sexta-feira, 20 de março de 2015

O Mundo Invisível e a Guerra ~

II – Cenas do Espaço. Visões Reais da Guerra e da Epopeia (III)

|Janeiro de 1915|

Breve soará, qual jubilosa marcha militar, a hora da vitória. Toda a França está de pé: a do presente e a do passado, a dos vivos e a dos mortos!

As forças invisíveis e divinas estão em acção porque a luta que se trava é grande e sacrossanta. É a luta da liberdade, do direito e da justiça contra a brutalidade armada e o despotismo cínico e grosseiro. Por isso a França não pode ser derrotada, pois a causa que defende é a da humanidade. A vitória da Alemanha seria o retrocesso da consciência, a apoteose de todos os crimes. Deus não o permitirá!

Por muitas vezes, no decorrer dos séculos, a França foi campeã das ideias humanitárias, oferecendo o seu ouro e o seu sangue na defesa dos fracos e a libertação dos oprimidos. Eis por que as suas mais estrondosas derrotas foram sempre seguidas de um rápido reerguer.

Não obstante os seus erros e as suas faltas, a França é necessária para a ordem do mundo.

Mais do que qualquer outro país, em todas as esferas, sempre serviu ao ideal, chegando inclusive ao sacrifício, porque o seu papel é humanitário.

Graças à clareza da sua língua e à lucidez do seu espírito, os princípios que defende penetram mais profundamente nas inteligências e nos corações, e todos os povos hauriram nela como numa inesgotável fonte.

No futuro, a sua influência ainda será maior, pois do seu seio surgirão missionários que irradiarão o Espiritismo sobre toda a Terra.

Poder-se-ia afirmar que a França é mulher, pois que sintetiza a beleza e a verdade, razão porque paira uma alma feminina acima dos seus espíritos protectores.

A ajuda de Joana d’Arc dará um verdadeiro rumo aos factos e restituirá à França a consciência do seu papel e do seu destino grandioso.

Com o aparecimento da Virgem Lorena, os espíritos que nos protegem sentiram aumentar a sua confiança, a sua certeza na vitória.

Inúmeros exércitos foram preparados e chegará o dia em que Joana estará à frente deles e, embora invisível, os nossos soldados experimentarão a sensação da sua presença e ela lhes transmitirá a coragem que a envolve.

Numa decisão viril, desafiando o fogo e a metralha, os soldados franceses marcharão, com conhecimento de causa, contra o inimigo. E o vento que sopra sobre as planícies da Flandres, na floresta dos Vosges, fará flutuar, novamente, as nossas bandeiras vitoriosas.

Os franceses escreverão, com o seu próprio sangue, as páginas mais gloriosas da nossa história.

/…



LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, II – Cenas do Espaço, Visões Reais da Guerra e da Epopeia (3 de 3), 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quarta-feira, 11 de março de 2015

pensamento espírita argentino ~

CAPÍTULO I
Fundamentos científicos da concepção neo espírita da vida e da história |

Que somos? (IV)

Quando se trata de explicar a individualidade fisiológica, o positivista o faz considerando o homem como simples agregado celular, como um organismo social polizóico, análogo, segundo Dastre, a “uma cidade populosa” cujas corporações “executam tarefas diferentes e proporcionam produtos tanto mais variados quanto maior for o grau de adiantamento adquirido”. A entidade psíquica biocêntrica, a causa directriz centralizadora, não está contida na concepção empírica do eu físico.

Quando se trata de explicar a individualidade psicológica, afirma-se analogamente que esta carece de unidade substancial. Assim diz Ribot:

“A unidade não é a entidade una dos espiritualistas que se espalha em fenómenos múltiplos, mas a coordenação de certo número de estados de incessante renovação, tendo por único ponto de apoio o sentimento vago de nosso corpo. Esta unidade não vai de cima para baixo nem de baixo para cima; não é um ponto inicial, senão um ponto terminal.”

Isto equivale a dizer que o espírito não é um princípio essencial, produtor de fenómenos psíquicos, mas o resultado, o produto, destes fenómenos coordenados.

Segundo Félix Le Dantec, a individualidade transforma-se seguindo o processo lento e contínuo de seu organismo, que, como é sabido, muda incessantemente. Diz ele:

“Mas, em virtude da lei de assimilação funcional e da conexão particular das subsistências, haverá continuidade no tempo entre as diversas personalidades sucessivas e por isto o eu psicológico acompanha o indivíduo fisiológico desde o seu nascimento até à sua morte, por meio das suas modificações incessantes.”

