segunda-feira, 13 de junho de 2022

apóstolos de verdade ~


Apresentação ~
(Herculano Pires por Jorge Rizzini) 

Laureado pela Academia Brasileira de Letras e pela Câmara Brasileira do Livro, Caio Porfírio Carneiro (escritor sem vínculo com o Espiritismo) publicou no jornal “Linguagem Viva”, edição de outubro de 2000, uma crónica sobre Herculano Pires, da qual extraio os seguintes tópicos que retractam o mestre: 

“Parece que estou a ver Herculano Pires sentado no bar, em frente ao prédio dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, aqui em São Paulo, onde trabalhava, naquela tarde ensolarada, cercado de amigos, bebendo qualquer coisa, creio que nada alcoólico e, respondendo a nossas perguntas curiosas sobre Espiritismo. Era ele um estudioso e devoto da doutrina, kardecista famoso, convidado anualmente pela direcção do Bradesco para a festa na Cidade de Deus, criação do presidente do Banco, Amador Aguiar, para os funcionários. Era e sempre foi uma festa belíssima do dia de acção de Graças. Compareciam representantes de destaque das mais diversas religiões cristãs. O único que representava uma corrente espiritual não religiosa era Herculano Pires. Quando chegava a sua vez de falar e abria o verbo, encantava a todos. (...) Tipo mais ou menos gordo, estatura mediana, óculos, andar meio bamboleante, rosto cheio, corado, irradiava uma simpatia pessoal muito grande. (...) Não externava a sua cultura, a sua vasta leitura em praticamente todos os campos do conhecimento. Criatura modesta, cavalheiro de primeira linha, simples por natureza. Apenas quando soltava o verbo, como nas festas da Cidade de Deus, o vulcão vinha ao vivo, mostrava-se fulgurante, brilhante, dono de uma inteligência privilegiada.” 

Observações precisas, as de Caio Porfírio Carneiro

José Herculano Pires foi o que podemos chamar homem múltiplo. Em todas as áreas do conhecimento em que desenvolveu actividades – dentro e fora do movimento doutrinário – a sua inteligência superior iluminada pela Doutrina Espírita e pela cultura humanística brilhava com grande magnitude, fazendo o povo crescer espiritualmente. 

Herculano Pires foi mestre em Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia de Araraquara e membro da Sociedade Brasileira de Filosofia. Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e fundador do Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo, que presidiu por longos anos. Director da União Brasileira de Escritores e vice-presidente do Sindicato dos Escritores de São Paulo. Presidente do Instituto Paulista de Parapsicologia. Romancista, recebeu em São Paulo o “Prémio Municipal de Cultura” e foi reconhecido pela crítica como um dos renovadores do romance brasileiro. 

E, o que é mais importante: espírita desde os vinte e dois anos de idade, ninguém no Brasil e no estrangeiro mergulhou tão fundo nas águas cristalinas da Codificação Kardeciana e ninguém defendeu mais – e com mais competência do que ele – a pureza doutrinária, que colocava acima das instituições e dos homens, de que é exemplo a batalha dantesca que travou quando uma edição adulterada de trinta mil exemplares de O Evangelho Segundo o Espiritismo fora publicada por uma das maiores federações espíritas do Brasil. 

“Todo o espírita consciente de suas responsabilidades humanas e doutrinárias está no dever intransferível de lutar contra essas ondas de poluição espiritual que pesam na atmosfera terrena. Ninguém tem o direito de cruzar os braços em nome de uma falsa tolerância que os levará à cumplicidade”, declarou o mestre. (1) 

Para comer o pão da verdade só necessitamos dos dentes do bom-senso, dizia ele. 

Herculano Pires, desde o ano da conversão ao Espiritismo ao de sua desencarnação, ou seja, durante quarenta e três anos ininterruptos, ampliou superlativamente a cultura espírita, propagou e defendeu os princípios doutrinários na Rádio, na TV, nos jornais, no livro e na tribuna. Ele foi o fermento de que nos fala o Evangelho. E, notemos, foi imbatível esse apóstolo de Allan Kardec! As suas principais batalhas doutrinárias estão relatadas nesta biografia com absoluta fidelidade, pois além de testemunhá-las, participei de algumas e seu vasto acervo doutrinário, incluindo o diário íntimo, (2) me fora cedido pela esposa. 

Reencontrei Herculano Pires nesta existência no ano de 1952 na cidade de São Paulo, na tradicional Livraria Teixeira – ponto de encontro de escritores e poetas. Tinha eu vinte e oito anos de idade e ele trinta e oito. É curioso: reencarnamos no dia 25 de setembro. Ele em 1914, durante a primeira grande guerra, e eu dez anos depois, durante a revolução de 1924. Mas a nossa amizade tem raízes em vidas anteriores – desde o tempo de Roma Imperial. Quando as nossas vozes eram ouvidas no senado romano trabalhamos secretamente em favor do triunfo das ideias revolucionárias de Cristo. E, como toquei agora em assunto tão delicado que, certamente, despertará a curiosidade dos leitores, convido-os a ler o trecho de uma conversa de Herculano Pires comigo e por mim gravada em 1972, trecho que somente hoje dou à publicidade, no qual relata ele uma encarnação sua no século XIX (ao tempo de Allan Kardec), quando foi eminente historiador, romancista e poeta português.  

O referido trecho do saudoso companheiro de batalhas espirituais encontra-se no fim deste volume. 

São Paulo, 1º de Dezembro de 2000. 

Jorge Rizzini 

~~*~

Apêndice 

Herculano Pires revela uma sua encarnação 

Na noite de 14 de julho de 1972 gravei em fita magnética a conversa que mantive com Herculano Pires no seu lar após os trabalhos mediúnicos. Trata-se de uma entrevista longa e informal, improvisada, durante a qual ele revelou uma sua encarnação. Eu lhe havia prometido que somente a divulgaria após a sua passagem para o Grande Além. Eis o trecho em questão: (3) 

(Rizzini) – Suponhamos que você, Herculano, estivesse vivendo no século XIX na França e visse nas livrarias de Paris O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, lançado nesse dia nas livrarias. Qual a sua impressão após a leitura da obra? 

(Herculano) – Jorge Rizzini, você me dá a oportunidade de fazer aqui (já que você não pretende divulgar imediatamente; esta é uma fita que vai ficar para o futuro. Eu nunca pensei que tivesse a oportunidade de falar para o futuro. Acho que é uma pretensão muito grande. Mas, em todo o caso, como você está a abrir essa porta, eu vou falar para o futuro). Eu queria dizer que no século passado (XIX) e, isto não é um sonho, uma ilusão, é uma convicção adquirida através de pesquisas que eu fiz e que nunca revelei a ninguém, levado por uma revelação; uma revelação inesperada através de um médium inteiramente ignorante do assunto e que me abriu o caminho para uma possibilidade muito interessante. Vamos esclarecer isto. No século XIX eu estive na França, realmente, mas não era francês. Eu era português. Eu morava em Portugal, onde tive uma encarnação. Eu fui parar a França como exilado. E como exilado tomei conhecimento do Espiritismo, mas não o aceitei porque eu era católico. E era um tipo católico muito comum, aliás, em Portugal, naquela época. Discordava dos padres, brigava com o clero e não aceitava muito o catolicismo. O meu desejo era encontrar uma forma de fazer o Cristianismo voltar ao seu estado primitivo, quer dizer, voltar à verdade pura do Cristo. Era este o meu desejo. Como naquela época eu era também jornalista, como sou hoje, isso ficou gravado em alguns jornais portugueses, o que se pode constatar. 

(Rizzini) – Um pormenor, Herculano. Você se lembraria do nome que tinha? 

(Herculano) – Eu não quero dizer, Rizzini. Você me perdoa isso, mas eu não quero dizer. Eu sei que nessa ocasião... 

(Rizzini) – Mas esta é uma entrevista para o futuro. 

(Herculano) – Sim, eu sei, mas o futuro depois verá. Mas eu tive, então, oportunidade de saber que se estava processando uma nova revelação, mas Portugal era um país profundamente católico e qualquer infiltração de outra religião lá seria prejudicial, porque o povo não estava à altura, segundo eu pensava, de aceitar uma nova concepção de Deus. Então, não adoptei o Espiritismo. Continuei católico até ao fim, mas um católico às avessas, porque continuamente em luta com o próprio clero. Então, eu diria a você: não tenho a certeza que eu vi algum livro espírita, mas sei que tive conhecimento do Espiritismo. Mas se eu visse O Livro dos Espíritos em Paris, nesse dia 14 de julho, naquela época (na data da tomada da Bastilha) eu, certamente, não teria o impacto que hoje me provocaria essa visão. Porque não sabia ainda o que era o Espiritismo, nem tinha possibilidade de saber que ele realizava aquele meu sonho: o sonho da volta ao Cristianismo primitivo. Só depois de passar para o mundo espiritual foi que eu tive contacto pleno com a nova revelação. Interessante: foi no Espaço que eu me tornei espírita. Quando eu vim para a Terra, portanto, nascendo aqui no Brasil dessa vez – e nascendo em Avaré, no Estado de São Paulo, no dia 25 de setembro de 1914... 

(Rizzini) – E no meio católico... 

(Herculano) – Também numa família católica. Tendo educação católica, eu, entretanto, já trazia ideias espíritas bem acentuadas, que se foram revelando em mim independentemente de qualquer influência exterior. De maneira que, agora sim, se eu tivesse depois disso um encontro com O Livro dos Espíritos numa livraria de Paris, para mim seria uma grande emoção, uma emoção extraordinária. 

(Rizzini) – E se você encontrasse numa das ruas do centro de Paris, de súbito, ao dobrar uma esquina, a figura de Allan Kardec? 

(Herculano) – Bem... Se eu o encontrasse agora, nesta época, quer dizer, depois que sou espírita, então para mim seria uma coisa extraordinária, porque Allan Kardec representa a figura exponencial dos novos tempos na Terra. Jesus veio para implantar no mundo o Reino de Deus – e realmente ele realizou esse trabalho maravilhoso, pois implantou-o no coração e na consciência dos poucos homens que foram capazes de compreendê-lo até hoje – e o Reino de Deus vai desenvolvendo-se lentamente através dos séculos, vai realizando-se apesar dos homens. De maneira que Jesus representou essa figura extraordinária, e Kardec é o seu continuador. Kardec foi aquele que veio trabalhar na era decisiva da implantação do Reino de Deus em maior amplitude. Kardec é quem trouxe a revelação que o Espírito de Verdade transmitiu; ele trouxe essa possibilidade extraordinária de abrir as perspectivas do mundo para uma era inteiramente nova que está nascendo aos nossos olhos neste momento, neste século XX. 

Herculano Pires, certamente tomado por um súbito sentimento de pejo, não revelou o nome que tivera na existência anterior em Portugal, mas anos depois de sua desencarnação pesquisei a vida dos grandes vultos da literatura lusitana do século XIX e descobri inúmeros pontos de contacto (a começar pelo nome) entre ele e o célebre jornalista, romancista, poeta e historiador Alexandre Herculano, o qual ao tempo de Allan Kardec se exilara na França. O mesmo carácter impoluto e inflexível; o sentimento religioso; a oposição ao clero; o amor à literatura, particularmente à poesia e ao romance; e, sobretudo, a fidelidade à verdade. 

A propósito da extremada fidelidade à verdade, medite o leitor sobre o seguinte texto, mas procurando descobrir se o autor é o Herculano nascido em Portugal ou o brasileiro: 

“Quando a justiça de Deus põe a pena na destra do historiador, ao passo que lhe põe na esquerda os documentos indubitáveis de crimes que pareciam escondidos para sempre debaixo das lousas, ele deve seguir avante sem hesitar, embora a hipocrisia ruja em redor, porque a missão do historiador tem nesse caso o que quer que seja de divina.” (4) 

Parece-nos evidente tratar-se de um só Espírito. 

As informações sobre a reencarnação de Herculano Pires foram por mim guardadas, sigilosamente, durante décadas. Somente dias atrás, em conversa com Heloísa Pires, me referi à pesquisa, mas antes que lhe revelasse o resultado ela exclamou sorrindo: 

– Meu pai é a reencarnação de Alexandre Herculano. O pai, certa vez, comentou isso! 

Não foi, pois, por outra razão que quatro anos antes da desencarnação Herculano Pires redigira um extenso e belo artigo exaltando a sua antiga pátria e o renascimento do movimento espírita lusitano. (5) 

Não estamos, porém, dogmatizando, mesmo porque o julgamento final cabe, evidentemente, ao leitor. 

/... 
(1) Vide a obra Curso Dinâmico de Espiritismo, capítulo 20, editora Paidéia. 
(2) Herculano Pires desde menino gostava de fazer anotações num diário. Escreveu vários. Num deles anotou estes pensamentos: “Às vezes me pergunto por que este prazer mórbido de registar num diário os acontecimentos, os pensamentos, as emoções, as ocorrências de uma vida obscura. (...) O facto é que anoto, registo, comento, protesto, censuro e louvo para mim mesmo – ao menos assim me parece – mas nem por isso deixo de pensar, às vezes, que estes rabiscos possam ter um destino diferente, um endereço oculto.” Palavras proféticas, porque os rabiscos de Herculano Pires tinham, realmente, um endereço oculto: o meu, o de seu futuro biógrafo. 
(3) A entrevista completa encontra-se no meu livro Imortalidade
(4) Texto extraído do volume terceiro, página 192, da obra Opúsculos, de Alexandre Herculano (autor, inclusive, da História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal). 
(5) Vide a revista “Estudos Psíquicos”, de Lisboa, edição de junho de 1975. 


