sexta-feira, 4 de março de 2022

pensamento espírita argentino ~


CAPÍTULO I 

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história 

Que somos? (X) 

A Psicologia chamada positiva não pode, pois, conciliar os seus postulados de paralelismo psicofisiológico e das localizações psíquicas no cérebro, com os factos que acabamos de expor, nem explicar, por eles, os fenómenos da memória, da subconsciência nem da identidade pessoal ou do eu psíquico num organismo mutável, sujeito a constantes transformações, no qual nem um só átomo material, nem uma só célula subsistem. Para admitir a lembrança, a subconsciência e a nossa identidade, através das mudanças materiais e celulares, há de se admitir, queira-se ou não, uma preformação da consciência, um princípio espiritual permanente e um mediador plástico de natureza etérea, semimaterial ou perispiritual, capaz de se relacionar com o espírito e o seu organismo somático e servir de receptor das impressões exteriores e de impulsionador dos movimentos motores. 

Reduzir o campo da actividade sensitiva, motriz ou mental, ao limite periférico do organismo e ao alcance dos órgãos sensoriais, foi o propósito absurdo da Psicologia positiva. A exteriorização da motilidade e da sensibilidade (telestesia), a televisão (ou visão à distância sem o órgão visual), os fenómenos telepáticos, a clarividência, etc. opõem-se a tais pretensões. Eles reclamam uma ciência mais experimental e dedutiva, mais ampla e mais exacta. Como é que um sujeito exterioriza a sua força motriz e põe em movimento, sem contacto, objectos pesados? Como é que um sensitivo ou hipnotizado sente à distância a picada aplicada no ar ou na água em que deixou impregnada a sua sensibilidade? Como ouve o clariaudiente a voz psíquica que impressiona a sua alma sem ferir o órgão auditivo? Como é que, nos casos de autoscopia, o sujeito percebe o interior do seu próprio organismo e descreve minuciosamente a parte afectada de determinado órgão? Como é que uma pessoa, ainda em estado normal, pode transmitir mentalmente a outra uma ordem e esta ser cumprida exactamente? Como é que, nos fenómenos telepáticos, em sonho ou estado de vigília, se transmitem e se recebem mensagens, avisos de doentes, visões simbólicas, ou representativas de lugares, cenas, coisas ocultas, acidentes, etc.? Como é que, enfim, nos casos de previsão e de sonhos premonitórios, se chegam a conhecer acontecimentos que, estando no futuro, não podem impressionar o cérebro? 

Todos estes fenómenos e outros que omitimos são de tão boa lei como qualquer outro fenómeno psicológico, não obstante não entrarem no estreito marco da Psicologia positiva nem poderem ser explicados pelos seus procedimentos empíricos. 

Sem dúvida que os órgãos sensoriais não fazem aqui nenhum papel e que os centros sensitivos e motores pouco ou nada têm que fazer. E se, como dizem os psicólogos empíricos, toda a função psíquica se realiza mediante um órgão e um centro cerebral, quais são os órgãos e os centros cerebrais da telepatia, da clarividência, da premonição etc.? 

Quais as vias fisiológicas pelas quais chegam e saem do campo da consciência? Se podemos receber sensações, ter percepções visuais, auditivas, tácteis (como no fenómeno de desdobramento), actuar à distância, transmitir sensações, ideias, imagens, conhecimentos, sem necessidade dos órgãos sensoriais e, sobretudo, desdobrar a nossa personalidade, sair do nosso corpo e comprovar experimentalmente o eu espírito e não o eu corpo, a que ficam reduzidas as afirmações e todo o castelo de cartas da Psicologia positiva? (1)  

 “A Psicologia contemporânea – diz René Sudre, epilogando Gustave Geley – está num impasse, de onde não sairá senão com o apoio da Metapsíquica.” 

E nós poderíamos dizer – se a Metapsíquica fosse uma ciência definida – também ela está num impasse do qual não sairá senão apoiada no Espiritismo, que lhe dá vida e a orienta na busca da verdade, assinalando-lhe os extravios. Mas como não é uma ciência definida e autónoma, posto que depende do Espiritismo, do qual é o seu aspecto científico-experimental e a ele está ligada, queira-o ou não, pelos factos que lhe dão fundamento e correspondem à ciência espírita, que os abraça e classifica segundo a sua origem anímica ou espírita e, como os metapsiquistas mais destacados (salvo raras excepções) foram e são espiritistas, cremos que o metapsiquismo, depois de suas incursões pelo mundo das hipóteses anímicas e extramateriais, voltará a integrar-se no Espiritismo, salvando-se assim do seu impasse. 

O Metapsiquismo (ou Metapsíquica, que é igual) é o Espiritismo com a teoria de menos e muitas hipóteses forçadas ou absurdas de mais; é uma ciência nova para o nome, mas o seu conteúdo fenomenológico é o mesmo que abarca o Espiritismo, ainda que este não o faça com maior amplitude. 

Quanto às explicações anímicas racionais que dá dos factos, são as mesmas que o Espiritismo dá também a determinada categoria de fenómenos e não a todos, porque muitos deles ultrapassam o limite do anímico; reduzi-los a este limite seria igual a reduzir os fenómenos supranormais da percepção psíquica, etc. à categoria de fenómenos psicofisiológicos; seria ir contra a natureza e evidência dos mesmos factos. São estes factos que o Espiritismo não inclui na categoria anímica são os que os metapsiquistas não-espiritistas dizem que “se podem explicar”, mas que “não explicam”, com as suas hipóteses ou teorias chamadas “naturais”, por oposição à teoria espiritista, que eles supõem “sobrenatural”, mas que se apresenta à razão científica com mais naturalidade e também com mais verdade. 

As mesmas objecções que fazem ao Espiritismo os metapsiquistas modernos não-espiritistas são as dos sábios espíritas no começo de suas experiências e investigaçõesCrookes, que também punha os seus senões à tese espírita e aplicou a severa frase de Faraday à forma de raciocínio de alguns dos seus partidários de que “muitos cães poderiam chegar a conclusões mais lógicas”, acabou a dizer que um homem pode ser um verdadeiro sábio e sem dúvida estar de acordo com o professor de Morgan, quando este diz: 

“Fácil tem sido dar explicações naturais, mas até agora insuficientes: e por outra parte, subsiste a dificuldade de admitir a hipótese espírita, que é a mais satisfatória.” (ver A Força Psíquica, de William Crookes). 

Objecções análogas fizeram o doutor Otero Acevedo, sábio céptico, a quem Aksakof chamou o Torquemada do Espiritismo; Flammarion, que duvidou durante 50 anos que os espíritos dos mortos interviessem nos fenómenos mediúnicos e que declinou logo o seu cepticismo perante a evidência das provas post-mortemVarleyWallaceHodgsonBarrettMyers e mil outros que do Animismo se passaram ao EspiritismoLombroso foi talvez o sábio mais refractário à teoria espiritista; depois de estudar os factos que havia negado a priori, formulou a sua famosa teoria psiquiátrica, com a qual quis explicar todos os factos, teoria que foi demolida pela crítica científica; logo, um estudo mais profundo e as provas que dele adquiriu, convenceram-no da verdade espírita e ele terminou procurando nas obras de Allan Kardec a explicação de muitos factos, que as hipóteses “naturais” não lhe haviam dado. 

Que sábio espiritista não passou pela fase do “metapsiquismo” antes de haver obtido um convencimento completo? Leia-se toda a literatura científica do Espiritismo e se verá a resistência, a repugnância, melhor diríamos, que muitos sábios e pensadores espíritas sentiram pela nossa doutrina, por crê-la uma de tantas religiões que enganam o mundo. É que o Espiritismo não é coisa fácil de ser admitida, depois das afirmações do positivismo materialista impermeabilizando as almas para toda a noção espiritualista, especialmente para o sábio que, além dos seus prejuízos de escola e da responsabilidade de suas afirmações, tem muitas saídas na mente por onde escorrer os factos, quando estes vêm atirar por terra teorias e afirmações preconcebidas. 

Metapsíquica (2) não constitui uma ciência nova, posto que os fenómenos que estuda são os que o Espiritismo vem estudando desde há três quartos de século e os seus métodos de experimentação, ainda que aperfeiçoados com o progresso da ciência e devido em grande parte ao aporte dos sábios espíritas, não têm variado fundamentalmente. O nome de Metapsíquica (mais além da Psicologia) é igualmente aplicado ao Espiritismo, que é um metapsiquismo mais completo e concorde com a variedade dos factos. 

fenómeno espírita está, pois, constituído por uma variedade de factos e manifestações de origem anímica e espírita, vale dizer: de fenómenos supranormais que provam a existência do espírito como entidade distinta do corpo somático e sem intervenção neles de entidades extraterrenas e de outros fenómenos metapsíquico-espíritas, que provam a preexistência e sobrevivência da alma e a intercomunicação entre os espíritos encarnados e desencarnados. 

distinção destas duas categorias de fenómenos de idêntica natureza foi estabelecida – até ao limite que permitem a ciência e a lógica – por homens experimentados no estudo do fenomenismo espírita, sobre a base dos mesmos fenómenos e o conteúdo das manifestações feitas pelas mesmas entidades, como pelas do mesmo médium (ou do sujeito hipnotizado) que se manifesta subconscientemente, ou pelos que se comunicam por seu intermédio e dão provas, em muitos casos, de sua identidade. 

/… 
(1) Conviria que os materialistas dialécticos, que ainda seguem parafraseando Soreal ou apoiados por Feuerbach, meditassem sobre estes factos, em vez de negá-los por espírito de sistema: eles lhe diriam qual é o “ser real”, o “sujeito e o objecto” e se a entidade psíquica, o eu espiritual, pode ou não desvincular-se do corpo e ser tão real, ainda que não tão material como este. 
(2) Conhecida também como Parapsicologia. 


Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (X), 10º fragmento da obra. 
(imagem de ilustração: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Corpo fluídico | agénere ou aparição tangível ~


Capítulo Terceiro 

OS MÉDIUNS DE BORDÉUS 

A biobibliografia "Allan Kardec" de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen oferece um bom momento para uma análise da mensagem que o Espírito de Erasto, um dos mais directos membros da equipe espiritual da Codificação, enviou aos espíritas de Bordéus por ocasião da visita que Allan Kardec fez àquela cidade em 1861. Com efeito, está assim assinalada a mensagem no segundo volume (pág. 261): "Terminado o seu discurso, Kardec lê uma instrutiva mensagem que o Espírito de Erasto, "humilde servo de Deus", dedicou aos espíritas de Bordéus, mensagem recebida pelo médium Sr. d'Ambel, antes de o viajante deixar Paris". Além desta menção, nada mais se lê sobre a instrutiva mensagem. Ela, porém, merece ser analisada, não só porque não perdeu a sua actualidade como por chamar a atenção, já na ocasião – 1861! – para a presença de inúmeros médiuns na região. Para Erasto, este facto significa uma possibilidade de que "espíritos enganadores" se sirvam dos mais invigilantes e vaidosos. Eis, pois, a mensagem (I): 

"Que a paz do Senhor esteja convosco, meus bons amigos, a fim de que nada venha jamais perturbar a boa harmonia que deve reinar num centro de espíritas genuínos! Sei quão profunda é a vossa fé em Deus e quanto sois fervorosos adeptos da nova revelação. Eis por que vos digo, com toda a efusão de minha ternura, que ficaria desolado, ficaríamos desolados todos nós que, sob a direcção do Espírito de Verdade– somos os iniciadores do Espiritismo na França, – se viesse a desaparecer do vosso meio a concórdia de que, até hoje, destes provas brilhantes. Se não tivésseis dado o exemplo de uma sólida fraternidade; se, enfim, não fôsseis um centro sério e importante da grande comunhão espírita francesa, eu teria deixado esta questão na sombra. Mas se a levantei é por que tenho razões plausíveis para vos convidar à manutenção da união, da paz e da unidade da doutrina entre os vossos diversos grupos. Sim, meus caros discípulos, aproveito com entusiasmo esta ocasião, que nós mesmos preparamos, para vos mostrar quanto seria funesta ao desenvolvimento do Espiritismo e que escândalo causaria entre os vossos irmãos de outras regiões, a notícia de uma cisão no centro que até agora nos encantou citá-lo, pelo seu espírito de fraternidade, a todos os outros grupos formados ou em vias de formação. Não ignoro, como não o deveis ignorar, também, que tudo farão para semear a divisão entre vós; que vos armarão ciladas; que no vosso caminho semearão emboscadas de toda a sorte; que vos oporão uns aos outros, a fim de fomentar a divisão e levar a uma ruptura, a todos os títulos lamentável. Mas podereis evitar tudo isso praticando os sublimes preceitos da lei do amor e da caridade, inicialmente perante vós próprios e, a seguir, perante todos. Estou convicto de que não dareis aos inimigos de nossa santa causa a satisfação de dizer: 

"Vede esses espíritas de Bordéus, que nos mostravam como marcham na vanguarda dos novos crentes! Não sabem nem ao menos estar de acordo entre si". Eis, meus amigos, onde vos esperam e onde nos esperam a todos. Os vossos excelentes guias já vos disseram: "Tereis que lutar não só contra os orgulhosos, os egoístas, os materialistas e, todos esses infelizes que estão imbuídos do espírito do século; mais ainda e, sobretudo, contra a turba de Espíritos enganadores que, encontrando no vosso meio uma rara reunião de médiuns, pois a tal respeito sois os mais aquinhoados, em breve virão assaltar-vos: uns, com dissertações sabiamente combinadas, nas quais, graças a passagens piedosas, insinuarão a heresia ou algum princípio dissolvente; outros, com comunicações abertamente hostis aos ensinos dados pelos verdadeiros missionários do Espírito de Verdade. (II) Ah! acreditai-me, não temais desmascarar os embusteiros que, novos Tartufos, se introduziriam entre vós sob a máscara da religião; sede igualmente impiedosos para com os lobos devoradores, que se ocultariam sob peles de cordeiro. Com a ajuda de Deus, que nunca invocais em vão e, com a assistência dos bons Espíritos que vos protegem, ficareis inquebrantáveis na vossa fé; os maus Espíritos vos acharão invulneráveis e, quando virem os seus dardos se quebrarem contra o amor e a caridade que vos animam o coração, retirar-se-ão confusos de uma campanha onde só terão colhido impotência e vergonha. Encarando como subversiva toda a doutrina contrária à moral do Evangelho e aos princípios gerais do Decálogo (III), que se resume nesta lei concisa: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos, ficareis invariavelmente unidos. Aliás, em tudo é preciso saber submeter-se à lei comum: a ninguém cabe subtrair-se ou querer impor a sua opinião e o seu sentimento, quando estes não forem aceites pelos outros membros de uma mesma família espírita. E nisto eu vos convido insistentemente a vos modelardes pelos usos e regulamentos da Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, onde ninguém, seja qual for sua posição, idade, serviços prestados ou autoridade adquirida, pode substituir por sua iniciativa pessoal a da Sociedade de que faz parte e, a fortiori, engajá-la em coisa alguma por meio de manobras que ela não aprovou. Dito isto, é incontestável que os adeptos do mesmo grupo devem ter uma justa deferência para com a sabedoria e a experiência adquiridas. experiência nem é divisa do mais velho nem do mais sábio, mas do que se ocupou por mais tempo e com mais frutos para todos, da nossa consoladora Filosofia. Quanto à sabedoria, cabe-vos examinar aqueles que entre vós a seguem e a praticam melhor de acordo com os preceitos e as leis. Contudo, meus amigos, antes de seguir as vossas próprias inspirações, não o esqueçais, tendes os vossos conselheiros e os vossos protectores etéreos a consultar e, estes jamais vos faltarão quando o solicitardes com fervor e com um objectivo de interesse geral. Por isso necessitais de bons médiuns e aqui os vejo excelentes, em cujo meio só tendes que escolher. Certo e, – bem o sei – a Sra. e a Srta. Cazemajoux e alguns outros possuem qualidades mediúnicas no mais alto grau e nenhuma região, eu vo-lo repito, a esse respeito é melhor dotada do que Bordéus (IV). 

"Eu tive que vos fazer ouvir uma voz tanto mais severa, meus amigos, quanto o Espírito de Verdade, mestre de todos nós, mais espera de vós. Lembrai-vos de que fazeis parte da vanguarda espírita e que a vanguarda, como o estado-maior, deve a todos o exemplo de uma submissão, absoluta à disciplina estabelecida. Ah! a vossa obra não é fácil, desde que vos cabe a tarefa de levar com mão vigorosa o machado às sombrias florestas do materialismo e perseguir até às suas últimas trincheiras os interesses materiais coligados. Novos Jasons, marchai à conquista do verdadeiro tosão de ouro, isto é, dessas ideias novas e fecundas, que devem regenerar o mundo; mas neste caso já não marchais no interesse privado, nem mesmo no da geração actual, mas, sobretudo no das gerações futuras, para as quais preparais os caminhos. Há nesta obra um cunho de abnegação e de grandeza que ferirá de admiração e de reconhecimento os séculos futuros e, crede-me, Deus saberá vos levar isto em conta. Tive que vos falar como falei, porque me dirijo a criaturas que escutam a razão, a homens que perseguem seriamente um objectivo eminentemente útil: a melhoria e a emancipação da raça humana; a espíritas, enfim, que ensinam e pregam o exemplo, que o melhor meio para lá chegar está na prática das verdadeiras virtudes cristãs. Tive que vos falar assim,", porque era necessário vos premunir contra um perigo (V), que era meu dever assinalar; venho cumpri-lo. Assim, agora posso encarar o futuro sem inquietude, porque estou convencido de que as minhas palavras serão proveitosas a todos e a cada um; e que o egoísmo, o amor-próprio e a vaidade, de agora em diante, não terão poder sobre os corações em que reine completa a verdadeira fraternidade. 

"Vós vos lembrareis, espíritas de Bordéus, que a vossa união é o verdadeiro encaminhamento para a união e a fraternidade universal; e, a esse respeito, sinto-me feliz, muito feliz, por poder constatar claramente que o Espiritismo, por si, vos impulsionou a dar um passo em frente. Recebei, pois, as nossas felicitações, pois aqui falo em nome de todos os Espíritos que presidem à grande obra de regeneração humana, já que, por vossa iniciativa, se abriu um novo campo de exploração e uma nova causa de certeza aos estudos dos fenómenos de além-túmulo, por vosso pedido de filiação, não como indivíduos isolados, mas como grupo compacto, à Sociedade iniciadora de Paris. Pela importância deste passo, reconheço a alta sabedoria dos vossos guias principais e agradeço ao terno Fénelon e aos seus fiéis coadjutores Georges e Marius, que com ele presidem às vossas piedosas reuniões de estudo. Aproveito esta circunstância para, igualmente, dar um testemunho brilhante aos Espíritos Ferdinand e Felicia, que todos conheceis. Embora estes dignos colaboradores tenham apenas feito o bem pelo bem, é bom saberdes que é a esses modestos pioneiros, secundados pelo humilde Marcelino, que a nossa santa doutrina deve ter prosperado tão rapidamente em Bordéus e no sudoeste da França. 

"Sim, meus fiéis crentes, a vossa admirável iniciativa será seguida, bem o sei, por todos os grupos espíritas formados seriamente. É, pois, um imenso passo em frente. Compreendeis e, todos compreenderão como vós, que vantagens, que progressos, que forma de divulgação a propagar e resultarão da adopção de um programa uniforme para os trabalhos e estudos da doutrina que vos revelamos. Não obstante, fique bem entendido que cada grupo conservará a sua originalidade e a sua iniciativa particular; mas, fora de seus trabalhos particulares, terá que ocupar-se de diversas questões de interesse geral, submetidas ao seu exame pela Sociedade central (VI) e, resolver várias dificuldades, cuja solução até agora não foi obtida dos Espíritos, por motivos que seria inútil aqui desenvolver. Então, quem ousará contestar uma verdade, quando esta for confirmada pela unanimidade ou pela maioria das respostas mediúnicas, obtidas simultaneamente em Lião, Bordéus, Constantinopla, Metz, Bruxelas, Sens, México, Carlsruhe, Marselha, Toulouse, Mâcon; Sétif, Argélia, Oran, Cracóvia, Moscou, São Petersburgo, como em Paris? (VII) 

''Eu vos ocupei com a rude franqueza com que falo aos vossos irmãos de Paris. Não obstante, não vos deixarei de testemunhar as minhas simpatias, justamente conquistada, esta família patriarcal, onde excelentes Espíritos, encarregues da vossa direcção espiritual, começaram a fazer compreender as suas eloquentes palavras. Citei a família Sabò, que soube atravessar com uma constância e uma piedade inalterável as dolorosas provas com que Deus a afligiu, a fim de a elevar e a tornar apta para a sua missão actual. Também não devo esquecer o concurso dedicado de todos quantos, nas suas respectivas esferas, contribuíram para a propagação da nossa consoladora doutrina. Continuai todos, meus amigos, a marchar resolutamente no caminho aberto: ele vos conduzirá seguramente para as esferas etéreas da perfeita felicidade, onde vos marcarei encontro. Em nome do Espírito de Verdade, que vos ama, eu vos abençoo, espíritas de Bordéus. Erasto." 

Esta a longa e importante mensagem enviada pelo Espírito. Coincidentemente, o seu destino fora Bordéus, cidade de Roustaing e da médium Collignon. O seu tom sério, quase viril, reconhecido pelo próprio Erasto, faz perceber que alguma razão muito forte motivou o envio da mensagem. Aliás, neste teor muito raramente os Espíritos se manifestam. Só o fazem quando há razões justificáveis. E a razão bem poderia ser a "rara reunião de médiuns" da região de Bordéus. Por que não? O Espírito ressalta este facto com bastante ênfase, chama a atenção para os perigos da invigilância, preocupado com a "turba de espíritos enganadores que… em breve virão assaltar-vos", mostrando os ardis de que se serviriam eles, "uns com dissertações sabiamente combinadas, nas quais, graças a passagens piedosas, insinuarão a heresia ou algum princípio dissolvente". Erasto é neste ponto tão incisivo que chega a dizer para que não temessem "desmascarar os embusteiros que, novos Tartufos, se introduziriam… sob a máscara da religião". Só falta citar "Os Quatro Evangelhos"… E com severidade clama: "sede igualmente impiedosos para com os lobos devoradores, que se ocultariam debaixo de pele de cordeiro". Bordéus se oferecia aos Espíritos enganadores como nenhum outro lugar, dado que ali se encontravam muitos médiuns. E Erasto compreende que somente a "união, a paz e a unidade da doutrina" seriam capazes de evitar que houvesse a intromissão daqueles Espíritos. Fala com severidade: 

"Tive que vos falar assim porque era necessário vos acautelar contra um perigo, que era meu dever assinalar". Espera que, daquele momento em diante, o "egoísmo, o amor-próprio ou a vaidade" não se aposse dos "corações onde reine a verdadeira fraternidade". Destaca como portadoras de "qualidades mediúnicas no mais alto grau" a Sra. e Srta. Cazemajoux (não diz de Collignon!), entre outros. Ressalta o valor da família Sabà (e não se refere a Roustaing). Agradece a Espíritos como FénelonFerdinand e outros. Tudo isso "em nome do Espírito de Verdade''. 

