terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

pensamento espírita argentino ~

CAPÍTULO I

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história ~

Que somos? (VI)

Os casos de dupla personalidade ou alotrópicos, dos quais temos feito menção, oferecem ao psicólogo livre de preconceitos elementos de reflexão e conduzem logicamente a buscar no perispírito a explicação científica dos ditos fenómenos, encontrando-se estes na função de mediadores plásticos e estruturais das formas específicas e da personalidade característica de cada ser, o receptáculo ou arquivo da memória subconsciente, onde o espírito regista e conserva indelevelmente a memória integral do seu passado e dos conhecimentos adquiridos por meio das mudanças de personalidade durante as suas múltiplas existências.

Tem-se pretendido explicar os fenómenos de dupla personalidade, como já dissemos, pela hipótese da dualidade cerebral, hipótese pouco feliz e que não prosperou, porque os factos, muitos deles, pelo menos, se encarregaram de destruí-la, como veremos mais adiante.

Quis explicar-se também esses fenómenos considerando-os como simples casos de amnésia, quando, a rigor, se trata de fenómenos de criptomnésia – de uma categoria superior aos classificados por este nome pelo professor Charles Richet – de uma criptomnésia ou memória oculta em que as lembranças arquivadas na subconsciência (conceito espírita) afloram à consciência e se alternam periodicamente na memória ordinária.

Na linguagem empírico-psicológica: um sujeito que se desdobra é um “psicopata”, um doente, amiúde, um histérico. A histeria o elucida, ainda que para isso tivesse que começar dando a estes uma explicação verdadeiramente científica, de que carecem; pois não é possível explicar um fenómeno desconhecido por outro de origem também desconhecida.

Esta última explicação é também aquela que alguns psiquiatras dão aos fenómenos metapsíquicos ou espíritas em geral, os quais, diga-se, escapam ao domínio da sua especialidade por mais que a ignorância dos profanos pretenda erigi-los em autoridades nesta matéria, sem que a tenham estudado e aprofundado, como disciplina científica, ainda que até certo ponto tenham relação com a ciência de sua especialidade.

Todas as pessoas ilustradas nesta matéria sabem que quando os médicos psiquiatras quiseram explicar os fenómenos metapsíquicos ou espíritas pela psicopatologia, fracassaram irremediavelmente.

Se os estados patológicos fossem capazes de produzir fenómenos tão maravilhosos como os enunciados, declarar-se-ia que a enfermidade, em tais casos, é superior à saúde e que o anormal (psíquica e mentalmente considerado) é mais normal, tem mais ciência e mais consciência que o supranormal e em tal caso ter-se-ia que eliminar a acção terapêutica da medicina psiquiátrica, por considerá-la contrária às manifestações de ordem psíquico-superior e às investigações da ciência metapsíquica e espírita.

Não há que se estranhar a atitude avessa com que certos cientistas tratam os fenómenos do Espiritismo, fazendo-os passar por produto da psicose ou morbidez dos médiuns.

Acaso não há aqueles que afirmam temporariamente que a tuberculose e a tísica aguçam a inteligência e desenvolvem a sensibilidade artística, que o talento e o génio são derivados do artritismo, ou afirmam, seguindo as elucubrações pseudo-científicas do doutor Chabaniex, que a “auto-intoxicação” e a enfermidade são um “fermento de criação” inteligente, quando não são em si mesmas uma verdadeira criação e chegam ao cúmulo da temeridade científica afirmando com o doutor Pascal Perp e os seus seguidores que a causa produtora do génio é a “sífilis hereditária”?

Certo é que o eminente psiquiatra Lombroso não mais sustentasse nos seus últimos anos, depois das suas célebres experiências no fenomenismo espírita, a teoria anti-científica que confunde o génio com a loucura, nem houvesse escrito as páginas (das quais teve que se envergonhar mais tarde) nas quais colocava os médiuns e os espíritas na categoria de loucos e anormais; e é certo também que o nosso sábio Ingenieros, tendo vivido alguns anos mais (já engajado na corrente metapsíquica), se arrependeu de ter estabelecido uma triste semelhança entre a loucura genial de Nietzsche e a loucura genial de Jesus, nem tivesse sustentado a afirmação positivo-materialista de que já “não há alma”, considerada como uma entidade “real ou espiritual”, que a alma é uma função-adjunta no curso da evolução biológica.

/…


Manuel S. Porteiro (i)Espiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (VI), 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

a terceira revelação | os média ~

Sendo as duas primeiras revelações produto de um ensinamento pessoal, foram forçosamente localizadas. Isso quer dizer que tiveram lugar num só ponto, à volta do qual a ideia se foi expandindo de uns para os outros; mas foram precisos muitos séculos para que atingissem os extremos do mundo, mesmo sem o invadirem por completo.

A terceira tem isso de particular; não sendo personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diferentes e todos se tornaram centros ou focos de irradiação. Ao multiplicarem-se estes centros, a sua radiação une-se a pouco e pouco, como os círculos formados por uma quantidade de pedras atiradas à água; de tal maneira que, em determinada altura, acabarão por cobrir a superfície total do globo.

