quarta-feira, 14 de março de 2018

~~~Párias em Redenção~~~


O TESTAMENTO (II)

Passados os dias mais angustiantes do luto, as autoridades se reuniram no Palácio di Bicci para a leitura do testamento. Foram convidadas algumas famílias e compareceram, também, convocados pela Justiça, alguns remanescentes da família di Bicci di M., vinculados ao Senhor duque.

Os archotes fumegantes voltaram a arder em brasas vivas no solar e, embora todos se encontrassem em pesado luto, o vinho capitoso escorria abundante, por ordem de Girólamo, que contratara alguns áulicos novos para ajudar os fâmulos remanescentes.

O inverno rigoroso ainda não amainara de todo. Após as chuvas torrenciais e as trovoadas retumbantes, o frio cortava e as estradas se apresentavam quase intransitáveis. De quando em quando, uma pancada de água caía inesperada, ameaçando de interrupção total as péssimas vias de comunicação.

Todos, portanto, desejavam libertar-se daquele desagradável dever para o qual foram convocados, excepto os interessados. Por uma hábil manobra, Girólamo convidara especialmente Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo de Siena para presidir à solenidade, de forma a sentir-se amparado pela velha astúcia do mau e cobiçoso sacerdote, que o defenderia diante da família do extinto, caso os que viessem aventurar-se criassem dificuldades em face do vasto espólio, ou para qualquer outra inesperada emergência.

Com a intuição da possível vantagem, o prelado se fez acompanhar do séquito que o acolitava e antes que a Justiça terrena realizasse o seu mister apresentou-se como representante da Justiça Divina, abençoando o remanescente da família devorada pela tragédia e rogando a todos conformação ante os desejos do duque extinto. Terminada a oração, sem qualquer tónica de inspiração e autenticidade, o juiz convocou o notário à leitura do testamento, que, apresentado às testemunhas, estas declararam serem autênticos os selos e o documento, reconhecendo ter sido aquele que assinaram por solicitação de Dom Giovanni di Bicci di M.

Estavam presentes, também, diversos membros do clã dos M., recém-chegados de várias cidades da Toscana: Florença, Siena, Pisa…, interessados na descoberta de qualquer haver que pudessem arrojar aos excessos e desperdícios a que se encontravam e, que igualmente examinaram o documento.

Após pigarrear grotesco e asmático, o notário deu início à leitura, com voz fanhosa:

“Eu, abaixo assinado, Giovanni di Bicci di M., duque pertencente ao grão-ducado da Toscana, viúvo e morador no Palácio di Bicci, nos arredores de Siena, achando-me com saúde, em meu perfeito juízo e livre de toda e qualquer coação, faço meu testamento do modo seguinte: Primeiro – Declaro que sou natural de Florença, donde procedem os meus ancestrais, todos eles comerciários e homens públicos, já falecidos; Segundo – Que me tendo consorciado com Ângela Venturi di Bicci, já falecida, tive do matrimónio três filhos: Grazziella, Carlo e Juliana, todos menores, vivos; Terceiro – Que me sendo permitido por lei dispor de minha terça e desejando favorecer aqueles que me têm servido e a quem amo, aos quais sempre tenho protegido e, não desejando que fiquem pela minha morte privados dos recursos necessários para a subsistência, resolvi utilizar da minha terça pela forma abaixo declarada; e nesta conformidade: Quarto – Determino que uma terça parte do que me pertence e de que posso dispor seja entregue à Catedral de Siena, para obras de piedade e celebração de missas pela minha e pela alma da Senhora duquesa, ficando as partes restantes para Lúcia, que serviu admiravelmente à minha esposa e a mim me tem servido com devoção. Deixo a cada um dos meus criados, quando eu vier a falecer e, que ainda estiverem ao meu serviço, a importância de mil escudos, moeda toscana que lhes será entregue dentro de trinta dias, a contar da minha morte; Quinto – Como pelo falecimento de minha mulher os meus filhos já são possuidores das duas terças que lhes pertencem, a eles peço manter os meus desejos, já que lhes não fará falta o de que disponho, sendo esta a minha vontade; Sexto – Se, todavia, alguma desgraça vier a suceder aos meus filhos, de que lhes resulte a morte, todos os meus pertences devem passar à propriedade da aia de minha mulher, Lúcia di Francesco Felsina, a quem nomeio, desde já, tutora dos referidos menores, pela minha exclusiva vontade e com permissão da Justiça; Sétimo – Para Girólamo, a quem a minha extinta mulher tanto queria, este espólio somente lhe chegará às mãos por extinção das pessoas citadas neste testamento; e quando ele falecer, tudo será encaminhado à Ordem da Penitência, em Florença, sendo metade para obras de arte e a outra metade para missas pelos meus familiares; Oitavo – Excluo deste testamento quaisquer pessoas que se apresentem como meus familiares, aqui não referidos e que não necessitam do meu auxílio; Nono – E por esta forma tenho feito o meu testamento, pelo qual revogo todos os outros que fiz; e como me seria penoso escrevê-lo, pedi-o ao notário Dom Germano Victorio, a quem nomeio meu testamenteiro desta cidade, para que o fizesse por mim e, eu vou rubricar depois de lido e certificado de que está tal qual eu ditei e quero. Siena, doze de Janeiro de mil setecentos e quarenta e três.”

– Devidamente assinado e aprovado, como pode ser visto – arrematou o tabelião –, devemos atender às exigências de Dom Giovanni.

Irromperam entre os assistentes diversas exclamações de ódio e violência, surgindo alterações entre membros da família, que se acreditavam ludibriados. Revoltados, informaram que apelariam para a Justiça da Capital.

Girólamo, abraçado pelo Bispo, chorava ou fazia crer que chorava. Dizia desconhecer o documento, no que foi ratificado pelo notário, que informou jamais o ter revelado a alguém – conquanto fosse conhecido dipsomaníaco, na cidade –, e pelo prelado da diocese, que se sentia ufano de ter sido a Igreja lembrada pelo falecido. Rejubilava-se, acreditando poder receber, também, um largo quinhão de Girólamo, quando este entrasse na posse dos bens, tendo em vista serem amigos e ter-se transformado em seu protector desde os aziagos acontecimentos já narrados.

O Senhor Bispo, tomando a palavra no tumulto geral, tornando-se juiz da questão, levantou a voz e bradou:

– Como os demais herdeiros – as crianças de di Bicci e a criminosa Lúcia – se encontram mortos, todo o espólio por lei e direito pertence, desde este momento, a Girólamo, a quem cumpre o dever de atender os desejos do seu tio e pai adoptivo, Dom Giovanni – que Deus lhe guarde a alma, nos Céus!

– Não posso receber nada, – falou o rapaz. – Esta casa está manchada pelo sangue de inocentes vítimas e esse dinheiro é amaldiçoado. Não posso, não posso!

– Acalme-se, meu filho! – redarguiu o Bispo. – Celebraremos algumas missas aqui e abençoaremos o solar. Você ajudará a Igreja, terá o que merece e o que lhe pertence pela vontade de Deus e do Senhor di Bicci.

Os familiares di Bicci di M., talvez recordando o antigo prestígio de que gozavam até há pouco, ameaçaram, furibundos, tudo retomar, utilizando-se do fastígio que lhes aureolava o nome, junto a Francisco de Lorena, da Áustria, e prometeram regularizar a situação posteriormente, expulsando a espadas o usurpador. Blasfemando, encolerizados, saíram em direcção a Siena…

Asserenadamente, deixaram-se ficar alguns convidados, as testemunhas, que assinaram o documento, o notário e o Senhor Bispo, para uma demorada comemoração em família.

Girólamo, aparentando uma emoção, uma tristeza que estava longe de sentir, solicitou ao testamenteiro e ao Senhor Bispo que cuidassem das questões legais, enquanto ele se afastaria com destino a Florença para um justo repouso, a fim de reorganizar as ideias, muito violentadas nos últimos tempos. Voltaria um mês depois, quando, de posse dos haveres, saberia recompensá-los devida, regiamente.