Jorge RizziniJosé Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, Apresentação e, Apêndice – Herculano Pires revela uma sua encarnação, 1º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Jorge Rizzini, o homem) 

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~~~ Natureza da Revelação Espírita 
(IX) 

~~~ A Terceira Revelação

A primeira revelação estava personificada em Moisés, a segunda em Cristo e a terceira não o está em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é colectiva; reside nisso uma característica essencial de grande importância. É que ninguém, por consequência, se pode afirmar seu profeta exclusivo. Foi feita simultaneamente em toda a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e de todas as condições, desde o mais baixo ao mais elevado da escala, consoante a profecia relatada pelo autor dos Actos dos Apóstolos: «E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão visões e os vossos velhos sonharão sonhos; / E também do meu Espírito derramarei sobre o meu servo e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão.» (Actos dos Apóstolos, 2: 17, 18.) Não saiu de nenhum culto especial para servir um dia de ponto de encontro a todos(*) 

(*) O nosso papel pessoal no grande movimento das ideias que se prepara através do Espiritismo e que começa a acontecer, é o de observador atento que estuda os factos para daí retirar as consequências. Confrontámos todos os que nos foi possível reunir; comparámos e comentámos as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos do globo; depois, coordenámos tudo metodicamente; numa palavra, estudámos e demos a saber ao público o fruto das nossas investigações sem atribuir ao nosso trabalho outro valor que o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem nunca nos termos dado ares de chefe de doutrina, nem ter querido impor as nossas ideias a ninguém. Ao publicá-las, usámos de um direito comum e os que as aceitaram fizeram-no livremente. Se estas ideias encontraram numerosas simpatias, é por terem tido a vantagem de corresponder às aspirações de um grande número, com o que não nos podemos envaidecer, pois a sua origem não nos pertence. O nosso maior mérito é o da perseverança e devoção à causa que abraçamos. Em tudo isto fizemos o que outros podiam ter feito; é por isso que nunca tivemos a pretensão de nos julgarmos profetas ou messias e ainda menos apresentarmo-nos por tal. (N. do A.) 

Sendo as duas primeiras revelações produto de um ensinamento pessoal, foram forçosamente localizadas. Isso quer dizer que tiveram lugar num só ponto, à volta do qual a ideia se foi expandindo de uns para os outros; mas foram precisos muitos séculos para que atingissem os extremos do mundo, mesmo sem o invadirem por completo. A terceira tem isso de particular; não sendo personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diferentes e todos se tornaram centros ou focos de irradiaçãoAo multiplicarem-se estes centros, a sua radiação une-se a pouco e pouco, como os círculos formados por uma quantidade de pedras atiradas à água; de tal maneira que, em determinada altura, acabarão por cobrir a superfície total do globo. 

É esta uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se tivesse surgido num só ponto, se tivesse sido obra exclusiva de um homem, teria formado uma seita à sua volta; mas meio século teria talvez decorrido antes de ter atingido os limites do país onde tivesse nascido, enquanto que assim, dez anos depois, tem rebentos implantados de um pólo ao outro. 

Esta circunstância, espantosa na história das doutrinas, confere a esta uma força excepcional e uma força de acção irresistível; com efeito, se a comprimirmos num ponto, num país, é materialmente impossível comprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Por cada sítio onde seja reprimida, haverá mil ao lado onde florescerá. Ainda mais, se a extinguirmos num indivíduo, não podemos extingui-la nos Espíritos, que são dela a fonte. Ora, como os Espíritos estão em todo o lado e porque sempre existirão, se, por impossível, se conseguisse abafá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque assenta sobre um factofacto esse que está na natureza, e não podemos suprimir as leis da natureza. É disto que se devem então convencer os que sonharam com a aniquilação do Espiritismo. (Revista Espírita, Fevereiro de 1865, p. 38: Perpetuidade do Espiritismo.) 

No entanto, estes centros disseminados deveriam permanecer ainda algum tempo isolados uns dos outros, confinados como alguns estão a países longínquos. Era necessário entre eles um traço de união que os colocasse em comunhão de pensamento com os seus irmãos de doutrina, ensinando-lhes o que se fazia noutros lugares. Este traço de união, que terá faltado ao Espiritismo na antiguidade, encontra-se nas publicações que chegam a todo o lado, que condensam numa forma única, concisa e metódica, os ensinamentos dados em todos os sítios sob múltiplas formas e em diversas línguas. 

/… 


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 45 a 48 (IX), 11º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida. 
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 16 de maio de 2022

as vidas sucessivas | os elementos ~


Experiências magnéticas – Regressão da memória e previsão – Caso nº 2, Joséphine ~ 

(II de III) 

Tendo interrompido durante alguns meses as minhas experiências com Joséphine, fiz uma viagem a Paris e tentei ver que resultados daria o meu modus operandi com a senhora Lambert, um dos meus antigos sujets. Ver-se-á mais adiante uma exposição do seu caso, de como fui conduzido a orientá-la para o futuro ao invés do passado. 

Tão logo retornei a Voiron, tentei com Joséphine esse método de premonição sem nada dizer-lhe sobre as minhas experiências em Paris. Eis o resumo dos resultados obtidos. 


Primeira sessão ~

Adormeço Joséphine através de passes longitudinais de maneira a levá-la aos primeiros anos de sua juventude e, em seguida, desperto-a através de passes transversais. Quando ela retorna o seu estado normal, retoma a sensibilidade; continuo os passes transversais com o pretexto de libertá-la mais completamente. 

Depois de um minuto ou dois, ela me diz que a adormeço ao contrário de despertá-la. Fase de letargia bastante longa. Desperta numa fase de sonambulismo. Pergunto-lhe se continua em casa do Sr. C. Ela responde que não: deixou-o há três anos para voltar à sua terra natal em Manziat. Está em casa de seus pais e tem vinte e cinco anos. 

Novos passes transversais, nova fase de letargia durante a qual ela primeiramente permanece bastante calma, porém, após alguns instantes, mostra todos os sinais de um grande sofrimento. Torce-se sobre a cadeira, em seguida vira a cabeça e esconde o rosto com as mãos, chora e o seu pesar parece tal que a Sra. C., emocionada, se retira para outro aposento. 

Quando chega à fase seguinte de sonambulismo, parece ainda muito triste. Pergunto-lhe o que tem. Ela não quer responder e vira novamente a cabeça como se tivesse vergonha de alguma coisa. Suspeito a causa de seu tormento e pergunto-lhe se está casada agora. Ela me responde: 

– Não, ele não quer. No entanto, havia-me prometido. 

– Diga-me o seu nome; encarregar-me-ei de agir sobre ele, de fazê-lo raciocinar. 

– Você não conseguirá nada, já fiz tudo o que podia. 

Terminei descobrindo que ela continua na sua terra natal, que tem trinta e dois anos e que a sua infelicidade aconteceu há dois anos. Impossível conseguir o nome do sedutor. 

Empenho-a a se deixar levar sem se inquietar com nada. 

Na presença de sua dor, que nos emociona a todos, de tão vivamente expressa que é, reconduzo-a ao seu estado normal através de passes longitudinais, passando pelas mesmas fases de letargia e de sonambulismo, com as mesmas expressões de dor. 


Segunda sessão ~

O mesmo processo experimental: primeiramente regressão da memória através de passes longitudinais, depois a caminhada em direcção ao futuro através de passes transversais. Após o estado normal, a letargia calma. Desperta com a idade de vinte e cinco anos na sua terra natal. Segunda letargia com sinais de dor e de vergonha; segundo despertar com trinta e dois anos. Recordo-lhe as nossas antigas relações em Voiron e termino por persuadi-la a confiar-se a mim. Ela murmura confusa o nome de seu sedutor. É um jovem lavrador do local, Eugène F., com quem teve um filho. (i) 

A continuação dos passes transversais: terceira letargia; terceiro despertar. Ela tem então quarenta anos, continua em Manziat e está muito triste. O seu filho morreu há pouco tempo e Eugène casou-se com outra. 

Continuação dos passes transversais: quarta letargia; quarto despertar. Ela tem quarenta e cinco anos e ganha a vida costurando calças para um alfaiate. Está muito triste, já não tem notícias dos seus antigos patrões. Louise, a sua melhor amiga de Voiron, escreveu-lhe três cartas, depois a correspondência cessou. 

Continuo os passes transversais e, já cansado, interrogo-a após alguns minutos de letargia aparente, sem me aperceber de que ela já havia avançado diversas fases. Está agora bastante velha, vive com esforço graças à sua costura, porém acabou por esquecer um pouco as tristezas. Falo-lhe então da morte. Pergunto-lhe se não deseja saber o que lhe acontecerá quando deixar esta vida. Ela diz que sim. “Para isso é necessário que eu a faça envelhecer ainda mais.” Ela hesita um pouco, mas acaba por aceitar quando lhe assegurei que a traria de volta ao seu estado actual. 

Novos passes transversais. Depois de dois ou três minutos ela volta-se para o encosto de sua cadeira com uma expressão de franco sofrimento, escorregando em seguida até ao chão. É a agonia e a morte. Continuo vivamente os passes para transpor esse mau momento e interrogo-a. Ela está morta; não sofre, porém não vê espíritos. Pôde seguir o seu enterro e ouvir o que diziam dela: “Foi bom para a pobre mulher; ela não tinha já razão para viver.” As preces do padre não lhe adiantaram grande coisa, porém a sua presença em torno do caixão afastou os maus espíritos. As ideias espíritas que ela havia adquirido em casa do seu antigo patrão foram-lhe muito úteis porque permitiram-lhe aperceber-se do seu estado. 

Não achei prudente desta vez levar mais longe a experiência. Trouxe o sujet ao seu estado normal através de passes longitudinais que provocaram, por ordem inversa, os mesmos gestos característicos da agonia e da sedução, durante as fases de letargia correspondentes. 


Terceira sessão ~

Um dos meus amigos, cujo genro havia recentemente desaparecido em circunstâncias misteriosas, havia-me enviado uma roupa que tinha pertencido ao desaparecido, suplicando-me que me esforçasse por obter alguns detalhes sobre o trágico acontecimento através de um dos meus sujets

Adormeci Joséphine, após haver colocado a tal roupa entre as suas mãos. Alguns minutos depois, determinei-lhe que procurasse alguma pista da pessoa a quem o objecto havia pertencido. Ela respondeu-me que não sentia nada. Imaginando que ela não estivesse suficientemente desligada do seu corpo físico, aprofundei-lhe o sono através de passes longitudinais. Constatei então, não sem admiração, que durante a fase de letargia que se seguiu à minha ordem ela se entregou à mesma mímica e à qual se abandonava logo que eu a impelia ao futuro, durante as sessões precedentes, através de passes transversais. (ii) Quando ela chegou à fase sonambúlica onde podia responder-me, tinha trinta e cinco anos. Continuei os passes longitudinais e cheguei assim progressivamente até à morte, passando pelo espectáculo da sua agonia e, em seguida, ao seu despertar na vida do espaço. Ela me confirmou o que já havia dito a respeito do seu estado: não sofria, mas encontrava-se numa obscuridade quase completa, iluminada de tempos em tempos por luzes frouxas. Percebia espíritos mais ou menos luminosos que flutuavam à sua volta, porém não podia comunicar-se com nenhum deles. As ideias espíritas que havia adquirido na casa dos seus antigos patrões permitiram-lhe suportar mais pacientemente o seu estado actual, apesar de serem bastante vagas, porque já fazia muito tempo que já não ouvia falar desse assunto. 

Enfim, continuando a magnetização, sentiu a necessidade de reencarnar; e foi durante uma fase de letargia que foi feita a sua entrada no ventre de sua mãe, caracterizada pela posição de feto que ela tomou. 

Agora ei-la menina; morre muito jovem ainda e não vê para que servem todas as reencarnações sucessivas. 

Retorna muito rapidamente ao estado normal sob a influência de passes transversais, auxiliados pela sugestão. 


Quarta sessão ~

Joséphine acaba de deixar a família C., onde achava o serviço penoso demais. Implorou-me que a tomasse provisoriamente ao meu serviço enquanto procurava outro emprego. 

Foi o que fiz. 

Essa quarta sessão teve sobretudo por finalidade provocar em Joséphine a revelação de factos bastante próximos para que eu pudesse controlá-los. 

Adormeço-a através de passes longitudinais conforme o habitual e levo-a ao estado que precede o seu nascimento na vida actual e, onde ela ainda é Jean-Claude. Confirma-me então tudo o que disse nas outras sessões. Pela pressão do meu dedo no meio de sua fronte, procuro saber exactamente em que época foi soldado em Besançon. Ele não me pode dar a data, mas, a meu pedido, diz-me que a grande festa dos soldados não era a 14 de julho, porém em 1º de maio. Era efectivamente no 1º de maio que era festejado o Dia de São Filipe, de 1830 a 1848 e, parece-me muito difícil explicar naturalmente esta recordação. 

Em seguida, trago Joséphine rapidamente à sua idade actual através de passes transversais e continuo esses passes envelhecedores que, como nas sessões precedentes, determinam primeiramente uma longa fase de letargia ao longo da qual se produz a mímica das dores do parto. (A fase de sonambulismo, onde nas sessões precedentes ela tinha vinte e cinco anos, passa-me despercebida, provavelmente porque eu havia dado um passo mais rápido que a sua progressão no tempo.) 

Ela tem agora trinta e cinco anos, o seu pai morreu, a sua mãe e o seu filho vivem ainda. Pergunto-lhe o que fez desde que deixou o casal C., em casa de quem ela havia trabalhado durante longo tempo em Voiron. Responde-me que primeiro trabalhou como doméstica na casa do coronel de Rochas, enquanto esperava uma vaga nas Galerias Modernas de Grenoble, a qual obteve depois de um mês e meio; mas que permaneceu apenas três meses como vendedora nessa grande loja, retornando então à casa dos seus pais aproximadamente no Dia de Todos os Santos (1904). Depois recebeu uma carta do coronel que a convidava a ir a Voiron para experiências. Dispunha-se a partir, quando a sua mãe faleceu. Desde então já não obteve notícias dele. (iii) 


Quinta sessão ~

Começo por pressionar a fronte de Joséphine e ela desperta. Ela recorda-se pouco a pouco da sua vida passada, que eu apenas faço aflorar rapidamente. Diz-me que, quando era pequena, antes de ser Philomène, se chamava Alice e que, antes de ser o homem que matou, tinha tido diversas encarnações, entre as quais uma de macaco, mas que não se recorda delas. Tudo de que se lembra é que sofria nos intervalos. Confirma-nos que há animais bons e maus. 

Digo-lhe em seguida que a adormecerei através de passes longitudinais e que desejo que caminhe para o futuro. Conta-me então que está empregada como vendedora nas Galerias Modernas, recebendo um franco e meio por dia, alimentada e alojada num quartinho que dá para uma rua de fundos (facto que, como eu já disse, não ocorreu). Faço-a passar rapidamente pela fase dolorosa que corresponde à sedução e na qual ela ainda se torce de dor. Quando pode responder-me, tem trinta e cinco anos. (iv) Falo-lhe de sua vida em Voiron; ela já não obteve mais notícias dos seus antigos patrões, excepto através da sua amiga Louise, (v) que lhe escreveu apenas três vezes. Recebeu, há sete ou oito anos, (vi) uma carta do coronel de Rochas convidando-a a ir à sua casa em Agnèles para experiências. Estava pronta para partir quando a sua mãe adoeceu, precisando então ficar perto dela. A mãe curou-se e morreu somente há dois anos (isto é, em 1919). 

/…  
(i) Tirei informações no local. Eugène F. lá vive actualmente, pertence a uma família de lavradores abastados e nasceu em 1885. Eugène e Joséphine moravam em casas vizinhas, têm a mesma idade e fizeram juntos a primeira comunhão. (A.R.
(ii) Disso parece resultar que o método de magnetização, ou seja, a direcção dos passes, não tem importância de maior. O essencial parece ser o relaxamento dos laços que unem ao corpo físico o corpo astral para permitir a este último retomar a direcção já por ele seguida ou a que se lhe sugere e, sem dúvida, para também lhe permitir retomar mais facilmente as formas diversas das épocas evocadas. (A.R.) 
(iii) Ela realmente veio a minha casa como camareira, onde permaneceu um mês; porém não pôde obter a vaga que desejava nas Galerias Modernas, partindo directamente de minha casa para a sua cidade. Ainda não lhe escrevi, pedindo-lhe que regressasse a Voiron para novas experiências. (A.R.) 
(iv) Ela tinha dezoito anos em 1904; estará com trinta e cinco anos em 1921. (A.R.) 
(v) Encontrar-se-á explicação mais adiante sobre o caso de Louise (caso nº 5). (A.R.) 
(vi) Consequentemente, 1921 menos oito, isto é, em 1913, ela teria então cerca de 27 / 28 anos. (A.R.) 


Albertde RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 2 – Joséphine, 1904 (II de III) 10º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites

segunda-feira, 2 de maio de 2022

o grande desconhecido ~


O GRANDE DESCONHECIDO | 

Todos falam de Espiritismo, bem ou mal. Mas poucos o conhecem. Geralmente o consideram como uma seita religiosa comum, carregada de superstições. Muitos o vêem como uma tentativa de sistematização de crendices populares, onde todos os absurdos podem ser encontrados. Há os que o aceitam como nova Goécia, magia negra da Antiguidade disfarçada de Cristianismo milagreiro. Grandes cientistas se deixaram envolver nos seus problemas e se desmoralizaram. Outros entendem que podem encontrar nele a solução para todos os seus problemas, conseguir filtros de amor e os 13 pontos da Lotaria Desportiva. E na verdade os seus próprios adeptos não o conhecem. Quem se diz espírita arrisca-se a ser procurado para fazer macumba, despachos contra inimigos ou curas milagrosas de doenças incuráveis. Grandes instituições espíritas, geralmente fundadas por pessoas sérias, tornam-se às vezes verdadeiras fontes de confusão a respeito do sentido e da natureza da doutrina. O Espiritismo, nascido ontem, nos meados do século passado, é hoje o Grande Desconhecido dos que o aprovam e o louvam e dos que o atacam e criticam. 

Durante muito tempo ele foi encarado com pavor pelos religiosos, que viam nele uma criação diabólica para a perdição das almas. Falar em fenómenos espíritas era provocar votos de esconjuro. Ler um livro espírita era pecado mortal, comprar passagem directa para o Caldeirão de Belzebu. Médicos ilustres chegaram a classificar o Espiritismo como uma fábrica de loucos. Quando começaram a surgir os hospitais espíritas para doenças mentais, alegaram que os espíritas procuravam curar loucos que eles mesmos faziam para aliviar as suas consciências pesadas. E quando viram que o Espiritismo realmente curava loucos incuráveis, diziam que os demónios se entendiam entre si para lograr o povo. 

Hoje a situação mudou. Existem sociedades de médicos espíritas e as pesquisas de fenómenos mediúnicos invadiu as maiores Universidades do Mundo. Não se pode negar que a coisa é séria, mas definir o Espiritismo não é fácil. Porque ninguém o conhece, ninguém acredita que se precisa estudá-lo, pensam quase todos que se aprende a doutrina ouvindo espíritos. Os intelectuais espíritas são confundidos com médiuns. Quem escreve sobre Espiritismo não escreve, faz psicografia. Acham que para estudar a doutrina é preciso desenvolver a mediunidade e receber maravilhosas lições de Espíritos Superiores. 

Não obstante, o Espiritismo é uma doutrina moderna, perfeitamente estruturada por um grande pensador, escritor e pedagogo francês, homem de letras e ciências, famoso por sua cultura e os seus trabalhos científicos e que assinou as suas obras espíritas com o pseudónimo de Allan Kardec. Saber isto já é saber alguma coisa a respeito, mas está muito longe de ser tudo a Doutrina complexa, que abrange todo o campo do Conhecimento, apresenta-se enquadrada na sequência epistemológica de: 

a) Ciência – como pesquisa dos chamados fenómenos paranormais, dotada de métodos próprios, específicos e adequados ao objecto que investiga, tendo dado origem a todas as ciências do paranormal, até à Parapsicologia actual e ao seu ramo romeno, que se disfarça sob o nome pouco conhecido de Psicotrónica, para não assustar os materialistas. 

b) Filosofia – como interpretação da natureza dos fenómenos e reformulação da concepção do mundo e de toda a realidade segundo as novas descobertas científicas; aceite Oficialmente no plano filosófico, consta do Dicionário Filosófico do Instituto de França; no Brasil, reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Filosofia, constando do volume Panorama da Filosofia em São Pauto, edição conjunta do Instituto e da Universidade de São Paulo, coordenação do Prof. Luiz Washington Vitta. 

c) Religião – como consequência das conclusões filosóficas, baseadas nas provas da sobrevivência humana após a morte e nas ligações históricas e genésicas do Cristianismo com o Espiritismo; considerado como a Religião em Espírito e Verdade, anunciada por Jesus, segundo os Evangelhos; religião espiritual, sem aparatos formais, dogmas de fé ou instituição igrejeira, sem sacramentos. 

d) Essa sequência – obedece as leis da Gnosiologia, pelas quais o conhecimento começa nas experiências do homem com o mundo e se desenvolve nas ilações do pensamento, na cogitação filosófica e determina o comportamento humano dentro do quadro da realidade conhecida; como no Espiritismo essa realidade supera os limites da vida física, a moral se projecta no plano das relações do homem com a Divindade, adquirindo sentido religioso. 

Colocado assim o problema, a complexidade do Espiritismo se torna facilmente compreensível. Tudo no Universo se processa mediante a acção e o controlo de leis naturais, que correspondem à imanência de Deus no Mundo através de suas leis. Toda a realidade verificável é natural, de maneira que os espíritos e as suas manifestações não são sobrenaturais, mas factos naturais explicáveis, resultantes de leis que a pesquisa científica esclarece. O Sobrenatural só se refere a Deus, cuja natureza não é acessível ao homem neste estágio de sua evolução, mas será possivelmente, quando o homem atingir os graus superiores de sua evolução. Todas as possibilidades estão abertas e franqueadas ao homem em todo o Universo, desde que ele avance no desenvolvimento de suas potencialidades espirituais, segundo as leis da transcendência. 

Este volume procura dar uma visão geral do Espiritismo em forma de exposição livre, sem um esquematismo didáctico, mostrando as conotações da Doutrina com as posições culturais da actualidade. Não se trata da suposta actualização tentada por autores que desconhecem as dimensões do Espiritismo e não podem relacioná-la com os avanços científicos, tecnológicos, filosóficos e religiosos da actualidade. A actualização, no caso, é do método expositivo, que revela a plena actualidade da Doutrina e desenvolve alguns temas kardecianos em forma de exposição mais minuciosa, para melhor compreensão dos leitores. A actualização da linguagem e da terminologia doutrinárias nas obras de Kardec é uma pretensão descabida. Cada doutrina, científica ou filosófica, tem a sua própria terminologia, que só se transforma diante de novos factos ocorridos na pesquisa. Por outro lado, essas actualizações, como sabem os especialistas, geralmente se transformam em atentados à doutrina, pela falta de conhecimento dos que pretendem fazê-las. Uma doutrina actualiza-se na proporção em que evolui, com acréscimos reais de conhecimentos no desenvolvimento de seus princípios. Não existe, no mundo actual nenhum centro de pesquisas e estudos espíritas que tenha avançado legalmente além de Kardec, através da descoberta de novas leis da realidade espírita. O Espiritismo avança, pelos seus princípios e os seus conceitos, muito além da realidade actual. E mesmo que não avançasse, ninguém teria o direito de interferir na obra de Kardec, como na obra de qualquer outro cientista. É livre o direito de contestar através de outras obras, mas não há direito nenhum que permita a um pintamonos desfigurar as obras clássicas da cultura mundial. 

Os capítulos deste livro correspondem a exposições doutrinárias feitas pelo autor em várias ocasiões, em palestras feitas com debates, até mesmo em numerosas Faculdades de Teologia católicas e protestantes, bem como em debates de televisão. Por isso, são capítulos escritos em linguagem livre, dando ao leitor a possibilidade de discutir os problemas consigo mesmo, tentando refutar as teses expostas. Esperamos que os meios espíritas, particularmente aproveitem estes capítulos para uma incursão mais corajosa nas possibilidades de conhecimento que o Espiritismo nos oferece em todos os campos das actividades humanas e em face dos múltiplos problemas que nos desafiam nesta hora de transição da cultura humana. 

São anos de estudos, experiências, investigações e intuições espirituais que se acumulam nestas páginas, ao correr das teclas, mas sob rigoroso controlo da razão. Que no Espiritismo tudo deve ser rigorosamente submetido a apreciações e críticas racionais. 

/… 


José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, O Grande Desconhecido 1º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O monge estuda as Escrituras | 1877, lápis e giz-estudo ao painel “A Educação de São Luís” Panteão, Paris (a mesma imagem, do monge, aos pés de Branca de Castela e de São Luís, nesse painel, óleo sobre tela) ambos de Alexandre Cabanel

quinta-feira, 21 de abril de 2022

