sábado, 5 de novembro de 2022

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Tratamento de Vícios e Perversões

Levados pelas excitações novidadeiras do momento de transição que atravessamos, certas instituições mal dirigidas pretendem modernizar as práticas doutrinárias, suprimindo as sessões mediúnicas e substituindo-as por reuniões de estudos doutrinários. Alegam que a doutrinação e esclarecimento dos espíritos inferiores é função dos espíritos superiores, no plano espiritual. Essa é uma boa maneira de fugir às responsabilidades doutrinárias e cortar as ligações do homem com os espíritos, relegando-os ao silêncio misterioso dos túmulos, onde, na verdade, não se encontram. Foi essa a maneira que os cristãos fascinados pelo poder romano, na fase de romanização do Cristianismo, encontraram, para se livrarem das manifestações agressivas dos espíritos rancorosos, contrários aos ensinamentos evangélicos, sem perceberem que se desligavam assim do mundo espiritual. A supressão dos cultos pneumáticos – sessões mediúnicas da era apostólica –, permitiu a romanização da Igreja, frustrando-lhe os objectivos espirituais. O mundo espiritual é unitário e orgânico, exactamente como o mundo material. Cortar a ligação humana com a região inferior desse mundo é atentar contra ao princípio doutrinário da solidariedade dos mundos e constitui uma ingratidão para com os espíritos que deram a própria doutrina. Mais do que isso, é uma insensatez, pois não dispomos de meios para fazer essa cirurgia cósmica. A Igreja pagou caro a sua insensatez, tendo de recorrer mais tarde à revelação grega, à Filosofia de Platão (Santo Agostinho) e de Aristóteles (São Tomás de Aquino) para erigir com decalques e empréstimos a sua própria Filosofia. 

Por outro lado, a interpenetração dos mundos (espiritual e material) faz parte do sistema, ou seja, da organização universal, que não temos o direito de violar em favor do nosso comodismo, do nosso egoísmo e da nossa cegueira espiritual. Essa pretensão criminosa lembra a teoria do Espiritismo sem espíritos, de Morselli, famoso director da Clínica de Doenças Mentais de Génova, que, obrigado a aceitar a realidade dos factos, escapou do aperto por essa via estratégica. Querem os espíritas actuais seguir a esperteza do genovês ilustre, sem os seus ilustrados argumentos? 

A alegação de que os espíritos inferiores que nos perturbam são doutrinados no Além, o que dispensa o nosso trabalho nas sessões mediúnicas, é de estarrecer. Então essas criaturas que passaram anos assistindo e dirigindo sessões mediúnicas, doutrinando espíritos, não se doutrinaram a si mesmas? Não viram os espíritos necessitados a que se dirigiam, não ouviram as suas ameaças e os seus lamentos, passaram pelas actividades doutrinárias como cegos e surdos? Não aprenderam nos compêndios da doutrina que os espíritos apegados à matéria necessitam de esclarecimento – como o sedento necessita da água, como o escafandrista necessita do oxigénio da superfície para respirar no fundo do mar? Não aprenderam, com as pesquisas de Geley, que nas sessões mediúnicas se processa em fluxo contínuo a emissão de ectoplasma que permite aos espíritos sofredores sentirem-se amparados na matéria, como se ainda estivessem encarnados, para poderem compreender as explicações doutrinárias? Não aprenderam que os espíritos superiores descem às sessões mediúnicas para poderem comunicar-se com entidades sofredoras inadaptadas ainda aos planos elevados? Querem negar a realidade dolorosa das obsessões e entregar totalmente os obsidiados ao internamento das clínicas de Morselli? Não sabem que a relação homem-espírito é uma condição permanente dos mundos inferiores como o nosso, em que a maioria dos espíritos desencarnados permanece apegada à Terra e por isso necessita do socorro das sessões mediúnicas? Annie Besant, a admirável autora de A Sabedoria Antiga, discípula e sucessora de Blavatsky na presidência da Sociedade Teosófica Mundial – apesar da repulsa dos teósofos às práticas mediúnicas –, abriu uma excepção no aludido livro, ensinando que, no caso de perturbações de espíritos numa casa, se alguém tiver coragem de falar com a entidade e provar-lhe que já morreu, conseguirá afastá-la. A grande teosofista reconhece a necessidade e a eficácia da doutrinação espírita e, os próprios espíritas querem agora, tardiamente, assumir a atitude teosófica que o próprio Sr. Sinet, teósofo do mais alto prestígio, condenou no seu livro Incidentes da Vida da Sra. Blavatsky. Sinet corrige esta (a sua mestra) no tocante à teoria dos cascões astrais e sustenta a legitimidade das manifestações mediúnicas. Tudo isso é ignorância em excesso para representantes de Federações e outras instituições espíritas que visitam grupos e centros, como fiscais de feira, mandando suspender as sessões mediúnicas. 

Nas perversões sexuais e sensoriais em geral, bem como nos casos de toxicomania, a doutrinação dos espíritos vampirescos é indispensável ao êxito da terapia. Porque nesses casos estão sempre envolvidos pelo menos o vampiro espiritual e o vampirizado encarnado. Se não se obtiver o desligamento dessas vítimas recíprocas, não se conseguirá a cura. Os que defendem a tese de Morselli no meio espírita, essa tese já há muito superada entre os próprios adversários gratuitos ou interesseiros da doutrina, passaram com armas e bagagens para o adversário. Não querem apenas a amputação da doutrina, pois na verdade querem a morte e a sepultura inglório do Espiritismo, como os teólogos católicos e protestantes da Teologia Radical da Morte de Deus querem enterrar o suposto cadáver de Deus na cova aberta pelo louco do Nietsche, que acabou morrendo louco. Sirva o exemplo do filósofo infeliz para os filosofantes imberbes e desprevenidos do nosso meio espírita. Não há nada mais desastroso para uma doutrina do que abrigar entre os seus adeptos criaturas que se deixam levar por cantos de sereias. Precisamos, com urgência, recorrer à táctica de Ulisses, mandando tapar com enchumaços de algodão os ouvidos desses ingénuos navegantes de mares perigosos. 

/… 


José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Tratamento de Vícios e Perversões (2 de 2), 12º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

apóstolos de verdade ~


“Nada há encoberto que não venha a ser descoberto” (Lucas 12:2). 

Elaborar a apresentação desta obra é uma honra. Trata-se de histórica homenagem à maior pena espírita de todos os tempos, por ocasião dos trinta anos de seu passamento. Com muita felicidade e propriedade, o querido mentor espiritual Emmanuel diz ser José Herculano Pires “o metro que melhor mediu Kardec” e “a maior inteligência espírita contemporânea”. De facto, ninguém conseguiu, com tanta maestria e segurança, ser tão profundo no contexto doutrinário, em perfeita sintonia com Jesus e o codificador do Espiritismo, como J. Herculano Pires, “O Apóstolo de Kardec”, assim denominado com máxima justiça por seu amigo e biógrafo Jorge Rizzini

Dotado de incomparável cultura geral e doutrinária, Herculano destaca-se no Jornalismo, na Filosofia e na Parapsicologia. Exímio escritor, poeta e romancista. Emérito educador e fiel tradutor da codificação kardeciana, dedicou quase toda a sua vida à excelsa doutrina, por ele muito amada, o que o tornou seu grande intérprete e defensor. 

Distanciados desse “metro”, alguns irmãos espíritas, infelizmente, fazem ouvidos moucos a devidas advertências em face da intromissão de pensamentos divergentes no nosso meio doutrinário. Claro que todos têm o direito de manifestar seus os pontos de vista. Mas uma coisa é respeitar o pensamento alheio, outra, completamente diferente, é concordar com a tentativa de desfiguração de uma doutrina, como poucas, muito bem nascida. Pode-se até tolerar, porém jamais convir com qualquer ingerência descabida no pensamento espiritista. Aliás, a grande missão do espírita hodierno, singularmente encarnada por J. Herculano Pires, é preservar para as gerações seguintes o inigualável património intelecto-moral codificado por Allan Kardec

A grandiosa obra de amor e de redenção realizada pelo codificador da doutrina espírita não pode ser maculada, directa ou indirectamente, de forma ostensiva ou não. Aquele que, em pretéritas existências, já se revelara destemido e valoroso, personificando um dos mais sapientes sacerdotes celtas (druidas) e, igualmente, o aguerrido reformador religioso John Huss, assassinado pela Inquisição em 1415, tem credenciais inatas para inaugurar a Era do Espírito, sistematizando a doutrina profetizada pelo Cristo, quando este nos prometeu enviar o Consolador. (Cf. João 14, 15 e 16.) 

Muito cómodo é estar na faixa da indiferença; todavia, a voz da consciência soará mais alto na dimensão extrafísica, no momento do autojulgamento, na hora de o ser se encontrar diante de si mesmo... 

A doutrina rustenista, oriunda do livro Os Quatro Evangelhos (Federação Espírita Brasileira), ao lado da ubaldiana, da laicista pan-americana e da ramatisista, embora tenham o propósito de macular o Espiritismo, afiguram-se inofensivas à opinião desavisada de alguns profitentes da Terceira Revelação. Em vez de se informarem sobre tais ideários, verificando os seus ensinos aberrantes, e em seguida participarem dos debates abertos, situam-se na inércia, optando por “ficar em cima do muro”. É que assim estarão sempre “de bem”, poderão frequentar todos os círculos, sem se comprometerem. Alegam vivenciar, desse modo, a caridade, ser fraternos. Mas, em verdade, desconsideram a doutrina espírita e até os ensinos do Cristo, os quais repelem o comodismo dos “lobos fingindo-se de ovelhas” e a “paz de pantanal”. 

O nosso querido Herculano Pires, agindo como verdadeiro cristão, enfrentou com galhardia todos os adversários da luz. Não se omitiu em nenhum momento, mesmo quando as palavras malsãs eram proferidas por amigos. Conhecia muito bem os ensinos de Jesus e exercitava-os com afinco. Compreendia por demais a profundidade da doutrina cristã e a necessidade de preservá-la; por isso, não fugia à luta, em nome da integridade e pureza do Cristianismo, ressuscitado pelo próprio Jesus, na companhia dos “anjos do céu” e, na Terra, erguida sob os cuidados daquela mente grandiosa, encarnada na cidade francesa de Lyon, em 3 de Outubro de 1804: Hippolyte Léon Denisard Rivail

J. Herculano Pires estava ciente do alcance do episódio do Apocalipse em que Jesus abomina a inércia no exercício da religiosidade: “Conheço as tuas obras, que nem és frio, nem quente. Quem dera fosses frio, ou quente! Assim, porque és morno, nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (3:15-16). 

E eis aqui outros ensinos de Jesus contrários à falta de acção: 

“Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura”; “Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte”; “Ninguém pode servir a dois senhores; porque há de aborrecer-se de um e amar ao outro. (Mateus 9:16; 5:13-14 e 6:24.) 

Infelizmente, existem espíritas que se mostram em posição de suposta neutralidade... Algumas vezes, a tolerância excessiva mascara outra apresentação, veste outro significado: a hipocrisia. Verifica-se então o fingimento, a impostura, a simulação dentro do contexto religioso. O Mestre nos alerta: 

Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Nada há encoberto que não venha a ser revelado; e oculto que não venha a ser conhecido. Porque tudo o que dissestes às escuras, será ouvido em plena luz; e o que dissestes aos ouvidos, no interior da casa, será proclamado dos eirados. (Lucas 12:1-3.) 

A união dos espíritas não pode ser imaginária, forçada, fingida. Os que seguem Kardec, diante de conceitos anti-doutrinários, não podem ficar quietos e calados, em nome de uma falsa tolerância ou unidade aparente, voltada tão só a proveitos próprios. Por se haver conservado imune a tudo isso, Herculano merece de todos os seguidores do Espírito de Verdade o devido respeito, numa muito sincera consideração; trata-se de exemplo a ser sempre recordado e com máximo empenho vivido, donde ser para nós matéria estatutária: 

Art. 4.º [...] Parágrafo único. Para inspirá-la à consecução de sua finalidade, a ADE-RJ adoptará como referência a vida e a obra do jornalista, professor, escritor e filósofo José Herculano Pires (1914-1979), cuja memória homenageará todos os anos, em setembro, assim como a de Allan Kardec, em outubro. 

Congratulo-me com a ADE-RJ e com o estimado e corajoso Sergio F. Aleixo pela feitura de tão dignificante obra, fundamental para a implementação de uma nova postura a ser exercitada pelas futuras gerações de espíritas, em homenagem àquele que por excelência a antecipou: o maior defensor da integridade e pureza doutrinária do Espiritismo, vindo a esta dimensão em 1914, na antiga Província do Rio Novo, hoje a cidade de Avaré, no interior do Estado de São Paulo, e liberto daquela vida física em 1979, na Capital: José Herculano Pires, que reverenciamos com esta publicação. 


/... 


Américo Domingos Nunes Filho, in Prefácio à obra de Sergio F. Aleixo – O METRO QUE MELHOR MEDIU KARDEC JOSÉ HERCULANO PIRES, UMA PROFISSÃO DE FÉ ESPÍRITA EM LINHA RETA, fragmento solto desta obra. 
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)

sábado, 8 de outubro de 2022

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


O País de Gales. A Escócia. A obra dos bardos.
(II de III)

Os galeses, em geral, acreditavam firmemente no mundo dos espíritos e nas suas manifestações. Eles apresentam, às vezes, nomes e formas muito fantasiosas para isso. Os seus relatos deixam uma grande margem para a imaginação. Entretanto, do conjunto dos factos relatados se deduz uma série de testemunhos que não saberíamos recusar.

Por exemplo, no que se refere aos “espíritos batedores da mina”, esses seres invisíveis que, pelos seus golpes surdos, prolongados, repetidos, encorajam os mineiros e dirigem as suas pesquisas em direcção aos melhores filões; eis o relatório redigido, sobre esse assunto, pelo engenheiro Merris, homem muito estimado pelo seu saber e pela sua probidade, publicado na revista Gentleman’s Magazine:

“As pessoas que não conhecem as artes e as ciências ou o poder secreto da natureza zombarão de nós, mineiros de Cardigan, que acreditamos na existência dos “batedores”. Eles são uma espécie de génios bons, mas inapreensíveis, que não se vêem, mas se ouvem e, que parecem trabalhar nas minas, isto é, que o “batedor” é o representante ou o precursor do trabalho nas minas, como os sonhos o são de certos acidentes que acontecem.

Quando foi descoberta a mina de Esgair y Myn, os “batedores” nela trabalharam activamente, noite e dia e, um grande número de pessoas os ouviram. Mas, após a descoberta da grande mina, não foram mais ouvidos. Quando comecei a explorar as minas de Elwyn-Elwyd, os “batedores” agiram tão fortemente, durante um certo tempo, que assustaram os jovens operários. Quando removíamos as camadas de rochas, antes de chegar ao mineral, é que os ruídos se fizeram mais fortes; eles cessaram quando nós atingimos o mineral.

Sem dúvida, as nossas asserções serão discutidas. Afirmo, entretanto, que os factos são reais, mesmo que não possa nem pretenda explicá-los. Os cépticos podem rir; quanto a nós, mineiros, continuaremos a nos alegrar e a agradecer aos “batedores”, ou melhor, a Deus, que nos envia os seus conselhos.”

Os fenómenos de assombração não são raros no País de Gales. Cita-se de bom grado tal casa ou tal castelo que os conheceram e suportaram. O Sr. Le Goffic, na sua viagem a Cardiff como delegado bretão à grande Assembleia solene de 1899, recolheu uma grande série de relatos desse género, que ele publicou no seu livro L’Âme Bretonne (A Alma Bretã).

A maioria desses relatos nos parecem muito marcados de superstição. Cremos, portanto, que devemos indicar um testemunho sério, o de Lady Herbert, ilustre patriota galesa, descendente dos antigos reis “kymris”, que recebia a delegação no seu castelo de Llanover.

O Sr. Le Goffic cita a conversa que teve sobre esse assunto com essa grande dama:

“O exemplo vem do Alto. Não se diz na Inglaterra que a própria rainha tem o seu fantasma que ronda os apartamentos de Windsor? E esse fantasma, vestido de negro, não é outro senão a grande Elisabeth.

O lugar-tenente Glynn, de guarda na biblioteca, percebeu como o fantasma penetrou no quarto contíguo. Ora, esse quarto não tinha saída, mas tivera uma, outrora, durante a vida de Elisabeth e, que foi fechada depois. O lugar-tenente correu atrás do fantasma e chegou mesmo a tempo de vê-lo introduzir-se na parede. O facto se reproduziu diversas vezes e o medo foi tão grande, em Windsor, que foi preciso dobrar a guarda da noite.

Windsor tem a sua dama negra, o meu castelo de Cold Brooks tem a sua dama branca. Vós perguntais qual o sentido dessas aparições? Ora, como a igreja nos explica, são almas em sofrimento que pedem piedade dos vivos esquecidos. Os outros espectros têm a função de avisadores. É o caso, creio, da dama negra de Windsor: a sua presença anuncia sempre algum facto grave, uma guerra ou catástrofe próxima.

Os avisos, ou como vós dizeis na Bretanha, os “intersignos”, revestem todas as formas. Algumas vezes essas formas são especiais para certas famílias. Os Grey de Ruthwen são avisados da morte dos seus membros pela aparição de uma carruagem, com quatro cavalos negros.

A família Airl, quando um dos seus membros está perto da hora da morte, ouve um rufo de tambor. Num jantar, estando presente um desses Airl, alguém lhe perguntou como passatempo: “Qual é, então, o ‘intersigno’ de sua família?” – “O tambor”. E, como para atestar o facto, um rufo, surdo e velado, soou ao longe. Lord Airl empalideceu; algum tempo depois, um mensageiro veio anunciar que um dos membros de sua família estava morto.

Os Mac-Gwenlyne, descendentes do célebre clã desse nome, possuem há séculos, no norte da Escócia, o velho solar de Fairdhu: uma grande abóbada curvada lhe dá o acesso e, julga-se que a pedra que serve de base para essa abóbada começa a tremer quando um Mac-Gwenlyne vai morrer...” 

Os casos de castelos e lugares assombrados são tão numerosos na Escócia que não citamos todos. Sabe-se que esse país é a terra clássica dos videntes, dos fantasmas e dos espíritos familiares. O aspecto melancólico das suas regiões, cobertas de neblina e, das suas ruínas presta-se às visões e às evocações.

Ainda nos nossos dias, a sombra de Mary Stuart não apareceu a Lady Caithness, Duquesa de Pomar, na capela real de Holyrood, onde se alinham os túmulos dos reis da Escócia? Na sua sumptuosa casa da rua Brémontier, em Paris, em dias de reuniões psíquicas, a duquesa se comprazia em nos contar a sua palestra nocturna com a infortunada rainha.

/…


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte – OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO III – O País de Gales. A Escócia. A obra dos bardos (II de III), 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, OssianDesaixKléberMarceauHocheChampionnet, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson

sábado, 1 de outubro de 2022

O Espiritismo na Arte ~


Parte IV 

- Literatura e oratória 
- A língua francesa e a ideia espiritualista 

(Abril de 1922) 

A literatura e a oratória também são formas de arte, meios poderosos de fazer o pensamento brilhar no nosso mundo. Pode dizer-se o que Esopo (i) dizia da língua: “ela é, segundo o uso que se fizer dela, o que há de melhor ou de pior.” Sob esse ponto de vista, a França sempre teve um papel privilegiado. A clareza, a nitidez do seu idioma, ainda que mais pobre que outros em qualificativos, serviu largamente para a expansão do seu talento e a difusão das ideias generosas. São, portanto, as qualidades desse idioma que asseguram ao nosso país, ao mesmo tempo, um lugar à parte no mundo e uma alta situação no futuro. 

A nossa língua, pela sua limpidez, a sua clara compreensão das coisas, é o instrumento predestinado das grandes anunciações, das revelações augustas. As outras línguas têm o seu charme, a sua beleza, porém nenhuma consegue esclarecer melhor as inteligências, persuadir, convencer. Assim, os espíritos de elite que vierem à Terra cumprir uma missão renovadora encarnarão de preferência no nosso país e, dentre eles, os maiores de todos, a fim de que a nossa língua possa servir de veículo aos seus altos e nobres pensamentos através do mundo. A sua presença e a sua acção, dizem-nos do Além, ainda contribuirão para aumentar o prestígio e a glória da França. 

A literatura francesa sobressai principalmente na análise dos sentimentos e das paixões; ela se caracterizou sobretudo no romance, cujo tema geral é o amor sensual. Sob a influência do materialismo ávido de todos os prazeres, ela perdeu-se em contradições, assim como em prazer e, em lugar de cooperar para o enobrecimento da raça, contribuiu, a maior parte das vezes, para corromper os seus costumes e precipitar a sua decadência. A maioria dos autores do nosso tempo compraz-se em expor as suas aventuras na ostentação de um cinismo picante. Daí, em certos momentos, o descrédito da França no exterior e as medidas tomadas contra a nossa língua em inúmeros estabelecimentos de educação. Já é tempo de uma nova corrente de ideias vir inspirar a arte e a literatura francesas, com um senso mais filosófico das coisas e uma noção mais ampla do destino. Somente isso pode restituir às obras do pensamento toda a sua amplitude e a sua eficácia regeneradora. 

Sob a inspiração de colaboradores e instrutores invisíveis, essa reacção vai acentuar-se. Os escritores, os oradores, sentem-se levados pelas forças ocultas em direcção a horizontes mais puros, mais luminosos. De toda a parte surgem produções impregnadas de doutrinas amplas e elevadas. 

O pensamento francês começa a adquirir esse poder de irradiação ao qual tem direito; um dia ele atingirá as alturas que, até agora, só a música soube fazer entrever e pressentir. Ele chegará a possuir esse dom de penetração, de persuasão, essas qualidades estéticas que asseguram a sua predominância definitiva. Pode constatar-se desde agora que, sob a sua influência, o mundo latino se impregnou inteiramente das doutrinas de Allan Kardec sobre as vidas sucessivas. As obras do grande iniciador foram traduzidas em todas as línguas neolatinas. As edições espanholas e portuguesas sucedem-se rapidamente na América Central e Meridional; a ideia espiritualista penetra nos meios mais isolados, sob a forma com a qual os escritores franceses a revestiram. 

No século passado (ii), os autores de talento já haviam encontrado motivos de inspiração nos fenómenos psíquicos. Pode-se citar Balzac (iii)Alexandre Dumas (iv)Théophile Gautier (v)MicheletEdgar Quinet (vi)Jean Reynaud (vii) e muitos outros. 

O Romantismo, apesar dos seus excessos, levava a esse século, como uma onda muito grande, a noção do divino e da imortalidade; assim, os homens de 1830 e de 1848 tinham um carácter mais enérgico e uma importância mais nobre que os homens políticos da nossa época. 

O impulso romântico manifestou-se como prelúdio do grande movimento de ideias que hoje abrange toda a humanidade. De Lamartine a Hugo, até Baudelaire e Gérard de Nerval (viii), todos buscam o infinito na natureza e na vida. A noção das vidas sucessivas encontra-se em La chute d’un ange (A queda de um anjo) e em Jocelyn(ix) depois em Revenant (Voltando)Les contemplations (As contemplações)La légende des siècles (A lenda dos séculos), de Victor Hugo (x); em La vie antérieure (A vida anterior), de Baudelaire (xi), etc. 

Em obras mais recentes, certos autores de mérito, como Paul Grendel, Élie Sauvage, Dr. Wylm, etc., deram mais desenvolvimento à ideia psíquica e dela fizeram sobressair as grandes consequências. Também no exterior, Rudyar Kipling (xii), dizem, e Selma Lagerlof (xiii) introduzem a reencarnação nas suas obras. Toda uma plêiade de jovens e ardentes escritores, nem sempre avaliados, segue esses exemplos e se embrenha em caminhos ricos e fecundos. 

Os graves acontecimentos dos últimos anos criaram por toda a parte novas necessidades do espírito e do coração: a necessidade de saber, de crer, de descobrir os focos de uma luz mais viva, de fontes abundantes de consolação. A alma da França faz esforços para se libertar das opressões do materialismo. As suas profundas intuições célticas despertam e a conduzem em direcção às fronteiras espirituais onde todo um mundo invisível a chama e a atrai. 

/… 
(i) Esopo: Fabulista grego (século VII - VI a.C.), de origem escrava, depois alforriado. É personagem meio lendária, que se representava como indivíduo feio, gago e corcunda. A reunião actual das Fábulas de Esopo, redigidas em prosa grega, é atribuída ao Monge Planúdio, no século XIV. (N.T., segundo o D.K.L.)
(ii) O autor refere-se ao século XIX. (N.T.)
(iii) Honoré de Balzac: escritor francês (Tours, 1799 - Paris, 1850). Autor de A Comédia Humana reuniu, a partir de 1842, diversas séries de romances, formando um verdadeiro afresco da sociedade francesa, da Revolução no fim da Monarquia. Alguns dos seus romances são: Gobseck, A Pele de Onagro, O Coronel Chabert, O Médico da Roça, Eugénie Grandet, O Pai Goriot, A Procura do Absoluto, O Lírio no Vale, Ilusões Perdidas e outros. Também escreveu contos e peças de teatro. (N.T., segundo o D.K.L.)
(iv) Alexandre Dumas: escritor francês (Villers-Cotterêts, 1802 - Puys, 1870). Foi o mais popular escritor da época romântica. Eis algumas de suas obras: Henrique III e sua Corte, Anthony, A Torre de Nesle, Os Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois, O Conde de Monte Cristo, A Rainha Margot, A Dama de Monsoreau. (N.T., segundo o D.K.L.)
(v) Théophile Gautier: poeta francês (Tarbes, 1811 - Neuilly-sur-Seine, 1872). Era partidário do romantismo, mas chegou a uma poesia mais ciosa da beleza formal: Esmaltes e Camafeus. Escreveu, entre outros, o romance Capitão Fracasso e obras de crítica literária e artística. (N.T., segundo o D.K.L.)
(vi) Edgard Quinet: historiador francês (Bourg-en-Bresse, 1803 - Paris, 1875). Filósofo idealista e ateu, historiador liberal. Obras principais: O Génio das Religiões, As Revoluções da Itália. (N.T., segundo o D.K.L.)
(vii) Jean Reynaud: filósofo e político francês, nasceu em Lyon (1806-1863). Autor de Terra e Céu. (N.T., segundo o Dictionnaire Nouveau Petit Larousse Illustré.)
(viii) Gérard Labrunie de Nerval: escritor francês (Paris, 1808 - id., 1855). Obras principais: As Filhas do Fogo, Aurélia, As Quimeras. Foi o precursor de Baudelaire, de Mallarmé e do surrealismo; traduziu Fausto, de Goethe. Era sujeito a crises de demência; enforcou-se. (N.T., segundo o Dictionnaire Nouveau Petit Larousse Illustré.)
(ix) A Queda de um Anjo e Jocelyn: obras de Lamartine. (N.T., segundo o Dictionnaire Nouveau Petit Larousse Illustré.)
(x) Victor Hugo: escritor francês (Besançon, 1802 - Paris, 1885). Inicialmente foi um poeta clássico nas suas Odes, mas depois tornou-se o chefe do Romantismo com Cromwell, Os Orientais e Hernani. Publicou ainda: Nossa Senhora de Paris, Folhas de Outono, Cantos do Crepúsculo, As Vozes Interiores, Os Castigos, As Contemplações, A Lenda dos Séculos, Os Miseráveis e Os Trabalhadores do Mar, entre outras obras. É considerado o mais ilustre dos poetas franceses. A influência sobre a sua época, o número e a grandeza das suas obras e o papel político por ele desempenhado fizeram de Victor Hugo uma das maiores personalidades do século XIX. (N.T., segundo o D.K.L.)
(xi) Charles Baudelaire escritor francês (Paris, 1821 - id., 1867). Herdeiro do Romantismo e fiel à métrica tradicional exprimiu ao mesmo tempo a tragédia do destino humano e uma visão mística do Universo, onde descobriu misteriosas “correspondências”. Os seus poemas As Flores do Mal, Pequenos Poemas em Prosa e a sua obra crítica A Arte Romântica são a fonte da poesia moderna. (N.T., segundo o D.K.L.)
(xii) Rudyard Kipling: escritor inglês (Bombaim, Índia, 1865 - Londres, 1936). Escreveu poesias e romances, entre estes, Livros da Selva e Kim. Recebeu o Prémio Nobel em 1907. (N.T., segundo o D.K.L.)
(xiii) Selma Lagerlof: escritora sueca (Marbacka, 1858 - id., 1940). Autora de Saga de Gosta Berling. Recebeu o Prémio Nobel em 1909. (N.T., segundo o D.K.L.)


LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IV – Literatura e oratória; A língua francesa e a ideia espiritualista, 14º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardoda Vinci

sábado, 17 de setembro de 2022

literatura do além-túmulo ~


Capítulo V 
(II de II) 

Fica então demonstrado que William Sharp escrevia, por um impulso estranho à sua vontade, as obras de Fiona Macleod, o que deixa supor que ele era médium inspirado. 

Isso, aliás, ressalta, em toda a parte, de modo certo, de várias passagens das memórias publicadas pela sua viúva. Assim, por exemplo, na página 424, ela escreve: 

“Encontrei-me, muitas vezes, ao lado dela, quando caía em transe; então todo o ambiente palpitava, tudo entrava em intensa vibração. Deploro não ter logo tomado nota dessas experiências, que eram frequentes e constituíam um traço característico de nossa vida íntima.” 

William Sharp, escrevendo à sua esposa, na data de 20 de fevereiro de 1895, assim se exprimia: 

“Que coisa bizarra e electrizante é o facto de existirem em mim duas pessoas, ainda que íntimas! E, entretanto, elas são tão diferentes! Sinto às vezes como se Fiona estivesse adormecida no quarto ao lado e eu me surpreendesse na atitude de escutar para lhe perceber os passos ou ver abrir a porta e Fiona aparecer. Quando, porém, ela se comunica comigo, é a falar, interiormente, em voz baixa. Espero agora, com ansiedade, saber como desenvolverá ela o assunto do novo romance The Mountain Lovers. Como é estranha esta impressão de me sentir aqui sozinho com ela.” (pág. 244). 

A certeza de ter uma companheira invisível, na vida, estava de tal modo arraigada nele que ela o levava a coisas curiosas. Assim, por ocasião da data do seu aniversário, ele escreveu a si próprio uma carta de felicitações provinda de Fiona; em seguida escreveu outra de agradecimentos a ela mesma e colocou ambas no correio. Encontraram-se na sua biblioteca vários volumes com a dedicatória: “A William Sharp, a sua colaboradora e amiga Fiona Macleod.” 

Ao que parece, essas dedicatórias eram autênticas, sob certo ponto de vista, pois que provinham de uma personalidade mediúnica que as firmava e eram transcritas automaticamente pelo médium. 

Um amigo de juventude de William Sharp narra na Light (1910, pág. 598) um episódio que confirma ulteriormente a sua mediunidade. Escreve ele: 

“Há vários anos (por volta de 1878), conheci William Sharp e tornei-me seu amigo. Ele não era ainda casado e morava num pequeno apartamento, perto do nosso. Certo dia, aconteceu-me fazer-lhe referências, em conversa, ao neo-espiritualismo e ele declarou que nunca assistira a experiências dessa natureza e que as veria com prazer, se uma oportunidade se lhe apresentasse. Convidei-o então para tomar parte no nosso círculo familiar. Alguém perguntou: “Quem são os guias espirituais do sr. Sharp?” A mesa respondeu, lentamente, um nome da família escocesa “Macleod” (não me lembro bem do nome próprio que deu). Isto me levou a perguntar ao sr. Sharp: “Os seus antepassados eram escoceses?” 

Alguns anos mais tarde, convidei-o para ir a minha casa, por ter necessidade de um conselho seu, a respeito do título de um livro de versos que desejava publicar e, confiei-lhe que havia escrito vários poemas do volume por “inspiração”. Ele exortou-me, vivamente, a ocultar isso se não quisesse comprometer-me perante os críticos... Noutra ocasião e a propósito dos poemas de Fiona, ele me exprimiu a mesma preocupação: “Fiona morre se descobrem o segredo da sua existência.” 

Parece-me que tudo isto basta para esclarecer o mistério. Sharp era médium inspirado, mas temia que o descobrissem. As admiráveis colecções de versos que publicou constituíam impressões de uma inteligência espiritual que era verdadeiramente o seu espírito guia: “o seu nome devia ser realmente aquele que tinha sido transmitido, pela primeira vez, no nosso círculo familiar: Macleod – o que se verificou vários anos antes que Fiona Macleod se manifestasse a Sharp.” 

Sem dúvida, se nos propuséssemos examinar os factos sob um ponto de vista estritamente psicológico, poderíamos pensar num caso de personalidades alternantes. Há, porém, muitas diferenças entre os casos patológicos das personalidades múltiplas provenientes do fenómeno de desintegração psíquica e o caso que estudamos aqui. No Journal of the Society for Psychical Research (vol. XIX, pág. 57), assinalaram-se algumas dessas diferenças radicais: 

“As duas personalidades de William Sharp – escreve o crítico – eram coordenadas entre si, sob certo ponto de vista: não se notava nenhuma superioridade nítida e precisa de uma sobre a outra, tanto moral como intelectualmente; as alternativas, com as quais se manifestavam, não pareciam associadas a elementos patológicos. Eram ambas acentuadas por um temperamento muito sensitivo e em alta tensão, mas nenhuma das duas mostrou nunca lacunas no seu equilíbrio mental e no controle de si mesmas. Ambas produziram obras literárias de uma beleza especial, embora Fiona ultrapassasse muito a outra em originalidade, em poder descritivo e em imaginação. Além disso, o traço característico das personalidades alternantes: o das notáveis variações de humor entre elas – variações que determinam mudanças mais ou menos grandes no carácter e conduzem a uma alternativa real das personalidades – é considerado pelos psicólogos como sendo dependente do facto de que há ou não lacunas mnemónicas entre os diferentes estados mentais... Ora, não havia lacuna mental entre William Sharp e Fiona Macleod e a conclusão de que deve tratar-se de duas personalidades diferentes parece fundar-se na impressão precisa e insofismável de que assim era, experimentada pelas próprias personalidades, impressão que não parecia, todavia, excluir a outra, segundo a qual havia entre elas uma unidade misteriosa, oculta sob as diferenças.” 

Assim como fiz notar anteriormente, esta última impressão de Sharp sobre a existência de uma unidade fundamental, apesar da diferença existente entre a personalidade de Fiona e a sua própria, era causada por especiais reminiscências segundo as quais lhe parecia ter vivido uma outra existência sob a forma de uma mulher. 

A esse respeito, declaro francamente que essas espécies de impressões experimentadas por William Sharp não se prestam, de modo algum, a esclarecer o mistério, longe disso! Com efeito, se a hipótese psicológica das personalidades alternantes parece facilmente eliminável, estando em contradição evidente com o conjunto dos factos, as outras duas hipóteses, que devem ser tomadas em consideração, reconhecendo-se-lhes igualdade de direitos (pois que as impressões experimentadas pelo protagonista não contam para a pesquisa das coisas), não parecem facilmente conciliáveis entre si. Se apenas se trata de uma entidade espiritual, que tivesse transmitido telepaticamente as suas criações literárias ao médium, o caso em questão poderia ser explicado muito facilmente; a hipótese reencarnacionista, porém, contribui para obscurecê-la. Com efeito, nestas condições, seria necessário admitir que uma fracção da personalidade integral do médium – fracção representando uma de suas próprias individualizações encarnadas, que existiu em época recuada – tenha podido emergir e se manifestar à sua individualização actualmente encarnada, nas condições de intelectualidade que a caracterizaram. 

Compreende-se que esta suposição é muito fantástica, literalmente gratuita e teoricamente inconcebível. A melhor solução do mistério consistiria então em retornar à hipótese de uma Fiona Macleod, espírito-guia de William Sharp e, aí parar. Nesse caso, se poderia resolver legítima e racionalmente o problema das reminiscências, fazendo notar que as impressões do médium, que se sentia às vezes invadido por sentimentos femininos com reminiscências de uma vida passada sob a forma de uma mulher, deveriam ser atribuídas à circunstância da realização de interferências fugitivas entre a consciência normal do médium e a memória pessoal do espírito-guia que lhe controlava então o órgão cerebral e lhe influenciava telepaticamente o pensamento. 

Faço notar que, nas experiências de psicometria, encontra-se muitas vezes a circunstância de terem os sensitivos a impressão de ser identificados na personalidade de um vivo ou de um morto, com o qual entram em relação, ao ponto de experimentarem as idiossincrasias de temperamento deles, com o despertar de reminiscências a respeito das suas modalidades de existência, impressões do meio no qual viveram, como se estivessem momentaneamente unificados com eles, embora conservando a própria consciência. 

Na minha monografia Os Enigmas da Psicometria, citei exemplos nos quais essa identificação do sensitivo nos acontecimentos da existência de outras pessoas se realiza, mesmo quando se trata de colocação em relação com animais. 

/... 


Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo  Capítulo V (II de II), 6º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

sábado, 10 de setembro de 2022

~ nas garras do pensamento crítico


Da especulação à experimentação ~ 

Mas Allan Kardec não fala “por ouvir dizer”, ele nunca foi um homem levado pela imaginação: foi um observador rigoroso. E é através da mais pura dialéctica que nos explica a razão dessas vagas aspirações. 

“Se a questão do homem espiritual permaneceu até aos nossos dias em forma de teoria, é porque nos faltaram os meios directos de observação, para constatar o estado do mundo material e, o campo ficou aberto às concepções do espírito humano. Enquanto o homem não conheceu as leis que regem a matéria e não pôde aplicar o método experimental, errou de sistema em sistema, no tocante ao mecanismo do Universo e à formação da Terra. Deu-se na ordem moral o mesmo que na ordem física; para determinar as ideias faltou-nos o elemento essencial: o conhecimento das leis do princípio espiritual. Esse conhecimento estava reservado à nossa época, como o das leis da matéria foi obra dos dois últimos séculos. Até ao presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica, tem sido puramente especulativo e teórico; no Espiritismo é inteiramente experimental.” 

Chegados a este ponto, defrontamo-nos com o aspecto mais crítico da hora presente. De um lado, temos em marcha, com indiscutível eficácia, a aplicação do método dialéctico à história, à política, à sociologia etc., como a mais alta conquista do espírito no terreno prático e objectivo. Do outro, o abuso, que perdura, do método empírico, nas questões espirituais, com as consequentes explorações e deformações da realidade. E no meio, lutando entre as duas correntes, ambas poderosas, o Espiritismo, que não pode trair a realidade espiritual, para endossar a aplicação materialista da dialéctica e, não pode trair a sua própria natureza dialéctica, para apoiar o empirismo da prática espiritual. O resultado, infelizmente, é o que vemos: ele também, o Espiritismo, deformando-se, no aspecto sectário e místico de uma nova religião, ou na estrutura fria e materialista da simples observação metapsíquica. 

Todo o esforço do homem moderno tem de convergir para a superação dessa tremenda crise do conhecimento. E a superação somente se tornará possível com a compreensão dos verdadeiros princípios do Espiritismo como doutrina dialéctica, por isso mesmo capaz de aplicar à história, à política, à sociologia, à economia, à arte, os seus métodos de análise, de observação, de pesquisa, sem se perder na mística de confessionário, nem se confundir com o tumulto dos comícios subversivos. Além do misoneísmo das religiões, do reformismo do socialismo político-liberal e da violência do materialismo-dialéctico, o Espiritismo indicará ao homem o caminho seguro das transformações substanciais da vida social, ou perderá a sua razão de ser. Como esta última hipótese não nos parece possível, o mais certo é que a história nos esteja empurrando, segundo observa Humberto Mariottiapesar da incapacidade geral e desoladora dos espíritas de hoje, na direcção do Espiritismo Dialéctico, verdadeira síntese do conhecimento, com que nos acena Allan Kardec

Humberto Mariotti afirma que “a realidade visível” da acção espírita no mundo se traduz no cultural e, “mais do que em qualquer outra parte, no bibliográfico”, faltando-lhe, entretanto, entrosar-se “no processo histórico da humanidade”. Esse entrosamento faz-se pela penetração nas massas através do seu aspecto “ingénuo”, de seita religiosa. Mas, se não houver, neste momento, a acção da alavanca da filosofia espírita, salvando o Espiritismo da “ingenuidade popular” e transformando-o, já não em simples crença, mas em conhecimento, o processo natural desse entrosamento pode ser desvirtuado, pelo trabalho de sapa das forças contrárias. 

Aos espíritas, portanto, cabe o dever indeclinável de lutar para que esse entrosamento se realize. A bibliografia espírita – “quiçá insuperável pela de qualquer outro movimento filosófico” – deve descer das estantes e penetrar nas massas, não para se submeter à “ingenuidade” destas, mas para orientá-las no sentido da sua libertação moral, espiritual, intelectual e social. Para tanto, é necessário um novo trabalho de elaboração, de aglutinação, de sistematização do conhecimento espírita, na forma de compêndios culturais e de manuais populares. 

O aspecto religioso ou “ingénuo” do Espiritismo salvou-o da indiferença e da hostilidade conjugada de todas as forças dominantes dos séculos XIX e XX, escondendo-o no coração do povo, onde ele viveu e progrediu em silêncio e, permitindo, ao mesmo tempo, o trabalho cultural dos intelectuais espíritas. Temos hoje uma população espírita no mundo e, temos uma cultura espírita. Mas não temos a sociedade nem a civilização espíritas, como observa Mariotti e, nem mesmo a necessária e prévia ligação entre as massas espíritas e a cultura espírita, para a criação daquelas. Estamos, porém, no caminho dialéctico do desenvolvimento de uma nova civilização e, se compreendermos isso, lutando para alcançar o futuro, chegaremos lá. 

Humberto Mariotti fez uma concessão de boa-vontade ao “pensar naturalista” quando deu ao seu livro o título de Dialéctica e Metapsíquica. Porque o título verdadeiro do volume seria o de Espiritismo e Dialéctica. Evitou assim assustar a lebre na beira da estrada. Não se iludam, porém, os espíritas, mormente os espíritas brasileiros, tão afeitos a deixar de lado o que foge ao aspecto religioso da doutrina. As páginas de Mariotti não se referem apenas a uma controvérsia filosófica entre as duas doutrinas que lhe formam o título eventual. Elas são, pelo contrário, um brado de alerta e um convite sério à meditação e ao estudo. Principalmente ao estudo da natureza dialéctica do Espiritismo e das possibilidades imediatas da sua aplicação ao mundo – para transformá-lo. 

/… 


José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, Da especulação à experimentação, 12º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O Apóstolo de VerdadeJosé Herculano Pires

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar os longínquos dias das idades


Actualidade Ontológica das Reminiscências Platónicas ~ 

A filosofia de Victor Hugo, assente na preexistência das almas, leva-nos a pensar em Platão, que percebeu na antiguidade, com profunda percepção espiritual, esse mundo novo que aflora na consciência do Ser. Esse mundo interior que se apresenta imperativamente, sem respeitar o conhecimento clássico do homem propõe à filosofia uma das mais intrincadas perguntas: Existe no "tempo actual" do Ser "outro tempo" existencial? 

Todo o desenvolvimento da filosofia ocidental se produziu através de um "tempo único" do Ser, ou seja, de um tempo que vai do nascimento à morte. Aceitou-se que o homem é uma personalidade, mas vazia por dentro e, esta suposição anulou o que o Ser representa como entidade profunda, fazendo dela uma peça compacta e insensível. Esta concepção mecânica do homem causou até uma negação do que o subconsciente representa como abertura do Ser para o mundo exterior. Pois o reconhecimento do subconsciente significou sempre para a nova psicologia a prova de uma dupla natureza do Ser, de um mundo desconhecido cujas raízes se encontram numa provável natureza pré-ôntica da existência. 

As reminiscências experimentadas por Platão, ou pelo homem em todos os tempos, são factos que evidenciam as diversas capas psíquicas que conformam o seu mundo interior. Ter, pois, reminiscências é como se o Ser estivesse situado num poço de fundo incomensurável. As emoções, sensações e ideias espontâneas que se registam no ar constituem aflorações misteriosas que, para alcançar uma explicação possível, obrigam a pensar em "reservas" subconscientes adquiridas não se sabe por que meios. 

O chamado "mistério do homem" tem a sua principal base nesses estados psíquicos inexplicáveis. De facto, o mistério do homem surge do homem mesmo e não das suas enigmáticas origens biológicas. O mistério é uma presença que se opõe ao homem considerado como pura natureza, o que indicaria que é "algo" ainda indefinido e que se revela contra toda a "naturalidade" que queiram assinalar. No Ser existe um inconsciente misterioso, que paira sobre o consciente racional com o fim de libertá-lo das trevas do não ser. Deste modo, a existência pura se rebela contra a existência impura, ou seja, contra a que se compraz em soltar-se nos abismos do nada. 

O conceito de um homem-máquina é um obstáculo para penetrar na natureza supranormal do Ser. Os fenómenos psíquicos que através do Homem se registam estão indicando que a inteligência normal não é toda a inteligência, senão que possui outras dimensões ou substratos que, como misteriosos relâmpagos se apresentam à "razão actual" do Ser para ampliá-la ao aparecer inesperadamente. A intuição, a inspiração, os estados místicos, são factos que não poderiam produzir-se se o homem fosse uma máquina ou uma só peça material. A materialidade do homem se opõe a toda a supranormalidade do Ser. Um homem-corpo só vive de acordo com os seus estados fisiológicos; nele não se produziriam fenómenos psíquicos de nenhuma ordem. O psiquismo, pois, não é de ordem nervosa; o psíquico se origina nas profundidades desconhecidas da personalidade, das quais Platão extraiu as suas célebres reminiscências ontológicas. 

As reminiscências platónicas, tão célebres já no campo da filosofia, acentuam-se nos tempos modernos, o que daria uma ideia acerca de uma nova evolução da sensibilidade humana, da qual Victor Hugo foi genial expoente. Ou seja, o homem tem a transbordar os seus cinco sentidos para afirmar-se a si mesmo outra forma sensível com que captar o seu mundo interior e circundante. Pois bem, isso denotaria que o Ser verdadeiro está acima do Ser físico e que existe nele um ente extra-sensorial cuja existência transborda as limitações do tempo presente. 

A filosofia do Ser se veria obrigada a reconhecer no homem uma essência que se vincula com uma natureza imaterial, que estabeleceria uma relação com o tempo passado, um tempo presente e um tempo futuro, ou seja, três tipos de "tempo" que gravitariam dinamicamente nas profundidades do Ser. 

Destes três tempos emergiram os imperativos espirituais que fizeram ver a Platão o verdadeiro mundo da personalidade humana. Esta concepção do tempo nos levaria a reconhecer um tempo físico e um tempo metafísico. O Ser, desde a sua verdadeira natureza essencial, resultaria um constante devir efectuado através de um tempo mortal e outro imortal, o que relacionaria um processo dialéctico infinito. O homem pensa, mas supõe que é um Ser limitado ao seu tempo individual. Ignora que nele existe um tempo espiritual que o faz independente de acidentes aniquiladores. O Ser sente como que uma distância, algo que regressa de outro Ser que já foi e nesta circunstância surge com ele "outra personalidade" que trata de circunstanciar-se com o seu presente, criando no seu mundo moral estados harmónicos ou contraditórios. O Ser se desdobra ao aparecer sob a influência de um ente que regressa de alguma parte, o que determina nele essa instabilidade moral tão frequente no mundo moderno. 

Victor Hugo captou o seu Ser passado mediante a sua genial criação poética, mas o que o fez compreender melhor a sua natureza imortal e palingenésica foi o fenómeno mediúnico, cuja origem noumenal surge desse mesmo mundo onde subjazem as reminiscências espirituais percebidas por Platão. 

/… 


Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, Actualidade Ontológica das Reminiscências Platónicas, 11º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)