Não é fora de propósito assinalar que Kardec tinha em grande consideração o movimento espírita de Bordéus. Ao longo dos anos em que dirigiu a "Revista Espírita", publicou inúmeras mensagens de médiuns daquela cidade, além de notícias e comentários sobre o Espiritismo lá praticado. A própria médium Collignon viu, até 1865, trabalhos de sua lavra mediúnica publicados por Kardec. Depois dessa época, quando apareceram "Os Quatro Evangelhos", não mais esteve na "Revista Espírita", pelo menos enquanto esta esteve sob a direcção do Codificador. Tal não se deu, porém, com outros médiuns de Bordéus que continuaram tendo o apoio de Kardec. Entre estes, as Cazemajoux

Por outro lado, a mensagem de Erasto chegou a Bordéus numa época em que se esboçavam já os planos para "Os Quatro Evangelhos". As advertências que fez teriam sido motivadas já por estes planos? Não é improvável. Veja-se a afirmativa a respeito dos Espíritos enganadores e seus ardis, ao dizer que se apresentariam com "dissertações sabiamente combinadas, nas quais, graças a passagens piedosas, insinuariam a heresia ou algum princípio dissolvente". É, pois, possível concluir que Erasto procurava evitar a concretização de um plano que se constituiria em divisor no movimento espírita, como o é o do corpo fluídico de Jesus pregado por Roustaing… 

/... 
(I) "Revista Espírita", 1.ª edição em português pela Edicel, novembro de 1861, página 364. 
(II) Grifo nosso. Observe-se como Erasto chama a atenção para a presença dos Espíritos enganadores. Nesta ocasião, "Os Quatro Evangelhos" estavam sendo iniciados. Esta mensagem é uma verdadeira profecia, motivo pelo qual jamais seria transcrita pelos Autores de "Allan Kardec". 
(III) Grifo ainda nosso. Essa afirmativa é muito importante porque "Os Quatro Evangelhos" são sabidamente contrários à "moral do Evangelho e aos princípios gerais do Decálogo". A maioria dos que se detiveram no estudo crítico da obra roustainguista verificaram esse facto. Herculano Pires escreveu, inclusive, um capítulo em "O Verbo e a Carne" a esse respeito. 
(IV) Grifo nosso. 
(V) Grifo nosso. 
(VI) Roustaing nunca deu ouvidos a essa observação de Erasto. Não manteve nenhum contacto com Kardec durante a elaboração de sua obra. Fez tudo só e apenas depois de concluída e publicada deu conhecimento dela ao Codificador. 
(VII) Observe-se o destaque de Erasto para o princípio da universalidade dos ensinos que os roustainguistas desprezam e os Autores de "Allan Kardec" procuram colocar em segundo plano relativamente a Roustaing (vol. III, página 367). 


Wilson GarciaO Corpo Fluídico, Capítulo Terceiro – OS MÉDIUNS DE BORDÉUS, 9º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Sem título, pintura de Josefina Robirosa)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Inquietações Primaveris ~


A Heróica Pancada 
(II de II) 

Um cidadão ilustrado, diplomado e doutorado, que aceita ao mesmo tempo os dogmas absurdos de uma igreja e os princípios racionais da Ciência, mostra desconhecer o princípio de contradição, da lógica, em que duas coisas não podem ser, ao mesmo tempo e no mesmo sentido, ambas verdadeiras. Esse cidadão, por mais honesto que seja, sofre de uma falha mental no seu raciocínio, produzida por interferência de elementos efectivos e exacerbados na sua mundividência. Toda a sua cultura, todos os seus títulos, toda a sua fama nos meios socioculturais não podem salvá-lo da condenação intelectual a que se destina e da ingenuidade infantil a que se entrega no plano filosófico. Ou aceitamos a verdade científica demonstrada e provada do nosso tempo, com as suas perspectivas abertas para o amanhã, ou nos inscrevemos nas fileiras sem fim dos retrógrados, tentando tapar inutilmente o sol com a peneira. 

O amor à verdade é intransigente, porque a verdade é uma só. Os que sustentam o refrão ignorante da verdade de cada um, simplesmente revelam não conhecer a verdade e as suas exigências. 

A Educação para a Morte só pode basear-se na Verdade Única, provada com exclusão total das verdades fabricadas pelos interesses humanos ou pelo comodismo dos que nada procuram e por isso nada sabem. O homem educado na Verdade não usa as máscaras da mentira convencional nem pode ser um sistemático. A paixão da verdade enjeita toda a mentira e o faz lembrar os versos de Tobias Barreto, aplicando-os ao campo incruento das batalhas pelo futuro: 

Quando se sente bater 
no peito heróica pancada, 
deixa-se a folha dobrada 
enquanto se vai morrer 

A intuição desses versos supera as exigências formais da poética para inscrevê-los na realidade viva de uma existência humana voltada para a transcendência. Quando a verdade é ferida, ou simplesmente tocada por dedos impuros, aquele que a ama em termos de razão fecha o livro de seus estudos e pesquisas para morrer por ela, se necessário. Mas, entregando o cadáver à Terra, a que ele de facto pertence, ressuscita no seu corpo espiritual e volta aos estudos subitamente interrompidos. A reencarnação lhe permitirá, até mesmo, retomar na própria Terra, noutro corpo carnal regido pelo seu mesmo corpo espiritual, os trabalhos que nela deixou. A morte não é um esqueleto, com a sua caveira de olhos esburacados e um sabre sinistro nos ombros, como a figuraram desenhadores e pintores de outros tempos. A sua imagem real, liricamente cantada pelo poeta Rabindranath Tagore, é a de uma noiva espiritual, coroada de flores, que nos recebe nos portais da Eternidade para as núpcias do Infinito. Aqueles que assim a concebem não a temem nunca, nem desejam precipitar a sua chegada, pois sabem que ela é a mensageira da Sabedoria, que vem nos buscar após o labor fecundo e fiel nos campos da Terra. 

“Vem, ó Morte, quando chegar a minha hora, envolver-me em tuas guirlandas floridas” – exclamava Tagore num dos seus poemas-canção, já velho e cansado, mas com os seus olhos serenos reflectindo entre as inquietações humanas a luz das estrelas distantes. 

Se conseguirmos encarar a morte com essa compreensão e esse lirismo puro, desprovido dos excessos mundanos, saberemos também transmitir aos outros e, especialmente aos que nos amam, a verdadeira Educação para a Morte. 

A Verdade, o Amor e a Justiça formam a tríade básica dessa nova forma educacional que pode e deve salvar o mundo da sua perdição na loucura das ambições desmedidas. Essa tríade expulsará da Terra os espantalhos do Ódio, do Medo, da Violência e da Maldade, que fazem o homem retornar constantemente à animalidade primitiva. Então já não pensaremos em fugir para a Luz e de lá, como júpiteres de opereta, atirarmos para o planeta que nos abrigou no processo evolutivo os raios da nossa ferocidade. A Astronáutica se libertará de suas implicações bélicas e os satélites espiões das grandes potências infernais desaparecerão para sempre. Não somos os herdeiros do Diabo, esse pobre anjo decaído das lendas piedosas, que nos lança na impiedade. Somos filhos e herdeiros de Deus, a Consciência Criadora que não nos edificou para a hipocrisia, mas para a Verdade, a Justiça e o Amor. 

/… 


José Herculano Pires, – Educação para a Morte, A Heróica Pancada (2 de 2), 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

apóstolos de verdade ~


Viva José Herculano Pires! 

Este ano faz precisamente trinta anos que desencarnou José Herculano Pires, um dos maiores vultos do Espiritismo do Brasil. Sim, foi, precisamente, na noite do dia 9 de Março de 1979, que a sua alma gloriosa de grande missionário, defensor da pureza doutrinária do Espiritismo e consolidador da Doutrina Espírita em terras brasileiras, regressou à Pátria Espiritual. Foi com justa razão que Jorge Rizzini, o seu biógrafo, viu em sua pessoa um “Apóstolo de Allan Kardec”, com o que concordamos plenamente. 

José Herculano Pires nasceu na antiga Província do Rio Novo, que é hoje a bela cidade de Avaré, no interior do Estado de São Paulo, no dia 25 de Setembro de 1914. Era o filho primogénito de José Pires Correa casado com Bonina Amaral Simonetti Pires, que lhe deu sete filhos. O seu pai, inicialmente, era farmacêutico, mas abandonou a profissão para se tornar um dos mais brilhantes jornalistas do interior de São Paulo. A sua mãe foi uma distinta pianista de Avaré. 

Herculano Pires pertencia a uma tradicional família católica da classe média e, na infância, teve sérios problemas de saúde. 

A sua faculdade como médium vidente, começou a manifestar-se quando ele era ainda menino. Tinha visões reais de Espíritos andando de noite pela casa. 

Em 1920 a sua família transferiu-se para a cidade de Itaí e depois para Cerqueira César, voltando, logo em seguida, para Avaré, onde foi matriculado na Escola de Comércio, fundada e dirigida pelo Professor Jonas Alves de Almeida. 

Na adolescência, Herculano Pires foi aprendiz de tipógrafo e aluno do erudito Professor Pedro Solano de Abreu, e, durante dois anos, de 1927 a 1929, trabalhou com seu pai, na Gráfica Casa Ipiranga que o Sr. Pires Correa fundara em Cerqueira César, onde residia com a família e onde lançou o primeiro jornal político, um semanário em forma de tablóide, que recebeu o título de “O Porvir”. Herculano Pires foi o seu tipógrafo auxiliar e, nesse órgão da imprensa, publicou os seus primeiros versos e variados contos. 

Herculano Pires, além de poeta e jornalista, foi também professor e grande escritor. 

Desde a adolescência interessou-se muito pelo estudo de temas filosóficos. Deixou então o Catolicismo e, por influência de um parente próximo, Sr. Francisco Correa de Mello, tornou-se teosofista, passando a estudar a fundo os principais livros dessa filosofia, principalmente os de Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica Mas, pouco depois veio a desilusão, porque verificou que a Teosofia lhe apresentou certas explicações que lhe pareciam absurdas. 

Estava então propenso a se entregar ao Materialismo marxista, quando, certo dia, em 1936, encontrando-se com um amigo, que era espírita e fiel discípulo de Allan Kardecfoi por ele desafiado a ler “O Livro dos Espíritos”. Muito a contragosto, aceitou o desafio. Leu e gostou. Gostou tanto que se tornou espírita convicto, levado pelo raciocínio e pela lógica indestrutível que encontrou no Missionário lionês, em quem o astrónomo francês, Camille Flammarion, viu o bom senso encarnado. 

Para Herculano Pires, ser espírita “significa viver o Espiritismo; transformar os princípios doutrinários em norma viva de conduta, para todos os instantes da nossa curta existência na Terra; é praticar o Espiritismo, não apenas no recinto dos Centros ou no convívio dos confrades, mas, em toda a parte: na rua, no trabalho, no lar, na solidão dos próprios pensamentos”. 

Tornou-se conferencista eloquente e muito solicitado pelos presidentes de centros espíritas. Num deles, situado na cidade de Ipauçu, encontrou, certa vez, a bela jovem Maria Virgínia de Anhaia Ferraz, também espírita, por quem se apaixonou e com quem veio a casar-se no dia 11 de Dezembro de 1938, numa cerimónia apenas civil, em casa da noiva. 

Herculano Pires foi um grande polemista, tendo mantido discussões acaloradas com pastores protestantes e sacerdotes católicos e até mesmo com muitos confrades espíritas defensores da obra “Os Quatro Evangelhos” de Jean-Baptiste Roustaing, publicada em Bordéus, em Maio de 1866. Ele não era de cruzar os braços diante das mistificações e abusos praticados no meio espírita, como acontece hoje. 

Ao grande Mestre as nossas sinceras homenagens de admiração e respeito. 

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Erasto de Carvalho Prestes, in O Franco Paladino, Maio de 2009 / Órgão de divulgação do Espiritismo codificado pelo Mestre Allan Kardec – Viva José Herculano Pires!, 1º fragmento solto da obra. 
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

a floresta ~


Alma humana… 

Ó alma humana! Torna a descer à Terra, recolhe-te; vira as páginas do grande livro aberto a todos os olhares; lê, nas camadas do solo que pisas, a história da lenta formação dos mundos, a acção das forças imensas preparando o globo para a vida das sociedades. 

Depois, escuta. Escuta as harmonias da Natureza, os ruídos misteriosos das florestas, os ecos dos montes e dos vales, o hino que a torrente murmura no silêncio da noite. Escuta a grande voz do mar! Por toda a parte retine o cântico dos seres e das coisas, a vida ruidosa, o queixume das Almas que sofrem ainda, qual se permanecessem aqui e, fazem esforços para se libertar da ganga material que as estreita. 

A floresta estende até ao horizonte longínquo as suas massas de verdura que estremecem sob a brisa e ondulam, de colina em colina. Através das espessas ramadas, a luz se escoa em louras estrias sobre os troncos das árvores e sobre os musgos; o sopro da brisa folga nas ramagens. O Outono junta a esses prestígios a simpatia das cores, desde o verde-amarelado até ao vermelho-rubro e ao ouro puro; matiza e cresta as moitas; amarela de ocre os castanheiros, de púrpuras as faias; aformoseia as urzes róseas das clareiras. Embrenhemo-nos sob a folhagem. À medida que avançamos, a floresta nos envolve com os seus eflúvios e o seu mistério. Aromas fecundos sobem do solo; as plantas exalam subtil perfume. Poderoso magnetismo se desprende das árvores gigantescas e nos penetra e nos inebria. Mais longe, raios dourados penetram a clareira e fazem brilhar os troncos das bétulas qual fossem as colunatas de um templo. Mais longe ainda, bosques sombrios aparecem cortados em linha recta por uma aleia que alonga, a perder de vista, as suas arcadas de verdura, semelhantes a abóbadas de catedral. Por toda a parte se abrem refúgios cheios de sombra e de silêncio, solidões profundas que inspiram uma espécie de emoção. Caminhamos aí sob espessas trevas, crivadas de gotas de sol. 

Aqui, uma faia venerável arredonda no flanco de um cabeço os seus folhudos zimbórios. Ali, são os carvalhos que inclinam sobre o espelho de uma lagoa as suas espessas ramagens. Uma árvore secular, patriarca dos bosques, respeitada pelo machado e, que três ou quatro homens não poderiam abraçar, eleva-se isolada, alta qual uma igreja. O raio a tem visitado várias vezes, conseguindo, apenas, quebrar-lhe os galhos, deixando-a sempre de pé, altiva e protectora. O seu pé intumesce de raízes monstruosas, alcatifadas de musgos; coleópteros, semelhantes a pedras preciosas, correm sobre a sua rugosa casca. 

Em triste solidão, diversos pinheiros expandem os seus fustes avermelhados e os seus galhos torcidos em forma de lira. Será um capricho da Natureza? O pinheiro é a árvore musical por excelência. As suas agulhas finas e maleáveis balançam ao vento cheias de carícias e cochichos. 

Como é bom perambular sob a sombra silenciosa e comovente dos grandes bosques, ao longo do límpido regato e dos apagados trilhos traçados pelos cabritos! Como é agradável estendermo-nos sobre o veludo das alfombras ou sobre o tapete dos fetos, na base de qualquer rochedo granítico, para seguir o carreiro dos escaravelhos dourados sobre as ervas, das lagartixas sobre as pedras e, prestar ouvidos aos alegres trinados dos passarinhos! Um mundo invisível se agita e freme em redor: concertos dos infinitamente pequenos acalentando o repouso da terra; insectos, em legiões, fazem a sua ronda a um raio de luz, ao mesmo tempo que do cimo de um álamo a toutinegra se faz ouvir em garganteios de pérolas. Aqui, tudo é gozo de viver e metamorfose fecunda! No seio de um ramalhete de árvores, a fonte jorra entre os rochedos; ela se espreguiça sobre um leito, de pedras, entre florinhas e campânulas, hortelãs bravas e salvas. Do sulco esculpido pelas águas, aonde vêm beber os passarinhos, a onda cristalina corre gota a gota e murmura docemente. Um grande pinheiro sombreia e protege a pequenina concha. O vento agita as suas agulhas, enquanto a fonte murmura a sua cantilena. Um raio de sol, deslizando pela ramagem, vem por mil reflexos faiscantes sobre a toalha límpida. No ar, libélulas dançam e folgam; bonitas moscas multicores zumbem ao cálice das flores. Na paisagem tranquila, a água corrente e murmurante é um símbolo da nossa vida, que surge nas profundezas obscuras do passado e foge, sem nunca parar, para o oceano dos destinos, aonde Deus a conduz para tarefas sempre mais altas, sempre novas. Pequena fonte, pequeno regato, amigo dos filósofos e dos pensadores, vós me falais da outra margem, para a qual eu me encaminho a cada segundo e, me recordais que tudo, em volta dos seres, é lição, ensinamento para quem sabe ver, auscultar e compreender a linguagem desses seres e de todas as coisas! 

Mas, de repente, o vento sul irrompe; um sopro poderoso passa sobre a floresta, que vibra qual um órgão imenso. Semelhante a uma onda de esmeraldas, o grande fluxo vegetal intumesce pouco a pouco, ondula e sussurra. Um coração invisível anima a solidão feraz. Os troncos gigantescos se torcem em longos gemidos. Clamores sobem das touceiras; dir-se-ia o rodar de carros ou de exércitos que se entrechocam. 

O carreiro ganha um planalto e serpenteia através de um bosque de castanheiros. Estas árvores centenárias tremem ao vento. Inclinando os seus galhos pesadamente carregados, elas parecem dizer ao homem: Colhe os meus frutos, nos quais destilei o suco da minha medula; guarda os meus galhos mortos, que no Inverno aquecerão o teu lar. Toma, porém, não sejas ingrato, nem indiferente, porque toda a Natureza trabalha para o teu proveito. Não sejas ingrato, senão as provações, as rudes lições da adversidade virão fatalmente atingir o teu coração, arrancar-te, cedo ou tarde, à tua indiferença, às tuas dúvidas, aos teus erros e orientar o teu pensamento para a compreensão da grande Lei! 

Imediatamente a impressão muda e se adoça. O vento se foi. A charneca sucedeu à floresta; os tojos, as alfazemas, as giestas fazem séquito à augusta assembleia dos bosques. Sobre uma elevação do solo, um alto monólito se levanta, no centro de um círculo de pedras, coberto de musgo, umas ainda de pé, outras jazendo na relva, contando a história das raças milenares, os seus sonhos, as suas tradições, as suas crenças. O espectáculo dessas pedras enigmáticas nos reconduz ao abismo dos tempos. Daí se origina a melancolia das coisas desaparecidas, enquanto que, em seu redor, a Natureza nos dá a sensação de mocidade eterna. 

Nas encostas, vales se abrem, declives se aprofundam. Sob moitas bastas e odoríferas, puras, frescas, surgem fontes; o seu murmúrio enche o vale. O dia declina. Através das gargantas, numa chanfradura azulada, o Sol projecta reflexos de púrpura e ouro. Alvores de incêndios aparecem na orla dos bosques. Atrás, sob os fogos do poente, a grande floresta zimborial expande os seus bosques gigantescos, os seus maciços cerrados, todo o sumptuoso e cativante vestuário de que o Outono o adornou. Os raios oblíquos do Sol perpassam entre as colunatas e vão iluminar as solidões longínquas; fazem sobressair às folhagens multicores; ruivos variados, ouros foscos, vermelhos brilhantes, cromos e lacas; tudo se ilumina, tudo flameja numa espécie de apoteose. Diante dessa fantástica decoração, que me fascina, na paz da tarde, o meu pensamento se exalta e eleva, sobe à Casa de tantas maravilhas, para glorificá-la! 

Tudo na floresta é encanto, quer na Primavera, quando as seivas potentes incham as suas mil artérias, quer quando os rebentos novos reverdecem fartamente, quer quando o Outono a decora de tintas ardentes, de cores prestigiosas, ou quando o Inverno a transforma num mágico palácio de cristal, que as sombrias ramadas moldam debaixo da neve, ou se carregam de pingentes diamantinos, transformando cada pinheiro em árvore de Natal. 

A floresta não é somente um maravilhoso espectáculo; é ainda um perpétuo ensinamento. Ela nos fala, sem cessar, das regras fortes, dos princípios augustos que regem toda a vida e, presidem à renovação dos seres e das estações. Aos tumultuosos, aos agitados, oferece os seus retiros profundos, propícios à reflexão. Aos impacientes, ávidos de gozo, diz que nada é duradouro, senão aquilo que custa trabalho e precisa tempo para germinar, para sair da sombra e subir para o céu. Aos violentos, aos impulsivos, opõe a vista de sua lenta evolução. Verte a calma nas almas enfebrecidas. Simpática às alegrias, compassiva às dores humanas, ela cura os corações chagados, consola, repousa e comunica, a todas as forças obscuras, as energias escondidas no seu seio. A lenda de Anteu é sempre aplicável aos feridos da existência, a todos aqueles que esgotaram as suas faculdades, as suas potências vitais nas ásperas lutas deste mundo. Basta-lhes porem-se em contacto com a Natureza, para encontrarem, na virtude secreta o que dela emana, recursos ilimitados. 

