quinta-feira, 16 de maio de 2019

as nossas forças não possuem limites ~


Alma humana…

Assim se desvenda o mistério da Psique, a alma humana, filha do céu, presa temporariamente na carne e que volta para a sua pátria de origem ao longo das milhares de mortes e renascimentos.

A tarefa é árdua e as subidas a escalar são difíceis; a espiral assustadora a ser percorrida se desenrola sem um término aparente; mas as nossas forças não possuem limites, pois podemos renová-las incessantemente pela vontade e pela comunhão universal.

E, depois, não estamos sozinhos para efectuar essa grande viagem. Não apenas nos reuniremos, cedo ou tarde, com os seres amados, os companheiros de nossas vidas passadas, aqueles que compartilharam as nossas alegrias e os nossos tormentos, mas também com os outros grandes seres, que também foram homens e que agora são espíritos celestes e permanecem a nosso lado nas passagens difíceis. Aqueles que nos ultrapassaram no caminho sagrado não se desinteressam da nossa sorte e, quando a tormenta maltrata a nossa estrada, as suas mãos caridosas sustentam a nossa caminhada.

Lenta e dolorosamente, amadurecemos para as tarefas cada vez mais elevadas; participamos mais da execução de um plano cuja majestade enche de uma admiração comovente aquele que nele entrevê as linhas imponentes. À medida que a nossa ascensão se acentua, maiores revelações nos são feitas, novas formas de actividade, novos sentidos psíquicos nascem em nós, coisas mais sublimes nos aparecem. O universo fluídico se mostra sempre mais vasto para o nosso desenvolvimento; ele se torna uma fonte inesgotável de alegrias espirituais.

Posteriormente, chega a hora em que, após as suas peregrinações pelos mundos, a alma, das regiões da vida superior, contempla o conjunto de suas existências, o longo cortejo dos sofrimentos por que passou. Esses sofrimentos são o preço da sua felicidade, essas provas redundaram todas em seu proveito, afinal ela o compreende. Então, mudam-se os papéis. De protegida passa a protectora; envolve com a sua influência os que lutam ainda nas terras do espaço, insufla-lhes os conselhos da própria experiência; sustenta-os na via árdua, nas sendas ásperas que ela própria percorreu.

Conseguirá a alma chegar um dia ao termo de sua viagem? Avançando pelo caminho traçado, ela vê sempre se abrirem novos campos de estudos e descobertas. Semelhantes à corrente de um rio, as águas da Ciência suprema descem para ela em torrente cada vez mais caudalosa. Chega a penetrar a santa harmonia das coisas, a compreender que não existe nenhuma discordância, nenhuma contradição no universo; que por toda a parte reinam a ordem, a sabedoria, a providência e, a sua confiança e o seu entusiasmo aumentam cada vez mais. Com amor maior ao Poder Supremo, ela saboreia de maneira mais intensa as felicidades da vida bem-aventurada.

Daí em diante está intimamente associada à obra divina; está preparada para desempenhar as missões que cabem às almas superiores, à hierarquia dos Espíritos que, por diversos títulos, governam e animam o Cosmos, porque essas almas são os agentes de Deus na obra eterna da Criação, são os livros maravilhosos em que Ele escreveu os seus mais belos mistérios, são como as correntes que vão levar às terras do espaço as forças e as radiações da Alma Infinita.

Deus conhece todas as almas, que formou com o seu pensamento e o seu amor. Sabe o grande partido que delas há de tirar mais tarde para a realização das suas vistas. A princípio, deixa-as percorrer vagarosamente as vias sinuosas, subir os sombrios desfiladeiros das vidas terrestres, acumular pouco a pouco em si os tesouros de paciência, de virtude, de saber, que se adquirem na escola do sofrimento. Mais tarde, enternecidas pelas chuvas e pelas rajadas da adversidade, amadurecida pelos raios do sol divino, saem da sombra dos tempos, da obscuridade das vidas inumeráveis e, eis que as suas faculdades desabrocham em feixes deslumbrantes; a sua inteligência revela-se em obras que são como que o reflexo do Génio Divino.

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LÉON DENIS, O Problema do Ser, do Destino e da Dor,  IX – Evolução e finalidade da alma, fragmento.
(imagem de contextualização: Head of Divine Vengeance, pintura de Pierre-Paul Prud'hon)

domingo, 28 de abril de 2019

Deus na Natureza ~

A Força e a Matéria I Posição do Problema (V)

Um terceiro erro, capital e imperdoável em cientistas de certa idade, é se imaginarem no direito de afirmar sem provas, a se embalarem na doce ilusão de serem os outros obrigados a acreditar em palavras. Coisas que a verdadeira Ciência profundamente silencia, afirmam-nas eles, categóricos. Afirmam, como se houvessem assistido aos concelhos da Criação, ou como se fossem os próprios autores dela.

Eis alguns espécimes de raciocínio, cuja infalibilidade é tão ciosamente proclamada.

Que os espíritos um tanto afeitos à prática científica se dêem ao trabalho de analisar as seguintes afirmações:

Moleschott diz que a força não é um Deus que impele, não é um ser separado da substância material das coisas (quer dizer separado ou distinto?). É a propriedade inseparável da matéria, a ela inerente de toda a eternidade. Uma força, não ligada à matéria, seria um absurdo. O azoto, o carbono, o oxigénio, o enxofre e o fósforo têm propriedades que lhes são inerentes de toda a eternidade... Logo, a matéria governa o homem.”

Cada uma destas afirmativas, ou negativas, é uma petição de princípios, a depender do sentido que dermos aos termos discutíveis utilizados; mas, em suma, o que elas resumem é que a força vale como propriedade da matéria. Ora, essa é, precisamente, a questão. Os campeões da Ciência, que pretendem representá-la e falar com e por ela, não se dignam de seguir o método científico, que é o de nada afirmar sem provas. Nas dobras do seu estandarte, com letras douradas, estereotiparam uma legenda fulgurante, a saber: – toda a proposição não demonstrada experimentalmente só merece repúdio – e, no entanto, logo de início, esquecem a legenda. São pregadores de uma nova espécie: façam o que digo e não o que eu faço.

Veremos, com efeito, que, quantos afirmam que a força não impulsiona a matéria, exprimem um conceito imaginativo, nada científico.

Ouçamos, ainda, outras afirmativas gerais: “A matéria – diz Emil du Bois-Reymond – não é um veículo ao qual, à guisa de cavalos, se atrelassem ou desatrelassem alternativamente as forças. As suas propriedades são inalienáveis, intransmissíveis de toda a eternidade.”

Quanto ao destino humano, eis como se exprime Moleschott: “Quanto mais nos convencemos de trabalhar para o mais alto desenvolvimento da Humanidade, por uma judiciosa associação de ácido carbónico, de amoníaco e de outros sais, de ácido húmico e de água, mais se nobilitam a luta e o trabalho”, etc.

E também no nosso país: “Uma ideia – diz a Revista Médica – é uma combinação análoga à do ácido fórmico; o pensamento depende do fósforo; a virtude, o devotamento, a coragem, são correntes de electricidade orgânica”, etc.

Quem vos disse tal coisa, senhores redactores? Olhem que os leitores hão-de pensar que os vossos mestres ensinam esses gracejos, quando tal se não dá, absolutamente. Mesmo porque, do ponto de vista científico, esses raciocínios são totalmente nulos. De facto, não se sabe o que mais admirar em tais expoentes da Ciência: se a singular audácia, se a ingenuidade de suas presunções.

Newton não se cansava de repetir: “parece-nos...”, e Kepler dizia: “submeto-vos estas hipóteses...”. Aqueles outros, porém dizem: afirmo, nego, isto é, aquilo não é, a Ciência julgou, decido, condeno, posto que no que dizem não haja sombra de argumento científico.

Um tal método pode ter o merecimento da clareza, mas ninguém o inquinará de modesto, nem de verdadeiramente científico.

É que tais senhores têm a ousadia de imputar à Ciência a carga pesada das suas próprias heresias. Se a Ciência vos ouvisse, senhores (mas deve ouvir, porque sois seus filhos) – se a Ciência vos ouve, não pode deixar de rir das vossas ilusões.

A Ciência, dizeis, afirma, nega, ordena, proíbe... Pobre Ciência, em cujos lábios pondes grandes frases, atribuindo-lhe ao coração um descomunal orgulho.

Não, meus senhores e, vós bem o sabeis (cá entre nós) que, nestes domínios, a Ciência nada afirma, nem nega, porque apenas procura.

Reflecti, pois, que a armadura das vossas parlandas ilude os ignorantes e pode induzir em erro quantos não tiveram a faculdade de perlustrar os vossos estudos e, considerai que, quando nos arrogamos o título de intérpretes da Ciência, ficamos na obrigação de não falsear o título, de permanecer-lhe fiel e, por consequência, modestos tradutores de uma causa que tem na modéstia o seu primacial merecimento.

Se, da questão da força, em geral, passarmos à da alma, observaremos que, na esfera da vida animal, ou humana, os adversários não vacilam em afirmar, igualmente sem provas, que não existe personalidade no ser vivente e pensante; que o espírito, como a vida, mais não é que o resultado físico de certos agrupamentos atómicos e que a matéria governa o homem tão exclusivamente quanto, a seu ver, governa os astros e os cristais. O fenómeno mais curioso é o de imaginarem que aclaram o problema com as suas explicações obscuras:

– “O espírito, diz o Dr. Hermann Scheffler (*), outra coisa não é senão uma força da matéria, imediatamente resultante da actividade nervosa”...

Mas... de onde provém essa actividade nervosa?

– Do éter (?) em movimento nos nervos. De sorte que, os actos do espírito são o produto imediato do movimento nervoso, determinado pelo éter, ou do movimento deste nos nervos – ao qual importa ajuntar uma variação mecânica, física ou química, da substância imponderável dos nervos e de outros elementos orgânicos...

– Eis aí, suponho, bem esclarecida a questão. Virchow diz que “a vida não é mais que modalidade particular da mecânica”; e Büchner afirma que “o homem não passa de produto material; que não pode ser o que os moralistas pintam; que não tem faculdade alguma privilegiada”.

– Que há em todos os nervos uma corrente eléctrica – predica du Bois-Reymond – e que o pensamento mais não é que movimento da matéria. Para Vogt, as faculdades da alma valem como funções da substância cerebral e estão para o cérebro como a urina para os rins (**). E Moleschott assegura que a consciência, a noção de si mesmo, mais não é que movimentos materiais, ligada a correntes neuro-eléctricas e percebidas pelo cérebro.

Teremos o ensejo de assinalar, mais adiante, um ditirambo deste mesmo autor sobre o fósforo, o peso do cérebro, as ervilhas e lentilhas. Por agora, limitemo-nos a estes edificantes testemunhos.

Admiremos, sobretudo, a conclusão fundamental: “E aí temos nós porque os sábios definem a força uma simples propriedade da matéria. Qual é a consequência geral e filosófica desta noção tão simples quanto natural? É que aqueles que falam de uma força criadora, tendo de si mesma originado o mundo, ignoram o primeiro e mais simples princípio do estudo da Natureza, baseados na Filosofia e no empirismo.”

E, acrescentam – “qual o homem instruído, com um conhecimento mesmo superficial das ciências naturais, capaz de duvidar não seja o mundo governado como geralmente se afirma e, sim que os movimentos da matéria estão submetidos a uma necessidade absoluta e inerente à própria matéria? “

Assim, pela só autoridade de alguns alemães, que vêm ingenuamente declarar não admitirem, seja como for, a existência de Deus e da alma, agarrando-se embora a uma sombra de noção científica para justificar as suas fantasias, teríamos nós, a seu ver, de abjurar a Ciência, ou deixar de crer em Deus.

Tivessem tido apenas a precaução de aplicar as regras do silogismo ao seu método; tivessem tido o cuidado de propor, primeiramente, as premissas irrefutáveis e não tirar delas senão uma conclusão legítima e, poderíamos acompanhá-los no raciocínio e conferir-lhes um prémio de retórica. Mas, vede em que consiste o seu processo:

Maior – A força é uma propriedade da matéria.

