quinta-feira, 4 de junho de 2015

o grande enigma ~

Deus | e o Universo (III)

Um mal-entendido secular divide as escolas filosóficas quanto a estas questões. O materialismo via no Universo somente a substância e a força. Parecia ignorar os estados quintessenciados, as transformações infinitas da matéria. O espiritualismo vê em Deus só o princípio espiritual e não considera imaterial tudo o que não cai sob os nossos sentidos. Ambos se enganam. O mal-entendido que os separa cessará quando os materialistas virem no seu princípio e os espiritualistas no seu Deus a fonte dos três elementos: substância, força, inteligência, cuja união constitui a vida universal.

Por isso, basta compreender duas coisas: se se admite que a substância esteja fora de Deus, Deus não é infinito, e, pois que a consciência existe no mundo actual, é preciso evidentemente que ela se encontre naquilo que tem sido o Princípio do mundo.

Mas a Ciência, depois de se haver retardado durante meio século nos desertos do materialismo e do positivismo, depois de ter reconhecido a esterilidade deles, a ciência actual modificou a sua orientação. Em todos os domínios: física, química, biologia, psicologia, ela se encaminha hoje, a passo decidido, para essa grande unidade que se entrevê no fundo de tudo. Por toda a parte ela reconhece a unidade de forças, a unidade de leis. Atrás de toda a substância em movimento encontra-se a força, e a força não é senão a projecção do pensamento, da vontade na substância. A eterna criação, a eterna renovação dos seres e das coisas é tão-somente a projecção constante do pensamento divino no Universo.

Pouco a pouco, o véu se levanta; o homem começa a entrever a evolução grandiosa da vida na superfície dos mundos. Ele vê a correlação das forças e a adaptação das formas e dos órgãos em todos os meios; sabe que a vida se desenvolve, se transforma e se apura à medida que percorre a sua espiral imensa; compreende que tudo está regulado visando a um fim, que é o aperfeiçoamento contínuo do ser e o crescimento nele da soma do bem e do belo. Mesmo neste mundo, ele pode seguir essa lei majestosa do progresso, através de todo o lento trabalho da Natureza, desde as formas ínfimas do ser, desde a célula verde flutuando no seio das águas, até ao homem consciente no qual a unidade da vida se afirma, e acima dele, de grau em grau, até ao infinito. E essa ascensão só se compreende, só se explica pela existência de um princípio universal, de uma energia incessante, eterna, que penetra toda a Natureza; é ela quem regula e estimula essa evolução colossal dos seres e dos mundos para o melhor, para o bem.

Deus, tal qual o concebemos, não é, pois, o Deus do panteísmo oriental, que se confunde com o Universo, nem o Deus antropomorfo, monarca do céu, exterior ao mundo, de que nos falam as religiões do Ocidente. Deus é manifestado pelo Universo – do qual é a representação sensível –, mas não se confunde com este. De igual maneira que em nós a unidade consciente, a Alma, o eu, persiste no meio das modificações incessantes da matéria corporal, assim, no meio das transformações do Universo e da incessante renovação de suas partes, subsiste o Ser que é a Alma, a consciência, o eu que o anima e lhe comunica o movimento e a vida.

E esse grande Ser, absoluto, eterno, que conhece as nossas necessidades, ouve o nosso apelo, nossas preces, que é sensível às nossas dores, é qual o imenso foco em que todos os seres, pela comunhão do pensamento e do sentimento, vêm haurir forças, o socorro, as inspirações necessárias para guiá-los na senda do destino, sustê-los nas suas lutas, consolá-los nas suas misérias, levantá-los nos seus desfalecimentos e nas suas quedas.

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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 3 de 5, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Saberes e o tempo ~

O tempo, o espaço, a matéria primordial (II)

O tempo

Aos mesmos resultados chegamos, quando queremos avaliar o tempo. Os períodos cósmicos nos esmagam com um formidável amontoado de séculos. Ouçamos mais uma vez o nosso instrutor espiritual.

“O tempo, como o espaço, é uma palavra que se define a si mesma. Mais exacta ideia dele se faz, estabelecendo-se a relação que guarda com o todo infinito.

O tempo é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do mesmo modo pelo qual essas coisas se acham ligadas ao infinito. Suponhamo-nos na origem do nosso mundo, naquela época primitiva em que a Terra ainda não se baloiçava sob a impulsão divina.

Numa palavra: no começo da génese.

Aí, o tempo ainda não saiu do misterioso berço da Natureza e ninguém pode dizer em que época de séculos está, pois que o balancim dos séculos ainda não foi posto em movimento.

Mas, silêncio! a primeira hora de uma Terra isolada soa no relógio eterno, o planeta move-se no espaço e, desde então, há tarde e há manhã. Fora da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel, se bem o tempo avance para muitos outros mundos. Na Terra, o tempo a substitui e, durante uma série determinada de gerações, contar-se-ão os anos e os séculos.

Transportemo-nos agora ao último dia deste mundo, à hora em que, curvado sob o peso da vetustez, a Terra se apagará do livro da vida, para aí não mais reaparecer. Nesse ponto, a sucessão dos eventos se detém, interrompem-se os movimentos terrestres que mediam o tempo e este finda com eles.

Quantos mundos na vasta amplidão, tantos tempos diversos e incompatíveis. Fora dos mundos, só a eternidade substitui essas efémeras sucessões e enche, serenamente, da sua luz imóvel, a imensidade dos céus. Imensidade sem limites e eternidade sem limites, tais as duas grandes propriedades da natureza universal.

Agem concordes, cada uma na sua senda, para adquirirem esta dupla noção do infinito: extensão e duração, assim o olhar do observador, quando atravessa, sem nunca ter de parar, as incomensuráveis distâncias do espaço, como o do geólogo, que remonta até muito além dos limites das idades, ou que desce às profundezas da eternidade onde eles um dia se perderão.”

Também estes ensinamentos a Ciência os confirma. Malgrado a dificuldade do problema, os físicos, os geólogos hão tentado avaliar os inumeráveis períodos de séculos decorridos desde a formação da nossa Terra e as mais fracas avaliações mostram quão infantis eram os seis mil anos da Bíblia.

Segundo Sir Charles Lyell, que empregou os métodos usados em Geologia – métodos que consistem em avaliar-se a idade de um terreno pela espessura da câmara sedimentada e a rapidez provável da sua erosão –, ao cabo de numerosas observações feitas em todos os pontos do globo, mais de trezentos milhões de anos transcorreram depois da solidificação das camadas superficiais do nosso esferóide.

As experiências do professor Bischoff sobre o resfriamento do basalto, diz Tyndall, (I) parecem provar que, para se resfriar de 2.000 graus a 200 graus centígrados, precisou o nosso globo de 350 milhões de anos. Quanto à extensão do tempo que levou a condensação por que teve de passar a nebulosa primitiva para chegar a constituir o nosso sistema planetário, essa escapa inteiramente à nossa imaginação e às nossas conjecturas. (II) A história do homem não passa de imperceptível ondulação na superfície do imenso oceano do tempo.

Entremos agora no estudo do nosso planeta e vejamos quais os ensinos dos Espíritos sobre a matéria e a força.

A unidade da matéria

“À primeira vista, nada parece tão profundamente variado, tão essencialmente distinto, quanto as diversas substâncias que compõem o mundo. Entre os objectos que a arte ou a natureza diariamente nos fazem passar sob as vistas, não há dois que acusem perfeita identidade, ou, sequer, simples paridade de composição. Que dessemelhanças, do ponto de vista da solidez, da compressibilidade, do peso e das propriedades múltiplas dos corpos, entre os gases atmosféricos e um fio de ouro; entre a molécula aquosa da nuvem e a do mineral que forma a carcaça óssea do globo! Que diversidade entre o tecido químico das variadas plantas que adornam o reino vegetal e o dos representantes, não menos numerosos, da animalidade na Terra!

Entretanto, podemos pôr por princípio absoluto que todas as substâncias, conhecidas ou desconhecidas, por mais dessemelhantes que pareçam, quer do ponto de vista da constituição íntima, quer no que concerne à acção que reciprocamente exercem, não são, de facto, senão modos diversos sob os quais a matéria se apresenta, senão variedades em que ela se transformou, sob a direcção das inúmeras forças que a governam.

Decompondo todos os corpos conhecidos, a Química chegou a um certo número de elementos irredutíveis a outros princípios; deu-lhes o nome de corpos simples e os considera primitivos, porque nenhuma operação até hoje pôde reduzi-los a partes relativamente mais simples do que eles próprios.

Mas, mesmo onde param as apreciações do homem, auxiliado pelos seus mais impressionáveis sentidos artificiais, a obra da Natureza continua; mesmo onde o vulgo toma como realidade a aparência, o olhar daquele que pôde apreender o modo de agir da Natureza, apenas vê, sob os materiais constitutivos do mundo, a matéria cósmica primitiva, simples e una, diversificada em certas regiões, na época do nascimento deles, distribuída em corpos solidários durante a vida e que, por decomposição, se desmembram um dia no receptáculo da extensão.

Tal diversidade se observa na matéria, porque, sendo em número ilimitado as forças que lhe presidiram às transformações e as condições em que estas se produziram, ilimitadas não podiam também deixar de ser as próprias combinações várias da matéria.

Logo, quer a substância que se considere pertença aos fluidos propriamente ditos, isto é, aos corpos imponderáveis, quer se ache revestida dos caracteres e das propriedades ordinárias da matéria, não há, em todo o Universo, mais do que uma única substância primitiva: o cosmos, ou matéria cósmica dos uranógrafos.”

O ensino é claro, formal: existe uma matéria primitiva, da qual decorrem todos os modos que conhecemos. Terá a ciência confirmado esta maneira de ver? Tomando-se as coisas ao pé da letra, não há negar que essa substância ainda não é conhecida; mas, pesando-se maduramente todos os factos que vamos expor, torna-se fácil verificar que, se a demonstração directa ainda não foi dada, a tese da unidade da matéria é muito provável e encontra cabimento nas mais fundamentadas opiniões filosóficas dos físicos.

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(I) Tyndall, O Calor, pág. 423.
(II) Sabe-se que o diâmetro do Sol era, primitivamente, o da própria nebulosa. Para se fazer uma ideia do calor gerado pelo fenómeno colossal da condensação, basta lembrar que se calculou que, se o diâmetro do Sol se encurtasse da décima milésima parte do seu valor, o calor gerado por essa condensação chegaria para manter durante 21 séculos a irradiação actual, que é igual, por ano, ao calor que resultaria da combustão de uma camada de hulha de 27 quilómetros de espessura, cobrindo completamente o Sol. Se a diminuição de 1/10000 do disco solar corresponde a 21 séculos de irradiação, vê-se que números formidáveis, gigantescos, de séculos empregou a nebulosa solar para se reduzir ao volume actual do nosso astro central.




Gabriel Delanne, A Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência Capítulo II O tempo, o espaço, a matéria primordial, O tempo, A unidade da matéria, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Da sombra do dogma à luz da razão ~

Natureza da Revelação ~ Espírita (III)

   O Espiritismo, tendo-nos dado a conhecer o mundo invisível que nos rodeia e no meio do qual vivíamos sem o sabermos, as leis que o regem, as suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos entes que o habitam e, por consequência, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação na acepção científica do termo.

Pela sua natureza, a revelação espírita possui um carácter duplo: respeita simultaneamente à revelação divina e à revelação científica. Está ligada à primeira no que o seu advento tem de providencial, não sendo resultado da iniciativa e de um intento premeditado do homem; por os pontos fundamentais da doutrina serem resultantes do ensinamento dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecerem os homens sobre coisas que ignoravam, que não podiam aprender sozinhos e que é importante conhecerem, hoje que estão preparados para as compreenderem. Liga-se à segunda por este ensinamento não ser privilégio de nenhum indivíduo e ser dado a toda a gente através da mesma via; por os que o transmitem e os recebem não serem de forma nenhuma seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa; que não abdicam da sua opinião nem do seu livre-arbítrio; que o controlo não lhes é interdito, sendo antes, pelo contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada em todas as suas partes nem imposta à crença cega; que é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos factos que os Espíritos lhes colocaram debaixo dos olhos e das instruções que lhe dão, instruções que estuda, comenta, compara e de que retira ele mesmo as consequências e as aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o facto de a fonte ser divina, a iniciativa pertencer aos Espíritos e a sua elaboração ser consequência do trabalho do homem.

Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exactamente da mesma maneira que as ciências positivas, quer dizer, aplicando o método experimental. Apresentam-se factos de uma nova ordem que não podem ser explicados pelos meios conhecidos; observa-os, compara-os, analisa-os e, remontando os efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz daí as consequências e procura-lhes as aplicações úteis. Não estabelece nenhuma teoria preconcebida; assim, não colocou como hipóteses nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perespírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da doutrina; concluiu que existem Espíritos quando esta existência ressaltou como evidência da observação dos factos; e também o mesmo sucedeu com os outros princípios. Não foram os factos que vieram mais tarde confirmar a teoria, mas a teoria que veio subsequentemente explicar e resumir os factos. É portanto rigorosamente exacto dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só registaram progressos sérios depois de o seu estudo se ter baseado no método experimental; mas, até esse dia, sempre se acreditou que este método só era aplicável à matéria, enquanto o é igualmente às coisas metafísicas.

Citemos um exemplo. Passa-se, no mundo dos Espíritos, um caso muito singular e de que certamente ninguém teria suspeitado; é o dos Espíritos que não acreditam estar mortos. Pois bem! Os Espíritos superiores, que o sabem perfeitamente, não vieram dizer antecipadamente: «Há Espíritos que julgam estar ainda a viver a vida terrestre; que conservaram os seus gostos, os seus hábitos e os seus instintos»; mas provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que os observássemos. Tendo então visto Espíritos sem terem a certeza do seu estado ou afirmando que ainda faziam parte deste mundo e julgando ocuparem-se das suas tarefas habituais, do exemplo concluiu-se a regra. A multiplicidade de factos análogos provou que não se tratava de uma excepção, mas de uma fase da vida espírita; permitiu estudar todas as variedades e as causas desta singular ilusão; reconhecer que esta situação é sobretudo distintiva dos Espíritos pouco evoluídos moralmente e que é característica de certos géneros de morte; que é só temporária, mas que pode durar dias, meses, anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. Passa-se o mesmo com todos os outros princípios da doutrina.

Assim como a ciência propriamente dita tem como finalidade o estudo das leis do princípio material, a principal finalidade do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este princípio é uma das forças da natureza, reagindo constantemente sobre o princípio material e reciprocamente, resulta daí que o conhecimento de um não pode estar completo sem o outro. O espiritismo e a ciência completam-se um ao outro: a ciência sem o Espiritismo fica impotente para explicar certos fenómenos unicamente através das leis da matéria; o Espiritismo sem a ciência não teria apoio nem controlo. O estudo das leis da matéria deveria preceder o da espiritualidade, por ser matéria e ferir primeiro os sentidos. Se o Espiritismo tivesse surgido antes das descobertas científicas teria sido uma obra abortada, como tudo o que surge antes de tempo.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 12 a 16 (III), 5º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 3 de maio de 2015

As vidas sucessivas | os elementos ~

Apresentação ~ por Hermínio C. Miranda ~

Este livro é um clássico, uma referência, na longa busca de melhor entendimento do ser humano e das leis que regem a sua interacção com as pessoas, os fenómenos e eventos que se desdobram à sua volta, mas principalmente “dentro” daquilo que nos acostumamos a chamar de mente. Em suma, a sua interacção com a vida, nisso incluído, obviamente, o universo em que vive.

Foi a partir dele, ainda na década de 60 do século passado, que encetei os estudos que me levariam à elaboração de A Memória e o Tempo, na segunda metade da década de 70 e publicado no início dos anos 80.

Garimpei o original francês que deu origem a esta tradução, num sebo, como de tantas outras vezes, em momento feliz, por se tratar de edição raríssima de 1911.

Logo na primeira leitura, senti considerável impacto. Quanto mais o lia, relia e aprofundava a meditação sobre o seu conteúdo, mais impressionado ficava. Agradava-me a abordagem sensata e inteligente do autor, emoldurada por inesperada humildade intelectual de um cientista daquele porte.

De Rochas se punha como atento e curioso pesquisador, disposto a aprender com os factos, em vez de tentar enquadrá-los em rígido contexto de modelos preconcebidos, atitude comum àquele tempo, como ainda hoje, de parte dos que não se sentem encorajados e nem preparados para mudar e, por conseguinte, a progredir galgando patamares mais elevados de conhecimento.

A sua postura era, pois, despreconceituosa e atenta, mas aberta.

Outra coisa: o ilustrado coronel, engenheiro e conde não pretendeu considerar as suas reflexões como última palavra a ser religiosamente acatada pelos que o lessem. Ao contrário, atribuiu ao seu trabalho a modesta condição de um conjunto de documentos preliminares para estudo da questão, ao indicar a necessidade de pesquisas mais amplas e profundas que dessem continuidade à sua tarefa.

O seu livro, contudo, é muito mais que uma dissertação primária.

De Rochas relata as suas experiências, oferece conclusões sobre o que testemunhou e levanta aspectos inusitados da mente para os quais ainda não dispunha de explicações que satisfizessem os seus critérios pessoais, ainda que apontando em determinada direcção. Em outras palavras, não dogmatiza.

Ademais, ao empreender os seus estudos entre o final do século 19 e o início do século 20, não partiu de premissas propostas pelo espiritismo, cuja doutrina se achava, àquela época, bastante difundida ali mesmo, na França.

De início, estranhei esse procedimento. Hoje entendo-o como opção válida e medida de prudência destinada a preservar a isenção necessária ao trabalho em que se empenhava. Se ele partisse de conceitos doutrinários espíritas, caracterizando-se como militante do movimento que se expandia, os seus estudos ficariam certamente expostos à rejeição liminar por parte das correntes intelectuais da época, dominadas por pensadores de formação nitidamente materialista ou positivista – como ocorreu e ocorreria a tantos outros mais tarde.

Em nota de rodapé, ele explica que não cuidava especificamente de espiritismo, por entender que disso se ocupavam outros estudiosos. Sem ignorar ou negar os postulados espíritas – alude com respeito e admiração à obra de Léon Denis, por exemplo –, limitava-se a aspectos científicos que, directa ou indirectamente acabaram resultando em valioso suporte à inteligente doutrina dos espíritos.

Realmente, ao estampar na reencarnação a marca autenticadora da ciência, o seu estudo, mesmo preliminar, como ele o entendia, legitimava a realidade espiritual, tal como figura nos livros básicos de Allan Kardec.

Tenho insistido reiteradamente nos meus escritos em que essa realidade, fundamental ao entendimento da vida, é insusceptível de esquartejamento. Estamos aqui diante de um bloco inteiriço de conceitos solidamente colados uns nos outros.

No meu entender, a reencarnação é o cimento que mantém inseparáveis tais componentes. E que, demonstrada – como está há muito – a legitimidade da reencarnação, os demais aspectos exigem automática integração no modelo em que não se admite ignorar, no mínimo, a preexistência e a sobrevivência do ser à morte corporal.

Por outro lado, de Rochas pôs em evidência relevantes aspectos colaterais, como a lei de causa e efeito e, portanto, o mecanismo da evolução do ser rumo à perfeição e, ligado a esse conceito, sublinhando-o de modo subtil, mas dramático, a verdade subjacente de um claro componente ético necessário ao funcionamento daquele mecanismo. Deixou, ainda, informações do mesmo nível de importância acerca das faculdades mediúnicas e, portanto, do intercâmbio entre “vivos” e “mortos”. Nota-se, no desenrolar das suas experiências, a presença de entidades desencarnadas, bem como a evidência de um “espaço” cósmico invisível aos nossos sentidos habituais, “onde” vivem, sofrem, amam, odeiam, aprendem e se reciclam os seres espirituais entre uma vida e outra na Terra.

Disto se conclui que, a despeito de não se caracterizar como texto doutrinário espírita, o seu valioso trabalho oferece firme suporte aos ensinamentos e conteúdos dos livros básicos da Codificação.

Além disso, de Rochas deixou significativa contribuição ao estudo da própria memória, na sua interacção com o tempo. Conceitos como o de inconsciente – que começavam a emergir na época –, encontram nos seus trabalhos, tanto quanto na doutrina dos espíritos, encaixes precisos e espaço próprios, como procurei demonstrar em Alquimia da Mente.

Que eu saiba, foi ele quem primeiro colocou de maneira transparente a possibilidade de explorações no futuro, tanto quanto no passado do ser humano. Aparentemente inconclusivas, as suas “progressões” (mergulho na memória futura) deixaram vestígios importantes de uma realidade que somente cerca de um século mais tarde seria retomada para mais profundas explorações, como se pode conferir nos escritos da doutora Helen Wambach e de outros estudiosos como Chet Snow.

Por tudo isso, os textos de de Rochas – e este livro não é o único a solicitar a nossa atenção – merecem atenção, respeito e admiração.

Parabéns à Lachâtre por resgatar mais este importante depoimento científico de um injusto e demorado esquecimento.

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Albert de Rochas, As Vidas Sucessivas – Apresentação, por Hermínio C. Miranda | Outubro de 2002, 4º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 26 de abril de 2015

~~~Párias em Redenção~~~

ALUCINAÇÃO E CRIME (III)

A noite avançava lavada e varrida pelas chuvas e ventos, que desabavam abundantes, e o moço revira-se impaciente no leito, desassossegado. A avançadas horas, deixou-se abater por torpor dominante e, assaltado por esquisito pesadelo, sentiu-se amarrado ao leito, experimentando os sentidos psíquicos exaltados. Foi dominado pela sensação desusada de que, embora caído pesadamente sobre a cama, podia locomover-se no quarto em brumas espessas, entre as quais, direcção estóica e hierática, como sempre o fora. Agitando-se penosamente e desejando evadir-se do desagradável e insólito fenómeno que o avassalava, compreendeu-se vencido ante aquela que lhe fora mãe espiritual dedicada e cujo amor ele estava prestes a desrespeitar, por meio de hediondo crime. A entidade acercou-se dele e, traduzindo inconfundível melancolia na voz, marcada por acento de doída angustia, inquiriu:

– Que pretendes, Girólamo? Assim retribuis, através do crime nefário que premeditas, o calor da afeição pura e da dedicação que recebeste deste lar? Substituíste por ácido o sangue que pulsa nas tuas veias para, enlouquecido, te comprometeres por penosos séculos de infeliz peregrinação ressarcidora? Susta o golpe, antes que o golpe te vença, sem que consigas aniquilar-te a ti mesmo. Ninguém tem o direito de erguer a mão, que se torna sacrílega quando investe contra a vida de outrem. Mesmo diante do revel, a nós não nos pertence o direito de destruir, e sim Àquele que o produz, e que se utiliza de recursos que nos escapam, para equilibrar tudo, no padrão da Sua Sabedoria. Estaca, e modifica a intenção! Ignoras que a vida não cessa e que nós outros, os que antecipamos na jornada do túmulo, vivemos?!

Desfigurado pela visita inusitada, o moço, em febre, arguiu, desafiadoramente:

– Deliro, oh! Deus. Enlouqueço! Ninguém volta da morte. Você está morta, titia! Deixe-me em paz, antes que me estourem os miolos avassalados por demónios perversos. Não pode ser você. Deve ser algum enviado das geenas, para aniquilar-me.

– Não, filho, sou eu mesma, quem retorna. É a voz da minha alma que te fala hoje, como fizera ontem, despertando as mínimas expressões de consciência, de dignidade, na tua razão, obnubilada pela ambição ignóbil que te vence. Morri, mas não fiquei destruída. Não encontrei o céu de repouso ou o inferno de desdita. Deparei-me com a vida estuante, colocada pela Excelsa Misericórdia Divina ao alcance dos que Lhe respeitam as leis. A vida aqui é a razão da vida daí. Ressurgimos do portal de cinzas da sepultura com as asas de anjos ou os pesados grilhões atros, resultantes das nossas atitudes na Terra, que nos alçam a regiões de paz inefável ou nos conduzem a abismos de dores demoradamente remissíveis, até a consciência ferida no seu mais fundo sentir experimente a necessidade de tudo recomeçar e refazer… Somos os construtores da nossa ventura como também do nosso infortúnio. Por isso, reprime o passo e detém-te, antes que seja tarde demais.

– Agora já é tarde demais! O ódio que me arde na alma destruir-me-á antes que eu possa recuar. Tenho que cumprir esse destino…

– O destino nos pertence. A cada instante estamos a elaborá-lo, modificando-o ou estabelecendo-o através do que pensamos, do que dizemos, do que fazemos. Cada um consegue o que cultiva, quanto acontece ao agricultor que recolhe a resposta da terra através do grão que lhe atira na cova. Susta o vil pensamento e reflecte. Por que te voltas contra a inocência de Lúcia e a pureza das crianças? Que te fizeram, revel? O ódio que lhes devotas são as farpas da inveja e do despautério do teu espírito ingrato. Volta-te para Deus e escuta a insuperável mensagem de amor do Seu Filho Jesus. Escolhe: agora, ou será tarde demais, realmente. Esquece a sandice e não serás esquecido pela Justiça Celeste. Este é o momento da tua redenção: pára! Ignoras as realidades da vida: do ontem e do amanhã…

– Não posso, não posso. É muito tarde para mim. Tudo está pronto. Não posso, nem desejo recuar…

– Eu lamento, por ti e por outrem que não está em condições de perguntar-te e de amar-te. Na minha imensa, incomparável dor, eu te perdoo e choro por ti e por alguém mais. No entanto, ouve-me, Girólamo, é tempo. Foge, viaja, sai desta casa, evade-te ainda hoje, buscando renovação noutros sítios e retorna depois. Serás sempre bem recebido. Terás o de que necessitas, o que ambicionas, porém, por outros meios. Vai em busca da paz, enquanto luze a oportunidade, pelo amor de Deus eu te rogo, meu filho!

Tresloucado, espírito em alucinação, o moço gritou:

– Nunca! Agora irei até ao fim, até à minha total desgraça ou ventura. Não pararei!

– Atingirás, sim, a desgraça. Deus tenha piedade de ti! Eu te perdoo, filho. Perdoe-nos Senhor a todos nós!

A emissária espiritual levou a nívea mão ao peito levemente ofegante e lágrimas silenciosas, longas, lhe escorreram pela face venerada. Um olhar de indizível dor foi endereçado ao moço, conduzido pela teimosa incoerência de raciocínios e, embora distendendo, logo após, os braços para recolhê-lo outra vez no seio sofrido, Girólamo, como se libertasse do magnetismo que o retinha preso, atirou-se na direcção do corpo que se debatia em desespero no leito e despertou gritando, de olhar esgazeado, suado, aturdido…

Ergueu-se de um salto, apoiou-se à janela, abriu-a e aspirou o ar húmido e frio da noite para recobrar a lucidez e coordenar as ideias assaltadas pela quase demência.

Transcorridos alguns minutos, aumentando a luz no quarto, entregou-se aos sombrios pensamentos já habituais, enquanto ruminava com a desconcertante visão, que parecia persegui-lo, embora desperto. Sentia-se assistido pela tia; conquanto não a pudesse ver naquele instante, percebia-se por ela visitado. Deixou repentinamente a alcova, desceu ao patamar da parte térrea, abriu a porta de entrada, procurando, sem saber exatamente o quê, meios de reencontrar-se. A chuva torrencial, porém, prosseguia. Em derredor da herdade, os rios transbordavam, as estradas estavam quase intransponíveis…

Em inquisição crescente, aguardou a madrugada e o dia brumoso raiou. O cansaço venceu-o com a chegada da manhã, quando, então, se recolheu por algumas horas, em pesado e tormentoso sono.

Levantou-se tarde e não compareceu à refeição matinal.

Amainada a tormenta, deambulou a esmo pela terra encharcada e ao retornar, com a alma em frangalhos, foi recebido pela vigilante Assunta, que o aguardava ansiosamente.

Higienizando-se tomou caldo quente e reparador, que a serva lhe trouxe. Amolentado de carácter, deixou-se arrastar pelas paixões absorventes e cuidou, com a consócia, do crime em delineamento, sobre todos os detalhes da tragédia que logo mais seria consumada. Buscou repousar, enquanto Assunta, que guardara o soporífico que ele lhe entregara, desceu à cozinha.

Naquela noite, Assunta oferecera-se a Lúcia para cuidar do repasto das crianças, prontificando-se a ajudá-las a se recolherem ao leito, informando que também lhe traria a refeição, contanto que descansasse das últimas e longas fadigas.

Embora pressentindo a borrasca que a ameaçava, Lúcia, exaurida pelo cansaço, aceitou a oferenda da mulher pusilânime e se quedou em leve recreio com os pequenos órfãos.

Após servir a refeição frugal, Assunta trouxe imensa bandeja de prata com chávenas e bule de chá fumegante, bolinhos de milho, leite e açúcar. Antes, porém, adicionara forte quantidade de pó sonífero, que se misturara ao chá, e, sorridente, serviu às vítimas em potencial, que ignorando a trama cruel, se deixaram conduzir inermes pela má e injusta adversária gratuita. Transcorridos poucos minutos, e não podendo vencer a moleza e o sono que de todos se apossou, recolheram-se aos leitos, vestidos conforme se encontravam.

A astuta comparsa de Girólamo trocou os trajes das crianças, que ressonavam sob o peso do produto forte, e as depôs nas respetivas camas. Lúcia, porém, foi arrastada, como se encontrava, para o lado do cataló da menina Grazziella, ali ficando adormecida, enquanto a relutância que oferecera ao invencível mal-estar. Isto feito, Assunta cerrou a porta, deu ciência a Girólamo de toda a ocorrência e demandou, por sua vez, o próprio dormitório.

A noite, embora ameaçadora, não se encontrava sacudida pelas chuvas nem pelos ventos da véspera. Uma lua fria e triste espiava entre nuvens carregadas. O relâmpago aparecia de longe em longe e a voz do trovão chegava cansada e rouca aos cenários dos próximos e tristes acontecimentos.

Horas avançadas, Girólamo caminhava pela alcova, agitado, em trajes de dormir.

O punhal afiado brilhava aos reflexos do luar que por vezes penetrava no quarto, colocado sobre delidada arca de cânfora trabalhada.

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VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO ” – LIVRO PRIMEIRO, 2. ALUCINAÇÃO E CRIME (3 de 4), 6º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt_1898, pintura de Edgard Maxence)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Crónica de Natal ~

| Para todos Natal de Paz, Esperança e boa vontade ~

Hoje fui dar o habitual passeio a pé até à igreja de Santa Luzia. Descobri-me, entrei no adro e, do patamar da igreja que estava, como é hábito, de portas fechadas, pus-me de pé olhando para o sol já frio de uma tarde nebulosa.

Não estava por ali ninguém, mas falei com imensa gente. Mandei recados e fiz pedidos, daqueles que – se não forem atendidos por falta de mérito meu – sei que vão ser escutados. Deixei que os minutos passassem tranquilamente sem medo de que a esperança das palavras perdesse a frescura e a juventude. Ao lado há uma pequena colectividade recreativa e alguém ao som da música de um rádio preparava qualquer coisa. Oxalá fosse uma festa de Natal.

É um óptimo prenúncio e um bom pretexto para fazer uma crónica de Natal.

Preparei por isso uma prenda ecológica que tenho oferecido com gosto, repetidas vezes, ao meu percurso predilecto de passeios a pé. Do cemitério da Lousã à igreja de Santa Luzia e regresso, saio munido de dois sacos de plástico. Lá mais para diante vou olhando para as bermas e para os terrenos mais próximos e começo a contar as latas para refrigerantes de alumínio vazias, metendo-as para dentro dos sacos. Coloco sempre dois sacos no bolso e, se tenho à mão, pelo menos um que seja grande. Garrafas de cerveja, plástico e todo o tipo de embalagens intrusas na paisagem campestre, para dentro do saco!...

É hábito arrepender-me de não ter metido mais outro saco de plástico dos grandes no bolso. Nunca consigo recolher toda a multidão de contentores de vários tamanhos e coisas intragáveis para a terra mãe das árvores, dos milheirais e dos pássaros.

Hoje por exemplo, armado em detective descobri um crime objectivamente pessoal e intransmissível. Num pequeno terreno lavrado havia – eu seja ceguinho – quase trinta latas de cerveja vazias, e a grande maioria de uma só marca. Os homens que por ali tinham andado cavaram o que puderam, mas traziam muita sede!... A ideia de fertilizarem a terra com latas de alumínio deve ter-lhes parecido luminosa.

O resto é ao longo do percurso. Há muito senhor automobilista e passageiros que hidratando-se na viagem, atiram com a embalagem pela janela. Muito prático. Enfeita o solo de refulgências de cor vária. É o esplendor publicitário, o rebrilhar do vidro e das cores eléctricas do design a subtraírem à terra a sua gravidade milenar. Fica tudo mais alegre, mais natalício.

Natal faz, no meu caso, lembrar o presépio, cenário que dizem ter sido inventado por Francesco Giovanni di Pietro Bernardone mais de doze séculos depois do nascimento de Jesus, o nazareno.

A história é uma das coisas mais complicadas do mundo e quem se ponha a ler coisas sobre isso vai encontrar tanto nome e tanta data que logo fica duvidoso ter sido esse tal Francesco que se quis pobre, um tal de Assissi, o que verdadeiramente inventou o rústico e terno cenário a que faço alusão.

Não faz mal que tenha sido assim ou de outra maneira.

E, naquela assembleia variada e subtil para quem falo no adro da igreja de Santa Luzia (sem autorização eclesiástica) ninguém fica triste, nem se zanga, nem me vêm fazer queixas daquele senhor espampanante de ouro e pedras preciosas que celebra as missas solenes do Natal do Vaticano, e que se passeia agarrado a um báculo de ouro que – vendido só a peso - já matava a fome a milhares de crianças de África e, daqui a nada, do próprio Portugal europeu e descobridor.

Em minha casa Natal é presépio, com vaca e burrinho, e que Deus nos abençoe a todos.

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Costa Brites, Crónica de Natal, de 13 de Dezembro de 2012, publicada na sua coluna “Interioridades” que sai no quinzenário “Trevim”, da Lousã.
(imagem de contextualização: Mosaico de Maria Ludgera Haberstroh ilustrando o Cântico das Criaturas, na Liebfrauenkirche, Innenhof)

domingo, 5 de abril de 2015

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~

Capítulo III

Marx e Kardec

Karl Marx e Allan Kardec encarnam, nos tempos actuais, as duas grandes inquietudes do pensamento: o fenómeno social e o fenómeno espiritual. Marx traçou uma imagem do homem em desacordo com a realidade espiritual. Entretanto, no campo social, expressou verdades que, postas em prática, dariam solução à mais renhida luta de classes que, actualmente, no seu conjunto, chamamos capitalismo e comunismo.

Marx viu o homem como um composto físico-químico, isto é, como um organismo material, governado e conduzido pelos modos de produção. Kardec, pelo contrário, compreendeu o homem como um espírito encarnado num corpo físico, para demonstrar a sua evolução e a sua realidade espiritual. Mas o homem de Marx e o homem de Kardec, iguais entre si quanto ao aspecto material e diferentes na sua realidade espiritual, constituem agora uma pessoa humana ou entidade existencial, com novos direitos e iguais deveres, diante dos progressos da sociedade moderna.

Nessa pessoa existencial e humana, onde cabem tanto o homem marxista como o homem kardecista, devemos buscar a verdadeira filosofia Social. Nela se encontram os elementos indispensáveis para estabelecermos uma relação entre o problema social e o problema espiritual. Entretanto, Marx nos mostrou um homem melhor que o homem velho dependente do regime capitalista. O homem de Marx é um ser liberto da exploração económica, mas sem perspectivas metafísicas. As suas dimensões espirituais estão sujeitas ao terrestre, o que vale dizer que desaparecem com o corpo. Disso resulta ser o homem de Marx um Ser incapaz de satisfazer o anseio de imortalidade que o Espírito leva no seu íntimo.

Marx, com efeito, legou-nos um homem sem espírito. Não obstante, exigiu-lhe mais do que podia dar. Esqueceu-se de que um homem chamado a efectuar a transformação do mundo, em todos os seus aspectos, não deveria morrer, como sustenta a desoladora teoria do materialismo histórico, sobre a qual fundamentou todo o seu sistema social. Como se verá, o homem de Marx morre para sempre, depois de sacrificar-se pela instituição de um mundo melhor. É um tipo de homem que não tem vinculações palingenésicas com o processo histórico: nasce e morre sem saber qual o sentido do drama do planeta.

Apesar do erro no tocante ao Ser do homem, Marx teve acertos extraordinários ao julgar o regime capitalista e com ele a “exploração do homem pelo homem”. O seu génio demonstrou à inteligência humana que o sistema de propriedade privada está obrigado a transformar-se em sistema de propriedade colectiva. Fez ver à humanidade que o socialismo, ou regime de propriedade colectiva, corresponde a um novo sentido da vida, e assim o admite a doutrina social espírita, considerando-o como um avanço para o verdadeiro advento do cristianismo. Porque no dia em que a sociedade cristã for uma realidade, ela estará assente sobre as bases da propriedade colectiva. Vejamos o que diz o Evangelho: “Em verdade vos digo que um rico — ensinava Jesus a seus discípulos, — dificilmente entrará no Reino dos Céus. E em verdade vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no Reino de Deus.” (Mateus XIX, 23-24).

O homem velho, que geralmente está representado no rico de que falava o Nazareno, é o que resiste à evolução do sistema social, e deverá ler e meditar profundamente este ensinamento do Divino Mestre. Porque são os ricos e poderosos, mesmo sendo cristãos, os menos concordes com a essência revolucionária do cristianismo. Recordemos o seguinte ensinamento evangélico: “Certa vez, um jovem rico perguntou a Jesus o que deveria fazer para conquistar a vida eterna, e o Mestre lhe respondeu: Se quiseres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Ouvindo o jovem estas palavras, retirou-se tristemente, porque tinha muitos haveres”. (Mateus XIX, 21-22).

Esta a razão pela qual o cristianismo nunca poderá ser a doutrina ou a religião dos ricos, potentados, latifundiários e poderosos. O cristianismo, tal como o interpreta a sociologia espírita, é uma ideia que jamais se acomodará com os interesses das classes poderosas, nem com a exploração dos humildes e o luxo desmedido dos endinheirados.

O cristianismo possui em si mesmo tudo o que Marx atribuiu (por culpa dos próprios cristãos) ao socialismo de tipo materialista. No dia em que o cristianismo se dedicar totalmente à organização social do mundo, a própria revolução comunista, tão temida na actualidade, aparecerá como um acontecimento insignificante e sem transcendência.

A comunhão de bens ou propriedade colectiva, antes do socialismo, pertenceu ao cristianismo, como sistema social. Nos Actos dos Apóstolos lê-se o seguinte: “E todos os que acreditavam estavam juntos; e tinham todas as coisas em comum (11-44). E não havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam herdades e casas vendiam-nas e depunham o valor aos pés dos apóstolos, para ser distribuído a cada um, segundo as suas necessidades.” (IV-34-35).

Esta doutrina do cristianismo primitivo mostra-nos que a ideia de propriedade colectiva, principal instrumento do socialismo moderno, já era praticada pelas primeiras comunidades cristãs. Portanto, a cristandade deverá renovar a presente estrutura social, aplicando o ideal económico ensinado por Jesus e os seus apóstolos, e evitando assim a implantação de um conceito materialista do homem e da sociedade.

Marx esboçou um indivíduo sem vinculações com o espiritual e o eterno. Acreditou que o Espírito constituía um embaraço para o advento de uma sociedade sem classes, porque tanto o filósofo como o religioso aplacavam as reivindicações dos oprimidos, falando-lhes de uma felicidade ultraterrena. Deste modo, o poderoso se livrava das reclamações de servos e servidores, hoje trabalhadores e obreiros em geral.

O autor de O Capital, conhecedor deste jogo, desliga-se do Espírito e atém-se unicamente à realidade objectiva das coisas. Concebe por isso um homem material, cujo destino termina com a sua morte física. Sente repulsa pelo espiritual e metafísico, porquanto a oligarquia e a opressão de todos os tempos têm submetido os homens, prometendo-lhes recompensas no além.

Daí o homem marxista estar desvinculado de todo conceito espiritual e religioso. Marx acreditava que a verdade jamais escraviza o homem, mas o eleva e melhora nas condições da vida social. Viu, entretanto, que a verdade espiritual praticada por cristãos, clérigos, sociólogos e filósofos, até meados do século 19, era uma verdade espiritual que exaltava os poderosos e lhes submetia os humildes e deserdados, isto é, a todos os que seguiam a Jesus. O cristianismo eclesiástico, que não é o cristianismo do Espírito de Verdade, hoje proclamado pela Terceira Revelação, prestou-se a esse jogo aviltante, que consistia em sufocar toda ideia de rebeldia entre os explorados. E Marx, por essa razão, negou aquela verdade espiritual, chegando à conclusão de que a única realidade se acha no mundo físico e na vida material do homem. Terminou sustentando que a verdade sempre libertará os indivíduos, e que toda a ideia religiosa, que tratasse de subjugá-los com promessas ultraterrenas, representaria uma falsa verdade ou um argumento das forças reaccionárias, para impedir a justiça social e a democracia.

Hoje, é reconhecida a razão de Marx, no que respeita ao socialismo, mas quanto à interpretação materialista do homem e da história, como se vem comprovando, Marx permanece num plano de absoluto equívoco. É este o motivo que dá argumentos aos misoneístas para combaterem Marx, não tanto com o fim de refutar a sua ideologia materialista, mas para defender o regime capitalista, onde os seus instintos possessivos possam continuar a obra de avareza e de egoísmo.

Se Marx nos legou uma falsa imagem do homem, foi devido ao procedimento moral, que já assinalamos, dos que se chamaram espiritualistas e cristãos, e que em vez de estarem com a mensagem de Cristo, e consequentemente com os pobres, despojados e explorados, estiveram com os poderosos e os afortunados. No nosso tempo, continua ainda este jogo de religiosos, espiritualistas e cristãos, que se protegem sob o poder estatal para defender os seus interesses de classe afortunada. Esta atitude dos poderosos frente aos humildes destrói, a cada momento, na vida dos povos, a ideia de Deus e do Espírito, a ponto de serem consideradas inexistentes, e, repetindo o que dizia Marx, continua-se a considerá-las como instrumentos mentais para aplacar os anseios de justiça.

Mas se o homem marxista é um erro no seu aspecto espiritual, e uma verdade na sua face social, o homem kardecista é uma verdade integral: o homem de Kardec é verdadeiro tanto no espiritual como no social. Estes mundos, na concepção espírita, não se excluem entre si, segundo afirma a mentalidade religioso-materialista. Para Kardec, esses dois mundos estão representados por dois elementos: o material e o espiritual, que deverão unir-se para revelar uma única realidade: a da vida universal.

Kardec nos assinala que esses elementos, o material e o espiritual, constituem as duas realidades através das quais deverá passar o Espírito do homem. Essa concepção confirma-nos que a justiça social e a justiça espiritual deverão desenvolver-se de forma paralela, já que tanto o processo visível como o invisível do homem e da história contribuem para o processo que conduz ao amor e à fraternidade sociais. Isso mostra-nos que o mundo material e o mundo espiritual se relacionam mutuamente, e que o desenvolvimento histórico se efectua mediante essas relações materiais e espirituais, ao lado do desenvolvimento da forma e da vida.

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Humberto Mariotti, O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo III MARX E KARDEC, 1 de 2, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea (1936) Salvador Dali)