É esta uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se tivesse surgido num só ponto, se tivesse sido obra exclusiva de um homem, teria formado uma seita à sua volta; mas meio século teria talvez decorrido antes de ter atingido os limites do país onde tivesse nascido, enquanto que assim, dez anos depois, tem rebentos implantados de um pólo ao outro. Esta circunstância, espantosa na história das doutrinas, confere a esta uma força excepcional e uma força de acção irresistível; com efeito, se a comprimirmos num ponto, num país, é materialmente impossível comprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Por cada sítio onde seja reprimida, haverá mil ao lado onde florescerá.

Ainda mais, se a extinguirmos num indivíduo, não podemos extingui-la nos Espíritos, que são dela a fonte. Ora, como os Espíritos estão em todo o lado e porque sempre existirão, se, por impossível, se conseguisse abafá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque assenta sobre um facto, facto esse que está na natureza, e não podemos suprimir as leis da natureza. É disto que se devem então convencer os que sonharam com a aniquilação do Espiritismo. (Revista Espírita, Fevereiro de 1865, p. 38: Perpetuidade do Espiritismo.)

No entanto, estes centros disseminados deveriam permanecer ainda algum tempo isolados uns dos outros, confinados como alguns estão a países longínquos. Era necessário entre eles um traço de união que os colocasse em comunhão de pensamento com os seus irmãos de doutrina, ensinando-lhes o que se fazia noutros lugares.

Este traço de união, que terá faltado ao Espiritismo na antiguidade, encontra-se nas publicações que chegam a todo o lado, que condensam numa forma única, concisa e metódica, os ensinamentos dados em todos os sítios sob múltiplas formas e em línguas diversas.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE, Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo – Capítulo I, Natureza e Revelação Espírita, números 46 a 48, fragmento. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Deux Anges_1895,  óleo e têmpera sobre cartão pintado, de Edgard Maxence)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Corpo fluídico | agénere ou aparição tangível ~

Capítulo Segundo

KARDEC E O CORPO FLUÍDICO (III)

Ao dizer que, quando tratasse da questão do corpo fluídico atribuído a Jesus, fá-lo-ia de modo decidido, Kardec assumiu um compromisso baseado, principalmente, em duas coisas: nos documentos a serem recebidos dos Espíritos e na possível sanção do controle universal que esses mesmos documentos forneceriam. Esse o compromisso que vamos cobrar do Codificador, já que resolveu deixar ao futuro uma decisão, futuro do qual ele mesmo poderia ser personagem importante.

Pode-se reafirmar com bastante tranquilidade que Kardec, inicialmente, era refractário à ideia do corpo fluídico de Jesus, preferindo acreditar que esse corpo teria sido de carne. No entanto, ele mudaria de opinião se os factos, dos quais era humilde escravo, mostrassem que estava errado.

Logo no ano seguinte à análise que fizera da obra roustaingista, 1867, mês de Janeiro, Kardec publica na "Revista Espírita" uma carta de Roustaing, na qual, com breves palavras, informa sobre um erro de revisão havido em "Os Quatro Evangelhos" e faz as devidas correcções. Atente-se para o seguinte detalhe: Kardec apresenta a carta lacónico, dizendo: "O Sr. Roustaing, de Bordéus, dirigiu-nos a carta seguinte, pedindo a sua publicação". Não faz nenhuma referência à obra, não diz que ela, passados seis meses do seu comentário, merecia melhores atenções ou outra coisa qualquer. Há um silêncio do Codificador sobre a obra e sobre o assunto. Esta poderia ser uma ocasião propícia para dar força ao trabalho do Sr. Roustaing. Kardec, talvez, não tivesse chegado a conclusão alguma, ou quem sabe estava preparando estudos mais detalhados a seu respeito. Esse silêncio, de qualquer forma, é sintomático. Daí para a frente, ele cairia de forma definitiva sobre a figura de Roustaing, que não mais retornaria à "Revista Espírita" enquanto Kardec fosse vivo. O mesmo acontece com a médium Emilie Collignon, que não vê mais nenhuma mensagem de sua autoria mediúnica publicada na "Revista". Ambos deixam de figurar no principal órgão da imprensa espírita mundial e nem mesmo quando Kardec faz referências a qualquer facto ocorrido em Bordéus menciona algo sobre o primeiro ou a segunda. As mensagens mediúnicas, no entanto, continuam tendo lugar de destaque na "Revista", mas nenhuma delas vem com o selo da médium Collignon.

Sobre a teoria do corpo fluídico de Jesus, entretanto, o silêncio de Kardec foi quebrado pela publicação do livro "A Génese", em 1868. Ali, ele define a sua posição sobre o assunto e esclarece as razões que o levaram a isso. É contra o corpo fluídico, responde "decididamente", reafirmando que "os factos podem ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal". Não aceita Cristo com um corpo diferente das criaturas encarnadas porque não vê nenhuma vantagem nisso e porque o agénere, como ele entende e explica, não poderia resistir a uma vida inteira às vicissitudes de um mundo como a Terra, cheio de surpresas, agressões e dificuldades. Há, ainda, o detalhe moral, que para Kardec assume posição de destaque: o corpo fluídico forçaria Cristo a uma vida de saltimbanco e prestidigitador, de artista preocupado em não ser visto atrás do cenário sob pena de perder o respeito e a admiração. Kardec vê, pois; pelo aspecto científico e pelo moral e em ambos decide por um Cristo vivenciando a realidade do exemplo em corpo de carne.

De 1866, quando realizou a análise referida da obra "Os Quatro Evangelhos", até 1868, quando lançou a primeira edição de "A Génese", Kardec estudou o assunto com algum interesse. Teria tido tempo de analisá-lo nos seus diversos ângulos? A posição firme e decidida como o tratou leva a crer que sim, caso contrário deixaria de se manifestar contra e manteria a opinião de neutralidade exposta na "Revista Espírita". E mais ainda, não seria agora que iria contradizer a posição assumida e demonstrada em todos os seus estudos, a de ouvir o parecer de diversos Espíritos. Depois, ao lançar a segunda edição de "A Génese", fez questão de afirmar que nada havia sido alterado com relação à primeira. Em assunto de muito maior importância, como o da reencarnação, Kardec manteve-se silencioso até à perfeita concordância, inclusive contrariando aquilo que ele mesmo pensava sobre a questão. Era de seu carácter não avançar qualquer conclusão. Por isso, o seu parecer sobre o corpo fluídico de Jesus tem o mesmo peso que sobre outros assuntos.

O raciocínio de Kardec está assim desenvolvido: Jesus é um homem e, "como homem, tinha a organização dos seres carnais; mas como Espírito puro, destacado da matéria, devia viver na vida espiritual mais que na vida corporal, da qual não tinha as fraquezas. A superioridade de Jesus sobre os homens não era relativa às qualidades particulares do seu corpo, mas às do seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e ao seu perispírito alimentado pela parte a mais quintessenciada dos fluidos terrestres" (i). Kardec vê na capacidade do Espírito o factor mais importante de uma encarnação. Mediante esse raciocínio, Jesus, por ser um Espírito superior, o mais experimentado e puro de quantos já encarnaram na Terra, teria tido condições de viver uma vida muito mais espiritual do que material, dominando o corpo físico e submetendo-o às suas vontades. Entra aí, também, a natureza do seu perispírito, formado de acordo com a sua superioridade.

 Um ligeiro retrospecto sobre o perispírito, ainda segundo Kardec (ii)vai mostrar que a sua natureza "está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem mudá-lo à sua vontade, e por conseguinte não podem se transportar à vontade de um mundo para o outro. É o caso em que o envoltório fluídico, se bem que etéreo e imponderável em relação à matéria tangível, ainda é muito pesado, se assim se pode exprimir, em relação ao mundo espiritual, para lhes permitir saírem do seu ambiente. Será preciso classificar nesta categoria aqueles cujo perispírito é bastante grosseiro para que eles o confundam com o corpo carnal, e que, por esta razão, acreditam estar sempre vivos. Estes Espíritos, cujo número é grande, permanecem na superfície da Terra, tal como os encarnados, acreditando sempre ocupar-se com o que estão habituados; outros, um pouco mais desmaterializados, entretanto não o são o suficiente para se elevar acima das regiões terrestres.

"Os Espíritos superiores,- prossegue Kardec- ao contrário, podem vir aos mundos inferiores e mesmo aí se encarnar. Dos elementos constitutivos do mundo em que entram, eles extraem os materiais do envoltório fluídico ou carnal apropriado ao ambiente onde se encontram. Fazem como o grande senhor que deixa as suas belas roupas para vestir-se momentaneamente com trajes plebeus, sem que por isso deixe de ser o grande senhor.

"É assim (finaliza) que os Espíritos das ordens mais elevadas podem se manifestar aos habitantes da Terra, ou encarnar-se entre eles, em missão. Tais Espíritos trazem consigo, não o envoltório, mas a lembrança por intuição das regiões de onde provêm, e que vêem no pensamento. São como videntes no meio de cegos."

Jesus se enquadra, perfeitamente, entre os Espíritos superiores citados! Kardec o vê nesta condição com toda a tranquilidade.

Uma contradição de certas obras que defendem a tese do corpo fluídico de Jesus aparece exactamente aqui, neste ponto. Opinam que os Espíritos da condição de Jesus jamais encarnam. Uma dessas opiniões diz assim: "Os Cristos, Espíritos Puríssimos, não encarnam. Não têm mais nenhuma afinidade essencial com qualquer tipo de matéria, que é o mais baixo estágio da energia universal. Para eles, a matéria é lama fecunda, que não desprezam, sobre a qual indirectamente trabalham através dos seus prepostos, na sublime mordomia da Vida, mas coisa com que não podem associar-se contextualmente, muito menos em íntimas ligações genéticas. Eles podem ir a qualquer parte dos Universos e actuar onde lhes ordene a Vontade Todo-Poderosa de Deus Pai; podem mesmo mostrar-se visualmente, por imenso sacrifício de amor, a seres inferiores e materializados, indo até ao extremo de submeter-se ao quase-aniquilamento de tangibilizar-se à vista e ao tacto de habitantes de mundos inferiores, como a Terra; mas não podem encarnar-se, ligar-se biologicamente a um ovo de organismo animal, em processo absolutamente incompatível com a sua natureza e tecnicamente irrealizável" (iii)Kardec não concorda, absolutamente, com esta opinião. Com mais simplicidade ele atinge as profundezas, é mais feliz até nas imagens que usa para fazer-se entender, tal a do grande senhor que deixa as suas vestes ricas pelas pobres mas continua sendo o grande senhor. Sem dúvida, essa "sujeira", essa lama enriquece a experiência dos Espíritos que reencarnam, sejam superiores ou não, no dizer de Kardec. Já não é o caso dos que crêem de acordo com a opinião transcrita acima. Questão de humildade, questão de orgulho!...

Retornando a Jesus (iv)afirma o Codificador que "a sua alma não devia estar ligada ao corpo senão por laços estritamente indispensáveis; constantemente separada, ela devia lhe dar uma vista dupla não só permanente, como também de uma penetração excepcional e por outro modo muito superior àquela que se encontra nos homens comuns. O mesmo devia acontecer com todos os fenómenos que dependem dos fluidos perispiritais ou psíquicos. A qualidade de tais fluidos lhe dava um imenso poder magnético, secundado pelo desejo incessante de fazer o bem".

As coisas de Jesus se passam, assim, de modo muito simples. A sua capacidade de Espírito superior, as propriedades do seu perispírito e o imenso desejo de auxiliar faziam com que a sua vida transcorresse de modo vitorioso como a de nenhum outro encarnado. É, interessante verificar que desse raciocínio se conclui, também, que qualquer outra criatura poderia viver a mesma vida desprendida, bastando que tivesse alcançado a evolução de Cristo. Assim, pois, esse Jesus da visão kardequiana está próximo da criatura encarnada até fisicamente, sem qualquer perigo de diluir-se no ar repentinamente...
/...
(i) "A Génese", cap. XV, item 2.
(ii) "A Génese", cap. XV, item 9.
(iii) "Universo e Vida", cap. VII.
(iv) “A Génese”, cap. XV, item 2.


Wilson GarciaO Corpo Fluídico, Capítulo Segundo – KARDEC E O CORPO FLUÍDICO 3 de 6, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Pintura de Josefina Robirosa)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Inquietações Primaveris ~

A Extinção da Vida (II)

Vivemos até agora num torniquete de contradições alimentadas por grosseiros e desumanos interesses imediatistas.

O mundo se apresenta em fase de renovação cultural, política e social, povoado por gerações novas que anseiam pelo futuro e se encontram oprimidas e marginalizadas pelo domínio arbitrário dos velhos, dolorosamente apegados a vícios insanáveis de um passado em escombros.

A prudência medrosa dos velhos e o anacronismo fatal de suas ideias, de suas superstições e do seu apego desesperado à vida como ela foi e não como ela é, esmagam sob a pressão da mentalidade antiquada apoiada no domínio das estruturas tradicionalmente montadas dos dispositivos de segurança. Essa situação negativa é transitória, em virtude da morte, que renova as gerações, mas prolongando-se nesses dispositivos garante o prolongamento indefinido da situação, ao mesmo tempo em que as novas gerações, marginalizadas politicamente, não dispõem de experiências e conhecimentos para enfrentar os dominadores, caindo em apatia e desinteresse pela vida pública. Essa situação se agrava com a ocorrência de tentativas geralmente ingénuas e inconsequentes de jovens explorados por grupos violentos, o que provoca o desencadeamento da pressão oficial, geralmente seguida de réplicas terroristas. É o que se vê, principalmente, nos países europeus arrasados material e espiritualmente pela segunda guerra mundial.

Esse impasse internacional só pode ser rompido por medidas e atitudes válidas dos governos das nações em que o choque de mentalidades antagónicas não chegou a produzir estragos materiais e morais irrecuperáveis. Muito podem contribuir para o restabelecimento de um estado normal nas instituições culturais, através de cursos e divulgações, pelos meios de comunicação organizados e dados por especialistas hábeis.

A Educação para a Morte, dada nas escolas de todos os graus, não como matéria independente, mas ligada a todas as matérias dos cursos, insistindo no estudo dos problemas existenciais, irá despertando as consciências, através de dados científicos positivos, para a compreensão mais clara e racional dos problemas da vida e da morte. Todo o empenho deve concentrar-se na orientação ética da vida humana, baseada no direito à vida comunitária livre, em que todos os cidadãos podem gozar das franquias sociais, sem restrições de ordem social, política, cultural, racial ou de castas. O importante é mostrar, objectivamente, que a vida é o caminho da morte, mas que a morte não é o fim da existência humana, pois esta prossegue nas hipóstases espirituais do universo, nas quais o espírito se renova moralmente e se prepara com vista a novas encarnações na linha da evolução ôntica da Humanidade.

Nascimento e morte são fenómenos biológicos interpenetrados. A vida e a morte constituem os elementos básicos de todas as vidas, que, por isso mesmo, são também mortais. O inferno mitológico dos pagãos devia ter desaparecido com o advento do Cristianismo, mas foi substituído pelo inferno cristão, mais cruel e feroz que o pagão. As carpideiras antigas deixaram de chorar profissionalmente nos velórios, mas os cerimoniais funerários da Igreja substituíram de maneira mais pungente e desesperadora, com pompas sombrias e latinório lastimante, prolongados em semanas e meses, o lamento por aqueles que apenas cumpriram uma lei natural da  vida. A ideia trágica da morte sobrevive no nosso tempo, apesar do avanço das Ciências e do desenvolvimento geral da Cultura. Há milhões de anos morremos e ainda não aprendemos que a vida e a morte são ocorrências naturais. E as religiões da morte, que vampirescamente vivem dos gordos rendimentos das celebrações fúnebres e das rezas indefinidamente pagas pelos familiares e amigos dos mortos, empenham-se num combate contra os que pesquisam e revelam o verdadeiro sentido da morte. A ideia fixa de que a morte é o fim e o terror das condenações de após a morte sustentam esse comércio necrófilo em todo o mundo. Contra esse comércio simoníaco é necessário desenvolver-se a Educação para a Morte, que, restabelecendo a naturalidade do fenómeno, dará aos homens a visão consoladora e cheia de esperanças reais da continuidade natural da vida nas dimensões espirituais e a certeza dos retornos através do processo biológico da reencarnação, claramente ensinado nos próprios Evangelhos.

Conhecendo o mecanismo da vida, em que nascimento e morte se revezam incessantemente, os instintos de morte e os seus impulsos criminosos irão atenuando-se até desaparecerem por completo. Os desejos maldosos de extinção da vida, que originam os suicídios, os assassinatos e as guerras, tenderão a transformar-se nos instintos da vida. A esperança e a confiança em Deus, bem como a confiança na vida e nas leis naturais, criarão um novo clima no planeta, hoje devastado pelo desespero humano. O medo e o desespero desaparecerão com o esclarecimento racional e científico do mistério da morte, esse enigma que a ressurreição de Jesus e os seus ensinos, bem como os do Apóstolo Paulo, já deviam ter esclarecido há dois mil anos.
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Herculano Pires, José – Educação para a Morte, 4 A Extinção da Vida 2 de 2, 7º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

domingo, 25 de dezembro de 2016

Fernando de Lacerda, o médium português ~

Explicando…

A primeira vez que ouvimos falar de Fernando de Lacerda foi quando nos referiram a história de um homem que, no princípio do século, vivera em Lisboa, saltando para cima dos eléctricos e do Arco da Rua Augusta, e que um outro homem conseguia dominar com a sua presença… e, da narrativa, ficou-nos a sensação de que o que era mais importante não era o cantor, mas a canção!

Tínhamos «descoberto» há pouco tempo a Doutrina Espírita e, talvez, olhando agora para trás, tenhamos de concluir que a deficiência da ideia que formámos, deveria ser consequência da nossa ignorância, da maneira mais ou menos vaga como assimiláramos o caso – não o caso em si próprio – tão desabitual que, só por isso, deveria, antes, ter-nos levado a debruçar sobre o assunto.

Não o fizemos.

Em 1974 conseguimos ler as Memórias de Um Suicida, mas o nome do médium que Camilo ali refere, nada nos dizia…

Passaram-se 11 anos.

Em Portugal, a «Associação Luz no Caminho», de Braga, edita o 1.º volume da obra de Lacerda, e, poucos meses depois, tivemos a possibilidade de obter a obra completa, em edição brasileira.

O nome de Fernando de Lacerda passou, então, a representar para nós o de um médium português que na primeira década de 1900 recebera várias comunicações de espíritos de escritores grandes da literatura portuguesa, a que se juntaram mensagens de nomes de outras personalidades estrangeiras, universalmente conhecidas.

Os livros foram lidos rapidamente, tendo – realmente – apreciado o estilo das diversas composições. Recordamo-nos que, na época, um familiar, sentado a nosso lado, lia «O Mistério da Estrada de Sintra» enquanto nós analisávamos, um e outro, da igualdade de estilo, a ironia, os «floreados», as descrições…

– Extraordinário!...

Mas foi só isso…

Em 1989 a Associação Luz no Caminho, ainda ela, edita o opúsculo Fernando de Lacerda, o Homem… o Médium!

Lembramo-nos de termos adquirido o livrito em Dezembro, na própria Associação, num Conselho Federativo Nacional que a Federação Espírita Portuguesa ali esteve realizando.

Lemo-lo à noite, em meia hora, tendo-o terminado com a sensação, talvez idêntica à de um esfomeado sentado a uma mesa repleta de iguarias, que só os olhos comem… porque não as consegue mastigar!

Sem saber porquê, sentimo-nos defraudados… mas semanas depois calmamente, voltámos a abrir o livrinho. O artigo de Hermínio de Miranda: – Fernando de Lacerda, o Médium do País de Camões –, levantou a ponta de um véu: a Federação Espírita Brasileira tinha em seu poder o espólio que o escritor recebera e ali entregara. Através da F.E.P., de cuja Direcção fazíamos parte, escrevemos à nossa congénere brasileira, pedindo fotocópias daquele espólio, por serem «elementos de reconhecido valor histórico e doutrinário que, por certo, permitirão dar a conhecer ao Movimento Espírita Português quem foi e o que fez Fernando de Lacerda em prol da Mensagem do Consolador, a benefício da Humanidade…», e, enquanto a resposta não chegava, procurámos, então, descobrir Fernando de Lacerda. Foi uma iniciativa que demorou um ano em pesquisas na Biblioteca Nacional, na Torre do Tombo – para descobrirmos os nomes dos familiares do médium –, rescaldo do muito que já se possuiu de valioso antes do seu encerramento na década de 60.

A sensação da descoberta foi maravilhosa mas, apesar disso, um pouco frustrante! Não conseguíamos encontrar o que consideramos principal: o assunto que levara à suspensão do subchefe da polícia administrativa do Governo Civil, e consequente demissão.

Mas, a nossa percepção dava-nos uma outra sensação: não estávamos sós a movimentar-nos! A partir de determinado momento, começamos a perceber que «alguém» emparceirava connosco, caminhando, por vezes, à nossa frente, debruçando-se igualmente sobre o que líamos. Assim nos foi aberto o caminho e os nossos passos orientados para determinada estante, e as nossas mãos seguraram um livro da grande Enciclopédia Luso-Brasileira, e os nossos dedos procuraram, como se lessem também eles, e se detinham, logo após, na página 990, em «Botto Machado (Fernão do Amaral)».

Tínhamos andado à sua procura, anteriormente, de maneira errada, embora essa procura nos tivesse concedido determinados dados, também eles úteis, e agora, talvez no momento oportuno, vinha todo o resto!

Na descrição ali encontrada descobrimos jornais e, nestes, tudo o que nos faltava saber.

Pelos artigos de uns, encontrávamos os outros… e fomos, assim, acumulando os elementos de que nos servimos para o nosso trabalho, que tivemos o cuidado de não manchar com transcrições menos nobres. Não nos move o escândalo!

Do Brasil, o Dr. Francisco Thiesen, ora desencarnado, respondia à carta da F.E.P., dizendo: – «…Não vemos inconveniente algum em ir ao encontro do propósito manifestado. Só que só poderemos atendê-lo oportunamente, em virtude de esses documentos se encontrarem guardados no prédio em construção, em sala sem acesso de momento. Assim, tão logo possamos tê-los ao alcance de nossas mãos, apressar-nos-emos em fazê-los chegar à Federação Espírita Portuguesa, de vez que concordamos tratar-se de “elementos de reconhecido valor histórico e doutrinário”.»

Aguardámos.

Na nossa agenda procurámos nomes de amigos residentes no Rio de Janeiro, que nos pudessem ajudar a encontrar ali o que, de outra forma, não poderíamos obter, e recorremos a Portugal Ferreira Marques.

Foi ele que nos obteve fotocópias da certidão de óbito, datada de 6 de Agosto, e da ordem da sepultura, da Santa Casa da Misericórdia, esta sim, datada do dia 7 do mesmo mês. Enviou-nos, ainda, fotocópias do artigo de Hermínio de Miranda e do de Jorge Rizzini, publicado no «Jornal de S. Paulo», e de que tínhamos o borrão que o próprio Rizzini nos facultara.

Aos serões, em nossa casa, dedicámo-nos, então, ao estudo dos quatro volumes Do País da Luz, e neles descobrimos, não só as orientações e ensinos que cada um dos autores comunicantes transmite, como o próprio Fernando de Lacerda.

Nas palavras do Eça, de Camilo, de Castilho, de Frei Bartolomeu dos Mártires, do Padre António Vieira, de HerculanoFialhoSilva Pinto – como nas orientações do «Marinheiro» – foi-se-nos revelando o homem.

presença que sentíamos há umas semanas, continuava quase constante. Nunca, na nossa condição de médium, uma entidade nos foi tão palpável… Mas, a esta altura já tínhamos concluído que essa companhia não podia ser de Lacerda! A maneira de ser, que nele descobrimos, a sua humildade, não se coadunavam com a elaboração de um trabalho, fosse este como fosse, para o dar a conhecer. Seria, antes, um amigo? Um familiar?... o próprio Botto Machado?

/…
«…É geralmente conhecido o Sr. Lacerda pelo “passa-culpas”. Multas… paga-as do seu bolso, quando não pode livrar delas os desgraçados. / Órfãos, não só os protege, como os tem em casa, dando-lhes leite, pão, instrução e educação. / Não se lhe conhece um acto indigno. Nunca ninguém o procurou em vão para uma obra piedosa. / Profundamente religioso, é profundamente justo. Todos os desgraçados, quando mais aflitos, vão colher uma esperança e um alento junto dele. / Dá colocação aos sem-trabalho, esmolas valiosas e constantes aos que dele se abeiram envoltos em lágrimas… e, às vezes, de crocodilo. / Ajuda todos como pode, sem os sugar – o que é raro. / Pode ter entrada nos lares honestos. Nunca os manchou… por causa da grande teoria do “amor livre”. / Nunca protegeu mulher nenhuma, para lhe impor uma torpeza. / É digno, é puro, é bom. / Tão inteligente como honesto, os próprios inimigos que, afinal, são poucos, não lhe negam nenhuma daquelas qualidades. / Um “defeito” lhe apontam: ser fraco pela sensibilidade que leva à maior abnegação.» in Jornal A "Palavra", 4 de Outubro de 1908



Manuela Vasconcelos, Fernando de Lacerda o Médium Português, Explicando 1 de 3, 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Fernando de Lacerda, inspector da Polícia Administrativa, em Lisboa 1908-1909, no seu gabinete do Governo Civil , recebendo mediúnicamente João de Deus para as crónicas "O que dizem os mortos")

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

~ há em nós uma surda aspiração, uma íntima energia misteriosa que nos encaminha para as alturas ~


alma humana…

Grandioso é o espectáculo da luta do espírito contra a matéria, luta para a conquista do Globo, luta contra os elementos, os flagelos, contra a miséria, a dor e a morte. Por toda a parte a matéria se opõe à manifestação do pensamento. No domínio da Arte, é a pedra que resiste ao cinzel do escultor; na Ciência, é o inapreciável, o infinitamente pequeno que se furta à observação; na ordem social, como na ordem privada, são os obstáculos sem-número, as necessidades, as epidemias, as catástrofes!

Não obstante, frente às potências cegas que o oprimem e o ameaçam de todos os lados, o homem, ser frágil,  ergueu-se. Por único recurso tem apenas a vontade e, com esse único recurso, tem continuado, sem tréguas nem piedade, através dos tempos, a áspera luta; depois, um dia, pela vontade humana, foi vencida, subjugada a formidável potência. O homem quis e a matéria submeteu-se. Ao seu gesto, os elementos inimigos, a água e o fogo, uniram-se rugindo e para ele têm trabalhado.

É a lei do esforço, lei suprema, pela qual o ser se afirma, triunfa e se desenvolve; é a magnífica epopéia da História, a luta exterior que enche o mundo. A luta interior não é menos comovente. De cada vez que renasce, terá o Espírito de ajeitar, de apropriar o novo invólucro material que lhe vai servir de morada e fazer dele um instrumento capaz de traduzir, de exprimir as concepções do seu génio. Demasiadas vezes, porém, o instrumento resiste e o pensamento, desanimado, retrai-se, impotente para adelgaçar, para levantar o pesado fardo que o sufoca e aniquila. Entretanto, pelo esforço acumulado, pela persistência dos pensamentos e dos desejos, apesar das decepções, das derrotas, através das existências renovadas, a alma consegue desenvolver as suas altas faculdades.

Há em nós uma surda aspiração, uma íntima energia misteriosa que nos encaminha para as alturas, que nos faz tender para destinos cada vez mais elevados, que nos impele para o belo e para o bem. É a lei do progresso, a evolução eterna, que guia a humanidade através das idades e aguilhoa cada um de nós, porque a humanidade são as próprias almas, que, de século em século, voltam para prosseguir, com o auxílio de novos corpos, preparando-se para mundos melhores, na sua obra de aperfeiçoamento. A história de uma alma não difere da história da humanidade; só difere a escala: é a escala das proporções.

O Espírito molda a matéria, comunica-lhe a vida e a beleza. É por isso que a evolução é, por excelência, uma lei de estética. As formas adquiridas são o ponto de partida de formas mais belas. Tudo se liga. A véspera prepara o dia seguinte; o passado gera o futuro. A obra humana, reflexo da obra divina, expande-se em formas cada vez mais perfeitas.

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LÉON DENIS, O Problema do Ser, do Destino e da Dor,  IX – Evolução e finalidade da alma, fragmento.
(imagem de contextualização: Head of Divine Vengeance, pintura de Pierre-Paul Prud'hon)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Deus na Natureza ~

A Força e a Matéria;
I Posição do Problema (III)

No conjunto de um sistema em movimento, toda a peça que se obstinasse em estacionar recuaria realmente. Nos nossos dias, já não é admissível dizer-se, dogmaticamente, que tal ou tal noção é perfeita e deve guardar o ataque da infalibilidade: ou se faz, ou se não faz parte da marcha progressiva do espírito. No primeiro caso, importa acompanhá-lo integralmente e, no segundo, há que confessar-se em atraso. Eis o que precisa ficar bem claro.

Digamo-lo francamente: em ciência experimental, Deus não pode ser admitido à priori e muito menos a destinação, ou finalidade, que presumimos apreender nas obras da Natureza.

As doutrinas apriorísticas caducaram, já se não admitem.

Confessemo-nos com os materialistas e perguntemos se os que tomaram Deus e não a Natureza como ponto de partida explicaram, algum dia, as propriedades da matéria ou as leis que governam o mundo. Puderam eles dizer-nos da mobilidade ou imobilidade do Sol? – se a Terra era plana ou esférica? – quais os desígnios de Deus, etc.? Absolutamente. Mesmo porque, seria impossível. Partir de Deus para a investigação e o exame da Criação é processo baldo de nexo e de sentido. Esse precário método para estudar a Natureza e inferir consequências filosóficas, no pressuposto de poder, com uma simples teoria, construir o Universo e fixar as verdades naturais, desacreditou-se, felizmente, há muito tempo.

Mas, pelo facto de havermos substituído a hipótese precedente pelos resultados do exame a posteriori, segue-se que devamos fechar os olhos e negar a inteligência, a sabedoria, a harmonia reveladas pela própria observação? Haverá motivo para repudiar toda e qualquer conclusão filosófica e ficar a meio caminho, temerosos de atingir o fim? E deveremos, por isso, rendermo-nos aos cépticos contemporâneos que, não obstante a evidência, rejeitam toda a luz e toda a conclusão?

Pensamos que não. Muito ao contrário, pelo método que preconizam, constatamos as suas recusas e inconsequências.

Antes de qualquer controvérsia, importa determinar as posições recíprocas, para evitar mal-entendidos, esperando nós que as declarações precedentes bastem para esclarecer categoricamente a nossa atitude.

Combateremos francamente o materialismo, não com as armas da fé religiosa, não com os argumentos da fraseologia escolástica, não com as autoridades tradicionais, mas pelos raciocínios que a contemplação científica do Universo inspira e fecunda.

Examinemos preliminarmente, num olhar, de conjunto, o processo geral do ateísmo hodierno.

Esse processo assemelha-se sensivelmente ao de que se utilizou o barão d'Holbach, nos fins do século passado, para fundamentar o seu famoso Sistema da Natureza, obra de um materialismo vulgar, para a qual achava Goethe não haver suficiente desprezo e costumava averbar de – “legítima quintessência da senectude, inepta e insulsa”. O novo processo, mais exclusivamente científico, todavia, consiste principalmente em declarar que as forças que dirigem, não dirigem o mundo, isto é: que em vez de governarem a matéria, antes se lhe escravizam e que é a matéria (inerte, cega, desprovida de inteligência) que, movendo-se de si mesma, se governa mediante leis, cujo alcance ela não pode, todavia, apreciar.

Pretendem os nossos materialistas actuais que a matéria existe de toda a eternidade, revestida de umas tantas propriedades, de certos atributos e que essas propriedades qualificativas da matéria bastam para explicar a existência, estado e conservação do mundo.

Dessarte, substituem um Deus-espírito por um Deus-matéria.

Ensinam que a matéria governa o mundo e que as forças químicas, físicas, mecânicas, não passam de qualidades.

Para refutar um tal sistema, há que tomar, por conseguinte, o partido contrário e demonstrar um Deus-espírito, antes que um Deus-matéria, incompreensível, a reger a matéria; estabelecer que a substância é escrava antes que proprietária da força; provar que a direcção do mundo não cabe às moléculas cegas que o constituem, mas às forças sob cuja acção transparecem as leis supremas.

Fundamentalmente, o problema resume-se nesta demonstração e nós esperamos que ela ressaltará brilhante dos estudos objectivados neste nosso trabalho.

E uma vez que os adversários se apoiam em legítimos factos científicos para estabelecer o erro, cumpre-nos contrabatê-los com esses mesmos factos.

A bem dizer, ainda que se demonstrasse que o Universo não é mais que um mecanismo material, cujas forças não se conjugam a um motor, mas remontam à matéria, subindo e descendo incessantes num sistema de motilidade perpétua, nem por isso a causa divina estaria perdida.

Contudo, desde os primórdios da Filosofia, a partir de Heráclito e Demócrito, o sistema mecânico do mundo constituiu-se o refúgio e o argumento dos ateus, enquanto o sistema dinâmico albergava e escorava os espiritualistas.

Nós, por princípio, filiamo-nos à concepção dinâmica e combatemos o sistema incompleto de um mecanismo sem construtor. Muito judiciosamente, diz Caro: (i) – por um lado o mecanismo tudo explica, mediante combinações e agrupamentos de átomos eternos. Todas as variedades de fenómenos, o nascimento, a vida, a morte, mais não são que o resultado mecânico de composições e decomposições, a manifestação de sistemas atómicos que se reúnem e se separam.

O dinamismo, ao contrário, subordina todos os fenómenos e todos os seres à ideia de força.

O mundo é a expressão, seja de forças opostas e harmoniosas entre si, seja de uma força única, cuja metamorfose perpétua engendra a universalidade dos seres.

Pode constatar-se que, não obstante ser a explicação secundária das coisas, até certo ponto, independente da primária, ou metafísica, a História atesta o facto constante de uma afinidade natural: de um lado, entre a explicação mecânica e a hipótese supressiva de Deus; e, de outro lado, entre a teoria dinâmica e a hipótese que diviniza o mundo no seu princípio.


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(i) La Philosophie de Goethe, capítulo 6º.


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria I – Posição do Problema 3 de 6, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)