sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O peregrino sobre o mar de névoa ~

Desenvolvimento da Ciência Espírita ~

Os espíritas continuam, num clima de maiores esperanças mundiais nesse terreno, com o avanço espantoso das pesquisas parapsicológicas nos Estados Unidos e na URSS, a socorrer no Brasil as vítimas de perturbações mentais e psíquicas, em seus centros de trabalho permanente e gratuito.

A eficácia dos seus métodos simples, desprovidos dos recursos tecnológicos da actualidade, são evidentes, mas não constam de comprovações estatísticas. Não há recursos nem tempo para o luxo das avaliações estatísticas. Mas a verdade salta aos olhos, brilha nos lares beneficiados por dedicações anónimas. Já é tempo de acordarmos para a constatação desse facto.

O Brasil avançou culturalmente entre os anos 30 e 60, com a descentralização do ensino superior e a criação de Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras por toda a sua extensão. Nem mesmo o interregno das agitações políticas e militares conseguiu perturbar esse desenvolvimento.

Demos a prova decisiva da nossa preferência pela paz, a ordem e o progresso.

Mas o meio espírita, adverso às agitações e inquietações políticas, deixou-se embalar pelas canções de adormecer das mensagens mediúnicas piedosas, dos relatos curiosos da vida após a morte, nas pregações mediúnicas incessantes sobre a caridade, a humildade, o amor ao próximo, a moral evangélica, a preparação de todos para a migração a mundos superiores e assim por diante.

Desenvolveu-se um curioso processo de alienação religiosa que nem mesmo nas sacristias se processava. Surgiram, além das fascinações do tipo roustainguista (intencionalmente retrógradas) correntes pseudo-espíritas de mentalismo e esoterismo pretensiosos, agrupamentos de fiéis acarneirados em torno de pseudomestres dotados de sabedoria infusa e arrogante, como a dos teólogos das igrejas, resquícios assustadores de pretensões divinistas e divinatórias, correntes alienantes de um formalismo beócio, pregando o aperfeiçoamento formal das atitudes e do comportamento humanos, com processos de impostação da voz e de gesticulações pré-fabricadas, e até mesmo (Deus nos acuda) tentativas de criação do celibato espírita e a imposição da abstinência sexual aos casados.

Toda essa floração de cogumelos venenosos, vinda evidentemente das raízes da Patrística, redundava na volta ao farisaísmo e às suas consequências no meio patrístico da era pós-apostólica, que tanto enfurecia o Apóstolo Paulo. Pouco faltava para que a proposta de Tertuliano, de recorrer-se à figura jurídica do usucapião, fosse aplicada ao Evangelho. Formava-se e ainda se tenta formar, no meio espírita, uma estrutura totalitária de poder e arbítrio, com uma disciplina legal asfixiando a liberdade espírita. Ao mesmo tempo, a terapia espírita, nascida humildemente da prece e da imposição das mãos aos doentes, segundo o ensino e o exemplo de Jesus, era transformada em ritos complicados e pretensiosos, aplicados por médiuns diplomados pelas Federações. Até mesmo as práticas do confessionário foram estabelecidas em várias instituições, a partir do manda-chuva, que agia com rigorosa disciplina paramilitar. O escândalo da adulteração das obras fundamentais da doutrina, declaradamente inspiradas pelo sucesso das adulterações da Bíblia pelas igrejas cristãs, produziu felizmente o estouro do tumor. Alguém tivera a coragem de usar o bisturi na hora precisa, mostrando a profundidade do processo infeccioso, definindo e localizando os focos da infecção na corroída e orgulhosa estrutura do movimento espírita.

Restabelecia-se a verdade e reanimava-se o corpo doente e minado pelas trevas. As áreas não contaminadas pela infecção reagiam de todos os lados e os vencidos pela fascinação começavam a sentir os primeiros abalos da consciência. Encerrava-se o ciclo perigoso das infiltrações malignas e os que não haviam cedido ao autoritarismo dos falsos mestres e mentores experimentavam a alegria da volta ao bom-senso kardeciano.

