domingo, 26 de abril de 2015

~~~Párias em Redenção~~~

ALUCINAÇÃO E CRIME (III)

A noite avançava lavada e varrida pelas chuvas e ventos, que desabavam abundantes, e o moço revira-se impaciente no leito, desassossegado. A avançadas horas, deixou-se abater por torpor dominante e, assaltado por esquisito pesadelo, sentiu-se amarrado ao leito, experimentando os sentidos psíquicos exaltados. Foi dominado pela sensação desusada de que, embora caído pesadamente sobre a cama, podia locomover-se no quarto em brumas espessas, entre as quais, direcção estóica e hierática, como sempre o fora. Agitando-se penosamente e desejando evadir-se do desagradável e insólito fenómeno que o avassalava, compreendeu-se vencido ante aquela que lhe fora mãe espiritual dedicada e cujo amor ele estava prestes a desrespeitar, por meio de hediondo crime. A entidade acercou-se dele e, traduzindo inconfundível melancolia na voz, marcada por acento de doída angustia, inquiriu:

– Que pretendes, Girólamo? Assim retribuis, através do crime nefário que premeditas, o calor da afeição pura e da dedicação que recebeste deste lar? Substituíste por ácido o sangue que pulsa nas tuas veias para, enlouquecido, te comprometeres por penosos séculos de infeliz peregrinação ressarcidora? Susta o golpe, antes que o golpe te vença, sem que consigas aniquilar-te a ti mesmo. Ninguém tem o direito de erguer a mão, que se torna sacrílega quando investe contra a vida de outrem. Mesmo diante do revel, a nós não nos pertence o direito de destruir, e sim Àquele que o produz, e que se utiliza de recursos que nos escapam, para equilibrar tudo, no padrão da Sua Sabedoria. Estaca, e modifica a intenção! Ignoras que a vida não cessa e que nós outros, os que antecipamos na jornada do túmulo, vivemos?!

Desfigurado pela visita inusitada, o moço, em febre, arguiu, desafiadoramente:

– Deliro, oh! Deus. Enlouqueço! Ninguém volta da morte. Você está morta, titia! Deixe-me em paz, antes que me estourem os miolos avassalados por demónios perversos. Não pode ser você. Deve ser algum enviado das geenas, para aniquilar-me.

– Não, filho, sou eu mesma, quem retorna. É a voz da minha alma que te fala hoje, como fizera ontem, despertando as mínimas expressões de consciência, de dignidade, na tua razão, obnubilada pela ambição ignóbil que te vence. Morri, mas não fiquei destruída. Não encontrei o céu de repouso ou o inferno de desdita. Deparei-me com a vida estuante, colocada pela Excelsa Misericórdia Divina ao alcance dos que Lhe respeitam as leis. A vida aqui é a razão da vida daí. Ressurgimos do portal de cinzas da sepultura com as asas de anjos ou os pesados grilhões atros, resultantes das nossas atitudes na Terra, que nos alçam a regiões de paz inefável ou nos conduzem a abismos de dores demoradamente remissíveis, até a consciência ferida no seu mais fundo sentir experimente a necessidade de tudo recomeçar e refazer… Somos os construtores da nossa ventura como também do nosso infortúnio. Por isso, reprime o passo e detém-te, antes que seja tarde demais.

– Agora já é tarde demais! O ódio que me arde na alma destruir-me-á antes que eu possa recuar. Tenho que cumprir esse destino…

– O destino nos pertence. A cada instante estamos a elaborá-lo, modificando-o ou estabelecendo-o através do que pensamos, do que dizemos, do que fazemos. Cada um consegue o que cultiva, quanto acontece ao agricultor que recolhe a resposta da terra através do grão que lhe atira na cova. Susta o vil pensamento e reflecte. Por que te voltas contra a inocência de Lúcia e a pureza das crianças? Que te fizeram, revel? O ódio que lhes devotas são as farpas da inveja e do despautério do teu espírito ingrato. Volta-te para Deus e escuta a insuperável mensagem de amor do Seu Filho Jesus. Escolhe: agora, ou será tarde demais, realmente. Esquece a sandice e não serás esquecido pela Justiça Celeste. Este é o momento da tua redenção: pára! Ignoras as realidades da vida: do ontem e do amanhã…

– Não posso, não posso. É muito tarde para mim. Tudo está pronto. Não posso, nem desejo recuar…

– Eu lamento, por ti e por outrem que não está em condições de perguntar-te e de amar-te. Na minha imensa, incomparável dor, eu te perdoo e choro por ti e por alguém mais. No entanto, ouve-me, Girólamo, é tempo. Foge, viaja, sai desta casa, evade-te ainda hoje, buscando renovação noutros sítios e retorna depois. Serás sempre bem recebido. Terás o de que necessitas, o que ambicionas, porém, por outros meios. Vai em busca da paz, enquanto luze a oportunidade, pelo amor de Deus eu te rogo, meu filho!

Tresloucado, espírito em alucinação, o moço gritou:

– Nunca! Agora irei até ao fim, até à minha total desgraça ou ventura. Não pararei!

– Atingirás, sim, a desgraça. Deus tenha piedade de ti! Eu te perdoo, filho. Perdoe-nos Senhor a todos nós!

A emissária espiritual levou a nívea mão ao peito levemente ofegante e lágrimas silenciosas, longas, lhe escorreram pela face venerada. Um olhar de indizível dor foi endereçado ao moço, conduzido pela teimosa incoerência de raciocínios e, embora distendendo, logo após, os braços para recolhê-lo outra vez no seio sofrido, Girólamo, como se libertasse do magnetismo que o retinha preso, atirou-se na direcção do corpo que se debatia em desespero no leito e despertou gritando, de olhar esgazeado, suado, aturdido…

Ergueu-se de um salto, apoiou-se à janela, abriu-a e aspirou o ar húmido e frio da noite para recobrar a lucidez e coordenar as ideias assaltadas pela quase demência.

Transcorridos alguns minutos, aumentando a luz no quarto, entregou-se aos sombrios pensamentos já habituais, enquanto ruminava com a desconcertante visão, que parecia persegui-lo, embora desperto. Sentia-se assistido pela tia; conquanto não a pudesse ver naquele instante, percebia-se por ela visitado. Deixou repentinamente a alcova, desceu ao patamar da parte térrea, abriu a porta de entrada, procurando, sem saber exatamente o quê, meios de reencontrar-se. A chuva torrencial, porém, prosseguia. Em derredor da herdade, os rios transbordavam, as estradas estavam quase intransponíveis…

Em inquisição crescente, aguardou a madrugada e o dia brumoso raiou. O cansaço venceu-o com a chegada da manhã, quando, então, se recolheu por algumas horas, em pesado e tormentoso sono.

Levantou-se tarde e não compareceu à refeição matinal.

Amainada a tormenta, deambulou a esmo pela terra encharcada e ao retornar, com a alma em frangalhos, foi recebido pela vigilante Assunta, que o aguardava ansiosamente.

Higienizando-se tomou caldo quente e reparador, que a serva lhe trouxe. Amolentado de carácter, deixou-se arrastar pelas paixões absorventes e cuidou, com a consócia, do crime em delineamento, sobre todos os detalhes da tragédia que logo mais seria consumada. Buscou repousar, enquanto Assunta, que guardara o soporífico que ele lhe entregara, desceu à cozinha.

Naquela noite, Assunta oferecera-se a Lúcia para cuidar do repasto das crianças, prontificando-se a ajudá-las a se recolherem ao leito, informando que também lhe traria a refeição, contanto que descansasse das últimas e longas fadigas.

Embora pressentindo a borrasca que a ameaçava, Lúcia, exaurida pelo cansaço, aceitou a oferenda da mulher pusilânime e se quedou em leve recreio com os pequenos órfãos.

Após servir a refeição frugal, Assunta trouxe imensa bandeja de prata com chávenas e bule de chá fumegante, bolinhos de milho, leite e açúcar. Antes, porém, adicionara forte quantidade de pó sonífero, que se misturara ao chá, e, sorridente, serviu às vítimas em potencial, que ignorando a trama cruel, se deixaram conduzir inermes pela má e injusta adversária gratuita. Transcorridos poucos minutos, e não podendo vencer a moleza e o sono que de todos se apossou, recolheram-se aos leitos, vestidos conforme se encontravam.

A astuta comparsa de Girólamo trocou os trajes das crianças, que ressonavam sob o peso do produto forte, e as depôs nas respetivas camas. Lúcia, porém, foi arrastada, como se encontrava, para o lado do cataló da menina Grazziella, ali ficando adormecida, enquanto a relutância que oferecera ao invencível mal-estar. Isto feito, Assunta cerrou a porta, deu ciência a Girólamo de toda a ocorrência e demandou, por sua vez, o próprio dormitório.

A noite, embora ameaçadora, não se encontrava sacudida pelas chuvas nem pelos ventos da véspera. Uma lua fria e triste espiava entre nuvens carregadas. O relâmpago aparecia de longe em longe e a voz do trovão chegava cansada e rouca aos cenários dos próximos e tristes acontecimentos.

Horas avançadas, Girólamo caminhava pela alcova, agitado, em trajes de dormir.

O punhal afiado brilhava aos reflexos do luar que por vezes penetrava no quarto, colocado sobre delidada arca de cânfora trabalhada.

/...


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO ” – LIVRO PRIMEIRO, 2. ALUCINAÇÃO E CRIME (3 de 4), 6º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt_1898, pintura de Edgard Maxence)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Crónica de Natal ~

| Para todos Natal de Paz, Esperança e boa vontade ~

Hoje fui dar o habitual passeio a pé até à igreja de Santa Luzia. Descobri-me, entrei no adro e, do patamar da igreja que estava, como é hábito, de portas fechadas, pus-me de pé olhando para o sol já frio de uma tarde nebulosa.

Não estava por ali ninguém, mas falei com imensa gente. Mandei recados e fiz pedidos, daqueles que – se não forem atendidos por falta de mérito meu – sei que vão ser escutados. Deixei que os minutos passassem tranquilamente sem medo de que a esperança das palavras perdesse a frescura e a juventude. Ao lado há uma pequena colectividade recreativa e alguém ao som da música de um rádio preparava qualquer coisa. Oxalá fosse uma festa de Natal.

É um óptimo prenúncio e um bom pretexto para fazer uma crónica de Natal.

Preparei por isso uma prenda ecológica que tenho oferecido com gosto, repetidas vezes, ao meu percurso predilecto de passeios a pé. Do cemitério da Lousã à igreja de Santa Luzia e regresso, saio munido de dois sacos de plástico. Lá mais para diante vou olhando para as bermas e para os terrenos mais próximos e começo a contar as latas para refrigerantes de alumínio vazias, metendo-as para dentro dos sacos. Coloco sempre dois sacos no bolso e, se tenho à mão, pelo menos um que seja grande. Garrafas de cerveja, plástico e todo o tipo de embalagens intrusas na paisagem campestre, para dentro do saco!...

