terça-feira, 4 de outubro de 2016

Alfred Russel Wallace e o Sobrenatural ~

III - Os Milagres Modernos vistos como Fenómenos Naturais ~

Um argumento contra os milagres muito poderoso entre os homens de inteligência (e especialmente entre aqueles que se acostumaram com o amplo escopo das revelações da ciência moderna), é derivado do pressuposto prevalecente de que, se reais, eles são actos directos da divindade. Frequentemente, a natureza destes actos é tal que nenhuma mente educada pode por um momento imputá-los a um ser infinito e supremo. Poucos, se alguns, dos famosos milagres nos parecem ser dignos de Deus; e é o próprio homem de ciência quem está melhor capacitado a formar uma concepção própria da distância e da dificuldade para aproximar-se da natureza dos atributos que devem pertencer à mente suprema do universo. Contudo, é estranho dizer que, na maioria dos casos, o homem de ciência é ilógico suficientemente para considerar as dificuldades desta pressuposição como um argumento válido contra a existência dos factos em questão, em lugar de ser apenas um argumento contra a forma de interpretá-los. Ele ainda toma esta objecção mais adiante, pelo igualmente infundado pressuposto de que quaisquer seres que na possibilidade consigam produzir os fenómenos alegados devam ser de uma ordem mental superior e, portanto, se os fenómenos não estão de acordo com suas ideias da dignidade das inteligências superiores, ele simplesmente condena os factos sem examiná-los. Ainda muitos dos que  o objectam admitem que a mente do homem provavelmente não é aniquilada com a morte e que, por conseguinte, incontáveis, milhões de seres, estão constantemente passando para outro modo de existência e que, a menos que o milagre da transformação mental aconteça, eles devem continuar sendo muito inferiores. Portanto, qualquer argumento contra certos fenómenos terem sido produzidos por inteligências sobre-humanas, considerando a natureza trivial ou inútil de tais fenómenos, não traz qualquer suporte real lógico para a questão. A pressuposição de que todas as inteligências sobre-humanas são mais inteligentes que a média da humanidade é completamente gratuita e impotente para refutar factos, da mesma forma que os oponentes de Galileu, quando afirmaram que os planetas não podiam exceder ao numero perfeito, sete, e que, portanto, os satélites de Júpiter não podiam existir. Vamos voltar às considerações da natureza provável e dos poderes destas inteligências sobre-humanas, cuja possível existência é o meu objecto a ser sustentado no presente.

Eu tenho razões para supor que pode haver, e provavelmente há, outras (e talvez infinitamente variáveis) formas de matéria e modos de movimento etéreo além daquele que os nossos sentidos nos permitem reconhecer, com base na primeira parte deste artigo. Nós precisamos então admitir que deve haver, e possivelmente há, organizações adaptadas para agir sobre e a receber impressões destas formas de matéria. No universo infinito deve haver possibilidades infinitas de sensações, cada uma tão distinta das demais como a visão o é do paladar ou da audição, e tão capaz de estender a esfera de conhecimento e desenvolvimento do intelecto daquele que a possui como o sentido da visão ao ser adicionado aos demais sentidos que possuímos. Os seres de uma ordem etérea, se existirem, provavelmente possuem um ou mais sentidos da natureza acima referida, o que lhes permite uma compreensão maior da constituição do universo e uma inteligência proporcionalmente ampliada a guiar e dirigir para fins especiais aqueles novos modos de movimento etéreo com os quais eles estariam aptos a lidar. Cada faculdade que eles possuem deve proporcionar os modos de acção no éter. Eles devem ter uma capacidade de movimento tão rápida quanto a luz ou a corrente eléctrica. Devem ter uma capacidade de visão tão aguda quanto a dos nossos mais poderosos telescópios e microscópios. Devem ter um sentido de alguma forma análogo aos poderes de um dos últimos triunfos da ciência, o espectroscópio, e por meio dele são capazes de perceber instantaneamente a constituição íntima da matéria em cada uma das suas formas, seja nos seres organizados ou nas estrelas e nebulosas. Tais existências, possuidoras de poderes inconcebíveis para nós, não seriam sobrenaturais, a não ser num sentido muito limitado e incorrecto do termo. E se tais poderes são postos em acção de maneira a serem percebidos por nós, o resultado não seria um milagre, no sentido em que o termo é empregado por Hume ou TyndallNão haveria qualquer "violação de uma lei da natureza", nenhuma violação da "lei de conservação da energia". Nenhuma matéria ou força seria criada ou aniquilada, mesmo que assim nos parecesse. Num universo infinito, o grande reservatório de matéria e de força deve ser infinito; e o facto de um ser etéreo ser capaz de exercer força-extraída talvez do éter sem fronteiras, talvez das energias vitais dos seres humanos - e realizar os seus efeitos visíveis a nós como uma aparente ‘criação’ seria um milagre tão real quanto o perpétuo crescimento de milhões de toneladas de água do oceano, ou o perpétuo exercício de força animal sobre a Terra, os quais nós apenas recentemente ligamos ao sol, e talvez de forma remota o sejam a outras e variadas fontes perdidas na imensidade do universo. Tudo continua sendo natural. As grandes leis da natureza ainda manteriam a sua inviolável supremacia. Nós devemos apenas confessar, como um moderno homem de ciência, que "os nossos cinco sentidos são nada mais que instrumentos toscos para investigar o imponderável", e deveríamos ver um novo e mais profundo significado nas muito citadas mas pequenas palavras cuidadosas do grande poeta, quando ele nos lembra que "há mais coisas no céu e na Terra que supõe a nossa filosofia". (i)

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(i) Shakespeare, em Hamlet. Nota do tradutor.


Alfred Russel WallaceO Aspecto Científico do Sobrenatural, III Os milagres modernos vistos como fenómenos naturais 1 de 2, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel, detalhe, de Edgard Maxence)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~

O movimento pancéltico (IV)

Desde a Grande Guerra (a primeira), a propaganda céltica tomou um novo impulso.

A Liga Céltica Irlandesa organizou festas, reuniões solenes periódicas, inicialmente em Dublin, depois em cada uma das cidades da Irlanda.

No País de Gales, muitas Assembleias solenes foram realizadas. A de 1923 foi presidida pelo arquidruida de Gales, auxiliado por um arquidruida australiano e um da Nova Zelândia.

Esses detalhes nos demonstram que o movimento céltico se propagou até aos antípodas. Em todos os lugares as multidões célticas se comportam com paixão nessas Assembleias, onde são realizados torneios de poesia, de música e improvisações oratórias. E, por essas manifestações, se renovam e se asseguram, sem cessar, a vitalidade da raça, a sua vontade de ficar unida num pensamento supremo e importante, unida num ideal comum!

Assim se realiza o sonho céltico previsto pelos bardos.

Através das duras vicissitudes de sua história, a raça céltica sempre afirmou a sua vontade de viver, a sua fé inabalável em si mesma e no seu futuro e isso, principalmente, nas horas em que tudo parecia perdido. Mas a sua obra é puramente pacífica. O que se agita no fundo de sua alma não é uma necessidade de poderio material, mas apenas o sentimento da sua nobre origem e dos seus direitos.

Assim disse Lord Castletown:

“A ideia céltica é uma ideia de concórdia e de fraternidade, e isso está escrito em todos os lugares, nas lendas e nos dogmas filosóficos da raça.”

Todos os iniciados sabem que o Celtismo renovador levará à Europa este complemento da ciência e da religião que lhe falta, isto é, um conhecimento maior do mundo invisível, da vida universal e de suas leis. Está aí, com efeito, o único meio de atenuar o declínio das raças brancas, orientando a sua evolução em direcção a um objectivo mais elevado e de melhores destinos.

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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO I – Origem dos celtas, Guerra dos gauleses, Decadência e queda, Longa noite, o despertar, O movimento pancéltico, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: The Apotheosis of the French Heroes who Died for their Country During the War for Freedom_1802, pintura de Anne-Luis GIRODET-TRIOSON)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O Espiritismo na Arte ~


Parte II

– A Inspiração e a Evolução da Arte e do Pensamento

|Fevereiro de 1922|

O objectivo deste tópico é, principalmente, mostrar o considerável papel que a inspiração desempenhou em todos os tempos na evolução da arte e do pensamento. Todos os estudantes do oculto sabem que uma onda de ideias, de formas, de imagens, se derrama incessantemente do mundo invisível sobre a humanidade. A maior parte dos escritores, dos artistas, dos poetas, dos inventores, conhece essas correntes poderosas que vêm fecundar o seu cérebro, ampliar o círculo das suas concepções.

Ora a inspiração se introduz suavemente no nosso intelecto, se mistura intimamente no nosso próprio pensamento, de tal forma que se torna impossível distingui-la, ora é uma irrupção súbita, uma invasão cerebral, um sopro que passa sobre as nossas frontes e nos agita fortemente numa espécie de febre. Outras vezes é como uma voz interior, tão nítida, tão clara que parece vir de fora para nos falar de coisas graves e profundas. Uma corrente de forças e de pensamentos agita-se e rola em torno de nós, buscando penetrar os cérebros humanos dispostos a recebê-los, a assimilá-los, a traduzi-los sob a forma e a medida de suas capacidades, do seu grau de evolução. Uns o exprimem de uma forma mais ampla, outros, de forma mais restrita, de acordo com as suas aptidões, com a riqueza ou a pobreza das expressões que lhes são familiares e os recursos da sua inteligência.

As lições de o Esteta, que reproduzimos mais adiante, vão determinar os diversos caracteres da inspiração, segundo os casos.

Entre os homens de talento, muitos reconheceram essas influências invisíveis. Vários descrevem o estado vizinho ao do transe, em que a elaboração de uma grande obra os lança. Outros falam da onda ardente que os penetra, do fogo que corre nas suas veias e provoca uma super excitação que centuplica as suas faculdades. Às vezes procuram, inutilmente, resistir a essa força que os domina, os subjuga e destruiria o seu envoltório, caso fosse contínua. Existem os que sucumbiram a essa acção soberana e morreram prematuramente, como Rafael, na flor da idade.

Lamartine  descreveu esse estado em versos célebres:

Mais à l’essor de la pensée
L’instinct des sens s’oppose em vain:
Sous le dieu mon âme oppressée
Bondit, s’elance et bat mon sein.
La foudre en mes veines circule,
Etonné du feu qui me brûle.
Je l’irrite en le combattant.
Et la lave de mon génie
Déborde en torrents d’harmonie
Et me consume en s’échappant.

(Méditations Poétiques)

Romain Rolland  descreve, nestes termos, o caso especial de Michelangelo (Revue de Paris, 1906, e Cahiers de la Quinzaine):

A força do talento que provém do Deus oculto não se manifesta mais claramente senão num homem sem vontade, como Michelangelo. Jamais um homem foi a sua presa dessa forma. Esse talento não parecia da mesma natureza que ele; era um conquistador, que havia se lançado sobre ele e o mantinha escravizado. A sua vontade não tinha nenhum poder e quase se poderia dizer, nenhum poder tinham o seu espírito e o seu coração. Era uma exaltação frenética, uma vida formidável num corpo e uma alma muito fracos para conte-los.

Encontra-se em Goethe (Cartas a uma Criança), os seguintes detalhes sobre Beethoven:

Beethoven, falando da fonte de onde lhe vinha a concepção de suas obras-primas, dizia a Bettina:

“Eu me sinto forçado a deixar transbordarem, por todos os lados, as ondas de harmonia que provêm do foco da inspiração. Tento segui-las, e as agarro apaixonadamente; de novo elas me escapam e desaparecem entre a multidão das distracções que me cercam. Logo eu volto a agarrar a inspiração com ardor, arrebatado, multiplico todas as suas modulações e, no último momento, triunfo com o primeiro pensamento musical.

Devo viver sozinho comigo mesmo. Sei bem que Deus e os anjos estão mais perto de mim, na minha arte, que os outros. Comunico-me com eles e sem temor. A música é uma das entradas espirituais nas esferas superiores da inteligência.”

Mozart, por sua vez, numa de suas cartas a um amigo íntimo, inicia-nos nos mistérios da inspiração musical. Essa carta foi publicada em A Vida de Mozart, por Holmes, em Londres, 1845:

Dizes que gostavas de saber qual é a minha maneira de compor e qual é o meu método. Verdadeiramente eu não posso dizer-vos mais do que o que vou falar, porque eu mesmo não sei nada a respeito e não me consigo explicar.

Quando estou bem disposto e completamente só, durante o meu passeio, os pensamentos musicais me vêm em abundância. Não sei de onde vêm esses pensamentos, nem como eles me chegam, a minha vontade não tem nenhum poder nisso.

Schiller declarou que os seus mais belos pensamentos não eram de sua própria criação, eles lhe vinham tão rapidamente e com uma tal força que ele tinha dificuldade em compreendê-los bastante rapidamente para transcrevê-los.

Michelet também parece estar, em certas horas, sob o domínio de algum poder incomum. Falando da sua História da Revolução Francesa, ele diz:

Jamais, desde a minha Virgem de Orléans, eu havia recebido semelhante emanação do Alto, uma visita tão luminosa do céu... Inesquecíveis dias, quem sou eu para tê-los narrado? Eu ainda não sei, e não saberei jamais, como pude reproduzi-los. A incrível felicidade de reencontrar isso tão vivo, tão abrasador, após sessenta anos, encheu-me o coração de uma alegria heróica.

O poder da inspiração se traduz de uma maneira mais sensível ainda em Henri Heine.

Eis o que ele dizia no prefácio da sua tragédia William Radcliff:

Escrevi William Radcliff em Berlim, enquanto o Sol iluminava com os seus raios, antes enfadonhos, os tectos cobertos de neve e as árvores desprovidas das suas folhas; eu escrevia sem interrupção e sem fazer rasuras. Sempre escrevendo, parecia que eu ouvia, acima da minha cabeça, como que um barulho de asas...

Poderíamos multiplicar as citações do mesmo género, e nelas veríamos que a inspiração varia segundo a sua natureza. Nuns, o cérebro é como um espelho que reflecte as coisas escondidas e envia as suas radiações sobre a humanidade. Sob mil formas, ela penetra os sensitivos e se impõe.

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LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte II – A inspiração e a evolução da arte e do pensamento, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Auto-retrato, o "príncipe dos pintores" artista referido de aura mística que morreu no dia em que completava 37 anos, Rafael Sanzio)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

literatura do além-túmulo ~


Prefácio |
(por Deolindo Amorim)

O título desta obra sugere, a princípio, que a mesma trata de trabalho, como tantos outros, recebido do além; entretanto o que se encontra em Literatura de Além-túmulo é um estudo, bem documentado, acerca da produção literária que, através de inúmeros médiuns, nos tem chegado do mundo espiritual.

Formulado sob a autoridade de um nome mundial, Ernesto Bozzano, este livro não se destina exclusivamente aos espíritas, porque a forte e abundante argumentação, que nele se condensa, pode enfrentar objecções de qualquer natureza, pois é uma obra que não teme a dialéctica nem o sofisma académico.

Sabe-se muito bem que, em matéria de comunicações do além, há muita coisa que deve ser rejeitada, mas também se sabe que na literatura mediúnica se registam factos suficientemente comprovados.

Ernesto Bozzano, homem de ciência, pesquisador frio e severo, é o primeiro a reconhecer que muitos ditados psicográficos não suportam crítica, nem mesmo superficial. O acatado mestre europeu entra no assunto com espírito de análise. Faz confrontos, apresenta factos, tira conclusões seguras e, por fim, sustenta a tese espírita com absoluta convicção à luz de documentação convincente. Não é por uma comunicação duvidosa que se julga todo o volumoso património da literatura mediúnica. Bozzano demonstra, logo de início, que há comunicações que realmente não passam de elaboração onírico-subconsciente, com personalizações sonambúlicas, diz ele, evidentemente grosseiras, mas é preciso que se saiba distinguir tais comunicações das importantes mensagens ou páginas literárias em que o médium não tem a menor participação intelectual.

Muitos adversários do Espiritismo, sempre que se fala em comunicações do “outro mundo”, apelam para a hipótese do subconsciente. Fizeram do subconsciente uma porta de saída para todas as situações. Ernesto Bozzano cita, no entanto, casos em que de maneira alguma se poderia invocar a possibilidade de haver um médium armazenado no subconsciente certos conhecimentos revelados inesperadamente.

Entre vários exemplos, para provar que a literatura do além é real, autêntica, incontestável, o autor introduziu no livro um facto curiosíssimo: uma senhora, que era médium, recebeu, em transe mediúnico, uma obra intitulada Evangelho suplementar. Nesse Evangelho, ditado na presença de pessoas de responsabilidade, inclusive o rev. John Lamond, há conhecimentos de história religiosa, de línguas antigas, etc., e a médium não tinha cultura de tais assuntos, segundo apurou o próprio rev. Lamond.

Outro facto de que se ocupa, munido de documentos, é o do célebre romance A Cabana do Pai Tomás. Muita gente sabe que esse romance, aliás de fundo social, chegou a ser filmado e esteve durante muito tempo em cartaz nos nossos cinemas. Admitiu-se, depois, a possibilidade de haver sido essa obra, de tão grande influência na vida norte-americana, transmitida mediunicamente à sra. Harriet Beecher-Stowe. Lê-se em Literatura de Além-túmulo o trecho em que a escritora Beecher-Stowe confessa francamente: “Não fui eu quem a escreveu”, isto é, A Cabana do Pai Tomás. E acrescenta: “Deus a escreveu. Foi ele quem ma ditou”. Diante dessa afirmativa, Ernesto Bozzano inclina-se para a hipótese mediúnica.

É um livro, portanto, de observações, factos e crítica. Aqueles que tiverem ocasião de ler Literatura de Além-túmulo, ainda que não entendam de Espiritismo, ficarão seguramente orientados para entrar no campo da produção mediúnica.

É, finalmente, um livro que deve figurar em toda estante de obras espíritas.

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Ernesto Bozzano (i)Literatura de Além-túmulo, Prefácio por Deolindo Amorim (i), 1º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac_1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

domingo, 14 de agosto de 2016

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar as idades


Algumas respostas mediúnicas

Júlio Bois, em seu importante livro Le Mirage Moderne, faz um detido estudo sobre Victor Hugo espírita. Diz que o poeta abraçou o espiritismo a seis de Setembro de 1855, em Jersey, tendo como iniciadora Madame Émile de Girardin. O médium das sessões assistidas por Hugo era o seu filho Carlos. Este não sabia inglês, não obstante um dia chegou um britânico que tinha desejos de relacionar-se com Lord Byron. Esta entidade espiritual não se fez esperar e disse assim:

Vex not the bard, his lyve broken,
His lasta son sung, his last word sponen.

Prosseguindo o poeta com os trabalhos tiptológicos, conseguiu que Ésquilo se expressasse em admiráveis versos do seguinte modo:

"Não, o homem não será jamais livre na terra. Ele é o triste prisioneiro do bem, do mal, do belo. Por uma lei misteriosa, não pode gozar de liberdade senão quando se converte em prisioneiro do túmulo. Fatalidade, leão pelo qual a alma é devorada, tenho eu pretendido dominar-te com braço ciclópico, tenho pretendido levar sobre minhas costas atigrada pele e gostava que de mim dissessem: "Esquilo nemeu". Não o consegui, a fera humana destrói também as nossas carnes com as suas garras eternas; o coração do homem está repleto de gritos de ódio e esta fossa de leões não tem Daniel. Depois de mim veio Shakespeare, viu as três bruxas, oh Neméia! chegarem do fundo da selva e derramarem nos nossos corações as suas caldeiras revoltas, os filtros monstruosos do imenso segredo. Depois de mim, o domador, chegou o caçador a esta grande selva do limite do mundo. E como olhasse em sua alma profunda, Macbeth gritou: "Fujamos", e Hamlet disse: "Tenho medo". Salvou-se. Moliére apareceu então no limítrofe e disse: "Vejamos se a minha alma morre. Comendador, vem cear''. Mas no banquete de pedra, Moliére tremeu enquanto empalidecia don Juan. Mas, qualquer que seja o especto, a bruxa ou a sombra, eras sempre tu, leão, com a tua garra de ferro. Tu enches de tal modo a grande selva sombria, que Dante te encontra ao entrar no Inferno. Tu não és dominado senão quando a morte devoradora te arranca com dentes a alma em pedaços, se apodera de ti na selva profunda, secular, e te mostra com o dedo a tua jaula: o túmulo.''

Um dia Victor Hugo se dirigiu ao espírito de Moliére em magníficos versos, para dizer-lhe: "Os reis e vós, lá em cima, trocam de roupagem? Luís XIV no céu não é teu criado? Francisco I é o louco de Triboulet? Creso é lacaio de Esopo?"

Moliére não respondeu; fê-lo uma entidade espiritual chamada A Sombra do Sepulcro, dizendo:

"O céu não castiga com semelhantes artifícios e não converte em louco a Francisco I. O inferno não é um baile de grotescos comparsas, no qual o negro castigo seria o alfaiate".

O poeta não ficou satisfeito com a resposta. Mas noutro dia as entidades invisíveis pediram-lhe que as interrogasse em versos. Victor Hugo declarou "que não sabia improvisar desse modo", razão porque pediu fosse marcada uma reunião mediúnica.

No dia seguinte, ao ditar Moliére tiptologicarnente o seu nome, o poeta respondeu recitando com forte acento os seguintes versos (i) :

Oh, tú, que la manopla de Shakespeare recogiste,
Que cerca de su Otelo tu Alcestes esculpiste,
Sombrío de pasión!
!Oh, sol, que resplandeces en doble espacio y vuelo;
Poeta desde el Louvre, y arcángel en e! cielo!
Tu espléndida visita honora mi mansión.
?Me tenderás arriba tu hospitalaria mano?
Que caven en el césped mi fosa: sin pesar,
Sin miedo la contemplo; la tumba no es arcano;
Yo sé que en ella encuentra prisión e! cuerpo vano,
Mas sé también que el alma suas alas ha de hallar.

Moliére, porém, não respondeu. "Le Journal", de 20 de Julho de 1899, disse que houve expectativa e que respondeu novamente A Sombra do Sepulcro, resposta esta que não se pode ler sem sentir urna certa admiração por sua irónica grandeza. Eis, aqui, os versos ditados tiptologicarnente:

!Espíritu que quieres saber nuestro secreto,
Que en tus tinieblas alzas la antorcha terrena!,
Que a tientas y furtivo, pretendes indiscreto,
Forzar la inmensa tumba, là puerta funeral!
!Retorna a tu silencio y apaga tus candeias;
Retorna hacia la noche profunda en donde velas,
Dejando algunas veces tu densa oscuridad;
Los ojos terrenales, aun vivos, aun abiertos,
No leen por encima de! hombro de los muertos
La augusta eternidad!

(i) A tradução é do reconhecido poeta espanhol SalvadorSellés. N. do Autor.

Victor Hugo, ao ver-se tão duramente tratado, objectou a entidade comunicante dizendo-lhe que empregava expressões simbólicas. A Sombra do Sepulcro respondeu-lhe assim:

"Imprudente! Exclamas: A Sombra do Sepulcro fala em linguagem mundana, emprega imagens bíblicas, serve-se de palavras, metáforas, fábulas, para dizer a verdade... A Sombra do Sepulcro não é uma ficção, mas uma realidade. Se desço a falar vossa gíria em que o sublime consiste em armar algum estrondo, é porque sois insignificantes. A palavra é um aguilhão do espírito; a imagem, a golilha do pensamento; vosso ideal, o grilhete da alma; vossa sublimidade um fundo da masmorra; vosso céu, a abóbada de uma gruta; vossa língua, um ruído enfeixado num dicionário. Minha linguagem é a Imensidade, o Oceano, o Furacão. Minha biblioteca contém milhares de estrelas, milhares de planetas e constelações. Se quereis que fale a minha linguagem, sobe ao Sinai e me ouvirás nos raios; sobe ao Calvário e me verás nos relâmpagos; desce ao sepulcro e me sentirás na clemência".

Na carta que em 1855 dirigiu a Emilia de Girardin, o poeta escrevia: "As mesas nos dizem coisas surpreendentes. Todo um sistema quase cosmogónico por mim pensado e escrito em vinte anos foi confirmado com grandeza magnífica. Vivemos aqui num 'horizonte' misterioso que muda a perspectiva do desterro e pensamos a quem devemos esta 'janela aberta'. As mesas nos impõem o silêncio e o segredo".

Ausente de Jersey Madame de Girardin, o poeta continuou com a sua família as relações espirituais com o mundo invisível. Deixou esta tarefa registada em vários cadernos que mais tarde o seu amigo, o grande astrónomo Camille Flammarion, pôde revisar e dos quais publicou alguns fragmentos em "Les Annales Politiques et Literaire", de 7 de Maio de 1899, onde o autor de Urânia dizia o seguinte: "Mme. Victor Hugo e o seu filho Francisco estavam quase sempre à mesa. Vacquerie e alguns outros só se acercavam alternadamente. Hugo, jamais. Desempenhava o papel de secretário escrevendo à parte, em folhas soltas, os ditados da mesa. Esta, consultada, anunciava geralmente a presença de poetas, de autores dramáticos e de outros personagens célebres, tais como Moliére, Shakespeare, Galileu, etc. Mas a maior parte das vezes, sempre que interrogada, em lugar do nome esperado a mesa dava o de um ser imaginário; por exemplo, este, que se repete com frequência: A Sombra do Sepulcro".

O conhecimento dos casos de literatura do além-túmulo tem se multiplicado na obra realizada por autores sérios e responsáveis. Na Itália, o extraordinário investigador Ernesto Bozzano se dedicou a análises deste género literário, o que se pode ver nas sua notável monografia intitulada ''Literatura do Além-Túmulo". Pois bem, não serão acaso estes assombrosos fenómenos mediúnicos-literários um novo caminho de Damasco para reencontrar Deus e o Espírito?

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Humberto Mariotti (i)Victor Hugo Espírita, Algumas respostas mediúnicas, 6º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

sábado, 23 de julho de 2016

Nas garras do pensamento crítico ~


A sobrevivência contra a evolução

Mas não fica nisso o desprezo dos autores pela dialéctica. Depois desse gigantesco retrocesso histórico, afirmam eles, como se dissessem uma novidade: “a morte do indivíduo é um dos métodos da vida” (que dúvida!). E continuam: “Cada indivíduo é uma experiência biológica. Cada espécie progride pela selecção, rejeição ou multiplicação dos indivíduos. Biologicamente, a vida deixaria de continuar para diante, se os indivíduos não tivessem um fim e não fossem substituídos por outros. A ideia da imortalidade individual é absolutamente contrária à ideia da evolução contínua”.

E logo mais, numa dessas passagens que se repetem de boca em boca e de livro em livro, enquanto alguém não pede, como Sócrates, a definição do seu verdadeiro sentido: “São os jovens e, não os velhos, os que desejam a imortalidade pessoal.”

É pena que não mencionem a fonte desse espantoso dado estatístico, pois gostaríamos de confrontá-lo com o número de mocidades espíritas, católicas, protestantes, teosofistas e, dos muitos outros jovens espiritualistas não filiados em nenhuma seita, por que estranho motivo não deixam o terreno exclusivamente aos velhos, monopolizadores modernos da velha aspiração humana da sobrevivência.

Dizer, além disso, que a imortalidade individual é contrária à evolução contínua, é “fazer de conta” que essa imortalidade seja biológica. Ora, absurdo dessa monta ninguém poderia aceitar. Como, pois, interpretar-se a atitude desses homens habituados a lidar com as coisas do pensamento, a acompanhar e divulgar os conhecimentos científicos, senão pelo desprezo à dialéctica?

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico  A sobrevivência contra a evolução, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

teremos que modificar o nosso conceito da morte?

A NEUROFISIOLOGIA DURANTE AS PARAGENS CARDÍACAS

Através de muitos estudos tanto em modelos animais como humanos, foi demonstrado que as funções cerebrais ficaram severamente comprometidas, com perda súbita de consciência, todos os reflexos corporais, a abolição de actividade do tronco cerebral com perda do reflexo faríngeo e do reflexo córneo-palpebral e pupilas fixas e dilatadas (Parnia e Fenwick, 2002).

Também falham as funções do centro respiratório, localizado junto do tronco cerebral, o que resulta em apneia. A cessação completa da circulação cerebral é observada nas paragens cardíacas induzidas devido a fibrilação ventricular, durante os testes de implantação de desfibriladores internos.

Este modelo completo de isquémia cerebral pode ser usado para estudar os resultados da anoxia do cérebro. O fluxo sanguíneo da artéria cerebral média, que é uma variante expressiva de monitorização do fluxo sanguíneo no cérebro, decresce para zero cm/seg. imediatamente a seguir à indução de fibrilação ventricular (Gopalan e outros, 1999). A actividade eléctrica tanto no córtex cerebral como nas estruturas mais profundas do cérebro foi demonstrado estar ausente um instante depois. A monitorização da actividade eléctrica do córtex (electro encefalograma – EEG) mostrou que as primeiras mudanças isquémicas são detectadas no EEG, em média, 6,5 seg após a eclosão da paragem circulatória e, com o prolongamento da isquémia cerebral ocorre sempre uma progressão para a isoecletricidade entre 10 e 20 seg. (média: 15 seg.) (De Vries e outros, 1998; Clute e Levy, 1990; Losasso e outros., 1992; Parnia and Fenwick, 2002).

Depois da desfibrilação o fluxo sanguíneo da artéria cerebral média, medido pelo Doppler transcraniano, regressa rapidamente (1 a 5 seg) depois da paragem cardíaca de curta duração (Gopalan e outros, 1999). Contudo, no caso de paragens cardíacas de mais de 37 seg. a actividade electroencefalográfica normal pode não se restabelecer durante longos minutos ou horas depois de as funções cardíacas se terem normalizado, dependendo da duração da paragem cardíaca, apesar da manutenção duma pressão arterial adequada na fase de recuperação (Smith e outros, 1990). Adicionalmente, a recuperação de electroencefalograma subestima a recuperação metabólica do cérebro, e a assimilação de oxigénio pode permanecer diminuta por tempo considerável depois da recuperação circulatória (De Vrieset e outros, 1998).

No caso dos enfartes agudos do miocárdio a duração da paragem cardíaca na Unidade de Cuidados Coronários é habitualmente de 60–120 seg.; numa enfermaria hospitalar ou numa paragem em meio não hospitalar a paragem pode demorar muito mais. A anoxia causa perda de funções dos sistemas celulares. A cessação de actividade eléctrica e da transmissão sináptica em neurónios pode ser considerada como uma defesa instalada ou resposta de poupança de energia (“penumbra isquémica”) (Coimbra, 1999). Com tais funções inactivas, os recursos podem ser usados para manter a sobrevivência celular. A anoxia de apenas alguns minutos de duração causa uma perda provisória de funções do sistema celular; na anoxia prolongada ocorre a morte de células com perda permanente de funções.

Durante a ocorrência de embolias um pequeno coágulo obstrui a corrente sanguínea num pequeno vaso do córtex, resultando anoxia numa parte do cérebro causando perda funcional do córtex, tal como hemiplegia, cegueira parcial ou afasia. Quando o coágulo se dissolver ou fragmentar dentro de alguns minutos a função cortical restabelece-se, e passa a designar-se como ataque isquémico transitório (AIT). Contudo, quando o coágulo obstrui o vaso cerebral durante largos minutos ou horas causa a morte de células neuronais com perda permanente de funções nesta parte do cérebro, e tem lugar o diagnóstico de acidente vascular cerebral (AVC). Desta forma a anoxia transitória resulta em perda transitória de funções e na paragem cardíaca ocorre em segundos uma anoxia total do cérebro, e a atempada e adequada aplicação da Ressuscitação Cardiopulmonar (RCP) pode inverter essa perda provisória de funções cerebrais, por ter evitado a perda definitiva de neurónios.

Uma adequada massagem torácica externa produz um fluxo sanguíneo mínimo, causando o aumento das possibilidades de recuperar as funções cerebrais (Herlitz e outros, 2002). Uma anoxia de longa duração, causada pela cessação da corrente sanguínea no cérebro por mais de 5 a 10 minutos, resulta em prejuízos irreversíveis pela morte de células cerebrais. As mais vulneráveis áreas do cérebro à anoxia são os neurónios do córtex, e os neurónios do tálamo e do hipocampo. (Fujioka e outros, 2000; Kinney e outros, 1994), por serem ambos uma ligação importante entre o tronco cerebral e o córtex no apoio à possibilidade de uso da consciência.

Do estudo de paragens cardíacas induzidas sabemos que no nosso estudo prospectivo de doentes holandeses que sobreviveram a paragens cardíacas (Van Lommel e outros, 2001) bem como no estudo americano (Greyson, 2003) e no estudo inglês (Parnia e outros, 2001), não somente uma falta total de actividade eléctrica do córtex deve ter sido a única possibilidade, mas também a abolição da actividade do tronco cerebral. Contudo, doentes que passam por uma EQM declaram ter tido uma consciência clara. E por motivo das ocasionais e verificáveis experiências fora do corpo, como aquela que diz respeito o caso da dentadura que fez parte do nosso estudo, sabemos que os EQM podem suceder durante o período de inconsciência e não nos primeiros ou últimos segundos da paragem cardíaca.

Desse modo teremos que chegar à conclusão surpreendente que, durante a paragem cardíaca uma EQM é vivida durante uma perda funcional transitória de todas as funções do córtex e do tronco cerebral.

Como é possível alguém dispor de consciência clara estando fora do corpo, no momento em que o cérebro já não funciona, em estado de morte clínica, com electroencefalograma plano? (Sabom, 1998).

Um cérebro nessas condições seria aproximadamente como um computador com a ficha desligada da corrente, com os circuitos retirados do lugar. Não poderia ter alucinações, não poderia fazer completamente nada.

Como declarado acima, a disponibilidade paradoxal de percepção elevadamente lúcida e processos de pensamento lógico durante o período de circulação cerebral danificada em decurso de paragem cardíaca, coloca ao nosso presente entendimento da consciência e das suas relações com as funções cerebrais questões de especial perplexidade.

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Dr. Pim van LommelAs Experiências de Quase-Morte, A Consciência e o Cérebro – A NEUROFISIOLOGIA DURANTE AS PARAGENS CARDÍACAS (4º fragmento) tradução para a língua portuguesa de palavra luz, depois de autorizada pelo autor.
(imagem de contextualização: O Hospital Rijnstate, em Arnhem – Holanda)