Que o indivíduo mude de personalidade, seguindo um processo análogo ao do seu organismo, é uma verdade incontestável, mas não o é menos que a individualidade, que não muda com a personalidade, nem que o processo de transformação entre esta e o organismo seja necessariamente correlato. Por meio de todas as mudanças, o homem se reconhece o mesmo indivíduo. E esta identidade psicológica do eu não se pode explicar pela assimilação funcional nem pela conexão particular das substâncias orgânicas e funcionamentos de um mesmo eu. O Voltaire, o Hugo ou Tolstói nos anos 80, apesar de terem sido crianças, jovens, homens maduros e respectivamente anciãos, de haverem mudado de físico, de ideias, de opiniões, de conduta e até de carácter, são os mesmos indivíduos, eles mesmos se reconhecem nas suas obras, através de todas estas mudanças de personalidade e apesar também de haverem mudado muitas vezes os átomos, moléculas e as células do seu organismo.

Muitos fisiólogos, entre eles Marinesco e o mesmo Le Dantec, para salvar a concepção positivo-materialista do fracasso, atribuem à célula cerebral uma duração indefinida e o último destes sábios chega até a sustentar que a matéria viva não se destrói, conceito que já havia sustentado Haeckel, no seu “Monismo”. Admitir semelhante hipótese seria concluir que há em nós uma matéria viva permanente e outra inerte que se renova sem cessar e que sofre o influxo vital daquela, ou teria de se admitir, com Marinesco, que a célula cerebral perdura por meio da incessante renovação da matéria do resto do organismo, hipótese atrevida e de nenhum modo demonstrada pela ciência experimental.

A célula viva não pode ter uma duração ilimitada num organismo que muda constantemente. Por sua parte, os psicofisiologistas, como Geley, lançam mão de verdadeiros entes psicometafísicos, como faz Wundt com a “percepção”, a que atribui o papel unitário para conciliar a multiplicidade dos fenómenos psíquicos com a noção, hoje experimentalmente provada, da unidade do eu. Mas, como diz Boutroux, “em qualquer ponto de vista que alguém se coloque, a multiplicidade não contém a razão da unidade”.

O ponto de apoio da psicologia positiva é a célula nervosa, a que se atribui a faculdade de sentir, de transmitir e assimilar as sensações e, por sequência, de produzir por si mesma e em relação com as demais, todos os fenómenos psicológicos. Para atribuir-lhe tal faculdade, o positivismo deve demonstrar antes, experimentalmente, que a célula nervosa está dotada de um psiquismo particular e é capaz de ter espontaneidade. Sabe-se que é irritável, mas nada tem demonstrado ainda que tenha sensibilidade, consciência e disposições próprias para exercer espontaneamente as suas funções e associar-se deliberadamente para realizar uma acção conjunta e menos ainda para transmitir por assimilação a ideia de individualidade, a consciência do eu único e indivisível. Afirma Claude Bernard:

“A matéria por si mesma é inerte e até mesmo a matéria viva, neste sentido, deve ser considerada como desprovida de personalidade.”

A célula não trabalha, pois, por si mesma; não tem participação voluntária nos fenómenos psíquicos; trabalha sob a impulsão de estímulos externos e internos; a alma é que tem a faculdade de sentir, de ter consciência das suas sensações e de dirigir, consciente ou inconscientemente, todos os fenómenos que se realizam nela. Quando, por exemplo, ferimos um dedo, não é o centro táctil, senão nós que sentimos a dor e temos consciência desta dor, ao mesmo tempo em que a parte em que se supõe localizada a sensação nada sabe. Quando as ondas luminosas chegam aos nossos olhos penetram pelas pupilas e formam sobre a retina a imagem de uma formosa paisagem que se encontra num quadro posto ante a nossa vista, e por um movimento do nervo óptico, a excitação que provoca transmite-se ao centro visual, dando-nos a imagem dessa paisagem, perguntamos: é um acaso o centro visual ou sensorial ou os centros de associação que vêm o quadro, os que têm consciência da beleza da paisagem, os que apreciam o seu valor estético, admiram os variados matizes do colorido, a perspectiva, os efeitos de luz, a regular proporção das suas partes, os que fazem, enfim, o seu juízo crítico? Ou somos nós, seres espirituais (ainda que unidos à matéria) dotados de sensibilidade artística, de sentimento estético, de faculdades de apreciação e discernimento? O que sabe o centro visual do sentimento e da beleza, o centro auditivo, da emoção que produz na minha alma um trecho de música selecta, o centro táctil, da sensação que produz a carícia de uma mãe, ou o centro da memória, do amor ou do ódio que desperta uma lembrança? Em virtude de que lei, de que princípio e obedecendo a que mandato, a que poder centralizador, as percepções e sensações se associam para dar unidade à consciência, formar pensamentos, coordenar ideias e juízos ou tomar determinações?

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Manuel S. Porteiro, Espiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (IV), 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Corpo fluídico | agénere ou aparição tangível ~


Capítulo Segundo

KARDEC E O CORPO FLUÍDICO

O pensamento de Allan Kardec sobre o corpo fluídico pretendido para Jesus foi por ele manifesto, de modo muito claro, principalmente nas seguintes obras: "Revista Espírita", que ele fundou e editou até 1869; "A Génese", livro publicado em 1868; e em "Obras Póstumas". Sobre esse seu pensamento não pode haver nenhum tipo de sombra, pois não comporta tergiversações, não dá margem a interpretações dúbias. Quando os autores do livro "Allan Kardec" disseram que "maiores teriam sido as dificuldades à sequência do desenvolvimento doutrinário e evangélico, se Kardec tivesse dado cobertura aos ensinos contidos em "Os Quatro Evangelhos", não estavam apenas enganados sobre o pensamento do Codificador, mas forçando uma visão que os factos desautorizam.

Antes de passar em revista o estudo de Kardec sobre o assunto, façamos uma retrospecção acerca do relacionamento que ele manteve, ou melhor, que com ele mantiveram Roustaing e a médium Emilie Collignon.

De início, diga-se que esse relacionamento não foi estreito nem constante. A "Revista Espírita" informa que a primeira correspondência trocada entre ambos ocorreu em março de 1861, quando Roustaing endereçou uma carta a Kardec informando-o de sua adesão ao Espiritismo. Não se sabe se Kardec respondeu ou não à carta do novo adepto, entretanto, em junho do mesmo ano o Codificador publicou a segunda carta recebida de Roustaing, bastante longa, seguida de comentários sobre a maneira judiciosa que este expunha sobre a Doutrina, mormente em se tratando de uma pessoa iniciante. Roustaing era um destacado advogado em Bordéus, onde também presidira a Ordem dos Advogados, facto que contribuiu para que Kardec publicasse a carta (já que não houvera publicado a primeira), pois tratava-se de mais uma pessoa de cultura e destaque na sociedade a interessar-se pelo Espiritismo. Depois dessa, mais quatro vezes, apenas, Roustaing aparece na "Revista Espírita": a primeira, quando Kardec noticia o recebimento de "Os Quatro Evangelhos", em junho de 1866, e tece os seus primeiros comentários a respeito dessa que era (e ainda é) a principal obra de defesa da doutrina do corpo fluídico de Jesus; a segunda vez já no ano seguinte, 1867, quando uma ligeira correspondência sua é publicada, a seu pedido, para rectificar um erro de revisão cometido na sua obra "Os Quatro Evangelhos".

Além desses aparecimentos Roustaing é citado num discurso do Dr. Bouché de Vitray, realizado quando Kardec visitou, em 1861, a cidade de Bordéus, no qual destaca a participação do advogado na conversão dele, Bouché, aoEspiritismo, e num artigo extraído de "Soleil", publicação não espírita, em que o autor tece criticas ao Espiritismo e cita um tanto irónico a obra "Os Quatro Evangelhos". Esse artigo está inserido na edição de Setembro de 1866 da Revista.

Assim como Roustaing, as apariçoes da médium Emilie Collignon na "Revista Espírita" e o seu relacionamenta com Kardec são pequenos. Em 1862, escrevem de Bordéus ao Codificador (não há menção do missivista) narrando a tentativa realizada por um padre para impedir que certa senhora, católica, viesse a acreditar no Espiritismo. Essa senhora era exactamente a genitora da médium. Emilie Collignon, que por sua vez escreve ao padre rebatendo-o de forma bastante segura. A carta da médium foi publicada na "Revista Espírita", na sua edição de Maio de 1862. Apartir daí, Emilie Collignon aparece algumas vezes na Revista, com a publicação de mensagens mediúnicas por ela recebidas. Em 1864, mês de junho, Kardec fala do aparecimento do opúsculo intitulado "Conselhos às mães de família", por ela psicografado, e diz que "tem a satisfação de aprovar esse trabalho sem reservas", pelo "estilo simples, claro, conciso, sem ênfase nem palavras para encher vazios de sentido". No ano seguinte, Kardec noticia com satisfação o aparecimento de um novo opúsculo - "Palestras familiares sobre o Espiritismo" - também da médium. Posteriormente, em 1866, ela retorna, agora como responsável pelos "Quatro Evangelhos", para depois não mais aparecer enquanto sob a direcção do Codificador esteve a "Revista Espírita".

Em 1866, Kardec falou de forma directa sobre o corpo fluídico de Jesus. O motivo foi o lançamento da obra intitulada "Os Quatro Evangelhos" ou "Revelação da Revelação", psicografada por Emilie Collignon sob a supervisão do advogado J.-B. Roustaing. Nessa ocasião, não foi ele objectivamente contra a teoria do corpo fluídico, que considerou como base da obra em destaque e sem a qual "todo o edifício desabaria", mas disse que os prodígios relativos a Cristo poderiam ser "perfeitamente explicados sem sair das condições da humanidade corporal". Asseverou, por outro lado, que "quando tratasse da questão, fá-lo-ia decididamente. O comentário, na íntegra, é o seguinte:

"Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo Livro dos Espíritos e o dos Médiuns. As partes correspondentes às que tratamos no Evangelho segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras excepções, são claras, estas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; assim, jamais foram assunto para controvérsias religiosas. Por esta razão é que por aí começamos, a fim de ser aceite sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a ideia espírita.