Os olhos dos comensais espúrios do favor nefando brilharam e a noite continuou sombria, piscando estrelas no alto.

/…


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 3. O TESTAMENTO (2 de 3), 9º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

domingo, 4 de março de 2018

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo IV

A FILOSOFIA CIENTÍFICA DE GUSTAVE GELEY (II)

Seguindo o fio do seu pensamento filosófico, vê-se que Geley continuou a analisar a constituição do Ser, segundo os princípios da nova ideia. Considerou o Eu como um dinamopsiquismo essencial, em contraposição à psicologia clássica, que o considera como a soma de estados de consciência e, que o consciente e o inconsciente se interpenetram para se condicionar reciprocamente. Conceituou, sempre apoiado nos factos, que o dinamopsiquismo inconsciente ou subconsciente tende, pela evolução, a converter-se em dinamopsiquismo consciente; por isso é que todas as aquisições conscientes são assimiladas e convertidas em faculdades do espírito.

Dessa maneira, o Ser se desenvolve, ou se manifesta e, adquire, fixando-as, as novas faculdades do sentir, do conhecer e do saber. O progresso espiritual e psicológico resume-se, portanto, na conversão dos conhecimentos em faculdades, o que a filosofia espírita denomina evolução palingenésica. O Ser alcança, pela experiência científica e pela indução filosófica, a síntese do indivíduo, que, como essência manifestante que é, se objectiva em representações hierárquicas, que se condicionam reciprocamente e, que, segundo os conhecimentos metapsíquicos actuais, são:

O mental.

O dinamismo vital.

A substância orgânica única.

Consequentemente, mostrou-nos que os factos psicológicos (em psicologia clássica são ainda um mistério puro) resultam, para a parapsicologia, de estados anormais, que têm pontos de contacto inevitáveis e recíprocas relações, que se interpenetram frequentemente.

A evolução universal era, para Geley, como já sabemos: a passagem do inconsciente ao consciente no Universo. Concebeu o Cosmos como um dinamopsiquismo essencial e, também como representação.

“Da mesma maneira que o indivíduo, — escreveu — o Universo deve conceber-se como representação temporária e como dinamopsiquismo essencial e real. Do mesmo modo que o organismo do indivíduo é apenas o produto ideoplástico de um dinamopsiquismo essencial, assim o Universo se apresenta como a formidável materialização da potencialidade criadora.”

Dentro deste princípio, a evolução é a aquisição da consciência, tanto no microcosmo como no macrocosmo. Por isso explicou Geley que as faculdades evolutivas, que no transformismo clássico não têm um esclarecimento racional, se tornam compreensíveis quando vemos que o mais pode sair do menos, desde que a imanência criadora, que está na própria essência das coisas, possui todas as capacidades potenciais de realização. Em resumo, proclamou: “que a evolução colectiva, como a evolução individual, pode resumir-se nesta fórmula: passagem do inconsciente ao consciente.”

Para corroborar esta concepção, escreveu Geley:

“No indivíduo, o Ser aparente, submetido ao nascimento e à morte, limitado nas suas capacidades, efémero na sua duração, não é o Ser real; não é senão uma representação ilusória, atenuada e fragmentária.”

“O Ser real, aprendendo pouco a pouco a conhecer-se a si mesmo e a conhecer o Universo, é a centelha divina a caminho de realizar a sua divindade, infinita nas suas potencialidades, criadora e eterna. No Universo manifestado, as diferentes aparências das coisas não são mais do que a representação ilusória, atenuada e restrita, da unidade divina, realizando-se numa evolução indefinida.”

“A constituição dos mundos e dos indivíduos — dizia — não é, também, senão a realização progressiva da consciência eterna, pela multiplicidade progressiva de criações temporárias ou de objectivações”'.

É neste ponto que o génio filosófico de Geley atinge o coroamento do seu idealismo metapsíquico, o qual, segundo René Sudre, constituía um ensinamento superior do espiritismo. Sem exaltadas declamações, já que frente ao materialismo resultariam estéreis, refutou o “grito lacerante” de pessimismo que lançava “um grande príncipe árabe do século X, no reinado que marcou o apogeu do Califado de Córdoba.”

— Em que consiste esta existência? – perguntava o príncipe a si mesmo.

— Em trabalhar um quarto de século para adquirir os meios de vida; em lutar outro quarto de século em incessantes sobressaltos, para que estes meios produzam um rendimento suficiente e; depois morrer, sem saber, na verdade, por que vivemos, – respondeu-lhe o seu próprio sentido pessimista da vida.

“Quantas dores e tristezas, — anotou Geley — sobressaltos e medos, durante o pequeno quarto de século em que o homem “desfruta” das suas aquisições! Juventude efémera, com as suas ilusões perdidas; vida empregada em se preparar para viver; esperanças sempre falidas e sempre ressurgindo; algumas flores apanhadas à beira do caminho, quase sempre emurchecidas ao toque das mãos; alguns momentos de repouso e em seguida a marcha apressada que recomeça! Naufrágios pessoais; naufrágios familiares; trabalho rude e descanso; medos, desilusões e decepções: isso é o corrente para o comum dos mortais. Para aqueles que têm um “ideal”, é pior ainda: alguns destinos em busca da ilusão, e inauditos esforços para alcançá-la.”

Esta é a vida humana, do ponto de vista do existencialismo ateu e do materialismo histórico, sobre o qual se funda a concepção marxista. Perante esta concepção sombria do mundo, Geley analisa o conceito optimista daquelas escolas que dizem se poder esperar uma era de menos dores, menos miséria e menos enfermidades. Numa palavra: em vez de uma noite escura de infortúnios e sofrimentos, iluminada apenas por alguns raios de gozo efémero, devemos esperar, — segundo estas escolas, — uma aurora de bem-estar, em que as sombras da dor farão apenas ressaltar melhor a sua refulgente harmonia e beleza.

A este falso optimismo da vida, Gustave Geley responde da seguinte maneira:

“Sim, podemos esperar tudo isso! Mas esta humanidade, chegando a gozar desse ideal, verá o seu triunfo e a sua felicidade erguerem-se sobre a hecatombe das gerações passadas; isto é, desfrutará de uma felicidade que os homens não terão merecido, do mesmo modo que os seus antepassados não mereceram as suas misérias!”

“Há nesta concepção, — acrescentava, — uma tão grande injustiça que basta por si só para acarretar irresistivelmente o mais cru pessimismo filosófico.” Ao contrário, para que a visão mude, para que o pensamento das misérias humanas e da morte se despoje do seu carácter sombrio e da sua aparência maldita, é preciso a ideia e o ensinamento da doutrina palingenésica. Então: “tudo se esclarece, — dizia Geley, — os túmulos deixam de ser túmulos; são asilos passageiros para o fim da jornada.” E continuava: “Assim como desaparece, com a ideia palingenésica, o carácter fúnebre da morte, assim também desmorona o monumento da injustiça, edificado pelo evolucionismo clássico. Já não há, na evolução, sacrificados nem privilegiados. Todos os esforços individuais e colectivos, todos os sofrimentos e amarguras terão acabado na realização da justiça e na preparação do bem; mas o bem e a justiça para todos, porque todos teremos contribuído para isso.”

E antepondo-se às falsas interpretações dos fenómenos metapsíquicos, como se falasse ao mais puro da espécie, disse:

“Não; a essência una, seja qual for o nome que se lhe dê, criadora das representações sem número, não acaba materializando-se nessa vã fantasmagoria de mundos, de formas e de seres sem passado e sem futuro; representações absurdas, mundos sem coerências, de obscuridades ou de loucura; vãos fantasmas desvanecidos quase ao mesmo tempo que criados e, desvanecidos sem deixar rasto! Não; a essência una não acaba, com maior razão, criando mundos de dor, para que sirvam de marco ao sofrimento universal imerecido, inútil, e infecundo.”

“As representações fugitivas, — acrescentava, — não são nem incoerentes nem desventuradas; graças a elas e por - elas, a essência única, a única realidade chega paulatinamente, por inumeráveis experiências, a conhecer-se pouco a pouco a si mesma, individual e colectivamente, nas partes e no todo.”

“As representações, compreendidas finalmente, revelam uma soberana harmonia. Delas se depreende o fim supremo, a finalidade verdadeiramente divina. A harmonia é o acordo imanente de umas com as outras, a estreita solidariedade das parcelas individualizadas do princípio único e de sua união irrefragável no todo.”

“O objecto é a aquisição da consciência, o passo indefinido do inconsciente ao consciente. E é assim que se desenvolvem todas as potencialidades (sendo a realização a evolução) da soberana inteligência, da soberana justiça e do supremo bem”.

O que nos parece estranho e incompreensível é a cultura filosófica continuar ignorando a teoria do dinamopsiquismo, exposta sobre bases experimentais por Gustave Geley, no seu livro Do Inconsciente ao Consciente. Esta obra, que deveria ser o fundamento da nova filosofia idealista, permanece quase esquecida ao lado do Tratado de Metapsíquica, de Charles Richet. Não reparam os pensadores que é nos princípios ali expostos que se encontra a autêntica raiz do pensamento metafísico. Se a filosofia se detivesse por um momento no pensamento metapsíquico de Geley, encontraria a mais sólida base para realizar um novo e firme trabalho filosófico. Acreditamos que, com a filosofia idealista da metapsíquica, a filosofia passará, a bem do conhecimento, da filosofia à teosofia, isto é, de uma ciência naturalista a uma ciência cósmica e espiritualista. Tinha muita razão o dr. J. B. Rhine ao reclamar a colaboração dos filósofos nos problemas levantados pela parapsicologia. (i)

A teosofia (ii) é o mais perfeito saber que pode orientar o homem, através dos seus sentidos mediúnicos e espirituais. O ser humano possui duas formas de compreender a verdade: uma, a objectiva; outra, a subjectiva. Disto se conclui que o saber não é uma questão somente física ou sensorial; é também uma problemática psíquica e intuitiva.

O homem compreende e conhece o mundo pelas vias da razão e do seu contacto com o mundo material, mas pode compreendê-lo e reconhecê-lo também por meio do espírito, isto é, por vias extras-sensoriais, tal como o confirmaram a parapsicologia e a metapsíquica.

A possibilidade de um conhecimento místico do mundo é uma justa aspiração e um direito legítimo do homem. Penetrar os recessos da natureza é talvez descobrir a própria alma das coisas. Isto constituiria uma teosofia do Conhecimento e não somente uma filosofia. Além disso, significaria descobrir o segredo oculto das existências, o desvelar poético das Idades, conhecer o enigma das aventuras, lendas e heroísmos do homem, na certeza de que tudo vive, existe e se relaciona, através do grande curso e recurso das almas.

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(i) A participação dos filósofos é um sinal inequívoco do progresso da parapsicologia, rumo à sua maturidade. (Revista de Parapsicologia n° 2, Buenos Aires, 1955).
(ii) A palavra teosofia é empregada pelo autor em sentido espírita, na sua significação etimológica de “sabedoria de Deus” ou “conhecimento de Deus”, filosoficamente entendida como “ciência do Ser”. Não confundir, portanto, com as doutrinas teosóficas conhecidas, que são apenas aproximações da verdadeira teosofia. (Nota de José Herculano Pires).


Humberto Mariotti, O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo IV A Filosofia Científica de Gustave Geley, 2 de 2, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O Mundo Invisível e a Guerra ~


III
As Lições da Guerra (III)

(Março de 1915)

Tudo, na ordem espiritual, se resume em duas palavras: reparação e elevação!

As calamidades são o cortejo inevitável das humanidades atrasadas e a guerra é a pior de todas. Sem elas o homem pouco desenvolvido perderia o seu tempo com as inutilidades da jornada ou se entregaria ao bem-estar e à preguiça.

É preciso o guante da necessidade e a noção do perigo para obrigá-lo a movimentar as suas forças adormecidas, desenvolver-lhe a inteligência e apurar-lhe a razão.

Tudo o que é destinado à vida e ao crescimento se prepara na dor. É necessário padecer para dar à luz, eis a colaboração da mulher. Cumpre padecer para criar, eis a participação do génio.

Nos momentos supremos de sua história é que as qualidades varonis de uma raça se apresentam com maior brilho. Se a guerra desaparecesse, com ela desapareceriam muitos males e muitos horrores; mas não é a guerra também geradora do heroísmo, do espírito de sacrifício, do desprezo pelo sofrimento e pela morte? São estas coisas que fazem a grandeza do homem, as que o colocam acima do irracional.

O homem, espírito imortal, é um centro de vida e de actividade que, de todas as vicissitudes, todas as provações, mesmo as mais cruéis, deve conseguir outros processos pelos quais se expandam cada vez mais as energias existentes no nosso íntimo.

As grandes emoções nos fazem esquecer as preocupações corriqueiras (muitas vezes frívolas) da vida, abrindo em nós uma passagem para as influências do Espaço.

No entrechoque dos acontecimentos, a bruma formada pelos nossos anseios, pensamentos e inquietações de cada dia se esvai e a grande lei, o supremo objectivo da existência se revela, por um momento, aos nossos olhos.

Nos mundos mais adiantados, nas humanidades superiores à nossa, os flagelos já não têm razão de ser, não existindo a guerra, porque a sabedoria do espírito elimina todos os conflitos.

Os habitantes dos mundos felizes, iluminados pelas verdades eternas, com a aquisição dos poderes da inteligência e do coração, não têm mais necessidade desses terríveis estímulos para despertar e cultivar os recursos ocultos da alma.

Na grande escalada do progresso, as causas do sofrimento atenuam-se à medida que o espírito progride, porque se tornam cada vez menos necessárias para uma ascensão que se realiza livremente, na paz e na luz.

A grande escola das criaturas e dos povos é o sofrimento. Quando eles se afastam do caminho recto e descambam para a sensualidade e para a decomposição moral, a dor, com o seu aguilhão, recoloca-os no verdadeiro caminho.

É necessário que o homem sofra para desenvolver a sensibilidade e a vida, sendo esta uma lei grave, séria e de proveitosas consequências.

É preciso sofrer para sentir e amar, crescer e elevar-se. Só o sofrimento domina os furores da paixão, desperta em nós as meditações profundas e revela às almas o que há de melhor, mais belo e mais nobre no Universo: a piedade, a caridade e a bondade!

Do seu banho de sangue e de lágrimas, a França sairá rejuvenescida e mais bela, irradiando eterna glória, para prosseguir a missão que a sua História lhe impõe.

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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, III – As Lições da Guerra 3 de 3, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

pensamento espírita argentino ~


CAPÍTULO I

~~ Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história ~

Que somos? (VII)

Certo é que o eminente psiquiatra Lombroso não mais sustentasse nos seus últimos anos, depois das suas célebres experiências no fenomenismo espírita, a teoria anticientífica que confunde o génio com a loucura, nem houvesse escrito as páginas (das quais teve que se envergonhar mais tarde) nas quais colocava os médiuns e os espíritas na categoria de loucos e anormais; e é certo também que o nosso sábio Ingenieros, tendo vivido alguns anos mais (já engajado na corrente metapsíquica), se arrependeu de ter estabelecido uma triste semelhança entre a loucura genial de Nietzsche e a loucura genial de Jesus, nem tivesse sustentado a afirmação positivo-materialista de que já “não há alma”, considerada como uma entidade “real ou espiritual”, que a alma é uma função-adjunta no curso da evolução biológica.

Deixando de lado os prejuízos de escola, que os factos se encarregam de destruir, pouco a pouco, voltemos ao fenómeno de dupla personalidade.

Citamos o caso de Félida, estudado pelo doutor Azam.