Menor – Portanto, uma propriedade da matéria não pode ser considerada superior, criadora ou organizadora dessa matéria.

Conclusão – Logo, a ideia de Deus é uma concepção absurda.

É assim que arvoram, antes de tudo, em princípio a tese a discutir.

Combatendo cerradamente os métodos do Cristianismo, essa gente muito se assemelha aos que, no intuito de provarem aos Romanos a divindade de Jesus, assim começavam:

Jesus é Deus e, desse princípio não provado extraiam todas as deduções.

Convictos estamos de honrar grandemente esses escritores, aplicando aos seus postulados as regras do raciocínio, que eles talvez nunca sonharam seguir.

Também poderíamos submeter-lhes as pretensões a uma outra forma mais ingénua, assim:

Antecedente – Matéria e força encontram-se sempre associadas.

Consequente – Logo, a força é uma qualidade da matéria.

Aí temos, penso, um entimema de novo género e de consequências bem evidentes, pois não? Mas, é assim que os senhores Alemães raciocinam, bem como os seus clarividentes imitadores, positivistas da nossa moderna França.

No primeiro caso, o raciocínio peca pela base; e, no segundo, nem mesmo faz jus a essa censura, porque é uma infantilidade.

Certo, pesa dizê-lo, mas é a essa puerilidade, ou melhor – perversão da faculdade de raciocinar – a que se reduz o movimento materialista dos nossos tempos. E nunca, como aqui, vem a propósito a frase do misantropo que dizia não ser o homem um animal pensador, mas, falador.

Todo o fundamento desta grande querela, toda a base deste edifício heterogéneo, cujo desmoronamento pode esmagar muitos cérebros sob os escombros; toda a força deste sistema que pretende dominar o mundo, presente e futuro; todo o seu valor e potência, repousam nessa assertiva fantasiosa, arbitrária e jamais demonstrada, de ser a força uma propriedade da matéria.

é fingindo acompanhar a rigor as demonstrações científicas e só se apoiar em verdades reconhecidas; é confugindo-se ao estandarte da Ciência, apropriando-se de suas fórmulas e atitudes; é, enfim, com ela mascarando-se, que os pontífices do ateísmo e do niilismo proclamam as suas belas e edificantes doutrinas.

Mas a Ciência não é uma mascarada. A Ciência fala de viseira erguida, não reivindica falsas manobras, nem luzes de falso brilho. Serena e pura na sua majestade, ela se pronuncia simples, modestamente, como entidade consciente do seu valor intrínseco. Nem procura impor-se e, sobretudo, não aventa coisas de que não possa estar segura. Em vez de afirmar ou negar, investiga e prossegue, laboriosamente, no seu mister.

/…
(*) Körper und Gelst, etc.
(**) Physiologische Briefe.


Camille Flammarion (i)Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria I - Posição do Problema 5 de 6, 9º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

sábado, 20 de abril de 2019

Diálogos de Kardec ~


IV 
A EMANCIPAÇÃO DA ALMA 

Durante o sono, apenas o corpo repousa; o Espírito, esse não dorme; aproveita-se do repouso do primeiro e dos momentos em que a sua presença não é necessária para actuar isoladamente e ir aonde quiser, no gozo então da sua liberdade e da plenitude das suas faculdades. Durante a encarnação, o Espírito nunca se encontra completamente separado do corpo; qualquer que seja a distância a que se transporte, conserva-se sempre preso àquele por um laço fluídico que serve para fazê-lo voltar à prisão corpórea, logo que a sua presença ali se torne necessária. Este laço só a morte o interrompe. 

“Durante o sono, a alma liberta-se parcialmente do corpo. Quando dormimos, ficamos, temporariamente, no estado em que nos encontraremos de modo permanente depois da morte. Os Espíritos que depois da morte dos seus corpos se desligaram da matéria, tiveram sonos inteligentes; quando dormem, juntam-se à sociedade de outros seres que lhes são superiores; viajam, conversam e se instruem com eles, trabalham mesmo em obras que, quando morrem, encontram inteiramente acabadas. Isto deve ensinar-nos a não temer a morte, pois que morremos todos os dias, como disse um santo. 

“Assim é com relação aos Espíritos elevados. Quanto à generalidade dos homens que, por ocasião da morte, têm de passar por aquela perturbação, por aquela incerteza de que eles próprios nos têm falado, esses vão ou a mundos inferiores à Terra, aonde os chamam antigas afeições, ou em busca de prazeres ainda mais degradantes, talvez, do que os da sua predilecção neste mundo. Vão à procura de vivências ainda mais vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que as que entre nós praticaram. O que gera na Terra a simpatia é apenas o facto de que o Espírito, ao despertar, se sente vinculado, pelo coração, àqueles em cuja companhia acaba de passar oito ou nove horas de ventura ou de prazer. Por outro lado, o que também explica essas invencíveis antipatias que uma criatura às vezes experimenta é que ela sente, dentro do seu coração, que os que lhe são antipáticos possuem uma consciência diversa da sua, pois que ela os conhece sem jamais os ter visto. É também o que explica a indiferença, que nasce da circunstância de não nos interessar o granjeio de novos amigos, quando sabemos que outros contamos que nos amam e nos querem. Numa palavra: o sono influi mais do que supomos na nossa vida. 

“Por meio do sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos e é isso o que faz que os Espíritos superiores consintam, sem grande repugnância, em encarnar entre nós. Deus quer que, enquanto se encontrem em contacto com o vício, eles possam ir retemperar-se na fonte do bem, para não suceder que também venham a falhar, quando o que lhes cabe é instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes abriu para irem ter com os seus amigos do céu; é o recreio após o trabalho, enquanto aguardam a grande libertação, a libertação final que os restituirá ao meio que lhes é próprio. 

“O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono. Notemos, porém, que nem sempre sonhamos, pois que nem sempre nos lembramos do que vimos, ou de tudo o que vimos. É que a nossa alma não se encontra em todo o desenvolvimento das suas faculdades; não é, muitas vezes, mais do que a lembrança da perturbação que experimenta à partida ou à volta, à qual se junta a do que fizemos ou do que nos preocupa no estado de vigília. Se assim não fosse, como explicávamos os sonhos absurdos, que tanto os mais sábios, como os mais simples têm? Também os maus Espíritos se servem dos sonhos para atormentar as almas fracas ou pusilânimes. 

“A incoerência dos sonhos ainda se explica pelas lacunas resultantes da recordação incompleta do que durante eles foi visto. Dá-se então o que se daria com uma narrativa da qual se truncassem frases ao acaso: reunidos, os fragmentos que restassem nenhuma significação racional apresentariam. 

“Em suma, dentro em pouco vamos ver desenvolver-se outra espécie de sonhos, tão antigos como os que conhecemos, mas que ainda ignoramos. O sonho de Jeanne d’Arc, o sonho de Jacob, os sonhos dos profetas judeus e de alguns adivinhos indianos são lembranças que a alma, inteiramente desprendida do corpo, conserva dessa outra vida de que eu ainda não há muito falava.” (O Livro dos Espíritos, Parte 2ª, cap. VIII.) 

A independência e a emancipação da alma se manifestam, de maneira evidente, sobretudo no fenómeno do sonambulismo natural e magnético, na catalepsia e na letargia. A lucidez sonambúlica não é senão a faculdade, que a alma tem, de ver e sentir sem o concurso dos órgãos materiais. É um dos seus atributos esta faculdade e reside em todo o seu ser, não passando os órgãos do corpo de estreitos canais por onde lhe chegam certas percepções. A visão à distância, que alguns sonâmbulos possuem, provém de um deslocamento da alma, que então vê o que se passa nos lugares a que se transporta. Nas suas peregrinações, ela se encontra sempre revestida do seu perispírito, agente das suas sensações, mas que nunca se desliga completamente do corpo, como já ficou dito. O afastamento da alma produz a inércia do corpo, que às vezes parece sem vida. 

Esse afastamento ou desprendimento pode também operar-se, em graus diversos, no estado de vigília. Mas, então, jamais o corpo goza inteiramente da sua actividade normal; há sempre uma certa absorção, um alheamento mais ou menos completo das coisas terrestres; O corpo não dorme, caminha, age, mas os olhos olham sem ver, dando a compreender que a alma está algures. Como no sonambulismo, ela vê as coisas distantes; tem percepções e sensações que desconhecemos; às vezes, tem a presciência de alguns acontecimentos futuros pela ligação que percebe existir entre eles e os factos presentes. Penetrando no mundo invisível, vê os Espíritos com quem lhe é possível entabular conversa e cujos pensamentos lhe é dado transmitir. 

De volta ao estado normal, de ordinário sobrevém, o esquecimento do que se passou. Algumas vezes, porém, ela conserva uma lembrança mais ou menos vaga do ocorrido, como se tivesse tido um sonho. 

Não raro, a emancipação da alma amortece tanto as sensações físicas, que chega a produzir verdadeira insensibilidade que, nos momentos de exaltação, lhe possibilita suportar com indiferença as mais vivas dores. Provém essa insensibilidade do desprendimento do perispírito, agente transmissor das sensações corporais. Ausente, o Espírito não sente as feridas feitas no corpo. 

Na sua manifestação mais simples, a faculdade que a alma tem de emancipar-se produz o que se denomina o devaneio em vigília. A algumas pessoas, essa emancipação também dá a presciência, que se traduz pelos pressentimentos; em grau mais avançado de desprendimento, produz o fenómeno conhecido pelo nome de “segunda vista”, “vista dupla”, ou “sonambulismo vígil”. 

êxtase é a emancipação da alma no grau máximo. “No sonho e no sonambulismo, a alma vagueia pelos mundos terrestres; no êxtase, penetra num mundo desconhecido, no mundo dos Espíritos etéreos, com os quais entra em comunicação, sem, todavia, poder ultrapassar certos limites, que ela não poderia transpor sem quebrar totalmente os laços que a prendem ao corpo. Cercam-na um brilho resplandecente e desusado fulgor, elevam-na harmonias que na Terra se desconhecem, invade-a indefinível bem-estar; dado lhe é gozar antecipadamente da beatitude celeste e bem se pode dizer que põe um pé no limiar da eternidade. No êxtase, é quase completo o aniquilamento do corpo; já não resta, por assim dizer, senão a vida orgânica e percebe-se que a alma lhe está presa apenas por um fio, que mais um pequeno esforço faria partir-se.” (O Livro dos Espíritos, nº 455.) 

Como em nenhum dos outros graus de emancipação da alma, o êxtase não é isento de erros, pelo que as revelações dos extáticos estão longe de exprimir sempre a verdade absoluta. A razão disso reside na imperfeição do espírito humano; somente quando ele há, chegado ao cume da escala pode julgar das coisas lucidamente; antes não lhe é dado ver tudo, nem tudo compreender. Se, após o fenómeno da morte, quando o desprendimento é completo, ele nem sempre vê com justeza; se muitos há que se conservam imbuídos dos prejuízos da vida, que não compreendem as coisas do mundo visível, onde se encontram, com mais forte razão o mesmo há de suceder com o Espírito ainda retido na carne. 

Há por vezes, nos extáticos, mais exaltação que verdadeira lucidez, ou, melhor, a exaltação lhes prejudica a lucidez, razão por que as suas revelações são com frequência uma mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e outras ridículas. Também os Espíritos inferiores se aproveitam dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza quando não há quem saiba governá-la, para dominar o extático, e, para conseguirem os seus fins, assumem aos olhos deste aparências que o aferram às suas ideias e preconceitos, de modo que as suas visões e revelações não vêm a ser mais do que reflexos das suas crenças. É um escolho a que só escapam os Espíritos de ordem elevada, escolho diante do qual o observador deve manter-se em guarda. 

Pessoas há cujo perispírito se identifica de tal maneira com o corpo, que só com extrema dificuldade se opera o desprendimento da alma, mesmo por ocasião da morte; são, em geral, as que viveram mais para a matéria; são também aquelas para as quais a morte é mais penosa, mais cheia de angústias, mais longa e dolorosa a agonia. Outras há, porém, cujas almas, ao contrário, se encontram presas ao corpo por liames tão frágeis, que a separação se efectua sem abalos, com a maior facilidade e frequentemente antes que se dê a morte do corpo. Ao aproximar-se-lhes o termo da vida, essas almas entrevêem o mundo onde vão penetrar e pelo qual aspiram no momento da libertação completa. 

