quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

a floresta ~


Alma humana… 

Ó alma humana! Torna a descer à Terra, recolhe-te; vira as páginas do grande livro aberto a todos os olhares; lê, nas camadas do solo que pisas, a história da lenta formação dos mundos, a acção das forças imensas preparando o globo para a vida das sociedades. 

Depois, escuta. Escuta as harmonias da Natureza, os ruídos misteriosos das florestas, os ecos dos montes e dos vales, o hino que a torrente murmura no silêncio da noite. Escuta a grande voz do mar! Por toda a parte retine o cântico dos seres e das coisas, a vida ruidosa, o queixume das Almas que sofrem ainda, qual se permanecessem aqui e, fazem esforços para se libertar da ganga material que as estreita. 

A floresta estende até ao horizonte longínquo as suas massas de verdura que estremecem sob a brisa e ondulam, de colina em colina. Através das espessas ramadas, a luz se escoa em louras estrias sobre os troncos das árvores e sobre os musgos; o sopro da brisa folga nas ramagens. O Outono junta a esses prestígios a simpatia das cores, desde o verde-amarelado até ao vermelho-rubro e ao ouro puro; matiza e cresta as moitas; amarela de ocre os castanheiros, de púrpuras as faias; aformoseia as urzes róseas das clareiras. Embrenhemo-nos sob a folhagem. À medida que avançamos, a floresta nos envolve com os seus eflúvios e o seu mistério. Aromas fecundos sobem do solo; as plantas exalam subtil perfume. Poderoso magnetismo se desprende das árvores gigantescas e nos penetra e nos inebria. Mais longe, raios dourados penetram a clareira e fazem brilhar os troncos das bétulas qual fossem as colunatas de um templo. Mais longe ainda, bosques sombrios aparecem cortados em linha recta por uma aleia que alonga, a perder de vista, as suas arcadas de verdura, semelhantes a abóbadas de catedral. Por toda a parte se abrem refúgios cheios de sombra e de silêncio, solidões profundas que inspiram uma espécie de emoção. Caminhamos aí sob espessas trevas, crivadas de gotas de sol. 

Aqui, uma faia venerável arredonda no flanco de um cabeço os seus folhudos zimbórios. Ali, são os carvalhos que inclinam sobre o espelho de uma lagoa as suas espessas ramagens. Uma árvore secular, patriarca dos bosques, respeitada pelo machado e, que três ou quatro homens não poderiam abraçar, eleva-se isolada, alta qual uma igreja. O raio a tem visitado várias vezes, conseguindo, apenas, quebrar-lhe os galhos, deixando-a sempre de pé, altiva e protectora. O seu pé intumesce de raízes monstruosas, alcatifadas de musgos; coleópteros, semelhantes a pedras preciosas, correm sobre a sua rugosa casca. 

Em triste solidão, diversos pinheiros expandem os seus fustes avermelhados e os seus galhos torcidos em forma de lira. Será um capricho da Natureza? O pinheiro é a árvore musical por excelência. As suas agulhas finas e maleáveis balançam ao vento cheias de carícias e cochichos. 

Como é bom perambular sob a sombra silenciosa e comovente dos grandes bosques, ao longo do límpido regato e dos apagados trilhos traçados pelos cabritos! Como é agradável estendermo-nos sobre o veludo das alfombras ou sobre o tapete dos fetos, na base de qualquer rochedo granítico, para seguir o carreiro dos escaravelhos dourados sobre as ervas, das lagartixas sobre as pedras e, prestar ouvidos aos alegres trinados dos passarinhos! Um mundo invisível se agita e freme em redor: concertos dos infinitamente pequenos acalentando o repouso da terra; insectos, em legiões, fazem a sua ronda a um raio de luz, ao mesmo tempo que do cimo de um álamo a toutinegra se faz ouvir em garganteios de pérolas. Aqui, tudo é gozo de viver e metamorfose fecunda! No seio de um ramalhete de árvores, a fonte jorra entre os rochedos; ela se espreguiça sobre um leito, de pedras, entre florinhas e campânulas, hortelãs bravas e salvas. Do sulco esculpido pelas águas, aonde vêm beber os passarinhos, a onda cristalina corre gota a gota e murmura docemente. Um grande pinheiro sombreia e protege a pequenina concha. O vento agita as suas agulhas, enquanto a fonte murmura a sua cantilena. Um raio de sol, deslizando pela ramagem, vem por mil reflexos faiscantes sobre a toalha límpida. No ar, libélulas dançam e folgam; bonitas moscas multicores zumbem ao cálice das flores. Na paisagem tranquila, a água corrente e murmurante é um símbolo da nossa vida, que surge nas profundezas obscuras do passado e foge, sem nunca parar, para o oceano dos destinos, aonde Deus a conduz para tarefas sempre mais altas, sempre novas. Pequena fonte, pequeno regato, amigo dos filósofos e dos pensadores, vós me falais da outra margem, para a qual eu me encaminho a cada segundo e, me recordais que tudo, em volta dos seres, é lição, ensinamento para quem sabe ver, auscultar e compreender a linguagem desses seres e de todas as coisas! 

Mas, de repente, o vento sul irrompe; um sopro poderoso passa sobre a floresta, que vibra qual um órgão imenso. Semelhante a uma onda de esmeraldas, o grande fluxo vegetal intumesce pouco a pouco, ondula e sussurra. Um coração invisível anima a solidão feraz. Os troncos gigantescos se torcem em longos gemidos. Clamores sobem das touceiras; dir-se-ia o rodar de carros ou de exércitos que se entrechocam. 

O carreiro ganha um planalto e serpenteia através de um bosque de castanheiros. Estas árvores centenárias tremem ao vento. Inclinando os seus galhos pesadamente carregados, elas parecem dizer ao homem: Colhe os meus frutos, nos quais destilei o suco da minha medula; guarda os meus galhos mortos, que no Inverno aquecerão o teu lar. Toma, porém, não sejas ingrato, nem indiferente, porque toda a Natureza trabalha para o teu proveito. Não sejas ingrato, senão as provações, as rudes lições da adversidade virão fatalmente atingir o teu coração, arrancar-te, cedo ou tarde, à tua indiferença, às tuas dúvidas, aos teus erros e orientar o teu pensamento para a compreensão da grande Lei! 

Imediatamente a impressão muda e se adoça. O vento se foi. A charneca sucedeu à floresta; os tojos, as alfazemas, as giestas fazem séquito à augusta assembleia dos bosques. Sobre uma elevação do solo, um alto monólito se levanta, no centro de um círculo de pedras, coberto de musgo, umas ainda de pé, outras jazendo na relva, contando a história das raças milenares, os seus sonhos, as suas tradições, as suas crenças. O espectáculo dessas pedras enigmáticas nos reconduz ao abismo dos tempos. Daí se origina a melancolia das coisas desaparecidas, enquanto que, em seu redor, a Natureza nos dá a sensação de mocidade eterna. 

