terça-feira, 17 de outubro de 2023

~ nas garras do pensamento crítico


Situações novas ~

Essas possibilidades se tornam cada vez mais visíveis, graças à aceleração do processo histórico no século actual (XX). A teoria marxista da luta de classes, comprovada pelos factos, caminha, entretanto, dentro das novas condições da evolução técnica e do progresso científico, para formas inteiramente novas. A ideia da revolução proletária já não parece tão nítida e precisa como nos fins do século XIX e nos princípios do século XX. Os derradeiros movimentos revolucionários, inclusive o maior deles, a revolução chinesa, apenas teoricamente se basearam no proletariado. As forças em luta foram antes populares do que proletárias e, não somente no conjunto das massas, mas também nos organismos dirigentes. Por outro lado, nos países de maior desenvolvimento industrial, ao contrário do que pressupõe a tese marxista, a revolução proletária se torna mais difícil, como nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha, em França e na Itália. Nos três últimos países, o Partido Comunista tem crescido, não em virtude das condições específicas da vida proletária, mas das condições gerais, com indiscutível predominância da situação camponesa e pequeno-burguesa.

Podemos perguntar, diante disso: Onde se encontra a “consciência de classe” do proletariado norte-americano ou do inglês – este o mais antigo e o mais impenetrável ao marxismo –, para o golpe de libertação no capital acumulado em escala jamais vista? As condições sociais evoluem com rapidez vertiginosa. Os progressos da técnica, aliados ao desenvolvimento intelectual e psíquico do homem, geram situações inteiramente novas e, os marxistas se esquecem dos princípios dialécticos da sua própria filosofia, continuando apegados a dogmas já superados pelo processo histórico. Pietro Ubaldi, em A Grande Síntese, emite este conceito, em que os materialistas dialécticos deviam meditar: “Se a luta foi, a um tempo, de natureza física, hoje é económica e nervosa e, amanhã será espiritual e ideal, muito mais digna de ser travada.”

O choque apocalíptico ~

Marx viu, na sua época, a necessidade de se construir uma filosofia de classe para o proletariado, a fim de que este, tomando consciência da sua missão histórica, se colocasse à altura da mesma. A filosofia foi construída e tornou-se um dos grandes momentos do conhecimento humano, mas o proletariado não a absorveu, senão em doses mínimas. Criou-se, por isso mesmo, a teoria das “minorias dirigentes” e, o exemplo do bolchevismo, na Rússia, tornou-se clássico. As minorias, entretanto, só podem vencer, não pela violência, mas pelo excesso de violência e, só podem manter o seu domínio pela opressão crescente. O tempo se encarregou de nos mostrar quanto estas duras realidades colocaram o sonho do socialismo científico distanciado das suas raízes revolucionárias.

Surge, assim, uma nova situação mundial. As minorias marxistas criam as potências orientais, enquanto as minorias capitalistas se entrincheiram no ocidente. O nosso grão de areia é dividido nos hemisférios antípodas que hoje se digladiam, ameaçados de mútua destruição, pelas perspectivas da guerra atómica. Para lutar contra o imperialismo, contra os trustes imperialistas, a Rússia Soviética teve também de construir o seu próprio poder imperialista, criar o seu estatismo absorvente. O que Marx não previa aconteceu.

A violência dirigida, metódica, intencional, revelou-se fonte inesgotável de novas formas de violência, em escala incalculável. E a força das ideias mostrou-se mais poderosa do que a própria luta de classes, mais criadora e destruidora do que os próprios antagonismos da produção capitalista. A lei da “negação da negação” lançou-se, como o monstro Frankenstein, contra o próprio criador, pois o idealismo marxista superou em muito, na sua própria aplicação, a realidade proletária dos princípios do século. O marxismo negou-se a si mesmo, para dar nascimento ao poder proletário, face a face com o poder capitalista. Não são, por acaso, a tese e a antítese da dialéctica hegeliana que se defrontam, neste momento, em proporções apocalípticas, no panorama internacional? E a síntese não virá do novo choque mundial, já em pleno desenvolvimento?

Hora de libertação ~

Essa conclusão tem de ser a seguinte: os marxistas cometeram um dos grandes equívocos da história, ao oferecerem à força a resistência de outra força. Não é do choque dos “semelhantes”, mas dos “contrários” que resulta a progresso e, os “contrários” não são determinados pela forma, pela aparência, mas pela substância.

A forma proletária da violência não modifica a substância própria da violência e, os “contrários”, traduzidos apenas numa expressão formal, não podem produzir o progresso substancial. Por outro lado, o proletariado não é uma substância, mas uma eventualidade, pois a divisão da sociedade em classes é artificial. Armando-se o proletariado de poderes semelhantes aos da burguesia, transformamo-lo em massa burguesa, da mesma maneira por que esta, em muitos países, inclusive no Brasil, armada com os poderes do feudalismo, se tornou um poder feudal, a antítese da burguesia francesa que derrubou a Bastilha. Pois o homem é o mesmo, tanto numa classe como noutra e, a influência das condições sociais não tarda a se fazer sentir, na sua atitude perante a sociedade. Esquecer a substância humana no processo económico é fugir para a abstracção de uma economia autónoma, solta no espaço e no tempo. Nem foi por outro motivo que a jovem revolucionária polaca Larissa Reissner, a grande autora de Homens e Máquinas, ao ver os seus antigos camaradas transformados nos comissários económicos, verdadeiros “negociantes oficiais do partido”, temeu pelo naufrágio da revolução no pântano burguês e preferiu deixar o território da revolução para voltar ao inferno de sua génese, na Alemanha burguesa.

Nesta altura, poderíamos surpreender o sorriso irónico dos materialistas-dialécticos, a nos perguntarem: “Mas o que deveríamos então, opor à força e ao poder do capitalismo?” Não, não responderemos “o que deveriam”, pois palavras foram deturpadas, perderam o seu verdadeiro sentido e, não queremos que os interlocutores, mesmo imaginários, nos dêem as costas sem mais aquela. Responderemos que tudo quanto se fez até agora tinha de ser feito, estava nas linhas do determinismo-histórico, na exigência das próprias condições sociais, não poderia fugir às contingências de um mundo em fermentação, impulsionado pelo instinto e pela paixão. Voltemos a Ubaldi, que mais uma vez nos esclarece o problema: “Não sois ainda uma sociedade, mas apenas uma grei, um desencadeamento de forças psíquicas primordiais, explodindo confusamente.”

Mas responderemos, também, que a hora chegou – e agora é – em que as coisas devem tomar novo rumo. Esse rumo o Espiritismo aponta com clareza, a todos os que tiverem “olhos de ver”. É o rumo do Espírito, da solução espiritual e, só ela nos livrará do torniquete da força contra a força, da violência contra a violência, do jogo cego e inconsequente do poder material. RuskinTolstóiTagore e Gandhi avultam neste momento da história humana.

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, Situações novas, O choque apocalíptico, Hora de libertação, 13º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Fotografia de Rabindranath Tagore)

domingo, 8 de outubro de 2023

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar os longínquos dias das idades


Victor Hugo e o Sentido da História ~

Victor Hugo acreditava e sabia que a história temporal, não obstante a sua objectividade material, está destinada a voltar ao seio da história divina. Ou seja, que o efeito histórico deverá reintegrar-se no seio do divino para pôr termo a um ''tempo defeituoso'', onde o Ser se debate atacado por duas contradições existenciais.

O poeta francês compreendeu que a verdadeira poesia é uma emanação do mundo interno da natureza e que a sua essência se traduz por uma voz que sobe dos abismos da alma. Descobriu na história uma sucessão de factos cuja finalidade têm a sua raiz nos séculos palingenésicos do Ser. Viu assim que a história das existências se refunde na história dos seres espirituais, em cujo seio está a realidade divina do mundo dos espíritos.

Para Victor Hugo, o apocalipse terreno desembocava num apocalipse espiritual, dois processos que só se explicam pela lei da reencarnação. A história morre, mas renasce com os espíritos; a sua objectividade está determinada pelo encarnar e desencarnar dos seres espirituais, ou seja, pela alma dos homens, antes espíritos, que encarnam e desencarnam. Kant tembém pressentiu este mesmo fenómeno ao reconhecer a realidade de um mundo invisível com a possibilidade de se comunicar com o mundo dos homens.

A reencarnação dos espíritos é a verdadeira base da história humana, a que se mostra como processo visível na causa da história espiritual e divina que a rege. Victor Hugo acreditou nesta dualidade histórica, numa "história humana" fundada na história divina e transcendental".

A reencarnação dos espíritos é uma penetração da história divina temporal e humana. O processo de encarnação e desencarnação a que estão submetidos os espíritos é a base real de todo o mistério histórico. E a poesia de Hugo foi como uma revelação através da qual a beleza contribuiu com o desenvolvimento da história em relação com a história espiritual e divina.

A inspiração do grande poeta francês captou nas suas bases mediúnicas que não haverá história natural e humana sem história espiritual e divina. O seu génio se transfigurou de tal modo que pôde compreender que todo o humano é um processo determinado pela reencarnação dos espíritos, ou seja, que a História e Reencarnação são dois fenómenos movidos pelo mundo invisível.

Espiritismo como manifestação objectiva do Espírito de Verdade é a noção mais positiva para deixar demonstrado que o mundo dos espíritos é a base real do mundo dos homens. Opera-se assim uma transfiguração da morte pela força religiosa da mediunidade. De contrário, o que seria a história sem a potência escatológica da mediunidade? Resultaria um fenómeno sem sentido e um processo caótico destinado à morte e ao nada.

Portanto, se a poesia de Victor Hugo foi profética é porque foi religiosa, apocalíptica porque mediúnica. Ela se uniu ao Espírito de Verdade para proclamar que Deus existe e que tudo avança progressivamente com o fim de se instalar na Cidade dos Espíritos Puros. Os críticos esqueceram que se Hugo foi genial é porque dentro de seu ser imortal estava a luz do mundo invisível e que se a sua poesia determinou um romantismo filosófico e religioso original é porque os tripés da ilha de Jersey lhe abriram as janelas do infinito. Porque o génio de Victor Hugo sem o fenómeno mediúnico resultaria num enigma, do mesmo modo que uma nova visão histórica sem a lei da reencarnação do ser se tornaria um caos entremeado de horror e beleza.

Victor Hugo acreditava na sua espiritualidade pessoal. Achou no seu próprio ser as bases de todo um esquema metafísico e religioso do universo. Sentia-se uma força ultra-material por cujo motivo a sua carne se transfigurava. Era um vidente que via continuamente o para além das coisas, o que o fez não se deter nos caminhos puramente materiais da vida. A existência para o poeta foi uma senda que conduz ao conhecimento dos grandes enigmas da natureza.

O seu génio nunca repeliu o cristianismo; pelo contrário, viu na doutrina de Jesus a mais alta e acabada expressão das revelações divinas. Por isso, a sua criação poética e literária difere da dos seus colegas, que consideravam o homem somente um fenómeno fisiológico. O seu lema era: "Existir para a Verdade", mas este existir não se apoiava na vida efémera material. Ele pressentiu um existir infinito relacionado com o mistério do universo. A vida para o poeta era uma espiritualidade invencível e triunfante.

Acreditava no eterno porque via na natureza e na história um princípio imortal, o que o fez ter fé nessa verdade inalterável procedente de Deus. Acreditou nos "espíritos" da terra e do ar, da água e do vento, como os iniciados medievais. Desde a sua infância, cultivou uma filosofia espiritualista, que confirmou experimentalmente ao conhecer a mensagem que lhe ditaram os tripés na ilha de Jersey.

Auguste Vacquerie, no seu livro As migalhas da história, disse afirmativamente que Victor Hugo era espírita, como o foram Théophile GautierVictorien SardouGiuseppe MazziniCamille Flammarion e outros pensadores dos finais do século XIX. Acreditou realmente na imortalidade da alma e na sua evolução palingenésicaÉmile de Girardin e Eugène Nus deram também testemunho de suas convicções espíritas, como foi confirmado na edição de 7 de maio de 1899 do "Les Annales Politique et Litteraire''.

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Humberto Mariotti (i)Victor Hugo Espírita, Victor Hugo e o Sentido da História, 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

domingo, 24 de setembro de 2023

a pedra e o joio ~


Quem não pode | o menos ~

Os investigadores científicos dos fenómenos espíritas operam no campo da matéria. Não são espíritas, mas cientistas interessados pela fenomenologia que dá base concreta à doutrina. Por isso já dissemos, há tempos, a respeito, que a ciência espírita, no que toca às manifestações materiais do espírito, vêm sendo construída pelos adversários do Espiritismo. É este um facto único na história do conhecimento e, uma das maiores glórias da doutrina espírita. CrookesRichetGeleyCrawford, ao iniciarem as suas pesquisas, não eram espíritas, como PriceRhine e Bjorkhem, das Universidade de Oxford, de Duke (EE. UU.) e, de Upsala (Suécia), respectivamente, não são espíritas. Mas todos contribuem para a ciência espírita.

Não cabe a nós, espíritas, formular nenhuma teoria científica para investigação dos fenómenos supranormais ou para demonstração da realidade da sobrevivência. O Espiritismo, nos seus três aspectos, o científico, o filosófico e o religioso, possui métodos próprios de observação e investigação, e já provou há muito a realidade da sobrevivência. Os cientistas materialistas, ou pelo menos cépticos, é que devem tratar de provar, através de suas teorias e de seus métodos, que o Espiritismo se encontra em erro. Querer, pois, dotar o Espiritismo de “teorias que lhe facultem o avanço seguro na estrada da pesquisa metódica de laboratório”, como pretende o Sr. Guimarães Andrade, na sua Teoria Corpuscular do Espírito, é invadir atribuições alheias. E dizer que o Espiritismo não possui teorias orientadoras de pesquisas científicas é negar a própria doutrina e esquecer os seus efeitos no mundo científico.

Humberto Mariotti, o conhecido escritor espírita argentino, encerra o seu livro Dialéctica e Metapsíquica, réplica a um livro materialista de Emílio Troise, com esta advertência: “A filosofia espírita, sempre pronta a renovar-se, espera, pois, para o fazer, uma prova científica de seu opositor: o materialismo. Enquanto isso, continuará forjando o aço desse novo mundo espiritual, que vem lançando por entre os factos da psicologia supranormal, até que a prova mencionada seja produzida”. A teoria espírita, como a chamaram os cientistas, não é apenas teoria, mas toda uma doutrina, solidamente construída sobre um vasto e profundo alicerce de factos, comprovados por adeptos e adversários, crentes ou descrentes. Ela se impõe por si mesma, ou “pela força mesma das coisas”, como dizia Allan Kardec. Não espera as nossas elaborações teóricas para cumprir a sua missão.

Grande e belo exemplo é o que nos dá Charles Richet, na carta que dirigiu a Ernesto Bozzano, rendendo-se à evidência espírita. Construtor, ele mesmo, de uma teoria, exclama, diante dos argumentos espíritas de Bozzano: “Eles formam um estranho contraste com as nebulosas teorias que atravancam a nossa ciência”. Ao contrário disso, o Sr. Guimarães Andrade pretende que deixemos de lado, considerando-os obsoletos, os conceitos clássicos da doutrina, para construirmos mais uma teoria nebulosa e, com ela aumentarmos o atravancamento científico.

Nós, espíritas, temos por acaso alguma dúvida a respeito da sobrevivência do espírito e da sua possibilidade de acção sobre a matéria? Precisamos de novas teorias para investigar os fenómenos impropriamente chamados de supranormais? Não. Logo, não nos compete a formulação de teorias novas. Por outro lado, duvidamos da solidez das provas e do acervo gigantesco de factos da biblioteca espírita, sempre aberta ao possível interesse dos materialistas? Também não. Logo, a estes é que compete e, não a nós, quebrar a cabeça de encontro à rocha em que nos firmamos. O nosso papel, pelo contrário, é o de continuarmos firmes sobre a rocha, que tem resistido, até aqui, a todos os cabeçudos.

Pergunta o confrade Guimarães: “Será que já conhecemos tudo a respeito do fascinante problema do espírito, das suas relações com o mundo físico, das suas propriedades, da sua natureza real?” Podemos responder com outra pergunta: “Conhecem os materialistas tudo o que se relaciona com o fascinante problema da matéria, das suas relações com forças desconhecidas, das suas propriedades, da sua natureza real?” Estamos e, eles também o estão, absolutamente certos de que não. Então, como pretendermos colocar, na mesma mesa da ciência materialista, servindo-nos dos seus instrumentos rudimentares, ainda em elaboração, o problema espiritual? Se ela é impotente para dizer tudo a respeito da matéria, como querermos que o diga a respeito do espírito? O mais certo, o mais prudente, é admitirmos a explicação de Kardec: “O Espiritismo não é da alçada da ciência”. Sê-lo-á mais tarde. Mas, para tanto, a ciência precisa concluir a sua tarefa no terreno material, o que ainda está longe de fazer.

Poderão objectar-nos que as pesquisas dos sábios materialistas concorreram para a comprovação da doutrina. Mas não dizemos o contrário. O que dizemos é que isso compete a eles. Quando os sábios, operando no campo da matéria, comprovam os princípios da ciência espírita, contribuem para esta e, só temos que agradecer-lhes. Aquilo que chamamos, com Allan Kardec, a Ciência Espírita, não é mais do que o aspecto científico da doutrina. Neste aspecto, há uma zona fronteiriça, em que a ciência material pode comprovar os factos espíritas. A da fenomenologia mediúnica. Nesta zona é que o materialismo vem construindo, sem querer, a contragosto, a ciência espírita acessível à compreensão materialista.

O confrade Guimarães Andrade quer que ajudemos os sábios oferecendo-lhes uma teoria espírita que eles possam aceitar. A intenção é boa, mas conduz a desvios perigosos, como já vimos e ainda veremos, na análise de A Teoria Corpuscular do Espírito. Além disso, é conveniente lembrarmos o velho adágio: “Cada macaco no seu galho”. O Espiritismo, como diz Mariotti no mesmo livro acima citado, “é uma estrela de amor”. Essa estrela brilha sobre o atravancamento de hipóteses nebulosas da ciência materialista e, ainda, segundo o mesmo autor, “ilumina os caminhos de todos os peregrinos que vão em busca da verdade”. Não basta isso? Queremos também acompanhar os peregrinos, oferecendo-lhes cajados que eles não nos pedem e, até mesmo rejeitam com desprezo?

O livro do Sr. Guimarães Andrade é simplesmente um equívoco. E como tal, só pode fazer mal à doutrina e ao movimento espírita. Pedimos desculpa ao confrade, por esta rude franqueza. Mas, em questões doutrinárias, é preferível a dureza da verdade. Pensamos já haver demonstrado, até aqui, os vários enganos do autor. Mas prosseguiremos ainda, para que não digam amanhã, como disseram certa vez, a respeito de outra crítica, que passamos ao de leve sobre o assunto.

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José Herculano Pires (i) – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. Quem não pode o menos, fragmento 13º desta obra.
(imagem de contextualização: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Oliver Lodge, por que creio na imortalidade da alma ~


Capítulo II

As sete proposições

(2)

A segunda proposição – que o corpo é um instrumento – depende, de certa forma, da primeira proposição e serve de refutação ao argumento muitas vezes apresentado pelos anatomistas e fisiologistas de que cérebro e espírito são a mesma coisa, de modo que uma lesão no cérebro imprime, ipso facto, uma lesão correspondente no espírito e que a destruição de um equivale à destruição do outro.

Essa hipótese pode ser considerada como base da filosofia materialista e está, evidentemente, de acordo com a experiência ordinária de que uma lesão cirúrgica do cérebro implica num defeito mental correspondente. Desnecessário é dizer que todos esses factos de verificação corrente são inteiramente admitidos por mim, porém acho que a dedução proposta ultrapassa o que é legítimo. Tudo o que está realmente provado é que, se o instrumento ficar avariado, o poder de desenvolver a actividade mental ficará igualmente avariado, mas não se segue desse facto indubitável que temos o direito de deduzir o que quer que seja relativamente ao espírito, a menos que não suponhamos que cérebro e espírito sejam um “só”.

Se o cérebro deixa de funcionar, não há, naturalmente, mais comunicação: a manifestação do espírito, na falta de função do mecanismo, cessou. A afasia talvez se tenha declarado, as ideias já não podem ser expressas se a porção do cérebro em função ficou avariada. Os acontecimentos passados não podem já ser retidos pela memória se as células cerebrais ou as suas vias de comunicação ficaram incapazes de estimular os músculos da mão ou da laringe. Dizer, porém, que a memória ficou aniquilada porque o seu órgão de reprodução não pode já funcionar é uma dedução que ultrapassa o que é lógico. Aqueles que consideram que o cérebro não é apenas um instrumento do espírito, mas o próprio espírito, se vêem forçados a emitir suposição estranha, gratuita e intrinsecamente absurda de que a massa de matéria encerrada no crânio é capaz de conceber, de olhar para o passado e o futuro, de urdir grandes obras literárias e artísticas, de compor grandes poemas, de explorar o mecanismo do universo, de sentir a dor, de ter afeições, de praticar acções, numa palavra, de não apenas manifestar, mas, na realidade, de sentir em si todos os sentimentos associados às palavras: Fé, Esperança e Amor.

Deve-se, todavia, admitir que o cérebro não pode mais que a vista. A vista e o cérebro não constituem senão um instrumento único graças ao qual a visão se torna uma possibilidade. O ouvido é, indubitavelmente, um instrumento físico que nos permite ouvir, mas é bem verdade que é o espírito quem vê e ouve, é ele quem interpreta a significação da visão e da audição, quem extrai uma impressão mental ou uma emoção das imagens, poemas e músicas – resposta psíquica inteiramente estranha aos atributos da matéria.

O sentimento do belo, por exemplo, pode ser despertado por um conjunto de partículas materiais, mas nenhum conjunto dessas partículas pode admirar a sua própria beleza. Não se pode supor tampouco que uma porção de matéria, por animada que seja, é capaz de tomar a iniciativa de uma série de acções, de imaginar uma obra de arte, de conceber uma teoria científica ou de praticar uma acção espontânea qualquer. As partículas materiais são inteiramente subordinadas a forças mecânicas que agem sobre elas. Não têm vontade própria, pois são absolutamente dóceis. Isto não é verdade acerca dos átomos da matéria orgânica quanto sobre a matéria inorgânica, porque a Ciência tende a abolir a distinção entre o orgânico e o inorgânico e a acentuar o facto, algo excepcional, tal como o modo de agir dos organismos, de que as partículas estão inteiramente subordinadas a leis da Física e da Química e não podem produzir fenómenos vitais e mentais senão em função de controlo vital e mental.

Encontrei um singelo enunciado deste princípio numa obra do professor Wincenty Lutolawski, filósofo polaco, intitulada O Mundo dos Espíritos, obra que parece ter sido escrita em 1899, só foi publicada na Inglaterra em 1924 e que não é suficientemente conhecida, apesar da apreciável recomendação que dela fez o professor William James.

Eis o trecho a que me refiro:

“Para compreender a relação que existe entre o pensamento e o cérebro, basta admitir que o cérebro é o órgão através do qual recebemos todas as nossas impressões exteriores e graças ao qual produzimos todos os movimentos, particularmente a palavra. A evidência consiste apenas em manifestar essas funções do cérebro e toda a asserção que atribui a ele o poder de pensar é baseada num sofisma semelhante ao de atribuir ao coração todas as emoções, porque as emoções tem certa influência sobre a acção do coração... Assim, o pensamento fica conhecido, não como processo fisiológico, mas como um facto de consciência, pela nossa experiência mental, e não temos razão alguma para supor que possa ele identificar-se com uma actividade corpórea qualquer visível. A vossa alma outra coisa não é além daquilo de que tens consciência... É por uma falsa analogia de linguagem que dizemos “a minha alma”, como dizemos “o meu cérebro”, “o meu corpo” e assim sucessivamente. Com efeito, és uma alma e não deves dizer possuir uma alma como se a alma diferisse de vós mesmos.

(3)

Muitos fenómenos conhecidos permitem ilustrar a terceira proposição que estabelece que as coisas desaparecidas não perdem a sua existência. A indestrutibilidade da matéria não deixa de ser um facto que salta aos olhos, mas é preciso prová-lo cientificamente.

Acredita-se geralmente que uma coisa queimada está destruída, que o leite derramado na terra está perdido, que a nuvem se evaporou devido ao calor solar, etc. Todo a gente sabe, porém, hoje, que qualquer que seja a dispersão da matéria, as suas partículas são indestrutíveis, que existe igualmente o vapor de água, ainda que invisível, mesmo quando a nuvem se evaporou. Desnecessário é insistir, detalhadamente, sobre tal facto. Poder-se-ia, porém, replicar que a admissão disso depõe contra a sobrevivência individual; superficialmente sim, mas, no fundo, de modo algum. A nuvem não tinha individualidade, não era mais do que uma reunião de partículas que, por acaso, possuem poder de afectar os raios luminosos, de forma a torná-los visíveis aos nossos olhos. Uma multidão pode ser dispersa, um exército desmobilizado, mas a sua existência foi corporal até à sua dispersão. A realidade dessa existência, durante a sua permanência, encontra-se no estimulante mental que unia as partes constituintes e não no próprio grupo. Os componentes da multidão afastaram-se por ocasião da separação, porque nada é duradouro na justaposição. Um exército ou uma armada obedecem às ordens de homens de Estado, transmitidas a seguir por meio de oficiais graduados. Os componentes desses grupos assemelham-se a partículas do nosso próprio corpo, reunidas por algum agente superior, obedecendo a ordens durante certo tempo, até ao momento do licenciamento. Eles deixam de existir ao mesmo tempo que o corpo, mas a entidade dirigente, que os comandava e dirigia, já nada de comum tem com eles, que eram apenas o instrumento de que se servia o agente transmissor para possuir certos efeitos.

O poder dirigente pode continuar a funcionar muito tempo depois do abandono do mecanismo subordinado, porém sem instrumento não o pode fazer. Deus não produz resultados sem os meios convenientes. O espiritual e o material parecem continuamente em relação. Em resumo: deve ser sempre verdade que a Divindade age por meio dos seus agentes. O que chamamos leis da natureza são as nossas fórmulas de reconhecimento de algum dos seus agentes operadores. Supõem os teólogos que os anjos e outros seres sobrenaturais se contam entre os agentes e mensageiros divinos, ao passo que se reconhece como verdade corrente que somente o homem pode executar certas coisas. O homem é um instrumento das forças superiores e ele próprio tem necessidade de instrumentos para o exercício e para a manifestação das suas faculdades.

Da mesma maneira que um fabricante de instrumentos pode rejubilar-se quando um exímio artista faz bom uso dele, do mesmo modo o Altíssimo pode alegrar-se com o uso benéfico das faculdades e talentos dos seus filhos.

(4)

quarta proposição – que um indivíduo é uma encarnação temporária de algo imortal – toca o problema mais difícil da identidade pessoal. Que entendemos nós por “individualidade pessoal”? Deve supor-se que o homem sempre existiu? Podemos, em suma, compreender que isso não é necessário. Um poema e um drama podem ser imortais, mas viram o dia num tempo definido e circunstâncias especiais os fizeram nascer.

Parece-me hoje provável que a individualidade se formou durante o isolamento na matéria, do que podemos chamar substância psíquica bruta, não experimentada. O corpo é gradualmente saturado pela psique ou alma não identificada, segundo as suas capacidades de recepção, porção infinitesimal no começo do processo, aumentando pouco a pouco numa medida certa em razão dos esforços e das oportunidades do ser. O afluxo é às vezes de tal modo importante que forma o que chamamos um “grande homem”, se bem que, na maior parte dos casos, a acção pára muito tempo antes de chegar a esse resultado.

Depois de certo intervalo no desenvolvimento, a alma, agora identificada, retorna ao seu ponto de partida, quer gradual e naturalmente, quer bruscamente, em caso de acidente, mas em ambos os casos ela conserva as suas capacidades, as aptidões, os gostos, a memória e a experiência adquiridas durante a vida terrena. Leva esse acréscimo de valor e o faz adicionar ao Todo que ela junta – qualquer que seja esse Todo – apropriado à sua natureza, todo esse que pode ser um “ego” subliminar maior cujas porções talvez estejam submetidas a uma forma modificada da reencarnação numa vida futura. Reservo a minha opinião a respeito destas questões, mas podemos estar certos de que as partículas materiais, sempre subordinadas aos fins da pessoa cujo crescimento era temporário, desempenharam o seu papel e foram definitivamente abandonadas. Essas partículas provêm de uma nutrição qualquer, são assimiladas durante certo tempo, depois rejeitadas para dar lugar a outras. As partículas não exercem nenhuma função; impelidas dali e de acolá, são perpétuamente afluentes. Todo o organismo, porém, conserva a sua identidade, como a de um rio que é sempre o Ganges ou o Tibre, ainda que as partículas da água, que passam pelo seu leito, mudem constantemente. Tais analogias não são, de forma alguma, exactas, mas simplesmente sugestivas. Uma vez recitado, um poema, este não deixa de existir. Uma partitura de uma orquestra é a encarnação temporária de um homem de génio, cujas ideias estão sujeitas à reencarnação.

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Oliver LodgePor que creio na imortalidade da Alma, Capítulo II As sete proposições; proposição segunda (2), proposição terceira (3) e proposição quarta (4), 5º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Luz e Cor (Teoria de Goethe) - A manhã após o Dilúvio, Moisés escreve o livro a Génese, pintura de Joseph Mallord William Turner

sábado, 19 de agosto de 2023

agonia das religiões ~


Introdução 
– Tempos de Agonia

O desenvolvimento da humanidade tem sido marcado por fases de agonia e de morte, seguidas de fases mais duradouras de ressurreição e reconstrução. As forças que determinam essa espantosa sucessão encontram-se na própria criatura humana. Seria inútil buscarmos uma explicação celeste, fundada nos pressupostos da Ira de Deus ou da Justiça Divina, como seria inútil procurarmos enquadrá-la nas brilhantes teorias relativas à influência dos ritmos telúricos. A própria doutrina aristotélica da geração e corrupção não poderia dar-nos os elementos concretos do fenómeno. Segundo Toynbee, as civilizações desenvolvem-se nas linhas conceptuais de uma religião fundamental e entram em agonia quando se esvai o poder vital dessas religiões. A relação sociedade-religião parece perfeitamente válida, mas não nos oferece o segredo dessa estranha mecânica da agonia.

Os processos sócio-culturais de cada civilização têm a sua fonte no homem, pois a sociedade apresenta-se objectivamente como um conglomerado humano. Parece evidente que o ritmo agónico deve estar ligado às entranhas e ao psiquismo do homem. Como estamos vivendo, agora, precisamente numa das curvas agudas desse ritmo – talvez a mais aguda por que já passou a humanidade – o momento é propício a que examinarmos o fenómeno ao vivo, tocando com os dedos os seus elementos determinantes. A agonia actual das religiões é geralmente considerada como resultante da situação crítica da sociedade no seu acelerado desenvolvimento tecnológico. O mundo do supérfluo, em contradição com o mundo da escassez, na estrutura social em que vivemos, levaria a civilização actual a um beco sem saída. As religiões agonizam porque o hedonismo social e o correspondente pedantismo cultural esvaziaram igualmente as arcas de tesouros metálicos dos ricos, os baús de crenças e crendices dos pobres, as esperanças de sucesso das camadas medianas da sociedade, as fontes de riqueza do planeta e até mesmo o balaio de sonhos da Lua e as esperanças de um céu convertido em frios desertos siderais em que rolam mundos áridos e despovoados.

Inverte-se a tese de Toynbee. As religiões seriam produzidas e mantidas pelas civilizações, como o mel pelas comunidades das abelhas. Deus, filho do homem, está morto, segundo constatam os teólogos mais avançados. E enquanto os religiosos voltam a matar-se reciprocamente em nome do deus morto, as grandes potências da civilização sem perspectivas preparam os funerais atómicos da Terra. A opressão estatal esmaga o homem nas áreas capitalistas e socialistas. O Leviatã de Hobbes ameaça o mar, a terra e o céu. Como decifrarmos o enigma desses tempos apocalípticos, quando o próprio acto de pensar parece estar sujeito a controlos telepáticos? Os defensores da liberdade transformam-se em terroristas e sequestradores ou em líricos distribuidores de flores murchas, embalsamadas nas palavras mortas de paz e amor. A inocência das crianças desaparece na voragem da criminalidade infantil. E os velhos alquebrados, de olhos vazios, não encontram mais nos templos os signos da fé que os embalou na infância, na adolescência, na mocidade e na maturidade. Os padres sem batinas e as freiras sem hábitos, os monges sem escapulários e os santos cassados na sua santidade já não podem consolar os crentes.

O que aconteceu para que tudo se subverta dessa maneira total e violenta? Foi a morte de Deus que esvaziou o mundo ou foi o vazio do mundo que matou Deus?

As estruturas sociais são coercivas. Do clã à tribo e à horda, e desta à civilização, a lei do aglomerado humano é uma só, mas desenvolve-se a um ritmo de pressão crescente. A coerção aumenta na razão directa da estruturação. Da cabana do pagé à sacristia a religião segue esse mesmo ritmo. A massificação do homem na sociedade moderna fez o caminho de retorno sobre as conquistas do individualismo ateniense. Esparta suprimiu Atenas. O sonho frustrado da República de Platão já prenunciava o Leviatã de Hobbes. O desenvolvimento tecnológico aumentou a pressão social sobre o homem, como o desenvolvimento da institucionalização religiosa gerou o totalitarismo eclesiástico das grandes civilizações orientais, leviatãs teocráticas, e forjou a engrenagem férrea do milénio medieval. Os sonhos da Renascença, um instante para respirar, apagaram-se impotentes nas garras de aço da tecnologia contemporânea. A torquês social da moral e da religião esmagou as gerações em nome da utopia conjugada de liberdade e civilização.

O desespero existencial de Kierkegaard e a náusea de Sartre foram os frutos amargos da escamoteação da natureza humana pela hipocrisia farisaica dos formalismos sociais e religiosos. O homem formalizado perdeu a naturalidade e só teve uma saída para a sua angústia existencial: matar Deus e rebelar-se contra a sociedade. O facto não é novo. Repetiu-se na História, com os episódios de repressão violenta dos rebelados nas civilizações teocráticas e massivas do Egipto faraónico, da Mesopotâmia, de Israel com as suas leis de pureza, da Idade Média e da Era Vitoriana na Inglaterra. Os libertinos medievais, a prostituição romana, o nudismo de comunidades religiosas que buscavam o estado de graça do paraíso perdido, o deslumbramento da Europa do Século XVI ante a suposta liberdade absoluta dos selvagens da América são antecedentes da era pornográfica que assinala a libertinagem do nosso tempo.

Bastam esses factos para podermos tocar com os dedos a fímbria da verdade. Em Os Demónios de LoudunAldous Huxley oferece-nos um quadro portentoso das medidas eclesiásticas e das providências estatais, na Europa dos séculos XVI e XVII, com repercussões no Século XVIII, para aliviar a pressão moral e religiosa no caldeirão social. Informa Huxley: “Os prelados franceses e alemães estavam acostumados a receber o cullagium de todos os padres e informavam àqueles que não tinham concubinas que poderiam tê-las, se quisessem, mas que deveriam pagar para isso uma licença, e mais, que essa licença deveria ser paga mesmo pelos que não as tivessem.” O celibato forçado explodia de tal maneira que era conveniente regulamentá-lo, a fim de salvar-se pelo menos a aparência de santidade dos clérigos. Numa das notas de seu dicionário, Bayle conta como o Senado de Veneza tolerava os escândalos do clero para desprestigiá-lo na opinião pública, em favor das conveniências do Estado.

A deformação da criatura humana pelas exigências antinaturais das religiões dá-nos a chave do processo cíclico da morte das civilizações. Isso não quer dizer que tenhamos de aceitar as teorias actuais de uma psicologia libertina, mas que devemos compreender o erro e o perigo das repressões extremas em nome da moral e das religiões. Podemos compreender claramente que esse extremismo equivale à medicação de disfarce, que esconde o mal permitindo o seu desenvolvimento secreto no organismo social. A Inglaterra da moral vitoriana está hoje a braços com a explosão de situações incontroláveis. O seu Parlamento majestoso é levado à adopção de leis e medidas deletérias, como as referentes aos problemas da homossexualidade juvenil.

O ministério dos ciclos agónicos é facilmente decifrado quando levantamos a máscara de hipocrisia das sociedades antinaturais. O mesmo se dá no tocante às religiões repressivas, que acabam vencidas pela rebelião dos instintos naturais, agonizando no descrédito ou sendo substituídas por outras. Acusa-se o Cristianismo de ser o responsável pela universalização da hipocrisia, mas os próprios evangelhos atestam a atitude racional de Cristo em face dos que pretendiam lapidar a mulher adúltera. No caso de Zaqueu, Cristo aceita a sua hospitalidade quando ele promete devolver aos pobres o fruto impuro dos seus roubos. Madalena arrependida tornou-se a seguidora dedicada e a escolhida para ser a primeira a vê-lo depois da ressurreição. Não há dúvida que os excessos repressivos do Cristianismo não foram determinados por Cristo, mas pelos seus apóstolos judeus, contaminados pela hipocrisia farisaica e de outras seitas judaicas. O Apóstolo Paulo, o que melhor compreendeu a posição de Cristo em tantos aspectos, não conseguiu escapar aos prejuízos do judaísmo, de sua formação judaica, quando se referia aos processos de repressão, tornando-os ainda mais agudos na religião nascente.

Explica-se a atitude paulina ante os abusos e excessos das religiões pagãs, mitológicas, em que as práticas fálicas, os rituais dionisíacos, toda a herança da velha Suméria, da Mesopotâmia, da libertinagem da Grécia e de Roma contaminavam as ingénuas comunidades cristãs, ameaçando com os seus excessos os princípios espirituais da religião nascente. Paulo, extremamente zeloso, apegava-se aos resíduos da sua formação farisaica, agindo com violência para impedir que os cristãos retornassem às práticas da irresponsabilidade moral. Mas há enorme distância entre as medidas enérgicas de Paulo, que não usava a máscara da hipocrisia, e as medidas repressivas que mais tarde judaizaram as religiões cristãs. Ele, que combateu sem cessar os apóstolos judaizantes, incidiu no mesmo erro que tanto condenara, mas justificado pelas circunstâncias de uma época de ignorância e de costumes geralmente condenáveis.

O ponto crucial do problema religioso chama-se hipocrisia. E a hipocrisia resulta das atitudes egoístas, da falta de compreensão do verdadeiro sentido de Religião, que é caminho e não ponto de chegada da espiritualização do homem. Os religiosos que pretendem atingir a santidade do dia para a noite, que se revestem de pureza exterior, encobrindo a podridão interior, são os hipócritas condenados veementemente no Evangelho. A solução desse grave problema, que responde pela morte cíclica das civilizações, está na compreensão da verdadeira natureza do homem, do processo natural do seu desenvolvimento espiritual. Os artifícios purificadores só servem para mascarar os indivíduos pretensiosos. As práticas ascéticas não podem ser forçadas. As paixões e os instintos do homem são manifestações de forças vitais que, debaixo do controlo da razão e do sentimento, podem e devem guiar o espírito nos rumos da transcendência.

Repetimos agora os ciclos agónicos do Oriente, da Grécia e Roma, de Israel, da Europa Medieval. A explosão pornográfica sobrepõe-se aos instintos vitais e aos controlos sociais. E a agonia das religiões anuncia a morte da civilização tecnológica. Não obstante, há uma esperança para a brilhante civilização condenada. As forças do espírito reagem contra a derrocada moral. Como na queda de Bizâncio, enquanto os clérigos cantam e pregam no meio da derrocada, há vigias de uma nova era espreitando o futuro nas almenaras. É o que procuro demonstrar neste livro, num rápido confronto das estruturas envelhecidas com as novas estruturas que nascem da própria terra, debaixo dos nossos pés. Poluída, envenenada, devastada, ameaçada, a Terra dos Homens, nossa mãe, convida-nos a subir com Saint-Exupéry para novas dimensões de uma realidade em que estamos perdidos.

/…


José Herculano Pires, Agonia das Religiões / Introdução – Tempos de Agonia, 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel)

quarta-feira, 26 de julho de 2023

o sentido da vida ~


Espiritismo e Cristianismo ~ 

Partimos do sentido religioso do Espiritismo, do seu aspecto de consolação e orientação para a vida terrena. Analisamos a sua posição em face de problemas fundamentais da religião, como a existência de Deus, que o Espiritismo coloca em termos racionais e quase objectivos e, entramos no terreno da interpretação filosófica e da comprovação científica dos fenómenos que provam a sobrevivência da alma. Discutimos com os teólogos, os filósofos e os cientistas, mostramos a incoerência da posição actual da ciência em face dos seus próprios princípios e o caminho único que lhe cabe tomar, para a verdadeira solução do problema espírita. Analisamos ainda a posição filosófica da Doutrina dos Espíritos, a conclusão a que os seus postulados nos levam no terreno complexo da sociologia política e alvitramos uma solução para o trabalho social e político dos espíritas, no mundo de desvalorizações em que estamos a viver. Resta-nos agora, antes das conclusões práticas e de tentarmos uma súmula do Espiritismo em rápidos traços, focalizar alguns pontos de exeges teológica, pontos esses que têm servido de armas para o desvio, do caminho espírita, de muitas almas sensíveis e impressionáveis, facilmente confundidas pelos sofismas clericais do catolicismo e do protestantismo. 

Não esmiuçaremos o problema histórico das acusações de satanismo, formuladas pelos clérigos de várias igrejas cristãs, porque como vimos, esse problema resolve-se à luz dos textos sagrados, ao mesmo tempo em que, hoje em dia, está perdendo sentido nos próprios meios clericais. Mas há outras acusações que devem ser estudadas. Entre elas, sobressai, a nosso ver, a que nega ao Espiritismo a natureza de terceira e última revelação cristã, elo final do conjunto bíblico, obra do Espírito da Verdade, do Paracleto, do consolador prometido por Cristo

Desde as suas primeiras manifestações, os espíritos incumbidos de transmitir a Allan Kardec os princípios fundamentais da nova doutrina fizeram sentir a estreita relação existente entre a mesma e o Cristianismo. O Espírito da Verdade foi o seu guia e, já em O Livro dos Espíritos, pedra fundamental da doutrina, vemos como se entranham o Espiritismo e o Cristianismo, de tal maneira, que separá-los seria produzir uma dupla mutilação. 

Há alguns espíritas que dizem o contrário e, sabemos que mesmo entre nós, no Brasil, houve, desde os primórdios da preparação do Espiritismo, elementos que se diziam “Espíritas puros”, ou seja, simplesmente espíritas, firmados nos princípios de O Livro dos Espíritos, sem nenhuma ligação com o Cristianismo. Se, entretanto, nos dermos ao trabalho de ler aquele livro, veremos que essa atitude não passa de um dos muitos equívocos a que tão facilmente se entregam os intelectuais, mormente em face de doutrinas novas. O espírita não cristão pode basear-se em tudo, menos no O Livro dos Espíritos, que é um texto cristão, prosseguindo naturalmente de O Novo Testamento, como este o é do Verbo

Nos Estados Unidos e em alguns países da América Central firmou-se há tempos um movimento de características regionalistas, que pretendia apresentar o Espiritismo como doutrina americana, surgida e propagada na América. Rejeitava-se assim a codificação kardeciana, para tomar como base alguns estudos esparsos elaborados na América. O Espiritismo teria nascido, não em Paris, com o lançamento, a 18 de Abril de 1857, de O Livro dos Espíritos, mas em Hydesville, nos Estados Unidos, a 31 de Março de 1948, com o aparecimento dos fenómenos históricos da casa da família Fox. Chegou mesmo a fixar-se, no local onde existiu a cabana das famosas irmãs Fox, um obelisco com os dizeres Aqui nasceu o Neo-Espiritualismo

A verdade dos factos mostra-nos, porém, o contrário. Fenómenos espíritas ocorreram em todos os tempos e, os verificados com as irmãs Fox não foram nem os primeiros nem os últimos. Nem mesmo na época, tiveram eles qualquer primazia. Basta lembrar os trabalhos magníficos de Jonathan Koons e a sua câmara-espírita, lá mesmo, nos Estados Unidos e, o estupendo florescimento de mediunidades na Europa, com a multiplicação de médiuns e fenómenos por todo o velho continente, para compreendermos que os factos da família Fox atingiram a proeminência em virtude de circunstâncias particulares, que os destacaram face à opinião pública americana e os projectaram mais tarde na mundial. Constituíram, sem dúvida, um dos meios utilizados pelo Espírito da Verdade, para a mais rápida propagação dos princípios espíritas e o início da nova era na Terra. Mas somente em França, com Allan Kardec e, através de O Livro dos Espíritos, o Espiritismo tomou corpo, se firmou como doutrina filosófica, de bases científicas e de consequências religiosas, de natureza essencialmente cristã. 

Afirmam os livros da codificação kardeciana, afirmaram-no os espíritos que presidiram ao trabalho de Kardec, que o Espiritismo é obra do Espírito da Verdade, incumbido de preparar na Terra o advento do Reino de Deus, ou seja, de um mundo melhor e mais puro, de justiça e verdade prevalecendo sobre a injustiça e a mentira hoje dominantes. Os teólogos das várias igrejas cristãs não aceitam essa afirmativa, negando ao Espiritismo a natureza de prosseguimento do trabalho de Cristo entre os homens. Para isso alegam várias razões, entre as quais a mais forte é a de que o consolador, também chamado Espírito Santo e incluído na Santíssima Trindade como terceira pessoa, já teria vindo, depois do sacrifício de Jesus, no Dia de Pentecostes, em Jerusalém. 

Para bem esclarecermos este assunto, devemos analisar a própria natureza do consolador anunciado por Jesus, segundo os textos evangélicos. Diz o capítulo 14 de o Evangelho segundo João: 

“Se me amais, guardai os meus mandamentos e, eu rogarei ao Pai e, Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito da Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhecem. Mas vós o conhecereis, porque ele ficará convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós.” 

Logo a seguir, no versículo 26 do mesmo capítulo: 

“Mas o consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e, vos fará lembrar de tudo o que eu vos tenho dito.” 

No capítulo 16 encontramos estes versículos: 

“Mas eu vos digo a verdade; a vós, convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, não virá a vós o Consolador, mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei. E ele, quando vier, arguirá o mundo do pecado e, da justiça e do juízo. Sim, do pecado, porque não crêem em mim. E da justiça, porque eu vou para o Pai e, não me vereis mais. Do juízo, enfim, porque o príncipe deste mundo já está julgado. Eu tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora. Quando vier, porém, aquele Espírito da Verdade, ele vos ensinará todas as verdades, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e, anunciar-vos-á as coisas que estão para vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e, vo-lo-á anunciar. Todas quantas coisas tem o Pai, são minhas. Por isso é que eu vos disse que ele há de receber do que é meu e, vo-lo anunciará.” 

Estas são as palavras de João registando a promessa do Consolador, na tradução do Padre Figueiredo. 

Como vemos, o Espírito da Verdade é um enviado de Deus, a pedido do Cristo, para dar prosseguimento à obra deste na Terra. A sua natureza é espiritual e a sua função pode ser assim dividida: 

a) permanecer com os homens, estando mesmo nos homens, integrado na própria existência humana; 

b) ensinar aos homens todas as coisas, relembrando-lhes os ensinamentos do Cristo; 

c) arguir o mundo do pecado, da justiça e do juízo; 

d) receber a revelação das verdades divinas e proporcioná-las ao homem. 

Ouçamos agora o próprio Kardec, em A Génese, sobre a vinda do Consolador no Dia de Pentecostes: 

“O Espírito Santo não realizou, no Pentecostes, o que Jesus anunciara a respeito do Consolador, o Espírito da Verdade. Do contrário, os apóstolos teriam elucidado, em sua vida, tudo quanto ficou obscuro no Evangelho até hoje e, cuja interpretação contraditória deu lugar às numerosas seitas que dividiram o Cristianismo desde os primeiros séculos, em lutas sem tréguas, por questões de exegese, de interpretação, lutas que chegaram a produzir grandes morticínios. Se na época em que Jesus falava os homens não se encontravam em estado de compreender as coisas que ficaram por dizer, não seria em algumas semanas que eles poderiam adquirir as luzes necessárias. Para a compreensão de certas partes do Evangelho, com excepção dos preceitos de moral, eram precisos conhecimentos que só o progresso das ciências nos daria e, que só poderiam ser obra do tempo e de muitas gerações. Se, pois, o novo Messias viesse pouco tempo depois do Cristoteria encontrado o terreno nas mesmas condições e, não faria mais do que Ele fez. Ora, desde Cristo até aos nossos dias, não se produziu nenhuma grande revelação, que completasse o sentido do Evangelho e elucidasse os pontos obscuros, como indício certo de que o enviado ainda não apareceu.” 

Mais adiante, no mesmo primeiro capítulo de A Génese, completa Kardec o seu pensamento, com as seguintes palavras: 

O Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, pelo contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da natureza, que revela, tudo quanto Cristo disse e realizou. Elucida os pontos obscuros do ensino cristão, de tal sorte, que aqueles para quem eram ininteligíveis certas partes do Evangelho, ou pareciam inadmissíveis, elas se tornam compreensíveis e, eles as admitem, sem dificuldade, graças ao auxílio desta doutrina. Vêem melhor ao seu alcance e podem distinguir entre a realidade e a alegoria. Cristo lhes parece maior: Ele já não é simplesmente um filósofo, mas um Messias divino.” 

A seguir, encontramos: 

“Se se considerar, por outro lado, o poder moralizador do Espiritismo, pela finalidade que assinala a todas as acções da vida, pelas consequências do bem e do mal que ele torna palpáveis, a força moral, a coragem, as consolações que ele dá nas aflições, por uma inalterável confiança no porvir, pelo pensamento de ter cada um junto de si os seres a quem amou, a certeza de os rever, a possibilidade de confabular com eles, a certeza, enfim, de que tudo quanto se fez, tudo quanto se adquiriu em inteligência, em sabedoria, em moralidade, até à última hora da vida, não fica perdido; pois tudo aproveita o adiantamento do espírito, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas de Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito da Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se encontra assim cumprida, porque, de facto, é ele o verdadeiro Consolador. 

Vemos, diante de todos esses argumentos, que a alegação de que o Consolador teria vindo no Dia do Pentecostes não tem razão de ser, não encontra base nenhuma no próprio texto evangélico. É, pelo contrário, uma verdadeira negação do Consolador. Nenhuma das tarefas assinaladas por Cristo ao Espírito da Verdade são cumpridas no Pentecostes. O que se verificou naquele dia foi apenas o auxílio do Alto aos apóstolos espavoridos, a fim de alentar-lhes a fé e predispô-los à grande luta da pregação da Boa-Nova. A vinda do Espírito da Verdade, para ficar com os homens, se daria mais tarde, quando os tempos decorridos houvessem permitido o amadurecimento necessário do pensamento humano, sem o qual nenhuma revelação de verdades novas, o ensinamento de todas as coisas, não seria possível. E por que relembrar os ensinamentos de Cristo, naquela hora, em que eles ainda ecoavam no espírito dos apóstolos? Só mais tarde, depois das deturpações teológicas, que fatalmente ocorreriam, como ocorreram, seria possível o restabelecimento anunciado por Cristo e, que hoje de facto se verifica, através do Espiritismo

Ouçamos ainda as palavras de Kardec, desta vez no capítulo sexto de O Evangelho segundo o Espiritismo

“O Espiritismo vem no tempo determinado, cumprir a promessa do Cristo. O Espírito da Verdade preside ao seu advento, chama os homens à observância da lei e ensina todas as coisas, fazendo compreender aquilo que Jesus só disse em parábolas. Vemos assim respondidos os itens que estabelecemos acima, tratando das funções do Consolador. Resta-nos dizer que, graças aos princípios do Espiritismo, o Espírito da Verdade pode, realmente, não apenas permanecer entre os homens, mas integrar-se na carne, no pensamento, no espírito, na vida dos homens, como norma de conduta para todos os que o recebem e compreendem, como directriz permanente dos seus pensamentos e acções.” 

Quanto ao item “c” da divisão que estabelecemos e, em que incluímos as palavras do Evangelho “arguir o mundo do pecado, da justiça e do juízo”ele envolve, segundo pensamos, a acção social do Espiritismo, como reformador do mundo, como iniciador da sociologia, segundo disse Emmanuel. Essa tarefa será cumprida pelo Espiritismo, também a seu tempo, como vimos no capítulo anterior. Mesmo porque, como diz o Eclesiastes, Deus fez tempo para tudo e, cada coisa há de chegar a seu tempo, nem antes, nem depois. 

Verificado assim que o Espiritismo é de facto o Consolador prometido por Cristo, não nos devemos perturbar com a oposição dos clérigos, sejam eles católicos ou protestantes. A história nos revela que a igreja constituída, baseada em cânones definitivos, estratificada nos seus princípios, ossificada nos seus dogmas de fé e materializada no interesse profissional dos seus sacerdotes, não é a primeira vez que se recusa a aceitar o cumprimento das profecias em que assentou os seus próprios alicerces. É o texto sagrado mesmo, são as passagens evangélicas, que nos falam da maneira pela qual a igreja judaica, cega no seu orgulho, não aceitou na vinda do Cristo o cumprimento da anunciação do Messias. 

O mesmo que a igreja da época fez com relação a Cristo a igreja de hoje faz, no tocante ao Espiritismo. Aliás, as semelhanças históricas são muito profundas. Os judeus se consideravam sentados na cadeira de Moisés e, do alto dessa cátedra anatematizaram o Messias. Os cristãos de hoje se julgam sentados na cadeira de Pedro, de cima da qual dardejam os raios da sua maldição sobre o Consolador prometido. Mas da mesma maneira pela qual Cristo respondeu aos seus acusadores, através das suas obras, o Espiritismo responde aos seus detractores, mostrando-lhes os frutos da sua propagação na Terra, frutos de cura e de consolação para todos os deserdados e infelizes, ricos ou pobres, onde quer que se encontrem e a ele se dirijam. 

Seria fastidioso enumerarmos outras várias objecções teológicas levantadas contra o Espiritismo. A teologia é terreno fértil em afirmações e contestações de toda a espécie. Nunca, talvez, a imaginação humana tenha encontrado campo mais vasto, em que melhor se pudesse sentir, para o livre exercício de seu poder de auto-contradição. Um rápido olhar para a história escolástica da Idade Média nos dará a medida dos exageros e dos absurdos a que o pensamento teológico conseguiu chegar, muitos dos quais ainda continuam sustentados, em pleno século vinte. 

Contra a lei da reencarnação, afirmam os teólogos que o Evangelho não a menciona, muito embora a natureza explícita das referências de Jesus ao renascimento de Elias na pessoa de João Baptista, o precursor. Quando citamos o diálogo de Jesus e Nicodemos, uma das mais belas passagens evangélicas referentes à reencarnação, os teólogos procuram escapar pela tangente do renascimento do espírito, esquecidos de que o texto fala em renascer da água e do espírito e, de que o elemento água representava, para os antigos, a própria matéria. Quando negamos a existência de penas eternas, por contrariarem o princípio da mais elementar justiça humana, quanto mais a de Deus, alguns nos respondem, franzindo o cenho, como se nos olhassem do próprio íntimo das verdades supremas, que não somos capazes de medir a justiça de Deus, que não podemos avaliar o seu significado e que ela será para sempre um terreno misterioso, vedado à razão e à lógica frágil dos homens. Se evocamos o verdadeiro sentido da palavra grega eon, traduzida por eterno, ou se lembramos o uso das metáforas em larga escala, o costume da linguagem figurada, em todo o Oriente, mormente no passado, eles se fecham em copas, respondendo somente que a eternidade das penas é o princípio indiscutível da igreja. Evidentemente não se pode nem se deve discutir com homens que assim pensam, negando o mais poderoso atributo da própria natureza pensante da espécie humana. 

Um ponto, entretanto, que tem sido motivo de grande celeuma, principalmente nos meios protestantes, é o da proibição da evocação de espíritos por Moisés. O próprio Kardec já tratou do assunto, a seu tempo, fazendo notar a incoerência daqueles que desejam impor um versículo isolado do texto como lei de alcance geral. No seu livro De cá e de lá, o confrade Romeu do Amaral Camargo, que foi presbítero evangélico, tece considerações interessantes a respeito, fazendo ver que os livros citados para essa condenação do Espiritismo, o Levítico e o Deuteronómio, contêm numerosas outras condenações e prescreve numerosos castigos já há muito relegados ao esquecimento, por judeus e cristãos. Lá, entretanto, no meio de toda uma montanha de velharias abandonadas – as leis civis da época, estabelecidas por Moisés –, vão os inimigos do Espiritismo buscar um versículo que condena a evocação dos mortos, para então afirmarem, radiantes, que a nossa doutrina é contrária ao texto bíblico. 

Lembra o confrade Amaral Camargo que, contra a ordem de Moisés, segundo vemos em I Reis, capítulo 28, o rei Saul foi consultar o espírito de Samuel, através da pitonisa de Endor. Para os protestantes, apegados ao texto, lembraremos ainda que a Bíblia não endossa a teoria da manifestação de Satanás em lugar dos espíritos. Pelo contrário, o texto diz claramente que quem se manifestou foi o espírito de Samuel. A Bíblia confirma, pois, de maneira mais plena, a realidade das comunicações espíritas. 

Kardec diz, a propósito, no livro O Céu e o Inferno, capítulo XI: 

“A proibição de Moisés era assaz justa, porque a evocação dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito, afeição ou piedade para com eles, sendo antes um recurso para adivinhações, tal como os augúrios e presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Essas práticas, ao que parece, também eram objecto de negócio e, Moisés, por mais que fizesse, não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares.” 

E acrescenta: 

“Se Moisés proibiu evocar os mortos, é que estes podiam vir, pois, do contrário, inútil fora a proibição. Ora, se os mortos podiam vir naquele tempo, também o podem hoje e, se são espíritos de mortos os que vêm, não são exclusivamente demónios. Ao demais, Moisés, de modo algum, fala nesses últimos.” 

As proibições de Moisés se referem à evocação de espíritos para finalidades condenáveis. Consultem-se os textos bíblicos, com olhos de ver, com isenção de ânimo e, compreender-se-á facilmente que nenhuma ligação há entre eles e o Espiritismo. Além disso, o episódio relatado no capítulo 11, versículos 26 a 29, do livro de Números, contradiz flagrantemente a afirmativa de condenação da mediunidade e da comunicação dos espíritos. Vemos ali dois médiuns, que não entretinham comércio com os espíritos, para fins adivinhatórios ou de lucros, Eldad e Medad, subitamente tomados pelo espírito, no campo. Um jovem, que presenciava a cena, corre apressado e comunica o facto a Josué, ministro de Moisés, que pede a este a proibição da comunicação. Moisés, entretanto, responde: 

“Que zelos são esses que mostras por mim? Quem me dera que todo o povo profetizasse e que o Senhor lhe desse o seu espírito.” 

O confrade Amaral Camargo conclui que Moisés suspirava pelo mediunismo generalizado. Ele queria o cumprimento da profecia de Daniel, no tocante ao derramamento do espírito do Senhor sobre toda a carne, ao advento, enfim, do Espírito da Verdade. E Kardec já declarava, no livro O Céu e o Inferno, há tantas dezenas de anos: 

“Se os que clamam injustamente contra os espíritas se aprofundassem mais no sentido das palavras bíblicas, reconheceriam que nada existe de análogo entre os princípios do Espiritismo e o que se passava entre os hebreus. A verdade é que o Espiritismo condena tudo aquilo que motivou a condenação de Moisés. Mas os seus adversários, no afã de encontrar argumentos para rebater as novas ideias, nem se apercebem de que tais argumentos são negativos, por serem absolutamente falsos.” 

/… 


José Herculano Pires (i)O Sentido da Vida / Espiritismo e Cristianismo, 13º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)