~~~ Párias em Redenção ~~~


FÚRIA ASSASSINA 
(II de III) 

De retorno, na sege especial, Assunta meditava quanto ao próprio destino. 

As circunstâncias precipitaram-se e ela, repentinamente, se vira envolvida por densa treva interior, que a amargurava agora. 

É certo que não sentia o clamor do remorso convocando-a a outra atitude mental, por enquanto. Todavia, quando recordava as personagens assassinadas, um estranho arrepio a fazia gelar. As crianças se lhe entregaram confiantemente e aqueles haviam sido dias de dor no palácio. As suas mãos, sim, aquelas mãos bem talhadas e mimosas adicionaram o entorpecente ao chá, preparando o caminho para o malfeitor. Acontecia, porém, que o bandido era o homem amado. Que não faria por ele!? Amava-o até à loucura, apesar de saber que ele não a amava. Por estranho sortilégio, sabia-se apenas um meio de exploração para o prazer, utilizado por Girólamo. 

E reflectia, enquanto a carruagem vencia as estradas tortuosas, lamacentas e mal cuidadas: amava o rapaz há mais de um ano e a ele se entregara, desde então. Por que somente agora essa volúpia a desgraçara? Ele nunca lhe prometera fidelidade nem matrimónio e ela pouco se importara com as consequências. Ante o aceno de uma ventura, sim, impossível, ela fora capaz de trair aqueles aos quais muito devia e acumpliciar-se num hediondo assassínio, em que a sua amiga e as crianças pequeninas foram vítimas indefesas! 

Recordando os dias que precediam a trágica acção, as lágrimas lhe saltaram dos olhos, desmesuradamente, pôs a mão espalmada sobre o peito ofegante, comprimindo a efígie de delicada madona, uma desconhecida sensação de horror e culpa que lhe estrangulava a garganta, quase impedindo a respiração, que se tornou entrecortada e difícil. 

– Assassina! – pareceu escutar de momento. 

Seria a consciência atormentada? Era má, sem dúvida, no entanto, era também jovem e inexperiente, e se deixara vencer pela impiedade do rapaz cruel. Recordou-se do amante que lhe impunha essa fuga, exactamente a ela que também era vítima e, num relance, veio-lhe a ideia fuzilante de que o companheiro desejava libertar-se dela, para, então, gozar. Por que Girólamo a desposaria, havendo tantas mulheres ricas, formosas e, sendo ele contumaz explorador? Sacudida por essa lembrança violenta, a mágoa e o receio foram substituídos pelo ódio, que lhe irrompeu em catadupa. Desejou retornar, enfrentar o verdugo da sua paz e intimidá-lo, fazendo-o compreender devidamente, repetindo-lhe na face e demonstrando com todo o vigor do seu espírito desesperado a intrepidez com que o enfrentaria, indo até aos últimos lances, na tentativa de o não perder. Contraiu os lábios e sentiu o amargor da situação em que se enleara. Dominou-se, porém, recobrando um pouco a serenidade. 

Longas horas se passaram e o cansaço, o relaxamento repentino substituíram a tensão e a ansiedade dos últimos dias, fazendo-a mergulhar em pesado e incómodo sono. 

Com o espírito atribulado, a moça, logo adormeceu, experimentou a lucidez do despertamento espiritual e viu-se diante da Senhora duquesa, cujo olhar a penetrava dolorosamente. Sentia-se no corpo e fora dele: cansada e consciente. A tez pálida e os grandes olhos nublados pelas lágrimas, na senhora, falavam, sem palavras, duras recriminações. Aquele olhar desnudava-a inteiramente. A veneranda Entidade, que a recebera no seu solar anos antes e que lhe dera a mão de auxílio, quando a adversidade obrigara os seus pais a situar as filhas nos burgos florescentes da Toscana, vítimas que haviam sido das surpresas do destino, parecia perguntar-lhe em silêncio: “Que fora feito do sentimento de gratidão, na tua alma infeliz?” Fitando a protectora, parecia rever as crianças alegres, que brincavam nos seus braços e que dias antes estiveram sob a sua guarda, quando do velório e do sepultamento do Senhor duque. O sorriso inocente e cristalino dos pequeninos percutia nos seus ouvidos, como se os despedaçasse por dentro e, as suas vozes infantis brincavam melodias na acústica do seu espírito atormentado. Revia Lúcia, confiante, deixando-se tranquilizar ante a sua assistência fingida, – Lúcia, que se fizera cão devotado e zeloso dos pequenos rebentos dos di Bicci. Vencida pela tristeza infinita daquela face marmórea, desfigurada e silenciosa, a sequaz de Girólamo ajoelhou-se, visivelmente infeliz e, rogou perdão… 

– Como pudeste, Assunta – indagou, com inexcedível expressão de voz, a Senhora di Bicci –, transformar em veneno o licor da amizade que eu depus na taça do teu coração? Como te foi possível adicionar às minhas dores as brasas do desconforto e da amargura, para que eu acompanhe o duque, hoje esmagado de angústia, transformado em fera impiedosa e irracional, que persegue o seu caçador e terminará por destruí-lo? Os meus filhinhos não morreram: libertaram-se de dura canga; Lúcia não desapareceu nem se consumiu, apenas dorme sob os meus cuidados. Hoje, sou-lhe a servidora devotada e reconhecida. Tenho-a como filha do meu coração, sacrificada pela sanha criminosa de alguém a quem nutri com o leite da misericórdia e da compaixão… Ela resgata e ele se infelicita. Ela sublima a vida e ele aniquila a esperança. Onde colocaste o sentimento, Assunta? Não te comoveu o sono inocente e confiante dos meus filhos? Acreditas em felicidade sobre cadáveres? Crês que o assassino da infância não será, também, oportunamente, o destruidor da viciada? Confias a vida a quem destrói vidas? Apiedo-me de ti e, venho em teu socorro. 

Emocionada, compungida, a matrona pôs a mão muito delicada sobre a atormentada mulher e prosseguiu: 

– Foge de Girólamo, enquanto é tempo. Evade-te da Toscana. És jovem e bela. O futuro diminuirá a chama do presente e poderás carpir e resgatar os teus crimes sem te afundares noutros. Utiliza a vida e aprende a amar como Jesus nos amou. Só o amor verdadeiro, fundamentado na compaixão, na misericórdia, na consciência tranquila e na devoção até ao sacrifício, redime a criatura. O teu crime, nascido na insensatez e na lubricidade, exigirá de ti um tributo pesado de dores que poderás pagar se fugires, evitando a hiena que virá, logo mais, despedaçar o cadáver das suas esperanças, tripudiar sobre a vã loucura dos teus desejos, já desprezados por ele… Girólamo está louco e, a sua é uma enfermidade sem remédio, no momento; sem esperança, por enquanto. Evita ficar em Florença… 

– Perdoai-me, senhora! Desgraçada que sou, – bradou a infortunada. 

– Perdão, minha filha, só o do Nosso Pai e, depois, o da nossa consciência. Quando sentires a isenção da culpa, estarás, então, perdoada. Eu não te culpo, nem te exprobro a conduta leviana, cujas consequências, imprevisíveis de momento, não me cabe ajuizar. Distendo-te mãos de socorro, conforme a recomendação do Senhor: “Fazer todo o bem a quem nos faz todo o mal.” O coração materno, fundamente lanhado, vem beber contigo a taça da amargura desmedida. De certo modo, contribuíste para a felicidade e a libertação dos meus amados – lamento profundamente o esposo inditoso, que continua dormindo no desespero! –, liberdade essa que os redime de pesadas culpas, esquecidas, todavia não resgatadas, que clamavam há muito por regularização… Não seria, porém, necessário que fosse o adverso instrumento da Justiça, pois que a Divina Providência possui recursos para cobrança sem criar novos devedores… Não te compliques ainda mais… Foge, portanto, enquanto é tempo e urge a oportunidade. 

– Para onde, senhora, deverei fugir, se atei, inexoravelmente, o meu ao destino do bandido, que amo como obsessão sem lucidez nem raciocínio?! A simples memória de Girólamo me entontece, como licor cujo aroma anuncia a madureza do vinho no barril de carvalho… Agora irei até à destruição total com ele e, se me trair… 

– Nada poderás, minha filha, nada. És fraca e ignorante. Como pode a humilde rolinha, presa no olhar da serpente que prepara o bote, fugir ao esmagamento, ao veneno traiçoeiro, à morte horrível? Não conheces Girólamo, quanto eu conheço. Foge, Assunta e, que Deus tenha piedade da tua alma! 

Aos sacolejos, a carruagem, derrapando e batendo nas pedras da estrada real, foi sacudida com maior violência e a moça, fortemente arrojada do assento veludoso, acordou banhada por álgido e pegajoso suor… Abriu os olhos, fitou a paisagem sombreada por nuvens carregadas e, accionando pequena campainha, que soava ao lado do cocheiro, fê-lo parar o veículo. Muito pálida, abriu a porta e semicambaliante ensaiou alguns passos, para cair… 

O cocheiro saltou pressuroso e carregou-a para dentro do veículo, com receio de algo mau. Após aspergir água fria sobre o seu rosto, despertou-a, indagando quanto ao seu estado de saúde. 

– Sofri um pesadelo, – asseverou. Assunta, preocupada. – Não há de ser nada, pois logo passará. Façamos uma pausa, para um pouco de repouso. O ar frio me fará melhor. 

O restante da viagem transcorreu normalmente, não obstante a preocupação continuasse crescente, no cérebro da jovem. 

Chegando a Florença, onde moravam a genitora e diversos outros parentes, que residiam em sítio próximo à cidade, fronteiriço ao rio, a sege, por indicação sua, seguiu directamente para a casa que a acolheria. 

Recebida com alacridade e júbilo natural pela mãe e demais familiares, relatou em sucintas palavras o ocorrido no Palácio di Bicci e a orientação que lhe dera Dom Girólamo, quanto à necessidade de um repouso, enquanto ele reorganizaria o solar, mandando buscá-la mais tarde. Perfeitamente aceita a explicação – embora todos lamentassem as desgraças que desabaram sobre aquela mansão –, Assunta foi acolhida com carinho e contentamento geral. Novamente no lar, refez-se um pouco dos acontecimentos, apesar de não esquecer o estranho sonho que a acometera na viagem, como se fora pressaga anunciação de novas dores. Mesmo desejando demonstrar alegria, sentia-se interiormente conturbada. As paisagens queridas da infância, conquanto nascida em Chiusi, o clima em renovação, embora frio e húmido, a natureza despertando ainda encharcada do Inverno torrencial, não lhe podiam apagar os sinais da preocupação duramente suportada. Os familiares atribuíam que fossem as consequências do drama horripilante, as saudades da companheira e das crianças, evitando atormentá-la com perguntas inoportunas e descabidas… 

/… 
Párias (i). Nota desta publicação. 


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 4. FÚRIA ASSASSINA (II de III), 12º fragmento desta obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO. 
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

terça-feira, 12 de abril de 2022

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo V 

O SIGNIFICADO ESPÍRITA do Materialismo Dialéctico ~

(III de III) 

O que os materialistas dialécticos não deveriam ignorar é que o conceito de movimento traz como consequência um conceito idealista da natureza, quando se reconhece o movimento como a origem das formas. 

O movimento levará sempre a um espiritualismo dinâmico, o que nos faz reconhecer que o materialismo histórico, para permanecer como um verdadeiro materialismo, não devia adoptar a dialéctica de Hegel, já que ela, queira-se ou não, desembocará numa concepção idealista do homem e da vida. A filosofia espírita apresenta ao materialismo dialéctico uma interpretação nova do espírito, baseada na teoria do perispírito, mediante a qual demonstra a substancialidade do Ser e da Ideia, antes considerados como puras abstracções. Por isso, disse Gustave Geley: “A noção do perispírito suprime a grave objecção, feita continuamente ao espiritualismo, quanto à dificuldade de conceber a própria alma sem nenhuma forma definida.” 

Com a teoria do perispírito, o movimento, como as formas materiais, resultam numa consequência da vida Universal. Com ela aparece uma teleologia do Ser, sendo a dialéctica a causa da expansão psíquica dos seres, e o perispírito o receptor da força e da inteligência. O materialismo dialéctico não conseguiu nunca explicar como se produz na mente do indivíduo a pantomnésia, isto é, a conservação da individualidade e das recordações. Porque, se o processo dialéctico é também mental, em virtude de que princípios a memória regista as impressões do mundo exterior e permanece inalterável à consciência do indivíduo? Além disso, que essência misteriosa protege o pensamento, se o movimento o renova totalmente e tudo é e não é ao mesmo tempo? Por que, se ninguém se banhará duas vezes no mesmo rio, a inteligência continua sendo a mesma, sem esquecer as suas aquisições e conhecimentos? Numa palavra, quem preserva a coesão individual e a memória, se tudo está exposto ao processo dialéctico? 

Eis aqui, pois, os pontos capitais a que o materialismo histórico deverá responder. 

O espiritismo pode solucionar o problema, dizendo que o Ser espiritual se mantém inalterável no meio ao processo dialéctico, devido ao perispírito, no qual se resumem toda a sua inteligência e a sua individualidade. O Ser, com efeito, sustenta-se no perispírito, órgão que não pode ser alterado pelas leis do movimento dialéctico. Como veremos, esta interpretação do homem sobrepuja completamente a interpretação materialista da história. Assim, já não é somente o factor económico que determina as condições políticas, artísticas, religiosas e, outras da sociedade, pois nelas intervêm também os elementos espirituais. Porque, se a vida espiritual do homem dependesse exclusivamente dos modos de produção, não existiriam espíritos com sentido de justiça: a inteligência estaria ao nível das formas imperfeitas da sociedade. 

Não obstante, as formas capitalista e socialista são a consequência de estados de consciência, respondendo a dois graus de evolução intelectual e mental do indivíduo. Estes dois graus de evolução deveriam explicar-se pelo estado moral do perispírito, base de todas as sensações do Ser e, pelo maior desenvolvimento palingenésico do homem. Se é certo que os modos de produção aperfeiçoam e ampliam a técnica, vemos, entretanto, que os referidos factores são incapazes de criar no organismo humano novos membros, que o indivíduo pudesse utilizar em seu proveito. Esta impotência dos modos de produção permite à filosofia espírita estabelecer a seguinte conclusão: 

Se a mão foi o primeiro instrumento do qual se valeu o homem, na sua luta pela existência, este mesmo facto nos indica que é sempre a Ideia, ou o Espírito, que rege a realidade objectiva, por intermédio de um órgão material. 

E a isto, para sermos mais explícitos, devemos acrescentar que não foram as forças produtivas da economia que desenvolveram as mãos no indivíduo, mas o próprio poder de materialização do Ser, já que os modos de produção em nada alteraram as formas anatómicas do homem. Podemos dizer que as formas orgânicas do indivíduo não foram tocadas pelo processo dialéctico da economia, o que nos mostra a existência, na natureza humana, de um princípio psíquico que não poderá ser alterado por nenhuma espécie de influência exteriores. 

O desenvolvimento ou aparição de asas nas espécies voláteis não tem origem de carácter económico, mas corresponde apenas a uma finalidade do perispírito (i) desses seres. O aparecimento das faculdades metapsíquicas na espécie humana não se deve tampouco a qualquer tipo de determinismo económico. O seu desenvolvimento corresponde a factores espirituais que o homem traz em si mesmo, e que irão aumentando à medida que ele avance através do processo palingenésico. 

Entretanto, os factores económicos são elementos que podem influir indirectamente sobre o desenvolvimento metapsíquico do homem. Por isso, no seu aspecto social, a filosofia espírita revela um sentido nitidamente socialista. Um povo economicamente pobre não poderá desenvolver com facilidade o sentido psíquico da vida espiritual; não terá oportunidade para isso, visto que a pobreza sempre engendra o raquitismo. O desenvolvimento de qualquer faculdade metapsíquica nos homens e nos povos requer a organização de uma sociedade próspera, no sentido económico; as nações pacíficas e felizes são as que mais prontamente se aproximam das realidades do mundo invisível. 

materialismo dialéctico deverá reconhecer que a vida do homem tem uma finalidade transcendental. Desse modo poderia conter, como parece desejar, os erros do existencialismo. Porque, se o homem e o cidadão, a sociedade e a história, não possuem uma suprema teleologia espiritualde nada valerá o esforço para instituir na Terra uma sociedade sem classes. Se o homem, repetimos, é um Ser para a morte e para o nada, como o admite o existencialismo ateu, pouco importa que existam ou não classes exploradoras, pois tudo há de terminar na gélida noite do sepulcro. Em compensação, se o Ser é uma individualidade espiritual para a vida eterna, poderão justificar-se as diversas lutas em prol de uma sociedade justa e perfeita. (1) 

A filosofia espírita, que experimentalmente pode provar a existência imortal do Espírito, é uma vigorosa ideologia que poderá inspirar todo o homem que se sacrifique pelo bem e pela igualdade. Se o materialismo dialéctico quer enveredar por este novo caminho da filosofia e da ciência, deverá espiritualizar as suas conclusões e reconhecer que, nos diversos processos da evolução, todo o princípio material tem o seu espírito e, todo o princípio espiritual tem a sua matéria. Desta aproximação entre o material e o espiritual surgirá a mais extraordinária das revoluções, que dignificará o homem, como em nenhum outro período da história. 

 /… 

(1) Os materialistas lutam estoicamente por um futuro que nega o seu objectivismo e os coloca no plano do idealismo. Mariotti acentua essa contradição, dialecticamente resolvida pelo espiritismo. (Nota de José Herculano Pires). 


Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo V – O Significado Espírita do Materialismo Dialéctico (III de III), 10º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali