segunda-feira, 14 de maio de 2018

o grande enigma ~


unidade substancial | do universo

O Universo é uno, posto que triplo na aparência. Espírito, Força e Matéria não parecem ser mais que os modos, os três estados de uma substância imutável no seu princípio, variável ao infinito e nas suas manifestações.

O Universo vive e respira, animado por duas correntes poderosas: a absorção e a difusão.

Por essa expansão, por esse sopro imenso, Deus, o Ser dos seres, a Alma do Universo, cria. Pelo seu amor, atrai a si. As vibrações do seu pensamento e da sua vontade, fontes primeiras de todas as forças cósmicas, que movem o Universo e geram a Vida.

A Matéria, dissemos, é um modo, uma forma transitória da substância universal. Ela escapa à análise e desaparece sob a objectiva dos microscópios, para se transmudar em radiações subtis. Não tem existência própria; as filosofias que a tomam por base repousam sobre uma aparência, uma espécie de ilusão. (i)

A unidade do Universo, por muito tempo negada ou incompreendida, começa a ser entrevista pela Ciência. Há duas décadas, W. Crookes, no curso de estudos sobre a materialização dos Espíritos, descobria o quarto estado da Matéria, o estado radiante e, essa descoberta, pelas suas consequências, ia destruir todas as velhas teorias clássicas sobre o assunto.

Estas estabeleciam distinção entre a Matéria e a Força. Sabemos agora que ambas se confundem. Sob a acção do calor, a matéria mais grosseira se transforma em fluidos; os fluidos, por sua vez, se reduzem a um elemento mais subtil, que escapa aos nossos sentidos. Toda a matéria pode ser transformada em força e toda força se condensa em matéria, percorrendo assim um círculo incessante. (ii)

As experiências de Crookes prosseguiram e foram confirmadas por uma legião de investigadores. O mais célebre, Roentgen, denominou raios X às irradiações emanadas das ampolas de vidro; têm eles a propriedade de atravessar a maior parte dos corpos opacos e permitem perceber e fotografar o invisível aos nossos olhos.

Pouco depois, o Sr. Becquerel demonstrava as propriedades que têm certos metais de emitir irradiações obscuras, que penetram a matéria mais densa, quais os raios Roentgen e, impressionam as placas fotográficas através das lâminas metálicas.

O rádium, descoberto pelo Sr. Curie, produz calor e luz, de maneira contínua, sem se esgotar de modo sensível. Os corpos submetidos à sua acção se tornam por sua vez irradiantes. Posto que a quantidade de energia irradiada por esse metal seja considerável, a perda de substância material que lhe corresponde é quase nula. W. Crookes calculou que um século seria necessário para a dissociação de um grama de rádium. (iii) Mais ainda: as engenhosas descobertas de G. Le Bom (iv) provaram que as irradiações são uma propriedade geral de todos os corpos. A matéria pode dissociar-se indefinidamente; ela é energia concretizada. Assim, a teoria do átomo indivisível, que há dois milénios servia de base à Física e à Química, desmorona-se e, com ela, as distinções clássicas entre o ponderável e o imponderável. (v) A soberania da Matéria, que se dizia absoluta, eterna, teve fim.

É preciso, pois, reconhecer que o Universo não é tal como parecia aos nossos fracos sentidos. O mundo físico constitui ínfima parte dele. Fora do círculo de nossas percepções existe uma infinidade de forças e de formas subtis que a Ciência ignorou até hoje. O domínio do invisível é muito mais vasto e mais rico que o do mundo visível. Na sua análise dos elementos que constituem o Universo, a Ciência tem errado durante séculos e, agora lhe é necessário destruir o que tão penosamente edificou. O dogma científico da unidade irredutível do átomo, desmoronando-se, arrasta todas as teorias materialistas. A existência dos fluidos, afirmada pelos Espíritos há meio século – o que lhes valeu tantos sarcasmos da parte dos sábios oficiais –, está estabelecida, doravante, pela experimentação, de maneira rigorosa.

Os seres vivos, por sua parte, emitem irradiações de naturezas diferentes. Eflúvios humanos, variando de forma e de intensidade sob a acção da vontade, impregnam placas com misteriosa luz. Esses influxos, quer nervosos, quer psíquicos, conhecidos desde muito pelos magnetizadores e espíritas, mas negados pela Ciência, são autenticados hoje pelos fisiologistas, no grau de realidade irrecusável. Por esse caminho é encontrado o princípio da telepatia. As volições do pensamento, as projecções da vontade, transmitem-se através do Espaço, quais as vibrações do som e as ondulações da luz e, vão impressionar organismos em simpatia com o do emitente. As Almas em afinidade de pensamento e de sentimento podem trocar os seus eflúvios, a todas as distâncias, de igual maneira que os astros permutam, através dos abismos do Espaço, os seus raios trémulos. Descobrimos ainda aí o segredo das ardentes simpatias ou das invencíveis repulsões que certos homens sentem uns pelos outros, à primeira vista.

A maior parte dos problemas psicológicos – sugestão, comunicação à distância, acções e reacções ocultas, visão através de obstáculos – encontram aí a sua explicação. Estamos ainda na aurora do verdadeiro conhecimento, mas o campo das pesquisas se encontra largamente aberto e a Ciência vai marchar, de conquista em conquista, na senda rica de surpresas. O mundo invisível se revela a própria base do Universo, a fonte eterna das energias físicas e vitais que animam o Cosmos.

Rui assim o principal argumento daqueles que negam a possibilidade da existência dos Espíritos, dos que não podiam conceber a vida invisível, por falta de um substrato, de uma substância que escapa aos nossos sentidos. Ora, nós encontramos, conjuntamente, no mundo dos imponderáveis, os elementos constitutivos da vida desses seres e as forças que lhes são necessárias para manifestar a sua existência.

Os fenómenos espíritas, de toda a ordem, explicam-se pelo facto de que um dispêndio considerável de energia pode produzir-se sem dispêndio aparente de matéria. Os transportes, a desagregação e a reconstituição espontâneos de objectos, em câmaras fechadas; os casos de levitação; a passagem dos Espíritos através dos corpos sólidos; as aparições e as materializações, que provocaram tanta admiração e suscitaram tantos sarcasmos; tudo isso se torna fácil de compreender, desde que se conheça o jogo das forças e dos elementos em acção nesses fenómenos. De tal dissociação de matéria, de que fala G. Le Bon e que o homem é ainda impotente para produzir, os Espíritos possuem, de há muito, as regras e as leis. A aplicação dos raios X não explica também o fenómeno da dupla vista dos médiuns e o da fotografia espírita? Com efeito, se as placas podem ser influenciadas por certos raios obscuros, por diversas irradiações de matéria imponderável, que penetram os corpos opacos, maior e mais forte razão existe para que os fluidos quintessenciados do envoltório dos Espíritos possam, em determinadas condições, impressionar a retina dos videntes, aparelho mais delicado e mais complexo que a placa de vidro.

É assim que o Espiritismo se fortalece cada dia, pela aquisição de argumentos tirados das descobertas da Ciência, e que acabarão por abalar os mais endurecidos cépticos.

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(i) “A matéria, diz W. Crookes, é um modo do movimento.” (Proc. Roy. Soc., nº 205, pág. 472.).
(ii) “Toda matéria – diz Crookes – tornará a passar pelo estado etéreo de onde veio.” (Discurso no Congresso de Química, de Berlim, 1901).
(iii) Vide G. Le Bon, Revue Scientifique, 24 de Outubro de 1903, pág. 518.
(iv) Vide Revue Scientifique, 17, 24 e 31 de Outubro de 1903.
(v) Desde séculos, afirmava-se e defendia-se a teoria dos átomos, sem que a conhecessem perfeitamente. Berthelot a qualifica de “romance engenhoso e subtil”. (Berthelot – La Synthese Chimique, 1876, p. 164.) Por aí se vê – diz Le Bon – que certos dogmas científicos não têm mais consistência que as divindades dos antigos tempos.


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, II Unidade substancial do Universo 1 de 2, 9º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali)

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Saberes e o tempo ~

A isomeria ~

Há corpos simples, quais o fósforo, que revelam propriedades diferentes, sem que se lhes tenha acrescentado ou subtraído a menor parcela de matéria. Toda a gente sabe que o fósforo é branco, venenoso e muito inflamável. Entretanto, se, durante algum tempo, for exposto à luz no vácuo, ou se for aquecido em vaso fechado, ele muda de cor e torna-se de um vermelho belo. Nesse estado, é inofensivo, do ponto de vista da saúde e, deixa de incendiar-se pelo atrito. Contudo, a mais severa análise não logra descobrir qualquer diferença na composição química do fósforo vermelho ou branco. O carvão pode tomar a forma de diamante ou de grafite; o enxofre apresenta modificações características, conforme o estado em que se encontre; o oxigénio torna-se ozónio. A todos esses diferentes estados do mesmo corpo foi dada a denominação de alotrópicos.

Esses caracteres tão opostos, que a mesma substância pode denotar, são devidos a mudanças que se lhes operam no íntimo. As moléculas se agrupam diferentemente, ao mesmo tempo em que os seus movimentos se modificam. Daí, as variações que se produzem nas suas respectivas propriedades.

É tão verdade isso, que corpos muito diferentes pelas suas propriedades, tais como as essências de terebintina, de limão, de laranja, de alecrim, de basilisco, de pimenta, são, todavia formadas todas da combinação de dezasseis equivalentes de hidrogénio com vinte equivalentes de carbono.

Essa ordem especial das partículas associadas, chamadas moléculas, tornou-se visível por meio da cristalização.

Se nos lembrarmos de que todos os tecidos dos vegetais e dos animais são formados, principalmente, de combinações variadas de quatro gases apenas: o hidrogénio, o oxigénio, o carbono e o azoto, aos quais se adicionam fracas quantidades de corpos sólidos em número muito reduzido, compreenderemos a inesgotável fecundidade da Natureza e os infinitos recursos de que ela dispõe para, agrupando átomos, formar moléculas que, a seu turno, se podem agregar entre si com a mesma diversidade de maneiras.

Se se complicarem essas disposições por meio dos movimentos de translação e de rotação peculiares aos átomos e moléculas, torna-se possível conceber que todas as propriedades dos corpos estão intimamente ligadas a tão diversos arranjos, tão variados e tão diferentes uns dos outros.

Numa série de memórias muito relevantes, o astrónomo Norman Lockyer fez notar que a análise espectral do ferro contido na atmosfera solar permite se conclua com certeza que esse corpo não é simples; que é um grupo complexo, tendo por base um metal ainda desconhecido. Somente, porém, nas altas temperaturas da fornalha ardente do nosso astro central essa dissociação se torna aparente. Nenhuma temperatura terrestre seria capaz de produzi-la.

Esse químico eminente dos espaços estelares estudou os espectros das estrelas, desde as mais quentes até às que se encontram prestes a extinguir-se e, mostrou que o número dos corpos simples aumenta, à medida que a temperatura diminui. Quer isso dizer que eles nascem sucessivamente, pois que cada massa se encontra isolada no espaço e nenhuma partícula de matéria recebe do exterior, por mais insignificante que seja.

Em suma, a ideia de uma matéria única, donde necessariamente derive tudo o que existe, está hoje admitida pelos sábios e os Espíritos que no-la preconizaram, estão de acordo com a ciência contemporânea. Veremos se a continuação dos seus ensinamentos é tão verdadeira quanto as suas primeiras asserções.

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Gabriel Delanne, A Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência Capítulo II O tempo, o espaço, a matéria primordial – A isomeria, 8º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)

terça-feira, 17 de abril de 2018

Da sombra do dogma à luz da razão ~

Natureza da Revelação Espírita (VI)

Se Cristo não conseguiu desenvolver os seus ensinamentos de forma completa, foi porque faltavam aos homens conhecimentos que estes não podiam adquirir antes de tempo e sem os quais não o podiam compreender; havia coisas que teriam parecido um contra-senso na fase de conhecimentos de então. Completar os seus ensinamentos deve-se portanto entender no sentido de explicar e de desenvolver, muito mais que no de lhes acrescentar verdades novas, pois neles tudo se encontra em germe; simplesmente, faltava a chave para captar o sentido das palavras.

Mas quem se atreve a interpretar as escrituras sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui a sabedoria, a não ser os teólogos?

Quem se atreve? Primeiro a ciência, que não pede licença a ninguém para dar a conhecer as leis da natureza e salta a pés juntos para cima dos erros e dos preconceitos. Quem tem esse direito? Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a toda a gente e as Escrituras já não são a arca sagrada na qual ninguém ousava tocar nem com um dedo, por correr o risco de ficar fulminado. Quanto à sabedoria especial necessária, sem contestar a dos teólogos e, por muito esclarecidos que fossem os da Idade Média, em particular os padres da igreja, não o eram no entanto o suficiente para não condenarem como heresia o movimento da Terra e a crença nos antípodas; e, sem ir tão longe, os dos nossos dias não lançaram um anátema sobre os períodos de formação da Terra?

Os homens só conseguiram explicar as Escrituras com a ajuda do que sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da natureza mais tarde reveladas pela ciência; eis porque razão os próprios teólogos puderam, de muito boa-fé, equivocar-se quanto ao sentido de certas palavras e de certos factos dos Evangelhos. Querendo a qualquer custo encontrar neles a confirmação de uma ideia preconcebida, giravam sempre no mesmo círculo, sem abandonarem o seu ponto de vista, de tal maneira que só viam ali o que queriam ver. Por muito sábios que fossem, não podiam perceber as causas dependentes de leis que não conheciam.

Mas quem será juiz das interpretações diversas e por vezes contraditórias feitas fora da teologia? O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos à medida que novos factos e novas leis se vão revelando, saberão separar as teorias utópicas da realidade; ora, a ciência dá a conhecer certas leis; o Espiritismo dá a conhecer outrasumas e outras são indispensáveis à inteligência dos textos sagrados de todas as religiões, desde ConfúcioBuda até ao cristianismo. Quanto à teologia, não poderia judiciosamente alegar que as contradições da ciência constituem excepções, quando nem sempre está de acordo consigo mesma.

O ESPIRITISMO, tomando como ponto de partida as próprias palavras de Cristo, assim como Cristo foi buscar bases a Moisés, é consequência directa da doutrina.

À ideia vaga da vida futura, acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço e, com isso, dá precisão à crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento.

Define os elos que unem a alma e o corpo e levanta o véu que escondia aos homens os mistérios do nascimento e da morte.

Pelo Espiritismo o homem sabe de onde vem, para onde vai, por que está na Terra e por que nela sofre temporariamente, vendo em tudo a justiça de Deus.

Sabe que a alma evolui constantemente através de uma série de existências sucessivas, até ter atingido o grau de perfeição que a pode aproximar de Deus.

Sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de partida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão para evoluir por virtude do seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência e que entre elas só há a diferença da evolução conseguida; que todas têm o mesmo destino e atingirão o mesmo fim, mais ou menos prontamente consoante o seu trabalho e a sua boa-vontade.

Sabe que não existem criaturas deserdadas, nem umas que sejam mais favorecidas do que outras; que Deus não criou privilegiados, estando dispensados do trabalho imposto a outros para poderem evoluir; que não existem seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os designados com o nome de demónios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que praticam o mal na qualidade de Espíritos como o faziam na situação de homens, mas que evoluirão e melhorarão; que os anjos ou Espíritos puros não são entes à parte na criação, mas Espíritos que atingiram o seu objectivo depois de terem seguido as etapas do progresso; que assim não existem criações múltiplas, nem diferentes categorias entre seres inteligentes, mas que toda a Criação resulta da grande unidade que rege o Universo e que todos os seres gravitam na direcção de um objectivo comum que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa dos outros, sendo todos filhos das suas obras.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 28 a 30 (VI), 8º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

sábado, 7 de abril de 2018

as vidas sucessivas | os elementos ~

~ Experiências magnéticas ~ Regressão da memória e previsão, Caso n.º 1 ~ Laurent (III)

21 de Outubro de 1893

Hoje, a repetição de todos os fenómenos já observados no segundo e no terceiro estados. Continuo muito lento para passar do sonambulismo ao estado de relação. Talvez porque eu seja desconfiado, ou porque uma auto-sugestão, que consiste no firme desejo de não tomar o falso pelo verdadeiro, persista até no sono e faça antagonismo às influências magnéticas.

O Sr. de Rochas, a propósito de uma pergunta que me faz e à qual não respondo, fazendo no entanto esforço para recordar-me do facto que me permitiria responder, observa que, nesse terceiro estado, perdi a memória do presente. Por exemplo, não sei onde estou. Sei que é o Sr. de R. quem se encontra diante de mim; porém eu não poderia dizer o que ele é: Administrador da Escola Politécnica ou exercendo qualquer outra profissão. Todavia, guardo intacta a lembrança das experiências precedentes.

Para estabelecer com exactidão o período de minha vida que foge à minha memória, o Sr. de R. emprega este engenhoso meio:

– Você teve aulas de filosofia? – pergunta-me ele.

Sorrio e respondo: “Oh, não!”, como poderia dizer um jovem escolar que consideraria a aula de filosofia alguma coisa de muito bonita e bastante distante.

– De retórica? Cursou o 1º ano do 2º grau? A 8ª série? A 7ª série? (*)

A resposta é sempre negativa e pronta.

– A 6ª série? A 5ª?

Aqui eu me perturbo, reflicto, hesito. É lamentável que, no momento em que escrevo, apesar da ordem recebida de lembrar-me das sensações experimentadas durante o sono, eu não consiga refazer exactamente o trabalho que se operou em mim nesse minuto. Apenas creio que vi passar a imagem de meu professor da 5ª série, sem poder estabelecer se era realmente o da 5ª série ou o da 4ª. Foi por isso, sem dúvida, que hesitei. De qualquer forma, ainda respondi “não”.

Foi apenas no momento em que o Sr. de R. me perguntou: “Você se recorda de seu professor da 3ª série?”, que espontaneamente afirmei vê-lo.

– Mas você o vê como se ele estivesse aqui? – insiste o Sr. de R.

– Sim, sim, é o meu professor.

– Enfim, você distingue bem se, sim ou não, você é um aluno da 3ª série? Este homem é seu professor desta série ou simplesmente você se recorda de tê-lo tido como professor?

Após um esforço bastante grande, arrisco uma resposta confusa:

– Creio que ele foi meu professor; mas depois dele não tive outros, me parece.

Aqui, por felicidade, reencontro as fases pelas quais passou o meu espírito. Enquanto eu fazia um esforço sincero para responder com exactidão à pergunta feita, a verdadeira solução não se apresentando e eu me fatigando ao procurá-la, disse-me a mim mesmo: “Ah! Vou responder qualquer coisa.” Mas imediatamente em seguida: “Não! Não posso enganar.”

Fenómeno singular! Em um segundo tive consciência de que eu servia de sujet a um magnetizador, que eu era o que na realidade sou e não um aluno da 3ª série e que era necessário permitir a conclusão da experiência, apesar de tudo. Ignoro o que eu teria inventado se este brusco chamamento à realidade não tivesse intervindo para fazer empenhar-me com a sinceridade. “Não, não posso enganar.” Na realidade, esta frase veio-me ao espírito durante o lampejo de consciência que me representou aos olhos como que um jovem de vinte anos, prestando-se a experiências de hipnotismo para sua instrução, preocupado em não errar e, além do mais, interessado em não enganar o experimentador, o que seria enganar-se a si próprio. (**)

Que teria acontecido se o despertar de minha personalidade não tivesse acontecido? Eu teria, sem dúvida, cedido ao desejo de fazer cessar o esforço fatigante; eu teria respondido ao acaso com qualquer coisa aproximativa; depois, para não me contradizer (pois observei em outros sujets, que certamente se crêem de boa fé, que é impossível fazê-los confessar que se enganaram, por mais manifesto que seja o seu erro), eu teria chegado, por uma série de respostas aproximativas, à pura mentira, à invenção, à simulação. E como o Sr. de R. se teria apercebido?

Aliás, eu não consigo explicar essa súbita consciência da realidade que durou apenas o tempo de eu me dizer: “Não posso enganar.” Tenho o hábito de me repetir esta frase como uma sugestão durante a vigília. Seria uma espécie de auto-sugestão quando me vem durante o sono: Mas é admissível que alguém possa, no estado de rapport, obedecer a uma ordem a si próprio dada quando acordado? (***) Isto parece ainda mais inverosímil quando, tendo perdido a lembrança dos factos mais recentes de minha vida, não havia razão para que eu me recordasse preferencialmente de uma frase pensada antes de ser ordenada do que de qualquer outra.

Fica então estabelecido, sem mais comentários, que um sujet adormecido pode dar-se conta de que ele sirva de sujet; isso deve ser bastante raro. Entretanto, essa consciência, de alguma forma virtual, do estado em que se está, não deve deixar de influir surdamente sobre as respostas do sujet às perguntas que lhe são feitas e de representar um papel importante nessa simulação inconsciente que o Sr. Bergson assinalou outrora. (Revue Philosophique, 1888.)

Porém, quando ela se determina, que perturbação profunda deve causar no decorrer da experiência! Ela conduz o sujet a si mesmo. O perigo é em parte afastado quando o sujet, voltando a si, deseja ser sincero. Mas se, ao invés de se dizer “Não enganemos”, ele é indiferente e pouco preocupado com a verdade, como habitualmente acontece? Se, além do mais, ele sente esse desejo que observei de fazer a experiência alcançar êxito? Se, naturalmente comediante, vem-lhe a ideia de representar um papel tão logo volta a si?

Para retornar à experiência, o Sr. de R. volta às suas perguntas.

– Como se diz rosa em latim?

Não há resposta. Com efeito, na 3ª série, ninguém me ensinou ainda o latim.

– Quem matou o gigante Golias?

– Davi.

– Quem foi o sucessor de Henrique IV?

– Não sei.

Na 3ª série eu era sem dúvida mais instruído em história sacra do que em história da França.

Depois seguem-se perguntas sobre as quatro operações. Apreende-se nitidamente deste exame que tudo o que aprendi a partir da idade de cerca de nove anos escapa-me completamente.

Aqui uma nova resposta a uma pergunta de outro género tenderia ainda a fazer-me achar que, apesar de tudo, dou-me conta de que estou adormecido.

–Você tem uma irmã? – pergunta o Sr. de R.

– Sim, mas só me lembro dela muito pequena.

– O que faz o seu pai?

– Já não o tenho.

Eis o que respondo. Ora, quando eu tinha nove anos meu pai ainda vivia. É necessário então que eu tenha noção do presente para que seja o meu eu actual quem fale neste caso.
A sessão termina. Muita fadiga.

Ao despertar-me, o Sr. de R. pergunta-me se vi um estranho durante o sono. Afirmo ter apenas ouvido o Sr. de R. falar a outra pessoa além de mim, mas sem ver ninguém. É entretanto real que um empregado veio pedir uma informação ao Sr. de R. enquanto eu estava adormecido; porém, no terceiro estado, o sujet vê apenas, como eu já disse, o magnetizador e os objectos que ele toca. A minha resposta confirma esta lei.

/... 
(*) O original francês difere, pois os níveis escolares na França tinham e têm outra nomenclatura. A tradutora optou por fazer uma correlação com os níveis vigentes no Brasil. (N.E.)
(**) Fenómeno a relacionar com esta observação do Dr. Gibier: “Conheci um médium, jovem bastante honesto, que não praticava a sua mediunidade e com a qual se observavam diversos fenómenos de levitação e de movimentos de objectos absolutamente reais. Confessou-me ele que diversas vezes se tinha sentido como que impelido a acrescentar alguma coisa ao que produziria; sentia um desejo violento de simular um fenómeno qualquer, enquanto que podia com as suas faculdades naturais obtê-lo melhor. Analisando esta espécie de impulsão, ele me dizia que ela nascia, por um lado, do desejo de causar admiração aos assistentes; por outro lado, do desejo de enganar o seu semelhante; em terceiro lugar, do receio de fadiga, já que, após sessões nas quais fenómenos intensos são obtidos, os médiuns ficam às vezes extenuados. Porém ele acrescentava que qualquer outra causa de que não se dava conta (sem dúvida de natureza impulsiva) se juntava a todas as precedentes e fazia-se sentir mais insistente. Assegurava-me, aliás, que tinha sempre resistido à tentação.” (Analyse des choses). Esta propensão a enganar parece ser inerente ao organismo dos sensitivos e dos médiuns. É preciso levar isto em consideração na observação dos factos, mas não cometer a imprudência de tudo atribuir à fraude, quando já se observou um caso desses. (A.R.)
(***) Isto é não apenas admissível, mas verdadeiro. Tive numerosos exemplos com outros sujets. (A.R.)



Albertde RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão, Caso n. 1 – Laurent, 1893 3 de 4, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 26 de março de 2018

murmúrio das paixões ~

Quando aplicamos o ouvido ao que se passa no fundo do nosso ser, ouvimos como que o ruído de águas ocultas e tumultuosas, o fluxo e refluxo do mar agitado da personalidade que os vendavais da cólera, do egoísmo e do orgulho encapelam. São as vozes da matéria, os chamamentos das baixas regiões, que nos atraem e influenciam ainda as nossas acções; mas podemos dominar essas influências com a vontade, podemos impor silêncio a essas vozes. Quando em nós se faz a bonança, quando o murmúrio das paixões se aplaca, eleva-se então a voz potente do Espírito Infinito, o cântico da vida eterna, cuja harmonia enche a Imensidade. E quanto mais o Espírito se eleva, purifica e ilustra, tanto mais o seu organismo fluídico se torna acessível às vibrações, às vozes, ao influxo do Alto.




LÉON DENIS, O Problema do Ser, do Destino e da Dor,  IX – Evolução e finalidade da alma, fragmento.
(imagem: Biblis 1884, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

quarta-feira, 14 de março de 2018

~~~Párias em Redenção~~~


O TESTAMENTO (II)

Passados os dias mais angustiantes do luto, as autoridades se reuniram no Palácio di Bicci para a leitura do testamento. Foram convidadas algumas famílias e compareceram, também, convocados pela Justiça, alguns remanescentes da família di Bicci di M., vinculados ao Senhor duque.

Os archotes fumegantes voltaram a arder em brasas vivas no solar e, embora todos se encontrassem em pesado luto, o vinho capitoso escorria abundante, por ordem de Girólamo, que contratara alguns áulicos novos para ajudar os fâmulos remanescentes.

O inverno rigoroso ainda não amainara de todo. Após as chuvas torrenciais e as trovoadas retumbantes, o frio cortava e as estradas se apresentavam quase intransitáveis. De quando em quando, uma pancada de água caía inesperada, ameaçando de interrupção total as péssimas vias de comunicação.

Todos, portanto, desejavam libertar-se daquele desagradável dever para o qual foram convocados, excepto os interessados. Por uma hábil manobra, Girólamo convidara especialmente Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo de Siena para presidir à solenidade, de forma a sentir-se amparado pela velha astúcia do mau e cobiçoso sacerdote, que o defenderia diante da família do extinto, caso os que viessem aventurar-se criassem dificuldades em face do vasto espólio, ou para qualquer outra inesperada emergência.

Com a intuição da possível vantagem, o prelado se fez acompanhar do séquito que o acolitava e antes que a Justiça terrena realizasse o seu mister apresentou-se como representante da Justiça Divina, abençoando o remanescente da família devorada pela tragédia e rogando a todos conformação ante os desejos do duque extinto. Terminada a oração, sem qualquer tónica de inspiração e autenticidade, o juiz convocou o notário à leitura do testamento, que, apresentado às testemunhas, estas declararam serem autênticos os selos e o documento, reconhecendo ter sido aquele que assinaram por solicitação de Dom Giovanni di Bicci di M.

Estavam presentes, também, diversos membros do clã dos M., recém-chegados de várias cidades da Toscana: Florença, Siena, Pisa…, interessados na descoberta de qualquer haver que pudessem arrojar aos excessos e desperdícios a que se encontravam e, que igualmente examinaram o documento.

Após pigarrear grotesco e asmático, o notário deu início à leitura, com voz fanhosa:

“Eu, abaixo assinado, Giovanni di Bicci di M., duque pertencente ao grão-ducado da Toscana, viúvo e morador no Palácio di Bicci, nos arredores de Siena, achando-me com saúde, em meu perfeito juízo e livre de toda e qualquer coação, faço meu testamento do modo seguinte: Primeiro – Declaro que sou natural de Florença, donde procedem os meus ancestrais, todos eles comerciários e homens públicos, já falecidos; Segundo – Que me tendo consorciado com Ângela Venturi di Bicci, já falecida, tive do matrimónio três filhos: Grazziella, Carlo e Juliana, todos menores, vivos; Terceiro – Que me sendo permitido por lei dispor de minha terça e desejando favorecer aqueles que me têm servido e a quem amo, aos quais sempre tenho protegido e, não desejando que fiquem pela minha morte privados dos recursos necessários para a subsistência, resolvi utilizar da minha terça pela forma abaixo declarada; e nesta conformidade: Quarto – Determino que uma terça parte do que me pertence e de que posso dispor seja entregue à Catedral de Siena, para obras de piedade e celebração de missas pela minha e pela alma da Senhora duquesa, ficando as partes restantes para Lúcia, que serviu admiravelmente à minha esposa e a mim me tem servido com devoção. Deixo a cada um dos meus criados, quando eu vier a falecer e, que ainda estiverem ao meu serviço, a importância de mil escudos, moeda toscana que lhes será entregue dentro de trinta dias, a contar da minha morte; Quinto – Como pelo falecimento de minha mulher os meus filhos já são possuidores das duas terças que lhes pertencem, a eles peço manter os meus desejos, já que lhes não fará falta o de que disponho, sendo esta a minha vontade; Sexto – Se, todavia, alguma desgraça vier a suceder aos meus filhos, de que lhes resulte a morte, todos os meus pertences devem passar à propriedade da aia de minha mulher, Lúcia di Francesco Felsina, a quem nomeio, desde já, tutora dos referidos menores, pela minha exclusiva vontade e com permissão da Justiça; Sétimo – Para Girólamo, a quem a minha extinta mulher tanto queria, este espólio somente lhe chegará às mãos por extinção das pessoas citadas neste testamento; e quando ele falecer, tudo será encaminhado à Ordem da Penitência, em Florença, sendo metade para obras de arte e a outra metade para missas pelos meus familiares; Oitavo – Excluo deste testamento quaisquer pessoas que se apresentem como meus familiares, aqui não referidos e que não necessitam do meu auxílio; Nono – E por esta forma tenho feito o meu testamento, pelo qual revogo todos os outros que fiz; e como me seria penoso escrevê-lo, pedi-o ao notário Dom Germano Victorio, a quem nomeio meu testamenteiro desta cidade, para que o fizesse por mim e, eu vou rubricar depois de lido e certificado de que está tal qual eu ditei e quero. Siena, doze de Janeiro de mil setecentos e quarenta e três.”

– Devidamente assinado e aprovado, como pode ser visto – arrematou o tabelião –, devemos atender às exigências de Dom Giovanni.

Irromperam entre os assistentes diversas exclamações de ódio e violência, surgindo alterações entre membros da família, que se acreditavam ludibriados. Revoltados, informaram que apelariam para a Justiça da Capital.

Girólamo, abraçado pelo Bispo, chorava ou fazia crer que chorava. Dizia desconhecer o documento, no que foi ratificado pelo notário, que informou jamais o ter revelado a alguém – conquanto fosse conhecido dipsomaníaco, na cidade –, e pelo prelado da diocese, que se sentia ufano de ter sido a Igreja lembrada pelo falecido. Rejubilava-se, acreditando poder receber, também, um largo quinhão de Girólamo, quando este entrasse na posse dos bens, tendo em vista serem amigos e ter-se transformado em seu protector desde os aziagos acontecimentos já narrados.

O Senhor Bispo, tomando a palavra no tumulto geral, tornando-se juiz da questão, levantou a voz e bradou:

– Como os demais herdeiros – as crianças de di Bicci e a criminosa Lúcia – se encontram mortos, todo o espólio por lei e direito pertence, desde este momento, a Girólamo, a quem cumpre o dever de atender os desejos do seu tio e pai adoptivo, Dom Giovanni – que Deus lhe guarde a alma, nos Céus!

– Não posso receber nada, – falou o rapaz. – Esta casa está manchada pelo sangue de inocentes vítimas e esse dinheiro é amaldiçoado. Não posso, não posso!

– Acalme-se, meu filho! – redarguiu o Bispo. – Celebraremos algumas missas aqui e abençoaremos o solar. Você ajudará a Igreja, terá o que merece e o que lhe pertence pela vontade de Deus e do Senhor di Bicci.

Os familiares di Bicci di M., talvez recordando o antigo prestígio de que gozavam até há pouco, ameaçaram, furibundos, tudo retomar, utilizando-se do fastígio que lhes aureolava o nome, junto a Francisco de Lorena, da Áustria, e prometeram regularizar a situação posteriormente, expulsando a espadas o usurpador. Blasfemando, encolerizados, saíram em direcção a Siena…

Asserenadamente, deixaram-se ficar alguns convidados, as testemunhas, que assinaram o documento, o notário e o Senhor Bispo, para uma demorada comemoração em família.

Girólamo, aparentando uma emoção, uma tristeza que estava longe de sentir, solicitou ao testamenteiro e ao Senhor Bispo que cuidassem das questões legais, enquanto ele se afastaria com destino a Florença para um justo repouso, a fim de reorganizar as ideias, muito violentadas nos últimos tempos. Voltaria um mês depois, quando, de posse dos haveres, saberia recompensá-los devida, regiamente.

Os olhos dos comensais espúrios do favor nefando brilharam e a noite continuou sombria, piscando estrelas no alto.

/…


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 3. O TESTAMENTO (2 de 3), 9º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

domingo, 4 de março de 2018

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo IV

A FILOSOFIA CIENTÍFICA DE GUSTAVE GELEY (II)

Seguindo o fio do seu pensamento filosófico, vê-se que Geley continuou a analisar a constituição do Ser, segundo os princípios da nova ideia. Considerou o Eu como um dinamopsiquismo essencialem contraposição à psicologia clássica, que o considera como a soma de estados de consciência e, que o consciente e o inconsciente se interpenetram para se condicionar reciprocamente. Conceituou, sempre apoiado nos factos, que o dinamopsiquismo inconsciente ou subconsciente tende, pela evolução, a converter-se em dinamopsiquismo consciente; por isso é que todas as aquisições conscientes são assimiladas e convertidas em faculdades do espírito.

Dessa maneira, o Ser se desenvolve, ou se manifesta e, adquire, fixando-as, as novas faculdades do sentir, do conhecer e do saber. O progresso espiritual e psicológico resume-se, portanto, na conversão dos conhecimentos em faculdades, o que a filosofia espírita denomina evolução palingenésica. O Ser alcança, pela experiência científica e pela indução filosófica, a síntese do indivíduo, que, como essência manifestante que é, se objectiva em representações hierárquicas, que se condicionam reciprocamente e, que, segundo os conhecimentos metapsíquicos actuais, são:

mental.

O dinamismo vital.

A substância orgânica única.

Consequentemente, mostrou-nos que os factos psicológicos (em psicologia clássica são ainda um mistério puro) resultam, para a parapsicologia, de estados anormais, que têm pontos de contacto inevitáveis e recíprocas relações, que se interpenetram frequentemente.

A evolução universal era, para Geley, como já sabemos: a passagem do inconsciente ao consciente no UniversoConcebeu o Cosmos como um dinamopsiquismo essencial e, também como representação.

“Da mesma maneira que o indivíduo, — escreveu — o Universo deve conceber-se como representação temporária e como dinamopsiquismo essencial e real. Do mesmo modo que o organismo do indivíduo é apenas o produto ideoplástico de um dinamopsiquismo essencial, assim o Universo se apresenta como a formidável materialização da potencialidade criadora.”

Dentro deste princípio, a evolução é a aquisição da consciência, tanto no microcosmo como no macrocosmo. Por isso explicou Geley que as faculdades evolutivas, que no transformismo clássico não têm um esclarecimento racional, se tornam compreensíveis quando vemos que o mais pode sair do menos, desde que a imanência criadora, que está na própria essência das coisas, possui todas as capacidades potenciais de realização. Em resumo, proclamou: “que a evolução colectiva, como a evolução individual, pode resumir-se nesta fórmula: passagem do inconsciente ao consciente.”

Para corroborar esta concepção, escreveu Geley:

“No indivíduo, o Ser aparente, submetido ao nascimento e à morte, limitado nas suas capacidades, efémero na sua duração, não é o Ser real; não é senão uma representação ilusória, atenuada e fragmentária.”

“O Ser real, aprendendo pouco a pouco a conhecer-se a si mesmo e a conhecer o Universo, é a centelha divina a caminho de realizar a sua divindade, infinita nas suas potencialidades, criadora e eterna. No Universo manifestado, as diferentes aparências das coisas não são mais do que a representação ilusória, atenuada e restrita, da unidade divina, realizando-se numa evolução indefinida.”

“A constituição dos mundos e dos indivíduos — dizia — não é, também, senão a realização progressiva da consciência eterna, pela multiplicidade progressiva de criações temporárias ou de objectivações”'.

É neste ponto que o génio filosófico de Geley atinge o coroamento do seu idealismo metapsíquico, o qual, segundo René Sudre, constituía um ensinamento superior do espiritismo. Sem exaltadas declamações, já que frente ao materialismo resultariam estéreis, refutou o “grito lacerante” de pessimismo que lançava “um grande príncipe árabe do século X, no reinado que marcou o apogeu do Califado de Córdoba.”

— Em que consiste esta existência? – perguntava o príncipe a si mesmo.

— Em trabalhar um quarto de século para adquirir os meios de vida; em lutar outro quarto de século em incessantes sobressaltos, para que estes meios produzam um rendimento suficiente e; depois morrer, sem saber, na verdade, por que vivemos, – respondeu-lhe o seu próprio sentido pessimista da vida.

“Quantas dores e tristezas, — anotou Geley — sobressaltos e medos, durante o pequeno quarto de século em que o homem “desfruta” das suas aquisições! Juventude efémera, com as suas ilusões perdidas; vida empregada em se preparar para viver; esperanças sempre falidas e sempre ressurgindo; algumas flores apanhadas à beira do caminho, quase sempre emurchecidas ao toque das mãos; alguns momentos de repouso e em seguida a marcha apressada que recomeça! Naufrágios pessoais; naufrágios familiares; trabalho rude e descanso; medos, desilusões e decepções: isso é o corrente para o comum dos mortais. Para aqueles que têm um “ideal”, é pior ainda: alguns destinos em busca da ilusão, e inauditos esforços para alcançá-la.”

Esta é a vida humana, do ponto de vista do existencialismo ateu e do materialismo histórico, sobre o qual se funda a concepção marxista. Perante esta concepção sombria do mundo, Geley analisa o conceito optimista daquelas escolas que dizem se poder esperar uma era de menos dores, menos miséria e menos enfermidades. Numa palavra: em vez de uma noite escura de infortúnios e sofrimentos, iluminada apenas por alguns raios de gozo efémero, devemos esperar, — segundo estas escolas, — uma aurora de bem-estar, em que as sombras da dor farão apenas ressaltar melhor a sua refulgente harmonia e beleza.

A este falso optimismo da vida, Gustave Geley responde da seguinte maneira:

“Sim, podemos esperar tudo isso! Mas esta humanidade, chegando a gozar desse ideal, verá o seu triunfo e a sua felicidade erguerem-se sobre a hecatombe das gerações passadas; isto é, desfrutará de uma felicidade que os homens não terão merecido, do mesmo modo que os seus antepassados não mereceram as suas misérias!”

“Há nesta concepção, — acrescentava, — uma tão grande injustiça que basta por si só para acarretar irresistivelmente o mais cru pessimismo filosófico.” Ao contrário, para que a visão mude, para que o pensamento das misérias humanas e da morte se despoje do seu carácter sombrio e da sua aparência maldita, é preciso a ideia e o ensinamento da doutrina palingenésica. Então: “tudo se esclarece, — dizia Geley, — os túmulos deixam de ser túmulos; são asilos passageiros para o fim da jornada.” E continuava: “Assim como desaparece, com a ideia palingenésica, o carácter fúnebre da morte, assim também desmorona o monumento da injustiça, edificado pelo evolucionismo clássico. Já não há, na evolução, sacrificados nem privilegiados. Todos os esforços individuais e colectivos, todos os sofrimentos e amarguras terão acabado na realização da justiça e na preparação do bem; mas o bem e a justiça para todos, porque todos teremos contribuído para isso.”

E antepondo-se às falsas interpretações dos fenómenos metapsíquicos, como se falasse ao mais puro da espécie, disse:

“Não; a essência una, seja qual for o nome que se lhe dê, criadora das representações sem número, não acaba materializando-se nessa vã fantasmagoria de mundos, de formas e de seres sem passado e sem futuro; representações absurdas, mundos sem coerências, de obscuridades ou de loucura; vãos fantasmas desvanecidos quase ao mesmo tempo que criados e, desvanecidos sem deixar rasto! Não; a essência una não acaba, com maior razão, criando mundos de dor, para que sirvam de marco ao sofrimento universal imerecido, inútil, e infecundo.”

“As representações fugitivas, — acrescentava, — não são nem incoerentes nem desventuradas; graças a elas e por - elas, a essência única, a única realidade chega paulatinamente, por inumeráveis experiências, a conhecer-se pouco a pouco a si mesma, individual e colectivamente, nas partes e no todo.”

“As representações, compreendidas finalmente, revelam uma soberana harmonia. Delas se depreende o fim supremo, a finalidade verdadeiramente divina. A harmonia é o acordo imanente de umas com as outras, a estreita solidariedade das parcelas individualizadas do princípio único e de sua união irrefragável no todo.”

“O objecto é a aquisição da consciência, o passo indefinido do inconsciente ao consciente. é assim que se desenvolvem todas as potencialidades (sendo a realização a evolução) da soberana inteligência, da soberana justiça e do supremo bem”.

O que nos parece estranho e incompreensível é a cultura filosófica continuar ignorando a teoria do dinamopsiquismo, exposta sobre bases experimentais por Gustave Geley, no seu livro Do Inconsciente ao ConscienteEsta obra, que deveria ser o fundamento da nova filosofia idealista, permanece quase esquecida ao lado do Tratado de Metapsíquicade Charles Richet. Não reparam os pensadores que é nos princípios ali expostos que se encontra a autêntica raiz do pensamento metafísico. Se a filosofia se detivesse por um momento no pensamento metapsíquico de Geley, encontraria a mais sólida base para realizar um novo e firme trabalho filosófico. Acreditamos que, com a filosofia idealista da metapsíquica, a filosofia passará, a bem do conhecimento, da filosofia à teosofia, isto é, de uma ciência naturalista a uma ciência cósmica e espiritualista. Tinha muita razão o dr. J. B. Rhine ao reclamar a colaboração dos filósofos nos problemas levantados pela parapsicologia. (i)

A teosofia (ii) é o mais perfeito saber que pode orientar o homem, através dos seus sentidos mediúnicos e espirituais. O ser humano possui duas formas de compreender a verdade: uma, a objectiva; outra, a subjectiva. Disto se conclui que o saber não é uma questão somente física ou sensorial; é também uma problemática psíquica e intuitiva.

O homem compreende e conhece o mundo pelas vias da razão e do seu contacto com o mundo material, mas pode compreendê-lo e reconhecê-lo também por meio do espírito, isto é, por vias extras-sensoriais, tal como o confirmaram a parapsicologia e a metapsíquica.

A possibilidade de um conhecimento místico do mundo é uma justa aspiração e um direito legítimo do homem. Penetrar os recessos da natureza é talvez descobrir a própria alma das coisas. Isto constituiria uma teosofia do Conhecimento e não somente uma filosofia. Além disso, significaria descobrir o segredo oculto das existências, o desvelar poético das Idades, conhecer o enigma das aventuras, lendas e heroísmos do homem, na certeza de que tudo vive, existe e se relaciona, através do grande curso e recurso das almas.

/…
(i) A participação dos filósofos é um sinal inequívoco do progresso da parapsicologia, rumo à sua maturidade. (Revista de Parapsicologia n° 2, Buenos Aires, 1955).
(ii) A palavra teosofia é empregada pelo autor em sentido espírita, na sua significação etimológica de “sabedoria de Deus” ou “conhecimento de Deus”, filosoficamente entendida como “ciência do Ser”. Não confundir, portanto, com as doutrinas teosóficas conhecidas, que são apenas aproximações da verdadeira teosofia. (Nota de José Herculano Pires).


Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo IV A Filosofia Científica de Gustave Geley, 2 de 2, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)