É hábito arrepender-me de não ter metido mais outro saco de plástico dos grandes no bolso. Nunca consigo recolher toda a multidão de contentores de vários tamanhos e coisas intragáveis para a terra mãe das árvores, dos milheirais e dos pássaros.

Hoje por exemplo, armado em detective descobri um crime objectivamente pessoal e intransmissível. Num pequeno terreno lavrado havia – eu seja ceguinho – quase trinta latas de cerveja vazias, e a grande maioria de uma só marca. Os homens que por ali tinham andado cavaram o que puderam, mas traziam muita sede!... A ideia de fertilizarem a terra com latas de alumínio deve ter-lhes parecido luminosa.

O resto é ao longo do percurso. Há muito senhor automobilista e passageiros que hidratando-se na viagem, atiram com a embalagem pela janela. Muito prático. Enfeita o solo de refulgências de cor vária. É o esplendor publicitário, o rebrilhar do vidro e das cores eléctricas do design a subtraírem à terra a sua gravidade milenar. Fica tudo mais alegre, mais natalício.

Natal faz, no meu caso, lembrar o presépio, cenário que dizem ter sido inventado por Francesco Giovanni di Pietro Bernardone mais de doze séculos depois do nascimento de Jesus, o nazareno.

A história é uma das coisas mais complicadas do mundo e quem se ponha a ler coisas sobre isso vai encontrar tanto nome e tanta data que logo fica duvidoso ter sido esse tal Francesco que se quis pobre, um tal de Assissi, o que verdadeiramente inventou o rústico e terno cenário a que faço alusão.

Não faz mal que tenha sido assim ou de outra maneira.

E, naquela assembleia variada e subtil para quem falo no adro da igreja de Santa Luzia (sem autorização eclesiástica) ninguém fica triste, nem se zanga, nem me vêm fazer queixas daquele senhor espampanante de ouro e pedras preciosas que celebra as missas solenes do Natal do Vaticano, e que se passeia agarrado a um báculo de ouro que – vendido só a peso - já matava a fome a milhares de crianças de África e, daqui a nada, do próprio Portugal europeu e descobridor.

Em minha casa Natal é presépio, com vaca e burrinho, e que Deus nos abençoe a todos.

/…


Costa BritesCrónica de Natal, de 13 de Dezembro de 2012, publicada na sua coluna “Interioridades” que sai no quinzenário “Trevim”, da Lousã.
(imagem de contextualização: Mosaico de Maria Ludgera Haberstroh ilustrando o Cântico das Criaturas, na Liebfrauenkirche, Innenhof)

domingo, 5 de abril de 2015

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~

Capítulo III

Marx e Kardec

Karl Marx e Allan Kardec encarnam, nos tempos actuais, as duas grandes inquietudes do pensamento: o fenómeno social e o fenómeno espiritual. Marx traçou uma imagem do homem em desacordo com a realidade espiritual. Entretanto, no campo social, expressou verdades que, postas em prática, dariam solução à mais renhida luta de classes que, actualmente, no seu conjunto, chamamos capitalismo e comunismo.

Marx viu o homem como um composto físico-químico, isto é, como um organismo material, governado e conduzido pelos modos de produção. Kardec, pelo contrário, compreendeu o homem como um espírito encarnado num corpo físico, para demonstrar a sua evolução e a sua realidade espiritual. Mas o homem de Marx e o homem de Kardec, iguais entre si quanto ao aspecto material e diferentes na sua realidade espiritual, constituem agora uma pessoa humana ou entidade existencial, com novos direitos e iguais deveres, diante dos progressos da sociedade moderna.

Nessa pessoa existencial e humana, onde cabem tanto o homem marxista como o homem kardecista, devemos buscar a verdadeira filosofia Social. Nela se encontram os elementos indispensáveis para estabelecermos uma relação entre o problema social e o problema espiritual. Entretanto, Marx nos mostrou um homem melhor que o homem velho dependente do regime capitalista. O homem de Marx é um ser liberto da exploração económica, mas sem perspectivas metafísicas. As suas dimensões espirituais estão sujeitas ao terrestre, o que vale dizer que desaparecem com o corpo. Disso resulta ser o homem de Marx um Ser incapaz de satisfazer o anseio de imortalidade que o Espírito leva no seu íntimo.

Marx, com efeito, legou-nos um homem sem espírito. Não obstante, exigiu-lhe mais do que podia dar. Esqueceu-se de que um homem chamado a efectuar a transformação do mundo, em todos os seus aspectos, não deveria morrer, como sustenta a desoladora teoria do materialismo histórico, sobre a qual fundamentou todo o seu sistema social. Como se verá, o homem de Marx morre para sempre, depois de sacrificar-se pela instituição de um mundo melhor. É um tipo de homem que não tem vinculações palingenésicas com o processo histórico: nasce e morre sem saber qual o sentido do drama do planeta.

Apesar do erro no tocante ao Ser do homem, Marx teve acertos extraordinários ao julgar o regime capitalista e com ele a “exploração do homem pelo homem”. O seu génio demonstrou à inteligência humana que o sistema de propriedade privada está obrigado a transformar-se em sistema de propriedade colectiva. Fez ver à humanidade que o socialismo, ou regime de propriedade colectiva, corresponde a um novo sentido da vida, e assim o admite a doutrina social espírita, considerando-o como um avanço para o verdadeiro advento do cristianismo. Porque no dia em que a sociedade cristã for uma realidade, ela estará assente sobre as bases da propriedade colectiva. Vejamos o que diz o Evangelho: “Em verdade vos digo que um rico — ensinava Jesus a seus discípulos, — dificilmente entrará no Reino dos Céus. em verdade vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no Reino de Deus.” (Mateus XIX, 23-24).

homem velho, que geralmente está representado no rico de que falava o Nazareno, é o que resiste à evolução do sistema social, e deverá ler e meditar profundamente este ensinamento do Divino Mestre. Porque são os ricos e poderosos, mesmo sendo cristãos, os menos concordes com a essência revolucionária do cristianismo. Recordemos o seguinte ensinamento evangélico: “Certa vez, um jovem rico perguntou a Jesus o que deveria fazer para conquistar a vida eterna, e o Mestre lhe respondeu: Se quiseres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Ouvindo o jovem estas palavras, retirou-se tristemente, porque tinha muitos haveres”. (Mateus XIX, 21-22).

Esta a razão pela qual o cristianismo nunca poderá ser a doutrina ou a religião dos ricos, potentados, latifundiários e poderosos. O cristianismo, tal como o interpreta a sociologia espírita, é uma ideia que jamais se acomodará com os interesses das classes poderosas, nem com a exploração dos humildes e o luxo desmedido dos endinheirados.

O cristianismo possui em si mesmo tudo o que Marx atribuiu (por culpa dos próprios cristãos) ao socialismo de tipo materialista. No dia em que o cristianismo se dedicar totalmente à organização social do mundo, a própria revolução comunista, tão temida na actualidade, aparecerá como um acontecimento insignificante e sem transcendência.

A comunhão de bens ou propriedade colectiva, antes do socialismo, pertenceu ao cristianismo, como sistema social. Nos Actos dos Apóstolos lê-se o seguinte: “E todos os que acreditavam estavam juntos; e tinham todas as coisas em comum (11-44). E não havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam herdades e casas vendiam-nas e depunham o valor aos pés dos apóstolos, para ser distribuído a cada um, segundo as suas necessidades.” (IV-34-35).

Esta doutrina do cristianismo primitivo mostra-nos que a ideia de propriedade colectiva, principal instrumento do socialismo moderno, já era praticada pelas primeiras comunidades cristãs. Portanto, a cristandade deverá renovar a presente estrutura social, aplicando o ideal económico ensinado por Jesus e os seus apóstolos, e evitando assim a implantação de um conceito materialista do homem e da sociedade.

Marx esboçou um indivíduo sem vinculações com o espiritual e o eterno. Acreditou que o Espírito constituía um embaraço para o advento de uma sociedade sem classes, porque tanto o filósofo como o religioso aplacavam as reivindicações dos oprimidos, falando-lhes de uma felicidade ultraterrena. Deste modo, o poderoso se livrava das reclamações de servos e servidores, hoje trabalhadores e obreiros em geral.

O autor de O Capital, conhecedor deste jogo, desliga-se do Espírito e atém-se unicamente à realidade objectiva das coisas. Concebe por isso um homem material, cujo destino termina com a sua morte física. Sente repulsa pelo espiritual e metafísico, porquanto a oligarquia e a opressão de todos os tempos têm submetido os homens, prometendo-lhes recompensas no além.

Daí o homem marxista estar desvinculado de todo conceito espiritual e religioso. Marx acreditava que a verdade jamais escraviza o homem, mas o eleva e melhora nas condições da vida social. Viu, entretanto, que a verdade espiritual praticada por cristãos, clérigos, sociólogos e filósofos, até meados do século 19, era uma verdade espiritual que exaltava os poderosos e lhes submetia os humildes e deserdados, isto é, a todos os que seguiam a Jesus. O cristianismo eclesiástico, que não é o cristianismo do Espírito de Verdade, hoje proclamado pela Terceira Revelação, prestou-se a esse jogo aviltante, que consistia em sufocar toda ideia de rebeldia entre os explorados. E Marx, por essa razão, negou aquela verdade espiritual, chegando à conclusão de que a única realidade se acha no mundo físico e na vida material do homem. Terminou sustentando que a verdade sempre libertará os indivíduos, e que toda a ideia religiosa, que tratasse de subjugá-los com promessas ultraterrenas, representaria uma falsa verdade ou um argumento das forças reaccionárias, para impedir a justiça social e a democracia.

Hoje, é reconhecida a razão de Marx, no que respeita ao socialismo, mas quanto à interpretação materialista do homem e da história, como se vem comprovando, Marx permanece num plano de absoluto equívoco. É este o motivo que dá argumentos aos misoneístas para combaterem Marx, não tanto com o fim de refutar a sua ideologia materialista, mas para defender o regime capitalista, onde os seus instintos possessivos possam continuar a obra de avareza e de egoísmo.

Se Marx nos legou uma falsa imagem do homem, foi devido ao procedimento moral, que já assinalamos, dos que se chamaram espiritualistas e cristãos, e que em vez de estarem com a mensagem de Cristo, e consequentemente com os pobres, despojados e explorados, estiveram com os poderosos e os afortunados. No nosso tempo, continua ainda este jogo de religiosos, espiritualistas e cristãos, que se protegem sob o poder estatal para defender os seus interesses de classe afortunada. Esta atitude dos poderosos frente aos humildes destrói, a cada momento, na vida dos povos, a ideia de Deus e do Espírito, a ponto de serem consideradas inexistentes, e, repetindo o que dizia Marx, continua-se a considerá-las como instrumentos mentais para aplacar os anseios de justiça.

