I
Todos aqueles que percorreram a Lombardia conhecem o
Lago de Como, retalho
do céu de Itália caído por entre as montanhas, esse maravilhoso éden onde a
natureza se senta no trono, ornada por uma festa eterna. As linhas sinuosas dos
montes que o rodeiam, e o espelho límpido e azul das suas águas, formam um
surpreendente contraste.
Cidades e brancas aldeias se sucedem sobre as suas margens como pérolas de um
colar. Acima delas, sobre o flanco das colinas, se dispõem jardins em terraços
que se revestem, em disputa pela primazia, de laranjeiras, limoeiros,
romãzeiras e figueiras. Mais para o alto, a folhagem pálida das amendoeiras, o
cinzento de prata das oliveiras, os pâmpanos das videiras, atapetam os declives.
Como graciosas cidades, pintadas de cores suaves, as copas de grandes árvores
sombreando, brancas estátuas, abrem-se aqui e ali nesse verdejante manto.
Ao longe, os Alpes se elevam majestosos, coroados de um diadema de grinaldas.
Sobre tudo isso, resplandece a luz do meio-dia, luz radiosa que reveste de tons
deslumbrantes, as cristas das rochas, e as velas dos barcos de pesca, que
deslizam numerosos sobre o pacífico lago.
Para apreciar a poesia serena desses lugares, apanhe uma barca e faça-se ao largo
quando chega a hora do crepúsculo. Nesse momento, uma brisa ligeira enruga as
águas e faz estremecer as tamarineiras na margem. O odor penetrante das murtas
casa-se aos doces cheiros das laranjeiras e dos limoeiros. De todos os pontos
do lago se elevam cantos. É a hora em que os trabalhadores dos campos e os
jovens trabalhadores das fábricas retornam às aldeias, cantando as
barcarolas. As suas
melodias chegam até nós enfraquecidas pela distância, e, na calma do entardecer,
parecem descer do céu.
Logo, a esses sons se juntam outros sons, os dos instrumentos de música vindos
da costa e das vilas iluminadas. O lago inteiro vibra como uma harpa. E assim,
acrescentando à magia desta cena,
o astro das noites mostra o
seu disco por cima das montanhas; sob os seus raios peneirados, os cumes
alpestres se coloram; ele lança sobre as águas transparentes as suas longas
caudas de prata fluida; então, esse ar inebriado, esses céus tão doces, esses
perfumes, essas harmonias, esses jogos de luz e sombras, tudo isso, preenche a
nossa alma de uma emoção deliciosa, inexprimível.
Uma graça encantadora envolve toda a região sul do lago; entretanto, mais no
alto, na direcção do norte, aproximando-se dos Alpes, o aspecto faz-se severo,
imponente. As rochas têm formas mais ásperas; os montes são mais abruptos. Os
jardins e as plantações de oliveiras dão lugar aos castanheiros, aos sombrios
pinheiros. Grandes picos, calvos, solitários, observam do fundo do horizonte e
parecem sonhar.
Próximo de Gravedona abre-se um vale estreito, percorrido por uma torrente que
salta de rocha em rocha e faz brotar as suas águas vivas em cascatas alegres.
Algumas modestas habitações estão espalhadas pelo verde. Ao pé de uma queda
retumbante, pela qual a torrente se precipita nos últimos contrafortes, um
moinho desabando de velhice faz ouvir o seu barulho monótono. De lá, uma vereda
segue as desigualdades do solo escalando as escarpas, mergulha nas ravinas
pedregosas e, através dos cistes, das aveleiras, das salvas e dos buxos,
termina num último casebre que dois grandes freixos protegem com a sua sombra.
À volta dos seus troncos robustos, as guirlandas de uma videira se enrolam.
Elas enlaçam os galhos com os seus festões e quando ficam autónomas, deixam
pender os seus belos cachos de uvas italianas, de meio metro de comprimento, de
bagos oblongos, saborosos, crocantes que estalam entre os dentes. O casebre
está quase inteiramente escondido sob uma espessa camada de hera.
Sobre o seu telhado, transformado em canteiro, gramíneas germinam, flores
desabrocham. As andorinhas construíram os seus ninhos entre as traves. Ao menor
ruído, vêem-se aparecer as suas pequenas cabeças inquietas.
Um vasto cercado, invadido pelas heras e plantas selvagens, se estende atrás da
cabana, e um estábulo vazio, deteriorado, aberto a todos os ventos, se apoia na
sebe densa.
Há alguns anos, o aspecto desse canto de terra era todo diferente. O jardim,
conservado com cuidado, era produtivo, agradável à vista; o estábulo abrigava
duas belas cabras e um asno vigoroso. Piétro Menoni habitava essa cabana com a
sua mulher Marta e as suas três crianças. Toda esta família vivia do produto do
cercado.
Todas as semanas, Piétro carregava o seu asno, Ruffo, de cestas de frutas, cestos
de legumes e jarras de óleo que ele ia vender no mercado de Gravedona. No
inverno, havia o leite das cabras, as castanhas em quantidade e, durante os
longos serões, trançavam-se os cestos e preparavam-se as guarnições de vime que
preservavam os “frascos” de vinho.
A abundância reinava nesta casa. Mas vieram os maus dias: Piétro, atingido por
uma doença grave, definhou muito, e morreu. Foi preciso vender as cabras e o
Ruffo, por sua vez, partiu. O jardim, abandonado, não produzia mais, e a
miséria caiu sobre a humilde família. Sujeita a um incessante labor, minada por
dolorosas preocupações, Marta sentiu as suas forças se esvaírem rapidamente.
Penetrando por este lar vemos, sobre um catre, essa mulher envelhecida antes do
tempo, a pele tingida de amarelo, as faces cavadas, os olhos brilhantes de
febre; eis o que as vigílias, o sofrimento e as lágrimas fizeram da robusta
camponesa. As suas três crianças estão junto dela. A mais velha, Léna, mocinha
de quinze anos, de membros franzinos, fisionomia já murcha pelas privações e
pela inquietude, está sentada num banquinho, perto da cama, e remenda alguns
farrapos usados.
Os seus pequenos irmãos, meio deitados sobre a terra batida, estão tentando
trançar uma cesta. As paredes são nuas, alvejadas com cal. Num canto, as folhas
de samambaia amontoadas servem de leito aos garotos. Uma Nossa Senhora de
madeira, recoberta por um trapo de pano outrora azul, algumas grosseiras
imagens de santos, formam, com os móveis rústicos, os únicos ornamentos do
aposento. Um penoso silêncio, apenas perturbado pela respiração oprimida da
doente, reina na cabana. Os raios dourados, penetrando pela grande porta
aberta, brincam no seio desta miséria.
Mas um ruído ligeiro se faz escutar do lado de fora. Dir-se-ia o roçar de um
pano sobre a areia da vereda. As crianças se voltam e soltam exclamações
alegres. Uma jovem está de pé no portal de entrada. É mesmo uma moça? Não será,
antes de tudo, uma criatura sobre-humana, uma aparição celeste? O sol,
iluminando as suas tranças loiras, coroam a sua fronte como uma espécie de
auréola.
O seu vestido branco, o seu talhe esbelto, os seus traços
charmosos, a tornam semelhante às virginais pinturas de Rafael Sanzio. Ela
avança e, vendo-a, a figura emagrecida de Marta se ilumina de um pálido
sorriso; as crianças rodeiam-na. Ela inclina-se em direcção à enferma, a sua
mão branca e doce pressiona os seus dedos ardentes, e lhe fazem ouvir palavras
consoladoras e amigas. Uma senhora, curvada sob o peso de um enorme cesto entra
por sua vez; coloca, estafada e calma, decididamente, sobre um baú de madeira,
provisões de toda a espécie, uma garrafa de vinho generoso, roupas de vestir,
uma coberta. Esses objectos se acumulam sobre a mobília, acanhada demais para
os receber.
Pelo ar afectuoso da moça, o desvelo com o qual foi acolhida, a festividade,
adivinha-se
que essas visitas vão ser frequentes. A loura e graciosa jovem é
a
providência neste humilde aposento, como em todos aqueles do vale onde
há aflições a consolar, prantos a enxugar, sofrimentos a curar. É por isso que
a chamam a fada dos pobres.
Giovanna (Joana) Speranzi nasceu na vila dos Lentisques, da qual se
distinguem, do vale, os terraços embranquecidos.
Os seus dezoito anos decorreram nesses lugares amados de sol e de flores.
Diz-se que a alma está ligada, por secretas influências, às regiões em que ela
habita, para que participe de sua graça ou de sua rudeza. Sob esse céu límpido,
no melhor desta natureza serena,
Giovanna cresceu e todas as
harmonias físicas e morais se uniram para fazer dela uma maravilha de beleza,
de perfeição. Ela é alta; a sua pele é branca, a sua cabeleira loira, espessa e
sedosa, a sua boca miúda guarnecida de dentes pequenos, brilhantes, os seus olhos,
de um azul profundo e doce.
A sublimidade do rosto lhe dá um quê de
nobreza, de ideal de pureza. Uma claridade parece envolvê-la. Malgrado a
expressão de melancolia que lhe é habitual, Giovanna, na flor das
suas dezoito primaveras, é uma das mais encantadoras moças do Milanais. Órfã
aos treze anos, conservou da perda dos seus pais uma lembrança sempre viva.
Tornou-se pensativa, recolhida, a sua fronte contemplativa se pende
frequentemente em direcção à terra onde dormem os mortos amados. Ardentes
aspirações a levam às coisas do alto, a Deus, ao infinito. Não desdenha o
mundo, entretanto, um tesouro de sensibilidade, de inefável caridade está
contido no seu coração; toda pena, toda dor, aí despertam um eco. Por isso,
consagra a sua vida àqueles que choram.
Ela não conhece nenhuma alegria
mais doce, nenhuma tarefa mais cativante do que socorrer, consolar os
infelizes.
Assim decorre a sua juventude, entre uma tia enferma e uma velha ama de leite
que vela por ela e a acompanha nas suas visitas aos indigentes.
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