Félida era oriunda de Bordéus, filha de pais saudáveis; na idade de treze anos começaram a produzir-se nela as mudanças de personalidade, primeiro com curtos intervalos que foram tomados por acessos de loucura e denunciados como tais ao doutor Azam, à época médico do Asilo Público de Alienados, que a atendeu e a estudou pessoalmente durante três anos (1857-1859), enquanto permaneceu solteira, e desde esta última data até 1876, valendo-se das observações do seu marido.

Mais tarde, as mudanças foram mais prolongadas, permanecendo durante meses em estados alternados.

As lembranças de Félida existiam somente para os factos ocorridos durante as condições semelhantes, desconhecendo numa o que se passava na outra, ao ponto de ficar grávida numa delas e ignorá-lo durante os primeiros estados da sua segunda personalidade.

O trânsito de um estado para o outro se produzia mediante o sono ou, atendo-nos às palavras do dr. Azam, mediante um “torpor profundo parecido ao sono”.

Em Félida existiam duas personalidade completas e distintas, perfeitamente caracterizadas: uma (a segunda) era alegre, jovial e psiquicamente saudável; tinha gostos, sentimentos, lembranças características e até mostrava maior inteligência do que a outra; esta última, que é normal, mostrava-se triste, taciturna, a sua conversação era séria, parca no falar, a sua vontade era firme, os seus sentimentos afectivos pouco desenvolvidos, até ao ponto de mostrar-se indiferente com a sua família e rebelar-se contra a autoridade do seu marido; sofria dores intensas em todo o corpo.

Vejamos o quadro que dela nos faz o doutor Azam:

“Félida X está sentada e tem sobre os seus joelhos um trabalho qualquer de costura; de repente, sem que nada possa prever e depois de uma dor na fronte, mais forte do que o comum, cai a cabeça sobre o peito, as suas mãos permanecem inactivas ao longo do corpo; dorme ou aparenta dormir, mas com um sono especial, pois nem o ruído nem outra excitação, beliscos ou picadas a despertam; ao demais, esta espécie de sono é absolutamente súbita; dura dois ou três minutos – antes era mais longo –; desperta, mas não se encontra no estado intelectual em que estava quando adormeceu. Tudo parece diferente: levanta a cabeça e, abrindo os olhos, saúda sorridente aos que chegam; a sua fisionomia se ilumina e respira alegria; a sua palavra é breve, enquanto continua contente o trabalho do enxoval que começou no seu estado precedente; se se levanta, o passo é ágil e apenas se queixa de muitas dores que alguns minutos antes sofria; atendendo aos cuidados da casa, sai, anda pelo povoado, visita, faz um trabalho qualquer e o seu aspecto é o de uma jovem da sua idade, saudável.

O seu carácter mudou completamente; de triste se torna alegre e a sua vivacidade aproxima-se da turbulência; a sua imaginação está mais exaltada; por motivos insignificantes se emociona, triste ou alegremente; de indiferente se torna sensível ao extremo.

Em ambas as vidas, as suas faculdades intelectuais e morais, ainda que diferentes, estão íntegras; nenhuma ideia delirante, nem a apreciação falsa ou alucinação; na sua segunda condição, todas as suas faculdades parecem mais desenvolvidas e completas. Esta segunda vida, na qual não sente dor física, é superior à outra, sobretudo pelo facto já indicado de que Félida se lembra não somente de tudo o que aconteceu durante os acessos anteriores, como de toda a sua vida normal, enquanto que nesta, nada recorda do que aconteceu nos ataques.”

Eis aqui duas personalidades psiquicamente distintas, manifestando-se alternadamente por um mesmo organismo, por meio de um mesmo coração e de um mesmo cérebro, não obstante diferençar-se nos sentimentos e em inteligência e expressar caracteres opostos, continuando uma só existência individual nos trabalhos e misteres próprios dessa individualidade, sem recordar, uma das personalidades, o que faz e pensa a outra e tendo consciência esta do que fazem as duas durante os acessos anteriores e consecutivos: uma, jovial e alegre, terna e afectuosa; a outra, sóbria, triste, retraída e indiferente aos afectos; saudável uma, doente a outra, vivendo num mesmo corpo.

Este facto é inconciliável com a psicofisiologia e, não como se tem pretendido, com a unidade e indivisibilidade do eu.

Não se trata, neste caso, como em outros análogos, de duas individualidades, mas de duas personalidades: aqui se apoia a confusão de muitos psicólogos e também de muitos metapsiquistas. Félida não tem duas vidas, duas almas, duas individualidades num só espírito, como todos os demais com uma consciência normal e uma subconsciência que guarda a lembrança e a personalidade característica do que foi em uma existência anterior; e essa personalidade característica do que foi, transcende periodicamente e anula a consciência normal e se manifesta não como é Félida no seu estado normal, mas como foi na sua personalidade anterior, sem ter a lucidez suficiente para recordar o seu passado; vive-o somente, até que por um acesso ou alteração alternativa, muda a sua personalidade e volta ao seu estado normal, dominando por último o segundo estado. Significa que esta segunda personalidade não se radica num hemisfério do cérebro e a outra na outra metade, hipótese absurda e à margem de toda a experiência científica.

Por outro lado, não se explica como um hemisfério cerebral pode inibir a outra parte nas suas funções, como surge e se resolve este conflito cerebral e como dois órgãos cerebrais produtores de duas individualidades distintas podem concordar com as funções de um só coração.

Mesmo assim, não pretendemos negar a correlação psicofisiológica. Sabemos, porque assim tem estabelecido a psicologia experimental, que no funcionamento normal do o organismo, cada órgão, célula nervosa, fibra, ou o centro cerebral, desempenha uma função sob a acção consciente ou inconsciente do espírito. Mas uma coisa é aceitar verdades demonstradas e, a outra, muito diferente, tomar como tal as hipóteses ou confundir as condições fisiológicas dos fenómenos psíquicos com a sua causa, ou anular no espírito uma faculdade determinada, pelo facto de que não se manifesta nas condições orgânicas defeituosas ou não existentes para o seu funcionamento normal.

Dos factos expostos acima, deduz-se que os centros receptores sensoriais, os centros motores e os centros de transformação e de associação para os fenómenos psíquicos, as células nervosas, gânglios, fibras, isto é, o eixo cérebro-espinhal e os músculos e órgãos sensoriais, não mais são do que a estrutura exterior, o revestimento material de uma organização etérea, animada pelo espírito, pelo eu pensante, consciente e volitivo, vinculada ao dínamo-psiquismo celular, ao qual este está subordinado e ambos o estão ao espírito. Este é a verdadeira causa psíquica individual organizadora e directriz na qual radica todo o poder e toda a faculdade anímica e que, em estados supranormais, pode perceber mesmo sem os órgãos do corpo somático. E como o faz notar G. Dwelshauvers, no seu livro O Inconsciente, “põe em jogo as células cerebrais dos centros localizados, supõe uma excitação preliminar e esta provém de um acto psicobiológico que, em si mesmo, não pode ser localizado. E se é impossível localizar a menor das sensações, o é muito mais assinalar um lugar determinado do córtex cerebral ao que antes se denominava faculdades de abstracção: vontade, sentimento, imaginação e memória”.

Com efeito, quando o espírito realiza um acto psicofisiológico, elabora um pensamento, toma uma resolução ou provoca uma lembrança, actua sobre os centros respectivos e ao não conceder espontaneidade a cada célula cerebral dos centros localizados, ou seja, o princípio funcional do acto psíquico que se desenvolve por seu próprio impulso, há que se admitir ou que esta espontaneidade ou impulsão provém de outra célula cerebral, localizada em determinado centro, necessariamente persistente para a manutenção do equilíbrio e da ordem psico-funcional (o que nem a Psicofisiologia nem a Neurobiologia demonstraram), ou que a excitação preliminar, que o princípio do acto psíquico superior provém do espírito, considerado este como unidade psíquica, como entidade essencial e distinta do organismo, que se vale dos centros para o funcionamento psíquico normal. Essa unidade psíquica não constitui os centros nem é o resultado de um suposto polipsiquismo celular, tão inadmissível do ponto de vista psicológico, como contrário aos fenómenos metapsíquicos e espíritas, que provam a sua existência e independência, tão menosprezada pelos sábios que não saíram do limite restrito da Psicofisiologia. (*)

Uma coisa é dizer que determinados centros correspondem normalmente a determinadas funções ou actos psíquicos e outra, muito diferente, que sejam os centros cerebrais ou, na sua falta, medulares, os que elaboram ou produzem por si mesmos ou por associações o fenómeno psíquico. Este último não foi demonstrado pela ciência experimental.

/…
(*) É possível conciliar a unidade do eu com a pluralidade funcional das células que constituem os centros cerebrais, subordinando, subentende-se, aquela ao poder unitário psicodinâmico, centralizador e director do espírito. Todo o homem, como diz Frederic Myers, é ao mesmo tempo unitário e infinitamente complexo; herda dos seus antepassados um organismo múltiplo, colonial, polizóico e por acaso polipsíquico no grau extremo; mas também com uma alma ou espírito absolutamente exequível à nossa análise, que rege e unifica esse organismo; alma que tem a sua origem em um meio espiritual ou metaetéreo e que mesmo quando encarnado em um corpo, permanece em comunicação com esse meio e retorna a ele depois da morte do corpo. (A Personalidade Humana, pág. 28).



Manuel S. Porteiro, Espiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (VII), 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Corpo fluídico | agénere ou aparição tangível ~


Capítulo Segundo

KARDEC E O CORPO FLUÍDICO (IV)

O Cristo com corpo fluídico, segundo Kardec (*), explicaria certas situações mas não chega a convencer. "O seu nascimento, a sua morte e todos os actos materiais de sua vida não teriam sido mais que uma aparição. E dizem que assim se explica que o seu corpo, retornado ao estado fluídico, pôde desaparecer do sepulcro, e foi com este mesmo corpo que ele se teria mostrado depois da sua morte."

A partir daqui, Kardec entra no mérito da questão. Observemos como ele assesta os seus instrumentos de maneira a discutir sobre os próprios argumentos utilizados pelos fluidistas.

"Sem dúvida, – diz – um facto destes não é radicalmente impossível, segundo o que hoje se sabe sobre as propriedades dos fluidos; porém seria pelo menos inteiramente excepcional e em oposição formal com o carácter dos agéneres. A questão é, pois, de se saber se tal hipótese é admissível, se ela é confirmada ou contraditada pelos factos."

Note-se que Kardec afirma que este caso seria "excepcional e em oposição formal com o carácter dos agéneres", porque o agénere não é somente o ser incriado, mas uma aparição tangível de curta duração. Jesus, se tivesse tido um corpo fluídico, seria a excepção à regra, o agénere perfeito de longa duração, no dizer de um certo autor (**), um caso de "seres que se mostram materializados aos olhos humanos, às vezes por longos períodos". Não é essa a conclusão a que chegou Kardec sobre os agéneres. Mas, como ele mesmo disse, é preciso verificar se tal hipótese "é confirmada ou contraditada pelos factos". Ele, pois, prossegue nas suas considerações.

"A permanência de Jesus sobre a Terra apresenta dois períodos: aquele que precede e aquele que segue a sua morte. No primeiro, desde o momento da concepção até ao nascimento, tudo se passa com sua mãe como nas condições comuns da vida. A partir do nascimento e até à sua morte, tudo, nos seus actos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias da vida, apresenta os caracteres inequívocos da sua corporeidade. Os fenómenos de ordem psíquica que se produzem nele são acidentais, e nada têm de anormal, pois explicam-se pelas propriedades do perispírito (i), e são encontrados em diferentes graus em outros indivíduos. Depois da sua morte, ao contrário, tudo revela nele o ser fluídico. A diferença entre esses dois estados é tão fundamentalmente traçada que não é possível assemelhá-los."

Nessa linha de raciocínio, o Cristo de depois da morte é um agénere perfeito, pois aparece e desaparece em curtos espaços de tempo e pode ser reconhecido com perfeição. Na estrada de Emaús aparece a dois discípulos, caminha com eles, demora mas é reconhecido, depois se esvai; a Tomé, materializa-se a ponto de produzir impressões fortes e o convencer. Enfim, este é o ser fluídico, tangível, numa palavra: o agénere! O outro, de antes da morte, é o Cristo de carne, o homem com todas as necessidades do homem. Ninguém o confunde nem duvida da sua realidade palpável, permanente.

"O corpo carnal – prossegue Kardec – tem as propriedades inerentes à matéria propriamente dita, as quais diferem essencialmente dos fluidos etéreos; a desorganização ali se opera pela ruptura da coesão molecular. Um instrumento cortante, penetrando no corpo material, divide os seus tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, o seu funcionamento se detém, e a morte será a consequência, isto é, a morte do corpo. Essa coesão não existe nos corpos fluídicos; a vida, neles, não repousa no funcionamento dos órgãos especiais, e neles não se podem produzir desordens análogas; um instrumento cortante ou qualquer outro ali penetra como num vapor, sem lhe ocasionar lesão alguma. Eis por que os seres fluídicos designados sob o nome de agéneres não podem ser mortos."

Depois do suplício de Jesus, o seu corpo lá ficou, inerte e sem vida; foi sepultado como os corpos comuns, e todos puderam vê-lo e tocá-lo. Depois da ressurreição, quando ele deixa a Terra, não morre; o seu corpo se eleva e desaparece, sem deixar nenhum sinal, prova evidente de que esse corpo era de outra natureza que não aquele que pereceu na cruz; de onde será forçoso concluir que se Jesus pôde morrer é que tinha corpo carnal.

"Em consequência das suas propriedades materiais – continua Kardec – o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas que repercutem no centro sensitivo ou Espírito; não é o corpo que sofre, é o Espírito que recebe o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo privado de Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito que não tem corpo material não pode experimentar os sofrimentos que são o resultado da alteração da matéria; daí será preciso igualmente concluir que se Jesus sofreu materialmente, como não será possível duvidar, é que tinha um corpo material, de natureza idêntica à de todos."

Até aqui, Kardec se atém ao aspecto físico e consequências. Tira, porém, conclusões que para si são as únicas possíveis. Ora, o agénere não pode morrer, não pode ser ferido. Jesus, no entanto, morreu, o seu corpo foi sepultado, todos viram, tocaram. Só quem tem um corpo material – é Kardec quem diz – pode passar por esses lances! Mas o Cristo era assistido por uma equipe de Espíritos que poderiam muito bem simular todo o drama, inclusive o sangue a jorrar dos ferimentos causados pela coroa de espinhos, pela cruz e pelas lanças dos soldados, afirmam alguns. Sim, repetindo Kardec, nisso nada há de materialmente impossível, porém é preciso convir que isso seria bem mais antinatural do que se Jesus tivesse tido corpo material. Por mais que os Espíritos possam fazer, o bom senso leva a ver que esta teoria é complicada demais para ser verdadeira.

/…
(*) A Génese , cap. XV, item 64.
(**) "Universo e Vida", cap. VII.


Wilson Garcia, O Corpo Fluídico, Capítulo Segundo – KARDEC E O CORPO FLUÍDICO 4 de 5, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Sem título, pintura de Josefina Robirosa)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

do país da luz ~

a Silva Pinto

Uma noite, ao deitar-me, pareceu-me ouvir junto a mim, falar ao Ex.mo Sr. Silva Pinto, e dizer qualquer coisa, em uma frase sintética, para lhe transmitir.

Apurei a atenção; mas não podendo fixar bem a frase, pedi para a repetirem. Acederam; mas não a fixando ainda bem, pedi que a dissessem novamente. Ouvi então dizer-me:

– Tem paciência. Levanta-te e vai escrever.

