da primeira série de Os Escritos, pediram-se explicações à personalidade comunicante a respeito da frase que acabo de citar. Foi-nos respondido: “É preciso que saibas que, quando estas palavras foram ditadas, a nossa intenção era a de traduzir para a vossa língua, palavra por palavra, uma antiga crónica daquela época, transmitindo-a ao mundo por intermédio desta mão. O nosso intento, porém, se modificou desde que descobrimos que os corpos espirituais das duas senhoras, de que nos servimos, continham poderes suficientes para receber de nós o ditado dos acontecimentos contidos em várias crónicas. Nessas condições, as palavras da introdução, que ditamos há vários meses, não devem ser entendidas como tendo relação connosco, mas com o autor das crónicas de que tiramos as presentes informações que são constituídas de imagens que “Cléofas” colhia na grande “Árvore das Recordações” para transmiti-las em seguida a nós, seus mensageiros, encarregados de transformá-las em termos acessíveis aos homens de vossa geração. De qualquer maneira, seria conveniente suprimir no texto as palavras de introdução, a fim de evitar toda a confusão possível entre as pessoas que lerem essas crónicas.”

A srta. Gibbes continua, dizendo:

“As palavras da introdução foram então suprimidas do texto publicado. Saliento que a explicação acima era absolutamente inesperada por todos nós. Aliás, a julgar pelo imenso material de factos que foi, em seguida, ditado à srta. Cummins, podemos reconhecer o bom fundamento da afirmação supra, segundo a qual se mudará de intenção desde que se verificou a capacidade mediúnica do “instrumento” que se empregava, isto é, que se decidiu ditar à médium uma história dos tempos apostólicos, infinitamente mais longa e mais completa da que antes se havia combinado.” (Light, 1929, pág. 152).

No que concerne aos fins a que se propuseram os espíritos comunicantes, ditando as crónicas em questão, eis o que eles dizem a respeito:

“A nossa intenção é a de semear, no coração dos homens de vossa geração, o gérmen da fé no Divino Mestre, de modo que essa fé possa reflorescer. Esperamos que o coração dos homens de hoje receba a nossa semente! Entre eles, alguns há que julgam que o Cristo está morto! Absolutamente. Isto não é verdade. Ele vive mais do que nunca e reviverá nos corações e nos espíritos das gerações futuras com mais esplendor do que antes!” (Light, 1929, pág. 147).

Tais são as suas intenções, tais as suas esperanças. Todavia, curioso e interessante é saber, a esse respeito, a opinião de um outro espírito-guia da srta. Cummins, ao qual esta última se dirigiu para ter informações referentes ao “Mensageiro” que ditava as crónicas sacras. O espírito-guia respondeu:

“Desde há muito que uma falange de espíritos envidava esforços para descobrir um sensitivo capaz de receber, através do mecanismo de seu cérebro, a história das origens do cristianismo. Os membros desse grupo pensavam que não poderia haver expediente melhor para encher o horrível vácuo espiritual que existe nas almas da actual geração, vácuo horrível quando é observado do mundo espiritual. Cléofas e os seus auxiliares se propuseram, então, enviar aos humanos o remédio de que tinham necessidade, revelando-lhes a história do período apostólico. Na minha opinião, eles não consideraram, suficientemente, que os horizontes mentais da humanidade se modificaram bastante depois da época em que viveram na Terra. Não perceberam que, na presente sociedade humana, não há quase lugar para a fé, pois a humanidade quer atingir o espiritual através do material.” (Light, 1928, pág. 149).

Resulta daí que o espírito-guia da srta. Cummins duvida do sucesso da nobre tentativa de Cléofas e dos seus coadjutores, que se propuseram transmitir aos humanos crónicas autênticas dos tempos apostólicos, na esperança de salvar, assim, a presente humanidade, reconduzindo-a à fé dos cristãos primitivos no seu Mestre. Muitos dos meus leitores compartilham, sem dúvida, da opinião do espírito-guia da srta. Cummins, mas isto não tem importância alguma para o nosso ponto de vista e, unicamente, serve para confirmar uma verdade conhecida desde há muito, isto é, que ninguém se torna omnisciente porque desencarnou, mas que o espírito fica, intelectualmente, no ponto em que estava por ocasião da morte. Não tardam esses seres em assimilar grande número de conhecimentos relativos ao meio espiritual em que se encontram, mas não se despojam, senão muito lentamente, das concepções intelectuais que possuíam e só vagamente entrevêem as verdades espirituais a respeito das quais, assim no além como no mundo dos vivos, cada um tem o dever de exercer livremente o seu discernimento. Tal facto dá lugar, como na Terra, a várias opiniões mais ou menos em desacordo entre si.

Com isto, espero ter citado e comentado, suficientemente, o caso em questão, para dele fazer sobressair o grande valor teórico a favor da interpretação espírita dos factos. O caso é, aliás, semelhante ao de Patience Worth e não lhe é, de modo algum, inferior quanto à natureza maravilhosa do texto obtido mediunicamenteA diferença entre os dois casos é de natureza secundária e consiste em que nas comunicações de Patience Worth se encontram dados – como a sua conversa constante em um dialecto arcaico – que podem servir indirectamente, mas eficazmente, para provar a independência intelectual e, em certo ponto de vista, a própria identificação intelectual da entidade comunicante, ao passo que, no caso de Cléofas, não se vêem aparecer dados desta natureza.

Em todo o caso, isso não apresenta uma importância teórica apreciável, porque, nos dois casos, a eficácia demonstrativa dos factos nada tem que ver com a questão de identificação pessoal, para se concentrar, unicamente, na natureza intrínseca do material psicográfico obtido, cuja proveniência é inexplicável perante toda a hipótese naturalista. Com efeito, mesmo no caso de Cléofas, as hipóteses da telepatia, da criptomnesia, da psicometria, não chegam, de maneira alguma, a considerar o conjunto dos factos, sobretudo se considerando-se não se tratar de indicações isoladas ou de acontecimentos fragmentários susceptíveis de serem atribuídos às emergências da subconsciência da médium (criptomnesia) ou bem ao facto de a médium tê-las captado nas subconsciências dos assistentes ou dos ausentes (clarividência telepática).

Não se trata de “visões psicométricas” em relação com um objecto apresentado ao médium sensitivo e, por consequência, circunscritas pelas “influências” existentes em estado latente no próprio objecto, mas, ao contrário, trata-se de crónicas orgânicas, isto é, de uma narração ordenada de acontecimentos, com numerosas noções geográficas, topográficas, históricas, filológicas, ignoradas da médium e das quais se verificou, em seguida, a autenticidade.

Trata-se, finalmente, em grande parte, de episódios que, referidos obscuramente nos “Actos dos Apóstolos”, agora, ao contrário, são narrados minuciosamente em Os Escritos de Cléofas, o que torna, pela primeira vez, inteligível o texto escriturístico.

Em suma, trata-se de uma obra histórica ordenada, completa, vital, que já se compõe de três grossos volumes e ainda não está terminada. Não é certamente na subconsciência da médium que se deverá buscar a génese de um trabalho que apresenta uma importância real, histórica e religiosa, no qual se encontram dados, indicações, minúcias, que ninguém poderia focalizar sem ser especializado nas ciências histórica, geográfica, teológica e filológica.

Nestas condições, só resta uma coisa a fazer: aceitar, ainda esta vez, em nome da lógica e do bom senso, as explicações fornecidas pelas personalidades mediúnicas que ditaram a obra em questão, isto é, concordar que essas personalidades são espíritos de defuntos que relatam os acontecimentos dos quais foram testemunhas ou que se produziram na época e na região em que viveram.