A terapia espírita começava lentamente a recuperar-se na sua simplicidade e pureza. O prestígio do passe espírita, desprovido de encenações espúrias e pretensiosas, restabelecia-se nos grupos não contaminados. Jesus aplacara o temporal como num gesto de piedade. O farisaísmo tem as suas raízes nas entranhas animais do homem, de onde brotam os instintos primitivos, perturbando a mente e envenenando o coração. Os cristãos primitivos foram levados à loucura de se julgarem puros e santos, como vemos nas epístolas ardentes de Paulo, reprimindo os núcleos desvairados. No meio espírita domesticado por incessantes mensagens padrescas, algumas instituições doutrinárias chegaram a proclamar-se donas exclusivas da verdade. Um enviado dos anjos fez-se oráculo dos novos tempos (por conta própria) e a autodenominada Casa-Máter do Espiritismo no Brasil ampliou a sua orgulhosa e falsa pretensão, cortando do seu título autoconcedido a expressão “do Brasil”, tornando-se, com essa simples operação, a Casa-Máter do Espiritismo no Mundo. Com essa manobra as trevas cortavam a possibilidade de uma estruturação mundial do movimento espírita. O movimento brasileiro fechava-se em si mesmo e poderia restabelecer entre nós o Templo de Jerusalém com o seu rabinato exclusivista. A reacção de André Dumas, na França, da Confederação Espírita Pan-americana da Argentina, da própria Federação Argentina, da Venezuela e de intelectuais espíritas como Humberto Mariotti, Robert Fourcade e outros mostrou o alcance dessa manobra. Que esse triste exemplo dos descaminhos a que o farisaísmo pode levar-nos sirva para acordar o bom-senso dos desprevenidos. A terapia espírita não terá eficácia se não pudermos aplicá-la a nós mesmos e ao nosso movimento doutrinário. Sem uma base de convicção firme e de fidelidade à obra de Kardec não poderemos curar-nos a nós mesmos, quanto mais aos outros.

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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Desenvolvimento da Ciência Espírita 2 de 2, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

pensamento e vontade ~

Alucinações espontâneas e voluntárias |

Nos incidentes da vida ordinária e diuturna, todas as lembranças são constituídas por imagens atenuadas, mais ou menos vagas, cuja fraca vivacidade não permite distinguir-lhes a natureza.

Não obstante, a regra comporta numerosas excepções, e todos os homens geniais, cuja força imaginativa logrou criar obras-primas, foram dotados de intensa visão mental, que lhes permitia perceber interiormente as personagens e ambientes, engendrados pelo febricitante trabalho mental em gestação.

Sabido é que os grandes romancistas, entre eles Dickens e Balzac, ficavam às vezes obsidiados pela visão das personagens por eles idealizadas, a ponto de as verem, diante de si, como se fossem personalidades reais.

Outro tanto podemos dizer dos pintores, cujo poder de visualização pode chegar a substituir os modelos vivos.

Brierre de Boismont, no seu livro As alucinações, (págs. 26 e 451), relata o seguinte facto:

“Um pintor que herdara grande parte da clientela do célebre artista José Reynolds e considerado, aliás, retratista superior a este, declarou-me ter tantas encomendas, que chegou a pintar trezentos retratos, entre grandes e pequenos, no curso de um ano.

Tal rendimento de trabalho afigura-se-nos impossível; mas, o segredo da rapidez e do extraordinário êxito do artista consistia na circunstância de lhe não ser preciso mais que uma “pose do modelo original”.

Wigam conta: Vi-o pintar, eu mesmo, sob os meus olhos, em menos de oito horas, o retrato de uma pessoa das minhas relações, e posso assegurar que o trabalho era cuidadosamente feito, além de fiel à semelhança.

Pedi-lhe esclarecimento do seu método. Respondeu-me:

“Quando me apresentam um novo modelo, fito-o com muita atenção durante meia hora, ao mesmo tempo em que, de espaço a espaço, procuro fixar um detalhe da fisionomia, sobre a tela.

“Meia hora me basta para dispensar outras “poses”. Ponho, então, de lado a tela e ocupo-me de outro modelo.

“Quando volto ao primeiro retrato, penso na pessoa e sento-me no tamborete, de onde passo a percebê-la tão nitidamente como se presente de facto ela estivesse.

“Chego mesmo a distinguir-lhe a forma e a cor, mais nítidas e mais vivas, do que o faria se a pessoa ali estivesse realmente.

“Nessa altura, de tempos a tempos fito a outra, a figura imaginária, fixo-a facilmente sobre a tela e, quando necessário, interrompo o trabalho para observar com cuidado o modelo, na “pose” que tomara.

“E cada vez que volto o olhar para o tamborete, lá vejo, infalivelmente, a minha personagem.”

Registe-se, contudo, que essa excepcional faculdade para objectivar imagens acabou por ser fatal ao artista, pois que enlouqueceu no dia em que lhe não foi possível distinguir as alucinações voluntárias e representativas de algumas pessoas, das pessoas realmente vivas.”