Obedeci. Fui para o meu escritório, na persuasão de que ia escrever a aludida frase.

Sentei-me e comecei a escrever. Não me levantei sem ter concluído a comunicação inserta na pág. 60, a primeira desta estranha série de escritos.

Devo acrescentar que as minhas relações com o ilustre escritor, Sr. Silva Pinto, ao tempo, eram limitadas a mera cortesia.

Depois de escrita a comunicação (transcrita abaixo), perguntei:

– E a mim quer dizer alguma coisa?

– Não. Melhor do que eu sabes tudo. Quererei sempre ouvir-te, pois que só da tua palavra conheço o carinho e a bondade; só por ti recebo o raio de luz que ilumina a treva do meu viver.

– Não sei se será assim… Em todo o caso não desejo falar de mim. Não é por modéstia nem por falsa modéstia. É porque é coisa mínima e desnecessária.

Diga-me: – concede que eu mostre, como seu, o que deixa dito, a mais alguém do que àquele a quem é dirigido?

– É coisa embaraçosa essa que me propões.

Há, porém, um meio de tudo conciliar. Se o publicares algum dia, e o Silva Pinto for vivo, suprime-lhe o nome.

Cabe bem a toda a gente o que disse; e praza a Deus que a alguém possa produzir o bem que desejo para aquele meu dilécto amigo.

– Creio que não faz justiça a si próprio.

Confesso – e sabe-o muito bem – pouco conheço das suas obras; com vergonha o digo; mas delas o que conheço dá-me a nítida impressão de que era bem melhor do que aquilo porque se quer fazer passar. Quase todas essas obras que conheço traduzem tanta dor que me fazia chorar…

– Pára, pára aqui! A dor que te fazia chorar estava em ti, e não na obra. Tu é que recebias a sensação do sofrimento que eu procurava descrever; e a impressão que ela te causava dava-te dor, ou evocava a dor na tua sensibilidade de bom. Quantos ao lerem essas mesmas passagens que te comoviam até às lágrimas, se rirão e me acharão piegas?

É porque a dor não está no que escrevi, que é frio como o aço de um espelho.

A alma de cada um é que ao mirar-se a esse espelho encontra os caminhantes da sua sensibilidade.

Evoca as tuas recordações.

Quantas vezes um aspecto de miséria e do sofrimento te provoca o repelão, quando em outra oportunidade te compungirá até às lágrimas mais sentidas? Entretanto o aspecto é sempre o mesmo.

Tu é que mudavas; a impressão que recebias é que era diversa em cada um dos momentos que o apreciavas.

– Será assim; mas para descrever a dor é preciso conhecê-la e senti-la bem intensamente, e que dela se esteja bem possuído…

– É verdade. E eu sofri como poucos podem sofrer.

Conheci a dor em todas as suas manifestações; mas por bem a conhecer e a sentir não se segue que ela me modificasse no meu estado espiritual e me conduzisse à bondade e à tolerância. Servia-me dela para agredir os outros, para os torturar, como ela me torturava a mim.

– Sendo Camilo quem escreve, certamente poderia com mais facilidade e brilho expor as suas ideias…

– Não era isso que querias dizer. Querias dizer que sendo eu Camilo poderia versar com mais competência qualquer assunto de subida importância. Não era isso?

– Aproximadamente…

– Não é tanto assim. Nós aqui só podemos trabalhar com o instrumento que se nos depara e nas circunstâncias em que ele se nos depara.

Para falar de coisas que tu não conheces, era necessário que estivesses em estado absolutamente inconsciente, ou ter que empregar, persistentemente, uma grande contensão de vontade sobre ti para nos sobrepormos à tua personalidade.

Assim como estás, não.

Só posso servir-me com os elementos que me forneças. Não posso ir muito além dos teus próprios conhecimentos.

A tua personalidade em estado consciente, impedirá que possa apresentar coisas que te sejam desconhecidas.

Só me prestarás para dizer o que caiba dentro da soma de saber por ti adquirido.

O teu corpo material serve de instrumento a ti e a mim; e eu só poderei empregá-lo no sentido em que o tenhas educado. É como um instrumento preparado para ser utilizado por um indivíduo direito. Um indivíduo esquerdo não poderá trabalhar com ele.

Um médium em estado inconsciente, deixa de ser instrumento de si próprio, mas equivale-se a instrumento para dextros…

(Nesta altura, eu, que ia lendo o que se ia escrevendo, hesitei sobre o emprego da palavra dextro, porque só conhecia destro, e fui ver a um dicionário. Reconhecendo que tinha sido apanhado em ignorância, coloquei a pena em seguida àquela palavra e prossegui) e sinistro.

Não podia esperar nem desejar tão pronto exemplo como o que acabava de passar-se com a palavra dextro.

Eu, consciente da propriedade da palavra, escrevi dextro, como significando um homem direito de manejo, como vulgarmente se diz: –  e a tua ignorância sobre essa propriedade levou-te à hesitação e a buscares a confirmação no dicionário. Vês? Se estivesses em estado inconsciente escreverias essa e quantas outras palavras que eu quisesse escrever. Não teria eu dificuldade alguma nisso. Assim, até a mim embaraças. Não te desconsoles, porém. Na tua ignorância sabes mais do que a quase totalidade dos sábios do mundo, porque sabes o que é preciso saber. O que eles sabem não serve para aqui, e o que serve para aqui não sabem eles.


~


Camilo Castelo Branco
(28 de Outubro de 1906)



a Silva Pinto



A tua amizade, a tua saudade, a tua lembrança são elos que ainda me prendem ao mundo. São dos poucos que me recordam raros momentos de felicidade na terra, se na terra há que se possa chamar felicidade.

A minha vida depois da morte, (que estranha heresia te parecerá isto!) tem sido a coroação da vida de sofrimento e de martírio que nesse mundo de lama e pus levei!

Com a minha passagem consegui a certeza da torturante expectativa que dominou toda a minha existência aí: – Haveria Deus? Existiria a alma? Sofri ou continuei a sofrer tanto e tão intensa, tão condensadamente, que, conquanto não pudesse duvidar da persistência da vida, cheguei a descrer da existência de Deus.

Factos que não é oportuno narrar agora trouxeram-me a consoladora certeza de que Ele existia, e de que não desconhecia a minha torturada existência daí e daqui; e então, meu velho, meu querido amigo, alma gémea da minha na amargura, tive a certeza de que a vida na terra seria a antecâmara da felicidade se soubéssemos aproveitá-la.

Assim, como a fazemos, é coisa tão desprezível que não merece o nosso desprezo.

Tu tens levado todo o teu tempo a protestar e a maldizer…

Pobre mártir, pobre vítima da Dor, que não tens conseguido mais que queimar a tua própria alma e despertar o riso daqueles que te não compreendem!

Meu amigo, meu irmão, meu doce e carinhoso irmão: a experiência que tens, estranhamente exagerada, das coisas que te cercam deve servir só para te desprenderes delas.

Deves libertar o teu espírito ao alto; e quando o fizeres verás que tudo que te afadiga e tortura é tão mesquinho, tão insignificante que não merece que por ele vibre a mais grosseira fibra de teu coração!

Águia de talento, espírito de eleição, eleva-te acima do charco em que a fatalidade ou a lei fatal do progresso humano te colocou passageiramente na terra, e terás assombro de ti próprio por teres chegado a indignar-te com as coisas necessárias que não compreendes!

Por amor de mim consegue libertar-te das ideias grosseiras que a vida da matéria te pôde incutir no cérebro privilegiado e deixa que a santa filosofia dos teus cabelos brancos possa ver sem azedume, sem rancor, as misérias dos teus irmãos, e ante-gozarás a maravilha esplendorosa da criação! Lembra-te que os melhores lameiros são os que dão mais pão; que os terrenos mais adubados com a podridão são os que dão mais iriadas e odoríferas flores e os mais deliciosos frutos.