/…

Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo  Capítulo VIII (2 de 2) 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

quinta-feira, 19 de junho de 2025

o sentido da vida ~


síntese final (*)

Podemos, já agora, chegar ao fim do nosso trabalho, tentando elaborar uma síntese final do Espiritismo, nos seguintes princípios gerais:

1) Deus é a inteligência suprema do Universo, causa primária de todas as coisas e, o homem é a individualização do princípio inteligente universal, reflectindo a imagem do Criador no seio da criação;

2) O Universo é um processo geral de evolução, em que todas as coisas e todos os seres caminham do menor para o maior, do mal para o bem, das trevas para a luz, do caos para a ordem, do inconsciente para o consciente, através de leis imutáveis, que a tudo presidem e relacionam, tanto no plano material quanto no moral e espiritual;

3) O homem é a resultante de longa elaboração do princípio inteligente, no seio da matéria através das formas orgânicas, mas ainda não chegou ao seu fim, continuando essa elaboração a processar-se no tempo e no espaço, em direcção a um ideal de perfeição, imanente no próprio Universo;

4) Há seres inferiores e superiores ao homem, pertencentes à escala humana e, dos quais podemos ver alguns exemplos na própria Terra, entre as raças primitivas e os indivíduos geniais, destacando-se entre eles a figura ímpar do Cristo, como modelo perfeito da mais alta expressão humana conhecida no planeta;

5) O homem, graças à sua natureza espiritual, pode aceder ao conhecimento do chamado Universo supranormal ou hiperfísico, entrando em relação directa ou indirecta com os seres imateriais, inclusive os próprios homens libertados do organismo físico pelo processo comum da morte.

Rumo às Estrelas

Assim, como afirma Dennis Bradley, não estamos parados na Terra, fixados, como dolorosos bonecos movidos por cordões invisíveis, num pequenino ponto do Universo, a face material do planeta em que decorrem as nossas dores e angústias passageiras. Não somos galés da fatalidade, nem simples fogos-de-artifício que se acendem e apagam, ininterruptamente, no breve intervalo entre o berço e o túmulo. Não somos também o absurdo joguete de uma realidade universal “nominalista”, que, através das nossas individualidades múltiplas e sem sentido, procuraria a consciência de si mesma. Além da concepção estratificada dos dogmas de fé e além da suposição incoerentemente transcendental da ciência materialista, o Espiritismo leva-nos à convicção racional de que somos espíritos em evolução através do tempo e do espaço, partículas de um todo que é a Humanidade universal e, caminhamos da Terra em direcção às estrelas.

“Na casa de meu pai há muitas moradas”, afirmou o Cristo aos seus discípulos. No Universo infinito há inumeráveis mundos habitados. E o destino do homem não é o simples mergulho de uma gota d’água no oceano, mas o encontro consciente de uma realidade superior, de que nos dão notícia os que, como o Buda e o Cristo, atingiram os cumes da consciência liberta da prisão da forma.

Vinde a mim, todos os que andais em trabalho e vos achais carregados e, eu vos aliviarei, repete o Espiritismo aos homens de hoje. Porque os seus ensinamentos dão segurança ao espírito atribulado, consolam os aflitos e desesperados e, abrem à Humanidade sem rumo da era científica, ameaçada de auto-destruição, as portas largas e luminosas de uma compreensão mais humana da vida e do mundo.

Que o contradigam os negativistas, os que não crêem nem podem crer nessa nova e mais ampla visão universal. Mas, quando quiserem acusar-nos de visionários, de sonhadores inconsequentes, de amantes do maravilhoso, que verifiquem primeiro as suas próprias convicções, as bases frágeis em que assentam, já não dizemos os seus sonhos, mas os seus pesadelos. E, quando quiserem negar a evidência dos factos, em que baseamos solidamente a nossa crença, que realizem pesquisas e investigações mais profundas, mais sistemáticas, mais constantes, mais sérias, mais científicas do que as realizadas pelos que nos deram a incomparável bagagem da bibliografia metapsíquica e espírita. Não nos podem contentar, já agora, as simples palavras e as suposições dos que se dizem entendidos. Mais alto do que os argumentos falam os factos. E os factos aí estão, na frente de todos, como um desafio permanente.

/…

José Herculano Pires, O Sentido da Vida (*) / Síntese Final; Rumo às Estrelas, 18º fragmento e o último desta obra.
(imagem de contextualização: Cristo na casa de Marta e Maria (1654-1655), óleo sobre tela de Johannes Vermeer)