Também nos casos dessa natureza e sempre graças às novas luzes projectadas pelas investigações metapsíquicas sobre a génese das alucinações, em geral, tudo concorre para demonstrar que nas formas alucinatórias, a que estão mais ou menos sujeitos romancistas e artistas, existe algo de objectivo e substancial.

É uma indução que, aliás, já ressalta mais nítida da análise das sugestões hipnóticas, tal como me proponho demonstrar.

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Ernesto Bozzano, Pensamento e Vontade – Alucinações espontâneas e voluntárias, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgar Maxence)

sábado, 20 de dezembro de 2014

Alfred Russel Wallace e o Sobrenatural ~

milagres | e a ciência moderna ~

Um milagre é geralmente definido como uma violação ou suspensão de uma lei da natureza, e como as leis da natureza são a mais completa expressão das experiências acumuladas pela espécie humana, Hume era de opinião que nenhum testemunho humano poderia provar um milagre. Strauss baseia todo o argumento do seu elaborado trabalho sobre a mesma base, a de que nenhum testemunho que venha até nós por meio do conhecimento de séculos pode provar que estas leis foram alguma vez subvertidas, que a experiência unânime dos homens mostra agora ser invariável. A ciência moderna colocou este argumento numa base mais ampla, demonstrando a interdependência de todas estas leis e considerando inconcebível que a força e o movimento, ou nada mais do que a matéria, possam ser absolutamente criados ou destruídos o professor Tyndall no seu artigo sobre "A constituição do universo", publicado no Forthnighly Review, diz:

Um milagre é estritamente definido como uma invasão da lei da conservação da energia. (i) Criar ou aniquilar a matéria pressupõe, de todas as formas, um milagre: a criação ou aniquilação da energia seria igualmente um milagre para aqueles que compreendem o princípio da conservação.

(i) - Esta suposta definição de um milagre é uma pura suposição. Milagres não implicam qualquer “invasão da lei de conservação de energia”, mas meramente na existência de seres inteligentes invisíveis a nós, capazes ainda de actuar sobre a matéria, como foi explicado anteriormente.

O senhor Lecky, no seu grande trabalho sobre o "Racionalismo", mostra-nos que durante os últimos dois ou três séculos houve uma disposição continuadamente maior para se adoptarem pontos de vista seculares mais que teológicos, em história, política e ciência. As grandes descobertas da física na última metade do século pressionaram esse movimento com ainda maior veemência e levaram a uma firme convicção, nas mentes da maioria dos homens instruídos, a de que o universo é governado por leis amplas e imutáveis, às quais se subordinam todos os fenómenos que possam ser classificados e contra as quais nenhum facto natural se pode opor. Se, contudo, definirmos milagre como uma contravenção a qualquer uma destas leis, deve ser admitido que a ciência moderna não tem lugar para ele; e nós não podemos ser surpreendidos com as muitas e variadas tentativas de escritores de opinião amplamente oposta, darem a razão de, ou explicarem todos os factos que, registados na história ou religião, só poderiam ter acontecido supondo um agente miraculoso ou sobrenatural. Esta tarefa não tem sido fácil, de forma alguma. A quantidade de testemunho directo era a favor dos milagres em todos os tempos e é muito grande. A crença em milagres foi, até à nossa época, quase universal, e de modo geral é seguro e possível certificar-se que, as pessoas que estão mais firmemente convencidas da impossibilidade dos eventos considerados miraculosos, poucas pesquisaram ampla e honestamente a natureza e quantidade das evidências de que aqueles eventos realmente aconteceram, se é que aconteceram. Sobre este tema, contudo, eu não desejo tratar agora. Parece-me que toda a base da questão foi de alguma forma mal colocada e mal compreendida, e que, em cada caso autêntico de um suposto milagre, pode ser encontrada uma solução que removerá muitas das nossas dificuldades.

Uma falácia comum parece-me presente em todos os argumentos contra os factos considerados miraculosos, quando se assegura que eles violam, ou invadem, ou subvertem as leis da natureza. Isto é realmente presumir mais do que pode ser decidido, já que, se o facto em discussão realmente aconteceu, ele só poderia estar de acordo com as leis da natureza, já que, por definição, ‘lei da natureza’ é aquela que regula todos os fenómenos. A própria palavra ‘sobrenatural’, quando aplicada a um facto, é um absurdo; e a palavra ‘milagre’, se assim mantida, exige uma definição mais precisa do que a que tem sido dada dele. Recusar-se a admitir o que em outras situações seria evidência conclusiva de um facto, porque não pode ser explicado por aquelas leis da natureza com as quais estamos familiarizados, é na verdade sustentar que temos um completo conhecimento destas leis e que podemos determinar de antemão o que é ou não possível. Toda a história do progresso do conhecimento humano nos mostra que o controverso prodígio de uma era se transforma em fenómeno natural aceite na seguinte e que muitos milagres aparentes eram decorrentes de leis da natureza subsequentes às descobertas.

Muitos fenómenos da mais simples feição pareceriam sobrenaturais aos homens que possuem conhecimento limitado. O gelo e a neve poderiam facilmente parecer como tais aos habitantes dos trópicos. A subida de um balão pareceria sobrenatural a pessoas que nada conhecessem sobre as causas do seu movimento de ascensão; e nós poderíamos bem aceitar que, não há gás inflamável senão o ar atmosférico como sempre foi entendido, e se nas mentes de todos (filósofos e químicos incluídos) o ar fosse indissoluvelmente ligado à ideia de uma forma mais leve da matéria terrestre, o testemunho daqueles que viram um balão ascender seria desacreditado, sob as bases de que a lei da natureza seria suspensa se qualquer coisa pudesse ascender livremente para a atmosfera, em directa contravenção à lei da gravidade.

Há um século, um telegrama a três milhas de distância ou uma foto tirada numa fracção de segundo não seriam considerados possíveis, e não se acreditaria em qualquer testemunho, excepto pelo ignorante e supersticioso que acreditasse em milagres. Há cinco séculos, os efeitos produzidos pelo moderno telescópio e pelo microscópio seriam considerados miraculosos e, se fossem apenas relatados por viajantes como existentes na China ou no Japão, seriam certamente desacreditados. O poder de mergulhar uma mão em metais derretidos sem amachucar-se é um caso notável do efeito de leis naturais que parece contrapor-se a uma outra lei natural; e é um caso que certamente deve ter sido, e provavelmente foi, considerado como um milagre, e o facto foi acreditado ou não, não importa a qualidade ou quantidade dos testemunhos sobre ele, mas de acordo com a credulidade ou o conhecimento supostamente superior do observador. Há cerca de 50 anos, o facto de operações cirúrgicas poderem ser realizadas em pacientes em transe mesmérico sem que eles tivessem consciência da dor foi extremamente condenado pela maioria dos cientistas e médicos, e os pacientes, e em algumas vezes os cirurgiões, foram denunciados como impostores. O fenómeno em questão foi considerado contrário às leis da natureza. Agora, provavelmente todo o homem inteligente acredita nesses factos, e que deve haver alguma coisa como uma lei desconhecida da qual eles são uma consequência. Quando Castellet  informou Réaumur de que havia cultivado bichos-da-seda a partir dos ovos postos por uma mariposa virgem, a resposta foi Ex nihilo nihil fit (ii) e o facto foi desacreditado. Era contrário a uma das mais amplas e mais bem estabelecidas leis da natureza; agora ele é universalmente considerado verdadeiro e a suposta lei deixou de ser universal. Estas poucas citações irão permitir-nos entender como milagres conhecidos devem ter acontecido em virtude de leis da natureza ainda desconhecidas. Nós sabemos tão pouco sobre o que as forças da vida realmente são, como elas agem ou podem agir e em que grau está a sua capacidade de transmissão de um ser para o outro, que seria realmente temerário afirmar que sob nenhuma condição excepcional poderiam acontecer fenómenos, tais como as curas aparentemente miraculosas de muitas doenças ou a percepção de outros canais além dos sentidos ordinários.

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(ii) - Nota do Tradutor: “Do nada, nada foi feito”




Alfred Russel Wallace, O Aspecto Científico do Sobrenatural, II Milagres e a ciência moderna 1 de 2, 1º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alfred Russel Wallace, o homem)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

a pedra e o joio ~

Panorama desolador |

Foi tendo em vista todo esse panorama desolador que resolvemos lançar esta nova edição da Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito, sob novo título capaz de abranger toda a área conflitual. Lançada a primeira edição há doze anos, em volumes de pequeno formato e composição em tipo miúdo, produziu ela os seus efeitos, mas já se encontra há muito esgotada. Muitas pessoas interessadas reclamam a reedição. Examinando o texto, vimos que ele ainda se apresenta como necessário no panorama actual. Foi a primeira crítica, rigorosamente crítica, oferecida ao meio doutrinário como um exemplo de como se deve desmontar uma doutrina absurda. Muitos dos seus tópicos se aplicam a outras formas de pretensa reformulação da doutrina. É um texto já clássico, modelo único de exame atento e minucioso de uma falsa teoria, não lhe faltando o exemplo de comedimento e de respeito humano ao responsável pela sua formulação e divulgação. Não teremos a falsa modéstia de negar o seu valor nesse sentido, mormente agora que o movimento da Educação Espírita atinge o plano universitário e exige a existência de textos dessa natureza, capazes de orientar os estudantes universitários no manejo da crítica espírita. Há momentos em que devemos ter a coragem de reconhecer e sustentar o valor das próprias obras elaboradas em favor da doutrina. Investimo-nos dessa coragem e lançamos o texto em nova edição, com endereço mais amplo e adaptado às exigências actuais. Não negaremos às novas gerações de estudantes universitários espíritas esse modelo ainda imperfeito, porque escrito sem o tempo necessário, mas valioso por o seu acerto no enfoque do problema e por sua eficácia indiscutivelmente provada.

Não buscamos nenhum efeito de interesse pessoal. A imprensa espírita ainda não está em condições de avaliar esforços desta natureza e a imprensa comum nem sequer tomará conhecimento desse trabalho. O que nos interessa é devolver à circulação um texto que tem a sua oportunidade e o seu valor relativo, atendendo a uma necessidade evidente do movimento espírita brasileiro. Ao lado de O Verbo e a Carne, cuja edição foi lançada recentemente, este pequeno volume poderá contribuir para orientar e estimular novas críticas dessa natureza. Nenhuma cultura se desenvolve sem crítica e sem exercício acurado do espírito crítico. O Espiritismo, ele mesmo, é um movimento crítico em favor do desenvolvimento da Civilização do Espírito, como vemos na obra gigantesca de Kardec. Todas as reacções que esta reedição provocar serão benéficas, mesmo quando possam parecer o contrário. A defesa da verdade está sempre acima dos melindres pessoais.

São Paulo, 18 de Abril de 1974.

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José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito, Panorama desolador, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

sábado, 22 de novembro de 2014

O Espiritismo na Arte ~

Segunda lição de o Esteta

– Composição virtual de obras artísticas, A eclosão da inspiração

|22 de Novembro de 1921|

“Após ter-vos dado a descrição das cenas artísticas que registamos no espaço, para vós será interessante saber como agrupamos os elementos dessas cenas para compor virtualmente esses quadros.

Tentarei fazer-vos compreender como reunimos as moléculas necessárias para que a nossa vontade possa projectar os fluidos capazes de se transformarem nas obras que simbolizem a beleza sob todas as formas. Essas obras serão sentidas e percebidas por outros seres fluídicos que não são criadores.

Os seres imateriais que flutuam nas regiões fluídicas, infinitamente ricas e subtis, só as alcançaram por uma longa e progressiva evolução pela qual adquiriram conhecimentos e aptidões suficientes para eles mesmos poderem criar, no mundo onde vivem, entre as suas existências humanas.

Vejamos um exemplo. Um grande escultor, um grande pintor ou um grande artista parte da Terra. Ele ainda está sob a impressão dos trabalhos que executou durante a sua existência anterior; chegado ao espaço, não estando mais o seu espírito limitado pela matéria, ele revê o caminho percorrido desde o dia em que recebeu a essência criadora divina e adquire a certeza de que poderá, nas novas existências, desenvolver e completar o que podes chamar de parcela genial.

Ele vai ver, no espaço, desenrolarem-se todos os factos proeminentes que presidiram a eclosão da sua inspiração.

Se ele era arquitecto ou escultor, imediatamente, de acordo com a sua vontade, a sua memória voltará a traçar os monumentos ou as obras de arte que ele criou.

Admitimos que ele plane nesse meio do qual acabamos de falar; após um apelo a Deus, o seu pensamento encontrará, pelas suas radiações, fluidos suficientes para reconstituir todas as suas obras. Se elas têm um carácter verdadeiro de beleza, se a inspiração é pura, se o ideal é elevado, os outros seres que rodeiam o artista sentirão despertar em si mesmos um desejo de imitação e, pouco a pouco, o véu material sendo levantado, o seu pensamento pessoal será fecundado pelo do artista.

Assim, um grande mestre-escultor fará reviver esses belos monumentos nos quais a glória do Altíssimo foi cantada durante séculos. Então, imensas catedrais serão reedificadas; mas o artista não se limita sempre à obra que criou, a sua visão à distância também reencontra as obras dos seus discípulos, e algumas vezes a sua inspiração continua no espaço para formar de novo obras que tomam a diversos autores as partes mais bem-sucedidas de suas concepções. Se penetrasses no espaço, no plano elevado a que me refiro, poderias perceber que os monumentos, que não são semelhantes àqueles erigidos no vosso mundo, são reconstituídos pelo pensamento fluídico de seres inspirados por Deus.

O Criador supremo dá a cada um dos seus filhos uma parcela animadora que se exterioriza quando o culto do belo e do ideal desperta neles. Os vossos monumentos religiosos são as imagens vivas desse facto. Esses telhados arrojados, lançando-se em direcção ao céu, não são uma imagem fiel do pensamento do ser humano elevando-se numa prece derradeira a esse Deus que nos criou? Quer seja uma catedral ou um templo da Antiguidade, quer seja na Grécia, em Roma, em Florença ou no vosso país, procura e sempre encontras a confirmação de que o pensamento superior preside a eclosão das obras arquitectónicas.

Faço uma pequena comparação, talvez afastando-me do meu assunto: se considerardes a história da Arquitectura na Alemanha nestes tempos modernos, constatareis que a elevação em direcção ao céu é ausente, que formas maciças e quadradas substituem a cúpula ou a ogiva; o pensamento estende-se sobre a Terra e não se eleva mais em direcção ao divino.

Em pintura, estuda a escola florentina na época da Renascença; verificaras que quando as obras têm um cunho místico, os traços se divinizam e as cenas tomam características de real beleza e de verdadeira grandeza.

Ocorre o mesmo em todas as artes. A música sacra, por exemplo, tem um carácter que toca de mais perto o divino, enquanto que a música profana, quando se aproxima da matéria, reveste a característica de um realismo baixo e grosseiro.”

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LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte I – Segunda lição de o Esteta, Composição virtual de obras artísticas, A eclosão da inspiração, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Nas garras do pensamento crítico ~

Nem um passo à frente ~

Quando Engels escreveu o seu artigo contra o método empírico-indutivo de Bacon, ou melhor, confundindo esse método com:

“O êxtase e a vidência, importados da América”, de que se fazia vítima o empirismo inglês, na pessoa do “eminentíssimo zoologista e botânico Alfred Russel Wallace”, o homem que, simultaneamente com Darwin, apresentou a teoria da evolução das espécies pela selecção natural, o materialismo dialéctico era uma conquista recente, um equívoco em forma de desenvolvimento, e não nos caberia censurá-lo por essa digna atitude de combate.

Engels não poderia entender de outra maneira o “desencaminhamento” de Wallace. Vê-se, não obstante, desse mesmo artigo, que Engels não ficaria no terreno da teoria. Embora mal, com a imperícia de quem jamais se interessara pelo assunto, procurou justificar as suas afirmações, através da observação e da experimentação.

O artigo de Engels foi publicado pela primeira vez em 1898. Devia ter sido escrito, segundo encontramos na edição brasileira da Dialéctica, em 1878. Engels criticava também os trabalhos de Crookes, Aksakof e Zöllner. É uma crítica violenta e irreverente, em que ele chega a considerar o Espiritismo “a mais estéril de todas as superstições”.

Como se vê, a afirmação não era dialéctica, mas empírica, inteiramente gratuita, e o longo roteiro das experiências espíritas e metapsíquicas aí está para desmenti-la.

Mas tinha a sua razão de ser. Podemos dizer, com Hegel, que o Zeitgeist, o espírito da época, a justificava.

O que espanta, entretanto, é que ainda hoje, quase um século depois, o artigo de Engels seja a única pauta dos que, como o professor Silva Mello, desejam eliminar do mundo em que vivemos, por incómoda, a realidade dos fenómenos espíritas, sem seguir sequer o exemplo de Engels no tocante à experimentação própria.

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, Nem um passo à frente, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar as idades


O exílio luminoso ~

Victor Hugo, poeta nacional da França, dedicou boa parte de sua vida literária e espiritual à Doutrina Espírita. O seu talento encontrou, nos princípios desta, fontes de inspiração que lhe permitiram escrever páginas brilhantes, as quais continuam guiando o pensamento humano sobre os grandes problemas metafísicos e religiosos.

As Contemplações, Raios e Sombras, A Legenda dos Séculos revelam conceitos realmente comovedores. Nestes livros o poeta manifestou uma profunda sabedoria espiritual como que inspirada por grandes potências do mundo invisível. E que Hugo, sempre ao serviço da verdade, tudo escreveu interrogando o Mais Além.

O seu génio romântico cresceu com a visão espírita do mundo; por isso, o seu romantismo foi como uma consequência desses mistérios espirituais que sempre o rodearam. Em Jersey, junto ao tripé mediúnico, o mesmo que foi usado pelas sacerdotisas de Apolo para dar oráculos em Delfos, enquanto o mar fustigava furiosamente a costa, foi que concebeu as suas grandes visões poéticas e sobrenaturais. Polemizou em verso com entidades invisíveis, com o que comprovou a existência do mundo dos espíritos.

O poeta sabia que o tripé era um instrumento mágico pelo qual a luz do mundo invisível pode vencer as trevas da terra. Sentia-se na Ilha de Jersey como João em Patmos, razão pela qual pode ser considerado como o fundador da Patmologia Espírita. Falou com o Espírito no meio do mar e escreveu um novo Apocalipse. Relacionou-se empregando a linguagem de Ronsard com Moliére e A Sombra do Sepulcro, duas elevadas personalidades mediúnicas.

O mar e a solidão acompanharam-no sempre e foram até os seus confidentes. Não obstante, aquela Ilha de Jersey tinha a virtude de povoar-se de entidades invisíveis que lhe falaram de liberdade, amor e recordações. A sua filha Leopoldina, desaparecida num naufrágio, se lhe fez presente por meio do tripé mediúnico e falou com a sua alma de modo terno.

O poeta sabia que os mortos não são devorados pelo abismo e que as distâncias metafísicas não podem alijá-los dos homens. Por isso, dizia: ''Devemos pedir justiça à morte, mas não devemos ser ingratos com ela. A morte não é, como se diz, uma queda nem uma emboscada''.

Proclamou, assim, que os mortos voltam. Resistia a aceitar um Além que impedia os espíritos desencarnados de comunicar-se com os homens. Aceitava, em troca, um mundo invisível comunicando-se com o visível; o invisível era para o poeta um templo repleto de presenças espirituais sempre dispostas a relacionar-se com a mente e o coração dos povos. Foi por isso que disse: "Os mortos são os invisíveis e não os ausentes".

A propósito, sustentava a tese de Allan Kardec, seu amigo nos caminhos da verdade, referente às ciências das manifestações espirituais. Participava destas importantes reflexões do destacado filósofo espírita: "Devemos pedir que os incrédulos nos provem, não por uma simples negativa, porque as suas opiniões pessoais não fazem lei, mas por razões lógicas, que isto não pode ser. Nós nos colocaremos sobre o seu terreno e, já que desejam apreciar os factos espíritas com a ajuda das leis da matéria, que tomem por conseguinte neste arsenal alguma demonstração matemática, física, química e fisiológica e provem por A mais B, partindo sempre do princípio da existência e sobrevivência da alma:

1°) Que o ser que pensa em nós durante a vida não pode pensar mais depois da morte.
2°) Que, se pensa, não deve pensar mais do que nos que amou.
3°) Que, se pensa naqueles que amou, não deve querer comunicar-se já com eles.
4°) Que, se pode estar em toda a parte, não pode estar ao nosso lado.
5°) Que, se está ao nosso lado, não pode comunicar-se connosco.
6°) Que, por seu envoltório fluídico, não pode agir sobre a matéria inerte.
7°) Que, se pode agir sobre a matéria inerte, não o pode sobre um ser animado.
8°) Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir a sua mão para fazê-lo escrever.
9°) Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder às suas perguntas e transmitir-lhe o seu pensamento.''

E Kardec concluiu dizendo: "Quando os adversários do Espiritismo nos demonstrarem que isto não pode ser, por razões tão patentes quanto aquelas pelas quais Galileu demonstrou que não é o Sol que gira à volta da Terra, então poderemos dizer que as suas dúvidas são fundadas".

Se precisássemos de uma definição para provar a qualidade de espírita de Victor Hugo, esta poderia ser: Ele foi o Isaías mediúnico maior da literatura romântica. Recorde-se que o romantismo de Hugo transcendeu as formas clássicas mediante uma transfiguração das coisas. Viu sempre em tudo um mundo invisível, quer dizer, um sustentáculo imaterial do mundo físico. Cantou a natureza com ritmos provenientes do mundo dos espíritos e pincelou poemas dedicados à alma do abismo, que falou por sua boca comovendo a literatura do seu tempo. "É necessário, mais do que nunca - dizia - ensinar aos homens o ideal, este espelho que reflecte o semblante de Deus! Poetas, filósofos, essa é a vossa obrigação''.

A sua presença era um convite ao transcendente. Tudo nele sugeria novos horizontes espirituais. Como Pedro Leroux, Saint Simón, José Mazzini, acreditava na reencarnação; por isso, a sua obra poética e filosófica está impregnada de um profundo lirismo palingenésico.

É curioso que a crítica não tenha reparado neste aspecto de sua produção, especialmente quando completou cento e cinquenta anos do seu nascimento. Com este motivo, Les Nouvelles Littéraires, reputado periódico literário de Paris, dedicou ao grande poeta francês o seu número 1277, de 21 de Fevereiro de 1952, no qual menciona com bastante discrição o Victor Hugo espírita.

Mas, apesar dessa reserva, a crítica reconhecerá um dia que o espírito de Victor Hugo, cósmico e profundo, se inspirou nas visões espirituais que o Espiritismo lhe sugeria. Dos poetas românticos, nenhum como ele compreendeu com tanta realidade o processo espiritual do homem e da história, chegando até Deus através de abismos e distâncias. Victor Hugo sustentava com fé poética e religiosa a palingenesia espiritual, de tudo o que existe.

A psicografia ou mediunidade da escrita secundava notavelmente o seu génio poético. Quando escrevia, dava-se conta de que a sua mão não lhe pertencia e que estava sob a influência de uma entidade lírica invisível. Porém, rebelava-se quando o seu génio era considerado pelos seus amigos exclusivamente mediúnico. Por isso, dizia: "Quando a obra parece sobrehumana, querem fazer intervir o extra-humano; antigamente era o tripé, nos nossos dias a mesinha. A mesinha não é outra coisa que a reaparição do tripé". Victor Hugo aceitava o mediúnico como uma "inspiração directa" do poeta, ou seja, que prescindia do veículo transmissor.

Todavia, Amado Nervo pensava diferente e para constatá-lo vejamos o que disse no seu poema Mediunidade:

Si mis rimas fuesen bel/as
enorgullecerme de ellas
no está bien,
pues nunca mías han sido
en realidad: ai oído
me las dieta ... ! no sei quién!
Y o no soy más que e/ acento
dei arpa que hiere el viento
veloz,
no soy más que el eco débil
de una voz ...
Quizás a través de mi
van despertando entre sí
dos almas llenas de amor,
en un misterioso estilo,
y yo no soy más que el hilo
conductor.

A esta declaração poética, Nervo ajuntou o seguinte: ''Grande número de poetas têm confessado o carácter mediúnico de sua inspiração. Alfredo de Musset diz: "On ne travaille pas: on écoute; c'est comme un iconnu qui parle á l'oreille". E Lamartine: "Ce n'est pas moi pense, ce son mes idées qui pensent pour moi".

E o nosso estranho Gutiérrez Nájera expressou com delicado acerto:

Y o no escriba mis versos; no los creo:
Viven dentro de mi, vienen de fuera:
A ése, travieso, lo formó e! deseo;
A aquél, lleno de luz, la primavera.

Suzanne Misset-Hopes (i), em importante estudo sobre o poeta, disse que multidões de diversas correntes e convicções sentem-se atraídas para recordar "o que se poderia chamar a mensagem de Victor Hugo, que se encontra numa obra magistral tecida de sombras e luzes, de mistérios e revelações, de inquisições e defesas". E mais: "Victor Hugo - todos sabemos - foi levado a sondar experimentalmente os grandes problemas do destino humano e a decifrar os segredos do além-túmulo e da harmonia cósmica por meio das "mesas falantes" de Jersey. Fez-se espírita e no seio de reuniões sobrenaturais tomou consciência da sua missão de profeta dos tempos que verão nascer uma nova ordem mundial, social e religiosa, baseado em leis fundamentais que regem a vida, leis que constituem os cimentos da verdadeira moral e cujo conhecimento solitário se comprova ser capaz de transformar a conduta dos homens em benefício de suas relações mútuas".

De facto, Victor Hugo foi o profeta que anunciou o advento de um novo espírito do mundo. Teve fé na justiça e na liberdade e afirmou os seus ideais de fraternidade universal. Lembre-se que o poeta imaginava os Estados Unidos da Europa sobre a base da união divina dos espíritos.

Vejamos como prossegue Suzanne Misset-Hopes: "Em toda a sua obra, particularmente na que criou no exílio, bastante impregnada dos contactos que nessa época teve com o Mais Além, deixa ver um ardente desejo de desprendimento das luzes espiritualistas de que se nutria a sua alma".

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(i) Ver o artigo Victor Hugo, Precursor, em Survie, setembro-outubro de 1952.


Humberto Mariotti, Victor Hugo Espírita, O exílio luminoso, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)