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ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos IV — A EMANCIPAÇÃO DA ALMA. 8º fragmento solto desta obra. 
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra

sexta-feira, 29 de março de 2019

O peregrino sobre o mar de névoa ~

Natureza Moral da Terapia Espírita (II)

Há pessoas que usam a terapia espírita como autógena (i), entregando-se à prece, sem procurar o socorro de médiuns.

Esse é um aspecto pouco conhecido da terapia espírita.

As pessoas que recorrem a esse processo não o fazem por auto-suficiência, mas por estarem submetidas a viciações ou perversões de que se envergonham.

Conhecemos casos de homossexualidade masculina e feminina que foram assim auto-curados. Não se trata propriamente de uma auto-cura, pois a terapia espírita foi realizada pelos espíritos e não por elas mesmas. Essas vítimas, conhecendo a doutrina, cultivaram a fé racional e conseguiram impor a si mesmas disciplinas curadoras a que se apegaram com firmeza e constância.

Os que perseveram nas suas boas intenções criam condições favoráveis à acção curadora dos espíritos terapeutas.

É emocionante o caso de um rapaz de família exemplar que esteve à beira do suicídio.

Foi salvo por uma voz que lhe soou na mente dizendo:

“Deus me permitiu anunciar-te a hora da libertação. Daqui por diante não sentirás mais os impulsos negativos que te torturavam. Esgotaste perante a Espiritualidade Superior um passado de ignomínias (i).”

Não foi um caso de auto-sugestão, mas de perseverança na prova, como depois lhe explicou a entidade protectora que lhe falara em particular, dizendo então pela boca de um médium que não o conhecia e nada sabia do seu sofrimento oculto.

Nos casos como estes revela-se a importância da vontade do paciente, como acontece na terapêutica em geral. Numa batalha oculta como a deste jovem intervêm influências de entidades vingativas, que podem levá-lo ao desespero, mas, em contrapartida, há sempre assistência de espíritos amigos, cuja acção se torna mais poderosa quando o paciente desperta as suas potencialidades volitivas e decide o seu destino por si mesmo. Firmado no seu direito de escolha e amparado pelas energias da vontade e os estímulos da consciência de sua dignidade humana, o espírito pode superar as provas mais desesperantes e triunfar sobre as suas tendências inferiores provenientes do submundo da animalidade. Por isso a terapêutica espírita condena e repele a capitulação actual da psiquiatria da libertinagem.

A condenação hipócrita do sexo pelas religiões cristãs sobrecarregou de preceitos e ordenações morais que fomentaram por toda a parte o fingimento e a hipocrisia. As tentativas cruéis de abafar o instinto sexual através de um moralismo ilógico, como o da era vitoriana na Inglaterra, prepararam a explosão sexualista da actualidade, com o rompimento explosivo dos diques e açudes tradicionais. Todos os moralistas condenaram veementemente o pan-sexualismo de Freud, como se ele tivesse culpa de só encontrar, nos traumatismos espantosos do consultório, a violência da libido, dominadora oculta de uma civilização em ruínas. A loucura de Hitler e dos seus comparsas recalcados e homossexuais, bem como a megalomania ridícula e exibicionista de Mussolini, não surgiram das heranças bárbaras, mas do pietismo castrador do medievalismo. O histerismo nazi, ligando-se ao exibicionismo fascista e à necrofilia nipónica, resultaram na formação do Eixo e na explosão da Segunda Conflagração Mundial. Foi uma explosão de recalques. Até mesmo os signos sexuais estavam presentes no sigma nazi, no fascio de Mussolini e no sol nascente de Hiroíto. Veio depois, confirmando esse conluio libidinoso, em que floresceu desavergonhado o homossexualismo germânico. Era evidente que viria depois a era pornográfica em que nos encontramos. Marcuse diagnosticou o mal da civilização, mas não foi capaz de lhe propor a solução conveniente, que aos poucos se vai delineando numa volta penosa ao reconhecimento da naturalidade do sexo, sem os excessos e desmandos da actualidade, em que a contribuição russa aparece com a mística libidinosa de Rasputin.

Historicamente, pesa sobre a figura angustiada de Paulo de Tarso a responsabilidade dessa tragédia mundial. Porque foi ele, o Apóstolo dos Gentios, quem implantou nas comunidades nascentes do Cristianismo Primitivo as leis de pureza do Judaísmo farisaico, tantas vezes condenadas por Cristo. O seu zelo pelo Cristianismo chegou ao excesso de deformá-lo, na luta que teve de enfrentar com a libertinagem do paganismo. Armou a dialéctica histórica da tese pagã contra a antítese cristã-judaica, que resultou na síntese da hipocrisia clerical. Aldous Huxley colocou este problema nos seus livros Os Demónios de Loudan e O Génio e a Deusa.

Kardec já havia antecipado, nos meados do século passado, as convulsões morais que abalariam o mundo a partir da Guerra do Piemonte. Previu a sucessão de guerras e revoluções que se desencadeariam, com surpreendentes transformações sociais, políticas e culturais em todo o mundo, acentuando que não eram catástrofes geológicas, que aconteceriam naturalmente, como sempre acontecem, mas catástrofes morais que abalariam as nações aparentemente mais seguras nas suas tradições. E o remédio indicado para a reconstrução do mundo seria a educação das novas gerações, nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, o lema da Revolução Francesa que ressurgiria com o restabelecimento ou a ressurreição do Cristianismo de Cristo e não dos seus vigários, como anunciaria também o Padre Alta (*), Doutor da Sorbonne, suspenso das ordens pelas suas ideias perigosas.

/…
(*) Também, (CEFi, Centro de Estudos de Filosofia, José Eduardo Franco / Padre Sena Freitas / John Lancaster Spalding). Nota desta publicação.

