domingo, 12 de setembro de 2021

a pedra e o joio ~


Actualização do Espiritismo ~ 

Desde que o confrade Hernani Guimarães Andrade publicou o seu livro, A Teoria Corpuscular do Espírito, vimos sendo consultados por pessoas que não sabem como encarar a obra. Num texto que aparece nas orelhas do volume, o Professor Victor Magaldi refere-se à teoria, como sendo uma “verdadeira revolução no Neo-Espiritismo”. No primeiro capítulo, o autor declara que o Espiritismo precisa progredir, superar os velhos conceitos mecanicistas do século passado e, que “os adeptos da doutrina devem ter a coragem de voltar atrás, se preciso for; reformar conceitos velhos; sacudir o pó da suposição para descobrir a realidade soterrada; abrir mão do dogmatismo comodista e ignorante, que se aferra à forma e esquece o espírito”. 

Todas essas coisas preocupam os adeptos, não comodistas nem ignorantes, mas ciosos da pureza da doutrina. Quer o confrade Guimarães Andrade reformar o Espiritismo? A que se refere o confrade Victor Magaldi, quando proclama a existência de uma revolução do “Neo-Espiritismo”? Isso existe? Existe um Neo-Espiritismo e, no seu seio já se processa uma revolução? Por outro lado, a terminologia doutrinária estará mesmo superada, será arcaica, necessitará de revisão? Estaremos em condições de enfrentar essa tarefa? Disporá o autor do livro de meios e recursos para sacudir a poeira dos conceitos kardecistas e revelar uma possível realidade oculta? 

Confessamos que era nosso intento, desde a publicação de A Teoria Corpuscular do Espírito, escrever sobre essa obra. Mas, encontrando esses mesmos problemas referidos pelos leitores, resolvemos estudar o livro com tempo e vagar, não aventurando a respeito nenhuma opinião. Além disso, o autor anuncia outros volumes, que completarão a sua teoria. Diante porém, da insistência dos leitores e amigos e, uma vez que já aparece até mesmo a ideia, em certos núcleos, de tratar do problema da “Nova nomenclatura espírita” (por analogia certamente com a “Nova nomenclatura gramatical”), resolvemos tratar do assunto. 

A nossa atitude é a mesma dos leitores. Estamos com um pé atrás. Conhecemos o confrade Guimarães Andrade, sabemos ser uma pessoa honesta e sincera, mas desconfiamos dos rumos da sua imaginação, no campo doutrinário. Primeiramente, não vemos razões para o ataque à terminologia kardecista. Ela é tão válida hoje como há cem anos. A própria negação do “conceito mecanicista de éter” precisa ser examinada. E isso por dois motivos: porque o debate sobre o problema do éter espacial ainda não está encerrado, na própria Física; e porque o éter do Espiritismo não corresponde exactamente, mas apenas analogamente, ao da Física. O mesmo acontece com os conceitos de “fluido” e de “vibração”. Allan Kardec não formulou uma teoria científica, da mesma maneira por que Jesus não criou um sistema filosófico. A revisão dos conceitos doutrinários, na base das falíveis teorias científicas modernas, equivale, em nosso ver, a uma revisão dos conceitos evangélicos, na base dos sistemas filosóficos instáveis do nosso tempo. 

Em segundo lugar, a tentativa de criar uma teoria científico-espírita, como quer o autor, parece-nos prematura. As suas dificuldades começam ao procurarmos situar o Espiritismo no quadro das ciências. Allan Kardec acentuou que o Espiritismo deve evoluir com as ciências, mas esclareceu também que a natureza científica do Espiritismo não é a mesma das ciências da matériaFoi mais longe, ao negar às ciências qualquer competência para se pronunciar sobre as questões espíritas e, afirmou taxativamente que: “O Espiritismo não é da alçada da ciência”. (Cap. VII da “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”). Quando ele trata, pois, da Ciência Espírita, não o faz em termos de ciência material, mas esclarece mesmo que o objecto e os métodos de ambas são diferentes

Ora, o que o confrade Guimarães Andrade pretende fazer, é exactamente o que Allan Kardec condenou. Ou seja, para usarmos as expressões textuais do codificador: “sujeitar (o Espiritismo) aos processos ordinários de investigação, estabelecendo analogias que não existem”. O mesmo aconteceu com a Psicologia, quando WundtFechnerBinet e outros quiseram reduzi-la a processos de mensuração física. O mesmo com a Sociologia, inicialmente chamada “Física Social”, mais tarde ligada à Biologia e, hoje liberta dessas inadequações conceptuais e metodológicas. O Espiritismo não pode sujeitar-se a esses processos de moldagem. No próprio campo da Filosofia, os Espíritos e o próprio Kardec fizeram questão de esclarecer que ele devia desenvolver-se “livre dos prejuízos do espírito de sistema”. 

Ainda agora, ao esclarecer a utilização de conceitos da ciência moderna, no seu livro Mecanismos da MediunidadeAndré Luiz adverte: “As notas dessa natureza, neste volume, tomadas naturalmente ao acervo de informações e deduções dos estudiosos da actualidade terrestre, valem aqui por vestimenta necessária, mas transitória, da explicação espírita da mediunidade, que é, no presente livro, o corpo de ideias a ser apresentado”. Aplicando essa explicação ao caso de O Livro dos Espíritos, compreenderemos que o que nos interessa no seu texto não é a vestimenta, mas a substância, não é a terminologia, mas “o corpo de ideias”. 

A tentativa do confrade Guimarães Andrade deve ser encarada, pois, com o cuidado que Allan Kardec recomendava sempre, para todas as inovações. Procuremos conter os entusiastas, que já pretendem erigir o autor em reformador doutrinário. O próprio Ernesto Bozzano chegou a propor uma teoria do Éter-Deus, para explicar de maneira física o Ser Supremo, o que era evidentemente absurdo e não teve aceitação. Fazer avançar o Espiritismo não é subjugá-lo a conceitos da ciência material, mas dar-lhe maior desenvolvimento espiritual na nossa compreensão. E trabalhar assim, espiritualmente, para apressar aquele momento, previsto por Allan Kardec, em que “os sábios se renderão à evidência”. Serão eles, então, os que terão de modificar os seus conceitos, sacudindo a poeira das suas hipóteses instáveis. 

/… 


José Herculano Pires, A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. Actualização do Espiritismo, 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)  

domingo, 29 de agosto de 2021

Oliver Lodge, por que creio na imortalidade da alma ~


RESUMO DE POSTULADOS OU CONCLUSÕES TIDADOS DA EXPERIÊNCIA 

(Numerados para referência) 

1) – Que a actividade mental não é limitada às suas manifestações corporais, se bem que, em certo meio material, seja necessária para nos demonstrar a sua actual actividade neste plano. 