Nas encostas, vales se abrem, declives se aprofundam. Sob moitas bastas e odoríferas, puras, frescas, surgem fontes; o seu murmúrio enche o vale. O dia declina. Através das gargantas, numa chanfradura azulada, o Sol projecta reflexos de púrpura e ouro. Alvores de incêndios aparecem na orla dos bosques. Atrás, sob os fogos do poente, a grande floresta zimborial expande os seus bosques gigantescos, os seus maciços cerrados, todo o sumptuoso e cativante vestuário de que o Outono o adornou. Os raios oblíquos do Sol perpassam entre as colunatas e vão iluminar as solidões longínquas; fazem sobressair às folhagens multicores; ruivos variados, ouros foscos, vermelhos brilhantes, cromos e lacas; tudo se ilumina, tudo flameja numa espécie de apoteose. Diante dessa fantástica decoração, que me fascina, na paz da tarde, o meu pensamento se exalta e eleva, sobe à Casa de tantas maravilhas, para glorificá-la! 

Tudo na floresta é encanto, quer na Primavera, quando as seivas potentes incham as suas mil artérias, quer quando os rebentos novos reverdecem fartamente, quer quando o Outono a decora de tintas ardentes, de cores prestigiosas, ou quando o Inverno a transforma num mágico palácio de cristal, que as sombrias ramadas moldam debaixo da neve, ou se carregam de pingentes diamantinos, transformando cada pinheiro em árvore de Natal. 

A floresta não é somente um maravilhoso espectáculo; é ainda um perpétuo ensinamento. Ela nos fala, sem cessar, das regras fortes, dos princípios augustos que regem toda a vida e, presidem à renovação dos seres e das estações. Aos tumultuosos, aos agitados, oferece os seus retiros profundos, propícios à reflexão. Aos impacientes, ávidos de gozo, diz que nada é duradouro, senão aquilo que custa trabalho e precisa tempo para germinar, para sair da sombra e subir para o céu. Aos violentos, aos impulsivos, opõe a vista de sua lenta evolução. Verte a calma nas almas enfebrecidas. Simpática às alegrias, compassiva às dores humanas, ela cura os corações chagados, consola, repousa e comunica, a todas as forças obscuras, as energias escondidas no seu seio. A lenda de Anteu é sempre aplicável aos feridos da existência, a todos aqueles que esgotaram as suas faculdades, as suas potências vitais nas ásperas lutas deste mundo. Basta-lhes porem-se em contacto com a Natureza, para encontrarem, na virtude secreta o que dela emana, recursos ilimitados. 

E que analogias, que lições em todas as coisas! A bolota, sob o seu invólucro modesto, contém não só um carvalho completo no seu majestoso desenvolvimento, mas uma floresta inteira. A semente minúscula encerra no seu garrido berço toda a flor, com a sua graça, as suas cores, os seus perfumes. De igual maneira, a Alma humana possui, em gérmen, todo o desenvolvimento das suas faculdades, das suas potências futuras. Se não tivéssemos sob os olhos o espectáculo das metamorfoses vegetais, nós nos recusaríamos a crê-lo. As fases de evolução das Almas no seu curso nos escapam e, não podemos compreender actualmente todo o esplendor do seu porvir. Temos, no entanto, um exemplo disso na pessoa desses génios, que passaram através da História deslumbrantemente, deixando aos pósteros obras imperecíveis. Tais são as alturas a que se podem elevar as Almas mais atrasadas na escada das vidas inumeráveis, com o auxílio destes dois factores essenciais: o tempo e o trabalho! 

Assim, a Natureza nos mostra, em toda a beleza da vida, o prémio do esforço paciente e corajoso e a imagem dos nossos destinos sem-fim. Ela nos diz que tudo está no seu lugar no Universo; mas também que tudo evolve e se transforma, Almas e coisas. A morte é apenas aparente; aos tristes Invernos, sucedem os dias primaveris, cheios de vida e de promessas. 

A lei de nossas existências não é diferente das estações. Depois dos dias de sol, do Verão, vem o Inverno da velhice e, com ele, a esperança dos renascimentos e de nova mocidade. A Natureza, tal qual os seres, ama e sofre. Por toda a parte, debaixo da onda de amor que transborda no Universo, encontra-se a corrente de dor; mas esta é salutar, pois que, purificando a sensibilidade do ser, desperta nele qualidades latentes de emoção, de ternura e, lhe proporciona, assim, um acréscimo de vida. 

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LÉON DENIS, O Grande Enigma, Segunda parte, O Livro da Natureza (2º fragmento), XI – A floresta (1 de 2). 
(imagem de contextualização: Head of Divine Vengeance, pintura de Pierre-Paul Prud'hon)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria II – O Céu ~  

A contemplação da Natureza oferece ao homem culto, sem lugar a contestação, inefáveis encantos particulares. Na organização dos seres descobre-se o incessante movimento dos átomos que os compõem, tanto quanto a permuta constante e operante entre todas as coisas. 

Justa é a nossa admiração por tudo o que vive na superfície da Terra. O mesmo calor solar, que mantém no estado líquido a água dos rios e dos mares, conduz a seiva à fronde das árvores e faz pulsar o coração dos abutres e das pombas. A luz que espalha a viço nos prados e nutre as plantas com um sopro impalpável também povoa a atmosfera de maravilhosas belezas aéreas. O som que estremece a folhagem canta na orla dos bosques, ruge nas plagas marinhas. Em tudo vemos, enfim, uma correlação de forças físicas, que abrange num mesmo sistema a totalidade da vida sob a comunhão das mesmas leis. Ora, quanto mais fervente for a nossa admiração pelo esplendor da vida planetária, mais extensiva e aplicável se tornará, em relação aos mundos que aí fulguram acima de nossas cabeças, no cenáculo das noites silenciosas. Esses mundos longínquos que, qual o nosso, se embalam no mesmo éter, sob o império das mesmas energias e das mesmas leis, são igualmente sedes de actividade e vida. Poderíamos apresentar este grandioso e magnífico espectáculo da vida universal como eloquente testemunho da inteligência, sabedoria e omnipotência da causa anónima, que houve por bem reverberar, dos primórdios da Criação, o seu mágico esplendor no espelho da Natureza criada. Mas, não é sob este prisma que desejamos aqui desdobrar o panorama das grandezas celestes. Apenas, para o teatro das leis que regem o nosso mundo, queremos convocar os negadores da inteligência criadora. 

Se, abrindo os olhos diante desse espectáculo, eles persistirem na sua negativa, já não teremos como nos eximir de responder-lhes, em consciência, que também duvidaremos das suas faculdades mentais. Porque, para falar com franqueza, a inteligência do Criador nos parece infinitamente mais curta e incontestável que a dos ateus franceses e estrangeiros. 

E, como o método positivo consiste em não julgar antes de observar os factos, ocorre-nos o dever de examinar primeiro os factos astronómicos de que falamos e depois da interpretação com que se satisfazem os nossos antagonistas. Se, depois disso, essa sua interpretação satisfizer, subscreveremos de antemão as suas doutrinas; mas, se, ao contrário, se revelar insensata, temos, como dever de honra e por amor à verdade, de a desmascarar e entregar ao apupo da plateia. 

Esqueçamos por momentos o átomo terrestre, no qual o destino nos fixou por alguns dias. Que o nosso espírito se lance ao espaço e veja rolar diante de si o mecanismo gigantesco – mundos e mundos, sistemas depois de sistemas, na infinita sucessão de universos estrelados. Ouçamos, com Pitágoras, as harmonias siderais nas amplas e céleres revoluções das esferas e contemplemos, na sua realidade, esses movimentos simultaneamente vertiginosos e regulares que enfeudam as terras celestes nas suas órbitas ideais. Observamos que a Lei suprema, universal, dirige esses mundos. Em torno do nosso sol, centro, foco luminoso, eléctrico, calorífico do sistema planetário, giram os planetas obedientes. Os mais extraordinários labores do espírito humano deram-nos a fórmula da lei, que se divide em três pontos fundamentais, conhecidos em Astronomia por leis de Kepler, laborioso sábio que a descobriu graças ao seu génio, como à sua paciência e, que discutiu opiniaticamente, 17 anos, as observações do seu mestre Tycho Braheantes que distinguisse sob o véu da matéria a força que a rege. 

Esses três pontos são: 

1º – Cada planeta descreve em torno do Sol uma órbita elíptica, na qual o centro do Sol ocupa sempre um dos focos. 

2º – As áreas (ou superfícies) descritas pelo raio vector (1) de um planeta em redor do foco solar são proporcionais aos tempos que levam a descrevê-las. 

3º – Os quadrados dos tempos de revolução planetária, em torno do Sol, são proporcionais aos cubos dos grandes eixos orbitários. 

A síntese dessas leis integra o grande axioma que Newton foi o primeiro a formular na sua obra imortal sobre os Princípios. 

Nesse livro, ensina-nos ele – como bem adverte Herschel – que todos os movimentos celestes são consequências da lei, isto é: – que duas moléculas materiais se atraem na razão directa do volume de suas massas e na inversa do quadrado das distâncias. Partindo deste princípio, ele explica como a atracção exercida entre as grandes massas esféricas, componentes do nosso sistema, é regulada por uma lei cuja expressão é exactamente idêntica, como os movimentos elípticos dos planetas à volta do Sol e dos satélites à volta dos planetas, tal como os determinou Képler, se deduzem consequentes necessários da mesma lei e, como as próprias órbitas dos cometas não são mais que casos particulares dos movimentos planetários. Passando em seguida às aplicações difíceis, faz-nos ver como as desigualdades tão complicadas do movimento lunar se prendem à acção perturbadora do Sol, assim como se originam as marés da desigualdade de atracção que esses dois astros exercem sobre a Terra e o oceano que a rodeia. E demonstra-nos, enfim, como também a precessão dos equinócios não passa de consequência necessária da mesma lei. 

Pois é à execução dessas leis que está confiada a harmonia do sistema planetário; é a elas que os mundos devem os seus anos, as suas estações, os seus dias; é nelas que haurem a luz e o calor distribuídos em diversos graus pela fonte cintilante; é delas que derivam a eclosão da vida, a forma e ornamento dos corpos celestes. Sob a acção incoercível dessas forças colossais, os mundos se transportam no espaço com a rapidez do relâmpago e percorrem centenas de mil léguas por dia, sem parar, seguindo estritamente a rota certa e previamente traçada por essas mesmas forças. 

Se nos fora dado libertar por um momento das aparências, sob cujo império nos acreditamos em repouso no centro do Universo e, se pudéramos abranger num olhar de conjunto os movimentos que animam todas as esferas, haveríamos de ficar surpreendidos com a imponência desses movimentos. Aos nossos olhos maravilhados, enormíssimos globos turbilhonariam rápidos sobre si mesmos, projectados no vácuo a toda a velocidade, quais gigantescas balas que uma força de projecção inimaginável houvesse enviado ao infinito. Admiramo-nos desses comboios ferroviários que devoram distâncias como dragões flamantes e, no entanto, os globos celestes mais volumosos que a nossa Terra deslocam-se com uma rapidez que ultrapassa a das locomotivas tanto quanto a destas ultrapassa a das tartarugas. A terra que habitamos, por exemplo, percorre o espaço com a velocidade de seiscentos e cinquenta mil léguas por dia. Rodeando esses mundos, veríamos satélites em circulação e a distâncias diferentes, mas adstritos e submissos às mesmas leis. E todas essas repúblicas flutuantes inclinam os pólos alternativamente para o calor e para a luz, a gravitarem sobre o próprio eixo, apresentando, cada manhã, os diferentes pontos de sua superfície ao beijo do astro-rei. Tiram, assim, da combinação própria dos seus movimentos, a renovação da beleza e da juventude; renovam a fecundidade no ciclo das primaveras, dos estios, dos outonos e dos invernos; coroam de grinaldas as montanhas onde o vento suspira; reflectem no espelho dos lagos a magia de suas paisagens; envolvem-se, às vezes, na lanugem atmosférica, fazendo dela um manto protector, ou transformando-a em cadinho retumbante de raios e granizos; desdobram por superfícies imensas a força das ondas oceânicas, que, também por si, se alteiam sob a atracção dos astros, qual seio ofegante; iluminam crepúsculos com os matizes policrómicos dos ocasos comburentes e fremem nos seus pólos às palpitações eléctricas despedidas dos leques de auroras boreais; geram, embalam e nutrem a multidão de seres que as povoam; e renovam o filão da vida desde as plantas fósseis, do passado, até ao homem que pensa e sonda o futuro. Todos esses mundos, todas essas moradas do espaço, departamentos da vida, nos apareceriam quais naves bussoladas, conduzindo através do oceano celeste tripulantes que não têm a temer escolhos nem imperícias de comando, nem falta de combustível, nem fome, nem tempestades. 

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(1) Assim se denomina a linha ideal que liga um planeta ao Sol. 


Camille Flammarion (i)Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria II – O Céu (1 de 3), 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Diálogos de Kardec

O PERISPÍRITO COMO PRINCÍPIO DAS MANIFESTAÇÕES ~


Os Espíritos, como já foi dito, têm um corpo 
fluídico, a que se dá o nome de perispírito. A sua substância é haurida do fluido universal ou cósmico, que o forma e alimenta, como o ar forma e alimenta o corpo material do homem. O perispírito é mais ou menos etéreo, conforme os mundos e o grau de depuração do Espírito. Nos mundos e nos Espíritos inferiores, ele é de natureza mais grosseira e se aproxima muito da matéria bruta. 