José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, 3 Natureza Moral da Terapia Espírita 2 de 3, 9º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)
(BrucknerSinfonia n. 3 (versão 1889), hr-Sinfonieorchester / Frankfurt Radio Symphony Orchestra, sobre a direcção de Paavo Järvi / Wiesbaden, Kurhaus 2013)

domingo, 10 de março de 2019

pensamento e vontade ~


~~~ formas do pensamento ~
(III)

No livro recente de H. D. Bradley, Towards the Stars, encontram-se declarações idênticas, provenientes de personalidades mediúnicas, através dos célebres médiuns Srs. Osborne LeonardTravers-Smith.

Eis, por exemplo, o que diz a personalidade mediúnica de “Johannes”, pelo médium Leonard:

“É-me necessário, em primeiro lugar, explicar-lhe em que consistem os fantasmas em questão. São fantasmas do vosso cérebro. Não são espírito nem matéria. Consistem num elemento da actividade intelectual, que deixou atrás dela a sua impressão. Só os possuidores de faculdades psíquicas muito desenvolvidas podem perceber essas “formas-pensamento”.

Perguntas-me porque alguns desses fantasmas se formam em determinados meios e não noutros, onde seria mais lógica a sua aparição. É que o fenómeno depende da intensa vitalidade da ideia geratriz. Uma prisão, um manicómio, são indubitavelmente os ambientes menos susceptíveis de assombramentos, porque também mais desertos de esperança e de actividades vitais. É muito mais provável, portanto, que o fantasma de um assassino assombre o local do seu crime do que o da sua execução quando condenado pela justiça humana.” (Pág. 272).

E Astor, o Espírito-guia de Travers-Smith, adverte por sua vez:

“Os fantasmas, isto é, as “formas-pensamento”, aparecem às vezes espontaneamente, devido a emoções terríveis, conjugadas com o pavor que lhes causam os elementos necessários à sua exteriorização. Assim se compreende não seja a Torre de Londres um lugar assombrado. Tendo sido um presídio, parece-me, vale por um ambiente no qual a mentalidade dos encarcerados se tornava obtusa, devido à triste monotonia da própria condição, desprovida de qualquer sentimento emocional ou passional, ou seja, assim um estado de desesperação resignada. E o desespero não é elemento propício à formação de fantasmas.”

Antes de passar a outro assunto, vou ainda relatar um episódio cuja interpretação é, antes de tudo, embaraçante.

O Sr. Joseph Briggs publicou a acta de uma sessão realizada em sua casa, com a famosa médium Sra. Everitt, pessoa rica, que apenas trabalhava por amor à causa.

Omito as manifestações obtidas, para só tratar do que nos interessa. Diz o narrador:

“Notável incidente veio misturar-se às manifestações, quando um dos assistentes, o Sr. Aron Wilkinson, dotado de clarividência, exclamou de repente: “Um papagaio pousa-me no ombro e agita as asas... Agora, voou sobre a Sra. Everitt...” (A Sra. Everitt estava sentada do outro lado da mesa).

Ela diz, por sua vez, estar a sentir o contacto da ave.

Wilkinson continua: “Agora o papagaio canta o God Save the Queen (o hino real). Agita novamente as asas, sobe, ei-lo que se foi”.

Episódio incompreensível para todos, menos para a Sra. Everitt, que logo o explicou, contando que havia meses se incumbia de guardar um papagaio, que muito se lhe afeiçoara.

Ainda na véspera recebera de sua casa uma carta, na qual lhe informavam que o bicho aprendia rapidamente a cantar o hino real.

Todos os presentes ignoravam o facto e há a considerar que a Sra. Everitt reside numa província distante.

Este incidente é único no rol de minhas experiências.” (Light, 1903, pág. 492).

Não há dúvida de que o episódio em apreço se explica por um fenómeno de objectivação do pensamento subconsciente da Sra. Everitt.

A circunstância de haver na véspera recebido uma carta, em que se lhe informara que o papagaio aprendera a cantar o hino a que aludira o clarividente Wilkinson, não serve senão para demonstrá-lo ulteriormente.

Não obstante, a descrição do vidente, combinada com a afirmativa do médium, de lhe haver sentido o contacto, tenderia a provar a presença de uma materialização da imagem de um papagaio, e não da mera objectivação de uma “forma fluídica de pensamento”.

E isto é ainda mais verosímil se considerarmos que a Sra. Everitt possuía notáveis faculdades de materialização.

Assim sendo, esse episódio pertenceria à categoria dos fenómenos de ideoplastia, de que nos vamos ocupar mais adiante.

Se se tratasse realmente da materialização de imagem subconsciente, dever-se-ia, contudo, notar uma circunstância primariamente excepcional: a de serem as materializações do pensamento, com raras excepções, constantemente “plásticas”, ou seja, “inanimadas”, ao passo que, no caso vertente, o papagaio materializado teria voltejado pela sala, como se fora um ser vivente.

Sem embargo, poder-se-ia sustentar que o facto também pode ser explicado pela acção da vontade subconsciente do médium, que poderia ter agido à distância sobre a sua própria criação ectoplásmica, determinando-lhe os movimentos.

Termino a segunda parte desta obra, advertindo que, até aqui, não se cogitou senão de modalidades de “objectivação de pensamento” que não fossem susceptíveis de demonstração experimental, propriamente dita.

Doravante, porém, as nossas pesquisas se prenderão a duas categorias de factos, graças aos quais atingimos a prova experimental científica da existência incontestável de uma projecção objectivada das “formas-pensamento”, observadas pelos videntes.

Assim, constataremos ao mesmo tempo a existência provável de uma projecção objectivada do pensamento, seja nos casos alucinatórios provocados por sugestão hipnótica, seja nos de alucinação espontânea ou voluntária entre os artistas e, em geral, nas alucinações patológicas propriamente ditas. (*)

/…
(*) Na sua obra Libertação (psicografia de Francisco Cândido Xavier), o espírito André Luiz narra interessantes episódios desse género. (N.E.).


Ernesto BozzanoPensamento e Vontade – Formas do pensamento 3 de 3, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgard Maxence)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Alfred Russel Wallace e o Sobrenatural ~

VIII ~ A TEORIA ESPIRITUALISTA ~

