sábado, 23 de julho de 2016

Nas garras do pensamento crítico ~


A sobrevivência contra a evolução

Mas não fica nisso o desprezo dos autores pela dialéctica. Depois desse gigantesco retrocesso histórico, afirmam eles, como se dissessem uma novidade: “a morte do indivíduo é um dos métodos da vida” (que dúvida!). E continuam: “Cada indivíduo é uma experiência biológica. Cada espécie progride pela selecção, rejeição ou multiplicação dos indivíduos. Biologicamente, a vida deixaria de continuar para diante, se os indivíduos não tivessem um fim e não fossem substituídos por outros. A ideia da imortalidade individual é absolutamente contrária à ideia da evolução contínua”.

E logo mais, numa dessas passagens que se repetem de boca em boca e de livro em livro, enquanto alguém não pede, como Sócrates, a definição do seu verdadeiro sentido: “São os jovens e, não os velhos, os que desejam a imortalidade pessoal.”

É pena que não mencionem a fonte desse espantoso dado estatístico, pois gostaríamos de confrontá-lo com o número de mocidades espíritas, católicas, protestantes, teosofistas e, dos muitos outros jovens espiritualistas não filiados em nenhuma seita, por que estranho motivo não deixam o terreno exclusivamente aos velhos, monopolizadores modernos da velha aspiração humana da sobrevivência.

Dizer, além disso, que a imortalidade individual é contrária à evolução contínua, é “fazer de conta” que essa imortalidade seja biológica. Ora, absurdo dessa monta ninguém poderia aceitar. Como, pois, interpretar-se a atitude desses homens habituados a lidar com as coisas do pensamento, a acompanhar e divulgar os conhecimentos científicos, senão pelo desprezo à dialéctica?

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico  A sobrevivência contra a evolução, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

teremos que modificar o nosso conceito da morte?

A NEUROFISIOLOGIA DURANTE AS PARAGENS CARDÍACAS

Através de muitos estudos tanto em modelos animais como humanos, foi demonstrado que as funções cerebrais ficaram severamente comprometidas, com perda súbita de consciência, todos os reflexos corporais, a abolição de actividade do tronco cerebral com perda do reflexo faríngeo e do reflexo córneo-palpebral e pupilas fixas e dilatadas (Parnia e Fenwick, 2002).

Também falham as funções do centro respiratório, localizado junto do tronco cerebral, o que resulta em apneia. A cessação completa da circulação cerebral é observada nas paragens cardíacas induzidas devido a fibrilação ventricular, durante os testes de implantação de desfibriladores internos.

Este modelo completo de isquémia cerebral pode ser usado para estudar os resultados da anoxia do cérebro. O fluxo sanguíneo da artéria cerebral média, que é uma variante expressiva de monitorização do fluxo sanguíneo no cérebro, decresce para zero cm/seg. imediatamente a seguir à indução de fibrilação ventricular (Gopalan e outros, 1999). A actividade eléctrica tanto no córtex cerebral como nas estruturas mais profundas do cérebro foi demonstrado estar ausente um instante depois. A monitorização da actividade eléctrica do córtex (electro encefalograma – EEG) mostrou que as primeiras mudanças isquémicas são detectadas no EEG, em média, 6,5 seg após a eclosão da paragem circulatória e, com o prolongamento da isquémia cerebral ocorre sempre uma progressão para a isoecletricidade entre 10 e 20 seg. (média: 15 seg.) (De Vries e outros, 1998; Clute e Levy, 1990; Losasso e outros., 1992; Parnia and Fenwick, 2002).

Depois da desfibrilação o fluxo sanguíneo da artéria cerebral média, medido pelo Doppler transcraniano, regressa rapidamente (1 a 5 seg) depois da paragem cardíaca de curta duração (Gopalan e outros, 1999). Contudo, no caso de paragens cardíacas de mais de 37 seg. a actividade electroencefalográfica normal pode não se restabelecer durante longos minutos ou horas depois de as funções cardíacas se terem normalizado, dependendo da duração da paragem cardíaca, apesar da manutenção duma pressão arterial adequada na fase de recuperação (Smith e outros, 1990). Adicionalmente, a recuperação de electroencefalograma subestima a recuperação metabólica do cérebro, e a assimilação de oxigénio pode permanecer diminuta por tempo considerável depois da recuperação circulatória (De Vrieset e outros, 1998).