"O autor desta nova obra julgou dever seguir um outro caminho. Em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda, e das quais, por consequência, lhe deixamos a responsabilidade, como aos Espíritos que as comentaram. Consequente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação nem desaprovação, deixando ao tempo o trabalho de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas e que, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da doutrina espírita.

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Wilson Garcia, O Corpo Fluídico, Capítulo Segundo – KARDEC E O CORPO FLUÍDICO, 1 de 5, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Pintura de Josefina Robirosa)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Inquietações Primaveris ~

Os vivos e os mortos (II)

Se no plano espiritual a posição assumida pelos espíritos fosse a mesma dos homens, seríamos considerados como espíritos mortos. Porque o espírito que se encarna na Terra, afastando-se da realidade viva do espírito, é praticamente sepultado na carne. Nos planos inferiores do mundo espiritual, apegados à crosta terrena, os espíritos inferiores que o habitam consideram-se como mortos na carne, pois perderam as prerrogativas do espírito livre. Mas os espíritos que atingiram planos superiores compreendem essa inversão de posições e os encaram como companheiros temporariamente afastados do seu convívio, para fins de desenvolvimento das suas potencialidades nas lutas terrenas. Dessa maneira, mortos e vivos somos todos. Revezamo-nos na Terra e no Espaço porque a lei de evolução exige o nosso aperfeiçoamento contínuo. Se no plano espiritual os limites das nossas possibilidades de aprendizagem se esgotam, por falta de desenvolvimento dos potenciais anímicos, retornamos às duras experiências terrenas.

A reencarnação é uma exigência do nosso atraso evolutivo, como a semeadura da semente na terra é a exigência básica da sua germinação e do seu crescimento. Assim, nascimento e morte são fenómenos naturais da vida, que não devemos confundir com desgraça ou castigo.

Só os homens matam para vingar-se ou cobrar dívidas afectivas. Deus não mata, cria. Ao semear as mónadas nos planetas habitáveis, não o faz para matar-nos, mas para podermos germinar e crescer como a relva dos campos. A mónada é a centelha de pensamento divino que encerra em si, como que a semente do vegetal, todo o esquema da vida e da forma humana que dela nascerá no seio dos elementos vitais da carne.

Os materialistas acreditam que o esperma e o óvulo ocultam em si mesmos todas as energias criadoras do homem. Mas os progressos actuais da genética animal e da genética humana os despertaram para a compreensão da existência de um mecanismo oculto no sémen, do qual depende a própria fecundidade deste.

Podemos dizer que Deus não trabalha com coisas, mas com leis. As pesquisas parapsicológicas revelaram que o pensamento é a energia mais poderosa de que podemos dispor. Essa energia não se desgasta no tempo e no espaço, não está sujeita às leis físicas, nem respeita as barreiras físicas. É ele a única energia conhecida que pode operar as distâncias ilimitadas do Cosmos. Se podemos verificar isso nas experiências telepáticas, de transmissão de pensamentos entre as distâncias espaciais e temporais que todas as demais energias não conseguem vencer, devemos pensar no poder infinito do pensamento criador de Deus.

Mas o orgulho humano se alimenta da sua própria ignorância e prefere colocar-se acima da própria Divindade. Por isso o cientista soviético Vassiliev (i) não aceitou a teoria de Rhine – a natureza extrafísica do pensamento – e procedeu a uma experiência na Universidade de Leningrado para demonstrar o contrário. Mas não obteve as provas que desejava e limitou-se a contestar Rhine com argumentos, declarando simplesmente que o pensamento se constitui de uma energia física desconhecida. Até agora, nem mesmo do Além, para onde a morte o transferiu, à sua revelia, não conseguiu a refutação desejada. Esse é um episódio típico da luta dos negativistas contra a inegável realidade da natureza espiritual do homem. É inútil disputar com eles, que mesmo quando cientistas, se apegam rigidamente às suas convicções, de maneira opiniática.

Outro exemplo importante foi o do filósofo Bertrand Russell, que ante o avanço científico actual, declarou: “Até agora as leis físicas não foram afectadas.” Como não foram, se toda a concepção física do mundo se transformou no contrário do que era, revelando a inconsistência da matéria, a sua permeabilidade, a existência da antimatéria e a possibilidade cientificamente provada da comunicação dos mortos? Bastaria isso para mostrar que a Física envelhecida de meio século atrás levou Einstein a exclamar: “O materialismo morreu asfixiado por falta de matéria”. O famoso físico americano, pousando um braço sobre uma mesa, disse: “Meu braço sobre esta mesa é apenas uma sombra sobre outra sombra."

Essa atitude opiniática de materialistas ilustres decorre da alergia ao futuro de que falou Remy Chauvin, director do laboratório do Instituto de Altos Estudos de Paris. Por outro lado, temos de considerar a influência da tradição no próprio meio científico e as posições dogmáticas das correntes opostas do religiosismo igrejeiro e das ideologias materialistas, como as do Positivismo, do Pragmatismo e particularmente do Marxismo. A prova científica da existência do perispírito, o corpo espiritual da tradição cristã, chamado pelos investigadores soviéticos da Universidade de Kirov, a mais importante da URSS, de corpo bioplásmico, foi simplesmente asfixiada pelo poder estatal. Nos Estados Unidos não se tentou repetir a façanha de Kirov porque a descoberta do corpo bioplásmico fere os interesses teológicos das igrejas cristãs. O religiosismo fideísta das igrejas, agora reforçado com o religiosismo político e estatal do materialismo, formam hoje a dupla que, agindo em forma de pinça, impede novamente o desenvolvimento da Ciência.

Nos Estados Unidos chegou-se ao extremo da divulgação científica de um documento lançado por instituições científicas, declarando que as descobertas produzidas pelas câmaras Kirlian, de fotografias paranormais, não passavam do conhecido efeito corona. E Rhine, o grande confirmador da Ciência Espírita, foi posto à margem dos meios científicos oficiais, apesar do seu sucesso em todas as Universidades do mundo.

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(i) Leonid Leonidovitch Vassiliev 1891–1966



Herculano Pires, José – Educação para a Morte, Os Vivos e os Mortos 2 de 2, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

| conferis à alma a paciência, a resolução, a constância ~

Resignação na Adversidade |

A ignorância das leis universais faz-nos ter aversão aos nossos males. Se compreendêssemos quanto esses males são necessários ao nosso adiantamento, se soubéssemos saboreá-los no seu amargor, não mais nos pareceriam um fardo. Porém, todos odiamos a dor e só apreciamos a sua utilidade quando deixamos o mundo onde se exerce o seu império. Ela faz jorrar de nós tesouros de piedade, de carinho e afeição. Esses que não a têm conhecido estão sem méritos; a sua alma foi preparada muito superficialmente. Nesses, coisa alguma está enraizada: nem o sentimento nem a razão. Visto não terem passado pelo sofrimento, permanecem indiferentes, insensíveis aos males alheios.

Na nossa cegueira, estamos quase sempre prontos a amaldiçoar as nossas vidas obscuras, monótonas e dolorosas; mas, quando elevamos a nossa vista acima dos horizontes limitados da Terra, quando discernimos o verdadeiro motivo das existências, compreendemos que todas elas são preciosas, indispensáveis para domar os espíritos orgulhosos, para nos submeter a essa disciplina moral, sem o que não há progresso algum.

Livres nas nossas acções, isentos de males, de cuidados, deixar-nos-íamos impulsionar pelo sopro das paixões, deixar-nos-íamos arrebatar pelo temperamento. Longe de trabalharmos pela nossa melhoria, nada mais faríamos do que amontoar faltas novas sobre as faltas passadas; no entanto, comprimidos pelo sofrimento, em existências humildes, habituamo-nos à paciência, ao raciocínio, adquirimos essa calma de pensamento indispensável àquele que quiser ouvir a voz da razão.

É no crisol da dor que se depuram as grandes almas. Às vezes, debaixo da  nossa vista, anjos de bondade vêm tragar o cálice de amargura, como exemplificação aos que são assustados pelos tormentos da paixão. A prova é uma reparação necessária, aceite com conhecimento de causa por muitos dentre nós. Oxalá assim pensemos nos momentos de desânimo, e que o espectáculo dos males suportados com essas grandes resignações nos dê a força de nos conservarmos fiéis aos nossos próprios compromissos, às resoluções viris que tomamos antes de encarnar.

A nova fé resolveu o grande problema da depuração pela dor. As vozes dos Espíritos animam-nos nas ocasiões críticas. Esses mesmos que suportaram todas as agonias da existência terrestre dizem-nos hoje:

“Padeci e só os sofrimentos é que me tornaram feliz. Resgataram muitos anos de luxo e de ociosidade. A dor levou-me a meditar, a orar e, no meio dos inebriamentos do prazer, jamais a reflexão salutar deixou de penetrar a minha alma, jamais a prece deixou de ser balbuciada pelos meus lábios. Abençoadas sejam as minhas provações, pois finalmente elas me abriram o caminho que conduz à sabedoria e à verdade.” (i)

Eis a obra do sofrimento! Não será essa a maior de todas as obras que se efectuam na Humanidade? Ela se executa em silêncio, secretamente, porém os seus resultados são incalculáveis. Desprendendo a alma de tudo o que é vil, material e transitório, eleva-a, impulsionando-a para o futuro, para os mundos que são a sua herança. Fala-nos de Deus e das leis eternas. Certamente, é belo ter um fim glorioso, morrer jovem, lutando pelo seu país. A História registará o nome dos heróis, e as gerações renderão à sua memória um justo tributo de admiração. Mas, uma longa vida de dores, de males suportados pacientemente, é muito mais fecunda para o adiantamento do Espírito. Sem dúvida que a História não falará então a vosso respeito. Todas essas vidas obscuras e mudas, existências de luta silenciosa e de recolhimento, tombam no esquecimento, mas esses que as enfrentaram encontram na luz espiritual a recompensa. Só a dor pode abrandar o nosso coração, avivar os fogos da nossa alma. É o cinzel que lhe dá proporções harmónicas, que lhe apura os contornos e a faz resplandecer na sua perfeita beleza. Uma obra de sacrifício, lenta, contínua, produz maiores efeitos que um acto sublime, porém insulado.

Consolai-vos, pois, vós todos que sofreis, esquecidos na sombra de males cruéis, e vós que sois desprezados por causa da vossa ignorância e das vossas faculdades acanhadas. Sabei que entre vós se encontram Espíritos eminentes, que abandonaram por algum tempo as suas faculdades brilhantes, aptidões e talentos, e quiseram reencarnar como ignorantes para se humilharem. Muitas inteligências estão veladas pela expiação, mas no momento da morte esses véus cairão, deixando eclipsados os orgulhosos que antes as desdenhavam. Não devemos desprezar pessoa alguma. Debaixo de humildes e disformes aparências, mesmo entre os idiotas e os loucos, grandes Espíritos ocultos na matéria expiam um passado tenebroso.

Oh! vidas simples e dolorosas, embebidas de lágrimas, santificadas pelo dever; vidas de lutas e de renúncia, existências de sacrifício para a família, para os fracos, para os pequenos, mais meritórias que as dedicações célebres, vós sois outros tantos degraus que conduzem a alma à felicidade. É a vós, é às humilhações, é aos obstáculos de que estais semeadas que a alma deve a sua pureza, a sua força, a sua grandeza. Vós somente, nas angústias de cada dia, nas imolações da matéria, conferis à alma a paciência, a resolução, a constância, todas as sublimidades da virtude, para então se obter essa coroa, essa auréola esplêndida, prometida no espaço para a fronte dos que sofrem, lutam e vencem!

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(i) Comunicação mediúnica recebida pelo autor.



LÉON DENIS, Depois da Morte, Parte Quinta – Caminho Recto L – Resignação na Adversidade, fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Head of Divine Vengeance, pintura de Pierre-Paul Prud'hon)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Deus na Natureza ~

A Força e a Matéria; 
I Posição do Problema ~

O século em que vivemos está desde já inscrito com caracteres indeléveis nas páginas da História. A partir dos mais remotos tempos, das velhas civilizações, nenhuma época viu, como a nossa, esse magnífico despertar do espírito humano, para simultaneamente afirmar os seus direitos e a sua força. O mundo já não é o vale de lágrimas medieval, onde a alma vinha expiar a falta do primitivo pai e, confundindo-se no isolamento e na oração, acreditava conquistar um lugar no paraíso, ciliciando o corpo e cobrindo-se de cinzas.

Os frutos da inteligência já não atestam as longas, abstrusas e infindáveis discussões de estéril metafísica, construídas de palitos e escoradas em subtilezas escolásticas, a que se entregaram cegamente poderosos génios, consagrando-lhes uma preciosa vida de estudos e despercebidos de assim perderem não apenas o seu tempo, mas o de algumas gerações.

Lá, onde em murados claustros se concentravam monges e oratórios, ouve-se agora o ruído das máquinas, o ranger das engrenagens e o silvo do vapor das caldeiras combustíveis.

Se as instituições monásticas tiveram o seu papel no período das invasões bárbaras, nem por isso deixou de soar a sua hora extrema, como sucede a todas as coisas perecíveis: o trabalho fecundo do operário e do agricultor substitui a decadência senil pela juvenilidade laboriosa e fecunda.

No anfiteatro das Sorbonnes, onde se discutiam exaustivamente os seis dias da Criação, as línguas de fogo da Pentecoste, o milagre de Josué, a passagem do Mar Vermelho, a forma da graça actual, a consubstancialidade, as indulgências parciais ou plenárias, etc., etc., e mil assuntos outros difíceis de aprofundar, vemos hoje instalar-se o laboratório químico, no ambiente do qual a Matéria se faz docilmente pesar e mensurar; a mesa do anatomista, sobre cujo mármore se desvendam o mecanismo orgânico e as funções vitais; o microscópio do botânico, que surpreende os primeiros, oscilantes passos da esfinge da vida; o telescópio do astrónomo, que deixa entrever, para além dos céus transparentes, o movimento majestoso dos sóis gigantescos, regulados pelas mesmas leis que accionam a queda de um fruto; a cátedra de ensinamento experimental, à volta da qual as inteligências populares vêm agrupar as suas filas atentas.

O próprio globo terrestre transformou-se. Circunavegaram-no, mediram-no, e já não haverá Carlos Magnos que pretendam enfeixá-lo na mão. O compasso do geómetra destituiu o ceptro imperial.

Oceanos e mares, em todas as latitudes, fendem-se ao impulso das quilhas levadas por velas pandas ou pela rotação das hélices potentes e trepidantes.

Também – dragão flamívomo – a locomotiva percorre célere os continentes e, graças ao telégrafo, podemos falar de um a outro hemisfério. O vapor deu vida nova e inesperada a inúmeros motores; a electricidade nos permite auscultar, num momento e de conjunto, as pulsações da Humanidade inteira.

Certo, a Humanidade jamais conheceu fase como esta; jamais se encheu no seu seio, de tanta vida e tanta força; jamais o seu coração enviou, com tamanha pujança, a luz e o calor às mais longínquas artérias. Nem nunca o seu olhar se iluminou de um tal clarão. Por mais vastos que se deparem os progressos ainda conquistáveis, os nossos descendentes serão sempre forçados a reconhecer que a Ciência deve à nossa época o estribo do seu Pégaso e que, embora engrandecendo-se e vendo o Sol ascender ao zénite, brilhante não lhes fora o dia se o não precedera a nossa aurora.

Mas, o que à Ciência outorga força e poder, convém sabê-lo, é ter por base de estudo elementos determinados, que não abstracções e fantasmas. Assim é que, na Química, ela investe com o volume e peso dos corpos, examina-lhes as combinações, determina-lhes as relações; na Física, investiga-lhes as propriedades, observa-lhes as relações e as leis que as regem; na Botânica, aborda o estudo das primeiras condições da vida; na Zoologia, acompanha as formas existenciais e regista as funções orgânicas peculiares, os princípios da circulação da matéria nos seres vivos, a sua manutenção e metamorfoses; na Antropologia, constata as leis fisiológicas em actividade no organismo humano e determina o papel dos diversos aparelhos que o compõem; na Astronomia, inscreve o movimento dos corpos celestes e daí deduz a noção de leis directivas universais; e na Matemática, finalmente, formula essas leis e reconduz à unidade as relações numéricas das coisas.

Essa exacta determinação de objectivo dos seus estudos é que dá valor e autoridade à Ciência. Aí temos como e porque a Ciência se engrandece. Mas, esses títulos também lhe acarretam um imperioso dever. Se, esquecida dessa condição de poderio ela se desvia desses objectivos fundamentais para divagar no vácuo imaginário, perde simultaneamente o seu carácter e a sua razão de ser.

E, desde então, os argumentos que pretende impor, nesses domínios exorbitantes do seu alcance e finalidade, deixam de ter valor científico, e mais ainda do que isso, porque ela se desqualifica e já não pode reivindicar o nome de ciência. Torna-se, por assim dizer, em soberana que acaba de abdicar e não é mais a ela que se ouve, mas aos sábios que peroram, o que nem sempre é a mesma coisa. E estes sábios, seja qual for o seu valor, já não serão mais intérpretes da Ciência, uma vez operando fora da sua esfera.

Ora, esta é, precisamente, a situação dos defensores do Materialismo contemporâneo, aplicando a Astronomia, a Química, a Física, a Fisiologia, a problemas que elas não podem resolver. E note-se que tais sábios não só constrangem essas ciências a responderem a problemas que lhes escapam à alçada, como ainda as torturam, quais pobres servas, para que confessem a seu mau grado, e falsamente, proposições de que jamais cogitaram. São, assim, inquisidores do facto, e não da palavra. Mas, dessarte, não é a Ciência, é um simulacro de ciência que manejam.

Nas seguintes controvérsias, demonstraremos que esses cientistas se encontram absolutamente fora da Ciência, que se enganam e nos enganam, que os seus raciocínios, deduções e consequências são ilegítimos e que no seu louco amor por essa virginal ciência eles a comprometem simplesmente e chegariam a lhe alienar de todo a estima pública, se não houvesse o cuidado de mostrar que, ao invés da realidade, eles não possuem dela mais que uma ilusória sombra.

A circunstância mais penosa e a razão predominante que nos impelem a protestar contra as explorações de um falso rótulo radicam-se no facto de estarmos vivendo um tempo em que se sente, ou pelo menos se pressente, universalmente, o papel e a finalidade da Ciência. Compreende-se que fora dela é que não há salvação e que a Humanidade, tanto tempo balouçada no oceano do ignorantismo, só tem um porto a proejar – o da terra firme do saber. Também por isso, o espírito público se volta, convicto e esperançoso, para a Ciência. Tantas provas do seu poder e riqueza tem ele recebido, de um século a esta parte, que se predispôs a acatar-lhe, com simpatia e reconhecimento, todos os ensinos e teorias. Mas, nisso está, precisamente uma armadilha para o Espiritualismo. É que um certo número de cultores da Ciência, que a representam ou que se fazem dela intérpretes, ensinam falsas e funestas doutrinas.

Os espíritos sôfregos e despercebidos, que procuram nos seus livros os conhecimentos de que necessitam, absorvem neles um tóxico pernicioso e susceptível de lhes destruir no âmago uma parte dos benefícios do saber.

Eis porque se impõe sobrestar um tão deplorável arrastamento, aliás, tendente a universalizar-se.

Eis porque se torna absolutamente indispensável discutir essas doutrinas e demonstrar que longe estão elas de entrosar na Ciência, com tanto rigor e facilidade, quanto apregoam, mas, ao invés, que são o produto grosseiro de pensamentos sistemáticos, que, perpetuamente voltados sobre si mesmos, têm a ilusão de se crerem fecundados pela Ciência, embora do radioso sol que ela simboliza não hajam recebido mais que um ténue raio desviado da sua direcção natural.

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Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria; I - Posição do Problema 1 de 6, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Diálogos de Kardec ~

Primeira Notícia de Uma Nova Encarnação

(Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta. Baudin / 17 de janeiro de 1857)

O Espírito prometera escrever-me uma carta por ocasião da entrada do ano. Tinha, dizia, qualquer coisa de particular a dizer-me. Havendo-lhe eu pedido numa das reuniões ordinárias, respondeu que a daria na intimidade ao médium, para que este ma transmitisse. É esta a carta:

“Caro amigo, não te quis escrever terça-feira última diante de toda a gente, porque há certas coisas que só particularmente se podem dizer.

“Eu queria, primeiramente, falar-te da tua obra, a que mandaste imprimir. (O Livro dos Espíritos entrará para o prelo.) Não te afadigues tanto, de manhã à noite; passarás melhor e a obra nada perderá por esperar.

“Segundo o que vejo, és muito capaz de levar a bom termo a tua empresa e tens que fazer grandes coisas. Nada, porém, de exagero em coisa alguma. Observa e aprecia tudo judiciosa e friamente. Não te deixes arrastar pelos entusiastas, nem pelos muito apressados. Mede todos os teus passos, a fim de chegares ao fim com segurança. Não creias em mais do que aquilo que vejas; não desvies a atenção de tudo o que te pareça incompreensível; virás a saber a respeito mais do que qualquer outro, porque os assuntos de estudo serão postos sob as tuas vistas.

“Mas, ah! a verdade não será conhecida de todos, nem crida, senão daqui a muito tempo! Nessa existência não verás mais do que a aurora do êxito da tua obra. Terás que voltar, reencarnado noutro corpo, para completar o que houveres começado e, então, dada te será a satisfação de ver em plena frutificação a semente que houveres espalhado pela Terra.

“Surgirão invejosos e ciosos que procurarão infamar-te e fazer-te oposição: não desanimes; não te preocupes com o que digam ou façam contra ti; prossegue na tua obra; trabalha sempre pelo progresso da Humanidade, que serás amparado pelos bons Espíritos, enquanto perseverares no bom caminho.

‘Lembras-te de que, há um ano, prometi a minha amizade aos que, durante o ano, tivessem tido um proceder sempre correcto? Pois bem! declaro que és um dos que escolhi entre todos.”

Teu amigo que te quer e protege. — Z.

NOTA — Já tive ocasião de dizer que Z. não era um Espírito superior, porém muito bom e muito benfazejo. Talvez fosse mais adiantado do que o deixava supor o nome que tomara. Legitimavam esta suposição o carácter sério e a sabedoria das suas comunicações, conforme as circunstâncias. Sob a capa daquele nome, ele se permitia usar de uma linguagem familiar apropriada ao meio onde se manifestava e dizer, como frequentemente sucedia, duras verdades, sob a forma leve do epigrama. Como quer que seja, dele guardei sempre grata recordação e muito reconhecimento pelas boas advertências que sempre me deu e pelo devotamento que me testemunhou. Desapareceu com a dispersão da família Baudin, dizendo que em breve reencarnaria.

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ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, A minha Primeira Iniciação no Espiritismo, Primeira Notícia de Uma Nova Encarnação, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)