E que analogias, que lições em todas as coisas! A bolota, sob o seu invólucro modesto, contém não só um carvalho completo no seu majestoso desenvolvimento, mas uma floresta inteira. A semente minúscula encerra no seu garrido berço toda a flor, com a sua graça, as suas cores, os seus perfumes. De igual maneira, a Alma humana possui, em gérmen, todo o desenvolvimento das suas faculdades, das suas potências futuras. Se não tivéssemos sob os olhos o espectáculo das metamorfoses vegetais, nós nos recusaríamos a crê-lo. As fases de evolução das Almas no seu curso nos escapam e, não podemos compreender actualmente todo o esplendor do seu porvir. Temos, no entanto, um exemplo disso na pessoa desses génios, que passaram através da História deslumbrantemente, deixando aos pósteros obras imperecíveis. Tais são as alturas a que se podem elevar as Almas mais atrasadas na escada das vidas inumeráveis, com o auxílio destes dois factores essenciais: o tempo e o trabalho! 

Assim, a Natureza nos mostra, em toda a beleza da vida, o prémio do esforço paciente e corajoso e a imagem dos nossos destinos sem-fim. Ela nos diz que tudo está no seu lugar no Universo; mas também que tudo evolve e se transforma, Almas e coisas. A morte é apenas aparente; aos tristes Invernos, sucedem os dias primaveris, cheios de vida e de promessas. 

A lei de nossas existências não é diferente das estações. Depois dos dias de sol, do Verão, vem o Inverno da velhice e, com ele, a esperança dos renascimentos e de nova mocidade. A Natureza, tal qual os seres, ama e sofre. Por toda a parte, debaixo da onda de amor que transborda no Universo, encontra-se a corrente de dor; mas esta é salutar, pois que, purificando a sensibilidade do ser, desperta nele qualidades latentes de emoção, de ternura e, lhe proporciona, assim, um acréscimo de vida. 

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LÉON DENIS, O Grande Enigma, Segunda parte, O Livro da Natureza (2º fragmento), XI – A floresta (1 de 2). 
(imagem de contextualização: Head of Divine Vengeance, pintura de Pierre-Paul Prud'hon)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria II – O Céu ~  

A contemplação da Natureza oferece ao homem culto, sem lugar a contestação, inefáveis encantos particulares. Na organização dos seres descobre-se o incessante movimento dos átomos que os compõem, tanto quanto a permuta constante e operante entre todas as coisas. 

Justa é a nossa admiração por tudo o que vive na superfície da Terra. O mesmo calor solar, que mantém no estado líquido a água dos rios e dos mares, conduz a seiva à fronde das árvores e faz pulsar o coração dos abutres e das pombas. A luz que espalha a viço nos prados e nutre as plantas com um sopro impalpável também povoa a atmosfera de maravilhosas belezas aéreas. O som que estremece a folhagem canta na orla dos bosques, ruge nas plagas marinhas. Em tudo vemos, enfim, uma correlação de forças físicas, que abrange num mesmo sistema a totalidade da vida sob a comunhão das mesmas leis. Ora, quanto mais fervente for a nossa admiração pelo esplendor da vida planetária, mais extensiva e aplicável se tornará, em relação aos mundos que aí fulguram acima de nossas cabeças, no cenáculo das noites silenciosas. Esses mundos longínquos que, qual o nosso, se embalam no mesmo éter, sob o império das mesmas energias e das mesmas leis, são igualmente sedes de actividade e vida. Poderíamos apresentar este grandioso e magnífico espectáculo da vida universal como eloquente testemunho da inteligência, sabedoria e omnipotência da causa anónima, que houve por bem reverberar, dos primórdios da Criação, o seu mágico esplendor no espelho da Natureza criada. Mas, não é sob este prisma que desejamos aqui desdobrar o panorama das grandezas celestes. Apenas, para o teatro das leis que regem o nosso mundo, queremos convocar os negadores da inteligência criadora. 

Se, abrindo os olhos diante desse espectáculo, eles persistirem na sua negativa, já não teremos como nos eximir de responder-lhes, em consciência, que também duvidaremos das suas faculdades mentais. Porque, para falar com franqueza, a inteligência do Criador nos parece infinitamente mais curta e incontestável que a dos ateus franceses e estrangeiros. 

E, como o método positivo consiste em não julgar antes de observar os factos, ocorre-nos o dever de examinar primeiro os factos astronómicos de que falamos e depois da interpretação com que se satisfazem os nossos antagonistas. Se, depois disso, essa sua interpretação satisfizer, subscreveremos de antemão as suas doutrinas; mas, se, ao contrário, se revelar insensata, temos, como dever de honra e por amor à verdade, de a desmascarar e entregar ao apupo da plateia. 

Esqueçamos por momentos o átomo terrestre, no qual o destino nos fixou por alguns dias. Que o nosso espírito se lance ao espaço e veja rolar diante de si o mecanismo gigantesco – mundos e mundos, sistemas depois de sistemas, na infinita sucessão de universos estrelados. Ouçamos, com Pitágoras, as harmonias siderais nas amplas e céleres revoluções das esferas e contemplemos, na sua realidade, esses movimentos simultaneamente vertiginosos e regulares que enfeudam as terras celestes nas suas órbitas ideais. Observamos que a Lei suprema, universal, dirige esses mundos. Em torno do nosso sol, centro, foco luminoso, eléctrico, calorífico do sistema planetário, giram os planetas obedientes. Os mais extraordinários labores do espírito humano deram-nos a fórmula da lei, que se divide em três pontos fundamentais, conhecidos em Astronomia por leis de Kepler, laborioso sábio que a descobriu graças ao seu génio, como à sua paciência e, que discutiu opiniaticamente, 17 anos, as observações do seu mestre Tycho Braheantes que distinguisse sob o véu da matéria a força que a rege. 

Esses três pontos são: 

1º – Cada planeta descreve em torno do Sol uma órbita elíptica, na qual o centro do Sol ocupa sempre um dos focos. 

2º – As áreas (ou superfícies) descritas pelo raio vector (1) de um planeta em redor do foco solar são proporcionais aos tempos que levam a descrevê-las. 

3º – Os quadrados dos tempos de revolução planetária, em torno do Sol, são proporcionais aos cubos dos grandes eixos orbitários. 

A síntese dessas leis integra o grande axioma que Newton foi o primeiro a formular na sua obra imortal sobre os Princípios. 

Nesse livro, ensina-nos ele – como bem adverte Herschel – que todos os movimentos celestes são consequências da lei, isto é: – que duas moléculas materiais se atraem na razão directa do volume de suas massas e na inversa do quadrado das distâncias. Partindo deste princípio, ele explica como a atracção exercida entre as grandes massas esféricas, componentes do nosso sistema, é regulada por uma lei cuja expressão é exactamente idêntica, como os movimentos elípticos dos planetas à volta do Sol e dos satélites à volta dos planetas, tal como os determinou Képler, se deduzem consequentes necessários da mesma lei e, como as próprias órbitas dos cometas não são mais que casos particulares dos movimentos planetários. Passando em seguida às aplicações difíceis, faz-nos ver como as desigualdades tão complicadas do movimento lunar se prendem à acção perturbadora do Sol, assim como se originam as marés da desigualdade de atracção que esses dois astros exercem sobre a Terra e o oceano que a rodeia. E demonstra-nos, enfim, como também a precessão dos equinócios não passa de consequência necessária da mesma lei. 

Pois é à execução dessas leis que está confiada a harmonia do sistema planetário; é a elas que os mundos devem os seus anos, as suas estações, os seus dias; é nelas que haurem a luz e o calor distribuídos em diversos graus pela fonte cintilante; é delas que derivam a eclosão da vida, a forma e ornamento dos corpos celestes. Sob a acção incoercível dessas forças colossais, os mundos se transportam no espaço com a rapidez do relâmpago e percorrem centenas de mil léguas por dia, sem parar, seguindo estritamente a rota certa e previamente traçada por essas mesmas forças. 

Se nos fora dado libertar por um momento das aparências, sob cujo império nos acreditamos em repouso no centro do Universo e, se pudéramos abranger num olhar de conjunto os movimentos que animam todas as esferas, haveríamos de ficar surpreendidos com a imponência desses movimentos. Aos nossos olhos maravilhados, enormíssimos globos turbilhonariam rápidos sobre si mesmos, projectados no vácuo a toda a velocidade, quais gigantescas balas que uma força de projecção inimaginável houvesse enviado ao infinito. Admiramo-nos desses comboios ferroviários que devoram distâncias como dragões flamantes e, no entanto, os globos celestes mais volumosos que a nossa Terra deslocam-se com uma rapidez que ultrapassa a das locomotivas tanto quanto a destas ultrapassa a das tartarugas. A terra que habitamos, por exemplo, percorre o espaço com a velocidade de seiscentos e cinquenta mil léguas por dia. Rodeando esses mundos, veríamos satélites em circulação e a distâncias diferentes, mas adstritos e submissos às mesmas leis. E todas essas repúblicas flutuantes inclinam os pólos alternativamente para o calor e para a luz, a gravitarem sobre o próprio eixo, apresentando, cada manhã, os diferentes pontos de sua superfície ao beijo do astro-rei. Tiram, assim, da combinação própria dos seus movimentos, a renovação da beleza e da juventude; renovam a fecundidade no ciclo das primaveras, dos estios, dos outonos e dos invernos; coroam de grinaldas as montanhas onde o vento suspira; reflectem no espelho dos lagos a magia de suas paisagens; envolvem-se, às vezes, na lanugem atmosférica, fazendo dela um manto protector, ou transformando-a em cadinho retumbante de raios e granizos; desdobram por superfícies imensas a força das ondas oceânicas, que, também por si, se alteiam sob a atracção dos astros, qual seio ofegante; iluminam crepúsculos com os matizes policrómicos dos ocasos comburentes e fremem nos seus pólos às palpitações eléctricas despedidas dos leques de auroras boreais; geram, embalam e nutrem a multidão de seres que as povoam; e renovam o filão da vida desde as plantas fósseis, do passado, até ao homem que pensa e sonda o futuro. Todos esses mundos, todas essas moradas do espaço, departamentos da vida, nos apareceriam quais naves bussoladas, conduzindo através do oceano celeste tripulantes que não têm a temer escolhos nem imperícias de comando, nem falta de combustível, nem fome, nem tempestades. 

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(1) Assim se denomina a linha ideal que liga um planeta ao Sol. 


Camille Flammarion (i)Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria II – O Céu (1 de 3), 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Diálogos de Kardec

O PERISPÍRITO COMO PRINCÍPIO DAS MANIFESTAÇÕES ~


Os Espíritos, como já foi dito, têm um corpo 
fluídico, a que se dá o nome de perispírito. A sua substância é haurida do fluido universal ou cósmico, que o forma e alimenta, como o ar forma e alimenta o corpo material do homem. O perispírito é mais ou menos etéreo, conforme os mundos e o grau de depuração do Espírito. Nos mundos e nos Espíritos inferiores, ele é de natureza mais grosseira e se aproxima muito da matéria bruta. 

Durante a encarnação, o Espírito conserva o seu perispírito, sendo-lhe o corpo apenas um segundo envoltório mais grosseiro, mais resistente, apropriado aos fenómenos a que tem de prestar-se e do qual o Espírito se despoja por ocasião da morte. O perispírito serve de intermediário ao Espírito e ao corpo. É o órgão de transmissão de todas as sensações. Relativamente às que vêm do exterior, pode dizer-se que o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite e o Espírito, que é o ser sensível e inteligente, a recebe. Quando o acto é de iniciativa do Espírito, pode dizer-se que o Espírito quer, o perispírito transmite e o corpo executa. 

O perispírito não se encontra encerrado nos limites do corpo, como numa caixa. Pela sua natureza fluídica, ele é expansível, irradia para o exterior e forma, em torno do corpo, uma espécie de atmosfera que o pensamento e a força de vontade podem dilatar mais ou menos. Daí se segue que pessoas há que, sem estarem em contacto corporal, podem encontrar-se em contacto pelos seus perispíritos e permutar a seu mau grado impressões e, algumas vezes, pensamentos, por meio da intuição

Sendo um dos elementos constitutivos do homem, o perispírito desempenha importante papel em todos os fenómenos psicológicos e, até certo ponto, nos fenómenos fisiológicos e patológicos. Quando as ciências médicas tiverem na devida conta o elemento espiritual na economia do ser, terão dado um grande passo e horizontes inteiramente novos se lhes patentearão. As causas de muitas doenças serão a esse tempo descobertas e encontrados poderosos meios de combatê-las. 

Por meio do perispírito é que os Espíritos actuam sobre a matéria inerte e produzem os diversos fenómenos mediúnicos. A sua natureza etérea não é que a isso obstaria, pois se sabe que os mais poderosos motores se nos deparam nos fluidos mais rarefeitos e nos mais imponderáveis. Não há, pois, motivo de espanto quando, com esta alavanca, os Espíritos produzem certos efeitos físicos, tais como pancadas e ruídos de toda a espécie, levantamento, transporte ou lançamento de objectos. Para se explicarem estes factos, não há porque recorrer ao maravilhoso, nem ao sobrenatural. 

Actuando sobre a matéria, podem os Espíritos manifestar-se de muitas maneiras diferentes: por efeitos físicos, quais os ruídos e a movimentação de objectos; pela transmissão do pensamento, pela visão, pela audição, pela palavra, pelo tacto, pela escrita, pelo desenho, pela música, etc. Numa palavra, por todos os meios que sirvam a pô-los em comunicação com os homens. 

Podem ser espontâneas ou provocadas as manifestações dos Espíritos. As primeiras dão-se inopinadamente e de improviso. Produzem-se, muitas vezes, entre pessoas de todo estranhas às ideias espíritas. Nalguns casos e sob o império de certas circunstâncias, pode a vontade provocar as manifestações, sob a influência de pessoas dotadas, para tal efeito, de faculdades especiais. 

As manifestações espontâneas sempre se produziram, em todas as épocas e em todos os países. Sem dúvida, já na antiguidade se conhecia o meio de as provocar; mas, este meio constituía privilégio de certas castas que somente a raros iniciados o revelavam, sob condições rigorosas, escondendo-o ao vulgo, a fim de o dominar pelo prestígio de um poder oculto. Ele, contudo, se perpetuou, através das idades até aos nossos dias, entre alguns indivíduos, mas quase sempre desfigurado pela superstição, ou da mistura com as práticas ridículas da magia, o que contribuiu para o desacreditar. Nada mais foram até então senão gérmenes lançados aqui e ali. A Providência reservara para a nossa época o conhecimento completo e a vulgarização desses fenómenos, para os expurgar das ligas impuras e torná-los úteis ao melhoramento da Humanidade, madura agora para os compreender e lhes tirar as consequências. 

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ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos – I O PERISPÍRITO COMO PRINCÍPIO DAS MANIFESTAÇÕES, 10º fragmento solto desta obra. 
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)