terça-feira, 12 de maio de 2015

Da sombra do dogma à luz da razão ~

Natureza da Revelação ~ Espírita (III)

   O Espiritismo, tendo-nos dado a conhecer o mundo invisível que nos rodeia e no meio do qual vivíamos sem o sabermos, as leis que o regem, as suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos entes que o habitam e, por consequência, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação na acepção científica do termo.

Pela sua natureza, a revelação espírita possui um carácter duplo: respeita simultaneamente à revelação divina e à revelação científica. Está ligada à primeira no que o seu advento tem de providencial, não sendo resultado da iniciativa e de um intento premeditado do homem; por os pontos fundamentais da doutrina serem resultantes do ensinamento dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecerem os homens sobre coisas que ignoravam, que não podiam aprender sozinhos e que é importante conhecerem, hoje que estão preparados para as compreenderem. Liga-se à segunda por este ensinamento não ser privilégio de nenhum indivíduo e ser dado a toda a gente através da mesma via; por os que o transmitem e os recebem não serem de forma nenhuma seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa; que não abdicam da sua opinião nem do seu livre-arbítrio; que o controlo não lhes é interdito, sendo antes, pelo contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada em todas as suas partes nem imposta à crença cega; que é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos factos que os Espíritos lhes colocaram debaixo dos olhos e das instruções que lhe dão, instruções que estuda, comenta, compara e de que retira ele mesmo as consequências e as aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o facto de a fonte ser divina, a iniciativa pertencer aos Espíritos e a sua elaboração ser consequência do trabalho do homem.

Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exactamente da mesma maneira que as ciências positivas, quer dizer, aplicando o método experimental. Apresentam-se factos de uma nova ordem que não podem ser explicados pelos meios conhecidos; observa-os, compara-os, analisa-os e, remontando os efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz daí as consequências e procura-lhes as aplicações úteis. Não estabelece nenhuma teoria preconcebida; assim, não colocou como hipóteses nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perespírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da doutrina; concluiu que existem Espíritos quando esta existência ressaltou como evidência da observação dos factos; e também o mesmo sucedeu com os outros princípios. Não foram os factos que vieram mais tarde confirmar a teoria, mas a teoria que veio subsequentemente explicar e resumir os factos. É portanto rigorosamente exacto dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só registaram progressos sérios depois de o seu estudo se ter baseado no método experimental; mas, até esse dia, sempre se acreditou que este método só era aplicável à matéria, enquanto o é igualmente às coisas metafísicas.

Citemos um exemplo. Passa-se, no mundo dos Espíritos, um caso muito singular e de que certamente ninguém teria suspeitado; é o dos Espíritos que não acreditam estar mortos. Pois bem! Os Espíritos superiores, que o sabem perfeitamente, não vieram dizer antecipadamente: «Há Espíritos que julgam estar ainda a viver a vida terrestre; que conservaram os seus gostos, os seus hábitos e os seus instintos»; mas provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que os observássemos. Tendo então visto Espíritos sem terem a certeza do seu estado ou afirmando que ainda faziam parte deste mundo e julgando ocuparem-se das suas tarefas habituais, do exemplo concluiu-se a regra. A multiplicidade de factos análogos provou que não se tratava de uma excepção, mas de uma fase da vida espírita; permitiu estudar todas as variedades e as causas desta singular ilusão; reconhecer que esta situação é sobretudo distintiva dos Espíritos pouco evoluídos moralmente e que é característica de certos géneros de morte; que é só temporária, mas que pode durar dias, meses, anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. Passa-se o mesmo com todos os outros princípios da doutrina.

Assim como a ciência propriamente dita tem como finalidade o estudo das leis do princípio material, a principal finalidade do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este princípio é uma das forças da natureza, reagindo constantemente sobre o princípio material e reciprocamente, resulta daí que o conhecimento de um não pode estar completo sem o outro. O espiritismo e a ciência completam-se um ao outro: a ciência sem o Espiritismo fica impotente para explicar certos fenómenos unicamente através das leis da matéria; o Espiritismo sem a ciência não teria apoio nem controlo. O estudo das leis da matéria deveria preceder o da espiritualidade, por ser matéria e ferir primeiro os sentidos. Se o Espiritismo tivesse surgido antes das descobertas científicas teria sido uma obra abortada, como tudo o que surge antes de tempo.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 12 a 16 (III), 5º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 3 de maio de 2015

As vidas sucessivas | os elementos ~

Apresentação ~ por Hermínio C. Miranda ~

Este livro é um clássico, uma referência, na longa busca de melhor entendimento do ser humano e das leis que regem a sua interacção com as pessoas, os fenómenos e eventos que se desdobram à sua volta, mas principalmente “dentro” daquilo que nos acostumamos a chamar de mente. Em suma, a sua interacção com a vida, nisso incluído, obviamente, o universo em que vive.

Foi a partir dele, ainda na década de 60 do século passado, que encetei os estudos que me levariam à elaboração de A Memória e o Tempo, na segunda metade da década de 70 e publicado no início dos anos 80.

Garimpei o original francês que deu origem a esta tradução, num sebo, como de tantas outras vezes, em momento feliz, por se tratar de edição raríssima de 1911.

Logo na primeira leitura, senti considerável impacto. Quanto mais o lia, relia e aprofundava a meditação sobre o seu conteúdo, mais impressionado ficava. Agradava-me a abordagem sensata e inteligente do autor, emoldurada por inesperada humildade intelectual de um cientista daquele porte.

De Rochas se punha como atento e curioso pesquisador, disposto a aprender com os factos, em vez de tentar enquadrá-los em rígido contexto de modelos preconcebidos, atitude comum àquele tempo, como ainda hoje, de parte dos que não se sentem encorajados e nem preparados para mudar e, por conseguinte, a progredir galgando patamares mais elevados de conhecimento.

A sua postura era, pois, despreconceituosa e atenta, mas aberta.

Outra coisa: o ilustrado coronel, engenheiro e conde não pretendeu considerar as suas reflexões como última palavra a ser religiosamente acatada pelos que o lessem. Ao contrário, atribuiu ao seu trabalho a modesta condição de um conjunto de documentos preliminares para estudo da questão, ao indicar a necessidade de pesquisas mais amplas e profundas que dessem continuidade à sua tarefa.

O seu livro, contudo, é muito mais que uma dissertação primária.

De Rochas relata as suas experiências, oferece conclusões sobre o que testemunhou e levanta aspectos inusitados da mente para os quais ainda não dispunha de explicações que satisfizessem os seus critérios pessoais, ainda que apontando em determinada direcção. Em outras palavras, não dogmatiza.

Ademais, ao empreender os seus estudos entre o final do século 19 e o início do século 20, não partiu de premissas propostas pelo espiritismo, cuja doutrina se achava, àquela época, bastante difundida ali mesmo, na França.

De início, estranhei esse procedimento. Hoje entendo-o como opção válida e medida de prudência destinada a preservar a isenção necessária ao trabalho em que se empenhava. Se ele partisse de conceitos doutrinários espíritas, caracterizando-se como militante do movimento que se expandia, os seus estudos ficariam certamente expostos à rejeição liminar por parte das correntes intelectuais da época, dominadas por pensadores de formação nitidamente materialista ou positivista – como ocorreu e ocorreria a tantos outros mais tarde.

Em nota de rodapé, ele explica que não cuidava especificamente de espiritismo, por entender que disso se ocupavam outros estudiosos. Sem ignorar ou negar os postulados espíritas – alude com respeito e admiração à obra de Léon Denis, por exemplo –, limitava-se a aspectos científicos que, directa ou indirectamente acabaram resultando em valioso suporte à inteligente doutrina dos espíritos.

Realmente, ao estampar na reencarnação a marca autenticadora da ciência, o seu estudo, mesmo preliminar, como ele o entendia, legitimava a realidade espiritual, tal como figura nos livros básicos de Allan Kardec.

Tenho insistido reiteradamente nos meus escritos em que essa realidade, fundamental ao entendimento da vida, é insusceptível de esquartejamento. Estamos aqui diante de um bloco inteiriço de conceitos solidamente colados uns nos outros.

No meu entender, a reencarnação é o cimento que mantém inseparáveis tais componentes. E que, demonstrada – como está há muito – a legitimidade da reencarnação, os demais aspectos exigem automática integração no modelo em que não se admite ignorar, no mínimo, a preexistência e a sobrevivência do ser à morte corporal.

Por outro lado, de Rochas pôs em evidência relevantes aspectos colaterais, como a lei de causa e efeito e, portanto, o mecanismo da evolução do ser rumo à perfeição e, ligado a esse conceito, sublinhando-o de modo subtil, mas dramático, a verdade subjacente de um claro componente ético necessário ao funcionamento daquele mecanismo. Deixou, ainda, informações do mesmo nível de importância acerca das faculdades mediúnicas e, portanto, do intercâmbio entre “vivos” e “mortos”. Nota-se, no desenrolar das suas experiências, a presença de entidades desencarnadas, bem como a evidência de um “espaço” cósmico invisível aos nossos sentidos habituais, “onde” vivem, sofrem, amam, odeiam, aprendem e se reciclam os seres espirituais entre uma vida e outra na Terra.

Disto se conclui que, a despeito de não se caracterizar como texto doutrinário espírita, o seu valioso trabalho oferece firme suporte aos ensinamentos e conteúdos dos livros básicos da Codificação.

Além disso, de Rochas deixou significativa contribuição ao estudo da própria memória, na sua interacção com o tempo. Conceitos como o de inconsciente – que começavam a emergir na época –, encontram nos seus trabalhos, tanto quanto na doutrina dos espíritos, encaixes precisos e espaço próprios, como procurei demonstrar em Alquimia da Mente.

Que eu saiba, foi ele quem primeiro colocou de maneira transparente a possibilidade de explorações no futuro, tanto quanto no passado do ser humano. Aparentemente inconclusivas, as suas “progressões” (mergulho na memória futura) deixaram vestígios importantes de uma realidade que somente cerca de um século mais tarde seria retomada para mais profundas explorações, como se pode conferir nos escritos da doutora Helen Wambach e de outros estudiosos como Chet Snow.

Por tudo isso, os textos de de Rochas – e este livro não é o único a solicitar a nossa atenção – merecem atenção, respeito e admiração.

Parabéns à Lachâtre por resgatar mais este importante depoimento científico de um injusto e demorado esquecimento.

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Albert de RochasAs Vidas Sucessivas  Apresentação, por Hermínio C. Miranda | Outubro de 2002, 4º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 26 de abril de 2015

~~~Párias em Redenção~~~

ALUCINAÇÃO E CRIME (III)

A noite avançava lavada e varrida pelas chuvas e ventos, que desabavam abundantes, e o moço revira-se impaciente no leito, desassossegado. A avançadas horas, deixou-se abater por torpor dominante e, assaltado por esquisito pesadelo, sentiu-se amarrado ao leito, experimentando os sentidos psíquicos exaltados. Foi dominado pela sensação desusada de que, embora caído pesadamente sobre a cama, podia locomover-se no quarto em brumas espessas, entre as quais, direcção estóica e hierática, como sempre o fora. Agitando-se penosamente e desejando evadir-se do desagradável e insólito fenómeno que o avassalava, compreendeu-se vencido ante aquela que lhe fora mãe espiritual dedicada e cujo amor ele estava prestes a desrespeitar, por meio de hediondo crime. A entidade acercou-se dele e, traduzindo inconfundível melancolia na voz, marcada por acento de doída angustia, inquiriu:

– Que pretendes, Girólamo? Assim retribuis, através do crime nefário que premeditas, o calor da afeição pura e da dedicação que recebeste deste lar? Substituíste por ácido o sangue que pulsa nas tuas veias para, enlouquecido, te comprometeres por penosos séculos de infeliz peregrinação ressarcidora? Susta o golpe, antes que o golpe te vença, sem que consigas aniquilar-te a ti mesmo. Ninguém tem o direito de erguer a mão, que se torna sacrílega quando investe contra a vida de outrem. Mesmo diante do revel, a nós não nos pertence o direito de destruir, e sim Àquele que o produz, e que se utiliza de recursos que nos escapam, para equilibrar tudo, no padrão da Sua Sabedoria. Estaca, e modifica a intenção! Ignoras que a vida não cessa e que nós outros, os que antecipamos na jornada do túmulo, vivemos?!

Desfigurado pela visita inusitada, o moço, em febre, arguiu, desafiadoramente:

– Deliro, oh! Deus. Enlouqueço! Ninguém volta da morte. Você está morta, titia! Deixe-me em paz, antes que me estourem os miolos avassalados por demónios perversos. Não pode ser você. Deve ser algum enviado das geenas, para aniquilar-me.

– Não, filho, sou eu mesma, quem retorna. É a voz da minha alma que te fala hoje, como fizera ontem, despertando as mínimas expressões de consciência, de dignidade, na tua razão, obnubilada pela ambição ignóbil que te vence. Morri, mas não fiquei destruída. Não encontrei o céu de repouso ou o inferno de desdita. Deparei-me com a vida estuante, colocada pela Excelsa Misericórdia Divina ao alcance dos que Lhe respeitam as leis. A vida aqui é a razão da vida daí. Ressurgimos do portal de cinzas da sepultura com as asas de anjos ou os pesados grilhões atros, resultantes das nossas atitudes na Terra, que nos alçam a regiões de paz inefável ou nos conduzem a abismos de dores demoradamente remissíveis, até a consciência ferida no seu mais fundo sentir experimente a necessidade de tudo recomeçar e refazer… Somos os construtores da nossa ventura como também do nosso infortúnio. Por isso, reprime o passo e detém-te, antes que seja tarde demais.

– Agora já é tarde demais! O ódio que me arde na alma destruir-me-á antes que eu possa recuar. Tenho que cumprir esse destino…

– O destino nos pertence. A cada instante estamos a elaborá-lo, modificando-o ou estabelecendo-o através do que pensamos, do que dizemos, do que fazemos. Cada um consegue o que cultiva, quanto acontece ao agricultor que recolhe a resposta da terra através do grão que lhe atira na cova. Susta o vil pensamento e reflecte. Por que te voltas contra a inocência de Lúcia e a pureza das crianças? Que te fizeram, revel? O ódio que lhes devotas são as farpas da inveja e do despautério do teu espírito ingrato. Volta-te para Deus e escuta a insuperável mensagem de amor do Seu Filho Jesus. Escolhe: agora, ou será tarde demais, realmente. Esquece a sandice e não serás esquecido pela Justiça Celeste. Este é o momento da tua redenção: pára! Ignoras as realidades da vida: do ontem e do amanhã…

– Não posso, não posso. É muito tarde para mim. Tudo está pronto. Não posso, nem desejo recuar…

– Eu lamento, por ti e por outrem que não está em condições de perguntar-te e de amar-te. Na minha imensa, incomparável dor, eu te perdoo e choro por ti e por alguém mais. No entanto, ouve-me, Girólamo, é tempo. Foge, viaja, sai desta casa, evade-te ainda hoje, buscando renovação noutros sítios e retorna depois. Serás sempre bem recebido. Terás o de que necessitas, o que ambicionas, porém, por outros meios. Vai em busca da paz, enquanto luze a oportunidade, pelo amor de Deus eu te rogo, meu filho!

Tresloucado, espírito em alucinação, o moço gritou:

– Nunca! Agora irei até ao fim, até à minha total desgraça ou ventura. Não pararei!

– Atingirás, sim, a desgraça. Deus tenha piedade de ti! Eu te perdoo, filho. Perdoe-nos Senhor a todos nós!

A emissária espiritual levou a nívea mão ao peito levemente ofegante e lágrimas silenciosas, longas, lhe escorreram pela face venerada. Um olhar de indizível dor foi endereçado ao moço, conduzido pela teimosa incoerência de raciocínios e, embora distendendo, logo após, os braços para recolhê-lo outra vez no seio sofrido, Girólamo, como se libertasse do magnetismo que o retinha preso, atirou-se na direcção do corpo que se debatia em desespero no leito e despertou gritando, de olhar esgazeado, suado, aturdido…

Ergueu-se de um salto, apoiou-se à janela, abriu-a e aspirou o ar húmido e frio da noite para recobrar a lucidez e coordenar as ideias assaltadas pela quase demência.

Transcorridos alguns minutos, aumentando a luz no quarto, entregou-se aos sombrios pensamentos já habituais, enquanto ruminava com a desconcertante visão, que parecia persegui-lo, embora desperto. Sentia-se assistido pela tia; conquanto não a pudesse ver naquele instante, percebia-se por ela visitado. Deixou repentinamente a alcova, desceu ao patamar da parte térrea, abriu a porta de entrada, procurando, sem saber exatamente o quê, meios de reencontrar-se. A chuva torrencial, porém, prosseguia. Em derredor da herdade, os rios transbordavam, as estradas estavam quase intransponíveis…

Em inquisição crescente, aguardou a madrugada e o dia brumoso raiou. O cansaço venceu-o com a chegada da manhã, quando, então, se recolheu por algumas horas, em pesado e tormentoso sono.

Levantou-se tarde e não compareceu à refeição matinal.

Amainada a tormenta, deambulou a esmo pela terra encharcada e ao retornar, com a alma em frangalhos, foi recebido pela vigilante Assunta, que o aguardava ansiosamente.

Higienizando-se tomou caldo quente e reparador, que a serva lhe trouxe. Amolentado de carácter, deixou-se arrastar pelas paixões absorventes e cuidou, com a consócia, do crime em delineamento, sobre todos os detalhes da tragédia que logo mais seria consumada. Buscou repousar, enquanto Assunta, que guardara o soporífico que ele lhe entregara, desceu à cozinha.

Naquela noite, Assunta oferecera-se a Lúcia para cuidar do repasto das crianças, prontificando-se a ajudá-las a se recolherem ao leito, informando que também lhe traria a refeição, contanto que descansasse das últimas e longas fadigas.

Embora pressentindo a borrasca que a ameaçava, Lúcia, exaurida pelo cansaço, aceitou a oferenda da mulher pusilânime e se quedou em leve recreio com os pequenos órfãos.

Após servir a refeição frugal, Assunta trouxe imensa bandeja de prata com chávenas e bule de chá fumegante, bolinhos de milho, leite e açúcar. Antes, porém, adicionara forte quantidade de pó sonífero, que se misturara ao chá, e, sorridente, serviu às vítimas em potencial, que ignorando a trama cruel, se deixaram conduzir inermes pela má e injusta adversária gratuita. Transcorridos poucos minutos, e não podendo vencer a moleza e o sono que de todos se apossou, recolheram-se aos leitos, vestidos conforme se encontravam.

A astuta comparsa de Girólamo trocou os trajes das crianças, que ressonavam sob o peso do produto forte, e as depôs nas respetivas camas. Lúcia, porém, foi arrastada, como se encontrava, para o lado do cataló da menina Grazziella, ali ficando adormecida, enquanto a relutância que oferecera ao invencível mal-estar. Isto feito, Assunta cerrou a porta, deu ciência a Girólamo de toda a ocorrência e demandou, por sua vez, o próprio dormitório.

A noite, embora ameaçadora, não se encontrava sacudida pelas chuvas nem pelos ventos da véspera. Uma lua fria e triste espiava entre nuvens carregadas. O relâmpago aparecia de longe em longe e a voz do trovão chegava cansada e rouca aos cenários dos próximos e tristes acontecimentos.

Horas avançadas, Girólamo caminhava pela alcova, agitado, em trajes de dormir.

O punhal afiado brilhava aos reflexos do luar que por vezes penetrava no quarto, colocado sobre delidada arca de cânfora trabalhada.

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VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO ” – LIVRO PRIMEIRO, 2. ALUCINAÇÃO E CRIME (3 de 4), 6º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt_1898, pintura de Edgard Maxence)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Crónica de Natal ~

| Para todos Natal de Paz, Esperança e boa vontade ~

Hoje fui dar o habitual passeio a pé até à igreja de Santa Luzia. Descobri-me, entrei no adro e, do patamar da igreja que estava, como é hábito, de portas fechadas, pus-me de pé olhando para o sol já frio de uma tarde nebulosa.

Não estava por ali ninguém, mas falei com imensa gente. Mandei recados e fiz pedidos, daqueles que – se não forem atendidos por falta de mérito meu – sei que vão ser escutados. Deixei que os minutos passassem tranquilamente sem medo de que a esperança das palavras perdesse a frescura e a juventude. Ao lado há uma pequena colectividade recreativa e alguém ao som da música de um rádio preparava qualquer coisa. Oxalá fosse uma festa de Natal.

É um óptimo prenúncio e um bom pretexto para fazer uma crónica de Natal.

Preparei por isso uma prenda ecológica que tenho oferecido com gosto, repetidas vezes, ao meu percurso predilecto de passeios a pé. Do cemitério da Lousã à igreja de Santa Luzia e regresso, saio munido de dois sacos de plástico. Lá mais para diante vou olhando para as bermas e para os terrenos mais próximos e começo a contar as latas para refrigerantes de alumínio vazias, metendo-as para dentro dos sacos. Coloco sempre dois sacos no bolso e, se tenho à mão, pelo menos um que seja grande. Garrafas de cerveja, plástico e todo o tipo de embalagens intrusas na paisagem campestre, para dentro do saco!...

É hábito arrepender-me de não ter metido mais outro saco de plástico dos grandes no bolso. Nunca consigo recolher toda a multidão de contentores de vários tamanhos e coisas intragáveis para a terra mãe das árvores, dos milheirais e dos pássaros.

Hoje por exemplo, armado em detective descobri um crime objectivamente pessoal e intransmissível. Num pequeno terreno lavrado havia – eu seja ceguinho – quase trinta latas de cerveja vazias, e a grande maioria de uma só marca. Os homens que por ali tinham andado cavaram o que puderam, mas traziam muita sede!... A ideia de fertilizarem a terra com latas de alumínio deve ter-lhes parecido luminosa.

O resto é ao longo do percurso. Há muito senhor automobilista e passageiros que hidratando-se na viagem, atiram com a embalagem pela janela. Muito prático. Enfeita o solo de refulgências de cor vária. É o esplendor publicitário, o rebrilhar do vidro e das cores eléctricas do design a subtraírem à terra a sua gravidade milenar. Fica tudo mais alegre, mais natalício.

Natal faz, no meu caso, lembrar o presépio, cenário que dizem ter sido inventado por Francesco Giovanni di Pietro Bernardone mais de doze séculos depois do nascimento de Jesus, o nazareno.

A história é uma das coisas mais complicadas do mundo e quem se ponha a ler coisas sobre isso vai encontrar tanto nome e tanta data que logo fica duvidoso ter sido esse tal Francesco que se quis pobre, um tal de Assissi, o que verdadeiramente inventou o rústico e terno cenário a que faço alusão.

Não faz mal que tenha sido assim ou de outra maneira.

E, naquela assembleia variada e subtil para quem falo no adro da igreja de Santa Luzia (sem autorização eclesiástica) ninguém fica triste, nem se zanga, nem me vêm fazer queixas daquele senhor espampanante de ouro e pedras preciosas que celebra as missas solenes do Natal do Vaticano, e que se passeia agarrado a um báculo de ouro que – vendido só a peso - já matava a fome a milhares de crianças de África e, daqui a nada, do próprio Portugal europeu e descobridor.

Em minha casa Natal é presépio, com vaca e burrinho, e que Deus nos abençoe a todos.

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Costa BritesCrónica de Natal, de 13 de Dezembro de 2012, publicada na sua coluna “Interioridades” que sai no quinzenário “Trevim”, da Lousã.
(imagem de contextualização: Mosaico de Maria Ludgera Haberstroh ilustrando o Cântico das Criaturas, na Liebfrauenkirche, Innenhof)

domingo, 5 de abril de 2015

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~

Capítulo III

Marx e Kardec

Karl Marx e Allan Kardec encarnam, nos tempos actuais, as duas grandes inquietudes do pensamento: o fenómeno social e o fenómeno espiritual. Marx traçou uma imagem do homem em desacordo com a realidade espiritual. Entretanto, no campo social, expressou verdades que, postas em prática, dariam solução à mais renhida luta de classes que, actualmente, no seu conjunto, chamamos capitalismo e comunismo.

Marx viu o homem como um composto físico-químico, isto é, como um organismo material, governado e conduzido pelos modos de produção. Kardec, pelo contrário, compreendeu o homem como um espírito encarnado num corpo físico, para demonstrar a sua evolução e a sua realidade espiritual. Mas o homem de Marx e o homem de Kardec, iguais entre si quanto ao aspecto material e diferentes na sua realidade espiritual, constituem agora uma pessoa humana ou entidade existencial, com novos direitos e iguais deveres, diante dos progressos da sociedade moderna.

Nessa pessoa existencial e humana, onde cabem tanto o homem marxista como o homem kardecista, devemos buscar a verdadeira filosofia Social. Nela se encontram os elementos indispensáveis para estabelecermos uma relação entre o problema social e o problema espiritual. Entretanto, Marx nos mostrou um homem melhor que o homem velho dependente do regime capitalista. O homem de Marx é um ser liberto da exploração económica, mas sem perspectivas metafísicas. As suas dimensões espirituais estão sujeitas ao terrestre, o que vale dizer que desaparecem com o corpo. Disso resulta ser o homem de Marx um Ser incapaz de satisfazer o anseio de imortalidade que o Espírito leva no seu íntimo.

Marx, com efeito, legou-nos um homem sem espírito. Não obstante, exigiu-lhe mais do que podia dar. Esqueceu-se de que um homem chamado a efectuar a transformação do mundo, em todos os seus aspectos, não deveria morrer, como sustenta a desoladora teoria do materialismo histórico, sobre a qual fundamentou todo o seu sistema social. Como se verá, o homem de Marx morre para sempre, depois de sacrificar-se pela instituição de um mundo melhor. É um tipo de homem que não tem vinculações palingenésicas com o processo histórico: nasce e morre sem saber qual o sentido do drama do planeta.

Apesar do erro no tocante ao Ser do homem, Marx teve acertos extraordinários ao julgar o regime capitalista e com ele a “exploração do homem pelo homem”. O seu génio demonstrou à inteligência humana que o sistema de propriedade privada está obrigado a transformar-se em sistema de propriedade colectiva. Fez ver à humanidade que o socialismo, ou regime de propriedade colectiva, corresponde a um novo sentido da vida, e assim o admite a doutrina social espírita, considerando-o como um avanço para o verdadeiro advento do cristianismo. Porque no dia em que a sociedade cristã for uma realidade, ela estará assente sobre as bases da propriedade colectiva. Vejamos o que diz o Evangelho: “Em verdade vos digo que um rico — ensinava Jesus a seus discípulos, — dificilmente entrará no Reino dos Céus. em verdade vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no Reino de Deus.” (Mateus XIX, 23-24).

homem velho, que geralmente está representado no rico de que falava o Nazareno, é o que resiste à evolução do sistema social, e deverá ler e meditar profundamente este ensinamento do Divino Mestre. Porque são os ricos e poderosos, mesmo sendo cristãos, os menos concordes com a essência revolucionária do cristianismo. Recordemos o seguinte ensinamento evangélico: “Certa vez, um jovem rico perguntou a Jesus o que deveria fazer para conquistar a vida eterna, e o Mestre lhe respondeu: Se quiseres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Ouvindo o jovem estas palavras, retirou-se tristemente, porque tinha muitos haveres”. (Mateus XIX, 21-22).

Esta a razão pela qual o cristianismo nunca poderá ser a doutrina ou a religião dos ricos, potentados, latifundiários e poderosos. O cristianismo, tal como o interpreta a sociologia espírita, é uma ideia que jamais se acomodará com os interesses das classes poderosas, nem com a exploração dos humildes e o luxo desmedido dos endinheirados.

O cristianismo possui em si mesmo tudo o que Marx atribuiu (por culpa dos próprios cristãos) ao socialismo de tipo materialista. No dia em que o cristianismo se dedicar totalmente à organização social do mundo, a própria revolução comunista, tão temida na actualidade, aparecerá como um acontecimento insignificante e sem transcendência.

A comunhão de bens ou propriedade colectiva, antes do socialismo, pertenceu ao cristianismo, como sistema social. Nos Actos dos Apóstolos lê-se o seguinte: “E todos os que acreditavam estavam juntos; e tinham todas as coisas em comum (11-44). E não havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam herdades e casas vendiam-nas e depunham o valor aos pés dos apóstolos, para ser distribuído a cada um, segundo as suas necessidades.” (IV-34-35).

Esta doutrina do cristianismo primitivo mostra-nos que a ideia de propriedade colectiva, principal instrumento do socialismo moderno, já era praticada pelas primeiras comunidades cristãs. Portanto, a cristandade deverá renovar a presente estrutura social, aplicando o ideal económico ensinado por Jesus e os seus apóstolos, e evitando assim a implantação de um conceito materialista do homem e da sociedade.

Marx esboçou um indivíduo sem vinculações com o espiritual e o eterno. Acreditou que o Espírito constituía um embaraço para o advento de uma sociedade sem classes, porque tanto o filósofo como o religioso aplacavam as reivindicações dos oprimidos, falando-lhes de uma felicidade ultraterrena. Deste modo, o poderoso se livrava das reclamações de servos e servidores, hoje trabalhadores e obreiros em geral.

O autor de O Capital, conhecedor deste jogo, desliga-se do Espírito e atém-se unicamente à realidade objectiva das coisas. Concebe por isso um homem material, cujo destino termina com a sua morte física. Sente repulsa pelo espiritual e metafísico, porquanto a oligarquia e a opressão de todos os tempos têm submetido os homens, prometendo-lhes recompensas no além.

Daí o homem marxista estar desvinculado de todo conceito espiritual e religioso. Marx acreditava que a verdade jamais escraviza o homem, mas o eleva e melhora nas condições da vida social. Viu, entretanto, que a verdade espiritual praticada por cristãos, clérigos, sociólogos e filósofos, até meados do século 19, era uma verdade espiritual que exaltava os poderosos e lhes submetia os humildes e deserdados, isto é, a todos os que seguiam a Jesus. O cristianismo eclesiástico, que não é o cristianismo do Espírito de Verdade, hoje proclamado pela Terceira Revelação, prestou-se a esse jogo aviltante, que consistia em sufocar toda ideia de rebeldia entre os explorados. E Marx, por essa razão, negou aquela verdade espiritual, chegando à conclusão de que a única realidade se acha no mundo físico e na vida material do homem. Terminou sustentando que a verdade sempre libertará os indivíduos, e que toda a ideia religiosa, que tratasse de subjugá-los com promessas ultraterrenas, representaria uma falsa verdade ou um argumento das forças reaccionárias, para impedir a justiça social e a democracia.

Hoje, é reconhecida a razão de Marx, no que respeita ao socialismo, mas quanto à interpretação materialista do homem e da história, como se vem comprovando, Marx permanece num plano de absoluto equívoco. É este o motivo que dá argumentos aos misoneístas para combaterem Marx, não tanto com o fim de refutar a sua ideologia materialista, mas para defender o regime capitalista, onde os seus instintos possessivos possam continuar a obra de avareza e de egoísmo.

Se Marx nos legou uma falsa imagem do homem, foi devido ao procedimento moral, que já assinalamos, dos que se chamaram espiritualistas e cristãos, e que em vez de estarem com a mensagem de Cristo, e consequentemente com os pobres, despojados e explorados, estiveram com os poderosos e os afortunados. No nosso tempo, continua ainda este jogo de religiosos, espiritualistas e cristãos, que se protegem sob o poder estatal para defender os seus interesses de classe afortunada. Esta atitude dos poderosos frente aos humildes destrói, a cada momento, na vida dos povos, a ideia de Deus e do Espírito, a ponto de serem consideradas inexistentes, e, repetindo o que dizia Marx, continua-se a considerá-las como instrumentos mentais para aplacar os anseios de justiça.

Mas se o homem marxista é um erro no seu aspecto espiritual, e uma verdade na sua face social, o homem kardecista é uma verdade integral: o homem de Kardec é verdadeiro tanto no espiritual como no social. Estes mundos, na concepção espírita, não se excluem entre si, segundo afirma a mentalidade religioso-materialista. Para Kardec, esses dois mundos estão representados por dois elementos: o material e o espiritual, que deverão unir-se para revelar uma única realidade: a da vida universal.

Kardec nos assinala que esses elementos, o material e o espiritual, constituem as duas realidades através das quais deverá passar o Espírito do homem. Essa concepção confirma-nos que a justiça social e a justiça espiritual deverão desenvolver-se de forma paralela, já que tanto o processo visível como o invisível do homem e da história contribuem para o processo que conduz ao amor e à fraternidade sociais. Isso mostra-nos que o mundo material e o mundo espiritual se relacionam mutuamente, e que o desenvolvimento histórico se efectua mediante essas relações materiais e espirituais, ao lado do desenvolvimento da forma e da vida.

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Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo III MARX E KARDEC, 1 de 2, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea (1936) Salvador Dali)

sexta-feira, 20 de março de 2015

O Mundo Invisível e a Guerra ~

II – Cenas do Espaço. Visões Reais da Guerra e da Epopeia (III)

|Janeiro de 1915|

Breve soará, qual jubilosa marcha militar, a hora da vitória. Toda a França está de pé: a do presente e a do passado, a dos vivos e a dos mortos!

As forças invisíveis e divinas estão em acção porque a luta que se trava é grande e sacrossanta. É a luta da liberdade, do direito e da justiça contra a brutalidade armada e o despotismo cínico e grosseiro. Por isso a França não pode ser derrotada, pois a causa que defende é a da humanidade. A vitória da Alemanha seria o retrocesso da consciência, a apoteose de todos os crimes. Deus não o permitirá!

Por muitas vezes, no decorrer dos séculos, a França foi campeã das ideias humanitárias, oferecendo o seu ouro e o seu sangue na defesa dos fracos e a libertação dos oprimidos. Eis por que as suas mais estrondosas derrotas foram sempre seguidas de um rápido reerguer.

Não obstante os seus erros e as suas faltas, a França é necessária para a ordem do mundo.

Mais do que qualquer outro país, em todas as esferas, sempre serviu ao ideal, chegando inclusive ao sacrifício, porque o seu papel é humanitário.

Graças à clareza da sua língua e à lucidez do seu espírito, os princípios que defende penetram mais profundamente nas inteligências e nos corações, e todos os povos hauriram nela como numa inesgotável fonte.

No futuro, a sua influência ainda será maior, pois do seu seio surgirão missionários que irradiarão o Espiritismo sobre toda a Terra.

Poder-se-ia afirmar que a França é mulher, pois que sintetiza a beleza e a verdade, razão porque paira uma alma feminina acima dos seus espíritos protectores.

A ajuda de Joana d’Arc dará um verdadeiro rumo aos factos e restituirá à França a consciência do seu papel e do seu destino grandioso.

Com o aparecimento da Virgem Lorena, os espíritos que nos protegem sentiram aumentar a sua confiança, a sua certeza na vitória.

Inúmeros exércitos foram preparados e chegará o dia em que Joana estará à frente deles e, embora invisível, os nossos soldados experimentarão a sensação da sua presença e ela lhes transmitirá a coragem que a envolve.

Numa decisão viril, desafiando o fogo e a metralha, os soldados franceses marcharão, com conhecimento de causa, contra o inimigo. E o vento que sopra sobre as planícies da Flandres, na floresta dos Vosges, fará flutuar, novamente, as nossas bandeiras vitoriosas.

Os franceses escreverão, com o seu próprio sangue, as páginas mais gloriosas da nossa história.

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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, II – Cenas do Espaço, Visões Reais da Guerra e da Epopeia (3 de 3), 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quarta-feira, 11 de março de 2015

pensamento espírita argentino ~

CAPÍTULO I
Fundamentos científicos da concepção neo espírita da vida e da história |

Que somos? (IV)

Quando se trata de explicar a individualidade fisiológica, o positivista o faz considerando o homem como simples agregado celular, como um organismo social polizóico, análogo, segundo Dastre, a “uma cidade populosa” cujas corporações “executam tarefas diferentes e proporcionam produtos tanto mais variados quanto maior for o grau de adiantamento adquirido”. A entidade psíquica biocêntrica, a causa directriz centralizadora, não está contida na concepção empírica do eu físico.

Quando se trata de explicar a individualidade psicológica, afirma-se analogamente que esta carece de unidade substancial. Assim diz Ribot:

“A unidade não é a entidade una dos espiritualistas que se espalha em fenómenos múltiplos, mas a coordenação de certo número de estados de incessante renovação, tendo por único ponto de apoio o sentimento vago de nosso corpo. Esta unidade não vai de cima para baixo nem de baixo para cima; não é um ponto inicial, senão um ponto terminal.”

Isto equivale a dizer que o espírito não é um princípio essencial, produtor de fenómenos psíquicos, mas o resultado, o produto, destes fenómenos coordenados.

Segundo Félix Le Dantec, a individualidade transforma-se seguindo o processo lento e contínuo de seu organismo, que, como é sabido, muda incessantemente. Diz ele:

“Mas, em virtude da lei de assimilação funcional e da conexão particular das subsistências, haverá continuidade no tempo entre as diversas personalidades sucessivas e por isto o eu psicológico acompanha o indivíduo fisiológico desde o seu nascimento até à sua morte, por meio das suas modificações incessantes.”

Que o indivíduo mude de personalidade, seguindo um processo análogo ao do seu organismo, é uma verdade incontestável, mas não o é menos que a individualidade, que não muda com a personalidade, nem que o processo de transformação entre esta e o organismo seja necessariamente correlato. Por meio de todas as mudanças, o homem se reconhece o mesmo indivíduo. E esta identidade psicológica do eu não se pode explicar pela assimilação funcional nem pela conexão particular das substâncias orgânicas e funcionamentos de um mesmo eu. O Voltaire, o Hugo ou Tolstói nos anos 80, apesar de terem sido crianças, jovens, homens maduros e respectivamente anciãos, de haverem mudado de físico, de ideias, de opiniões, de conduta e até de carácter, são os mesmos indivíduos, eles mesmos se reconhecem nas suas obras, através de todas estas mudanças de personalidade e apesar também de haverem mudado muitas vezes os átomos, moléculas e as células do seu organismo.

Muitos fisiólogos, entre eles Marinesco e o mesmo Le Dantec, para salvar a concepção positivo-materialista do fracasso, atribuem à célula cerebral uma duração indefinida e o último destes sábios chega até a sustentar que a matéria viva não se destrói, conceito que já havia sustentado Haeckel, no seu “Monismo”. Admitir semelhante hipótese seria concluir que há em nós uma matéria viva permanente e outra inerte que se renova sem cessar e que sofre o influxo vital daquela, ou teria de se admitir, com Marinesco, que a célula cerebral perdura por meio da incessante renovação da matéria do resto do organismo, hipótese atrevida e de nenhum modo demonstrada pela ciência experimental.

A célula viva não pode ter uma duração ilimitada num organismo que muda constantemente. Por sua parte, os psicofisiologistas, como Geley, lançam mão de verdadeiros entes psicometafísicos, como faz Wundt com a “percepção”, a que atribui o papel unitário para conciliar a multiplicidade dos fenómenos psíquicos com a noção, hoje experimentalmente provada, da unidade do eu. Mas, como diz Boutroux, “em qualquer ponto de vista que alguém se coloque, a multiplicidade não contém a razão da unidade”.

O ponto de apoio da psicologia positiva é a célula nervosa, a que se atribui a faculdade de sentir, de transmitir e assimilar as sensações e, por sequência, de produzir por si mesma e em relação com as demais, todos os fenómenos psicológicos. Para atribuir-lhe tal faculdade, o positivismo deve demonstrar antes, experimentalmente, que a célula nervosa está dotada de um psiquismo particular e é capaz de ter espontaneidade. Sabe-se que é irritável, mas nada tem demonstrado ainda que tenha sensibilidade, consciência e disposições próprias para exercer espontaneamente as suas funções e associar-se deliberadamente para realizar uma acção conjunta e menos ainda para transmitir por assimilação a ideia de individualidade, a consciência do eu único e indivisível. Afirma Claude Bernard:

“A matéria por si mesma é inerte e até mesmo a matéria viva, neste sentido, deve ser considerada como desprovida de personalidade.”

A célula não trabalha, pois, por si mesma; não tem participação voluntária nos fenómenos psíquicos; trabalha sob a impulsão de estímulos externos e internos; a alma é que tem a faculdade de sentir, de ter consciência das suas sensações e de dirigir, consciente ou inconscientemente, todos os fenómenos que se realizam nela. Quando, por exemplo, ferimos um dedo, não é o centro táctil, senão nós que sentimos a dor e temos consciência desta dor, ao mesmo tempo em que a parte em que se supõe localizada a sensação nada sabe. Quando as ondas luminosas chegam aos nossos olhos penetram pelas pupilas e formam sobre a retina a imagem de uma formosa paisagem que se encontra num quadro posto ante a nossa vista, e por um movimento do nervo óptico, a excitação que provoca transmite-se ao centro visual, dando-nos a imagem dessa paisagem, perguntamos: é um acaso o centro visual ou sensorial ou os centros de associação que vêm o quadro, os que têm consciência da beleza da paisagem, os que apreciam o seu valor estético, admiram os variados matizes do colorido, a perspectiva, os efeitos de luz, a regular proporção das suas partes, os que fazem, enfim, o seu juízo crítico? Ou somos nós, seres espirituais (ainda que unidos à matéria) dotados de sensibilidade artística, de sentimento estético, de faculdades de apreciação e discernimento? O que sabe o centro visual do sentimento e da beleza, o centro auditivo, da emoção que produz na minha alma um trecho de música selecta, o centro táctil, da sensação que produz a carícia de uma mãe, ou o centro da memória, do amor ou do ódio que desperta uma lembrança? Em virtude de que lei, de que princípio e obedecendo a que mandato, a que poder centralizador, as percepções e sensações se associam para dar unidade à consciência, formar pensamentos, coordenar ideias e juízos ou tomar determinações?

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Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (IV), 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)