Sem dúvida que muitos dos meus leitores se irão sentir incomodados com os fenómenos estranhos e aparentemente sobrenaturais aqui trazidos ao conhecimento. Eles irão exigir que, se realmente devam ser aceites como factos, deve ser demonstrado que formam uma parte do sistema do universo ou pelo menos devem ser colocados sob algumas hipóteses plausíveis.

Há uma hipótese – velha no seu princípio fundamental, nova em muitos dos seus detalhes – que agrupa todos estes fenómenos como uma parte da natureza, até ao momento completamente ignorados pela ciência e talvez vagamente especulados pela filosofia, tratando-os sem qualquer conflito com a ciência mais avançada e a mais alta filosofia. De acordo com esta hipótese, o que, na falta de um nome melhor, chamaremos de espírito é a parte essencial de todos os seres sensíveis, cujos corpos não são mais que máquinas e instrumentos por meio dos quais ele age sobre os outros seres e a matéria. É o espírito que sente, sozinho, e percebe, e pensa – adquire conhecimento, e raciocina, e anseia –, embora só possa fazê-lo, por meio do organismo e, na exacta proporção em que este esteja ligado àquele. O homem é o espírito do homem. E o espírito é a mente. O cérebro e os nervos não são mais que a bateria magnética e o telégrafo por meio dos quais o espírito se comunica com o mundo exterior.

Embora o espírito seja em geral inseparável do corpo vivente que lhe fornece a vida animal e intelectual (para as funções vegetativas do organismo, poderia, eventualmente, prosseguir sem espírito), acontece, não raramente, haver indivíduos de tal forma constituídos que o espírito pode perceber sem o auxílio dos órgãos normais dos sentidos, ou hipoteticamente deixar total ou parcialmente o corpo por algum tempo e retornar a ele novamente. Na morte, ele abandona o corpo para sempre. O espírito, assim como o corpo, possui leis e limites definidos para as suas capacidades. Ele comunica-se com espíritos mais facilmente que com a matéria e em muitos casos só pode perceber a matéria e agir nela por meio de um médium, que é um espírito encarnado. O espírito que viveu e desenvolveu as suas capacidades vestido com um corpo humano continuará mantendo o seu modo de pensar quando deixar o corpo, os seus gostos anteriores, os seus sentimentos e afeições. O novo estado de existência é uma continuação natural do antigo. Não há nenhuma súbita aquisição de novas inclinações mentais, nenhuma revolução da natureza moral. Aquilo que o espírito encarnado fez de si ou se tornou, é o espírito desencarnado no começo de sua vida sob novas condições. Ele possui o mesmo carácter de antes mas adquiriu novas capacidades físicas e mentais, novos modos de manifestar os sentimentos morais, capacidade mais ampla para adquirir conhecimento físico e espiritual. A grande lei de ‘continuidade’ tão habilmente mostrada por falta por Sir William Groves na sua campanha para a presidência da Associação Britânica em Nottingham, permeia todo o domínio da natureza e esta, pois de acordo com a teoria espiritualista, amplamente aplicável às nossas passagens e ao progresso em direcção a um estado mais avançado da existência – uma visão que deveria ser recomendada aos homens de ciência como sendo provável em si e, em formidável contraste com as doutrinas dos teólogos, que colocam um grande golfo entre a natureza mental e as demais naturezas humanas no seu presente e no seu futuro estado de existência.

Esta hipótese, considerada uma mera especulação, é tão coerente e inteligível quanto pode ser qualquer especulação sobre qualquer assunto. Mas ela exige ser considerada como algo mais que uma especulação, já que serve para explicar e interpretar aquele vasto conjunto de factos dos quais apenas alguns poucos exemplos foram dados aqui e fornece sobre o estado futuro do homem, uma teoria mais inteligível, consistente e harmoniosa que qualquer religião ou filosofia já ofereceu.

Primeiramente, vamos à interpretação dos factos. Nos mais simples fenómenos do magnetismo animal, quando os músculos, os sentidos e as ideias dos pacientes estão sujeitos ao desejo do operador, o espírito age sobre o espírito, com a intermediação de uma peculiar relação entre a capacidade magnética ou biológica (*) dos dois organismos. Então o magnetizador é habilitado, à sua vontade, a afectar a mente e o corpo do paciente e induzir nele, por alguns instantes, um mundo imaginário. Nos fenómenos maiores de ‘clarividência simples’, o espírito parece estar, de alguma forma, liberto dos laços do corpo e pode perceber por outros meios além dos cinco sentidos. No estado ainda maior de clarividência denominado ‘viagens mentais’, (**) o espírito parece deixar o corpo (ainda ligado a ele, contudo, por uma ligação etérea); percorrer alguma distância pelo planeta, comunicando-se com pessoas em países remotos quando haja algum indício pelo qual se possa distingui-lo; (com a mediação de seu organismo) perceber e descrever eventos que estão acontecendo à sua volta.''

Sob certas condições, o espírito fora do corpo é capaz de formar para si mesmo um corpo visível a partir das emanações de corpos vivos numa relação magnética consigo e, em condições ainda mais favoráveis, este corpo pode tornar-se tangível. Desta forma, todos os fenómenos de mediunidade acontecem. A gravidade é superada por uma forma de magnetismo biológico, induzido pelo espírito sobre o médium. Mãos visíveis ou corpos visíveis são produzidos, algumas vezes escrevem, ou desenham, ou até falam. Desta maneira, amigos que partiram vêm se comunicar com os que continuam vivos ou, no momento da morte, o espírito aparece visivelmente, algumas vezes de forma tangível, aos seres amados de uma terra distante. Todos estes fenómenos aconteceriam com maior frequência se as condições que permitem as comunicações fossem mais cultivadas.

