sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Corpo fluídico | agénere ou aparição tangível ~

Capítulo Segundo

KARDEC E O CORPO FLUÍDICO (III)

Ao dizer que, quando tratasse da questão do corpo fluídico atribuído a Jesus, fá-lo-ia de modo decidido, Kardec assumiu um compromisso baseado, principalmente, em duas coisas: nos documentos a serem recebidos dos Espíritos e na possível sanção do controle universal que esses mesmos documentos forneceriam. Esse o compromisso que vamos cobrar do Codificador, já que resolveu deixar ao futuro uma decisão, futuro do qual ele mesmo poderia ser personagem importante.

Pode-se reafirmar com bastante tranquilidade que Kardec, inicialmente, era refractário à ideia do corpo fluídico de Jesus, preferindo acreditar que esse corpo teria sido de carne. No entanto, ele mudaria de opinião se os factos, dos quais era humilde escravo, mostrassem que estava errado.

Logo no ano seguinte à análise que fizera da obra roustaingista, 1867, mês de Janeiro, Kardec publica na "Revista Espírita" uma carta de Roustaing, na qual, com breves palavras, informa sobre um erro de revisão havido em "Os Quatro Evangelhos" e faz as devidas correcções. Atente-se para o seguinte detalhe: Kardec apresenta a carta lacónico, dizendo: "O Sr. Roustaing, de Bordéus, dirigiu-nos a carta seguinte, pedindo a sua publicação". Não faz nenhuma referência à obra, não diz que ela, passados seis meses do seu comentário, merecia melhores atenções ou outra coisa qualquer. Há um silêncio do Codificador sobre a obra e sobre o assunto. Esta poderia ser uma ocasião propícia para dar força ao trabalho do Sr. Roustaing. Kardec, talvez, não tivesse chegado a conclusão alguma, ou quem sabe estava preparando estudos mais detalhados a seu respeito. Esse silêncio, de qualquer forma, é sintomático. Daí para a frente, ele cairia de forma definitiva sobre a figura de Roustaing, que não mais retornaria à "Revista Espírita" enquanto Kardec fosse vivo. O mesmo acontece com a médium Emilie Collignon, que não vê mais nenhuma mensagem de sua autoria mediúnica publicada na "Revista". Ambos deixam de figurar no principal órgão da imprensa espírita mundial e nem mesmo quando Kardec faz referências a qualquer facto ocorrido em Bordéus menciona algo sobre o primeiro ou a segunda. As mensagens mediúnicas, no entanto, continuam tendo lugar de destaque na "Revista", mas nenhuma delas vem com o selo da médium Collignon.

Sobre a teoria do corpo fluídico de Jesus, entretanto, o silêncio de Kardec foi quebrado pela publicação do livro "A Génese", em 1868. Ali, ele define a sua posição sobre o assunto e esclarece as razões que o levaram a isso. É contra o corpo fluídico, responde "decididamente", reafirmando que "os factos podem ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal". Não aceita Cristo com um corpo diferente das criaturas encarnadas porque não vê nenhuma vantagem nisso e porque o agénere, como ele entende e explica, não poderia resistir a uma vida inteira às vicissitudes de um mundo como a Terra, cheio de surpresas, agressões e dificuldades. Há, ainda, o detalhe moral, que para Kardec assume posição de destaque: o corpo fluídico forçaria Cristo a uma vida de saltimbanco e prestidigitador, de artista preocupado em não ser visto atrás do cenário sob pena de perder o respeito e a admiração. Kardec vê, pois; pelo aspecto científico e pelo moral e em ambos decide por um Cristo vivenciando a realidade do exemplo em corpo de carne.

De 1866, quando realizou a análise referida da obra "Os Quatro Evangelhos", até 1868, quando lançou a primeira edição de "A Génese", Kardec estudou o assunto com algum interesse. Teria tido tempo de analisá-lo nos seus diversos ângulos? A posição firme e decidida como o tratou leva a crer que sim, caso contrário deixaria de se manifestar contra e manteria a opinião de neutralidade exposta na "Revista Espírita". E mais ainda, não seria agora que iria contradizer a posição assumida e demonstrada em todos os seus estudos, a de ouvir o parecer de diversos Espíritos. Depois, ao lançar a segunda edição de "A Génese", fez questão de afirmar que nada havia sido alterado com relação à primeira. Em assunto de muito maior importância, como o da reencarnação, Kardec manteve-se silencioso até à perfeita concordância, inclusive contrariando aquilo que ele mesmo pensava sobre a questão. Era de seu carácter não avançar qualquer conclusão. Por isso, o seu parecer sobre o corpo fluídico de Jesus tem o mesmo peso que sobre outros assuntos.

O raciocínio de Kardec está assim desenvolvido: Jesus é um homem e, "como homem, tinha a organização dos seres carnais; mas como Espírito puro, destacado da matéria, devia viver na vida espiritual mais que na vida corporal, da qual não tinha as fraquezas. A superioridade de Jesus sobre os homens não era relativa às qualidades particulares do seu corpo, mas às do seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e ao seu perispírito alimentado pela parte a mais quintessenciada dos fluidos terrestres" (i). Kardec vê na capacidade do Espírito o factor mais importante de uma encarnação. Mediante esse raciocínio, Jesus, por ser um Espírito superior, o mais experimentado e puro de quantos já encarnaram na Terra, teria tido condições de viver uma vida muito mais espiritual do que material, dominando o corpo físico e submetendo-o às suas vontades. Entra aí, também, a natureza do seu perispírito, formado de acordo com a sua superioridade.

 Um ligeiro retrospecto sobre o perispírito, ainda segundo Kardec (ii)vai mostrar que a sua natureza "está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem mudá-lo à sua vontade, e por conseguinte não podem se transportar à vontade de um mundo para o outro. É o caso em que o envoltório fluídico, se bem que etéreo e imponderável em relação à matéria tangível, ainda é muito pesado, se assim se pode exprimir, em relação ao mundo espiritual, para lhes permitir saírem do seu ambiente. Será preciso classificar nesta categoria aqueles cujo perispírito é bastante grosseiro para que eles o confundam com o corpo carnal, e que, por esta razão, acreditam estar sempre vivos. Estes Espíritos, cujo número é grande, permanecem na superfície da Terra, tal como os encarnados, acreditando sempre ocupar-se com o que estão habituados; outros, um pouco mais desmaterializados, entretanto não o são o suficiente para se elevar acima das regiões terrestres.

"Os Espíritos superiores,- prossegue Kardec- ao contrário, podem vir aos mundos inferiores e mesmo aí se encarnar. Dos elementos constitutivos do mundo em que entram, eles extraem os materiais do envoltório fluídico ou carnal apropriado ao ambiente onde se encontram. Fazem como o grande senhor que deixa as suas belas roupas para vestir-se momentaneamente com trajes plebeus, sem que por isso deixe de ser o grande senhor.

"É assim (finaliza) que os Espíritos das ordens mais elevadas podem se manifestar aos habitantes da Terra, ou encarnar-se entre eles, em missão. Tais Espíritos trazem consigo, não o envoltório, mas a lembrança por intuição das regiões de onde provêm, e que vêem no pensamento. São como videntes no meio de cegos."

Jesus se enquadra, perfeitamente, entre os Espíritos superiores citados! Kardec o vê nesta condição com toda a tranquilidade.

Uma contradição de certas obras que defendem a tese do corpo fluídico de Jesus aparece exactamente aqui, neste ponto. Opinam que os Espíritos da condição de Jesus jamais encarnam. Uma dessas opiniões diz assim: "Os Cristos, Espíritos Puríssimos, não encarnam. Não têm mais nenhuma afinidade essencial com qualquer tipo de matéria, que é o mais baixo estágio da energia universal. Para eles, a matéria é lama fecunda, que não desprezam, sobre a qual indirectamente trabalham através dos seus prepostos, na sublime mordomia da Vida, mas coisa com que não podem associar-se contextualmente, muito menos em íntimas ligações genéticas. Eles podem ir a qualquer parte dos Universos e actuar onde lhes ordene a Vontade Todo-Poderosa de Deus Pai; podem mesmo mostrar-se visualmente, por imenso sacrifício de amor, a seres inferiores e materializados, indo até ao extremo de submeter-se ao quase-aniquilamento de tangibilizar-se à vista e ao tacto de habitantes de mundos inferiores, como a Terra; mas não podem encarnar-se, ligar-se biologicamente a um ovo de organismo animal, em processo absolutamente incompatível com a sua natureza e tecnicamente irrealizável" (iii)Kardec não concorda, absolutamente, com esta opinião. Com mais simplicidade ele atinge as profundezas, é mais feliz até nas imagens que usa para fazer-se entender, tal a do grande senhor que deixa as suas vestes ricas pelas pobres mas continua sendo o grande senhor. Sem dúvida, essa "sujeira", essa lama enriquece a experiência dos Espíritos que reencarnam, sejam superiores ou não, no dizer de Kardec. Já não é o caso dos que crêem de acordo com a opinião transcrita acima. Questão de humildade, questão de orgulho!...

Retornando a Jesus (iv)afirma o Codificador que "a sua alma não devia estar ligada ao corpo senão por laços estritamente indispensáveis; constantemente separada, ela devia lhe dar uma vista dupla não só permanente, como também de uma penetração excepcional e por outro modo muito superior àquela que se encontra nos homens comuns. O mesmo devia acontecer com todos os fenómenos que dependem dos fluidos perispiritais ou psíquicos. A qualidade de tais fluidos lhe dava um imenso poder magnético, secundado pelo desejo incessante de fazer o bem".

As coisas de Jesus se passam, assim, de modo muito simples. A sua capacidade de Espírito superior, as propriedades do seu perispírito e o imenso desejo de auxiliar faziam com que a sua vida transcorresse de modo vitorioso como a de nenhum outro encarnado. É, interessante verificar que desse raciocínio se conclui, também, que qualquer outra criatura poderia viver a mesma vida desprendida, bastando que tivesse alcançado a evolução de Cristo. Assim, pois, esse Jesus da visão kardequiana está próximo da criatura encarnada até fisicamente, sem qualquer perigo de diluir-se no ar repentinamente...
/...
(i) "A Génese", cap. XV, item 2.
(ii) "A Génese", cap. XV, item 9.
(iii) "Universo e Vida", cap. VII.
(iv) “A Génese”, cap. XV, item 2.


Wilson GarciaO Corpo Fluídico, Capítulo Segundo – KARDEC E O CORPO FLUÍDICO 3 de 6, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Pintura de Josefina Robirosa)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Inquietações Primaveris ~

A Extinção da Vida (II)

Vivemos até agora num torniquete de contradições alimentadas por grosseiros e desumanos interesses imediatistas.

O mundo se apresenta em fase de renovação cultural, política e social, povoado por gerações novas que anseiam pelo futuro e se encontram oprimidas e marginalizadas pelo domínio arbitrário dos velhos, dolorosamente apegados a vícios insanáveis de um passado em escombros.

A prudência medrosa dos velhos e o anacronismo fatal de suas ideias, de suas superstições e do seu apego desesperado à vida como ela foi e não como ela é, esmagam sob a pressão da mentalidade antiquada apoiada no domínio das estruturas tradicionalmente montadas dos dispositivos de segurança. Essa situação negativa é transitória, em virtude da morte, que renova as gerações, mas prolongando-se nesses dispositivos garante o prolongamento indefinido da situação, ao mesmo tempo em que as novas gerações, marginalizadas politicamente, não dispõem de experiências e conhecimentos para enfrentar os dominadores, caindo em apatia e desinteresse pela vida pública. Essa situação se agrava com a ocorrência de tentativas geralmente ingénuas e inconsequentes de jovens explorados por grupos violentos, o que provoca o desencadeamento da pressão oficial, geralmente seguida de réplicas terroristas. É o que se vê, principalmente, nos países europeus arrasados material e espiritualmente pela segunda guerra mundial.

Esse impasse internacional só pode ser rompido por medidas e atitudes válidas dos governos das nações em que o choque de mentalidades antagónicas não chegou a produzir estragos materiais e morais irrecuperáveis. Muito podem contribuir para o restabelecimento de um estado normal nas instituições culturais, através de cursos e divulgações, pelos meios de comunicação organizados e dados por especialistas hábeis.

A Educação para a Morte, dada nas escolas de todos os graus, não como matéria independente, mas ligada a todas as matérias dos cursos, insistindo no estudo dos problemas existenciais, irá despertando as consciências, através de dados científicos positivos, para a compreensão mais clara e racional dos problemas da vida e da morte. Todo o empenho deve concentrar-se na orientação ética da vida humana, baseada no direito à vida comunitária livre, em que todos os cidadãos podem gozar das franquias sociais, sem restrições de ordem social, política, cultural, racial ou de castas. O importante é mostrar, objectivamente, que a vida é o caminho da morte, mas que a morte não é o fim da existência humana, pois esta prossegue nas hipóstases espirituais do universo, nas quais o espírito se renova moralmente e se prepara com vista a novas encarnações na linha da evolução ôntica da Humanidade.

Nascimento e morte são fenómenos biológicos interpenetrados. A vida e a morte constituem os elementos básicos de todas as vidas, que, por isso mesmo, são também mortais. O inferno mitológico dos pagãos devia ter desaparecido com o advento do Cristianismo, mas foi substituído pelo inferno cristão, mais cruel e feroz que o pagão. As carpideiras antigas deixaram de chorar profissionalmente nos velórios, mas os cerimoniais funerários da Igreja substituíram de maneira mais pungente e desesperadora, com pompas sombrias e latinório lastimante, prolongados em semanas e meses, o lamento por aqueles que apenas cumpriram uma lei natural da  vida. A ideia trágica da morte sobrevive no nosso tempo, apesar do avanço das Ciências e do desenvolvimento geral da Cultura. Há milhões de anos morremos e ainda não aprendemos que a vida e a morte são ocorrências naturais. E as religiões da morte, que vampirescamente vivem dos gordos rendimentos das celebrações fúnebres e das rezas indefinidamente pagas pelos familiares e amigos dos mortos, empenham-se num combate contra os que pesquisam e revelam o verdadeiro sentido da morte. A ideia fixa de que a morte é o fim e o terror das condenações de após a morte sustentam esse comércio necrófilo em todo o mundo. Contra esse comércio simoníaco é necessário desenvolver-se a Educação para a Morte, que, restabelecendo a naturalidade do fenómeno, dará aos homens a visão consoladora e cheia de esperanças reais da continuidade natural da vida nas dimensões espirituais e a certeza dos retornos através do processo biológico da reencarnação, claramente ensinado nos próprios Evangelhos.

Conhecendo o mecanismo da vida, em que nascimento e morte se revezam incessantemente, os instintos de morte e os seus impulsos criminosos irão atenuando-se até desaparecerem por completo. Os desejos maldosos de extinção da vida, que originam os suicídios, os assassinatos e as guerras, tenderão a transformar-se nos instintos da vida. A esperança e a confiança em Deus, bem como a confiança na vida e nas leis naturais, criarão um novo clima no planeta, hoje devastado pelo desespero humano. O medo e o desespero desaparecerão com o esclarecimento racional e científico do mistério da morte, esse enigma que a ressurreição de Jesus e os seus ensinos, bem como os do Apóstolo Paulo, já deviam ter esclarecido há dois mil anos.
/…


Herculano Pires, José – Educação para a Morte, 4 A Extinção da Vida 2 de 2, 7º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

domingo, 25 de dezembro de 2016

Fernando de Lacerda, o médium português ~

Explicando…

A primeira vez que ouvimos falar de Fernando de Lacerda foi quando nos referiram a história de um homem que, no princípio do século, vivera em Lisboa, saltando para cima dos eléctricos e do Arco da Rua Augusta, e que um outro homem conseguia dominar com a sua presença… e, da narrativa, ficou-nos a sensação de que o que era mais importante não era o cantor, mas a canção!

Tínhamos «descoberto» há pouco tempo a Doutrina Espírita e, talvez, olhando agora para trás, tenhamos de concluir que a deficiência da ideia que formámos, deveria ser consequência da nossa ignorância, da maneira mais ou menos vaga como assimiláramos o caso – não o caso em si próprio – tão desabitual que, só por isso, deveria, antes, ter-nos levado a debruçar sobre o assunto.

Não o fizemos.

Em 1974 conseguimos ler as Memórias de Um Suicida, mas o nome do médium que Camilo ali refere, nada nos dizia…

Passaram-se 11 anos.

Em Portugal, a «Associação Luz no Caminho», de Braga, edita o 1.º volume da obra de Lacerda, e, poucos meses depois, tivemos a possibilidade de obter a obra completa, em edição brasileira.

O nome de Fernando de Lacerda passou, então, a representar para nós o de um médium português que na primeira década de 1900 recebera várias comunicações de espíritos de escritores grandes da literatura portuguesa, a que se juntaram mensagens de nomes de outras personalidades estrangeiras, universalmente conhecidas.

Os livros foram lidos rapidamente, tendo – realmente – apreciado o estilo das diversas composições. Recordamo-nos que, na época, um familiar, sentado a nosso lado, lia «O Mistério da Estrada de Sintra» enquanto nós analisávamos, um e outro, da igualdade de estilo, a ironia, os «floreados», as descrições…

– Extraordinário!...

Mas foi só isso…

Em 1989 a Associação Luz no Caminho, ainda ela, edita o opúsculo Fernando de Lacerda, o Homem… o Médium!

Lembramo-nos de termos adquirido o livrito em Dezembro, na própria Associação, num Conselho Federativo Nacional que a Federação Espírita Portuguesa ali esteve realizando.

Lemo-lo à noite, em meia hora, tendo-o terminado com a sensação, talvez idêntica à de um esfomeado sentado a uma mesa repleta de iguarias, que só os olhos comem… porque não as consegue mastigar!

Sem saber porquê, sentimo-nos defraudados… mas semanas depois calmamente, voltámos a abrir o livrinho. O artigo de Hermínio de Miranda: – Fernando de Lacerda, o Médium do País de Camões –, levantou a ponta de um véu: a Federação Espírita Brasileira tinha em seu poder o espólio que o escritor recebera e ali entregara. Através da F.E.P., de cuja Direcção fazíamos parte, escrevemos à nossa congénere brasileira, pedindo fotocópias daquele espólio, por serem «elementos de reconhecido valor histórico e doutrinário que, por certo, permitirão dar a conhecer ao Movimento Espírita Português quem foi e o que fez Fernando de Lacerda em prol da Mensagem do Consolador, a benefício da Humanidade…», e, enquanto a resposta não chegava, procurámos, então, descobrir Fernando de Lacerda. Foi uma iniciativa que demorou um ano em pesquisas na Biblioteca Nacional, na Torre do Tombo – para descobrirmos os nomes dos familiares do médium –, rescaldo do muito que já se possuiu de valioso antes do seu encerramento na década de 60.

A sensação da descoberta foi maravilhosa mas, apesar disso, um pouco frustrante! Não conseguíamos encontrar o que consideramos principal: o assunto que levara à suspensão do subchefe da polícia administrativa do Governo Civil, e consequente demissão.

Mas, a nossa percepção dava-nos uma outra sensação: não estávamos sós a movimentar-nos! A partir de determinado momento, começamos a perceber que «alguém» emparceirava connosco, caminhando, por vezes, à nossa frente, debruçando-se igualmente sobre o que líamos. Assim nos foi aberto o caminho e os nossos passos orientados para determinada estante, e as nossas mãos seguraram um livro da grande Enciclopédia Luso-Brasileira, e os nossos dedos procuraram, como se lessem também eles, e se detinham, logo após, na página 990, em «Botto Machado (Fernão do Amaral)».

Tínhamos andado à sua procura, anteriormente, de maneira errada, embora essa procura nos tivesse concedido determinados dados, também eles úteis, e agora, talvez no momento oportuno, vinha todo o resto!

Na descrição ali encontrada descobrimos jornais e, nestes, tudo o que nos faltava saber.

Pelos artigos de uns, encontrávamos os outros… e fomos, assim, acumulando os elementos de que nos servimos para o nosso trabalho, que tivemos o cuidado de não manchar com transcrições menos nobres. Não nos move o escândalo!

Do Brasil, o Dr. Francisco Thiesen, ora desencarnado, respondia à carta da F.E.P., dizendo: – «…Não vemos inconveniente algum em ir ao encontro do propósito manifestado. Só que só poderemos atendê-lo oportunamente, em virtude de esses documentos se encontrarem guardados no prédio em construção, em sala sem acesso de momento. Assim, tão logo possamos tê-los ao alcance de nossas mãos, apressar-nos-emos em fazê-los chegar à Federação Espírita Portuguesa, de vez que concordamos tratar-se de “elementos de reconhecido valor histórico e doutrinário”.»

Aguardámos.

Na nossa agenda procurámos nomes de amigos residentes no Rio de Janeiro, que nos pudessem ajudar a encontrar ali o que, de outra forma, não poderíamos obter, e recorremos a Portugal Ferreira Marques.

Foi ele que nos obteve fotocópias da certidão de óbito, datada de 6 de Agosto, e da ordem da sepultura, da Santa Casa da Misericórdia, esta sim, datada do dia 7 do mesmo mês. Enviou-nos, ainda, fotocópias do artigo de Hermínio de Miranda e do de Jorge Rizzini, publicado no «Jornal de S. Paulo», e de que tínhamos o borrão que o próprio Rizzini nos facultara.

Aos serões, em nossa casa, dedicámo-nos, então, ao estudo dos quatro volumes Do País da Luz, e neles descobrimos, não só as orientações e ensinos que cada um dos autores comunicantes transmite, como o próprio Fernando de Lacerda.

Nas palavras do Eça, de Camilo, de Castilho, de Frei Bartolomeu dos Mártires, do Padre António Vieira, de HerculanoFialhoSilva Pinto – como nas orientações do «Marinheiro» – foi-se-nos revelando o homem.

presença que sentíamos há umas semanas, continuava quase constante. Nunca, na nossa condição de médium, uma entidade nos foi tão palpável… Mas, a esta altura já tínhamos concluído que essa companhia não podia ser de Lacerda! A maneira de ser, que nele descobrimos, a sua humildade, não se coadunavam com a elaboração de um trabalho, fosse este como fosse, para o dar a conhecer. Seria, antes, um amigo? Um familiar?... o próprio Botto Machado?

/…
«…É geralmente conhecido o Sr. Lacerda pelo “passa-culpas”. Multas… paga-as do seu bolso, quando não pode livrar delas os desgraçados. / Órfãos, não só os protege, como os tem em casa, dando-lhes leite, pão, instrução e educação. / Não se lhe conhece um acto indigno. Nunca ninguém o procurou em vão para uma obra piedosa. / Profundamente religioso, é profundamente justo. Todos os desgraçados, quando mais aflitos, vão colher uma esperança e um alento junto dele. / Dá colocação aos sem-trabalho, esmolas valiosas e constantes aos que dele se abeiram envoltos em lágrimas… e, às vezes, de crocodilo. / Ajuda todos como pode, sem os sugar – o que é raro. / Pode ter entrada nos lares honestos. Nunca os manchou… por causa da grande teoria do “amor livre”. / Nunca protegeu mulher nenhuma, para lhe impor uma torpeza. / É digno, é puro, é bom. / Tão inteligente como honesto, os próprios inimigos que, afinal, são poucos, não lhe negam nenhuma daquelas qualidades. / Um “defeito” lhe apontam: ser fraco pela sensibilidade que leva à maior abnegação.» in Jornal A "Palavra", 4 de Outubro de 1908



Manuela Vasconcelos, Fernando de Lacerda o Médium Português, Explicando 1 de 3, 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Fernando de Lacerda, inspector da Polícia Administrativa, em Lisboa 1908-1909, no seu gabinete do Governo Civil , recebendo mediúnicamente João de Deus para as crónicas "O que dizem os mortos")

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

~ há em nós uma surda aspiração, uma íntima energia misteriosa que nos encaminha para as alturas ~


alma humana…

Grandioso é o espectáculo da luta do espírito contra a matéria, luta para a conquista do Globo, luta contra os elementos, os flagelos, contra a miséria, a dor e a morte. Por toda a parte a matéria se opõe à manifestação do pensamento. No domínio da Arte, é a pedra que resiste ao cinzel do escultor; na Ciência, é o inapreciável, o infinitamente pequeno que se furta à observação; na ordem social, como na ordem privada, são os obstáculos sem-número, as necessidades, as epidemias, as catástrofes!

Não obstante, frente às potências cegas que o oprimem e o ameaçam de todos os lados, o homem, ser frágil,  ergueu-se. Por único recurso tem apenas a vontade e, com esse único recurso, tem continuado, sem tréguas nem piedade, através dos tempos, a áspera luta; depois, um dia, pela vontade humana, foi vencida, subjugada a formidável potência. O homem quis e a matéria submeteu-se. Ao seu gesto, os elementos inimigos, a água e o fogo, uniram-se rugindo e para ele têm trabalhado.

É a lei do esforço, lei suprema, pela qual o ser se afirma, triunfa e se desenvolve; é a magnífica epopéia da História, a luta exterior que enche o mundo. A luta interior não é menos comovente. De cada vez que renasce, terá o Espírito de ajeitar, de apropriar o novo invólucro material que lhe vai servir de morada e fazer dele um instrumento capaz de traduzir, de exprimir as concepções do seu génio. Demasiadas vezes, porém, o instrumento resiste e o pensamento, desanimado, retrai-se, impotente para adelgaçar, para levantar o pesado fardo que o sufoca e aniquila. Entretanto, pelo esforço acumulado, pela persistência dos pensamentos e dos desejos, apesar das decepções, das derrotas, através das existências renovadas, a alma consegue desenvolver as suas altas faculdades.

Há em nós uma surda aspiração, uma íntima energia misteriosa que nos encaminha para as alturas, que nos faz tender para destinos cada vez mais elevados, que nos impele para o belo e para o bem. É a lei do progresso, a evolução eterna, que guia a humanidade através das idades e aguilhoa cada um de nós, porque a humanidade são as próprias almas, que, de século em século, voltam para prosseguir, com o auxílio de novos corpos, preparando-se para mundos melhores, na sua obra de aperfeiçoamento. A história de uma alma não difere da história da humanidade; só difere a escala: é a escala das proporções.

O Espírito molda a matéria, comunica-lhe a vida e a beleza. É por isso que a evolução é, por excelência, uma lei de estética. As formas adquiridas são o ponto de partida de formas mais belas. Tudo se liga. A véspera prepara o dia seguinte; o passado gera o futuro. A obra humana, reflexo da obra divina, expande-se em formas cada vez mais perfeitas.

/...


LÉON DENIS, O Problema do Ser, do Destino e da Dor,  IX – Evolução e finalidade da alma, fragmento.
(imagem de contextualização: Head of Divine Vengeance, pintura de Pierre-Paul Prud'hon)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Deus na Natureza ~

A Força e a Matéria;
I Posição do Problema (III)

No conjunto de um sistema em movimento, toda a peça que se obstinasse em estacionar recuaria realmente. Nos nossos dias, já não é admissível dizer-se, dogmaticamente, que tal ou tal noção é perfeita e deve guardar o ataque da infalibilidade: ou se faz, ou se não faz parte da marcha progressiva do espírito. No primeiro caso, importa acompanhá-lo integralmente e, no segundo, há que confessar-se em atraso. Eis o que precisa ficar bem claro.

Digamo-lo francamente: em ciência experimental, Deus não pode ser admitido à priori e muito menos a destinação, ou finalidade, que presumimos apreender nas obras da Natureza.

As doutrinas apriorísticas caducaram, já se não admitem.

Confessemo-nos com os materialistas e perguntemos se os que tomaram Deus e não a Natureza como ponto de partida explicaram, algum dia, as propriedades da matéria ou as leis que governam o mundo. Puderam eles dizer-nos da mobilidade ou imobilidade do Sol? – se a Terra era plana ou esférica? – quais os desígnios de Deus, etc.? Absolutamente. Mesmo porque, seria impossível. Partir de Deus para a investigação e o exame da Criação é processo baldo de nexo e de sentido. Esse precário método para estudar a Natureza e inferir consequências filosóficas, no pressuposto de poder, com uma simples teoria, construir o Universo e fixar as verdades naturais, desacreditou-se, felizmente, há muito tempo.

Mas, pelo facto de havermos substituído a hipótese precedente pelos resultados do exame a posteriori, segue-se que devamos fechar os olhos e negar a inteligência, a sabedoria, a harmonia reveladas pela própria observação? Haverá motivo para repudiar toda e qualquer conclusão filosófica e ficar a meio caminho, temerosos de atingir o fim? E deveremos, por isso, rendermo-nos aos cépticos contemporâneos que, não obstante a evidência, rejeitam toda a luz e toda a conclusão?

Pensamos que não. Muito ao contrário, pelo método que preconizam, constatamos as suas recusas e inconsequências.

Antes de qualquer controvérsia, importa determinar as posições recíprocas, para evitar mal-entendidos, esperando nós que as declarações precedentes bastem para esclarecer categoricamente a nossa atitude.

Combateremos francamente o materialismo, não com as armas da fé religiosa, não com os argumentos da fraseologia escolástica, não com as autoridades tradicionais, mas pelos raciocínios que a contemplação científica do Universo inspira e fecunda.

Examinemos preliminarmente, num olhar, de conjunto, o processo geral do ateísmo hodierno.

Esse processo assemelha-se sensivelmente ao de que se utilizou o barão d'Holbach, nos fins do século passado, para fundamentar o seu famoso Sistema da Natureza, obra de um materialismo vulgar, para a qual achava Goethe não haver suficiente desprezo e costumava averbar de – “legítima quintessência da senectude, inepta e insulsa”. O novo processo, mais exclusivamente científico, todavia, consiste principalmente em declarar que as forças que dirigem, não dirigem o mundo, isto é: que em vez de governarem a matéria, antes se lhe escravizam e que é a matéria (inerte, cega, desprovida de inteligência) que, movendo-se de si mesma, se governa mediante leis, cujo alcance ela não pode, todavia, apreciar.

Pretendem os nossos materialistas actuais que a matéria existe de toda a eternidade, revestida de umas tantas propriedades, de certos atributos e que essas propriedades qualificativas da matéria bastam para explicar a existência, estado e conservação do mundo.

Dessarte, substituem um Deus-espírito por um Deus-matéria.

Ensinam que a matéria governa o mundo e que as forças químicas, físicas, mecânicas, não passam de qualidades.

Para refutar um tal sistema, há que tomar, por conseguinte, o partido contrário e demonstrar um Deus-espírito, antes que um Deus-matéria, incompreensível, a reger a matéria; estabelecer que a substância é escrava antes que proprietária da força; provar que a direcção do mundo não cabe às moléculas cegas que o constituem, mas às forças sob cuja acção transparecem as leis supremas.

Fundamentalmente, o problema resume-se nesta demonstração e nós esperamos que ela ressaltará brilhante dos estudos objectivados neste nosso trabalho.

E uma vez que os adversários se apoiam em legítimos factos científicos para estabelecer o erro, cumpre-nos contrabatê-los com esses mesmos factos.

A bem dizer, ainda que se demonstrasse que o Universo não é mais que um mecanismo material, cujas forças não se conjugam a um motor, mas remontam à matéria, subindo e descendo incessantes num sistema de motilidade perpétua, nem por isso a causa divina estaria perdida.

Contudo, desde os primórdios da Filosofia, a partir de Heráclito e Demócrito, o sistema mecânico do mundo constituiu-se o refúgio e o argumento dos ateus, enquanto o sistema dinâmico albergava e escorava os espiritualistas.

Nós, por princípio, filiamo-nos à concepção dinâmica e combatemos o sistema incompleto de um mecanismo sem construtor. Muito judiciosamente, diz Caro: (i) – por um lado o mecanismo tudo explica, mediante combinações e agrupamentos de átomos eternos. Todas as variedades de fenómenos, o nascimento, a vida, a morte, mais não são que o resultado mecânico de composições e decomposições, a manifestação de sistemas atómicos que se reúnem e se separam.

O dinamismo, ao contrário, subordina todos os fenómenos e todos os seres à ideia de força.

O mundo é a expressão, seja de forças opostas e harmoniosas entre si, seja de uma força única, cuja metamorfose perpétua engendra a universalidade dos seres.

Pode constatar-se que, não obstante ser a explicação secundária das coisas, até certo ponto, independente da primária, ou metafísica, a História atesta o facto constante de uma afinidade natural: de um lado, entre a explicação mecânica e a hipótese supressiva de Deus; e, de outro lado, entre a teoria dinâmica e a hipótese que diviniza o mundo no seu princípio.


/…
(i) La Philosophie de Goethe, capítulo 6º.


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria I – Posição do Problema 3 de 6, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Diálogos de Kardec ~

Causa e natureza da clarividência sonambúlica ~~~ Explicações do fenómeno da lucidez ~

Sendo de natureza diversa das que acontecem no estado de vigília, as percepções que se verificam no estado sonambúlico (i) não podem ser transmitidas pelos mesmos órgãos. É sabido que neste caso a visão não se efectua por meio dos olhos que, aliás, se conservam, em geral, fechados e que até podem ser abrigados dos raios luminosos, de maneira a afastar todo o motivo de suspeita. Ao demais, a visão à distância e através dos corpos opacos exclui a possibilidade do uso dos órgãos ordinários da vista. Forçoso é, pois, se admita que no estado de sonambulismo um sentido novo se desenvolve, como sede de faculdades e de percepções novas, que desconhecemos e das quais não nos podemos aperceber, senão por analogia e pelo raciocínio. Bem se vê que nada de impossível há nisso; mas, qual é a sede desse novo sentido? Não é fácil determiná-la com exactidão. Nem mesmo os sonâmbulos fornecem a tal respeito qualquer indicação precisa. Uns há que, para os verem melhor, colocam os objectos sobre o epigastro, outros sobre a fronte, outros no occipital. O sentido de que se trata não parece, portanto, circunscrito a um lugar determinado; é, todavia, certo que a sua maior actividade reside nos centros nervosos. O que é positivo é que o sonâmbulo vê. Por onde e como? É o que nem ele mesmo pode explicar.

Notemos, porém, que, no estado sonambúlico, os fenómenos da visão e as sensações que o acompanham são essencialmente diferentes do que se passa no estado ordinário, pelo que não nos serviremos do termo ver, senão por comparação e por nos faltar naturalmente um com que designemos uma coisa desconhecida. Um povo composto por cegos de nascença certo careceria de uma palavra para designar a luz e referiria as sensações que ela produz a alguma das que lhe fossem familiares por lhes estar ele sujeito.

Alguém procurava explicar a um cego a impressão viva e deslumbrante da luz sobre os olhos. Compreendo, disse eleé como o som de uma trombeta. Outro, um pouco mais prosaico sem dúvida, ao qual queriam fazer que compreendesse a emissão dos raios luminosos em feixes ou cores, respondeu: Ah! sim, é como um pão de açúcar. Estamos nas mesmas condições, relativamente à lucidez sonambúlica: somos verdadeiros cegos e, do mesmo modo que estes últimos com relação à luz, comparamo-la ao que tem mais analogia com a nossa faculdade visual. Mas, se quisermos estabelecer uma analogia absoluta entre essas duas faculdades e julgar de uma pela outra, forçosamente nos enganaremos, como os dois cegos que acabamos de citar. É esse o erro de quase todos os que procuram pretensamente convencer-se pela experiência: intentam submeter a clarividência sonambúlica às mesmas provas que a vista ordinária, sem ponderarem que entre elas a única relação existente é a do nome que lhes damos. Daí, como os resultados nem sempre lhes correspondem à expectativa, acham mais simples negá-los.

Se procedermos por analogia, diremos que o fluido magnético, disseminado por toda a Natureza e cujos focos principais parece que são os corpos animados, é o veículo da clarividência sonambúlica, como o fluido luminoso é o veículo das imagens que a nossa faculdade visual percebe. Ora, assim como o fluido luminoso torna transparentes corpos que ele atravessa livremente, o fluido magnético, penetrando todos os corpos sem excepção, torna inexistentes os corpos opacos para os sonâmbulos. Tal a explicação mais simples e mais material da lucidez, falando do nosso ponto de vista. Temo-la como certa, porquanto o fluido magnético incontestavelmente desempenha importante papel nesse fenómeno; ela, entretanto, não poderia elucidar todos os factos. Há outra que os abrange a todos; mas, para expô-la, fazem-se indispensáveis algumas explicações preliminares.

Na visão à distância, o sonâmbulo não distingue um objecto ao longe, como o faríamos nós com o auxílio de uma lunetaNão é que o objecto, por uma ilusão de óptica, se aproxime dele, ELE É QUE SE APROXIMA DO OBJECTO. O sonâmbulo vê o objecto exactamente como se este se encontra a seu lado; vê-se a si mesmo no lugar que ele observa; numa palavra: transporta-se para esse lugar. O seu corpo, no momento, parece extinto, a palavra lhe sai mais surda, o som da sua voz apresenta qualquer coisa de singular; a vida animal também parece que se lhe extingue; a vida espiritual está toda no lugar aonde o transporta o seu próprio pensamento: somente a matéria permanece onde estava. Há pois uma certa porção do ser que se lhe separa do corpo e se transporta instantaneamente através do espaço, conduzida pelo pensamento e pela vontade. Evidentemente, é imaterial essa porção; a não ser assim, produziria alguns dos efeitos que a matéria produz. É a essa parcela de nós mesmos que chamamos: a alma.

É a alma que confere ao sonâmbulo as maravilhosas faculdades de que ele goza. A alma é quem, dadas certas circunstâncias, se manifesta, isolando-se em parte e temporariamente do seu invólucro corpóreo. Para quem quer que haja observado com atenção os fenómenos do sonambulismo em toda a sua pureza, é patente a existência da alma, tornando-se-lhe uma insensatez demonstrada até à evidência a ideia de que tudo em nós acaba com a vida animal. Pode, pois, dizer-se com alguma razão que o magnetismo e o materialismo são incompatíveis. Se alguns magnetizadores se afastam desta regra e professam as doutrinas materialistas, é sem dúvida que se hão cingido a um estudo muito superficial dos fenómenos físicos do Magnetismo e não procuram seriamente a solução do problema da visão à distância. Como quer que seja, nunca vimos um único sonâmbulo que não se mostrasse penetrado de profundo sentimento religioso, fossem quais fossem suas opiniões no estado vigíl.

Voltemos à teoria da lucidez. Sendo a alma o princípio básico das faculdades do sonâmbulo, necessariamente nela é que reside a clarividência e não nesta ou naquela parte circunscrita do corpo material. Essa a razão por que o sonâmbulo não pode indicar o órgão dessa faculdade, como designaria os olhos, se se tratasse da visão exterior. Ele vê por todo o seu ser moral, isto é, por toda a sua alma, visto que a clarividência é um dos atributos de todas as partes da alma, como a luz é um dos atributos de todas as partes do fósforo. Onde quer, pois, que a alma possa penetrar, há clarividência; essa a causa da lucidez dos sonâmbulos através de todos os corpos, sob os mais espessos envoltórios e a todas as distâncias.

Uma objecção, como é natural, se apresenta a esse sistema e apressamo-nos a responder a ela. Se as faculdades sonambúlicas são as mesmas da alma desprendida da matéria, por que não são constantes essas faculdades? Por que alguns sonâmbulos são mais lúcidos do que outros? Por que, num mesmo indivíduo, a lucidez é variável? Concebe-se a imperfeição física de um órgão; mas não se concebe a da alma.

Esta se encontra presa ao corpo por laços misteriosos que não nos fora dado conhecer antes que o Espiritismo houvesse demonstrado a existência e o papel do perispírito (i). Tendo sido esta questão tratada de modo especial na Revista Espírita e nas obras fundamentais da doutrina, não nos alargaremos aqui sobre ela, limitando-nos a dizer que é pelos nossos órgãos materiais que a alma se manifesta no exterior. No nosso estado normal, essas manifestações ficam naturalmente subordinadas à imperfeição do instrumento, do mesmo modo que o melhor artífice não pode fazer obra perfeita com utensílios maus. Assim, por muito admirável que seja a estrutura do nosso corpo, qualquer que tenha sido a providência da Natureza, com relação ao nosso organismo, para o exercício das funções vitais, acima desses órgãos sujeitos a todas as perturbações da matéria, há a subtileza da nossa alma. Enquanto, pois, ela se conserva presa ao corpo, sofre-lhe os entraves e as vicissitudes.

O fluido magnético não é a alma; é um liame, um intermediário entre a alma e o corpo. Actuando mais ou menos sobre a matéria é que ele torna mais ou menos livre a alma, donde a diversidade das faculdades sonambúlicas. O sonâmbulo é o homem despojado apenas de uma parte das suas vestiduras e cujos movimentos são embaraçados pelo que lhe resta dessas vestiduras.

Somente quando tem alijado de si os últimos restos da ganga terrena, como a borboleta que abandona a sua crisálida, se encontra a alma na plenitude de si mesma e goza de liberdade completa no uso de suas faculdades. Se houvesse um magnetizador bastante poderoso para dar liberdade absoluta à alma, romper-se-ia o liame terrestre e a morte imediata se seguiria. O sonambulismo, portanto, fez que puséssemos o pé na vida futura; ergueu uma ponta do véu sob que se ocultam as verdades que o Espiritismo nos faz hoje entrever. Não na conheceremos, todavia, em sua essência, senão quando nos houvermos desembaraçado por completo da cobertura material que neste mundo a obscurece.

/…


ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Causa e natureza da clarividência sonambúlica, Explicação do fenómeno da lucidez, 6º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Princípios da Terapêutica Espírita (II)

Podemos enunciar o primeiro princípio da terapêutica espírita da seguinte maneira:

1) A cura das doenças depende da acção natural das energias conjugadas do homem e da terra (psicológicas e mesológicas), na reconstituição do equilíbrio das energias naturais do doente.

Os demais princípios podem ser definidos na sequência abaixo:

2) A renovação de energias depende da acção conjugada dos espíritos terapeutas com o médium curador, que se põe à disposição dos espíritos para a transmissão dos fluidos energéticos através da prece e do passe.

3) A eficácia do passe depende da boa-vontade do médium, que se entrega humildemente à acção dos espíritos, sem perturbá-la com gesticulações excessivas, limitando-se às que os espíritos lhe sugerirem no momento. Não temos nenhum conhecimento objectivo do processo de manipulação dos fluidos pelos espíritos e poderíamos perturbar-lhes a acção curadora com a nossa intervenção pretensiosa. O médium é um instrumento vivo e inteligente da acção espiritual, mas só deve utilizar a sua inteligência para compreender o seu papel de doador de fluidos, como se passa no caso da doação de sangue nos hospitais.

4) A acção curadora dos espíritos não é mágica nem milagrosa; está sujeita a leis naturais que regem a estrutura psicobiológica do homem. A emissão de ectoplasma do corpo do médium para o corpo do doente revela-se actualmente, nas pesquisas russas, como emissão de plasma físico acompanhado de elementos orgânicos. As famosas pesquisas da Universidade de Kirov, na URSS, comprovaram e confirmaram as pesquisas de RichetSchrenk-NotzingGustave Geley e Eugéne Osty, no século XIX, sobre a acção do plasma físico (quarto estado da matéria) nos efeitos físicos da mediunidade. Na teoria do perispírito, Kardec já havia também, com grande antecedência, constatado a importância da relação espírito-matéria nesses processos.

5) Nos casos de cura à distância, sem a presença do médium, a eficácia depende das condições psicofísicas do doente, que permitem a colaboração do seu próprio organismo nas elaborações fluídicas do plasma, em conjugação com as energias espirituais dos espíritos terapeutas. Kardec considerava o perispírito como organismo semimaterial. Frederic Myers estudou a actividade da mente supraliminar (consciente) e subliminar (inconsciente) em todos esses processos então considerados como misteriosos.

6) As chamadas operações espirituais (hoje paranormais) podem realizar-se por intervenção física do médium, dominado pelo espírito que dele se serve por influenciação mediúnica no transe hipnótico. Mas a simples acção mental do médium pode produzir efeitos físicos no paciente, como Rhine provou nas suas experiências com animais. Rhine resumiu os resultados de suas pesquisas no seguinte princípio: “A mente, que não é física, age por vias não físicas sobre a matéria.” Soal, Carington e outros verificaram que as actividades internas do organismo animal e humano (funções vegetativas e correlatas) são controladas por acção mental sobre o sistema nervoso, vascular e muscular. A teoria do dinamismo psíquico inconsciente de Geley desenvolve-se nesse mesmo sentido.

O mistério teológico da encarnação transformou-se actualmente numa questão científica universalmente pesquisada nos maiores centros universitários do planeta. A terapia espírita está hoje respaldada pelas mais recentes e avançadas descobertas científicas. Os que pretendem rejeitá-la com argumentos se esquecem de que os problemas da ciência só podem ser resolvidos por meio de pesquisas e provas. Maldições e anátemas desvalorizaram-se totalmente num processo inflacionário de dois milénios. Não era sem razão a luta cruenta da Igreja contra o desenvolvimento científico. Ela se defendeu ferozmente do atrevimento dos cientistas porque agia sob a compulsão violenta do instinto de conservação. Mas a favor da ciência estavam as leis irresistíveis da evolução. A era científica nasceu ensanguentada dos calabouços medievais em que os mártires do progresso sofriam nas mãos dos inquisidores, à espera das fogueiras divinas em que seriam purificados. A Ciência avançou, apesar de tudo, derrotando os terroristas da magia negra, da antiga e temível Goécia que os próprios clérigos empregavam nas suas lutas de política intestina. Coube ao coronel Albert de Rochas, director do Instituto Politécnico de Paris, pesquisar em laboratório os possíveis efeitos da magia negra, demonstrando o engano dos que a consideravam dotada de poder diabólico. O desprestígio da superstição permitiu aos médiuns, hoje chamados sujeitos paranormais (nem anormais, nem patológicos, nem diabólicos), transformarem-se nos instrumentos humanos da investigação científica das potencialidades da criatura humana. Actualmente a própria Igreja dispõe de organismos de pesquisa dos fenómenos que antes considerava como estigmas infamantes da maldição divina.

Quando a Academia de França reconheceu a realidade do magnetismo e o seu interesse científico, mas mudando-lhe o nome para hipnotismoKardec escreveu um artigo sobre o facto na Revista Espírita, lembrando que o magnetismo se cansara de bater à porta da Academia, sendo sempre enxotado. Por fim resolvera mudar de nome e entrar na casa pela porta dos fundos, sendo então recebido e aclamado pelos cientistas. O mesmo acontece agora com o Espiritismo, que, sendo baptizado na universidade de Duke com o nome de Parapsicologia, teve entrada franca e entusiástica na URSS e no Vaticano. Na verdade, a Parapsicologia, com roupa nova, linguagem grega e seguindo as pegadas de Kardec, para atingir os seus mesmos objectivos, nada ofereceu de novo ao mundo actual além da sua roupagem tecnológica. Prestou, assim mesmo, um grande serviço ao mundo materialão, conseguindo despertar-lhe o interesse pelos problemas espirituais. Os materialistas e os religiosos formalistas tinham medo dos espíritos. Rhine conseguiu mostrar-lhes, por meios estatísticos, que todos somos espíritos. O medo se foi e com ele a ilusão da matéria desfeita na poeira atómica da Nova Física.

/…


José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Princípios da Terapêutica Espírita 2 de 2, 7º fragmento.
(imagem: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)