Pensa! Reflecte! Experimenta! Pega em uma planta e dispõe-na em um vaso de terra limpa, lavada, odorífera, e essa planta, se chegar a lançar raízes, estiolará e em breve morrerá. Dispõe planta igual em vaso de terra apodrecida, engordurada com o excremento mais imundo e ela vegetará luxuriantemente, elevará os seus ramos para o céu numa manifestação de vida feliz, e desentranhar-se-á em flores de uma beleza rara, de um aveludado inigualável e de um viço pujante.

Que grande lição te dá Deus na vida dessas duas plantas! Medita! Deixa que a luz do teu talento ilumine a tua razão!

Porque hás-de passar o resto dos teus dias, aí, na calcinante agrura de querer emendar o que está optimamente feito?

Pois se o homem pode modificar a planta selvagem pela cultura; se a base da cultura é a adubação da planta, e a matéria do adubo é a podridão; como queres impedir que Deus se sirva de processo semelhante para aquilatar o mérito da mais complicada obra de toda a criação e para cultivar a mais perfeita e estranha planta de todas que fabricou?

O meu mal foi não ter tido nunca a felicidade de ver a vida por este prisma!

Quando a vi assim… era tarde; e então o pavor de uma vida que nem nos teus momentos mais esmagantes terás podido sonhar!

A resignação em uns é o desprezo pelos outros; em outros é a piedade pelas faltas alheias. Tu não és um resignado. Nunca foste. Tens piedade, mas a piedade ainda te não levou à resignação! Sê benévolo, sê piedoso, e terás atingido aí uma culminância que te permitirá na hora extrema da passagem desferir um voo para a felicidade.

Sabes que os grandes pássaros, os condores por exemplo, precisam subir a eminências para poderem voar largo.

Tu és um condor de bondade e de talento.

Não fiques, não persistas na planície lamacenta da vida mesquinha e material, porque, meu querido, meu queridíssimo amigo dilécto, na hora da despedida, colhido de surpresa pela rajada da morte que o Criador mandar para te fazer mudar de poiso, não terás tempo de formar voo para te alçares ao espaço largo e luminoso; e ficarás, como eu, por sabe Deus quanto tempo, no convívio das corujas e das gralhas. A eminência a que tens que elevar-te é a bondade purificada pelo sofrimento que a linguagem humana classifica de resignação. Educa o teu espírito de revolta. Se for necessário, a tua razão que o iluda, transigindo, convencendo-o de é por desprezo que abandonará o rancor, a fermentação do ódio, que só conduz ao desespero.

Procura convencê-lo de que é tudo tão mau que não merece a consideração da revolta de um justo e um bom como és; e insensivelmente, sem dares por isso, terás adquirido a incomparável felicidade de conheceres que os maus não são tão maus como supões; que são mais desgraçados do que maus, e mais dignos de lástima do que de rancor; que o mal é um bem necessário; que a justiça divina, escrevendo direito por linhas tortas, como aos nossos olhos se afigura, é de uma grandeza e de uma impecabilidade incomensuráveis, e de que a piedade e o perdão são as únicas coisas que aproximam o homem da Divindade!

Pois se basta que o homem ponha lunetas para ver tudo negro; amarelas para ver tudo dourado; rosadas para ver tudo cor-de-rosa; porque é que a vida não há-de mostrar só a faceta que cada um dela quer ver?

Queiras ver a faceta boa e vê-la-ás. Por mais que faças não verás outra, por pior que seja aquilo sobre que fixares a tua vista e a tua análise.

Se quiseres ver pela faceta má tudo verás mau, por mais santo, por mais belo por mais grandioso que seja.

Eu passei a minha vida terrena a ver tudo pelos óculos pretos; e tão preto vi que Deus deu-me aí a escuridão da cegueira. E, meu santo amigo, essa escuridão acompanhou-me horrorosamente aqui, e poucas são as nesgas de luz que conseguem vir quebrá-la ainda!

Medita pois. Experimenta.

Acerca-te de um ramo de lírios brancos, alvos como a neve, puros como a pureza e a bondade de Deus, olha-os através de um vidro fumado, e vê-los-ás negros, sujos, repelentes; aproxima-te de um monte de impurezas, de um cadáver putrefacto, esverdeado, caindo a pedaços pela decomposição, coisa horrenda de pensar quanto mais de ver; olha-o por vidros alaranjados e verás tudo coberto de um delicioso nimbo dourado, como se dessa imundice irradiasse a luz solar.

Porque não fazes a mesma coisa à vida?

Imaginemos…

Não, não imaginemos; vou ao alcance da tua objecção:

– Mas os vidros não mudam a natureza das coisas; 

– Os lírios não deixam de ser brancos por se verem por lentes negras, nem a podridão deixa de ser ascorosa por parecer dourada!

É verdade; parecerá à primeira vista, ou á nossa razão desarmada de reflexão.

Reflexionemos, porém.

Qual é a natureza das coisas na terra?

É a que vimos? É a que nos parece?

Não. É a que é.

E qual é a que é no exemplo citado?

A vista irreflexiva dá ao lírio a alvura e à podridão o asco.

Entretanto a reflexão mudará em breve o asco para o lírio, a causa admirativa para a podridão.

O lírio será a curto trecho putrefacto, nauseante; e o cadáver, o monturo, transformar-se-á benevolamente nos gazes que dão a vida e nos sais que alimentam as rosas e o trigo.

E quando assim não fosse?

As cores, obedecendo à nossa vontade, tinham-nos dado a sensação de que era assim; e tudo na vida tem as sensações que conseguem impressionar-nos. O amor às coisas horrorosas não deixa de ser amor se as amamos; e o ódio às coisas belas não deixa de ser ódio se as detestamos.

Exige a razão ponderada e fria que assim não seja; mas quem pode gabar-se de ser suficientemente justo e equilibrado que consiga ver as coisas sempre como elas realmente são? E não podendo ter a certeza de que tem essa justeza de vista, quem pode afirmar que a sua maneira de ver é a melhor?

Medita, Silva Pinto, medita!

Pensa que as tuas dores te hão-de servir para mais do que para atravessares a vida a maldizê-las!

Mal haja a experiência que nos traz a benevolência e a tolerância!

Sabes tu melhor do que ninguém que eu jamais pensei assim aí. As minhas novelas estão cheias de fel que a amargura fazia destilar à minha vida; e por mor desgraça não tive nunca boca amiga que tivesse autoridade no conselho para me obrigar à reflexão desapaixonada sobre as causas das coisas. Quando muito, sentia-me envolvido na piedade e no dó; e esses sentimentos alheios irritavam-me, feriam-me, feriam o meu orgulho…

Orgulho!!! Fatal e hórrida palavra! Causa suprema do meu, do teu, do mal de todos!

Primacial origem da minha vida de mártir aí e de martírio da minha vida aqui! Fonte de todas as dores; início de todas as maldades; causal de todos os desesperos!!!

Que de coisa trêdas eu podia dizer, evocadas por a lembrança que aquela palavra trouxe aos bicos da pena!

Não era esse o meu propósito, porém, ao escrever-te.

Não quero afastar-me do que me impeliu a dirigir-me a ti.

Havia um sentimento no mundo que poderia ter iluminado a negrura da minha vida: – era a religião de Cristo; – mas esse sentimento era facilmente suplantado pela dúvida torturante da minha vida amargurada e pelo orgulho desmesurado de todo o meu ser atrabiliário e revoltoso.

Para ti… para ti…

Silva Pinto. É bem estranha e bem inacreditável coisa esta de eu te falar, escrevendo pela mão de um quase desconhecido para nós ambos; mas bem estranhas e inacreditáveis coisas têm modificado o mundo e o homem no seu evolucionar progressivo através dos séculos.

Não te detenhas a pensar nisso. Pouco vale. Não queiras descobrir em um momento o que outros não conseguem com o sacrifício da sua vida inteira.

Vê, passa pelo cadinho purificador da tua análise de bom e de homem de coração o que deixo dito.

Lembra-te de que, quando mesmo seja dito pelo homem que escreve, o que ele escreve está sob a égide do meu nome. Para o escrever pensou em mim, no teu amigo, no teu companheiro, no maior de todos, como me chamas. Isto deve ser para ti respeitável.

Quando queiras reagir contra a crença de que sou eu quem te aconselha, quem te suplica, quem te implora numa grande ânsia de obtenção, que desvies a tua vista cansada, quase gasta, quase a desaparecer, do marnel das paixões terrenas e a eleves ao alto, onde reside Deus, a Bondade e o Belo, pensa, vê, que esse faz o abnegado serviço de te dizer coisas estranhas e dedicadas o faz em meu nome e como se de mim fossem.

São boas? São más?

Se são boas aceita-as em lembrança minha; se são más deita-as fora, porque nem em meu nome te dão coisa boa.

Mas pela experiência feita de dores te digo que são boas; e se como tais as não receberes e usares, ai de ti meu querido irmão na tortura, ai de ti, que será sempre tarde de mais para arrepiares caminho, e cedo em demasia para verificares o erro!

Meu querido amigo, meu santo amigo, tu, que és ainda um pouco do meu sofrimento na terra, um pouco obra do meu orgulho, do meu egoísmo, do meu amargor, ouve-me e atende-me.

Não sei se poderei ainda falar-te de novo e a tempo! E não será a menor das dores para mim se tiver de reconhecer que não pude pôr a força de persuasão bastante para fazer-te o bem quando tanta tive para te fazer o mal!

Camilo Castelo Branco

/…




Fernando de Lacerda, Do País da Luz, Comunicações mediúnicas recebidas por este médium – Camilo Castelo Branco (28 de Outubro de 1906) a Silva Pinto, Volume I, 2º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel, detalhe, de Edgard Maxence)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Inquietações Primaveris ~

Os meios de fuga ~

A prova de que o homem sabe, intuitivamente, que a morte não é o fim do seu ser, da sua personalidade e nem mesmo da sua existência, está na procura desesperada dos meios de fuga a que se entrega de ouvidos tapados a todas as advertências.

Ele não quer morrer, mesmo quando se atira do décimo andar de um edifício sobre a calçada.

Quer apenas fugir, escapar de qualquer maneira à pressão de um mundo que nada mais lhe oferece do que opressão, crimes, atrocidades de toda a espécie.

Mario Mariani, em A Casa do Homem, considerou a casa como uma jaula de que a fera humana luta por evadir-se.

É lá dentro da jaula, na casa que devia ser um recanto de paz, que os atritos familiares e as preocupações da incerteza e da insegurança do mundo convulsionado, bem como as injustiças brutais da estrutura social, pesam esmagadoramente sobre ele. 

Os seus nervos vão cedendo ao martelar incessante das preocupações, ao gemido longínquo dos torturados pelos carrascos, dessa lepra moral que se espalhou por todo o planeta após a última guerra mundial – a tortura. 

Por todos os lados ele sente a coação e as ameaças de novas coações em perspectiva e, como se as chamas de um incêndio o cercassem por todos os lados, atira-se pela janela. 

Mariani era um sonhador, um ideólogo da liberdade e da paz, da fraternidade humana completa, sem os limites odiosos das discriminações sociais e políticas. 

Escreveu duas séries de romances em que expôs o seu pensamento generoso sobre um mundo mais admirável e generoso que o de Huxley. 

Fugiu da Itália, a sua pátria, com a família, para os Estados Unidos, quando o Fascismo a dominou. 

Na América livre sentiu-se prisioneiro da miséria, viu de perto e sentiu em sua própria carne os desníveis aviltantes de uma sociedade de nababos e miseráveis. 

Certa noite de fome e frio, em New York, resolveu suicidar-se e matar a esposa e os filhos, para não os deixar nas garras de um mundo cristão sem clemência. 

Um amigo o salvou arranjando-lhe um emprego. 

Na série Os Romances da Destruição ele pôs a nu toda a tragédia dos tempos modernos, e na série Os Romances da Reconstrução toda a beleza dos seus sonhos. 

Dom Quixote italiano do amor e da liberdade, andou pelo mundo atacando moinhos de vento e veio morrer no Brasil, na década de 30. 

O seu nome se apagou na História, sob a invasão dos nomes de bandoleiros políticos consagrados como heróis. 

Mas os que o conheceram e os que o leram guardam no coração e na memória a imagem do verdadeiro herói, cavaleiro sem jaça da Causa da Humanidade. 

Ele denunciou, por toda a parte, a exploração e a miséria que um poeta modernista italiano traduziu assim: “Itália, parola azzurra bisbilhata su l’Infinito.”

Mariani imaginava a Itália do futuro coberta de casas de vidro, de paredes transparentes (porque ninguém teria nada a esconder nem a temer) cercadas de roseirais perfumados, em que as suas filhas viveriam alegres e felizes, com namorados jovens como elas, livres do perigo do casamento interesseiro com velhotes endinheirados. Um mundo azul e livre, como Plotino sonhara estabelecer na Campanha Itálica, nos moldes da República de Platão. Foi o último cavaleiro errante do mundo das utopias.

Depois dele, desabou sobre o mundo real a tempestade da II Guerra Mundial, desencadeada pelos dragões funambulescos e sanguinários da opressão e da violência. E no rastro de cadáveres, sangue e maldição deixada pela guerra abriram-se as veredas da fuga: o suicídio de Stefan Zwaig no Rio, o assassinato de Gandhi na Índia, a enxurrada dos tóxicos, as revoltas de estudantes, as invasões e destruições vandálicas de Universidades em nome da ordem e da força contra o direito, as aberrações sexuais justificadas pela Psicologia da Libertinagem, a mentira oficializada no plano internacional, os assaltos universais, os sequestros ao serviço da política de extorsão e assim por diante, no rol das monstruosidades sem limites.

De tal maneira o mundo envilecido se desfigurou que teólogos desvairados proclamaram a Morte de Deus e anunciaram fanfarronescos o advento do Cristianismo Ateu nos sofismas de brilhareco escuso dos livros pensados e escritos na pauta do sem-sentido.

As bombas voadoras de Hitler transformaram-se nos foguetes espaciais da maior epopeia moderna: a conquista do Cosmos. E, por sua origem e seus objectivos suspeitos, a epopeia cósmica, nascida das cinzas quentes da guerra, no ninho de ovos explosivos das bombas atómicas e sub atómicas, integrou-se no campo dos meios de fuga. Era a fuga desesperada do homem para as estrelas, não para buscarem a paz e a harmonia, a Justiça e o Direito, a Verdade e a Dignidade, mas para permitirem a mais fácil e segura destruição do planeta através de foguetes criminosos que, em baterias celestes instaladas na Lua e nos planetas mais próximos, pudessem aniquilar a Terra em apenas alguns segundos de explosão nuclear. Já que a morte era o nada, a nadificação possível da vida, era também conveniente que os guerreiros da Era Cósmica dessem realidade efectiva e moderna aos raios de Júpiter disparados sobre o mundo. Não foi da mente supra liminar dos forjadores de foguetes, mas do inconsciente profundo, marcado pelas introspecções do terror, do desrespeito ao homem, do arbítrio e da força, do esmagamento mundial da liberdade, da coação extremada que surgiu e se impôs à consciência supra liminar o projecto da conquista diabólica dos espaços siderais. Na base e no fundo dessas maquinações gloriosas podemos detectar as raízes do desespero e da loucura, a que a simples idealização da morte como nadificação total – roubando ao homem as suas esperanças e os seus anseios –, desencadeou a corrida espacial ao lado da corrida armamentista das grandes potências mundiais.

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Herculano Pires, José – Educação para a Morte, 5 Os Meios de Fuga 1 de 2, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)