No caso dos enfartes agudos do miocárdio a duração da paragem cardíaca na Unidade de Cuidados Coronários é habitualmente de 60–120 seg.; numa enfermaria hospitalar ou numa paragem em meio não hospitalar a paragem pode demorar muito mais. A anoxia causa perda de funções dos sistemas celulares. A cessação de actividade eléctrica e da transmissão sináptica em neurónios pode ser considerada como uma defesa instalada ou resposta de poupança de energia (“penumbra isquémica”) (Coimbra, 1999). Com tais funções inactivas, os recursos podem ser usados para manter a sobrevivência celular. A anoxia de apenas alguns minutos de duração causa uma perda provisória de funções do sistema celular; na anoxia prolongada ocorre a morte de células com perda permanente de funções.

Durante a ocorrência de embolias um pequeno coágulo obstrui a corrente sanguínea num pequeno vaso do córtex, resultando anoxia numa parte do cérebro causando perda funcional do córtex, tal como hemiplegia, cegueira parcial ou afasia. Quando o coágulo se dissolver ou fragmentar dentro de alguns minutos a função cortical restabelece-se, e passa a designar-se como ataque isquémico transitório (AIT). Contudo, quando o coágulo obstrui o vaso cerebral durante largos minutos ou horas causa a morte de células neuronais com perda permanente de funções nesta parte do cérebro, e tem lugar o diagnóstico de acidente vascular cerebral (AVC). Desta forma a anoxia transitória resulta em perda transitória de funções e na paragem cardíaca ocorre em segundos uma anoxia total do cérebro, e a atempada e adequada aplicação da Ressuscitação Cardiopulmonar (RCP) pode inverter essa perda provisória de funções cerebrais, por ter evitado a perda definitiva de neurónios.

Uma adequada massagem torácica externa produz um fluxo sanguíneo mínimo, causando o aumento das possibilidades de recuperar as funções cerebrais (Herlitz e outros, 2002). Uma anoxia de longa duração, causada pela cessação da corrente sanguínea no cérebro por mais de 5 a 10 minutos, resulta em prejuízos irreversíveis pela morte de células cerebrais. As mais vulneráveis áreas do cérebro à anoxia são os neurónios do córtex, e os neurónios do tálamo e do hipocampo. (Fujioka e outros, 2000; Kinney e outros, 1994), por serem ambos uma ligação importante entre o tronco cerebral e o córtex no apoio à possibilidade de uso da consciência.

Do estudo de paragens cardíacas induzidas sabemos que no nosso estudo prospectivo de doentes holandeses que sobreviveram a paragens cardíacas (Van Lommel e outros, 2001) bem como no estudo americano (Greyson, 2003) e no estudo inglês (Parnia e outros, 2001), não somente uma falta total de actividade eléctrica do córtex deve ter sido a única possibilidade, mas também a abolição da actividade do tronco cerebral. Contudo, doentes que passam por uma EQM declaram ter tido uma consciência clara. E por motivo das ocasionais e verificáveis experiências fora do corpo, como aquela que diz respeito o caso da dentadura que fez parte do nosso estudo, sabemos que os EQM podem suceder durante o período de inconsciência e não nos primeiros ou últimos segundos da paragem cardíaca.

Desse modo teremos que chegar à conclusão surpreendente que, durante a paragem cardíaca uma EQM é vivida durante uma perda funcional transitória de todas as funções do córtex e do tronco cerebral.

Como é possível alguém dispor de consciência clara estando fora do corpo, no momento em que o cérebro já não funciona, em estado de morte clínica, com electroencefalograma plano? (Sabom, 1998).

Um cérebro nessas condições seria aproximadamente como um computador com a ficha desligada da corrente, com os circuitos retirados do lugar. Não poderia ter alucinações, não poderia fazer completamente nada.

Como declarado acima, a disponibilidade paradoxal de percepção elevadamente lúcida e processos de pensamento lógico durante o período de circulação cerebral danificada em decurso de paragem cardíaca, coloca ao nosso presente entendimento da consciência e das suas relações com as funções cerebrais questões de especial perplexidade.

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Dr. Pim van LommelAs Experiências de Quase-Morte, A Consciência e o Cérebro – A NEUROFISIOLOGIA DURANTE AS PARAGENS CARDÍACAS (4º fragmento) tradução para a língua portuguesa de palavra luz, depois de autorizada pelo autor.
(imagem de contextualização: O Hospital Rijnstate, em Arnhem – Holanda)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

~ uma espécie de frenesim para as da vida material ~


   | Só as religiões estacionárias podem temer as descobertas da ciência; estas descobertas só são funestas para as que se deixam distanciar das ideias progressistas, imobilizando-se no absolutismo das suas crenças; têm em geral uma ideia tão mesquinha da Divindade, que não percebem que assimilar as leis da natureza reveladas pela ciência é glorificar a Deus nas suas obras; na sua cegueira, preferem homenagear o Espírito do mal. Uma religião que não estivesse em nenhum ponto em contradição com as leis da natureza, nada teria a recear do progresso e seria invulnerável.