Parece, então, que todos os factos estranhos, denominados assim porque são considerados ‘sobrenaturais’, podem ser creditados à actuação de seres de uma natureza mental semelhante à nossa – que são, de facto, como nós somos –, mas um passo à frente na longa jornada através da eternidade. A natureza trivial e fantástica dos actos de alguns destes espíritos incorpóreos não deve causar espanto, quando consideramos a miríade de seres humanos fantásticos e triviais que estão diariamente se transformando em espíritos e que mantêm, pelo menos por algum tempo, a sua natureza humana numa nova condição. Mas a natureza geralmente trivial dos actos e comunicações dos espíritos (admitindo-os como tal) pode ser totalmente refutada. Se nós víssemos duas ou três pessoas fazendo gestos estranhos em perfeito silêncio, provavelmente pensaríamos que elas deveriam ser idiotas; mas se nós descobrimos que dois deles são surdos-mudos, e que os três estão conversando na linguagem dos sinais, nós nos consciencializamos de que a gesticulação dos seus corpos não seria mais intrinsecamente absurda que os movimentos de nossos lábios e da nossa face durante a fala. Então, se sabemos que os espíritos só se podem comunicar connosco de forma muito limitada, nós veremos que a ‘trivialidade’ consiste na desaprovação de qualquer forma de conversa mental por considerá-la trivial ou indigna. Então, de novo, como geralmente se diz que os assuntos das comunicações são "indignos de um espírito", a questão real é se eles são de tal forma indignos, como seriam se o mesmo espírito estivesse no corpo? Devemos também nos lembrar de que, na maioria dos casos, o espírito precisa primeiro satisfazer o seu inquiridor sobre a sua existência e em muitos casos tem de o fazer frente a um forte preconceito contra a possibilidade da comunicação dos espíritos ou até mesmo da existência dos espíritos. O facto indubitável de que milhares de pessoas têm sido de tal forma convencidas pelos fenómenos que elas testemunharam na presença de médiuns mostra que, embora possam ser triviais, estes fenómenos são apropriados para satisfazer a muitas mentes e então levá-las a aceitar e a inquirir os fenómenos de mais elevado grau, aos quais, de outra forma, jamais poderiam ter sido levadas a examinar.

/…
(*) – Nota do tradutor: Wallace está a referir-se ao conceito do magnetismo animal de Mesmer.
(**)  Nota do tradutor: Denominado por kardec de ‘mediunidade sonambúlica’ e, pela influência da obra de Aksakof e Bozzano, como desdobramento.


Alfred Russel WallaceO Aspecto Científico Sobrenatural, VIII – A TEORIA ESPIRITUALISTA (1 de 2), 5º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel, detalhe, de Edgard Maxence)

sábado, 5 de janeiro de 2019

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~

A Irlanda (II)

Duas figuras notáveis e nobres se destacam da multidão de poetas e escritores irlandeses do nosso tempo. Porque é uma verdadeira multidão que um subtil escritor, Simone Téry, passa em revista, no seu consciencioso e cativante estudo sobre o movimento literário da Irlanda.

Destas duas grandes figuras, uma é a de William Butler Yeats (1865-1939; Prémio Nobel em 1923), que é considerado o chefe da renascença das letras irlandesas e o maior poeta da língua inglesa do nosso tempo. “Penetrado de influências gaélicas, ele obtém a sua inspiração nas antigas fontes nacionais, exprime a alma nostálgica e apaixonada da Irlanda.”

Tendo entrado na intimidade do grande poeta, Simone Téry o define de um modo original:

“Yeats e a sua esposa, como tantos irlandeses, são adeptos das ciências ocultas. Essas pessoas se relacionam com espíritos e fantasmas, como se tivessem velhos conhecimentos. Eles se dedicam, curiosamente, aos abismos do desconhecido, eles se movem encantados no meio dos fenómenos misteriosos dos quais nós nos desviamos, porque fugimos daquilo que não compreendemos. A sua musa, porque é celta, gosta de se envolver em véus. Toda a obra de Yeats é cheia de um vago misticismo; ela tem uma inclinação inspirada na teosofia e nas ciências ocultas.”

Outro escritor, de muito talento, também, exerce uma influência não menos importante sobre o seu país – Georges Russell (1867-1935) – considerado a “consciência da Irlanda”, e que Simone Téry nos apresenta nestes termos:

“Tendo por ascendência uma personalidade magnética, uma vida pura, uma alma perfeita, Russel reuniu à sua volta tudo o que havia de inteligente e de nobre na Irlanda, multiplicou a inspiração de todos e lhes comunicou a sua chama.

O misticismo de Yeats é mais poéticoinstintivo; o de Russel, conscientereflectido. Das vagas aspirações sentimentais da raça celta perante o desconhecido, o mistério do mundo, Russel fez uma filosofia, um princípio de acção.

Ele também é um adepto das ciências ocultas, mas, cada vez que o interrogam sobre as suas relações com o invisível, mostra-se cheio de discrição. Quando o pressionam, diz somente: “O que eu sei é pouca coisa; descobri que a consciência pode existir fora do corpo, que se pode, às vezes, ver entidades que estão muito longe, que se pode mesmo falar com elas a centenas de quilómetros: já falaram comigo dessa maneira. Sei, por experiência, que os seres sem corpos físicos podem agir sobre nós profundamente. Um deles lançou-me fluidos vitais e, enquanto isso durou, me parecia ser chicoteado com electricidade. Estou convencido de que me recordo das vidas passadas, e conversei com amigos que se lembram igualmente: nós até temos falado, juntos, dos lugares onde tínhamos vivido. Também vi seres elementares e os observei acompanhado com aqueles que foram meus companheiros de descoberta...” (i)

A obra de Russel é rica de fugas para o infinito e para o Além. É assim que ele escreve no cabeçalho de seu primeiro livro, Para a Pátria:

“Eu sei que sou um espírito e que parti outrora do “eu” ancestral para tarefas ainda não acabadas, mas sempre repletas da nostalgia do país natal.” – e afirma as vidas sucessivas, “que são várias etapas que conduzem à sabedoria, à purificação na essência divina.”

Além destes dois escritores, Yeats e G. Russel, justamente célebres, poderíamos acrescentar um grande número de outros menos conhecidos, visto que a literatura da Irlanda é uma das mais ricas da Europa, pela variedade e pelo valor das obras que a compõem. Ela exprime com uma sensibilidade encantadora, ao mesmo tampo que com uma grande força, as aspirações, os sonhos, as alegrias e as angústias da alma céltica.

/…
(i) S. Téry, L’Ile des Bardes, p. 113. (N.O.F.)


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO II – A Irlanda 2 de 3, 9º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, OssianDesaixKléberMarceauHocheChampionnet, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)