domingo, 24 de agosto de 2014

Saberes e o tempo ~

Capítulo II – O tempo, o espaço, a matéria primordial

Espaço ~

É infinito o espaço, pela razão de ser impossível supor-lhe qualquer limite e porque, malgrado a dificuldade que encontramos para conceber o infinito, mais fácil nos é, contudo, ir eternamente pelo espaço em pensamento, do que pararmos num lugar qualquer, depois do qual nenhuma extensão mais houvesse a ser percorrida.

Para imaginarmos, tanto quanto o permitam as nossas faculdades restritas, a infinidade do espaço, imaginemos que, partindo da Terra, perdida no meio do infinito, rumo a um ponto qualquer do Universo, com a velocidade prodigiosa da centelha eléctrica, que transpõe milhares de léguas num segundo, havendo, pois, percorrido milhões de léguas mal tenhamos deixado este globo, nos achemos num lugar de onde a Terra não nos pareça mais do que uma vaga estrela. Um instante depois, seguindo sempre na mesma direcção, chegamos às estrelas longínquas, que da nossa morada terrestre mal se percebem. Daí, não só a Terra terá desaparecido das nossas vistas nas profundezas do céu, como também o Sol, com todo o seu esplendor, estará eclipsado pela extensão que dele nos separa. Sempre com a mesma velocidade do relâmpago, transpomos sistemas de mundos, à medida que avançamos pela amplidão, ilhas de luzes etéreas, vias estelíferas, paragens sumptuosas onde Deus semeou mundos na mesma profusão com que semeou as plantas nos prados terrestres.

Ora, minutos apenas há que caminhamos e já centenas de milhões de léguas nos separam da Terra, milhares de milhões de mundos passaram sob os nossos olhares e, entretanto, escutai bem! Na realidade, não avançamos um único passo no Universo.

Se continuarmos durante anos, séculos, milhares de séculos, milhões de períodos cem vezes seculares e incessantemente com a mesma velocidade do relâmpagonada teremos avançado, qualquer que seja o lado para onde nos encaminhemos e qualquer que seja o ponto para onde nos dirijamos, a partir do grão invisível que deixamos e que se chama Terra.

Eis o que é o espaço!

Justificação desta teoria

Concordam essas poéticas e grandiosas definições com o que sabemos de positivo sobre o Universo? Concordam, porquanto, sucessivamente, a luneta, o telescópio e a fotografia nos hão feito penetrar, cada vez mais longe, no campo do infinito.

Durante séculos, os nossos pais imaginaram que a criação se limitava à Terra que eles habitavam e que julgavam chata. O céu era apenas uma abóbada esférica onde se achavam incrustados pontos brilhantes chamados estrelas. O Sol era tido como um facho móvel destinado a distribuir claridade. Nós, terrícolas, éramos os únicos habitantes da criação, feita especialmente para nosso uso. A observação, mais tarde, facultou-nos reconhecer a marcha das estrelas; a abóbada celeste se deslocava, arrastando consigo todos os pontos luminosos. Depois, o estudo dos movimentos planetários e a fixidez da Estrela Polar levaram Tales de Mileto a reconhecer a esfericidade da Terra, a obliquidade da eclítica e a causa dos eclipses.

Pitágoras conheceu e ensinou o movimento diurno da Terra sobre o seu eixo, o seu movimento em torno do Sol e ligou os planetas e os cometas ao sistema solar. Esses conhecimentos precisos datam de 500 anos a.C. Mas, sabidas apenas de alguns raros iniciados, tais verdades foram esquecidas e a massa humana continuou a ser joguete de ilusão. Foi preciso que surgisse Galileu e se desse a descoberta da luneta, em 1610, para que concepções exactas viessem a rectificar os antigos erros.

Desde então, o Universo se apresenta qual realmente é. Reconhece-se que os planetas são mundos semelhantes à Terra e muito provavelmente habitados também; que o Sol mais não é do que um astro entre inúmeros outros; que com o telescópio se percebem as estrelas e as nebulosas disseminadas pelo espaço sem limites, a distâncias incalculáveis; que, finalmente, a fotografia, recente descoberta do génio humano, revela a presença de mundos que o olhar do homem jamais contemplara, nem mesmo com o auxílio dos mais possantes instrumentos.

As chapas fotográficas que hoje se preparam são não somente sensíveis a todos os raios elementares que afectam a retina, mas alcançam também as regiões ultravioletas do espectro e as regiões opostas, as do calor obscuro (infravermelho), nas quais o olhar humano é impotente para penetrar.

Assim é que os irmãos Henry conseguiram tornar conhecidas estrelas da 17ª grandeza, as quais nenhum olho humano ainda percebera. Descobriram também, para lá das Plêiades, uma nebulosa, invisível devido ao seu afastamento.

 À medida que os nossos processos de investigação se ampliam, a natureza recua os limites do seu império. Ao passo que os mais poderosos telescópios não revelavam, num canto do céu, mais que 625 estrelas, a fotografia tornou conhecidas 1.421. Assim, pois, em parte alguma o vácuo, por toda parte e sempre as criações a se desdobrarem em número indefinido! As insondáveis profundezas da amplidão fatigam, pela sua imensidade, as imaginações mais ardentes. Pobres seres chumbados num imperceptível átomo, não podemos elevar-nos a tão sublimes realidades.

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Gabriel Delanne, A Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência Capítulo II O tempo, o espaço, a matéria primordial, Espaço, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Da sombra do dogma à luz da razão ~

Natureza da Revelação Espírita (II)

No sentido particular da fé religiosa, a revelação aplica-se mais especialmente às coisas espirituais que o homem não pode saber só por si, que não pode descobrir através dos sentidos e cujo conhecimento lhe é dado por Deus ou pelos seus mensageiros, quer através da palavra directa, quer pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens privilegiados, designados com o nome de profetas ou messias, isto é, enviados, missionários, que têm como missão transmiti-la aos homens. Considerada sob este ponto de vista, a revelação implica uma passividade absoluta; aceitamo-la sem controlo, sem exame, sem discussão.

Todas as religiões têm os seus reveladores e, apesar de todos terem estado longe de conhecer toda a verdade, tinham a sua razão de ser providencial; porque estavam de acorde com o tempo e com o meio onde viviam, com a sabedoria particular dos povos a quem falavam e aos quais eram relativamente superiores. Apesar dos erros das suas doutrinas, não deixaram por isso de agitar os espíritos e, assim, espalharam os germes do progresso, que mais tarde se iriam desenvolver ou que um dia se irão desenvolver ao sol do Cristianismo. É por tanto injustamente que se lança sobre eles um anátema em nome da ortodoxia, pois virá o dia em que todas estas crenças, tão diversas na sua forma mas que na realidade da alma, se fundirão numa grande e vasta unidade, assim que a razão tenha vencido os preconceitos.

Infelizmente, as religiões têm sempre sido instrumentos de domínio; o papel de profeta tentou as ambições secundárias e vimos surgir uma multidão de pretensos relevadores ou messias que, a coberto do prestígio deste nome, exploram a credulidade em benefício do seu orgulho, da sua cupidez ou da sua preguiça, achando mais cómodo viver à custa dos que enganavam. A religião cristã não esteve a coberto destes parasitas. A este respeito chamamos seriamente a atenção para o Capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo: «Haverá falsos Cristos e falsos profetas».

Há revelações directas de Deus para os homens? Trata-se de uma questão que não nos atreveríamos a resolver nem afirmativa nem negativamente de uma maneira absoluta. A tarefa não é de forma nenhuma radicalmente impossível, mas nada nos dá disso uma prova certa. O que não oferece dúvidas é que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição se impregnam do Seu pensamento e podem transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, consoante a ordem hierárquica a que pertencem e o grau do seu conhecimento pessoal, podem ir buscar as suas instruções aos seus conhecimentos pessoais ou recebê-las de Espíritos mais elevados, até mesmo mensagens directas de Deus. Estes, falando em nome de Deus, podem ter sido às vezes tomados pelo próprio Deus.

Este tipo de comunicações nada tem de estranho para quem conhece os fenómenos espíritas e a forma como se estabelecem os contactos entre os encarnados e os não encarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: por inspiração pura e simples, por audição da palavra, pela observação dos Espíritos instrutores em visões e aparições, quer em sonhos quer em estado de vigília, tal como se encontram vários exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. É portanto rigorosamente exacto dizer-se que a maior parte dos reveladores são médiuns inspirados, auditivos ou videntes, de onde não se pode concluir que todos os médiuns são reveladores e, ainda menos, que são os intermediários directos da Divindade ou dos seus mensageiros.

Só os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão de a transmitirem; mas sabemos agora que os Espíritos estão longe de serem todos perfeitos e que há os que se revestem de falsas aparências; foi o que levou São João a dizer: «Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro.» (1.ª Epistola de S. João, 4:6.)

Pode, portanto, haver revelações sérias e verdadeiras, assim como existem as apócrifas e mentirosas. O carácter essencial da revelação divina é o da verdade eterna. Qualquer revelação manchada de erros ou sujeita a mudança não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo conserva todo o carácter da sua origem, enquanto as outras leis moseístas, essencialmente transitórias, muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política do legislador hebreu. Suavizando-se os costumes do povo, estas leis caíram em desuso enquanto o Decálogo se manteve de pé como farol da humanidade. Cristo fez dele a base do seu edifício, ao mesmo tempo que abolia as outras leis. Se fossem obra de Deus, teria evitado tocar-lhes. Cristo e Moisés são os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo e nisso reside a prova da sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria um tal poder.

Uma revelação importante está a acontecer no tempo actual: é a que nos mostra a possibilidade de comunicarmos com os entes do mundo espiritual. Este conhecimento não é novo, sem dúvida, mas tinha ficado até aos nossos dias numa espécie de estado de letra morta, quer dizer, sem benefício para a humanidade. A ignorância das leis que regem estas relações tinha-o abafado sob a superstição: o homem era incapaz de retirar daí qualquer dedução salutar; estava reservado para a nossa época libertá-lo dos seus acessórios ridículos, compreender-lhe o alcance e dele soltar a luz que deve iluminar o caminho do futuro.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 7 a 11 (II), 4º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

As vidas sucessivas | os elementos ~

Crenças antigas e conceitos modernos (Victor Hugo)

Eis como Arsène Houssaye relata a resposta que Victor Hugo deu aos ateus em 1866:

“Quem nos diz – recomeçou o poeta  – que não me reencontro através dos séculos? Shakespeare escreveu: A vida é um conto de fadas que se lê pela segunda vez.

Ele poderia ter dito: “pela milésima vez!”, pois não há século em que eu não veja passar a minha sombra.

Vós não credes nas personalidades que se movem (isto é, nas reencarnações) sob o pretexto de que não vos lembrais de nada de vossas existências anteriores. Porém, como é que a recordação dos séculos dissipados permaneceriam impressas em vós, quando mal vos recordais das mil e uma cenas de vossa vida presente? Desde 1802, houve em mim dez Victor Hugo! Acreditas, pois, que me recordo de todas as suas acções e de todos os seus pensamentos?

Quando eu tiver atravessado a tumba para reencontrar uma outra luz, todos esses Victor Hugo ser-me-ão um pouco estranhos, porém será sempre a mesma alma!

Sinto em mim – diz-lhes ele ainda – toda uma vida nova, toda uma vida futura. Sou como a floresta que várias vezes foi abatida: os jovens rebentos são cada vez mais fortes e vivazes. Subo, subo em direcção ao infinito! Tudo é radiante diante de mim. A terra me dá a sua seiva generosa, porém o céu ilumina-me com os reflexos dos mundos entrevistos!

Dizeis que a alma é apenas a expressão das forças corporais. Então, por que é que a minha alma está mais luminosa quando as forças corporais vão em breve abandonar-me? O inverno encontra-se sobre a minha cabeça, porém a primavera eterna está na minha alma! Respiro a esta hora os lilases, as violetas e as rosas como aos vinte anos!

Quanto mais me aproximo do fim, mais ouço à minha volta as imortais sinfonias dos mundos que me chamam! É maravilhoso, e é simples.

Há todo um meio século que escrevo o meu pensamento em prosa e em verso: história, filosofia, drama, romance, lenda, sátira, ode, canção, etc.; tudo tentei; porém sinto que não disse a milésima parte do que se encontra em mim. Quando eu me deitar na tumba, não direi como tantos outros: terminei a minha jornada. Não, pois a minha jornada recomeçará no dia seguinte de manhã. A tumba não é um beco sem saída, é uma avenida; ela se fecha no crepúsculo e reabre ao alvorecer!”


Destinos da alma

O homem tem sedes insaciadas;
Em seu passado vertiginoso
Sente reviver outras vidas,
Conta os nós de sua alma.

Procura no fundo das sombrias cúpulas

Sob que forma resplandeceu,
Ouve os seus próprios fantasmas,
Que atrás de si lhe falam.

O homem é o único ponto da criação

Em que, para permanecer livre tornando-se melhor,
A alma deve esquecer a sua vida anterior.
Ele diz: Morrer é conhecer;
Procuramos a saída tateando;
Eu era, eu sou, eu devo ser,
A sombra é uma escada, subamos. |*


|* Nota da tradutora – Para que pudéssemos ser fiéis ao conteúdo do texto original e aos termos utilizados pelo poeta, obrigamo-nos a prejudicar toda a melodia e as rimas dos versos, pois, para mantê-los, precisaríamos mudar a estrutura das frases e as palavras, o que fatalmente mudaria em parte o sentido do texto original. Preferimos, portanto, traduzi-lo quase que literalmente. Eis a seguir, no entanto, o texto original, com toda a sua beleza de forma e de conteúdo:

« Des destinées de l’âme / L’homme a des soifs inassouvies; / Dans son passé vertigineux / Il sent revivre d’autres vies, / De son âme il compte de noeuds, / Il cherche au found des sombres dômes / Sous quelle forme il a lui, / Il entend ses propres fantômes / Qui lui parlent derrière lui. / L’homme est l’unique poit de la création / Où, pour demeurer libre en se faisant meilleure, / L’âme doive oublier sa vie anterieure. / Il se dit: Mourir c’est connaítre; / Nous cherchons l’issue à tátons; / J’étais, je suis, je dois être, / L’ombre est une échelle, montons. »

/...



Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Primeira Parte – Crenças antigas e conceitos modernos, Victor Hugo, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 3 de agosto de 2014

~~~Párias em Redenção~~~

ALUCINAÇÃO E CRIME (II)

– Girólamo, filha,– prosseguiu, com inesquecível expressão , é coração atormentado, dirigido por um espírito gravemente enfermo. Louco nas suas ambições desvairadas, prepara a taça espumante de fel para fazer-nos sorvê-la, enveredando por longo e estreito corredor que o conduzirá demoradamente, séculos a fio, pela senda de terríveis flagícios, que ele mesmo elabora desde agora, para purificar se depois, dolorosamente.

Perdoemo-lo por antecipação, evitando-nos sintonizar com funestas ideias que o infelicitam e que logo mais explodirão como maremoto furioso, tentando levar-nos de roldão… Antiga vítima nossa, guarda cicuta no espírito invigilante e, qual animal acusado no reduto em que se refugia, sem sol, prepara-se para desferir a agressão do desforço. Serás a sua primeira vítima… Reveste-te, porém, de coragem para o supremo holocausto. Os filhinhos amados estão também no seu plano… Pagareis, todos, assim, velho débito ao sofredor que se torna algoz. É claro que as Leis Superiores da Vida dispõem de meios eficazes para a justa cobrança, sem a necessidade de novos verdugos… Enfermidade, luto e dor, desastre e acidente, amor e bondade., renúncia e abnegação, sacrifício e devotamento são também instrumentos superiores de que se utilizam os Mensageiros Divinos no acerto de contas das diversas consciências em falta com a Consciência Cósmica… No entanto, precípites e desequilibrados, não compreendem os homens que somente as virtudes evangélicas, quando praticadas, poderão redimir e salvar a criatura humana. Estaremos contigo, com todos…

“Bom ânimo, filha! Jesus na manjedoura é um poema de amor falando às belezas da vida; Jesus na cruz é um poema de dor falando sobre as grandezas da Eternidade.

“Não recusemos o cálice. Roguemos forças para sorvê-lo, se necessário, até à última gota.

“Jesus, o Amigo dos sofredores, e a Senhora das Dores nos ajudarão.

“Coragem, filha, coragem! Confia e ama!...”

A visão celeste se desfez e Lúcia subitamente despertou. Banhada em suores, fitou os vitrais da janela ogival, parecendo ver ainda, em névoa clara e flutuante, o amado rosto, repetindo: “Ama, ama…”

Levou a mão à cabeça e, assistida pela companheira devota, enxugou o pranto e o suor, recobrando paulatinamente a lucidez. Desejou narrar o sonho ditoso que a arrebatara, mas preferiu silenciar.

Da parte inferior da casa, escutou os lamentos e as vozes desesperadas das carpideiras, que se deixaram conduzir por histeria profissional. Compreendeu que terminara o ofício fúnebre e que logo mais ocorreria o sepultamento na capela, em cujo solo jaziam os despojos da Senhora duquesa.

Amparada pela serva amiga e companheira, desceu as escadas do hall, algo enfraquecida pelas últimas experiências de que se vira objecto.

O esquife estava sendo erguido por Girólamo e os diversos membros da confraria da Madonna Assunta, de Siena. Repicaram dolentes os sinos; a gritaria infrene estrugia no ar.

Recobrou as forças e avançou.

À porta, ajoelhou-se para acompanhar com afecto os despojos humanos do seu benfeitor e se surpreendeu ante o olhar feroz do sobrinho do Senhor di Bicci di M., que a varara implacável. Pálido e de olheiras fundas, era a expressão da alucinação recalcada. Imediatamente, Lúcia se recordou da visão dominadora que a visitara e baixou a cabeça.

O Bispo, momentaneamente emocionado, começou a litania do “De profundis”:
“Muitas vezes me angustiaram desde a minha mocidade,
“Diga, agora, Israel:
“Muitas vezes me angustiarm desde a minha mocidade,
“Contudo não prevaleceram contra mim.
“Sobre as minhas costas lavraram os aradores;
“Prolongaram os seus sulcos.
“Jeová é justo:
“Ele corta as cordas dos perversos.
“Sejam envergonhados e repelidos para trás…”
“… A bênção de Jeová seja sobre vós;
“Nós vos abençoamos em nome de Jeová.” |*

O cortejo atravessou o átrio, vencendo a distância entre o palácio e a capela gótica, de portas abertas de par em par.

No mausuléu de mármore de Carrera, trabalhando, para guardar os despojos da família, a lápide paralela à da Senhora duquesa estava aberta e pedreiros se encontravam a postos.

Depois da aspersão da água benta e das palavras finais, o ataúde foi colocado e a laje cimentada, sendo posteriormente aposto o selo com as armas da casa.

Estavam concluídas as homenagens àquele que fora o duque Giovanni di Bicci di M.

Mergulhada em sombras, a torre alta do palácio, símbolo do poder dos senhores, parecia uma sentinela triste e solitária.

As entidades religiosas recolheram os estandartes, foram retirados os paramentos, começou a desmontar-se o catafalco e os primeiros convidados deram início à partida. Lentamente, o silêncio se foi abatendo sobre o solar, enquanto a chuva, miúda e impertinente, acompanhada de trovões e relâmpagos ao longe, oferecia o lúgubre espectáculo da Natureza em convulsão. O dia sombrio passou, vagaroso, e, quando a noite desceu fragorosa sobre o burgo, todos, cansados e opressos, buscaram o repouso mais cedo.

As crianças participaram das exéquias do genitor sem a perfeita compreensão do que ocorrera. Ficaram retidas, quanto possível, na parte superior da casa, evitando-se, por orientação de Lúcia, tudo quanto as pudesse perturbar. Carinhosa, a serva recolhera os pequerruchos logo após o falecimento do amo e dissera, em linguagem compatível à idade deles, o que ocorrera, prometendo-lhes a sua dedicação integral até à morte. Afeiçoadas à ama zelosa, com a mente povoada de sonhos e a imaginação sôfrega, os filhinhos do Senhor duque experimentaram as lágrimas da tristeza momentânea e foram recolhidos ao leito pelo cuidado da moça diligente. O dia longo e triste, passaram-no, ora fitando das escadas altas o que ocorria na parte inferior, ora assistidas por dedicada serva, designada especialmente para tal fim.

Com os crepes pesados da noite e a boca silenciosa da sombra, o palácio somente escutava a tempestade que não amainava, de todo, lá fora.

No amplo quarto de Girólamo, encontraram-se o moço agitado e Assunta, ardente de paixão pelo enamorado, cujas migalhas de afecto e ternura disputava leonicamente, de alma e encrespada pela febre tormentosa da ânsia de tudo liquidar, o jovem despediu a companheira e rogou-lhe soledade para pensar. No dia imediato, necessitaria definir situações para o tentame contava, desde já, com a sua valiosa quão indisfeita ordem, de modo a que se pudesse comprovar a sua inocência. Nada poderia falhar. O repouso, portanto, era-lhe ala dos servidores e procurou o repouso.

Girólamo, todavia, não conseguiu conciliar o sono. As mãos frias e trémulas atestavam-lhe a tensão emocioal. O suor lhe escorria em bagas. Embora recolhido no leito, quase delirando sob e expectativa de como concretizar os planos que lhe ardiam na alma, experimentava a pressão da própria insânia.

/…
|* Salmo 129, também chamado da Penitência; versículos 1 a 5 e 8.



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO ” – LIVRO PRIMEIRO, 2. ALUCINAÇÃO E CRIME (2 de 4), 5º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt_1898, Edgard Maxence)

terça-feira, 29 de julho de 2014

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~

Capítulo II
O Marxismo e o Espírito

O marxismo, como gerador de um sentir materialista do homem e da vida, vem sendo combatido por teóricos religiosos pertencentes a várias confissões eclesiásticas, que procuram mostrar os seus erros a respeito da realidade humana e espiritual. Todo esse trabalho poderá ser louvável para os que necessitam de um conceito espiritual com que enfrentar as contingências sociais; mas, quando analisado com certa atenção, percebe-se que a sua finalidade é apenas uma defesa sectária.

Dizem-nos que no marxismo se elabora um partidarismo da filosofiae que o filósofo deve amoldar a sua mentalidade aos interesses do partido. Mas, se bem considerarmos, vemos que ocorre o mesmo, quase com as mesmas características, no campo religioso: forja-se um partidarismo eclesiásticocondicionado aos interesses espirituais do partido religioso, pondo-se de lado o sentido real da busca da verdade.

Neste sentido, trava-se a luta entre duas concepções, ambas com o mesmo direito à análise e à discussão. O grau democrático, alcançado pelo desenvolvimento das ideias, permite-nos hoje cotejar o valor das doutrinas e até mesmo dos dogmas religiosos. Consequentemente, já não se trata de atacar partidariamente marxismo nem o materialismo dialéctico; o que agora interessa é saber positivamente onde se encontra a realidade do Espírito; se é que de facto se deseja superar o perigo representado pelo niilismo filosófico.

Actualmente não se trata de atacar sistemas, mas de saber se eles são realmente falsos, e se as ideias que lhes contrapomos são reais e demonstráveis. Neste campo, a luta trava-se entre o Espírito e a Matéria. Para o espiritualismo religioso, é na existência do Espírito que se radica a legitimidade do cristianismo e das verdades escatológicas. Pois se a existência do Espírito fosse uma irrealidade, todo esse sistema religioso seria derrubado, colocando-se em primeiro plano o materialismo e o marxismo. A ideologia marxista afirma que a sua doutrina está fundada nas ciências, e que unicamente uma contraprova científica poderia obrigá-la a mudar de orientação. O espiritualismo religioso apresenta os seus dogmas, fazendo uso da fé, numa posição de absoluta insuficiência para contradizer as posições do critério científico.

Como se sabe, o marxismo funda-se na ciência experimental. Sobre essa base estabeleceu as suas conclusões materialistas, referentes à origem da vida, opondo-se assim tanto ao idealismo como à religião. Mas o que não devemos esquecer é que esta concepção marxista se baseia também na falta de provas positivas acerca do mundo sobrenatural, sobre o qual repousam a ideia de Deus e do Espírito.

Se o marxismo repele a espiritualidade do homem e da história, não o faz por ódio a essa ideia, já que o pensador marxista possui, sem nenhuma dúvida, uma faculdade intelectual tão esclarecida e elevada como a do idealista e religioso. Consideramos que a repulsa do marxismo às ideias religiosas decorre da falta de provas que pudessem apresentar, tanto o idealismo como a Igreja. Por isso, a escola espírita admite que a cessação da contenda entre o espiritualismo e o materialismo se dará com o reconhecimento e a admissão do fenómeno metapsíquico e mediúnico, único fundamento real que obrigará as correntes materialistas a reconhecerem como verdadeira a existência imortal do Espírito.

Mas a Igreja, e com ela o sistema idealista clássico, repelem o conceito espírita da realidade; a primeira, por considerar o espiritismo como uma causa do demónio, e o segundo, por sustentar um critério nebuloso e ambíguo a respeito da espiritualidade do homem. Não obstante, o curso que vão seguindo as questões morais obriga cada vez mais o pensamento filosófico a recorrer à realidade espiritual, apresentada pelo espiritismo, como o último recurso contra o avanço triunfal do conceito materialista da vida.

Como dizíamos, o marxismo repele toda a ideologia espiritualista por considerar que ela submete o homem económica e socialmente, afundando-o na ignorância e na superstição. Por isso, sustenta que o espiritualismo, além de ser uma irrealidade, tem servido para apoiar os regimes reaccionários e conservadores, e, nunca a liberdade e o direito das classes sem recursos.

Se o realismo marxista não for superado por um realismo espiritual que ultrapasse os seus limites, a consciência materialista continuará a impor-se e serão vãos os protestos dos idealistas e religiosos. As realidades espirituais, se de facto existem, deverão ser expostas ao homem moderno com a mesma objectividade que caracteriza os fenómenos físicos e sociais. Defender ideologias abstractas é unicamente falar ou escrever em favor do partido político ou religioso a que se pertence. Se os espiritualistas querem demonstrar a existência de Deus e da imortalidade da alma, deverão abandonar o método dogmático. Agora, são os factos que devem falar em favor da vida espiritual do homem. Entretanto, prefere-se defender o dogma e o partido, esquecendo-se de que o homem está acima dos interesses de seitas e de grupos.

Chegamos, porém, a uma situação em que o ser humano tem grande necessidade de conhecer a verdade acerca da sua natureza teológica. Aspira, mais do que nunca, apegar-se a ela, para sobreviver ao desolador desastre espiritual da espécie. As doutrinas idealistas e religiosas deverão responder-lhe com verdades, e não com dogmas, já que o homem vale mais do que o partido e a igreja. Por isso, a verdade espiritual, assente sobre os factos, é a única que poderá defendê-lo do perigo social que o rodeia.

É necessário considerar que o homem não deve morrer sem que lhe sejam ensinadas as autênticas verdades espirituais; não deverá ausentar-se deste mundo aceitando verdades que, depois da morte, lhe aparecerão como erros, conservados apenas para a defesa de sistemas religiosos e sociais dominantes.

Não obstante, enquanto as instituições civis e religiosas permanecem quietas, o progresso e a evolução fazem girar a roda do mundo, para comovê-lo desde os fundamentos. Enquanto as organizações religiosas aparentam estabilidade e segurança, a revolução espiritual está acontecendo no âmago das almas. E esta revolução subjectiva é a que promoverá a derrocada dessas organizações, que zelam somente pelos seus privilégios e os seus interesses materiais. Acreditamos que o grito angustioso da alma humana, nos tempos actuais, merece o mais fraternal dos auxílios. Consideramos que o homem merece agora o nosso respeito, mais do que em nenhum outro período da história.

Aqueles que dividiram o mundo em classes, sectores e partidos, deveriam abandonar a sua atitude dogmática e recordar que a humanidade está no direito de conhecer a verdade espiritual, ainda que essa verdade possa afectar as instituições religiosas, já incapazes de oferecer provas sobre o destino escatológico do homem.

marxismo é uma rebelião contra os erros de toda ordem; não é somente uma força de carácter político: ele se dirige a todo o sistema espiritual existente, cansado de admitir as suas erradas doutrinas, cujo único fim é manter nas trevas o pensamento humano. Assim, se a Igreja, e com ela o antigo espiritualismo desejam opor-se ao marxismo, deverão fazê-lo por meio dos factos, demonstrando que o metafísico e o sobrenatural existem, que são realidade. Mas, infelizmente, essas instituições carecem do equipamento necessário, com o qual deveriam sobrepor-se ao conceito materialista do marxismo. Continuam opondo-se ao espiritismo, o que prova que não buscam a salvação espiritual do homem, mas unicamente sobreviver, empregando para isso a força que lhe concedem os Estados materialistas.

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Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, 1ª PARTE, O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo II, O MARXISMO E O ESPÍRITO, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Mundo Invisível e a Guerra ~

II – Cenas do Espaço. Visões Reais da Guerra e da Epopeia (II)

|Janeiro de 1915|

Acima de nossas linhas, inúmeras assembleias se realizam e aqueles que as compõem são nomes ilustres que, reunidos, resumem toda a glória dos séculos e toda história da França. Ali está Henrique IV junto a Napoleão; Vercingétorix encontra-se com os capitães de Carlos VII, os generais de Luís XIV e os da Revolução: todos os heróis das nossas lutas do passado e os libertadores da pátria.

Ali também vemos vários chefes ingleses, pois toda a inimizade se extinguiu, existindo em todos esses espíritos um só pensamento e um sentimento único.

Todos têm, por Joana, igual respeito e ninguém lhe toma a dianteira, discutindo-se gravemente os meios de ataque e os procedimentos necessários para essa guerra de trincheiras.

Sobre essa assembleia paira o pensamento de Deus e quando o nobre espírito que a preside abre a sessão, invocando o nome do Pai, todos se inclinam respeitosamente.

Se, para muitos, a França se tornou descrente, ímpia e entregue a todas as correntes do materialismo e da sensualidade, pelo menos no meio desse supremo conselho, onde se acham reunidos os seus mentores invisíveis, impera uma fé ardente. Talvez seja por essa razão que diminuem, até certo ponto, as provações e os horríveis castigos que ela mereceu.

As resoluções que nessa assembleia sejam tomadas serão transmitidas, por intuição e inspiração, aos generais que tenham a missão de executá-las. Para esse fim, cada um dos espíritos presentes a esses conselhos escolherá, dentre os nossos comandantes, aqueles cuja natureza psíquica melhor se harmonize com a sua própria e, por meio de uma vontade persistente, os inspirará no sentido do que ficou resolvido.

Sobre os soldados a influência dos espíritos se exercerá de modo diverso: eles terão por mira, principalmente, acrescentar ao ardor e à veemência, que são qualidades naturais da raça, a perseverança e a tenacidade na luta, tão necessárias no momento actual e que, às vezes, nos faltaram.

Por tudo isso se demonstra que as almas dos mortos não são entidades vagas, indefinidas, como alguns acreditam, pois, atingindo as altas camadas da hierarquia espiritual, elas se convertem em poderes notáveis, em centros de actividades e de vida capazes de exercer a sua acção sobre a humanidade terrestre.

Pela sugestão magnética, podem influir sobre aquele que escolheram, fazendo nele germinar a ideia matriz e incitá-lo ao acto decisivo que vai coroar a sua obra.

É dessa forma que os invisíveis se envolvem nos actos dos vivos, para a concretização do bem e o cumprimento da justiça eterna.

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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, II – Cenas do Espaço, Visões Reais da Guerra e da Epopeia (2 de 3) 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

pensamento espírita argentino ~

CAPÍTULO I

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história

Que somos? (III)

A psicologia racional ou metafísica preocupou-se apenas em determinar a essência da alma, partindo de hipóteses que não estavam abonadas pelos factos, e uma vez estabelecida, hipoteticamente, a sua natureza espiritual, derivou dela os fenómenos psíquicos, sem preocupar-se em estudá-los experimentalmente e conhecer as leis a que estão sujeitos.

Esta falta de solidez em que se apoia o espiritualismo filosófico clássico deu base à psicologia materialista, que, fundamentada em observações incompletas e no preconceito dos seus sábios, formulou a hipótese contrária, reduzindo os fenómenos psíquicos a fenómenos fisiológicos e fazendo da alma uma complexa função do sistema nervoso central. Esse conceito monista da alma foi expresso em diversas formas, mas sempre como resultante do funcionamento do cérebro. Bem conhecido é o aforismo de Carls Vogt:

“O cérebro segrega o pensamento, como o fígado a bílis.”

e este outro, não menos grosseiro e materialista, atribuído por alguns a Taine:

“Entre a inteligência e o cérebro há a mesma relação que entre a bílis e o fígado ou a urina e os rins.”

Luís Büchner, comentando seu émulo Vogt, opõe à sua concepção de alma outra, ainda que não tão grosseira, não menos gratuita:

“O cérebro é o princípio e a fonte, ou melhor, a causa única do espírito e da inteligência.”

Fundamentada nestas e outras afirmações análogas, não provadas, a psicologia materialista se desenvolveu, chegou ao apogeu e logo à decadência, sem satisfazer a curiosidade científica, arrastando na sua queda muitos espíritos propensos ao materialismo, que acreditaram que o homem já se conhecia a si mesmo, um pedaço de matéria organizada, sem princípio espiritual e sem outra finalidade além dos seus apetites materiais, com a ilusão de uma falsa individualidade psíquica, de uma identidade pessoal não menos falsa e de uma espiritualidade tão ilusória como elas. Há que se convir que o materialismo só pôde ser consequente com o seu postulado psicológico enquanto desprovido de toda a espiritualidade e de toda a consideração moral e aceites as consequências fatais da sua doutrina. Pois, para a filosofia socrática e clássico-espiritualista, a psicologia era o fundamento da moral e da metafísica e conhecer-se a si mesmo, como entidade psicológica, equivalia a regular a vida de acordo com um princípio e uma finalidade superiores; não existindo estes e anulada a alma na complexidade funcional do cérebro, o seu único fim lógico é dar-se a toda a classe de satisfações sensuais, desprezando, por alheia e oposta à sua natureza exclusivamente material, toda espiritualidade e toda moralidade fundada em princípios universais.

Não obstante o seu presumido monismo, a psicologia materialista encontrou na própria fisiologia a sua refutação. Pois, como sustentou o ilustre fisiólogo Claude Bernard, a matéria organizada do cérebro não manifesta sensibilidade e inteligência, nem tem mais consciência do pensamento e dos fenómenos que a matéria bruta de uma máquina, de um relógio, por exemplo, tem dos seus movimentos e da hora que indica, ou os caracteres de imprensa e o papel têm das ideias que veiculam. Diz ele:

“Afirmar que o cérebro segrega o pensamento equivale a sustentar que o relógio segrega a hora ou a ideia do tempo.”

Sustentar, com Büchner, que o cérebro é a fonte ou a causa do espírito, ao lado de ser uma hipótese gratuita, seria assentar o absurdo de que o efeito é superior à causa, que o insensível, o inconsciente, o natural não-inteligente, pode engendrar a sensibilidade, a consciência, a inteligência e a espiritualidade; seria assumir a priori um postulado filosófico que a ciência está muito longe de provar.

A curiosidade científica não tem limites e a ciência não se conforma com saber as coisas de modo superficial nem se estanca com uma doutrina apriorística ou dogmática, qualquer que seja a tese que defenda.

Emparedada entre duas hipóteses contrárias, a psicologia buscou o seu verdadeiro centro de gravidade no positivismo, escola mais científica, mas não isenta de preconceitos e circunscrita por horizontes um tanto restritos, limitados à materialidade das coisas, objecto de um conhecimento exclusivamente empírico.

A psicologia positiva, mais propriamente a psicofisiologia, como a chamou Wilhelm Wundt, não pôde subtrair-se à influência do materialismo e, apesar dos seus reiterados protestos contra Vogt e os seus seguidores, acabou por ser manifestamente materialista. Começou por negar a priori ou apoiando-se numa experiência imediata mas insuficiente, a realidade substancial da alma; e dizemos a priori porque ela não teve como objecto de estudo a entidade psicológica ou espiritual através dos seus fenómenos; ao contrário, rechaçou-a antecipadamente por absurda, rendendo-se à realidade funcional e sensível do mecanismo cerebral: não fez mais do que estudar os fenómenos psicofisiológicos em si mesmos e as suas relações de causas e efeitos, a exterioridade da alma, sem penetrar nem descobrir nela a causa essencial, eficiente, dos fenómenos psíquicos, considerando-a como a síntese de estados de consciência, confundindo-a com o conjunto dos seus fenómenos experimentalmente conhecidos e rechaçando, por sobrenaturais e impossíveis, outros, cuja supranormalidade ultrapassa o limite dos seus conceitos, ou seja, todos aqueles fenómenos psíquicos que se realizam sem intervenção de órgãos sensoriais ou fora do alcance do organismo somático e que contrariam as leis ordinárias da psicofisiologia, tais como os fenómenos de exteriorização da sensibilidade e da motilidade, os de telepatia, clarividência, xenoglossia, premonição, etc., que acabam com o aforismo de Locke e Condillac: nihil est in intellectu quod non plus fuerit in sensu(i) convertido em dogma por empíricos e positivistas.

A chamada psicologia positiva ou empírica, ainda que pareça paradoxal, não fez verdadeira psicologia, porquanto, negando a realidade substancial da alma, reduziu os fenómenos psíquicos a meros fenómenos fisiológicos, os quais, por muito subtis ou espirituais que os considere, por mais que psicólogos empíricos protestem contra a escola materialista, sobre a sua origem psíquica, a sua irredutibilidade e o seu paralelismo com os fenómenos fisiológicos (impossíveis de conceberem-se se não emanam de fontes substancialmente distintas), são sempre produzidos pelo organismo material e caem, indefectivelmente, no conceito materialista expresso por Büchner, quando considera que a alma tem por causa única o cérebro. Longe, pois, de ensinar ao ser humano a conhecer-se a si mesmo, a psicologia empírica o desnatura: atribui ao sistema eixo cérebro-espinhal as faculdades e atributos do espírito, o poder dínamo-psíquico de suas funções e de suas determinações.

Não obstante, e fazendo justiça ao seu método experimental, ainda que negando a alma, contribuiu sem querer e sem pensar para o seu maior conhecimento, pois não é possível conhecer a alma senão através das suas manifestações e dos seus fenómenos. Deste modo e com o auxílio de outras ciências afins, estabeleceu a relação entre a alma e o organismo somático: a fisiologia proporcionou-lhe conhecimentos mais ou menos exactos sobre o funcionamento do sistema nervoso e dos órgãos sensoriais e com a histologia conheceu a estrutura íntima do tecido fibroso e celular; a patologia ilustrou-se acerca das perturbações nervosas e cerebrais e da sua influência nas funções psíquicas.

Por meio das vivisseções ou dissecação dos animais vivos e extirpação total ou parcial dos lóbulos cerebrais, chegou a determinar, anatómica e aproximadamente, as localizações cerebrais; com a psicofísica, estabeleceu as relações quantitativas entre as diversas sensações e os seus antecedentes, isto é, determinou o tempo que transcorre entre a impressão recebida e a sensação experimentada; estabeleceu, enfim, de modo experimental, baseando-se na estrutura íntima do sistema nervoso, no seu funcionamento e nos diversos estados psíquicos do indivíduo, as estreitas relações da alma com o seu organismo, ainda que considerando aquela como o conjunto de fenómenos psíquicos. Graças à psicofisiologia e às suas afins, sabemos hoje como as impressões periféricas, produzidas nos órgãos sensoriais por estímulos exteriores, chegam à alma, depois de percorrer as vias nervosas e passar por seus respectivos centros sensoriais receptores e sofrer noutras as necessárias transformações, até converter-se em recepção, e como uma incitação motriz, originada numa célula ou centro motor cerebral, desce ao músculo que deve colocar em movimento através da medula espinal, seguindo o encadeamento dos neurónios que lhe serve de via nervosa descendente.

Mas todo este processo psicofisiológico, desde a excitação até a percepção, reduz-se, em última análise, a movimentos nervosos, a vibrações celulares e isto é tudo quanto, a rigor, nos pode ensinar a psicologia empírica e, por muito que se esforce, não poderá jamais – prescindindo da alma como entidade psicológica, distinta, superior aos seus fenómenos – demonstrar como as excitações se traduzem em sensações, logo, em percepções, em ideias, pensamentos, juízos, raciocínios, determinações, etc., ainda que para isso apele aos centros de transformação e de associação, pois os centros cerebrais, as células que os constituem, isoladas ou associadas, são tão sensíveis à dor ou ao prazer, quando lhes falta o espírito que as anima, como o aparelho radiofónico o é da emotividade ou o pensamento da mensagem que recebe e têm tanta consciência e inteligência da função que desempenham como, no caso citado por Claude Bernard, o relógio tem da hora que marca.

Se falta a unidade psicológica, o eu sensível e perceptor, não há sensação nem percepção possíveis e a chamada consciência psicológica, “coordenação de estados”, ou de “certo número de estados” que postula Ribot, é uma palavra sem fundamento, um nome para expressar algo impreciso, que não constitui unidade, senão multiplicidade ou, quando muito, um conceito vago, que se anula num mar de fenómenos gerados pela inconsciência cerebral. E dizemos que se anula num mar de fenómenos porque, num conceito positivista, a individualidade psicológica não tem existência real, se desvanece no conjunto dos fenómenos psíquicos constantemente renovados; o que, em tal conceito, se chama consciência individual é um processo de estados de consciência ou de consciências coordenadas e sucessivas que dão a ilusão de um indivíduo: o eu é uma abstracção pura ou, como diz J. Patrascoiu, um simples “nome”, sem entidade nem substância espiritual, uma palavra, enfim, análoga às frases “espírito das massas”, “consciência do povo” e outras que encerram conceitos abstractos, heterogéneos, com as quais os políticos e sociólogos sintetizam a psicologia colectiva que, por assim ser, carece de unidade psicológica verdadeira.

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(i) “Nada existe na inteligência que antes não tenha passado pelos sentidos”. (N.T.)



Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (III), 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)