O Génesis compõe-se de duas partes: a história da formação do mundo material e a da humanidade, considerada no seu duplo princípio corporal e espiritual. A ciência limitou-se à procura das leis que regem a matéria; mesmo no homem, só estudou o invólucro carnal. A este respeito conseguiu perceber, com uma precisão incontestável, as principais partes do mecanismo do Universo e do organismo humano. Neste ponto capital, pode então completar a Génese de Moisés e dela retirar as partes defeituosas.

Mas a história do homem, considerado como ser espiritual, liga-se a uma ordem especial de ideias que não é do domínio da ciência propriamente dita e que esta, por este motivo, não tomou como tema das suas investigações. A filosofia, que tem mais particularmente nas suas atribuições este tipo de estudo, sobre este ponto só formulou teorias contraditórias, desde a espiritualidade pura até à negação do princípio espiritual e até mesmo de Deus, sem outras bases para além das ideias pessoais dos seus autores; deixou portanto a questão indefinida, à falta de um controlo suficiente.

Esta questão, no entanto, é para o homem a mais importante, pois trata-se do problema do seu passado e do seu futuro; a do mundo material só lhe toca indirectamente. O que lhe interessa antes de mais nada é saber de onde vem, para onde vai; se já viveu e se voltará a viver e qual a sorte que lhe está reservada.

Sobre todas estas questões, a ciência fica muda. A filosofia só dá opiniões que vão em sentido diametralmente oposto, mas pelo menos permite discutir, o que faz com que muita gente se coloque do seu lado, dando-lhe preferência à religião, que não discute.

Todas as religiões estão de acordo quanto ao princípio da existência da alma, sem no entanto o demonstrarem; mas não estão de acordo nem sobre a sua origem, nem sobre o seu passado, nem sobre o futuro, nem principalmente sobre o essencial, sobre as condições de que depende a sua sorte futura. Na sua maior parte, fazem do seu futuro um quadro imposto à fé dos seus adeptos, que só pode ser aceite por uma fé cega mas que não pode resistir a um exame sério. Estando o destino que dão à alma ligado, nos seus dogmas, às ideias que se tinham sobre o mundo material e ao mecanismo do Universo nos tempos primitivos, é inconciliável com o estado dos conhecimentos actuais. Só podendo perder com a observação e a discussão, acham mais simples banir uma e a outra.

Destas divergências respeitantes ao futuro do homem nasceram a dúvida e a incredulidade. No entanto, a incredulidade deixa um vazio penoso; o homem encara com ansiedade o desconhecido para onde, mais tarde ou mais cedo, deve fatalmente ir; a ideia do nada gela-o; a sua consciência diz-lhe que, para lá do presente, há para ele qualquer coisa: mas o quê? A sua razão desenvolvida já não lhe permite aceitar as histórias com que lhe embalaram a infância, tomar a alegoria pela realidade. Qual é o sentido desta alegoria? A ciência rasgou uma ponta do véu, mas não lhe revelou o que lhe interessa mais saber. Questiona em vão, nada lhe responde de forma peremptória e apropriada para acalmar as suas apreensões; em todo o lado, encontra a afirmação chocando com a negação, sem provas mais positivas de um lado e de outro; daí a incerteza e a incerteza sobre coisas da vida faz com que o homem se atire com uma espécie de frenesim para as da vida material.

É este o efeito inevitável das épocas de transição: o edifício do passado desmorona-se e o do futuro não está ainda construído. O homem é como um adolescente que já não tem a fé ingénua dos seus primeiros tempos e não possui ainda os conhecimentos da idade madura; só tem vagas aspirações que não sabe definir.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo – Capítulo IV, PAPEL DA CIÊNCIA NA GÉNESE, números de 10 a 14, fragmento. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Amaldiçoados com figuras do submundoJuízo Final, afresco, detalhe da parede do altar da Capela Sistina, Vaticano, Michelangelo)

domingo, 22 de maio de 2016

a pedra e o joio ~

~ a questão metodológica |

Quem se atreve a afirmar, por exemplo, que o roustainguismo é simples questão de opinião e por isso não deve ser discutido, ou que este ou aquele pretenso cientista tem o direito de formular as suas teorias, dá uma prova espontânea da sua ignorância do problema espírita na sua inelutável posição epistemológica. Como obra evidente de mistificação, um decalque malfeito e deformador da obra de Kardec, visando a ridicularizar a doutrina verdadeira, o roustainguismo não pode (absolutamente não pode) ser aceite por nenhum espírita consciente, a não ser por efeito de fascinação. O direito de uma pessoa formular teorias em qualquer campo do conhecimento está sujeito a uma exigência elementar e básica: a de conhecer a fundo esse campo. Sem isso, e sem dar provas disso, ninguém, por mais aparentemente culto que possa ser considerado ou que se diga, não tem o direito de formular e divulgar teorias a respeito. Isso é ponto pacífico em todo o mundo.

Vamos a exemplos concretos:

Quando o Sr. Oswaldo Polidoro, na sua incultura e na sua ingenuidade, se propõe a fazer um Espiritismo do Século XX, chamando-o de Espiritismo Divinista – pois entende que Kardec se sujeitou à Ciência humana e negou a divina –, só os que ignoram a posição metodológica de Kardec e a sua importância cultural podem aceitar esse absurdo. No outro extremo, quando Hernani Andrade elabora em bases físicas uma Teoria Corpuscular do Espírito para superar o suposto mecanicismo de Kardec, só as pessoas incapazes de compreender a posição kardeciana e a função cultural do Espiritismo podem bater palmas a essa tentativa absurda.

Esclareçamos um pouco mais, se possível:

Quando o Sr. Luciano dos Anjos, representando toda a Directoria da Federação Espírita Brasileira, sustenta e propaga o roustainguismo e nega aos espíritas o direito de instituir cursos de doutrina e de organizar instituições culturais espíritas (defendendo ridiculamente o autodidatismo como ideal de formação cultural), só os que nada entendem dos problemas culturais podem apoiá-lo nessa proposta de retorno ao primitivismo. Nenhuma pessoa de bom senso e de certa cultura poderá aceitar esse ilogismo a menos que esteja sujeita a um processo de fascinação, essa forma aguda de obsessão que afecta a capacidade de julgar.

Quando o Sr. Artur Massena, presidente leigo da Sociedade de Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro, acha que as suas experiências de 36 anos no trato da mediunidade (não como cientista, que não é, mas como um prático, um curioso e no máximo um amador) lhe dá o direito de contradizer Kardec e introduzir novidades no assunto, só os que ignoram por completo o que seja Ciência e o que seja cultura podem aprovar essa temeridade.

É necessário compreendermos o absurdo dessas posições, se quisermos prestar algum serviço, por mínimo que seja, à causa espírita. Ainda neste caso aplica-se admiravelmente a recomendação de Erasto a Kardec: é preferível rejeitar dez possíveis verdades ou acertos nesse terreno do que aceitar uma única mentira. Porque essa única mentira porá o Espiritismo em má situação perante os homens de bom senso. E porque, como advertiu Kardec, devemos pisar no terreno sólido da realidade, deixando as utopias, por mais fascinantes que se apresentem, que se submetam à prova inexorável do tempo. Não somos utópicos, somos realistas. Não jogamos com possibilidades, mas com factos. E fora dos factos e da sua pesquisa rigorosa não temos Espiritismo.

Quem não compreender isso pode aderir a qualquer das formas de utopia que levaram o Espiritualismo ao descrédito no século passado e continuam a propagar-se nos nossos dias com ampla liberdade. Quem quiser permanecer no Espiritismo terá de submeter-se às exigências culturais da doutrina, que são sobretudo de ordem metodológica.

Até agora, o Espiritismo só foi conhecido no Brasil através dos cinco volumes da Codificação. Só agora dispomos da colecção da Revista Espírita do tempo de Kardec, tão importante que ele mesmo a incluiu no rol das leituras necessárias para o bom conhecimento da doutrina, como vemos em O Livro dos Médiuns. Ninguém, entre nós, conhece Kardec em profundidade. Homens de cultura, considerados como grandes conhecedores da doutrina, publicaram trabalhos que provam a superficialidade espantosa desse conhecimento. Se leram e estudaram, não aprenderam, não assimilaram.

Dirigentes de grandes instituições doutrinárias mostram-se ignorantes do sentido e da natureza da doutrina, enxertando-a com estranhos conceitos provindos da época anterior ao aparecimento do Espiritismo. Chega-se a combater, como perigoso, o desenvolvimento cultural do Espiritismo, e isso nas altas rodas das instituições de cúpula.

Essa situação desoladora favorece o aparecimento de pretensos reformadores e actualizardores da doutrina, que tanto surgem do meio do povo – através de médiuns ao serviço de espíritos mistificadores –, quanto das elites culturais, através de teóricos improvisados, que se aproveitam dos seus títulos universitários ou posições sociais para impor ao povo as suas ideias pessoais, não raro tão absurdas como as dos místicos sertanejos. E há também, para maior espanto das pessoas sensatas, os que exercendo funções de responsabilidade no meio espírita, se mostram admirados com os prodígios de mediunismo nas formas de sincretismo religioso afro-brasileiro – como a Umbanda, a Quimbanda, o Candomblé – e bandeiam-se para os terreiros.

Tudo isso resulta de uma fonte única: a ignorância da doutrina. As molas secretas da vaidade, da auto-suficiência e das obsessões encorajam essa proliferação de tolices, cuja finalidade evidente é a ridicularização do Espiritismo. Urge, pois, que os espíritas sensatos e responsáveis tomem posição contra essa avalanche de absurdos, tenham a coragem e a franqueza de falar a verdade em defesa do Espiritismo, doa a quem doer.

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José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. A questão metodológica, 2 de 2, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

sábado, 7 de maio de 2016

o sentido da vida ~


O materialismo e o idealismo |

Falemos da possibilidade que o Espiritismo abre, no mundo de hoje, para a solução de velhas rixas filosóficas que pareciam para sempre insolúveis. A natureza de síntese dos conhecimentos humanos, de que se reveste a doutrina, dá-lhe inesperada capacidade nesse terreno. E assim como a velha questão do corpo e espírito encontra a equação imediata nos postulados espíritas, assim também a luta aparente entre o materialismo e o idealismo, no campo da filosofia, nos revela a sua face de simples equívoco.

De um lado alegam os materialistas que não podem tomar conhecimento do Espiritismo, por ser ele uma doutrina idealista, que joga com improbabilidades. Fugindo ao terreno material, entra o Espiritismo pelos caminhos nebulosos da suposição ou das deduções empíricas, sem base experimental e racional. De outro lado, porém, são os idealistas que acusam o Espiritismo de procurar reduzir coisas do espírito a soluções materiais. Quando falamos da possibilidade de comunicação dos espíritos, os idealistas censuram o nosso materialismo, no trato das coisas espirituais. Ao mesmo tempo – e pelo mesmo motivo – os materialistas rotulam-nos de metafísicos, de pescadores de coisas impossíveis.

Diante da celeuma que de um campo e do outro se levanta, perguntaremos: onde ficará o Espiritismo? É verdade que Kardec anotou, no subtítulo de O Livro dos Espíritos, a filiação da doutrina à filosofia espiritualista. Mas não estaremos hoje diante de um facto novo, que nos mostra, na prática a impropriedade desse divisionismo no campo filosófico? A velha disputa que nos vem, como sempre, da velha Grécia, envolvendo Demócrito e Platão, para as figuras de Hegel e Fauerbach, afinal superadas, nas suas contradições, pelo trabalho de Marx e Engels, criadores do materialismo dialéctico, não estaria resolvida com o aparecimento do Espiritismo?

É claro que materialistas e espiritualistas, marxistas, existencialistas e outros, em quantas centenas de variantes se dividem as novas teorias filosóficas, ao longo daquelas duas correntes, considerarão utópica, senão mesmo absurda, a questão que levantamos aqui. Mas todos aqueles que quiserem deixar de lado, por um momento, a bagagem dos seus preconceitos, para olhar as coisas com os próprios olhos, verão que a aceitação dos princípios espíritas liberta o homem das contradições do materialismo e do espiritualismo. Estamos, aliás, diante do conhecido processo de síntese, decorrente do choque das contradições.

Espiritismo não se prende ao terreno exclusivamente idealista, porque não é subjectivo. As suas afirmações decorrem da experiência e não da simples suposição ou dedução. Kardec afirma que o Espiritismo é ciência de observação, e como tal tem de realizar o seu desenvolvimentoNão nos oferece a doutrina uma interpretação idealista, mas um conhecimento objectivo e real dos factos e das coisas. A existência do espírito não nos é apresentada como abstracção, de verificação impossível, mas como realidade que pode ser objectivamente comprovada. E mais do que isso, como parte integrante da própria natureza objectiva. Os casos, por exemplo, de obsessão colocam o problema no terreno da própria patologia médica, incluindo os espíritos entre os factores de anomalias físicas, ao lado dos micróbios e de outros agentes provocadores de doenças e lesões orgânicas.

Por outro lado, diante de todas essas características materialistas, o Espiritismo não se prende aos factos do mundo físico, reconhecendo a existência de um plano hiper-físico na natureza e, de fenómenos com ele relacionados. Prega também a independência do espírito e a sua sobrevivência à morte do corpo somático. Isso basta para identificá-lo com as correntes idealistas.

Essas aparentes contradições do Espiritismo revelam a sua natureza sintética e a sua extraordinária capacidade de solucionar os velhos e intrincados problemas da filosofia tradicional. Na realidade, o Espiritismo não é idealista nem materialista, mas simplesmente realista. Ele observa e interpreta a natureza de um ponto de vista diverso aos daquelas duas correntes, tendo uma visão panorâmica da vida e do mundo nas suas múltiplas manifestações espirituais e materiais. Na trama complexa da vida, o Espiritismo não escolheu um determinado ramo para pousar. E com isso, de uma vez por todas, ele conseguiu solucionar o velho impasse, mostrando que tanto Platão como Demócrito estavam com a razão, e Marx e Engels, ao procurar a síntese entre Hegel e Fauerbach, cometeram o erro filosófico de optar por uma das duas tendências.

Para o Espiritismo, o mundo é uma realidade ao mesmo tempo física e espiritual, objectiva e subjectiva. Não se pode tomar a vida e o mundo por um único dos seus aspectos, sob pena de mutilação e de conflito. O exaustivo conflito entre o materialismo e o idealismo ficou, assim, solucionado e o Espiritismo demonstrou que ele não passava de um dos muitos equívocos em que os homens se têm perdido, nas suas exigências intelectualistas, ao longo dos séculos e das civilizações.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Materialismo e Idealismo, 7º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Giovanna ~

IV (II)

Quais são as necessidades corporais dos habitantes desses mundos?

São quase nulas – continua Giovanna para Maurice – narrando a sua viagem pelos sonhos com os seus amigos invisíveis a outras regiões celestes. – Não conhecem nem o frio, nem a fome, quase nada da fadiga. A sua existência é bem simplificada. Empregam-na na instrução, no estudo do universo, das suas leis físicas e morais. Prestam a Deus um culto magnífico e, desenvolvem em sua honra os esplendores de uma arte desconhecida aqui. Mas a prática das virtudes é, sobretudo, o seu objectivo. A miséria, as doenças, as paixões, a guerra, são quase ignoradas nesses mundos. São moradas de paz, de felicidade, das quais não saberíamos fazer nenhuma ideia no nosso globo de lutas e de lágrimas.

É então para lá que se transportam os homens virtuosos que deixam a Terra?

Há muitos degraus a transpor antes de conseguir a entrada nesses mundos. Esses são os últimos degraus da vida material e, os Seres que os povoam, diáfanos e leves para nós, são ainda grosseiros e pesados comparados aos puros Espíritos. Quanto à nossa Terra, ela não é senão um mundo inferior. É, após aí ter vivido um número de existências suficientes para concluir a sua educação e o seu adiantamento moral, que o Espírito a deixa para abordar esferas mais e mais elevadas e, revestir um corpo menos material, menos sujeito aos males e às necessidades de toda a sorte. Após um número incalculável de vidas, sempre mais longas ao mesmo tempo em que mais doces, crescendo em ciência e em sabedoria, esclarecendo-se, progredindo sem cessar, a alma abandona enfim as moradas corporais e vai perseguir no infinito o curso de sua eterna ascensão. As suas faculdades ampliam-se, uma fonte inesgotável de caridade, de amor flui nela; compreende as leis superiores, conhece o universo, entrevê Deus. Mas pobre de mim! Como estão longe de nós as suas beatitudes, as suas alegrias inefáveis! É preciso elevar-nos para essas alturas sublimes; Deus tem-nos dado os meios. Ele tem querido que sejamos os artesãos de nossa felicidade. A lei do progresso não está escrita na nossa consciência? Não recuemos então diante das lutas, dos sacrifícios, de tudo que purifica, eleva, enobrece. Oh! Se os homens quisessem saber! Se eles se dignassem a procurar o verdadeiro propósito da vida! Que horizontes se abririam perante eles! Como os bens materiais, esses bens efémeros, lhes pareceriam miseráveis, como os rejeitariam para se ligarem ao bem moral, à virtude, que a morte não pode tomar e que, sozinhos, nos abrem o acesso às regiões bem aventuradas.

Assim se escoavam as horas. Maurice inebriava-se das palavras da jovem moça, porque elas lhe ensinavam coisas que tinham sido sempre ignoradas nos seus livros. Era para ele como uma linguagem seráfica, revelando os mistérios do além-túmulo e, com efeito, Giovanna, médium inspirada, era, sem o saber, o eco de uma voz sobre-humana que retinia nas profundezas do seu Ser.

Quase todo o dia, passeavam assim, conversando através dos pequenos bosques perfumados, reaquecidos pelos raios de sol da Itália, acariciados pelo vento, sob o azul profundo do céu. Algumas vezes, subiam num barco com Luísa e deixavam-se deslizar docemente ao sabor das correntes do lago. Pouco a pouco os barulhos enfraquecidos da margem vinham morrer à volta deles. Bem alto, no ar límpido, grandes aves de rapina voavam em giros; peixes prateados saltavam na água transparente. Tudo então os convidava ao devaneio, aos doces desabafos do coração. Mas, reconduzidos por uma força oculta para os assuntos sérios, Giovanna falava de preferência da vida futura, das leis divinas, dos progressos infinitos da alma, de sua depuração pelas provas e sofrimentos.

A dor, dizia, tão temida, tão mal conhecida aqui em baixo, é, na realidade, o ensinamento por excelência, a grande escola onde se aprende as verdades eternas. Ela somente habitua o Ser a se desapegar dos bens pueris, das coisas terrestres, a apreciar o nada. Sem as provas, o orgulho e o egoísmo, esses flagelos da alma, não teriam nenhum freio. É a sua função amolecer os Espíritos rebeldes, os constranger à paciência, à obediência, à submissão. O sofrimento é o grande cadinho da purificação. Como os grãos na joeira, sempre daí se sai melhor. É preciso ter sofrido para compadecer-se com os sofrimentos dos outros. A aflição torna-nos mais sensíveis, inspira-nos mais piedade pelos infelizes. Se os homens fossem esclarecidos, bendiriam a dor como o mais possante agente de progresso, de crescimento, de elevação. Por ela, a razão fortifica-se, o julgamento afirma-se, as enfermidades do coração desaparecem. Mais alto que os bens terrestres, mais alto que o prazer, mais alto que a glória, ela mostra à alma aflita, a grande figura do dever erguendo-se, imponente, augusto, iluminado pelas claridades do fogo que não se extingue.

Essas revelações, essa voz encantadora, esses acentos eloquentes, inspirados, preenchiam Maurice de espanto e de admiração.

Giovanna – dizia – fale ainda, fale sempre, querida; o vivo eco de minhas esperanças, de minha fé, de minha paixão pelo justo e o verdadeiro. Fale! Sou tão feliz de escutá-la, de contemplá-la. E, todavia, me surpreende por vezes o receio de que a nossa felicidade se esvaneça de repente. A nossa felicidade não tem nada de humano. Parece-me que o vento áspero da vida vai soprar sobre o nosso sonho de amor; uma voz secreta me diz que um perigo nos ameaça.

Em vão a jovem moça procurou seguir os seus receios. A aproximação de eventos dolorosos nos preenche de uma apreensão vaga. A alma pressente o porvir? Este é um problema em suspenso, acima da nossa inteligência e que nós não podemos resolver.

Assim como Giovanna tinha dito, quem pode prever o dia de amanhã aqui em baixo?

Alegrias, riquezas, honras, amores insensatos, afeições austeras, tudo passa, tudo escapa entre as mãos do homem como areia subtil. As horas amargas e desoladas da vida podem tocar de perto as horas de felicidade e de paz; mas é raro, quando as primeiras se aproximam, que não sejamos atingidos por um sombrio prognóstico. Assim estava Maurice. Essa conversa sobre a dor – pensava – não seria como um presságio, uma advertência do alto? Uma pressão penosa apertava-lhe o coração quando se separava de Giovanna.

A noite se escoava longa e sem sono. Mas as primeiras claridades da alvorada afastaram as suas impressões e quando retornou para perto de sua bem-amada, vendo-a plena de graça, de jovialidade, de vida, embelezada pelo noivado, os seus últimos receios se esvaneceram como um nevoeiro matinal sob os raios de sol de Agosto.

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Léon Denis, Giovanna_1880, IV (II de II) 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Retrato, pequena pintura que especialistas de arte italiana atribuem a Rafael Sanzio)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

o grande enigma ~

Deus e o Universo (IV)

Não procures Deus nos templos de pedra e de mármore, ó homem que o queres conhecer, e sim no templo eterno da Natureza, no espectáculo dos mundos a percorrer o Infinito, nos esplendores da vida que se expande na sua superfície, na vista dos horizontes variados: planícies, vales, montanhas e mares que a tua morada terrestre te oferece. Por toda a parte, à luz brilhante do dia ou sob o manto constelado das noites, à margem dos oceanos tumultuosos e, assim na solidão das florestas, se te souberes recolher, ouvirás as vozes da Natureza e os subtis ensinamentos que murmuram ao ouvido daqueles que frequentam as suas solidões e estudam os seus mistérios.