Durante a encarnação, o Espírito conserva o seu perispírito, sendo-lhe o corpo apenas um segundo envoltório mais grosseiro, mais resistente, apropriado aos fenómenos a que tem de prestar-se e do qual o Espírito se despoja por ocasião da morte. O perispírito serve de intermediário ao Espírito e ao corpo. É o órgão de transmissão de todas as sensações. Relativamente às que vêm do exterior, pode dizer-se que o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite e o Espírito, que é o ser sensível e inteligente, a recebe. Quando o acto é de iniciativa do Espírito, pode dizer-se que o Espírito quer, o perispírito transmite e o corpo executa. 

O perispírito não se encontra encerrado nos limites do corpo, como numa caixa. Pela sua natureza fluídica, ele é expansível, irradia para o exterior e forma, em torno do corpo, uma espécie de atmosfera que o pensamento e a força de vontade podem dilatar mais ou menos. Daí se segue que pessoas há que, sem estarem em contacto corporal, podem encontrar-se em contacto pelos seus perispíritos e permutar a seu mau grado impressões e, algumas vezes, pensamentos, por meio da intuição

Sendo um dos elementos constitutivos do homem, o perispírito desempenha importante papel em todos os fenómenos psicológicos e, até certo ponto, nos fenómenos fisiológicos e patológicos. Quando as ciências médicas tiverem na devida conta o elemento espiritual na economia do ser, terão dado um grande passo e horizontes inteiramente novos se lhes patentearão. As causas de muitas doenças serão a esse tempo descobertas e encontrados poderosos meios de combatê-las. 

Por meio do perispírito é que os Espíritos actuam sobre a matéria inerte e produzem os diversos fenómenos mediúnicos. A sua natureza etérea não é que a isso obstaria, pois se sabe que os mais poderosos motores se nos deparam nos fluidos mais rarefeitos e nos mais imponderáveis. Não há, pois, motivo de espanto quando, com esta alavanca, os Espíritos produzem certos efeitos físicos, tais como pancadas e ruídos de toda a espécie, levantamento, transporte ou lançamento de objectos. Para se explicarem estes factos, não há porque recorrer ao maravilhoso, nem ao sobrenatural. 

Actuando sobre a matéria, podem os Espíritos manifestar-se de muitas maneiras diferentes: por efeitos físicos, quais os ruídos e a movimentação de objectos; pela transmissão do pensamento, pela visão, pela audição, pela palavra, pelo tacto, pela escrita, pelo desenho, pela música, etc. Numa palavra, por todos os meios que sirvam a pô-los em comunicação com os homens. 

Podem ser espontâneas ou provocadas as manifestações dos Espíritos. As primeiras dão-se inopinadamente e de improviso. Produzem-se, muitas vezes, entre pessoas de todo estranhas às ideias espíritas. Nalguns casos e sob o império de certas circunstâncias, pode a vontade provocar as manifestações, sob a influência de pessoas dotadas, para tal efeito, de faculdades especiais. 

As manifestações espontâneas sempre se produziram, em todas as épocas e em todos os países. Sem dúvida, já na antiguidade se conhecia o meio de as provocar; mas, este meio constituía privilégio de certas castas que somente a raros iniciados o revelavam, sob condições rigorosas, escondendo-o ao vulgo, a fim de o dominar pelo prestígio de um poder oculto. Ele, contudo, se perpetuou, através das idades até aos nossos dias, entre alguns indivíduos, mas quase sempre desfigurado pela superstição, ou da mistura com as práticas ridículas da magia, o que contribuiu para o desacreditar. Nada mais foram até então senão gérmenes lançados aqui e ali. A Providência reservara para a nossa época o conhecimento completo e a vulgarização desses fenómenos, para os expurgar das ligas impuras e torná-los úteis ao melhoramento da Humanidade, madura agora para os compreender e lhes tirar as consequências. 

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ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos – I O PERISPÍRITO COMO PRINCÍPIO DAS MANIFESTAÇÕES, 10º fragmento solto desta obra. 
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Tratamento de vícios e perversões ~ 

A embriagues, a toxicodependência e o vício do jogo são os flagelos actuais do nosso mundo em fase aguda de transição. Cansados de recorrer sem proveito a internamentos hospitalares, as vítimas e as suas famílias acabam recorrendo ao Espiritismo e às diversas formas mágicas do sincretismo religioso afro-brasileiro. É comum fazer-se confusão entre essas formas de religião primitivas da África e o Espiritismo, em virtude de haver manifestações mediúnicas nos dois campos. Os sociólogos, que deviam ser minuciosos ao tratar desses problemas, carregam a maior parte da culpa desse equívoco. Estão naturalmente obrigados, pela própria metodologia científica, a distinguir com rigor um fenómeno social do outro, mas preferem a simplificação dos processos de pesquisa, que gera confusões lamentavelmente anticientíficas. 

A palavra Espiritismo, cunhada por Allan Kardec como um neologismo da língua francesa, na época, é uma denominação genésica da Doutrina Espírita. Nasceu das suas entranhas e só a ela se pode aplicar. Kardec rejeitou a denominação de Kardecismo, que os seus próprios colaboradores lhe sugeriram, explicando que a doutrina não era uma elaboração pessoal dele, mas o resultado das pesquisas e dos estudos das manifestações espíritas. Entrando em contacto com o mundo espiritual, em todas as suas camadas, Kardec recebeu dos Espíritos elevados os delineamentos da doutrina, mas não os aceitou de mão beijada. Submeteu essas comunicações do outro mundo a rigoroso processo de verificação experimental. Só aceitou como válido o que era provado pelas numerosas pesquisas incessantemente repetidas e confrontadas entre si. Para tanto, criou uma metodologia específica, pois entendia que os métodos devem ajustar-se à natureza específica do objecto submetido à pesquisa. Sem essa adequação seria impossível obterem-se resultados significativos. Escapava assim, aos fracassos iniciais da Psicologia Científica, que lutara em vão para enquadrar os fenómenos psicológicos na metodologia da Física e de outras disciplinas. 

As experiências de Wundt, Weber e Fechner, por exemplo, restritas a mensurações de intensidade, não iam além de explorações epidérmicas, pouco sugerindo sobre a natureza e o mecanismo dos fenómenos. Os fenómenos espíritas, que revelavam inteligência, não eram simples efeitos de processos biológicos e fisiológicos. Eram fenómenos muito mais complexos, que podiam provir da mente ou das entranhas humanas, mas também podiam ser produzidos por forças ainda não suficientemente conhecidas, como o magnetismo natural, a electricidade, energias e elementos procedentes de regiões ainda não devassadas da própria consciência humana. O inconsciente era ainda uma incógnita. Kardec o abordou quando Freud estava ainda na primeira infância. Kardec deu à Revista Espírita, órgão que fundou para divulgar os seus trabalhos e pesquisas de opinião, o subtítulo de Jornal de Estudos Psicológicos, provando já estar convencido de que enfrentava os problemas do psiquismo humano. Estava fundada a Ciência Espírita, que os cientistas da época rejeitaram, considerando que Kardec fugia da metodologia científica originada das proposições filosóficas de Bacon e DescartesA psicologia introspectiva, ainda apegada à matriz filosófica, atacou-a com a antecedência de meio-século com ataques dirigidos aos pioneiros da Psicologia Experimental. Essa é uma das glórias de Kardec, geralmente desconhecida. Mais tarde, Alfred Russel Wallace iria declarar que toda a psicologia não passa de um espiritismo rudimentar, glorificando Kardec. 

Charles Richetprémio Nobel de Fisiologia e fundador da Metapsíquica, discordante de Kardec, declarou no seu próprio Tratado de Metapsíquica que Kardec era quem mais havia contribuído para o aparecimento das novas ciências e lembrou que Kardec jamais fizera uma afirmação que não estivesse provada nas suas pesquisas. Depois desses sucessos no meio científico, numerosos e famosos cientistas se entregaram às pesquisas espíritas, alguns, como William Crookes, com o fim exclusivo de provar que os fenómenos espíritas não passavam de fraude. Após três anos de pesquisas, Crookes publicou os seus trabalhos, pondo-os ao lado do antigo adversário. Após a morte de Kardec, em 1869, Léon Denis o substituiu na direcção do movimento espírita mundial e, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que Kardec chamava de sociedade científica, ficou praticamente viúva. Mas as pesquisas prosseguiram no Instituto Metapsíquico, sob a direcção de Gustave Geley e Eugéne Osty, com grande proveito. Ao mesmo tempo, pesquisas continuavam a ser feitas em várias Universidades europeias, como a de Zöllner em Leipzig, as de Crookes em Londres, as de Ochorowicz na Polónia e assim por diante. A Ciência Espírita continuava a desenvolver-se. O Barão Von Schrenk-Notzing fundou em Berlim o primeiro laboratório de pesquisas espíritas do mundo, procedeu a valiosa série de pesquisas sobre o ectoplasma, com o auxílio de Madame Bisson. Após a primeira Guerra Mundial a Ciência Espírita continuava combatida, mas activa. Mas a guerra desencadeara no mundo as ambições e interesses materiais, deixando exígua margem para o interesse espiritual. Só agora ressurge na França, com André Dumas, uma instituição de estudos e pesquisas espíritas. A Revista Renaitre 2.000, dirigida por Dumas, substitui a Revue Spirite de Kardec. 

Este breve escorço do aparecimento e desenvolvimento da Ciência Espírita prova a sua vitalidade, apesar das campanhas incessantes e sistemáticas movidas contra ela. Em todos os grandes centros universitários do mundo as pesquisas espíritas prosseguem com resultados positivos. Nenhum princípio da doutrina foi sequer abalado pelas novas descobertas verificadas em quaisquer dos ramos da investigação. Pelo contrário, os postulados básicos do Espiritismo se comprovaram, confirmando a posição avançada da Ciência Espírita e da Filosofia Espírita perante a cultura actual. Isso representa, para a Terapia Espírita, uma base de segurança inegável para o desenvolvimento dos seus processos de cura. O que hoje se chama, na Europa, de cura paranormal, não é mais do que a cura espírita revestida ou fantasiada de novidades superficiais. 

No difícil e geralmente falho tratamento das viciações, o principal é a integridade moral dos terapeutas. Os viciados não são apenas portadores de vícios, mas também de cargas de influências psíquicas negativas provenientes de entidades espirituais inferiores que a eles se apegam para vampirizar-lhes as energias e as excitações do vício. As pesquisas parapsicológicas provam a existência desses processos de vampirismo espiritual, que na verdade são apenas a contrafacção no após morte dos processos de vampirismo entre os vivos. Nas relações humanas, quer sejam entre encarnados ou desencarnados, sempre existem os que se tornam parasitárias de outras pessoas. Não há nisso nenhum mistério, nem se trata de acções diabólicas. Em toda a Natureza a vampirização é uma constante que vai do reino mineral ao humano. A cura depende, em primeiro lugar, da vontade da vítima em se livrar do perseguidor. As intenções deste nem sempre são maldosas. Ele procura o amigo ou conhecido encarnado que era o seu companheiro de vício e o estimula na prática para obter assim os elementos de que necessita na sua condição de desencarnado. Obtém a satisfação por indução. Ligando-se mental e psiquicamente ao ex-companheiro, pode haurir as suas emanações alcoólicas ou as drogas psicotrópicas de que se servia antes da morte. De outras vezes o espírito vampiresco se serve de alguém que, não sendo viciado, revela tendências para o vício e o leva facilmente para a viciação. 

A terapia espírita consiste, nesses casos, num processo oral de persuasão, conhecido como doutrinação. Conseguindo-se levar o espírito vampiro e a sua vítima a se convencerem da necessidade e da conveniência de abandonarem o vício, ambos se curam. A doutrinação distingue-se profundamente do exorcismo por ser um processo racional e persuasivo e não pautado pela violência. A terapia espírita parte da compreensão de que ambos, o vampiro e a vítima, são criaturas humanas necessitadas de socorro e orientação. Essa posição favorece o tratamento, que ao invés de provocar reacções de indignação do espírito tratado como diabólico, lhe provoca a razão e o sentimento de sua dignidade humana e lhe mostra as possibilidades de uma situação feliz na vida espiritual. Submetido às reuniões de preces, passes e doutrinação, os dois espíritos, o desencarnado e o encarnado, são tratados com a assistência das entidades espirituais encarregadas desse trabalho amoroso. Kardec acentuou a necessidade de boas condições morais das pessoas que se dedicam a esse trabalho, pois só a moralidade do doutrinador exerce influência sobre os espíritos. Toda a pretensão de afastar o espírito vampiresco pela violência só servirá para irritá-lo e complicar o caso. A boa intenção do doutrinador para com o vampiro e a vítima, a sua atitude amorosa para com ambos, é factor importante para o êxito do trabalho. A formação de correntes de mãos dadas em torno do paciente. O uso de defumadores e outros artifícios semelhantes e, qualquer outra forma de encenação material são simplesmente inúteis e prejudiciais. O imprudente que gritar com o espírito, dando-lhe ordens negativas, arrisca-se a prejudicar o trabalho e chamar sobre si a indignação do espírito ofendido. O clima dos trabalhos deve ser de paz, compreensão, amor e confiança nas possibilidades de recuperação das criaturas humanas. Nenhum espírito tem a destinação do mal. Todos se destinam ao bem e acabarão modificando-se pelos seus próprios impulsos de transcendência. 

/… 


José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Tratamento de Vícios e Perversões (1 de 2), 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, pintura de Caspar David Friedrich)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

pensamento e vontade ~


Ideoplastia ~
 
(II

Por sua vez, a srta. Felicia Scatcherd assim se refere à atitude do ectoplasma, no decurso de uma das suas numerosas sessões: 

“Almoçamos com Marta (Eva C...) e, quando terminamos o almoço, ela manifestou o desejo de me proporcionar uma sessão. Resistia-lhe ao propósito, com receio de a fatigar, mas, foi por sua insistência, que a Sra. Bisson acabou intervindo e opinando que seria melhor não lhe contrariar os desejos. Iniciado o trabalho, a médium caiu logo em profundo transe, cabeça pendida para trás, de modo que nada lhe seria possível perceber na sua frente, ainda que acordada estivesse. Abertas ficaram as cortinas do gabinete mediúnico, cuja luz baixamos um pouco. Ainda estávamos a conversar, quando, de repente, vimos aparecer no chão abundante massa de substância, a cerca de 18 polegadas de distante e à esquerda da cadeira da médium. 

Essa substância era de alvura extraordinária e ligeiramente luminosa. 

Para comigo, pensei: “Como se pode produzir semelhante coisa? Quem sabe se essa substância está ligada à médium?” 

E o controle da médium logo respondeu à minha pergunta mental, dizendo: “Não há ligações quaisquer; pode passar a mão entre a substância e o corpo da médium.” 

Assim fiz, sem inconvenientes. 

Depois, coloquei um lenço branco, perfeitamente limpo, ao lado da substância, a fim de lhe avaliar a alvura e verifiquei que o lenço me parecia antes cinzento, comparado com a substância misteriosa. 

Coloquei-me, depois, de modo a poder tocar a substância sem ser vista, mas, quando estava a ponto de o fazer, todo o corpo da médium se contorceu em convulsivo espasmo e, o controle exclamou: 

– “Não me toque, não me toque, porque me mataria!” 

Arrependida da tentativa inconsiderada, humildemente procurei desculpar-me. 

Todavia, mais tarde, espontaneamente me autorizaram esse toque e, assim constatei que essa substância oferece certa resistência ao tacto, comparável à clara de ovo

E quanto à sua temperatura, pareceu-me um pouco inferior à do ambiente em que nos encontrávamos. 

Seria interessante pesar essa substância, disse eu à Sra. Bisson, mas compreendo, ao mesmo tempo, que se nos torna impossível fazê-lo, uma vez que o seu manuseio pode prejudicar a médium. 

Sorriu-se a Sra. Bisson e, dirigindo-se à filha, pediu-lhe que fosse à cozinha buscar uma balança. 

Entretanto, a mágica substância alongou-se, tomou a forma de um réptil, donde, concluo houvesse compreendido o que dela pretendíamos. 

Chegada a balança, foi-me dado experimentar uma das mais fortes emoções da minha vida

É que a substância, qual serpente que se levantasse sobre a cauda, viera colocar-se num dos pratos da balança, que estava sobre um pedestal, à altura de 28 centímetros do chão. 

E ali permaneceu todo o tempo necessário à verificação do seu peso, por mim julgado levíssimo, em relação ao volume. 

Serpeando depois para trás, deixou o prato e baixou ao soalho, para retomar o primitivo aspecto informe. 

Depois, enquanto a observava, sumiu-se. Não se retraiu, não se dissolveu; simplesmente – desapareceu.” (Light, 1921, págs. 809-810). 

Seria inútil perdermo-nos em conjecturas sobre a natureza dessa substância viva, sensível, inteligente, capaz de aparecer e desaparecer num relâmpago, pois isso equivaleria a pretendermos explicar o mistério da vida, que é segredo de Deus. 

Contentemo-nos em registar o que ressalta da nossa mentalidade finita, à qual não é lícito ultrapassar as leis reguladoras dos fenómenos. 

Limitar-me-ei, portanto, a anotar que, neste caso, tudo contribui para demonstrar que a substância viva, exteriorizada, obedece à vontade do subconsciente do médium

Daí, importa inferir que, da mesma forma pela qual, graças à vontade do médium, essa substância consegue moldar-se à forma de réptil para alçar-se a balanças e deixar-se pesar, assim também, noutras circunstâncias, ela consegue moldar semblantes humanos, conhecidos do médium, como a demonstrar que o pensamento e a vontade subconscientes são, precisamente, forças plásticas e organizadoras. 

Mas isto não é tudo, porquanto, ensinando-nos outras experiências que, muitas vezes, os semblantes materializados são desconhecidos do médium, embora o sejam dos assistentes, conclui-se que a substância viva é capaz de obedecer à vontade subconsciente de terceiras pessoas presentes, ou de lhes sofrer a influência, através do médium. 

Finalmente, como noutras circunstâncias ocorrem, nas quais as formas materializadas, vivas e falantes, são pessoas já falecidas e desconhecidas do médium e dos assistentes, devemos deduzir que a substância viva exteriorizada é susceptível de obedecer a entidades espirituais de desencarnados, ou – o que vem a dar no mesmo – de sofrer-lhes as influências através do médium. 

Posto isto, convém nunca perder de vista as conclusões expostas, mediante as quais constatamos que, se é verdade que a substância viva, exteriorizada, obedece a uma força organizadora inerente ao pensamento e vontade humana, também é verdade que tais – pensamento e vontade – não pertencem exclusivamente à personalidade integral subconsciente do médiummas provêm, algumas vezes, dos experimentadores e, muitas outras vezes, de entidades espirituais, de criaturas falecidas. 

Desta terceira categoria de manifestações não me ocuparei, visto que o tema aqui versado se prende aos casos em que a vontade organizadora é a do médium e dos assistentes, ou seja, dos vivos. 

Resta-me, apenas, passar em revista alguns casos mais importantes desse género. 

Começo por assinalar um fenómeno curioso, contra a realização do qual importa saibam prevenir-se os experimentadores. 

Esse fenómeno decorre da ductilidade com a qual a mentalidade subconsciente do médium de materializações absorve as ideias nitidamente definidas, formuladas verbal e mesmo mentalmente pelos experimentadores e pelos circunstantes. 

Assim se constata que, se o experimentador imagina uma teoria a priori, mais ou menos mecânica e mediante a qual se opera um dado fenómeno físico, vê-la-á confirmada a posteriori

Terá ele, então, a ilusão de haver sido instruído da verdade, quando realmente mais não fez que sugestionar o médium, predispondo-o a reproduzir, com a substância ectoplásmica, o modelo concreto da sua própria teoria. 

Assim, por exemplo, o Dr. Crawford, professor de mecânica psíquica, tendo imaginado a priori que as levitações da mesa se davam graças a uma “alavanca fluídica” que, saindo do organismo do médium, descia até ao chão para distender-se depois em braço vertical que tocasse o fundo da mesa e a levantasse, teve a surpresa de verificar que as provas fotográficas dessas levitações lhe davam absoluta razão, isto é: a tal “alavanca fluídica” existia, de facto, constituída pela forma imaginada. 

Mas, essa verificação de um facto não significava de modo nenhum que as levitações de mesa, em geral, se operassem dessa maneira, pois na verdade era a vontade subconsciente do médium que, tendo agasalhado a sugestão verbal de Crawford, lhe proporcionara docilmente a “alavanca” por ele pressuposta. 

Esta explicação do fenómeno em apreço já ninguém mais recusa, nem dela duvida. 

Dá-se, em suma, com as materializações, a mesma coisa que já se dera com o hipnotismo, a respeito do qual os primeiros investigadores científicos, inclusive o eminente Charcot, tinham nitidamente formulado, baseando-se em factos, as leis da sugestão e as fases específicas do sono letárgico e cataléptico dos pacientes; leis e fases que, na realidade, mais não eram que a consequência sugestiva das ideias teóricas preconcebidas pelos diferentes hipnotizadores. 

É o que observamos actualmente a propósito do polimorfismo da substância ectoplásmica exteriorizada, que pode por sugestão ou auto-sugestão revestir todas as formas imagináveis. 

Daí resulta que os experimentadores devem manter-se em condições mentais absolutamente neutras, no que toca às modalidades das representações materializadas, deixando aos processos científicos da análise comparada e da convergência das provas a tarefa difícil de esclarecer o grande mistério. 

/… 


Ernesto BozzanoPensamento e Vontade – Ideoplastia (2 de 3), 10º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgard Maxence)

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Alfred Russel Wallace e o Sobrenatural ~


IX – Os ensinamentos morais do espiritualismo ~ 

Agora temos que considerar se esta vasta série de fenómenos que nos fazem entrar em comunicação com seres que passaram para uma outra fase da existência, nos ensina algo que possa tornar-nos pessoas mais sábias e melhores. Eu pessoalmente acredito que sim e, me esforçarei, tão brevemente quanto possível, em apresentar o que são as doutrinas do espiritualismo moderno. 

A hipótese do espiritualismo não apenas considera todos os factos (e é a única que o faz), mas vai ainda mais longe pela sua associação com uma teoria do futuro estado da existência, que é o único que alguém já deu ao mundo em condições de ser confiado ao pensamento filosófico moderno. Há uma concordância geral e um tom de harmonia na quantidade de factos e comunicações chamadas ‘espirituais’, que têm levado ao crescimento de uma nova literatura e ao estabelecimento de uma nova religião. As principais indicações desta doutrina são, que, após a morte, o espírito humano sobrevive num corpo etéreo, dotado de novas capacidades, mas sendo mental e moralmente o mesmo indivíduo que era quando vestido de carne; que ele inicia, a partir de certo momento, um curso de progressão aparentemente sem fim, cuja velocidade está na medida que as suas faculdades mentais e morais são exercitadas e cultivadas enquanto se encontra na Terra; que as suas alegrias ou as suas misérias relativas irão depender inteiramente dele mesmo. Apenas na medida em que as suas faculdades humanas superiores fizeram parte dos seus prazeres aqui, ele irá encontrar-se contente e feliz num estado de existência no qual estes terão o mais completo exercício. Aquele que dependeu mais do corpo que da mente para os seus prazeres irá, quando aquele corpo não existir mais, sentir um desejo angustiante e, necessitará desenvolver vagarosa e dolorosamente a sua natureza intelectual e moral até que este exercício se torne fácil e prazeroso. Nem punições nem recompensas são distribuídas por um poder externo, mas a condição de cada um é a sequência natural e inevitável da sua condição aqui. Ele começa novamente do nível do desenvolvimento moral e intelectual que atingiu quando estava na Terra. 

Temos aqui um suplemento notável para as doutrinas da ciência moderna. O mundo orgânico foi levado a um alto estado de desenvolvimento e sempre mantido em harmonia com as forças da natureza externa pela grande lei da "sobrevivência do mais adaptado" actuando sobre organizações em estado de variação contínua. No mundo espiritual, a lei da "progressão do mais adaptado" ocupa o seu lugar e traz consigo uma ininterrupta continuidade do desenvolvimento da mente humana aqui começado. 

A comunhão do espírito com o espírito se dá pela leitura de pensamentos, pela afinidade e, é perfeita entre aqueles cujos seres estão em harmonia uns com os outros. Aqueles que diferem amplamente possuem pouco ou nenhum poder de intercomunhão e desta forma são constituídas ‘esferas’, que são divisões, não meramente de espaço, mas de organizações sociais e morais afins. Os espíritos das esferas superiores podem se comunicar e, o fazem algumas vezes, com aqueles duma esfera inferior, mas estes últimos não podem comunicar-se com os que se encontram acima. Há para todos um progresso eterno, um progresso que depende apenas do desenvolvimento da natureza espiritual pelo poder da vontade. Não há espíritos do mal, mas espíritos de homens maus e, até os piores estão certamente em progresso, ainda que lentamente. A vida nas esferas superiores possui belezas e prazeres que não somos capazes de imaginar. As ideias de beleza e poder são percebidas por meio da vontade e, o cosmos infinito se torna um campo onde os maiores desenvolvimentos do intelecto se podem estender pela aquisição do conhecimento sem limites. 

Pode pensar-se, talvez, que estou apenas a dizer o meu ideal de um estado futuro, mas não é isso. Toda a afirmação que fiz é derivada daquelas fontes desprezadas, a mesa girante (rapping table), a mão que escreve ou o médium que fala em transe. E para mostrar que não estou apreciando as ideias em si ou a maneira pela qual elas nos são transmitidas, adiciono alguns pequenos extractos de comunicações de uma das mais bem dotadas "médium de transe", a senhorita Emma Hardinge, agora senhora Hardinge-Brinca. 

Nas suas comunicações sobre o Hades, (*) ela recapitula a sua descrição do nosso progresso através das esferas: 

Da natureza destas esferas e dos seus habitantes, temos falado do conhecimento dos espíritos que ainda estão no Hades. Você teria alguma definição imediata da sua própria condição e aprenderia como vivê-la, quais deveriam ser as suas roupas, qual seria a sua mansão, cenário, propriedade e ocupações? Volte os seus olhos para si mesmo e pergunte o que aprendeu e o que fez nesta escola para as esferas do mundo dos espíritos. Então, há uma aristocracia e até uma escala real e graus de variação, mas a aristocracia é a do mérito e a realeza, a da alma. São apenas os homens verdadeiramente sábios que governam e, como a alma mais sábia é a melhor e, como a maior sabedoria é a do maior amor, logo a realeza da alma é a da verdade e do amor. No mundo do espírito, todo o conhecimento da Terra, todas as formas da ciência, todas as revelações da arte, todos os mistérios do espaço devem ser entendidos. A alma enaltecida está, então, amplamente pronta para a sua partida para um estado superior ao Hades, precisa conhecer tudo o que a Terra pode ensinar e ter praticado tudo o que o Céu requer. O espírito nunca deixa as esferas da Terra antes de possuir completamente toda a vida e o conhecimento deste planeta e das suas esferas. E embora o progresso se possa ter iniciado aqui e, nenhuma anotação daquilo que aprendeu, ou pensou, ou do que se esforçou por fazer é perdido aqui: todas as realizações serão finalizadas aqui, e nenhuma alma pode fazer o voo para o qual é chamada pela sua perfeição, ao Céu, até que tenha passado pela Terra e pelo Hades e, permaneça pronta essa sua completa peregrinação para entrar nas novas e indescritíveis glórias das esferas celestiais do além. 

Poderia o filósofo ou o homem de ciência pintar para si um ideal de estado futuro mais perfeito que este? Isto não se lhe impõe, como o que ele poderia desejar, se ele pudesse, por meio deste desejo, formar o seu próprio futuro? Pois este é o ensinamento do que ele rejeita por impostura ou trata por ilusão - como truques de trapaceiro ou delírios de louco: o espiritualismo moderno. Cito outra passagem da mesma fonte e, pediria aos meus leitores para que comparem a modéstia do primeiro parágrafo com a pretensão de infalibilidade usualmente utilizada pelos professores de novos credos ou de novas filosofias

/... 
(*) Nota da editora: O Hades, segundo os antigos gregos, seria a região do mundo espiritual para onde iriam os homens ainda em processo de evolução, de onde retornariam à terra para novas experiências na carne. Esse processo se renovaria por alternados períodos na Terra e no Hades, até que o espírito atingisse a perfeição, quando finalmente habitaria os Campos Elísios. É impressionante a semelhança da crença dos antigos gregos com os ensinamentos do espiritismo. 


Alfred Russel WallaceO Aspecto Científico Sobrenatural, IX – Os ensinamentos morais do espiritualismo (1 de 3), 7º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sob painel, detalhe, de Edgard Maxence) 

domingo, 7 de novembro de 2021

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


O País de Gales. A Escócia. A obra dos bardos ~ 

Era uma terra importante, austera e imponente, a do País de Gales, antes que a indústria moderna a tivesse coberto de chaminés das usinas, perfurado por inúmeras bocas de minas e obscurecido o seu céu com espessa fumaça. Hoje ainda podem ser notados os resíduos da acção das forças subterrâneas que esculpiram as suas colinas, alteraram as suas montanhas, como aquela de Snowdon esse monte sagrado que domina toda a região, ultrapassa mil metros de altura e cuja origem vulcânica é evidente. 

Em todos os lugares, magmas de lavas e de pórfiro se alternam com as rochas e terrenos eruptivos, formando camadas em desordem que a Geologia designa pelo nome de cambrianas, que foi o nome primitivo da região. 

No relevo das suas montanhas, Gales do Norte reúne a graça dos vales e a abundância das torrentes. 

A Escócia também conheceu e conservou restos de manifestações dessa potência que ergueu cumes abruptos. Foi ela que levantou essas muralhas de granito, de basalto, de pórfiro, marginais ao canal caledónio e se prolongam até à costa da Irlanda sob a forma de colunata imensa, conhecida sob o nome de Calçadados Gigantes

A Escócia tem, além disso, a poesia, a beleza triste e severa dos seus lagos, dos seus pantanais e dos seus planaltos solitários, semeados de urzes róseas e de musgos de todas as cores. 

A parte norte é encrespada de picos, sempre envolvidos de neblina, mas tão imponentes quando se tingem de púrpura, no crepúsculo, ou de raios esbranquiçados da Lua. 

Acrescentemos as penínsulas escarpadas que se prolongam ao longe no mar, os promontórios incessantemente batidos pelas ondas e, se terá uma ideia dessa natureza formidável onde se ramifica a cadeia mestra que serve de coluna vertebral à Grã-Bretanha. 

Uma longa guirlanda de ilhas contém as chamadas Terras Altas da Escócia, e uma delas, Staffa, possui a célebre grutade Fingall, semelhante a um templo e, onde cada dia a maré crescente executa a sua cantiga queixosa. A raça dócil e forte que se adaptou a esses países parece ter bebido neles, na sua natureza grandiosa, as qualidades viris que a distinguem e, principalmente, toda essa vontade firme que, através dos tempos de provas, conserva, apesar de tudo, a esperança de uma renascença e de uma vida eterna

A causa desse fenómeno nos é revelada pelo espírito Allan Kardec numa das mensagens que publicamos adiante. Ele provém da corrente céltica que, desde os tempos primitivos, se estendeu no nordeste da Europa, impregnando profundamente o seu solo, e de onde o seu magnetismo atingiu os habitantes e, pouco a pouco, as gerações que ali se sucederam. 

É preciso notar, com efeito, que os ingleses e os saxões que vieram do leste possuem um carácter bem diferente, mais positivo e prático, menos inclinado para o ideal. Se, por excepção, se encontram entre eles naturezas mais idealistas, é raro que elas não se liguem por laços anteriores a alguma origem céltica. Tais são, por exemplo, Conan DoyleBernard Shaw e tantos outros, que, por mais ingleses que sejam, pela cultura e pela língua, não provêm menos de um tronco irlandês. 

Apesar das longas, das eternas perseguições, os anglo-saxões nunca conseguiram domar o sentimento nacional, o carácter étnico dos galeses e dos escoceses. Bem longe de os assimilar, eles foram, isso sim, assimilados pelos anglo-saxões, cada vez que entraram em contacto permanente. É assim que os operários ingleses, atraídos ao País de Gales pela indústria mineira, adoptaram rapidamente os hábitos e mesmo a língua desse país. 

Graças à sua energia persistente, o Principado de Gales soube guardar a sua autonomia administrativa, assim como as grandes franquias para as suas escolas, colégios e universidades e, até mesmo para a sua igreja nacional. Ele conservou a sua língua e a sua literatura, de tal modo que a cidade de Cardiff e o condado de Glamorgan se tornaram os focos mais intensos da propaganda céltica, onde se imprimem e se publicam todas as obras dos bardos antigos e modernos. 

Dali partiu o primeiro sinal do movimento pancéltico que reúne, todos os anos, delegados vindos de todos os pontos do horizonte para confraternizar num mesmo espírito e num mesmo coração. 

Se a força vital de um povo é a sua alma, fé na justiça imanente e num Além compensador, pode dizer-se que os galeses estão de tal sorte impregnados por ela que a sua convicção recai sobre todo o seu estado moral e social. Com efeito, nota-se ali uma coisa bastante rara na França: é que os tribunais frequentemente não entram em função por não haver acusados nem culpados para julgar. 

O alcoolismo, esse flagelo dos países célticos, ali também está em decréscimo. Encontram-se esses mesmos factos na Escócia, em grau menor. 

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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO III – O País de Gales. A Escócia. A obra dos bardos (1 de 3), 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, OssianDesaixKléberMarceauHocheChampionnet, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)