Mas se o homem marxista é um erro no seu aspecto espiritual, e uma verdade na sua face social, o homem kardecista é uma verdade integral: o homem de Kardec é verdadeiro tanto no espiritual como no social. Estes mundos, na concepção espírita, não se excluem entre si, segundo afirma a mentalidade religioso-materialista. Para Kardec, esses dois mundos estão representados por dois elementos: o material e o espiritual, que deverão unir-se para revelar uma única realidade: a da vida universal.

Kardec nos assinala que esses elementos, o material e o espiritual, constituem as duas realidades através das quais deverá passar o Espírito do homem. Essa concepção confirma-nos que a justiça social e a justiça espiritual deverão desenvolver-se de forma paralela, já que tanto o processo visível como o invisível do homem e da história contribuem para o processo que conduz ao amor e à fraternidade sociais. Isso mostra-nos que o mundo material e o mundo espiritual se relacionam mutuamente, e que o desenvolvimento histórico se efectua mediante essas relações materiais e espirituais, ao lado do desenvolvimento da forma e da vida.

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Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo III MARX E KARDEC, 1 de 2, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea (1936) Salvador Dali)

sexta-feira, 20 de março de 2015

O Mundo Invisível e a Guerra ~

II – Cenas do Espaço. Visões Reais da Guerra e da Epopeia (III)

|Janeiro de 1915|

Breve soará, qual jubilosa marcha militar, a hora da vitória. Toda a França está de pé: a do presente e a do passado, a dos vivos e a dos mortos!

As forças invisíveis e divinas estão em acção porque a luta que se trava é grande e sacrossanta. É a luta da liberdade, do direito e da justiça contra a brutalidade armada e o despotismo cínico e grosseiro. Por isso a França não pode ser derrotada, pois a causa que defende é a da humanidade. A vitória da Alemanha seria o retrocesso da consciência, a apoteose de todos os crimes. Deus não o permitirá!

Por muitas vezes, no decorrer dos séculos, a França foi campeã das ideias humanitárias, oferecendo o seu ouro e o seu sangue na defesa dos fracos e a libertação dos oprimidos. Eis por que as suas mais estrondosas derrotas foram sempre seguidas de um rápido reerguer.

Não obstante os seus erros e as suas faltas, a França é necessária para a ordem do mundo.

Mais do que qualquer outro país, em todas as esferas, sempre serviu ao ideal, chegando inclusive ao sacrifício, porque o seu papel é humanitário.

Graças à clareza da sua língua e à lucidez do seu espírito, os princípios que defende penetram mais profundamente nas inteligências e nos corações, e todos os povos hauriram nela como numa inesgotável fonte.

No futuro, a sua influência ainda será maior, pois do seu seio surgirão missionários que irradiarão o Espiritismo sobre toda a Terra.

Poder-se-ia afirmar que a França é mulher, pois que sintetiza a beleza e a verdade, razão porque paira uma alma feminina acima dos seus espíritos protectores.

A ajuda de Joana d’Arc dará um verdadeiro rumo aos factos e restituirá à França a consciência do seu papel e do seu destino grandioso.

Com o aparecimento da Virgem Lorena, os espíritos que nos protegem sentiram aumentar a sua confiança, a sua certeza na vitória.

Inúmeros exércitos foram preparados e chegará o dia em que Joana estará à frente deles e, embora invisível, os nossos soldados experimentarão a sensação da sua presença e ela lhes transmitirá a coragem que a envolve.

Numa decisão viril, desafiando o fogo e a metralha, os soldados franceses marcharão, com conhecimento de causa, contra o inimigo. E o vento que sopra sobre as planícies da Flandres, na floresta dos Vosges, fará flutuar, novamente, as nossas bandeiras vitoriosas.

Os franceses escreverão, com o seu próprio sangue, as páginas mais gloriosas da nossa história.

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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, II – Cenas do Espaço, Visões Reais da Guerra e da Epopeia (3 de 3), 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quarta-feira, 11 de março de 2015

pensamento espírita argentino ~

CAPÍTULO I
Fundamentos científicos da concepção neo espírita da vida e da história |

Que somos? (IV)

Quando se trata de explicar a individualidade fisiológica, o positivista o faz considerando o homem como simples agregado celular, como um organismo social polizóico, análogo, segundo Dastre, a “uma cidade populosa” cujas corporações “executam tarefas diferentes e proporcionam produtos tanto mais variados quanto maior for o grau de adiantamento adquirido”. A entidade psíquica biocêntrica, a causa directriz centralizadora, não está contida na concepção empírica do eu físico.

Quando se trata de explicar a individualidade psicológica, afirma-se analogamente que esta carece de unidade substancial. Assim diz Ribot:

“A unidade não é a entidade una dos espiritualistas que se espalha em fenómenos múltiplos, mas a coordenação de certo número de estados de incessante renovação, tendo por único ponto de apoio o sentimento vago de nosso corpo. Esta unidade não vai de cima para baixo nem de baixo para cima; não é um ponto inicial, senão um ponto terminal.”

Isto equivale a dizer que o espírito não é um princípio essencial, produtor de fenómenos psíquicos, mas o resultado, o produto, destes fenómenos coordenados.

Segundo Félix Le Dantec, a individualidade transforma-se seguindo o processo lento e contínuo de seu organismo, que, como é sabido, muda incessantemente. Diz ele:

“Mas, em virtude da lei de assimilação funcional e da conexão particular das subsistências, haverá continuidade no tempo entre as diversas personalidades sucessivas e por isto o eu psicológico acompanha o indivíduo fisiológico desde o seu nascimento até à sua morte, por meio das suas modificações incessantes.”

Que o indivíduo mude de personalidade, seguindo um processo análogo ao do seu organismo, é uma verdade incontestável, mas não o é menos que a individualidade, que não muda com a personalidade, nem que o processo de transformação entre esta e o organismo seja necessariamente correlato. Por meio de todas as mudanças, o homem se reconhece o mesmo indivíduo. E esta identidade psicológica do eu não se pode explicar pela assimilação funcional nem pela conexão particular das substâncias orgânicas e funcionamentos de um mesmo eu. O Voltaire, o Hugo ou Tolstói nos anos 80, apesar de terem sido crianças, jovens, homens maduros e respectivamente anciãos, de haverem mudado de físico, de ideias, de opiniões, de conduta e até de carácter, são os mesmos indivíduos, eles mesmos se reconhecem nas suas obras, através de todas estas mudanças de personalidade e apesar também de haverem mudado muitas vezes os átomos, moléculas e as células do seu organismo.

Muitos fisiólogos, entre eles Marinesco e o mesmo Le Dantec, para salvar a concepção positivo-materialista do fracasso, atribuem à célula cerebral uma duração indefinida e o último destes sábios chega até a sustentar que a matéria viva não se destrói, conceito que já havia sustentado Haeckel, no seu “Monismo”. Admitir semelhante hipótese seria concluir que há em nós uma matéria viva permanente e outra inerte que se renova sem cessar e que sofre o influxo vital daquela, ou teria de se admitir, com Marinesco, que a célula cerebral perdura por meio da incessante renovação da matéria do resto do organismo, hipótese atrevida e de nenhum modo demonstrada pela ciência experimental.

A célula viva não pode ter uma duração ilimitada num organismo que muda constantemente. Por sua parte, os psicofisiologistas, como Geley, lançam mão de verdadeiros entes psicometafísicos, como faz Wundt com a “percepção”, a que atribui o papel unitário para conciliar a multiplicidade dos fenómenos psíquicos com a noção, hoje experimentalmente provada, da unidade do eu. Mas, como diz Boutroux, “em qualquer ponto de vista que alguém se coloque, a multiplicidade não contém a razão da unidade”.

O ponto de apoio da psicologia positiva é a célula nervosa, a que se atribui a faculdade de sentir, de transmitir e assimilar as sensações e, por sequência, de produzir por si mesma e em relação com as demais, todos os fenómenos psicológicos. Para atribuir-lhe tal faculdade, o positivismo deve demonstrar antes, experimentalmente, que a célula nervosa está dotada de um psiquismo particular e é capaz de ter espontaneidade. Sabe-se que é irritável, mas nada tem demonstrado ainda que tenha sensibilidade, consciência e disposições próprias para exercer espontaneamente as suas funções e associar-se deliberadamente para realizar uma acção conjunta e menos ainda para transmitir por assimilação a ideia de individualidade, a consciência do eu único e indivisível. Afirma Claude Bernard:

“A matéria por si mesma é inerte e até mesmo a matéria viva, neste sentido, deve ser considerada como desprovida de personalidade.”

A célula não trabalha, pois, por si mesma; não tem participação voluntária nos fenómenos psíquicos; trabalha sob a impulsão de estímulos externos e internos; a alma é que tem a faculdade de sentir, de ter consciência das suas sensações e de dirigir, consciente ou inconscientemente, todos os fenómenos que se realizam nela. Quando, por exemplo, ferimos um dedo, não é o centro táctil, senão nós que sentimos a dor e temos consciência desta dor, ao mesmo tempo em que a parte em que se supõe localizada a sensação nada sabe. Quando as ondas luminosas chegam aos nossos olhos penetram pelas pupilas e formam sobre a retina a imagem de uma formosa paisagem que se encontra num quadro posto ante a nossa vista, e por um movimento do nervo óptico, a excitação que provoca transmite-se ao centro visual, dando-nos a imagem dessa paisagem, perguntamos: é um acaso o centro visual ou sensorial ou os centros de associação que vêm o quadro, os que têm consciência da beleza da paisagem, os que apreciam o seu valor estético, admiram os variados matizes do colorido, a perspectiva, os efeitos de luz, a regular proporção das suas partes, os que fazem, enfim, o seu juízo crítico? Ou somos nós, seres espirituais (ainda que unidos à matéria) dotados de sensibilidade artística, de sentimento estético, de faculdades de apreciação e discernimento? O que sabe o centro visual do sentimento e da beleza, o centro auditivo, da emoção que produz na minha alma um trecho de música selecta, o centro táctil, da sensação que produz a carícia de uma mãe, ou o centro da memória, do amor ou do ódio que desperta uma lembrança? Em virtude de que lei, de que princípio e obedecendo a que mandato, a que poder centralizador, as percepções e sensações se associam para dar unidade à consciência, formar pensamentos, coordenar ideias e juízos ou tomar determinações?

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Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (IV), 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Corpo fluídico | agénere ou aparição tangível ~


Capítulo Segundo

KARDEC E O CORPO FLUÍDICO

O pensamento de Allan Kardec sobre o corpo fluídico pretendido para Jesus foi por ele manifesto, de modo muito claro, principalmente nas seguintes obras: "Revista Espírita", que ele fundou e editou até 1869; "A Génese", livro publicado em 1868; e em "Obras Póstumas". Sobre esse seu pensamento não pode haver nenhum tipo de sombra, pois não comporta tergiversações, não dá margem a interpretações dúbias. Quando os autores do livro "Allan Kardec" disseram que "maiores teriam sido as dificuldades à sequência do desenvolvimento doutrinário e evangélico, se Kardec tivesse dado cobertura aos ensinos contidos em "Os Quatro Evangelhos", não estavam apenas enganados sobre o pensamento do Codificador, mas forçando uma visão que os factos desautorizam.

Antes de passar em revista o estudo de Kardec sobre o assunto, façamos uma retrospecção acerca do relacionamento que ele manteve, ou melhor, que com ele mantiveram Roustaing e a médium Emilie Collignon.

De início, diga-se que esse relacionamento não foi estreito nem constante. A "Revista Espírita" informa que a primeira correspondência trocada entre ambos ocorreu em março de 1861, quando Roustaing endereçou uma carta a Kardec informando-o de sua adesão ao Espiritismo. Não se sabe se Kardec respondeu ou não à carta do novo adepto, entretanto, em junho do mesmo ano o Codificador publicou a segunda carta recebida de Roustaing, bastante longa, seguida de comentários sobre a maneira judiciosa que este expunha sobre a Doutrina, mormente em se tratando de uma pessoa iniciante. Roustaing era um destacado advogado em Bordéus, onde também presidira a Ordem dos Advogados, facto que contribuiu para que Kardec publicasse a carta (já que não houvera publicado a primeira), pois tratava-se de mais uma pessoa de cultura e destaque na sociedade a interessar-se pelo Espiritismo. Depois dessa, mais quatro vezes, apenas, Roustaing aparece na "Revista Espírita": a primeira, quando Kardec noticia o recebimento de "Os Quatro Evangelhos", em junho de 1866, e tece os seus primeiros comentários a respeito dessa que era (e ainda é) a principal obra de defesa da doutrina do corpo fluídico de Jesus; a segunda vez já no ano seguinte, 1867, quando uma ligeira correspondência sua é publicada, a seu pedido, para rectificar um erro de revisão cometido na sua obra "Os Quatro Evangelhos".

Além desses aparecimentos Roustaing é citado num discurso do Dr. Bouché de Vitray, realizado quando Kardec visitou, em 1861, a cidade de Bordéus, no qual destaca a participação do advogado na conversão dele, Bouché, aoEspiritismo, e num artigo extraído de "Soleil", publicação não espírita, em que o autor tece criticas ao Espiritismo e cita um tanto irónico a obra "Os Quatro Evangelhos". Esse artigo está inserido na edição de Setembro de 1866 da Revista.

Assim como Roustaing, as apariçoes da médium Emilie Collignon na "Revista Espírita" e o seu relacionamenta com Kardec são pequenos. Em 1862, escrevem de Bordéus ao Codificador (não há menção do missivista) narrando a tentativa realizada por um padre para impedir que certa senhora, católica, viesse a acreditar no Espiritismo. Essa senhora era exactamente a genitora da médium. Emilie Collignon, que por sua vez escreve ao padre rebatendo-o de forma bastante segura. A carta da médium foi publicada na "Revista Espírita", na sua edição de Maio de 1862. Apartir daí, Emilie Collignon aparece algumas vezes na Revista, com a publicação de mensagens mediúnicas por ela recebidas. Em 1864, mês de junho, Kardec fala do aparecimento do opúsculo intitulado "Conselhos às mães de família", por ela psicografado, e diz que "tem a satisfação de aprovar esse trabalho sem reservas", pelo "estilo simples, claro, conciso, sem ênfase nem palavras para encher vazios de sentido". No ano seguinte, Kardec noticia com satisfação o aparecimento de um novo opúsculo - "Palestras familiares sobre o Espiritismo" - também da médium. Posteriormente, em 1866, ela retorna, agora como responsável pelos "Quatro Evangelhos", para depois não mais aparecer enquanto sob a direcção do Codificador esteve a "Revista Espírita".

Em 1866, Kardec falou de forma directa sobre o corpo fluídico de Jesus. O motivo foi o lançamento da obra intitulada "Os Quatro Evangelhos" ou "Revelação da Revelação", psicografada por Emilie Collignon sob a supervisão do advogado J.-B. Roustaing. Nessa ocasião, não foi ele objectivamente contra a teoria do corpo fluídico, que considerou como base da obra em destaque e sem a qual "todo o edifício desabaria", mas disse que os prodígios relativos a Cristo poderiam ser "perfeitamente explicados sem sair das condições da humanidade corporal". Asseverou, por outro lado, que "quando tratasse da questão, fá-lo-ia decididamente. O comentário, na íntegra, é o seguinte:

"Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo Livro dos Espíritos e o dos Médiuns. As partes correspondentes às que tratamos no Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras excepções, são claras, estas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; assim, jamais foram assunto para controvérsias religiosas. Por esta razão é que por aí começamos, a fim de ser aceite sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a ideia espírita.

"O autor desta nova obra julgou dever seguir um outro caminho. Em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda, e das quais, por consequência, lhe deixamos a responsabilidade, como aos Espíritos que as comentaram. Consequente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação nem desaprovação, deixando ao tempo o trabalho de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas e que, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da doutrina espírita.

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Wilson GarciaO Corpo Fluídico, Capítulo Segundo – KARDEC E O CORPO FLUÍDICO, 1 de 5, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Pintura de Josefina Robirosa)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Inquietações Primaveris ~

Os vivos e os mortos (II)

Se no plano espiritual a posição assumida pelos espíritos fosse a mesma dos homens, seríamos considerados como espíritos mortos. Porque o espírito que se encarna na Terra, afastando-se da realidade viva do espírito, é praticamente sepultado na carne. Nos planos inferiores do mundo espiritual, apegados à crosta terrena, os espíritos inferiores que o habitam consideram-se como mortos na carne, pois perderam as prerrogativas do espírito livre. Mas os espíritos que atingiram planos superiores compreendem essa inversão de posições e os encaram como companheiros temporariamente afastados do seu convívio, para fins de desenvolvimento das suas potencialidades nas lutas terrenas. Dessa maneira, mortos e vivos somos todos. Revezamo-nos na Terra e no Espaço porque a lei de evolução exige o nosso aperfeiçoamento contínuo. Se no plano espiritual os limites das nossas possibilidades de aprendizagem se esgotam, por falta de desenvolvimento dos potenciais anímicos, retornamos às duras experiências terrenas.

A reencarnação é uma exigência do nosso atraso evolutivo, como a semeadura da semente na terra é a exigência básica da sua germinação e do seu crescimento. Assim, nascimento e morte são fenómenos naturais da vida, que não devemos confundir com desgraça ou castigo.

Só os homens matam para vingar-se ou cobrar dívidas afectivas. Deus não mata, cria. Ao semear as mónadas nos planetas habitáveis, não o faz para matar-nos, mas para podermos germinar e crescer como a relva dos campos. A mónada é a centelha de pensamento divino que encerra em si, como que a semente do vegetal, todo o esquema da vida e da forma humana que dela nascerá no seio dos elementos vitais da carne.

Os materialistas acreditam que o esperma e o óvulo ocultam em si mesmos todas as energias criadoras do homem. Mas os progressos actuais da genética animal e da genética humana os despertaram para a compreensão da existência de um mecanismo oculto no sémen, do qual depende a própria fecundidade deste.

Podemos dizer que Deus não trabalha com coisas, mas com leis. As pesquisas parapsicológicas revelaram que o pensamento é a energia mais poderosa de que podemos dispor. Essa energia não se desgasta no tempo e no espaço, não está sujeita às leis físicas, nem respeita as barreiras físicas. É ele a única energia conhecida que pode operar as distâncias ilimitadas do Cosmos. Se podemos verificar isso nas experiências telepáticas, de transmissão de pensamentos entre as distâncias espaciais e temporais que todas as demais energias não conseguem vencer, devemos pensar no poder infinito do pensamento criador de Deus.

Mas o orgulho humano se alimenta da sua própria ignorância e prefere colocar-se acima da própria Divindade. Por isso o cientista soviético Vassiliev (i) não aceitou a teoria de Rhine – a natureza extrafísica do pensamento – e procedeu a uma experiência na Universidade de Leningrado para demonstrar o contrário. Mas não obteve as provas que desejava e limitou-se a contestar Rhine com argumentos, declarando simplesmente que o pensamento se constitui de uma energia física desconhecida. Até agora, nem mesmo do Além, para onde a morte o transferiu, à sua revelia, não conseguiu a refutação desejada. Esse é um episódio típico da luta dos negativistas contra a inegável realidade da natureza espiritual do homem. É inútil disputar com eles, que mesmo quando cientistas, se apegam rigidamente às suas convicções, de maneira opiniática.

Outro exemplo importante foi o do filósofo Bertrand Russell, que ante o avanço científico actual, declarou: “Até agora as leis físicas não foram afectadas.” Como não foram, se toda a concepção física do mundo se transformou no contrário do que era, revelando a inconsistência da matéria, a sua permeabilidade, a existência da antimatéria e a possibilidade cientificamente provada da comunicação dos mortos? Bastaria isso para mostrar que a Física envelhecida de meio século atrás levou Einstein a exclamar: “O materialismo morreu asfixiado por falta de matéria”. O famoso físico americano, pousando um braço sobre uma mesa, disse: “Meu braço sobre esta mesa é apenas uma sombra sobre outra sombra."

Essa atitude opiniática de materialistas ilustres decorre da alergia ao futuro de que falou Remy Chauvin, director do laboratório do Instituto de Altos Estudos de Paris. Por outro lado, temos de considerar a influência da tradição no próprio meio científico e as posições dogmáticas das correntes opostas do religiosismo igrejeiro e das ideologias materialistas, como as do Positivismo, do Pragmatismo e particularmente do Marxismo. A prova científica da existência do perispírito, o corpo espiritual da tradição cristã, chamado pelos investigadores soviéticos da Universidade de Kirov, a mais importante da URSS, de corpo bioplásmico, foi simplesmente asfixiada pelo poder estatal. Nos Estados Unidos não se tentou repetir a façanha de Kirov porque a descoberta do corpo bioplásmico fere os interesses teológicos das igrejas cristãs. O religiosismo fideísta das igrejas, agora reforçado com o religiosismo político e estatal do materialismo, formam hoje a dupla que, agindo em forma de pinça, impede novamente o desenvolvimento da Ciência.

Nos Estados Unidos chegou-se ao extremo da divulgação científica de um documento lançado por instituições científicas, declarando que as descobertas produzidas pelas câmaras Kirlian, de fotografias paranormais, não passavam do conhecido efeito corona. E Rhine, o grande confirmador da Ciência Espírita, foi posto à margem dos meios científicos oficiais, apesar do seu sucesso em todas as Universidades do mundo.

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(i) Leonid Leonidovitch Vassiliev 1891–1966



Herculano Pires, José – Educação para a Morte, Os Vivos e os Mortos 2 de 2, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)