A Terra voga sem ruído na extensão. Essa massa de dez mil léguas de circuito desliza sobre as ondas do éter qual um pássaro no Espaço, qual um mosquito na luz. Nada denuncia a sua marcha imponente. Nenhum ranger de rodas, nenhum murmúrio de vagas sob os seus flancos. Silenciosa, ela passa, rola entre as suas irmãs do céu. Toda a potente máquina do Universo se agita; os milhões de sóis e de mundos que a compõem, mundos perto dos qual o nosso vale por uma criança, todos se deslocam, se entrecruzam, prosseguem as suas evoluções com velocidades aterradoras, sem que som algum ou qualquer choque venha trair a acção desse gigantesco aparelho. O Universo continua calmo. É o equilíbrio absoluto; é a majestade de um poder misterioso, de uma Inteligência que não se impõe, que se esconde no seio das coisas e, cuja presença se revela ao pensamento e ao coração e, que atrai o pesquisador qual a vertigem do abismo.

Se a Terra evolucionasse com estrondo, se o mecanismo do mundo se regulasse com fracasso, os homens, aterrorizados, curvar-se-iam e creriam. Mas, não! A obra formidável se executa sem esforço. Globos e sóis flutuam no Infinito, tão livres quanto plumas sob a brisa. Avante, sempre avante! O rondar das esferas se efectua guiado por uma potência invisível.

A vontade que dirige o Universo disfarça-se a todos os olhares. As coisas estão dispostas de maneira que ninguém é obrigado a lhes dar crédito. Se a ordem e a harmonia do Cosmos não bastam para convencer o homem, este é livre no conjecturar. Nada constrange o céptico para ir a Deus.

O mesmo acontece às coisas morais. As nossas existências se desenrolam e os acontecimentos se sucedem sem ligação aparente; mas, a imanente justiça domina ao alto e regula os nossos destinos segundo um princípio imutável, pelo qual tudo se encadeia numa série de causas e de efeitos. O seu conjunto constitui uma harmonia que o espírito emancipado de preconceitos, iluminado por um raio da Sabedoria, descobre e admira. Que nós sabemos do Universo? Nossa vista só percebe um conjunto restrito do império das coisas. Somente os corpos materiais, à nossa semelhança, a afectam. A matéria subtil e difusa nos escapa. (i) Vemos o que há de mais grosseiro, em tudo que nos cerca. Todos os mundos fluídicos, todos os círculos onde a vida superior se agita, a vida radiosa, se eclipsam aos olhos humanos. Distinguimos apenas os mundos opacos e pesados que se movem nos céus. O Espaço que os separa nos parece vazio. Por toda a parte, profundos abismos parecem abrir-se. Erro! O Universo está cheio. Entre essas moradas materiais, no intervalo desses mundos planetários, prisões ou presídios flutuam no Espaço, outros domínios da Vida se estendem, vida espiritual, vida gloriosa, que os nossos sentidos espessos não podem perceber porque, sob as suas radiações, quebraria qual se quebra o vidro ao choque de uma pedra.

A sábia Natureza limitou as nossas percepções e as nossas sensações. É degrau a degrau que ela nos conduz no caminho do saber. É lentamente, trecho por trecho, vidas depois de vidas, que ela nos leva ao conhecimento do Universo, seja visível, seja oculto. O ser sobe, um a um, os degraus da escadaria gigantesca que conduz a Deus. E cada um desses degraus representa para o ser uma longa série de séculos.

Se os mundos celestes nos aparecessem de repente, sem véus, em toda a sua glória, ficaríamos aturdidos, cegos. Mas, os nossos sentidos exteriores foram medidos e limitados. Eles avultam e se apuram à medida que o ser se eleva na escala da existência e dos aperfeiçoamentos. O mesmo se dá com o conhecimento, a possessão das leis morais. O Universo se desvenda aos nossos olhos à proporção que a nossa capacidade de compreender as suas leis se desenvolve e engrandece. Lenta é a incubação das Almas sob a luz divina.

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(i) Actualmente não conhecemos, nem podemos conhecer, na sua essência, nem o Espírito nem a Matéria.



Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 4 de 5, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali)