quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~

O Druidismo

Se aplicava sobretudo a desenvolver a personalidade humana, em vista da evolução que lhe é destinada. Ele cultivava as qualidades activas, o espírito de iniciativa, a energia, a coragem; Tudo o que permite afrontar as provas, a adversidade, a morte com uma inflexível segurança. Esse ensino desenvolvia, no mais alto grau, entre os homens o sentimento do direito, da independência e da liberdade. Em compensação, ele era censurado por ter negligenciado em demasia as qualidades passivas e os sentimentos afectivos. Os gauleses eram iguais e livres, mas eles não tinham uma consciência suficiente dessa fraternidade universal que assegura a unidade de um grande país e constitui a sua salvaguarda na hora de perigo.


O Druidismo tinha necessidade desse complemento que o Cristianismo de Jesus lhe proporcionou. Nós falamos do Cristianismo primitivo, ainda não alterado pela acção do tempo, e que nos primeiros séculos apresentava tanta analogia com as crenças célticas porquanto ele reconhecia a unidade de Deus, a sucessão das vidas da alma e a pluralidade dos mundos. Eis por que os celtas o adoptaram com tanta presteza visto estarem mais bem preparados pelas suas próprias aspirações.

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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO I – Origem dos celtas, Guerra dos gauleses, Decadência e queda, Longa noite; o despertar. O movimento pancéltico – O Druidismo, 2º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: The Apotheosis of the French Heroes who Died for their Country During the War for Freedom_1802, pintura de Anne-Luis GIRODET-TRIOSON)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

o sentido da vida ~

O Sentido da Vida

O fardo da existência torna-se demasiado pesado para a criatura humana, quando, vencendo os primeiros anos de ilusão e de fácil entusiasmo, ela se encontra envolvida na dura e monótona rotina quotidiana. Os dias e as noites se tornam iguais, ou variam muito pouco, e não raro da pior maneira. Sobrevém para o homem o cansaço das obrigações que o escravizam, o perigo constante da doença, do desemprego, dos acidentes e da morte, para ele mesmo e para os que lhe são mais caros, a incerteza dos dias futuros e a angústia das dificuldades financeiras.

Os ricos, bem aquinhoados pela fortuna, despreocupam-se de muitas dessas coisas, que pesam mais fortemente na vida obscura de milhares de pobres, de milhares de pessoas que vivem do suor de seu próprio rosto. Mas, mesmo para eles, a vida reserva o seu quinhão de desilusões e de amarguras. E não raro ela se torna tão amarga, através das dificuldades de família, das lutas inglórias com amigos e parentes, das decepções de toda espécie, que o homem aparentemente felizardo, senhor de grandes fortunas, se enche de tédio e procura uma saída no suicídio ou nas dissipações e no tumulto das paixões impuras.

Os cientistas e os artistas, dizia Goethe, empenham-se no caminho de suas conquistas e realizações, e de nada mais precisam. Os religiosos apegam-se à fé e conseguem superar os próprios dissabores. Entretanto, se analisarmos melhor esses velhos conceitos, à luz das experiências reais, veremos que nem a Ciência, nem a Arte, a Filosofia ou a Religião conseguem de facto salvar o homem do vazio da vida, quando esse vazio se lhe apresenta em todo o seu horror. O estímulo de viver, que esses ramos do conhecimento humano conseguem despertar, pode também esgotar-se, levando o cientista, o artista, o filósofo e o religioso ao desespero e à descrença.

Diante disso, procuram os homens construir várias espécies ou sistemas de explicações para a vida. Numerosos livros foram escritos, milhares de conferências são diariamente pronunciadas, no intuito de tornar suportável a existência para todos, aplainando o escarpado caminho dos desiludidos e descrentes.

Desses sistemas, há um que podemos chamar de heróico. É o materialista, que explica a vida como uma fatalidade natural a que não podemos fugir e que devemos enfrentar com energia e serenidade, sem nos atemorizarmos e sem cometermos a franqueza de uma deserção. Belo sistema para as almas fortes, dotadas da intuição inata de que a vida tem um objectivo oculto, embora intelectualmente o neguem. Mas de que serve todo o heroísmo desse sistema para a grande massa do povo, que não tem disposição para o heroísmo? Se nos fosse possível tornar materialista um povo inteiro, toda uma nação, veríamos a que extremos de desespero e de loucura esse belo sistema nos levaria.

Há um sistema que poderíamos chamar de superficial, e que se enquadra, na filosofia clássica, na corrente do cepticismo, que nos vem do filósofo grego Pirron (aproximadamente 360-270 a.C.). Este sistema nada explica nem quer explicar. Limita-se a considerar a vida como um facto consumado, diante do qual não nos resta fazer outra coisa senão suportá-la. Para os temperamentos frios, naturalmente indiferentes e egoístas, ele pode servir. Mas há momentos em que o próprio egoísta se vê apanhado num torniquete do qual não pode sair e não raro sente que o seu sistema de indiferença lhe escapa das mãos, deixando-o sozinho e desarmado diante do imenso mistério do mundo e da vida.

Há um sistema que chamaríamos de optimista, e que não se funda no pensamento de Epicuro porque é muito inconsequente para ter as suas raízes em tão esplêndida fonte. Segundo ele, a vida é bela, o mundo é magnífico e o homem nasceu para gozar as delícias da vida e os esplendores do mundo. Quando, premido pela doença ou por qualquer outros motivos imperiosos, não pode satisfazer a esse objectivo único da existência, deve ele corajosamente estourar os miolos com uma bala ou atirar-se do último andar do mais elegante arranha-céus. Este sistema encontra, hoje, intérpretes mais ou menos avançados em certos ramos da chamada filosofia existencialista.

Mas há outro sistema, que se enquadra na estrutura doutrinária das várias religiões dominantes no mundo, segundo o qual o homem nasceu para sofrer e o seu destino é a dor, a amargura, a desesperança, a luta constante com as adversidades insuperáveis. É o sistema doloroso do misticismo exasperante, que o povo, entretanto, procura sempre dosar com sua esperança ilógica nos milagres e nas providências dos santos e dos anjos. Há um lema para este sistema, que todos nós conhecemos, e não raro repetimos, por força do hábito: “A felicidade não é deste mundo.”

O Espiritismo, entretanto, ao surgir na Terra, em forma de filosofia e, portanto, de interpretação da vida, em meados do século XIX, opôs-se desde logo a todos esses sistemas. Negou que a vida não tenha objectivo nem significação, combateu a teoria do prazer material como finalidade da existência humana e manifestou-se contrário à ideia de que o homem nasceu para sofrer. Os espíritos que deram a Allan Kardec a tarefa de codificar a doutrina ensinaram-lhe outro sistema, diferente de todos os anteriores. E abriram, com ele, perspectivas novas e mais amplas para a inteligência humana, horizontes mais vastos para o coração angustiado do homem terreno, que se debatia entre a crença empírica numa vida futura e a descrença científica, cada vez mais desesperada, em qualquer possibilidade de sobrevivência.

O Espiritismo renovou fundamentalmente a concepção humana da vida e do mundo, ensinando ao homem que ele não nasceu para gozar nem para sofrer, mas apenas para evoluir, para progredir, como tudo evolui e progride à nossa volta, na natureza e na própria sociedade. A dor deixou de ser um castigo imposto ao homem pela absurda vingança de Deus contra o casal primitivo; o prazer deixou de ser o objectivo aceitável da existência corpórea e ambos, prazer e dor, passaram a ser meras decorrências de um processo mais amplo e mais complexo, em que o homem se acha envolvido, para crescer e se desenvolver, em espírito e verdade.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, O Sentido da Vida 2º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Giovanna ~

I

Todos aqueles que percorreram a Lombardia conhecem o Lago de Como, retalho do céu de Itália caído por entre as montanhas, esse maravilhoso éden onde a natureza se senta no trono, ornada por uma festa eterna. As linhas sinuosas dos montes que o rodeiam, e o espelho límpido e azul das suas águas, formam um surpreendente contraste.

Cidades e brancas aldeias se sucedem sobre as suas margens como pérolas de um colar. Acima delas, sobre o flanco das colinas, se dispõem jardins em terraços que se revestem, em disputa pela primazia, de laranjeiras, limoeiros, romãzeiras e figueiras. Mais para o alto, a folhagem pálida das amendoeiras, o cinzento de prata das oliveiras, os pâmpanos das videiras, atapetam os declives. Como graciosas cidades, pintadas de cores suaves, as copas de grandes árvores sombreando, brancas estátuas, abrem-se aqui e ali nesse verdejante manto.

Ao longe, os Alpes se elevam majestosos, coroados de um diadema de grinaldas. Sobre tudo isso, resplandece a luz do meio-dia, luz radiosa que reveste de tons deslumbrantes, as cristas das rochas, e as velas dos barcos de pesca, que deslizam numerosos sobre o pacífico lago.

Para apreciar a poesia serena desses lugares, apanhe uma barca e faça-se ao largo quando chega a hora do crepúsculo. Nesse momento, uma brisa ligeira enruga as águas e faz estremecer as tamarineiras na margem. O odor penetrante das murtas casa-se aos doces cheiros das laranjeiras e dos limoeiros. De todos os pontos do lago se elevam cantos. É a hora em que os trabalhadores dos campos e os jovens trabalhadores das fábricas retornam às aldeias, cantando as barcarolas. As suas melodias chegam até nós enfraquecidas pela distância, e, na calma do entardecer, parecem descer do céu.

Logo, a esses sons se juntam outros sons, os dos instrumentos de música vindos da costa e das vilas iluminadas. O lago inteiro vibra como uma harpa. E assim, acrescentando à magia desta cena, o astro das noites mostra o seu disco por cima das montanhas; sob os seus raios peneirados, os cumes alpestres se coloram; ele lança sobre as águas transparentes as suas longas caudas de prata fluida; então, esse ar inebriado, esses céus tão doces, esses perfumes, essas harmonias, esses jogos de luz e sombras, tudo isso, preenche a nossa alma de uma emoção deliciosa, inexprimível.

Uma graça encantadora envolve toda a região sul do lago; entretanto, mais no alto, na direcção do norte, aproximando-se dos Alpes, o aspecto faz-se severo, imponente. As rochas têm formas mais ásperas; os montes são mais abruptos. Os jardins e as plantações de oliveiras dão lugar aos castanheiros, aos sombrios pinheiros. Grandes picos, calvos, solitários, observam do fundo do horizonte e parecem sonhar.

Próximo de Gravedona abre-se um vale estreito, percorrido por uma torrente que salta de rocha em rocha e faz brotar as suas águas vivas em cascatas alegres. Algumas modestas habitações estão espalhadas pelo verde. Ao pé de uma queda retumbante, pela qual a torrente se precipita nos últimos contrafortes, um moinho desabando de velhice faz ouvir o seu barulho monótono. De lá, uma vereda segue as desigualdades do solo escalando as escarpas, mergulha nas ravinas pedregosas e, através dos cistes, das aveleiras, das salvas e dos buxos, termina num último casebre que dois grandes freixos protegem com a sua sombra. À volta dos seus troncos robustos, as guirlandas de uma videira se enrolam. Elas enlaçam os galhos com os seus festões e quando ficam autónomas, deixam pender os seus belos cachos de uvas italianas, de meio metro de comprimento, de bagos oblongos, saborosos, crocantes que estalam entre os dentes. O casebre está quase inteiramente escondido sob uma espessa camada de hera.

Sobre o seu telhado, transformado em canteiro, gramíneas germinam, flores desabrocham. As andorinhas construíram os seus ninhos entre as traves. Ao menor ruído, vêem-se aparecer as suas pequenas cabeças inquietas.

Um vasto cercado, invadido pelas heras e plantas selvagens, se estende atrás da cabana, e um estábulo vazio, deteriorado, aberto a todos os ventos, se apoia na sebe densa.

Há alguns anos, o aspecto desse canto de terra era todo diferente. O jardim, conservado com cuidado, era produtivo, agradável à vista; o estábulo abrigava duas belas cabras e um asno vigoroso. Piétro Menoni habitava essa cabana com a sua mulher Marta e as suas três crianças. Toda esta família vivia do produto do cercado.

Todas as semanas, Piétro carregava o seu asno, Ruffo, de cestas de frutas, cestos de legumes e jarras de óleo que ele ia vender no mercado de Gravedona. No inverno, havia o leite das cabras, as castanhas em quantidade e, durante os longos serões, trançavam-se os cestos e preparavam-se as guarnições de vime que preservavam os “frascos” de vinho.

A abundância reinava nesta casa. Mas vieram os maus dias: Piétro, atingido por uma doença grave, definhou muito, e morreu. Foi preciso vender as cabras e o Ruffo, por sua vez, partiu. O jardim, abandonado, não produzia mais, e a miséria caiu sobre a humilde família. Sujeita a um incessante labor, minada por dolorosas preocupações, Marta sentiu as suas forças se esvaírem rapidamente.

Penetrando por este lar vemos, sobre um catre, essa mulher envelhecida antes do tempo, a pele tingida de amarelo, as faces cavadas, os olhos brilhantes de febre; eis o que as vigílias, o sofrimento e as lágrimas fizeram da robusta camponesa. As suas três crianças estão junto dela. A mais velha, Léna, mocinha de quinze anos, de membros franzinos, fisionomia já murcha pelas privações e pela inquietude, está sentada num banquinho, perto da cama, e remenda alguns farrapos usados.

Os seus pequenos irmãos, meio deitados sobre a terra batida, estão tentando trançar uma cesta. As paredes são nuas, alvejadas com cal. Num canto, as folhas de samambaia amontoadas servem de leito aos garotos. Uma Nossa Senhora de madeira, recoberta por um trapo de pano outrora azul, algumas grosseiras imagens de santos, formam, com os móveis rústicos, os únicos ornamentos do aposento. Um penoso silêncio, apenas perturbado pela respiração oprimida da doente, reina na cabana. Os raios dourados, penetrando pela grande porta aberta, brincam no seio desta miséria.

Mas um ruído ligeiro se faz escutar do lado de fora. Dir-se-ia o roçar de um pano sobre a areia da vereda. As crianças se voltam e soltam exclamações alegres. Uma jovem está de pé no portal de entrada. É mesmo uma moça? Não será, antes de tudo, uma criatura sobre-humana, uma aparição celeste? O sol, iluminando as suas tranças loiras, coroam a sua fronte como uma espécie de auréola. O seu vestido branco, o seu talhe esbelto, os seus traços charmosos, a tornam semelhante às virginais pinturas de Rafael Sanzio. Ela avança e, vendo-a, a figura emagrecida de Marta se ilumina de um pálido sorriso; as crianças rodeiam-na. Ela inclina-se em direcção à enferma, a sua mão branca e doce pressiona os seus dedos ardentes, e lhe fazem ouvir palavras consoladoras e amigas. Uma senhora, curvada sob o peso de um enorme cesto entra por sua vez; coloca, estafada e calma, decididamente, sobre um baú de madeira, provisões de toda a espécie, uma garrafa de vinho generoso, roupas de vestir, uma coberta. Esses objectos se acumulam sobre a mobília, acanhada demais para os receber.

Pelo ar afectuoso da moça, o desvelo com o qual foi acolhida, a festividade, adivinha-se que essas visitas vão ser frequentes. A loura e graciosa jovem é a providência neste humilde aposento, como em todos aqueles do vale onde há aflições a consolar, prantos a enxugar, sofrimentos a curar. É por isso que a chamam a fada dos pobres.

Giovanna
 (Joana) Speranzi nasceu na vila dos Lentisques, da qual se distinguem, do vale, os terraços embranquecidos.

Os seus dezoito anos decorreram nesses lugares amados de sol e de flores. Diz-se que a alma está ligada, por secretas influências, às regiões em que ela habita, para que participe de sua graça ou de sua rudeza. Sob esse céu límpido, no melhor desta natureza serena, Giovanna cresceu e todas as harmonias físicas e morais se uniram para fazer dela uma maravilha de beleza, de perfeição. Ela é alta; a sua pele é branca, a sua cabeleira loira, espessa e sedosa, a sua boca miúda guarnecida de dentes pequenos, brilhantes, os seus olhos, de um azul profundo e doce. A sublimidade do rosto lhe dá um quê de nobreza, de ideal de pureza. Uma claridade parece envolvê-la. Malgrado a expressão de melancolia que lhe é habitual, Giovanna, na flor das suas dezoito primaveras, é uma das mais encantadoras moças do Milanais. Órfã aos treze anos, conservou da perda dos seus pais uma lembrança sempre viva. Tornou-se pensativa, recolhida, a sua fronte contemplativa se pende frequentemente em direcção à terra onde dormem os mortos amados. Ardentes aspirações a levam às coisas do alto, a Deus, ao infinito. Não desdenha o mundo, entretanto, um tesouro de sensibilidade, de inefável caridade está contido no seu coração; toda pena, toda dor, aí despertam um eco. Por isso, consagra a sua vida àqueles que choram. Ela não conhece nenhuma alegria mais doce, nenhuma tarefa mais cativante do que socorrer, consolar os infelizes.

Assim decorre a sua juventude, entre uma tia enferma e uma velha ama de leite que vela por ela e a acompanha nas suas visitas aos indigentes.

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Léon Denis, Giovanna_1880, I 1º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Retrato, pequena pintura que especialistas de arte italiana atribuem a Rafael Sanzio)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

o grande enigma ~

ao leitor ||

A Justiça!

Se há neste mundo uma necessidade imperiosa para todos os que sofrem, para quantos têm a alma dilacerada, não é essa a de crer, de saber que a justiça não é uma palavra vazia; que há, de qualquer maneira, compensações para todas as dores, sanção para todos os deveres, consolação para todos os males?

Ora, essa justiça absoluta, soberana, quaisquer que sejam as nossas opiniões políticas e as nossas vistas sociais, deve reconhecer perfeitamente, não é do nosso mundo. As instituições humanas não a comportam.

Embora chegássemos a corrigir, a melhorar essas instituições e, por conseguinte, a atenuar muitos males, a diminuir a soma das desigualdades e das misérias humanas, há causas de aflição, enfermidades cruéis e inatas contra as quais seremos sempre impotentes: a perda da saúde, da vista, da razão, a separação dos seres amados e todo o imenso séquito dos sofrimentos morais, tanto mais vivos quanto o homem é mais sensível e a civilização mais apurada.

Apesar de todos os melhoramentos sociais, nunca obteremos que o bem e o mal encontrem neste mundo integral sanção. Se existe essa justiça absoluta, o seu tribunal não pode estar senão no Além! Mas quem nos provará que esse Além não é um mito, uma ilusão, uma quimera? As religiões, as filosofias passaram; elas desdobraram sobre a Alma humana o manto rico das suas concepções e das suas esperanças. Entretanto, a dúvida subsistiu no fundo das consciências. Uma crítica minuciosa e sábia tem passado em estreito crivo todas as teorias de outrora. E desse conjunto maravilhoso só resultaram ruínas.

Mas, em todos os pontos do globo, fenómenos psíquicos se produziram. Variados, contínuos, inumeráveis, traziam a prova da existência de um mundo espiritual, invisível, regido por princípios rigorosos, tão imutáveis quanto os da matéria, mundo que guarda nas suas profundezas o segredo das nossas origens e dos nossos destinos. Uma nova ciência nasceu baseada nas experiências, nas pesquisas e nos testemunhos de sábios eminentes; uma comunicação se estabelecera com esse mundo invisível que nos cerca e uma revelação poderosa banha a Humanidade qual uma onda pura e regeneradora.

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Léon Denis, O Grande Enigma, ao leitor (2 de 3) 2º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali)

domingo, 15 de dezembro de 2013

~ destruição dos seres vivos uns pelos outros ~

A destruição dos seres vivos é uma das leis da natureza que, à primeira abordagem, se parece conciliar menos com a bondade de Deus. Perguntamos por que razão lhes deu a necessidade de se entredestruírem para se alimentarem à custa uns dos outros.

Para os que só vêem a matéria, que limita a sua visão presente, isto parece de facto uma imperfeição da obra divina. É que, em geral, os homens avaliam a perfeição de Deus sob o seu ponto de vista; a sua própria avaliação é a medida da sua sabedoria e pensam que Deus não poderia fazer melhor do que eles mesmos. Não lhes permitindo a sua curta visão avaliar o conjunto, não percebem que um bem real possa sair de um mal aparente. O conhecimento do princípio espiritual, considerado na sua verdadeira essência, e só a grande unidade que constitui a harmonia da Criação pode dar ao homem a chave deste mistério e mostrar-lhe a sabedoria providencial e a harmonia, exactamente onde só via uma anomalia e uma contradição.

A verdadeira vida, tanto do animal como do homem, não está mais no invólucro do que no vestuário; e está no princípio inteligente que existe previamente e sobrevive ao corpo. Este princípio tem necessidade do corpo para se desenvolver através do trabalho que deve realizar sobre a matéria bruta; o corpo gasta-se neste trabalho, mas o Espírito não se gasta; pelo contrário, fica cada vez mais forte, mais lúcido e mais capaz. Que importa então que o Espírito mude mais ou menos de invólucro! Não deixa por isso de ser o Espírito; é absolutamente como se um homem renovasse cem vezes o vestuário durante o ano: não deixaria por isso de ser o mesmo homem.

Pelo espectáculo constante da destruição. Deus ensina aos homens o pouco caso que devem fazer do invólucro material e suscita neles a ideia da vida espiritual, fazendo com que a desejem como compensação.

Deus, dir-se-á, não poderia atingir o mesmo resultado por outros meios e sem obrigar os homens a destruírem-se uns aos outros? Se tudo é sabedoria na sua obra, devemos supor que essa sabedoria não deve falhar neste ponto mais que nos outros; se não o compreendemos, temos de culpar a nossa fraca evolução. De qualquer maneira, podemos tentar encontrar-lhe a razão tendo como bússola este princípio: Deus deve ser infinitamente justo e sábio; procuremos então em tudo a sua justiça e a sua sabedoria e inclinemo-nos perante o que ultrapassa o nosso entendimento.

Uma primeira utilidade que se nos apresenta como resultado desta destruição, utilidade puramente física, é verdade, é esta: os corpos orgânicos só se conservam com ajuda das matérias orgânicas, sendo estas matérias as únicas a conter os elementos nutritivos necessários à sua transformação. Os corpos, instrumentos de acção do princípio inteligente, tendo necessidade de ser constantemente renovados, servem à sua manutenção mútua por acção da Providência; é por isso que os seres se alimentam uns dos outros; é então o corpo que se alimenta do corpo, mas o Espírito não é anulado nem alterado; é só despojado do seu invólucro. (i)

(i) Ver Revista Espírita de Agosto de 1864, p. 241, Extinção das Raças. (N. do A.)

Existem além disso considerações morais de ordem mais elevada. A luta é necessária ao desenvolvimento do Espírito; é na luta que exerce as suas faculdades. O que o ataca para se alimentar e o que se defende para se conservar a vida, assaltam com astúcia e inteligência e aumentam por isso mesmo as suas forças intelectuais. Um dos dois sucumbe; mas o que é que na realidade o mais forte ou o mais hábil retirou ao mais fraco? A sua roupagem de carne, nada mais; o Espírito, que não está morto, retomará outra mais tarde.

Nos seres inferiores da Criação, naqueles em que o senso moral não existe ou em que a inteligência não substitui ainda o instinto, a luta só teria por objectivo a satisfação de uma necessidade natural; ora, uma das necessidades materiais mais imperiosas é a da alimentação; lutam então unicamente para viver, quer dizer, para captar ou defender uma presa, pois não seriam capazes de ser estimulados por móbil mais elevado. É durante este primeiro período que a alma se elabora e ensaia a vida.

No homem há um período de transição em que mal se distingue da besta; nos primeiros anos, o instinto animal domina e a luta tem também como objectivo a satisfação das necessidades materiais; mais tarde, o instinto animal e o senso moral equilibram-se. O homem luta então não para se alimentar, mas para satisfazer a sua ambição, o seu orgulho, a necessidade de dominar; para isso, necessita ainda de destruir. Mas, à medida que o sentido moral se vai sobrepondo, a sensibilidade desenvolve-se, a necessidade de destruição diminui; acaba mesmo por se apagar e se tornar odiosa; o homem tem horror ao sangue.

No entanto, a luta é sempre necessária para o desenvolvimento do Espírito, pois, mesmo atingido esse ponto que nos parece culminante, está longe de ser perfeito; é unicamente à custa da sua actividade que adquire conhecimentos, experiência e que se despoja dos últimos vestígios de animalidade; mas, a partir desse momento, a luta sangrenta e brutal torna-se puramente intelectual; o homem luta contra as dificuldades e já não contra os seus semelhantes. (ii)

(ii) Sem nada conjecturar sobre as consequências que se podem retirar deste princípio, quisemos só demonstrar, com esta explicação, que a destruição dos seres vivos uns pelos outros não invalida em nada a sabedoria divina e que tudo se encadeia nas leis da natureza. Este encadeamento é necessariamente quebrado se nos abstrairmos do princípio espiritual; é por isso que tantas questões são insolúveis, quando se considera só a matéria.

As doutrinas materialistas comportam em si o princípio da sua destruição; têm contra elas não só o seu antagonismo para com as aspirações da universalidade dos homens, as consequências morais que farão com que sejam repelidos como corruptores da sociedade, mas também pela necessidade que sentimos de reconhecer a impotência do materialismo para tudo explicar. Como é que doutrinas que não satisfazem o coração, a razão ou a inteligência, que transformam em problemas as questões mais vitais, poderiam prevalecer sempre? A evolução das ideias matará o materialismo, tal como matou o fanatismo. (N. do A.)

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ALLAN KARDEC,  A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo – Capítulo III, O BEM E O MAL, Destruição dos seres vivos uns pelos outros, números de 20 a 24, fragmento. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de ilustração: The Goose Girl_1891, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Saberes e o tempo ~

Estudo do perispírito

De que é formado esse perispírito, cuja existência, assim durante a vida, como durante a morte, se acha demonstrada? Qual a substância constituinte desse envoltório permanente da alma? Tal a primeira questão que tentaremos resolver.

Nenhuma das narrativas, nenhuma das experiências acima referidas nos instruíram sobre esse ponto importante. Não tendo sido possível submeter esse corpo material aos reactivos ordinários, forçoso é, ainda agora, que nos atenhamos à observação e ao que os Espíritos hão dito a tal respeito. Aliás, dificilmente poderíamos encontrar melhores instrutores do que aqueles mesmos que produzem as aparições. Não esqueçamos que eles põem em jogo leis que ainda teremos de descobrir, pois mostraram que uma matéria invisível aos olhares humanos pode impressionar uma chapa fotográfica, mesmo na mais absoluta obscuridade. Os fenómenos de transporte constituem outra prova da acção dos Espíritos sobre a matéria, acção que se opera por processos de que nem sequer suspeitamos. E que dizer dessas materializações que engendram, por alguns instantes, um ser tangível, tão vivo quanto os assistentes, senão que a ciência humana é de todo impotente para explicar tais manifestações de uma biologia extra-terrena?

Até mais amplos esclarecimentos, contentar-nos-emos com os que nos queiram ministrar as individualidades do espaço e tentaremos demonstrar que eles nada têm de contrário às leis conhecidas, não tomadas na sua acepção acanhada, mas consideradas na sua filosofia. Nestes estudos, não se deve pedir uma demonstração em regra, que seria impossível produzir-se. Desde que, porém, por meio de analogias tiradas das leis naturais, possamos formar ideia bastante clara da causa dos fenómenos e do modo provável por que se operam, sensível progresso teremos realizado na senda da investigação, banindo das nossas concepções a ideia de sobrenatural.

O conhecimento do perispírito tem grande importância para a explicação das anomalias que os pacientes sonambúlicos apresentam, nos casos, bem comprovados, de visão à distância, de telepatia, de transmissão de pensamento e de perda da lembrança de tudo ao despertar. Do mesmo modo, os fenómenos de personalidades múltiplas, os casos de bicorporeidade e as aparições tangíveis, de que temos falado, podem ser muito bem compreendidos, desde que se admita a nossa teoria, ao passo que se conservam inteiramente inexplicáveis por meio do ensino materialista.

Na presença de tais factos, os sábios oficiais guardam prudente mutismo. Se, pelo maior dos acasos, falam dessas experiências, é para as declarar apócrifas, indignas de prender a atenção de homens inteligentes e, então, as assinalam como últimos vestígios atávicos das superstições dos nossos antepassados.

Importa, porém, que, de uma vez por todas, nos entendamos a esse respeito. Não ignoramos que não se pode absolutamente discutir com quem esteja de parti pris e que o Espiritismo, hoje, se acha mais ou menos na mesma situação em que se encontrava o magnetismo há uma vintena de anos. A história aí está a mostrar-nos a obstinação estúpida dos que se petrificaram nas suas ideias preconcebidas.

Sabemos o que pensar da penetração de espírito dos sucessores daqueles que acreditavam que as pedras talhadas eram produzidas pelo trovão; que negaram a electricidade, zombando de Galvani; que vituperaram e perseguiram Mesmer; que qualificaram de loucura o telefone e o fonógrafo, como, aliás, todas as descobertas novas. Por isso mesmo, sem dar atenção ao banimento mais ou menos sincero a que eles condenam o fenómeno espírita, corajosamente exporemos a nossa maneira de ver, apoiando-a em factos positivos e bem estudados.

A despeito de todas as negações possíveis, o fenómeno espírita é uma verdade tão bem comprovada hoje, que não há factos científicos mais bem firmados do que eles, entre os que não são de observação quotidiana, tais como: a queda dos aerólitos, as auroras boreais, as tempestades magnéticas, a raiva, etc.

A ciência está neste dilema: ou os espíritas são charlatães e é falso tudo o que eles proclamam e, nesse caso, ela os deve desmascarar, pois que lhe incumbe a instrução do povo; ou os factos que os espíritas têm observado são reais, porém mal referidos e, portanto, erróneas as conclusões que eles daí deduzem, caso em que a ciência se acha obrigada a lhes rectificar os erros. Assim, qualquer que seja a eventualidade que se considere, vê-se que o silêncio ou o descaso nenhum cabimento têm. Essa a razão pela qual sinceramente chamamos a atenção dos homens de boa-fé para as nossas teorias que, embora ainda muito incompletas, explicam com lógica os diferentes fenómenos de que acima falamos.

Eis, sucintamente, os princípios gerais sobre os quais nos apoiaremos. São os de Allan Kardec, que magistralmente resumiu em sua obra todos os ensinos dos Espíritos que o assistiram.

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Gabriel DelanneA Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência Capítulo I Estudo do perispírito, 1º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

fonte do bem e do mal ~

Se estudarmos todas as paixões e até todos os vícios, verificaremos que têm a sua origem no instinto de conservação. Este instinto está em toda a sua força nos animais e nos seres primitivos que se aproximam mais da animalidade; aí domina sozinho, porque neles não existe ainda como contrapeso o sentido moral; o ser ainda não nasceu para a vida intelectual. Pelo contrário, o instinto enfraquece à medida que a inteligência se desenvolve, porque esta domina a matéria.

O destino do Espírito é a vida espiritual; mas, nas primeiras fases da sua existência corporal, existem unicamente necessidades materiais a satisfazer e, com este fim, o exercício das paixões é uma necessidade para a conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Mas saído deste período, tem outras necessidades, primeiro semimorais e semimateriais, depois exclusivamente morais. É então que o Espírito domina a matéria; se lhe sacode o jugo, avança na sua via providencial e aproxima-se do seu destino final. Se, pelo contrário, se deixa dominar por ela, fica para trás, assemelhando-se à besta. Nesta situação, o que outrora era um bem, porque era uma necessidade da natureza, torna-se um mal, não só por não ser uma necessidade, mas porque isso se torna prejudicial à espiritualização do ser. Assim como o que é qualidade na criança passa a ser defeito no adulto. O mal é deste modo relativo e a responsabilidade proporcional ao grau de evolução.

Todas as paixões têm portanto a sua utilidade providencial; sem isso, Deus teria feito qualquer coisa de inútil e prejudicial. É o abuso que constitui o mal e o homem abusa devido ao seu livre-arbítrio. Mais tarde, esclarecido pelo seu próprio interesse, escolhe livremente o bem e o mal.

O instinto e a inteligência

Que diferença existe entre o instinto e a inteligência? Onde acaba um e começa o outro? O instinto é uma inteligência rudimentar ou uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?

O instinto é a força oculta que instiga os seres orgânicos a actos espontâneos e involuntários para a sua conservação. Nos actos instintivos não há nem reflexão, nem combinação, nem premeditação. É assim que a planta procura o ar, se volta para a luz, orienta as suas raízes para a água e para a Terra alimentadora; que a flor se abre e se fecha alternadamente consoante a necessidade; que as plantas trepadoras se enrolam à volta do suporte ou se agarram com as suas gavinhas. É por instinto que os animais são prevenidos quanto ao que lhes é útil ou prejudicial; que se dirigem consoante as estações para climas propícios; que constroem, sem ligações prévias, com mais ou menos arte, consoante as espécies, ninhos macios e abrigos para a sua progenitura, dispositivos para apanharem em armadilhas as presas com que se alimentam; que manobram com perícia as armas ofensivas ou defensivas com que estão dotados; que os sexos se aproximam; que a mãe mima os seus meninos e estes procuram o seio da mãe. No homem, o instinto domina exclusivamente no início da vida; é por instinto que a criança chora para exprimir as suas necessidades, que toma os alimentos, que tenta falar e andar. Mesmo no adulto, alguns actos são instintivos: são assim os movimentos espontâneos para evitar um risco, para se afastar de um perigo, para manter o equilíbrio; são também assim o fechar das pálpebras para suavizar o clarão da luz, a abertura maquinal da boca para respirar, etc.

A inteligência revela-se por actos voluntários, reflectidos, premeditados, combinados, segundo a oportunidade das circunstâncias. É incontestavelmente um atributo exclusivo da alma.

Qualquer acto maquinal é instintivo; o que revela reflexão, combinação, uma deliberação, é inteligente; um é livre, o outro não o é.

O instinto é um guia seguro que nunca engana; já a inteligência, pelo facto de ser livre, está por vezes sujeito ao erro.

Se o acto instintivo não tem o carácter do acto inteligente, revela pelo menos uma causa inteligente essencialmente previdente. Se admitirmos que o instinto tem a sua origem na matéria, teremos de admitir que a matéria é inteligente, mesmo mais seguramente inteligente e previdente do que a alma, dado que o instinto não se engana, enquanto a inteligência se engana.

Se consideramos o instinto como uma inteligência rudimentar, como é que, em certos casos, é superior à inteligência reflectida? Que lhe permite fazer coisas que a inteligência não pode produzir?

Se é atributo de um princípio espiritual especial, que acontece a esse princípio? Dado que o instinto se apaga, esse princípio seria então anulado? Se os animais só são dotados de instinto, o seu futuro não tem portanto saída; os seus sofrimentos não têm qualquer compreensão. Não estaria conforme com a justiça nem com a bondade de Deus (Capítulo II, n.º 19).

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ALLAN KARDEC in A GÉNESE, Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo – Capítulo III, O BEM E O MAL, Fonte do bem e do mal, números de 10 a 12, fragmento. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de ilustração: A juventude de Baco_1884, pintura de William-Adolphe Bouguereau)