2) – Que o mecanismo cérebro neuromuscular, assim como o resto do corpo, formam um instrumento construído, dirigido e utilizado pela vida e pelo espírito, instrumento que pode deteriorar-se ou usar-se de modo a impedir a sua utilização regular pela entidade dirigente normal; que os sinais dessa deterioração ou desse deslocamento podem claramente mostrar-se sem nos dar o direito de daí tirar outra conclusão que a de uma obstrução ou de uma imperfeição no canal ou laço de comunicação entre o espírito e a matéria. 

3) – Que nem a vida nem o espírito deixam de existir quando são separados do seu invólucro ou órgão material: cessam somente de funcionar na esfera material anterior, como quando o instrumento estava em bom estado. De facto, nada deixa de existir; só a forma de vida é que muda. Certa coisa pode perfeitamente desaparecer diante dos nossos olhos, tornar-se imperceptível aos nossos sentidos, mas isso não é uma prova de que tenha deixado de existir. Esse facto, bem evidente quando se trata de matéria e de energia, é igualmente verdadeiro, na minha opinião, quando se trata da existência vital ou espiritual. Não temos razão alguma para supor que algo de real possa deixar de existir, ainda que facilmente disperso ou tornado inacessível aos nossos sentidos. 

4) – Que o que chamamos “indivíduo” é uma encarnação definida ou associação com a matéria de algum elemento vital ou espiritual que possui em si mesma uma existência contínua. A entidade, ou, nos seus desenvolvimentos superiores, a personalidade, não depende certamente da identidade das partículas materiais que a fazem manifestar-se; ela não pode ser senão um atributo da entidade dirigente que congrega tais partículas durante certo tempo, as deixa e as renova durante a sua vida ordinária, sem que a sua continuidade seja de qualquer forma alterada. 

5) – Que o valor da encarnação se encontra na oportunidade assim oferecida para a individualização de uma parte da mentalidade específica gradualmente mais vasta, isolada do seu meio primitivo cósmico, a fim de lhe permitir desenvolver uma personalidade que será a característica desse organismo particular. 

6) – Que, quando tal individualidade ou personalidade é real, há lugar para acreditar-se que ela persista como toda outra realidade e que, em consequência, pode sobreviver à sua separação do organismo material, que a ajudava outrora a isolar-se, para se tornarem possíveis os traços característicos individuais do seu carácter. Que o carácter individual, assim formado, persiste verdadeiramente como indivíduo, conservando a sua memória, as suas experiências e as suas afeições, segundo oportunidades e privilégios associados ao corpo material, durante a vida terrena. É uma questão que será resolvida pela observação directa e pela experiência. 

Eis, pois, a minha conclusão final: 

7) – Que a evidência, já acessível, nos basta para provar que o carácter individual e a memória persistem, que as personalidades que deixaram esta vida continuam a existir com os seus conhecimentos e as experiências adquiridas neste plano e que, em certas condições parcialmente conhecidas, os nossos amigos invisíveis podem provar-nos a sua sobrevivência real, individual e pessoal. 

Posição actual destas teses 

No momento em que escrevo, todas estas conclusões ou deduções, provenientes de um longo inquérito, são consideradas duvidosas pela ciência ortodoxa, que, até aqui, se tem limitado a manifestações terrestres, sem pesquisar o que quer que seja no plano espiritual. 

Qualquer insistência sobre tais proposições choca com a zombaria que as encara como pura especulação ou mesmo como superstição. Essas conclusões, por outro lado, não parecem essenciais à religião, na sua aceitação geral e, são, na maioria, desaprovadas como ensino religioso. Pode, portanto, perguntar-se porquê, como tantos outros, fomos de tal forma tocados pela verdade e a importância vital desta doutrina, que não nos importamos de acarretar com todas as censuras e zombarias que nos possam lançar os seus adversários e, por que considero um dever a defesa de tais teses, que merecem respeitosa consideração e, que se aperfeiçoam na medida do progresso da nossa experiência e do nosso conhecimento. 

Tal a pergunta a que desejo responder brevemente nesta obra, tanto quanto possível. Uma resposta completa exigirá o estudo dos factos registados na respectiva literatura pelo menos de meio século ou de mais ainda, estando a literatura antiga cheia de factos idênticos, alguns insuficientes e pouco científicos, que são as suas narrativas. 

A evidência dos factos aumenta dia a dia e aumentará mais rapidamente ainda quando o grupo da crítica desdenhosa tiver desaparecido e a pobre humanidade terrena ficar livre do jugo da opressão militante. 

/… 

Oliver LodgePor que creio na imortalidade da Alma, Capítulo I Resumo de postulados ou conclusões tirados da experiência / Posição actual destas teses, 3º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Luz e Cor (Teoria de Goethe) A manhã após o Dilúvio, Moisés escreve o livro Génese (1843), pintura de WilliamTurner

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

o sentido da vida ~


~~ do empirismo à | ciência ~ 
(I de II) 

Até ao aparecimento do Espiritismo em forma de doutrina filosófica, bem definida, apoiada num sistema científico de observação, de pesquisa e de experimentação, as questões relativas à sobrevivência do homem e ao seu destino no além-túmulo pertenciam exclusivamente ao empirismo. E nem se poderia esperar outra coisa, de um mundo que estava saindo inteirinho do empirismo e, que mal começara a trilhar, com Galileu, o terreno das ciências positivas. Se em medicina, até Claude Bernard, a clínica se fazia ao sabor de velhos tabus e sistemas quase instintivos, como se desejar que, em matéria muito mais subtil, difícil e complexa, como a ciência do espírito, pudessem os homens se ter adiantado mais rapidamente? 

Espiritismo abriu a primeira picada no matagal cerrado das superstições, derrubando a golpes de bom senso, como diz o poeta leproso Jésus Gonçalves, os tabus do velho misticismo imponente, enclausurado nas igrejas dominantes. Graças a ele, ao formidável surto de fenómenos que se verificou por toda a parte, na ocasião do seu aparecimento – como os rubores do horizonte e a brisa matinal aparecem no momento de raiar o sol –, foi possível, embora com as maiores dificuldades, um rápido avanço nesse terreno. O ambiente, aliás, já estava preparado, através das lutas cada vez maiores e mais sérias contra a dominação clerical e as absurdas imposições de uma crença destituída de qualquer base racional. As igrejas estavam, na verdade, vacilantes nos seus alicerces seculares, incapazes de resistir à investida arrasadora do raciocínio científico, que parecia destinado a desnudar por completo as formas mumificadas da religião, mostrando-as ao povo na hediondez de sua esterilidade e do seu artificialismo de sarcófago. 

Allan Kardeco bom senso encarnado, compreendeu prontamente o alcance da tarefa que os espíritos lhe depositavam nas mãos. Ele ia enfrentar o mundo, ia enfrentar todo o convencionalismo da época, desde os mais velhos sistemas da liturgia religiosa, até aos mais modernos princípios afoitamente proclamados pelo materialismo nascente. Cabia-lhe uma luta gigantesca, tinha ele de enfrentar, em campo raso, sem auxílio de uma única fortificação, o exército dos padres, dos cientistas, dos filósofos, dos jornalistas e escritores, dos intelectuais e dos crentes, o bombardeio dos púlpitos, das cátedras e das tribunas. Mas era preciso enfrentar a tarefa, não havia por onde fugir. Como Galileu, ele havia tocado fundo o mistério, sabia que as mesas giravam e sabia por que o faziam. Como Pasteur, ele tinha visto a acção física, discreta, concreta, dos agentes invisíveis. E contava, além disso, com o auxílio dos companheiros espirituais, sempre dispostos a ampará-lo e esclarecê-lo. Foi por isso que, sem nenhuma atitude espectacular de vidente ou predestinado, sem qualquer encenação oracular, o sereno professor de pedagogia iniciou o seu trabalho, na cidade de Paris, centro do mundo e da cultura, que ele transformaria, para escândalo dos judeus, como diria Paulo, no quartel-general do Espiritismo. 

No seu pequeno livro O que é o Espiritismo, Kardec revela a natureza da doutrina e mostra-nos mais uma vez a firmeza e a serenidade de sua atitude, dizendo claramente que o Espiritismo não veio ao mundo para se transformar num sistema novo de religião ou se constituir numa nova igreja. 

“O Espiritismo – diz ele – é ao mesmo tempo, ciência experimental e doutrina filosófica. Como ciência prática, tem a sua essência nas relações que se podem estabelecer com os espíritos. Como filosofia, compreende todas as consequências morais decorrentes dessas relações. Pode ser definido assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal.” 

Assim definida a natureza da doutrina, Kardec reafirmava que não pretendia convertê-la numa escola religiosa. As religiões estavam ameaçadas e tinham o flanco descoberto. Que podiam elas opor aos ataques arrasadores do racionalismo a todos os seus dogmas, cânones e sacramentos? Como se desenvencilharem da acusação de que não eram outra coisa senão as antigas superstições tribais revestidas de aparatos modernos? O Espiritismo surgia como tábua de salvação para todas elas. Era o meio de que elas podiam se servir para justificar racionalmente os seus velhos princípios e, mais do que isso – maravilha! –, para o demonstrar cientifica, objectiva e, experimentalmente, aos homens da era científica – a existência da alma, a realidade demonstrável da sobrevivência. Demonstrado isso, estavam salvas as religiões. Provada a existência da vida depois da morte, quem se atreveria a negar a necessidade de um preparo do homem, nesta vida, para enfrentar depois os problemas da outra, quando se desenvencilhasse do corpo material? 

Os homens de cultura desertavam dos templos. Apenas o povo, na sua simplicidade natural, continuava apegado, pelo coração, às velhas crenças. Mas esse mesmo povo começava a ser trabalhado profundamente por ideologias revolucionárias, que lhe ofereciam, em lugar de um paraíso depois da morte, outro paraíso, muito mais apetecível, nesta própria vida, aqui mesmo, na Terra. Para que os homens cultos voltassem aos templos, era necessário que a religião lhes oferecesse uma arma nova, com que pudessem justificar a sua crença diante da zombaria dos novos profetas da razão. Para que o povo não se desviasse, era preciso mostrar-lhe que o paraíso, no espaço ou na Terra, não se conquista por meros actos exteriores. Essas respostas – que as velhas religiões não possuíam – O Espiritismo trazia-as na palma da mão, como um anjo salvador. 

Mas... Sim, havia um “mas”. Para que as religiões pudessem utilizar-se do Espiritismo, era também necessário que aceitassem uma modificação de atitude, em face dos problemas da razão. O Espiritismo nascia com características nitidamente racionais. As religiões eram ilógicas, irracionais, dogmáticas. Vacilaram, a princípio, mas terminaram, como a igreja judaica diante do Cristianismo nascente, recusando-se a mudar de atitude. E, por fim – ironia da ingratidão e do egoísmo humano! – quando o Espiritismo, por si só, independente de qualquer auxílio, levou de vencida os primeiros obstáculos, reuniu os primeiros sábios e obteve os primeiros êxitos, arredou de sua atitude negativista e agressiva os primeiros materialistas, as igrejas, já então, reforçadas pela evidência dos factos, que ele e só ele produzira, despejaram sobre ele os raios outrora fulminantes da sua maldição. Os espíritas, que haviam aberto a possibilidade de retorno dos homens, cientes e inscientes, ao recinto dos templos, foram corridos dali como os apóstolos das sinagogas foram expulsos como inimigos e hereges. E foi então, só então, diante da repulsa cada vez mais forte das religiões constituídas, que as consequências morais da doutrina, de que fala Kardec, começaram a levar os homens para um novo conceito de religião, para o terreno mais amplo e livre da religião espírita. Esta não é, propriamente uma religião, no sentido clássico do termo, que implicaria organização sacerdotal, sistema litúrgico e sacramental, mas é religião no sentido natural do termo, como norma espiritual de conduta humana. 

/… 


José Herculano Pires, O Sentido da Vida / Do Empirismo à Ciência (I de II), 11º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509) 

domingo, 1 de agosto de 2021

o grande enigma ~


Solidariedade / comunhão universal ~ 

Deus é o Espírito de Sabedoria, de Amor e de Vida, o Poder Infinito que governa o mundo. 

O homem é finito, mas tem a intuição do Infinito. O princípio espiritual, de que é detentor, incita-o a perscrutar os problemas que excedem os limites actuais do seu entendimento. O seu Espírito, prisioneiro na carne, separa-se dela, às vezes e, eleva-se aos domínios superiores do pensamento, donde lhe vêm essas altas aspirações, as quais muitas vezes são seguidas de recaídas na matéria. Daí tantas pesquisas, tentativas e erros, a tal ponto que seria impossível distinguir a verdade, no amontoado dos sistemas e das superstições, que o trabalho das idades tem acumulado, se os Poderes Invisíveis não viessem fazer luz nesse caos. 

Cada Alma é uma irradiação da grande Alma universal, uma centelha gerada do Eterno Foco. Nós, porém, nos ignoramos a nós mesmos e, essa ignorância é a causa de nossa fraqueza e de todos os nossos males. 

Estamos unidos a Deus na relação estreita que liga a causa ao efeito e, somos tão necessários à sua existência quanto Ele é necessário à nossa. Deus, Espírito Universal, manifesta-se na Natureza e, o homem é, sobre a Terra, a mais alta expressão dessa Natureza. Somos a criação e a expressão de Deus, que é a fonte do Bem. Mas esse Bem, nós o possuímos somente no estado de gérmen e, a nossa tarefa consiste em desenvolvê-lo. As nossas vidas sucessivas, a nossa ascensão na espiral infinita das existências, não têm outro fim. Tudo está escrito no fundo da Alma em caracteres misteriosos: o passado, de onde emergimos e devemos aprender a sondar; o futuro, para o qual evolvemos, futuro que nós mesmos edificaremos qual monumento maravilhoso, feito de pensamentos elevados, de acções nobres, de devotamentos e de sacrifícios. 

A tarefa que cada um tem a realizar resume-se em três palavras: saber, crer, querer – isto é, saber que temos recônditos e inatos recursos incalculáveis; crer na eficiência de nossa acção sobre os dois mundos, o da Matéria e o do Espírito; querer o Bem, dirigindo o nosso pensamento para o que é belo e grandioso, conformando as nossas acções com as leis eternas do trabalho, da justiça e do amor. 

Vindas de Deus, todas as Almas são irmãs; todos os filhos da raça humana são unidos por laços estreitos de fraternidade e solidariedade. E porque os progressos de cada um são sentidos por todos, os rebaixamentos de um só afectam o conjunto. 

Da paternidade de Deus decorre a fraternidade humana; todas as relações que nos ligam unem-se a esse facto. Deus, pai das Almas, deve ser considerado o Ser consciente por excelência e nunca em grau de abstracção. Aqueles que possuem consciência recta e são esclarecidos por um raio do Alto reconhecem Deus e o servem na Humanidade, que é a sua filha e a sua criação. 

Atingindo o homem o conhecimento de sua verdadeira natureza e de sua unidade em Deus, tendo entrado essa noção na sua consciência e no seu coração, ele se eleva até à Verdade suprema; domina, do topo, as vicissitudes terrestres; encontra a força que “remove montanhas”, que o torna vencedor na luta contra as paixões e permite desprezar as decepções e a morte. Executa então o que o vulgo chama prodígios. Por sua vontade, por sua fé, submete, governa a substância; quebra as fatalidades da matéria; torna-se quase um deus para os outros homens. Muitos, na sua passagem por este mundo, chegaram a essas alturas de vistas, mas só Cristo delas se compenetrou, ao ponto de dizer à face de todos: “Eu e meu Pai somos um; Ele está em mim e eu estou Nele.”. 

Estas palavras não se aplicam, entretanto, a Ele somente; são verdadeiras para a Humanidade inteira. Cristo sabia que todo o homem deve chegar à compreensão de sua natureza íntima e, é nesse sentido que dizia a seus discípulos: “Vós sois todos deuses.” (João, cap. X, v. 34.) 

Poder-se-ia acrescentar: deuses para o futuro! 

É a ignorância da nossa natureza e das forças divinas que dormem no nosso íntimo, é a ideia insuficiente que fazemos do nosso papel e das leis do destino que nos entregam às influências inferiores, ao que chamamos o Mal. Na realidade, o facto reduz-se a uma falta de desenvolvimento. O estado de ignorância não é, por si mesmo, um mal; é somente uma das formas, uma das condições necessárias da lei de evolução. A nossa inteligência não amadureceu ainda; a nossa razão, criança, tropeça nos acidentes do caminho; daí o erro, os desfalecimentos, as provações, a dor. Mas todas essas coisas serão um bem se as considerarmos outros tantos meios de educação e elevação. A Alma deve atravessá-las para chegar à concepção das verdades superiores, à possessão da parte de glória e de luz, que fará dela uma eleita do céu, uma expressão perfeita do Poder e do Amor infinitos. Cada ser possui os rudimentos de uma inteligência que atingirá o génio e tem a imensidade dos tempos para desenvolvê-la. Cada vida terrestre é uma escola, a escola primária da Eternidade. 

Na lenta ascensão que leva o homem a Deus, procuramos, antes de tudo, a ventura, a felicidade. Todavia, no seu estado de ignorância, não poderia ele atingir esses bens, porque os procura quase sempre onde não estão, nas regiões das miragens e das quimeras, por meio de processos cuja falsidade só lhe aparece depois das decepções e dos sofrimentos. São esses sofrimentos que nos esclarecem; as nossas dores são lições austeras; elas nos ensinam que a verdadeira felicidade não está nas coisas da matéria passageira e mutável, mais na perfeição moral. Os nossos erros e faltas repetidos, com as fatais consequências que trazem, acabam por nos dar a experiência e, esta nos conduz à sabedoria, isto é, ao conhecimento inato, à intuição da verdade. Chegado a esse terreno sólido, o homem sentirá o laço que o une a Deus e avançará, a passo mais seguro, de estádios em estádios, para a grande luz que não se extingue nunca. 

/… 


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, III Solidariedade | comunhão universal (1 de 3), 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali)

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Saberes e o tempo ~


Capítulo III 

O mundo espiritual e os fluidos; O mundo espiritual (*) 

O fluido cósmico universal, como foi ensinado, é a matéria elementar primitiva, cujas modificações e transformações constituem a inumerável variedade dos corpos da Natureza. Como elementar princípio universal, ele se apresenta em dois estados distintos: o de eterização ou imponderabilidade, que se pode considerar o estado normal primitivo e, o de materialização ou de ponderabilidade, que, de certo modo, é apenas consecutivo àquele. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível; mas, ainda aí não há transição brusca, pois que os nossos fluidos imponderáveis podem considerar-se um termo médio entre os dois estados. 

No estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme; sem deixar de ser etéreo, sofre modificações tão variadas, em género, senão mais numerosas quanto no estado de matéria tangível. 

Essas modificações constituem fluidos distintos que, embora procedendo do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais e dão lugar aos fenómenos particulares do mundo invisível. 

Sendo tudo relativo, esses fluidos têm para os Espíritos uma aparência tão material, como a dos objectos tangíveis para os encarnados e são para eles o que são para nós as substâncias do mundo terrestre. Eles os elaboram e combinam para produzir determinados efeitos, como fazem os homens com os seus materiais, se bem que por processos diferentes. 

Lá, entretanto, como neste mundo, só aos Espíritos mais esclarecidos é dado compreender o papel dos elementos constitutivos do mundo deles. Os ignorantes do mundo invisível são tão incapazes de explicar os fenómenos que observam e para os quais concorrem, muitas vezes maquinalmente, como o são os ignorantes da Terra para explicar os efeitos da luz ou da electricidade e para dizer como os vêem e entendem.” 

É admiravelmente justo o que se acaba de ler. Interroga ao acaso dez pessoas que passem na rua, perguntando-lhes quais são as operações sucessivas da digestão ou da respiração e fica certo de que nove delas não saberão responder-te. No entanto, na nossa época, a instrução já se encontra bastante disseminada. Mas, quão poucos se dão ao trabalho de aprender ou de reflectir! 

Os elementos fluídicos do mundo espiritual fogem aos nossos instrumentos de análise e à percepção dos nossos sentidos, feitos que estes são para a matéria tangível e não para a etérea. Alguns há peculiares a um meio tão diferente do nosso, que não podemos fazer deles ideia, senão mediante comparações tão imperfeitas como aquelas pelas quais um cego de nascença procura fazer ideia da teoria das cores. 

Mas, de entre esses fluidos, alguns se encontram intimamente ligados à vida corpórea e pertencem de certo modo ao meio terrestre. Em falta de percepção directa, podem observar-se-lhes os efeitos e adquirir, sobre a natureza deles, conhecimentos de certa exactidão. É essencial esse estudo, porquanto constitui a chave de uma multidão de fenómenos que só com as leis da matéria não se explicam

No seu ponto de partida, o fluido universal se encontra em grau de pureza absoluta, da qual nada nos pode dar ideia. O ponto oposto é o da sua transformação em matéria tangível. Entre esses dois extremos, há inúmeras transformações, mais ou menos aproximadas de um ou de outro. Os fluidos mais próximos da materialidade, os menos puros consequentemente, compõem o que se poderia chamar a atmosfera espiritual da Terra. É desse meio, no qual também diferentes graus de pureza existem, que os Espíritos encarnados ou desencarnados extraem os elementos necessários à economia de suas existências. Por muito subtis e impalpáveis que sejam para nós, não deixam esses fluidos de ser de natureza grosseira, comparativamente aos fluidos etéreos das regiões superiores. 

Não é rigorosamente exacta a qualificação de fluidos espirituais, porquanto, em definitivo, eles são sempre matéria mais ou menos quintessenciada. De realmente espiritual, há só a alma ou princípio inteligente. Eles são qualificados de espirituais, em comparação e, sobretudo, em razão da afinidade que guardam com os Espíritos. Pode dizer-se que são a matéria do mundo espiritual. Daí o serem denominados fluidos espirituais 

Quem, ao demais, conhece a constituição íntima da matéria tangível? Ela possivelmente só é compacta com relação aos nossos sentidos. Prová-lo-ia a facilidade com que a atravessam os fluidos espirituais (**) e os Espíritos, aos quais ela não opõe obstáculo maior do que o que à luz oferecem os corpos transparentes. 

Tendo por elemento primitivo o fluido cósmico etéreo, há de a matéria tangível ter a possibilidade de voltar, desagregando-se, ao estado de eterização, como o diamante, que é o mais duro dos corpos, pode volatilizar-se em gás impalpável. A solidificação da matéria mais não é, na realidade, do que um estado transitório do fluido universalque pode voltar ao seu estado primitivo, quando deixam de existir as condições de coesão

Quem sabe mesmo se, no estado de tangibilidade, a matéria não é susceptível de adquirir uma espécie de eterização, que lhe dê propriedades particulares? Certos fenómenos, que parecem autênticos, tenderiam a fazê-lo supor. Ainda não possuímos senão as balizas do mundo invisível e o futuro sem dúvida nos reserva o conhecimento de novas leis que permitirão se conheça o que para nós continua a ser mistério.” 

Vejamos agora, por meio das modernas descobertas, se são exactas estas concepções. 

/… 
(*) Allan Kardec, A Génese, cap. XIX, Os fluidos, nºs 2 e 3. 
(**) E podemos hoje acrescentar: pelos raios X e pelas emanações radioactivas. Quem ousaria duvidar da clarividência dos nossos guias espirituais, desde que eles há longo tempo ensinam o que só agora a ciência descobre? 


Gabriel Delanne (i)A Alma é Imortal, Terceira parte, O Espiritismo e a ciência; Capítulo III, O mundo espiritual e os fluidos; O mundo espiritual, 10º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)  

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Da sombra do dogma à luz da razão ~


Natureza da Revelação Espírita ~ 
(VIII) 

"Anúncio do Consulador" 

Retira ao homem o espírito livre, independente, sobrevivendo à matéria e, farás dele uma máquina organizada, sem objectivo, sem responsabilidade, sem outro travão para além da lei civil e boa para ser explorada como animal inteligente. Nada esperando depois da morte, nada o impede de aumentar os prazeres do presente; se sofre, só tem como perspectiva o desespero e o nada como refúgio. Tendo a certeza do futuro, a de reencontrar os que amou, o receio de rever os que ofendeu, todas as suas ideias se modificam. Se o Espiritismo não tivesse feito mais do que retirar ao homem a dúvida quanto à vida futura, teria contribuído para o seu aperfeiçoamento moral mais que todas as leis disciplinares que por vezes o peiam mas não modificam. 

Sem a pré-existência da alma, a doutrina do pecado original não seria só irreconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pelo erro de um único: seria um contra-senso, tanto mais injustificável quanto, segundo esta doutrina, a alma não existiria na época a que se pretende remontar a sua responsabilidade. Com a pré-existência, o homem traz ao renascer o germe das suas imperfeições, dos defeitos que não corrigiu e que se traduzem nos seus instintos inatos, nas suas propensões para tal ou tal vício. Reside aí o verdadeiro pecado original de que sofre muito naturalmente as consequências, mas com a diferença capital de que sofre o castigo dos seus próprios pecados e não o de um pecado de outro. E há outra diferença, simultaneamente consoladora, encorajadora e soberanamente equitativa: a de que cada existência lhe oferece os meios para se redimir através da reparação e para evoluir, quer despojando-se de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos, e isto até que, ao estar suficientemente purificado, deixe de necessitar da vida corporal e possa viver exclusivamente da vida espiritual, eterna e bem-aventurada. 

Pelo mesmo motivo, o que evoluiu moralmente traz, ao renascer, qualidades inatas, tal como o que evoluiu intelectualmente traz ideias inatas; identifica-se com o bem, pratica-o sem esforço, sem cálculo e, por assim dizer, sem pensar. O que é obrigado a combater as suas más tendências está ainda a lutar: o primeiro já venceu, o segundo vai a caminho de vencer. Existe, portanto, virtude original tal como há saber original e pecado ou, melhor vício original

Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e a sua acção sobre a matéria. Demonstrou a existência do perespírito, presumido desde a antiguidade e designado por São Paulo sob o nome de Corpo espiritual, isto é, corpo fluídico da alma após destruição do corpo tangível. Sabemos hoje que esse invólucro é indissociável da alma; que é um dos elementos constituintes do ser humano; que é o veículo de transmissão do pensamento e que, durante a vida do corpo, serve de ligação entre o Espírito e a matéria. O perespírito representa um papel tão importante no organismo e numa quantidade de afecções, que se aproxima da fisiologia tão bem como da psicologia. 

O estudo das propriedades do perespírito, dos fluidos espirituais e dos atributos psicológicos da alma, abre novos horizontes à ciência e fornece a chave de um conjunto de fenómenos até então incompreendidos por não se conhecer a lei que os rege; fenómenos negados pelo materialismo porque se prendem à espiritualidade, qualificados por outros como milagres ou sortilégios, consoante as crenças. São assim, entre outros, os fenómenos da dupla visão, da visão à distância, do sonambulismo natural ou artificial, dos efeitos psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão de pensamento, do fascínio, das curas instantâneas, das obsessões e possessões, etc. Ao demonstrar que estes fenómenos assentam sobre leis tão naturais como os fenómenos eléctricos e as condições normais em que se podem produzir, o Espiritismo destruiu o império do maravilhoso e do sobrenatural e, por consequência, a fonte da maior parte das superstições. Se faz com que se acredite em certas coisas consideradas por alguns como quiméricas, impede que se acredite em muitas outras de que demonstra a impossibilidade e a irracionalidade. 

O Espiritismo, muito longe de negar ou de destruir o Evangelho, vem antes pelo contrário confirmar, explicar e desenvolver, através das novas leis da natureza que revelam tudo o que Cristo fez e disse; traz luz aos pontos obscuros do seu ensino, de tal modo que alguns daqueles para quem certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam ser inadmissíveis, as compreendem e as admitem sem dificuldade com a ajuda do Espiritismo; entendem-lhe melhor o alcance e podem separar a realidade da alegoria; Cristo parece-lhes maior: já não é simplesmente um filósofo, mas sim um Messias divino. 

Se, além disso, considerarmos o poder do Espiritismo pelo objectivo que confere a todas as acções da vida, pelas consequências do bem e do mal que deixa bem claras, a força moral, a coragem, os consolos que confere nas aflições através da ideia de termos perto de nós os entes que amámos, a garantia de os revermos, a possibilidade de conversar com eles, enfim, pela certeza de que de tudo o que fazemos, de que de tudo o que adquirimos em inteligência, em ciência, em moralidade, até ao derradeiro momento da vida, nada está perdido, que tudo aproveita à evolução, reconhecemos que o Espiritismo realiza todas as promessas de Cristo relativamente ao Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito da Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa do seu advento encontra-se igualmente realizada, pois, de facto, é ele o verdadeiro Consolador. (*) 

Se a estes resultados acrescentarmos a rapidez inerente à propagação do espiritismo, apesar de tudo o que foi feito para o abater, não poderemos sequer pensar que o seu advento não seja outra coisa que não providencial, na medida em que triunfa sobre todas as forças e sobre todas as más vontades humanas. A facilidade com que é aceite por um grande número de pessoas, e isso sem constrangimentos, sem outros meios de que o poder da ideia, prova que ele responde a uma necessidade: a de acreditar em qualquer coisa, após o vazio cavado pela incredulidade. Consequentemente, chegou no momento exacto. 

Os aflitos são em grande número: não é então surpreendente que tantas pessoas acolham uma doutrina consoladora, de preferência a doutrinas que desesperam, na medida em que é mais aos deserdados da sorte do que aos felizes que se dirige o Espiritismo. O doente vê chegar o médico com mais alegria do que aquele que não costuma ter problemas de saúde; ora, os aflitos são os doentes e o Consolador é o Médico. 

Vós que combates o Espiritismo, se queres que o deixem para vos seguirem, dá então mais e melhor que ele; cura mais garantidamente as feridas da alma. Dá mais consolações, mais satisfações ao coração, esperanças mais legítimas, certezas maiores; faz do futuro um quadro mais racional, mais sedutor; mas não penses em vencê-lo com a perspectiva do vazio; com a alternativa das chamas do Inferno ou da beata e inútil contemplação perpétua. 

/… 
(*) Muitos pais de família deploram a morte prematura de crianças, pela educação das quais fizeram grandes sacrifícios e, dizem para consigo que tudo isso foi uma pura perda. Com o Espiritismo não lamentam estes sacrifícios e estariam prontos a fazê-los, mesmo tendo a certeza de verem morrer os filhos, pois sabem que, se estes não beneficiam dessa educação no presente, ela servirá primeiro para a sua evolução como Espíritos; depois, que será um conhecimento adquirido para uma nova existência e que, quando regressarem, possuirão uma bagagem intelectual que os tornará mais aptos a adquirir novos conhecimentos. São as crianças que ao nascer trazem ideias inatas, que sabem sem, por assim dizer, terem necessidade de aprender. Se os pais não têm a satisfação imediata de verem os filhos usufruírem dessa educação, certamente gozá-la-ão mais tarde, quer como Espíritos, quer como homens. Talvez venham a ser novamente os pais dessas mesmas crianças que consideramos afortunadamente dotadas pela natureza e que devem as suas aptidões a uma anterior educação; assim como também, se as crianças se desencaminham por negligência dos pais, estes podem vir a sofrer mais tarde com isso, devido aos aborrecimentos e desgostos dos pais, estes podem vir a sofrer mais tarde com isso, devido aos aborrecimentos e desgostos que provocarão numa nova existência. (Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo V, n.º 21: Perdas de Pessoas Amadas e Mortes Prematuras.) 


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA "Anúncio do Consulador" números de 37 a 44 (VIII), 10º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida. 
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

terça-feira, 29 de junho de 2021

as vidas sucessivas | os elementos ~


~~ Experiências magnéticas Regressão da memória e previsão, Caso nº 2 Joséphine

Joséphine é uma jovem de dezoito anos, doméstica na casa de um alfaiate de Voiron, Sr. C., interessado, assim como sua esposa, pelo espiritismo, do qual são os únicos adeptos nesta cidade. Possui inteligência bastante comum e é tratada familiarmente pelos seus patrões, que a acusam apenas de ser um pouco astuciosa. (i)

Adormeci-a por meio de passes longitudinais para conhecer os fenómenos que ela apresentaria e fiquei admirado ao constatar que, sem nenhuma sugestão, eu a fazia remontar ao curso de sua vida, assim como a Laurent, que deixei de observar desde 1893. 

Ei-la com a idade de sete anos. Pergunto-lhe o que faz. 

– Frequento a escola. 

– Você sabe escrever? 

– Sim, estou a começar a aprender. 

Ponho-lhe uma pena na mão, ela escreve muito bem papá e mamã. Continuo os passes magnéticos e levo-a à idade dos cinco anos

Ela escreve por sílabas, pa. Ponho-lhe na mão um lenço dizendo-lhe que é uma boneca; ela parece bastante contente e põe-se a acariciá-la. Apresenta todas as características de uma menina dessa idade. Novos passes. Está agora provavelmente no berço e já não pode falar. Coloco-lhe a extremidade do dedo dentro da boca; ela o chupa. 

Após algumas sessões destinadas a torná-las mais flexíveis e a diminuir o tempo necessário para levá-la ao estado da primeira infância, tive a ideia de continuar os passes longitudinais. Interrogada, Joséphine respondeu por sinais às minhas perguntas, e foi assim que me mostrou pouco a pouco, em diferentes sessões, que não havia ainda nascido, que o corpo no qual devia encarnar estava no ventre de sua mãe à volta de quem ela se enroscava, mas cujas sensações tinham pouca influência sobre si. 

Um novo aprofundamento do sono determinou a manifestação de uma personagem cuja natureza tive a princípio dificuldades em determinar. 

Ela não queria dizer nem quem era, nem onde estava. Respondia-me, em tom brusco e com voz de homem, que estava lá, uma vez que me falava; porém, ela não via nada, encontrava-se na completa escuridão. (ii) 

Tendo-se o sono tornado ainda mais profundo, foi um velho deitado na sua cama e doente há muito tempo quem respondeu às minhas perguntas, após inúmeros rodeios, como um camponês astuto que teme comprometer-se e quer saber por que é interrogado.  
Figura 1 – Caligrafia de Joséphine adormecida e levada à personalidade de Jean-Claude Bourdon, com a idade de quinze anos. 
Figura 2 – Caligrafia de Joséphine, no estado de vigília, a quem dito o nome de Jean-Claude Bourdon. 

Enfim vim a saber que ele se chamava Jean-Claude Bourdon e que o lugarejo onde se encontrava era Champvent, na comuna de Polliat, porém ele não sabia em que departamento. (iii) 

Pouco a pouco consegui captar a sua confiança e eis aqui o que soube de sua vida, cujos diversos períodos fi-los reviver várias vezes. (iv) 

Ele nasceu em Champvent em 1812. (v) 

Frequentou a escola somente até aos dezoito anos, porque não aprendia grande coisa, podendo estar presente apenas durante o inverno e repetidamente faltando às aulas. Fez o serviço militar no 7º Regimento de Artilharia, em Besançon. (vi) 

Devia permanecer no Regimento durante sete anos, porém a morte de seu pai, permitiu a sua liberação, mais cedo, decorridos apenas quatro anos. Não recorda o nome de nenhum de seus oficiais; por outro lado, sabe que se distraía bastante, com os camaradas e as moças, narrando-me as suas escapadelas, enquanto anelava o bigode. 

De retorno à terra natal, reencontra a sua boa amiga Jeannette a quem devia desposar antes de partir e da qual só me falou depois de corar. Agora sabe que não é preciso desposar as mulheres para servir-se delas; já não quer casar e mantém Jeannette como amante. Observei-lhe que podia engravidar a pobre moça: “Bem, depois! ela não será a primeira nem a última.” Envelheceu isolado fazendo ele próprio a sua comida, limitada a sopa e charcutarias. Tinha na sua terra um irmão casado com filhos, queixa-se dos seus procedimentos para com ele e não os vê. Morre com a idade de setenta anos, após uma longa doença. Durante o período correspondente à doença, pergunto-lhe se não pensa em chamar o padre: “Ah! você está a zombar de mim. Você acredita em todas as besteiras que ele me diz? Ora, vá! quando se morre, é para sempre.” 

Morre. Sente-se sair do seu corpo, mas a ele continua preso durante um tempo bastante longo. Pôde seguir o seu enterro flutuando acima do caixão. Compreendeu vagamente o que as pessoas diziam: “Que grande alívio!” Na igreja, o padre andou em torno do féretro e produziu assim uma espécie de muro um pouco luminoso que o protegia dos maus espíritos que queriam precipitar-se sobre ele. As preces do padre também o acalmaram, porém tudo isso pouco durou. A água benta afastava igualmente os maus espíritos, porque os dissolve em toda a parte onde os alcança. No cemitério, ficou perto do seu corpo e sentiu-lhe a decomposição, o que o fazia sofrer muito. (vii) 

O seu corpo fluídico, que se tornou difuso depois da morte, retomou forma mais compacta. Ele vive na obscuridade, que lhe é penosa, mas não sofre, porque não matou nem roubou. Apenas sente sede algumas vezes, porque era bastante beberrão. Reconhece que a morte não é o que pensava. Não compreende bem o que lhe aconteceu, mas se soubesse antes o que agora sabe não teria zombado tanto do padre. Proponho-lhe fazê-lo reviver: “Ah! se assim o fizer, vou até gostar de você!” 

As trevas nas quais estava mergulhado acabaram por ser abertas por algumas luzes frouxas. Ele teve a inspiração de reencarnar num corpo de mulher, porque as mulheres sofrem mais do que os homens e ele tinha de expiar as faltas que havia cometido abusando das moças. Então aproximou-se daquela que seria a sua mãe, ficou perto dela até que a criança viesse ao mundo e, a seguir, entrou pouco a pouco no corpo dessa criança. Até cerca dos sete anos, havia em torno desse corpo uma espécie de névoa flutuante com a qual ele via muitas coisas que nunca mais voltou a ver. (viii)  

Quando acabei de extrair de Bourdon as informações que julgava úteis. (ix) 

Tentei recuar ainda mais longe no passado. Uma magnetização prolongada durante cerca de 45 minutos, sem demorar-me em nenhuma etapa, levou-me a Jean-Claude muito pequeno. 

Em seguida, nova personalidade. É agora uma senhora idosa que foi muito má, uma má língua que se comprazia em prejudicar as pessoas. Ela também sofre muito, o seu rosto é contraído por convulsões e às vezes ela se torce sobre a cadeira com uma expressão assustadora de dor. Encontra-se nas trevas espessas, cercada de maus espíritos que tomam formas horrendas para atormentá-la e atormentar os vivos quando o podem; é este o maior prazer deles. Algumas vezes ela foi levada também a mudar de forma e a segui-los para fazer mal aos homens. Fala com voz fraca, mas responde sempre de modo preciso às perguntas que lhe faço, ao contrário de argumentar a todo instante, como o fazia Jean-Claude. Ela se chama Philomène Carteron. 

Aprofundando ainda mais o sono, provoco as manifestações de Philomène viva. Ela já não sofre, parece bastante calma, responde sempre muito nitidamente em tom seco. Sabe que não é amada na região e que ninguém perderá nada com a sua ausência e ela saberá muito bem vingar-se na ocasião propícia. Nasceu em 1702, chamava-se Philomène Charpigny quando solteira. O seu avô materno chamava-se Pierre Machon e morava em Ozan. Casou-se em 1732, em Chevroux, com um homem chamado Carteron, com o qual teve dois filhos que perdeu. (x) 

Antes da sua encarnação, Philomène havia sido uma menina, morta na tenra idade. Anteriormente havia sido um homem que tinha matado e roubado, um verdadeiro bandido. É por isso que muito sofreu na completa escuridão a fim de expiar os seus crimes, mesmo depois da sua vida de menina, quando não teve tempo para fazer o mal. 

Não pude levar mais longe a experiência das vidas sucessivas porque, no fim da muito longa magnetização (cerca de duas horas) que era necessária para levá-la ao estado de bandido, o sujet (Joséphine) parecia esgotado. Causava pena vê-la nas suas crises; porém, um dia em que a havia conduzido até esse estado, pressionei-lhe um ponto situado no meio da fronte e que possui a propriedade de despertar a memória sonambúlica, ordenando-lhe que se transportasse a um tempo mais anterior. Ela me diz então, com hesitação e virando a cabeça, parecendo confusa, que tinha sido um macaco, um grande macaco quase semelhante ao homem. Confesso que não esperava esta resposta e o meu pensamento se reportou imediatamente a uma anedota atribuída a Alexandre Dumas pai (tendo alguém perguntado se era verdade que o seu pai era negro, Dumas, que não gostava quando lhe lembravam a sua origem, respondeu: “Certamente, e meu avô era um macaco; a minha família começou por onde a sua termina”). Entretanto, mantendo a seriedade, limitei-me a manifestar a minha admiração por ouvir que uma alma de animal se tornou uma alma de homem. Ela me respondeu que nos animais havia, como nos homens, naturezas boas ou más e que, quando o animal se tornava homem, este permanecia com os instintos do que havia sido como animal. Uma outra vez, nas mesmas circunstâncias, ela me diz que entre o seu estado de bandido e o de macaco havia passado por várias encarnações sucessivas; recordava-se de ter vivido nas florestas matando lobos, e nesse momento o seu rosto tornou-se feroz. 

/... 
(i) Ela é bastante sensível ao magnetismo. Um dia caiu de uma altura de 2,50 m., dando uma forte pancada com uma coxa sobre o ângulo de uma máquina de costura e feriu-se bastante, o que a fazia mancar. Adormeci-a e exteriorizei-lhe o seu duplo, como ela via bem por ele o local da ferida, colocou ali a minha mão, que mantive durante dois minutos; ao despertar estava completamente curada. (Albert de Rochas)
(ii) Encontrava-me assim lançado numa espécie de pesquisa da qual eu estava longe de suspeitar, e para que eu pudesse aí encontrar-me, foram-me necessárias várias sessões durante as quais, trazendo de volta ao presente, envelhecendo ou rejuvenescendo alternadamente o sujet nas suas existências anteriores, através de passes apropriados, coordenei e completei informações que eram frequentemente obscuras para mim, porque eu absolutamente não previa, no inicio, aonde ela queria conduzir-me e porque eu compreendia dificilmente os nomes próprios que se referiam a regiões ou a personagens desconhecidas. Apenas após pesquisas nos mapas e nos dicionários, consegui determinar exactamente os nomes e pude tomar nos próprios locais informações das quais falarei mais adiante. É bom lembrar aqui que, na maioria dos sujet, o sono magnético faz surgir uma série alternada de fases de letargia durante as quais não conseguem dar a conhecer as suas impressões em consequência de uma paralisia momentânea dos seus nervos motores e de fases de sonambulismo durante as quais podem falar, mas apresentam a insensibilidade cutânea. Gozam então de novas faculdades tanto mais desenvolvidas quanto mais profundo seja o sono. Durante as fases de letargia, o sujet continua em relação com uma parte do mundo exterior; se, após o despertar, se pressiona sobre a sua fronte o ponto da memória sonambúlica, desperta-se a memória do que se passou enquanto ele estava adormecido, tanto durante estas fases como durante as outras. (Abert de Rochas) 
(iii) Ele observou que havia dois lugarejos vizinhos que se chamavam Champvent, mas que o seu era o mais próximo de Mézériat e que ele ia com frequência a Saint-Julien, em Reyssouse, a negócios. Esses detalhes permitiram-me encontrar Champvent no departamento de Ain e no mapa do Estado-maior (Folha de Macon, a sudeste). Quanto a Joséphine, nasceu e passou a sua juventude em Manziat, cantão de Bugey-le-Châtel. No estado de vigília ela não se recorda de já ter ouvido falar de Champvent perto de Polliat. (A. de Rochas) 
(iv) Para vencer as suas resistências eu o envelhecia por punição e rejuvenescia-o, ao contrário, como recompensa; e ele me tomava nos últimos tempos por um grande feiticeiro a quem era preciso obedecer. (A. de Rochas) 
(v) As datas variam de dez anos quando comparadas entre si em diferentes momentos de sua personificação e em diferentes sessões. (A. de Rochas
(vi) O 7º Regimento de Artilharia manteve realmente guarnição em Besançon de 1832 a 1837 e é difícil compreender como Joséphine teria sido informada disto. (A. de Rochas) 
(vii) Perguntei-lhe se via os vermes: “Claro, não me atiraram sal”. (A. de Rochas) 
(viii) O povo diz que as crianças riem, com alegria, sem motivo. (A. de Rochas) 
(ix) O padre de Polliat, a quem escrevi para saber se existia na sua paróquia algum vestígio de Jean-Claude Bourdon, respondeu-me que nenhum Bourdon foi nunca conhecido em Polliat, mas que esse nome é bastante difundido num lugar vizinho, em Griège por Pont-de-Veyle (Ain). (A. de Rochas 
(x) Ela não tem nenhum sentimento religioso nem nunca frequentou a igreja e acredita que tudo termina com esta vida. Não sabe escrever. As famílias Charpigny e Carteron realmente existiram em Ozam e em Chevroux, porém não encontrei nenhum vestígio positivo de Philomène. (A. de Rochas) 


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte – Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 2 – Joséphine, 1904 (1 de 3), 9º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites