quarta-feira, 30 de agosto de 2017

teremos que modificar o nosso conceito da morte?

A NEUROFISIOLOGIA DE UM CÉREBRO EM FUNCIONAMENTO NORMAL

Durante décadas foi feita uma extensa investigação para localizar as memórias no interior do cérebro, até ao presente sem êxito. Também nos deveríamos interrogar como uma actividade não material tal como a atenção concentrada e o pensamento podem corresponder a reacções observáveis (materiais) sob forma mensurável de actividade eléctrica, magnética e química, num determinado lugar do cérebro; mesmo um aumento no fluxo sanguíneo no cérebro (Roland, 1981) é observado durante uma tal actividade não material como o pensamento. Estudos neurofisiológicos revelaram as já citadas actividades através de EEG (electro encefalograma), MEG (magneto-encefalografia), RMFI (neuro imagem por ressonância magnética) e PET-Scannnig (tomografia computorizada) (Desmedt e outros, 1977; Roland e Friberg, 1985; Eccles, 1988).

Foi demonstrado que certas áreas do cérebro se mostravam metabolicamente activas em resposta ao pensamento e à sensação. Contudo, embora dando provas pelas funções das redes neurais como intermediárias para a manifestação de pensamentos (correlatos neurais), esses estudos não implicam necessariamente que tais células também produzam os pensamentos.

Está ainda por provar a suposição de que a consciência e as memórias resultam das funções cerebrais, porque até agora não há provas científicas para correlatos neurais de todos os aspectos da experiência subjectiva. 

Falta no presente prova directa de como os neurónios ou as redes neurais poderiam possivelmente produzir a essência subjectiva da mente e dos pensamentos. 

E como poderia a matéria “inconsciente” como o nosso cérebro produzir consciência, sendo o cérebro apenas composto de átomos, moléculas e células, com uma quantidade de processos químicos e eléctricos?

Não há exemplos conhecidos de emparelhamentos neuro-perceptivos, portanto há razões para duvidar que qualquer sistema neuro-perceptivo poderia emparelhar a experiência perceptiva em conteúdo, e daqui razões para duvidar da veracidade da teoria do “emparelhamento de conteúdos”.

A activação neural reflecte apenas o uso de estruturas. É difícil entender como padrões de activação neural poderiam por si mesmos originar os aspectos qualitativos das sensações registadas. 

Isso poderia ser como um rádio: pode activar-se ligando-o, sintonizar um certo comprimento de onda, mas não é possível influenciar o conteúdo do programa que se vai ouvir. Ligar um rádio não influencia o conteúdo do programa. 

A suposição feita com base na doutrina do “emparelhamento de conteúdos” é de que a seguir à activação de certas redes neurais, os pensamentos e sensações irão ser do mesmo conteúdo. Isto parece extremamente inexplicável, incrível e improvável porque a activação neural é simplesmente activação neural; é simplesmente uma forma de codificar informação. Como é que diferenças de código poderão alguma vez originar diferenças nos pensamentos e nas sensações?

O cérebro contém cerca de 100 biliões de neurónios, 20 biliões dos quais estão localizados no córtex. Vários milhares de neurónios morrem por dia e há uma contínua renovação das proteínas e lípidos que constituem as membranas celulares, numa base temporal que varia entre dias e poucas semanas (Romijn, 1997). Cada neurónio projecta impulsos na direcção de centenas de sinapses, que podem estimular ou inibir outros neurónios e, durante a vida, o córtex cerebral modifica e adapta continuamente a sua rede neural, incluindo a troca de mudanças e de lugares das sinapses. O transporte de informação ao longo dos neurónios sucede predominantemente por acção dos seus potenciais de acção e durante a actividade cerebral a soma de todos os campos electromagnéticos de milhões de neurónios muda continuamente cada micro segundo.

Nem o número de neurónios, nem a exacta configuração das dendrites, nem a posição das sinapses, nem a activação dos neurónios parecem ser cruciais para as propriedades de processamento das informações. Mas são-no os padrões derivados, passageiros e altamente ordenados destes campos electromagnéticos gerados ao longo das árvores dendríticas das redes neurais especializadas. 

Estes padrões deveriam ser considerados como o produto final duma auto-organização caótica e dinâmica, que pode ser considerada como fenómeno biológico com coerência quântica (Romijn, 2002). Esta auto-organização pode ser considerada tal como um vórtice de água corrente.


A PROCURA DA CONSCIÊNCIA

Como poderia a consciência ser baseada nestes variáveis campos electromagnéticos ou relacionada com eles? Ao tentar encontrar resposta para esta questão, a influência (inibição e estímulo) de campos magnéticos e eléctricos localizados exteriormente sobre campos electromagnéticos em mutação constante das redes neurais durante o funcionamento normal do cérebro deveria ser agora discutida.

A pesquisa neurofisiológica está a ser posta em prática usando estímulos magnéticos transcranianos (TMS - Transcranial Magnetic Stimulation), durante os quais são produzidos campos magnéticos localizados (Hallett, 2000). A TMS pode estimular ou inibir diferentes partes do cérebro, dependendo da quantidade fornecida de energia, permitindo que faça uma cartografia funcional das regiões corticais e a criação de lesões funcionais passageiras.

Permite avaliar a função em regiões determinadas do cérebro à escala de milissegundos e pode estudar a contribuição das redes corticais em funções cognitivas específicas. Pode interferir com a percepção visual e motora interrompendo a processamento durante 80 a 100 milissegundos. O estímulo e a inibição intracortical conseguida durante o estudo de impulsos combinados com TMS reflecte a actividade interneural do córtex (Hallett, 2000).

A interrupção dos campos eléctricos de redes neurais locais em partes do córtex também prejudica o funcionamento normal do cérebro. Pela estimulação eléctrica do lobo temporal e parietal durante cirurgia para epilepsia, o neuro cirurgião e Prémio Nobel Wilder Penfield pôde por vezes induzir instantâneos de lembranças do passado (nunca uma revisão de vida), experiências com luz, som ou música e – apenas uma vez – descreveu uma experiência-fora-do-corpo (Penfield, 1958, 1975).

Estas experiências não produziram transformações na atitude de vida. O efeito do estimulo externo por magnetismo ou electricidade, depende da intensidade e da duração da energia utilizada. Por vezes o efeito estimulante ocorre quando somente uma pequena quantidade de energia é utilizada. Mas, durante estímulos com mais alta energia, sucede a inibição das funções locais do córtex pela extinção dos campos magnéticos e eléctricos das redes neurais do córtex.

Há pouco tempo, um doente operado por epilepsia relatou ter experimentado uma OBE (experiência fora do corpo) devido a inibição da actividade cortical causada por estímulos mais fortes das redes neurais no “Gyrus Angularis” (Blanke e outros, 2002). Outras causas da disfunção das redes neurais no córtex raramente produzem OBE (Blanke e outros, 2004). Teremos que concluir que estímulos artificiais localizados, com fotões reais (energia eléctrica ou magnética) perturbam ou inibem os campos electromagnéticos constantemente mutáveis das nossas redes neurais, por isso influindo e inibindo as funções normais do nosso cérebro.

Poderiam a consciência e as memórias ser o produto ou resultado desses campos electromagnéticos permanentemente mutáveis? Poderiam esses fotões ser os portadores da consciência (Romijn, 2001)? Alguns investigadores procuram criar inteligência artificial por tecnologia computorizada, na esperança de simular programas que evocam a consciência.

O físico quântico Roger Penrose (1996) advoga que as computações algorítmicas não podem simular o raciocínio matemático. 

Propõe hipóteses mecânicas quânticas para explicar as relações entre a consciência e o cérebro (Hameroff and Penrose, 1995). 

E Simon Berkovitch calculou que o cérebro tem uma absoluta incapacidade para produzir e armazenar todos os processos informativos de todas as nossas memórias com os pensamentos de uma vida inteira.

Necessitaríamos de 10 elevado à vigésima quarta potência (atenção: 10 elevado à vigésima quarte potência, um número inconcebível!...) operações por segundo, o que é impossível para os nossos neurónios (Berkovitch, 1993). Dever-se-ia concluir que o cérebro não possui capacidade de computação para guardar todas as memórias e pensamentos associados, não tem capacidade de recuperá-los, e parece não ser capaz de produzir consciência.


NOVO CONCEITO

A ciência, creio eu, é a busca de explicação de novos mistérios muito mais do que ficarmos presos a factos e conceitos velhos. Com as presentes noções médicas e científicas parece impossível esclarecer todos os aspectos das experiências subjectivas relatadas pelos doentes que passaram por EQM durante a perda transitória de todas as funções do cérebro.

Frederik van Eeden, o famoso médico e autor holandês mencionava, já em 1890 numa sua conferência a respeito do progresso científico de então: “Pessoalmente estou mais convencido do que nunca que o principal inimigo do progresso científico é rejeitar e recusar estudar de antemão e livre de preconceitos, factos aparentes, incompreensíveis ou estranhos” (Van Eeden, 1897, p. 226).

Deste modo, representa um desafio científico discutir hipóteses que poderiam explicar:

– a relatada interligação com a consciência íntima de outras pessoas e de parentes falecidos;

– a possibilidade da vivência instantânea e simultânea (“não local”) de uma “revisão de  vida”;

– uma “antevisão” da vida de alguém numa dimensão livre do conceito convencional do espaço e do tempo, a que está ligado o nosso corpo, no qual todos os acontecimentos do  passado, do presente e do futuro coexistem; 

– a possibilidade de ter clara consciência com memórias, com sentido de identidade  pessoal, conhecimento e percepção fora e acima do próprio corpo sem vida.

Durante uma EQM chega-se ao ponto em que se processa o regresso ao corpo da consciência activa, a par com a percepção corporal do confinamento. 

Quase todos os aspectos da disponibilidade da consciência durante a paragem cardíaca têm o aspecto de um fenómeno quântico. Concluiríamos, como muitos outros, que os processos mecânicos quânticos poderiam ter criticamente a ver com a forma como a consciência e as memórias se relacionam com o cérebro e com o corpo durante as actividades diárias normais bem como durante a morte cerebral e a morte clínica.

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Dr. Pim van LommelAs Experiências de Quase-Morte, A Consciência e o Cérebro – A NEUROFISIOLOGIA DE UM CÉREBRO EM FUNCIONAMENTO NORMAL, A PROCURA DA CONSCIÊNCIA, NOVO CONCEITO (5º fragmento) tradução para a língua portuguesa de espiritismo cultura, depois de autorizada pelo autor.
(imagem de contextualização: O Hospital Rijnstate, em Arnhem – Holanda)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

o alvo da vida ~

Por esses dados, em torno de nós se estabelece a ordem; o nosso caminho se esclarece; mais distinto se mostra o alvo da vida. Sabemos o que somos e para onde vamos.

Desde então não devemos mais procurar satisfações materiais, porém trabalhar com ardor pelo nosso adiantamento. O supremo alvo é a perfeição; o caminho que para lá conduz é o progresso. Estrada longa que se percorre passo a passo.

À proporção que se avança, parece que o alvo longínquo recua, mas, em cada passo que dá, o ser recolhe o fruto de seus trabalhos, enriquece a sua experiência e desenvolve as suas faculdades.

Os nossos destinos são idênticos. Não há privilegiados nem deserdados. Todos percorrem a mesma vasta carreira e, através de mil obstáculos, todos são chamados a realizar os mesmos fins. Somos livres, é verdade, livres para acelerar ou para afrouxar a nossa marcha, livres para mergulhar em gozos grosseiros, para nos retardarmos durante vidas inteiras nas regiões inferiores; mas, cedo ou tarde, acorda o sentimento do dever, vem a dor sacudir-nos a apatia e, forçosamente, prosseguiremos a jornada.

Entre as almas só há diferenças de grau, diferenças que lhes é lícito transpor no futuro. Usando do livre-arbítrio, nem todos havemos caminhado com o mesmo passo e isso explica a desigualdade intelectual e moral dos homens; mas todos, filhos do mesmo Pai, nos devemos aproximar d'Ele na sucessão das existências, para formar com os nossos semelhantes uma só família, a grande família dos bons Espíritos que povoam o Universo.

Estão banidas do mundo as ideias de paraíso e de inferno eterno. Nesta imensa oficina, só vemos seres elevando-se por seus próprios esforços ao seio da harmonia universal. Cada qual conquista a sua situação pelos próprios actos, cujas consequências recaem sobre si mesmo, ligam-no e prendem. Quando a vida é entregue às paixões e fica estéril para o bem, o ser se abate; a sua situação se apouca. Para lavar manchas e vícios, deverá reencarnar nos mundos de provas e ali purificar-se pelo sofrimento. Cumprida a purificação, a sua evolução recomeça. Não há provações eternas, mas sim reparações proporcionais às faltas cometidas. Não temos outro juiz nem outro carrasco a não ser a nossa consciência, pois essa consciência, assim que se desprende das sombras materiais, torna-se um julgador terrível. Na ordem moral como na física só há efeitos e causas, que são regidos por uma lei soberana, imutável, infalível. Essa lei regula todas as vidas. O que, na nossa ignorância, chamamos injustiça da sorte não é senão a reparação do passado. O destino humano é o pagamento do débito contraído entre nós mesmos e para com essa lei.

A vida actual é a consequência directa, inevitável das nossas vidas passadas, assim como a nossa vida futura será a resultante das nossas acções presentes, da nossa maneira de viver. Vindo animar um corpo novo, a alma traz consigo, em cada renascimento, a bagagem das suas qualidades e dos seus defeitos, todos os tesouros acumulados pela obra do passado. Assim, na série das vidas, construímos por nossas próprias mãos o nosso ser moral, edificamos o nosso futuro, preparamos o meio em que devemos renascer, o lugar que devemos ocupar.

Pela lei da reencarnação, a soberana justiça reina sobre os mundos. Cada ser, chegando a possuir-se em sua razão e em sua consciência, torna-se o artífice dos próprios destinos. Constrói ou desmancha, à vontade, as cadeias que o prendem à matéria. Os males, as situações dolorosas que certos homens sofrem, explicam-se pela acção desta lei. Toda a vida culpada deve ser resgatada. Chegará a hora em que as almas orgulhosas renascerão em condições humildes e servis, em que o ocioso deve aceitar penosos labores. Aquele que fez sofrer sofrerá a seu turno.

Porém, a alma não está para sempre ligada a esta Terra obscura. Depois de ter adquirido as qualidades necessárias, deixa-a e vai para mundos mais elevados. Percorre o campo dos espaços, semeado de esferas e de sóis. Ser-lhe-á arranjado um lugar no seio das humanidades que os povoam. E, progredindo ainda nesses novos meios, ela, sem cessar, aumentará a sua riqueza moral e o seu saber. Depois de um número incalculável de vidas, de mortes, de renascimentos, de quedas e de ascensões, liberta das reencarnações, gozará vida celeste, tomará parte no governo dos seres e das coisas, contribuindo com as suas obras para a harmonia universal e para a execução do plano divino.

Tal é o mistério da psique – a alma humana –, mistério admirável entre todos. A alma traz gravada em si mesma a lei dos seus destinos. Aprender a soletrar os seus preceitos, aprender a decifrar esse enigma, eis a verdadeira ciência da vida. Cada farrapo arrancado ao céu da ignorância que a cobre, cada faísca que adquire do foco supremo, cada conquista sobre si mesma, sobre as suas paixões e os seus instintos egoístas permite-lhe uma alegria pura, uma satisfação íntima, tanto mais viva quanto maior for o trabalho executado.

Eis aí o céu prometido aos nossos esforços. O céu não está longe de nós, mas, sim, connosco. Felicidades íntimas ou remorsos pungentes, o homem traz, nas profundezas do ser, a própria grandeza ou a miséria consequente dos seus actos. As vozes harmoniosas ou severas que em si percebe são as intérpretes fiéis da grande lei, tanto mais potentes e imperiosas quanto mais elevado ele estiver na escala dos aperfeiçoamentos infinitos. A alma é um mundo em que se confundem ainda sombras e claridades, mundo cujo estudo atento nos faz cair de surpresa em surpresa. Nos seus recônditos todas as potências estão em germe, esperando a hora da fecundação para se desdobrarem em feixes de luz. À medida que ela se purifica, as suas percepções aumentam. Tudo o que nos encanta no seu estado presente, os dons do talento, os fulgores do génio, tudo isso nada é, comparado ao que um dia adquirirá, quando tiver atingido as supremas altitudes espirituais. Já possui imensos recursos ocultos, sentidos íntimos, variados e subtis, fontes de vivas impressões, mas o pesado e grosseiro invólucro embaraça-lhe quase sempre o exercício.

Somente algumas almas eleitas, destacadas por antecipação das coisas terrestres, depuradas pelo sacrifício, sentem as primícias desse mundo; todavia, não encontram palavras para descrever as sensações que as enlevam e os homens, na sua ignorância da verdadeira natureza da alma e das suas potências latentes, têm escarnecido disso que julgam ilusões e quimeras.

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LÉON DENIS, Depois da Morte, Parte Segunda / Os Grandes Problemas XII – O Alvo da Vida.
(imagem de contextualização: La Petite Esmeralda_1874, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

a pedra e o joio ~


O método de Kardec

Kardec nasceu no início do século XIX, numa fase de crescimento do processo cultural no mundo. Formou-se na cultura do século, sob a orientação de Pestalozzi, o mestre por excelência. Especializou-se em Pedagogia, que podemos chamar de Ciência da Cultura, e até aos cinquenta anos de idade exerceu intensas actividades pedagógicas, tornando-se o sucessor de Pestalozzi na Europa. Não se fez padre nem pastor, mas cientista e filósofo, na despretensão e na humildade de quem não procurava elevadas posições, mas aprimorar os seus conhecimentos. Adquiriu no estudo, nas actividades teóricas e na prática, o mais amplo conhecimento dos problemas culturais do seu tempo.

Vivendo em Paris, considerado então como o cérebro do mundo, impôs-se ao consenso geral como homem de elevada cultura, um intelectual por excelência. Colocado num momento fundamental da evolução terrena, viu e viveu o drama cultural da época. E só aos 50 anos de idade, maduro e culto, deparou com o problema crucial do tempo e procurou solucioná-lo em termos culturais. Esse problema resumia-se no seguinte: a cultura clássica, religiosa e filosófica, desabava ao impacto do desenvolvimento das Ciências, sem a menor capacidade para enfrentar o realismo científico e salvar os seus próprios valores fundamentais.

Formado na tradição cultural do Século XVIII, herdeiro de Francis BaconRené Descartes e Rousseau, compreendeu claramente que o problema do seu tempo repousava na questão do método. Os fenómenos espíritas se verificavam com intensidade, como uma espécie de reacção natural aos excessos do empirismo, no bom sentido do termo, que era a aplicação do método experimental a todo o conhecimento. A tradição espiritual rejeitava esses excessos, mas não dispunha de armas para combatê-los. Kardec resolveu aplicar o método experimental ao estudo dos fenómenos espíritas.

Logo aos primeiros resultados verificou que o  do problema estava no seguinte: o método experimental aplicava-se apenas à matéria, excluindo-se o espírito que era considerado como imaterial e portanto inverificável.

Mas se havia fenómenos espíritas era evidente que o espírito, manifestando-se na matéria, tornava-se acessível à pesquisa. Tudo dependia, pois, do método. Era necessário descobrir um método de investigação experimental dos fenómenos espíritas. Era claro que esse método não podia ser o mesmo aplicado à pesquisa dos fenómenos materiais, considerados como os únicos naturais. Mas por que os únicos? Porque as manifestações do espírito eram consideradas como sobrenaturais, regidas por leis divinas.

Já Descartes, no Século XVII, lutando contra o dogmatismo escolástico, mostrara a unidade de alma e corpo na manifestação do ser humano e advertira contra o perigo de confusão entre esses dois elementos constitutivos do homem. Kardec se sentia bem amparado na tradição metodológica e conseguiu provar que os fenómenos espíritas eram tão naturais como os fenómenos materiais. Ambos estavam na Natureza, espírito e matéria correspondiam a força e matéria, os dois elementos fundamentais de tudo quanto existe.

Daí a sua conclusão, até hoje não excedida, e confirmada na época pelas manifestações dos próprios Espíritos que o assistiam: a Ciência do Espírito correspondia às exigências da época. Mas era necessário desenvolvê-la segundo a orientação metodológica da Ciência da Matéria, pois essa orientação provara a sua eficiência. A questão era simples: na investigação dos problemas espirituais o método dedutivo teria de ser substituído pelo método indutivo. Mas essa questão tornava-se complexa porque a tradição espiritualista, cristalizada nos dogmas das igrejas, repelia como herética e profana a aplicação da pesquisa científica aos problemas espirituais.

Kardec enfrentou a questão com extraordinária coragem. Enfrentou sozinho, sem o apoio de nenhum poder terreno, todo o poderio religioso da época. Teve então de colocar-se entre os fogos cruzados da Religião, da Filosofia e da Ciência. Os teólogos o atacavam na defesa dos seus dogmas, a Filosofia o considerava um intruso e a Ciência condenava-o como um ressuscitador de superstições que ela já havia praticamente destruído. A vitória de Kardec definiu-se bem cedo. A Ciência Psíquica inglesa, a Parapsicologia alemã e a Metapsíquica francesa nasceram da sua coragem e das suas pesquisas. Mais de cem anos depois, Rhine e Mac Dougall fundariam nos Estados Unidos a Parapsicologia moderna, seguindo a mesma orientação metodológica de Kardec. E a sua vitória confirmou-se plenamente nos nossos dias, quando as pesquisas parapsicológicas endossaram as conclusões de Kardec e logo mais a própria Física e a Biologia fizeram o mesmo. A palavra paranormal, criada por Frederic Myers e hoje adoptada na Parapsicologia, substituiu em definitivo, no campo científico, a classificação errónea de sobrenatural dada aos fenómenos espirituais.

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José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. O método de Kardec, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

o sentido da vida ~

Novo Panteísmo "Realista"

Ao procurarmos situar o Espiritismo, no terreno filosófico, acima das duas correntes clássicas de espiritualismo e materialismo, demos-lhe a designação de realista. Esse realismo, porém, nada tem a ver com o realismo medieval e a sua luta contra o nominalismo. Pode ser antes comparado ao realismo literário de Flaubert, pois o que o caracteriza é a preocupação de ver a vida e o mundo através de uma visão real, a mais real possível, sem o desprezo ou o descuido de qualquer dos aspectos da realidade objectiva e subjectiva, se é assim que podemos dividir, impunemente, a realidade.

Devemos lembrar, entretanto, nesse ponto, que a recusa sistemática em aceitar a teoria espírita e o desinteresse manifesto pela mesma, da parte da maioria dos cientistas modernos e dos modernos filósofos, que torcem o nariz diante dos livros de Kardec e os trabalhos de CrookesMyersRichetAksakof e Oliver Lodge, por sentirem o cheiro de uma grosseira superstição empalhada no museu da culturaconduziram-nos fatalmente a um renascimento forçado do realismo medieval, conjugado com o panteísmo na sua forma mais primitiva. E o dizemos primitiva porque é a forma que poderíamos chamar de panteísmo inconsciente, muito distanciada da forma superior de panteísmo de Espinoza, por exemplo, que, segundo o seu próprio autor, podia confundir-se com o pensamento de Paulo, de que tudo vive e se move em Deus.

Os novos corifeus da cultura, apegando-se a um racionalismo de superfície, que contradiz as maiores virtudes da própria razão, negam todas as possibilidades da sobrevivência individual, para aceitarem, em troca, uma visão infinitamente mais improvável e absurda, da sobrevivência de uma realidade dotada de percepção consciente. Não importa que uma cerebração como a de Oliver Lodge tenha reunido as suas experiências e as suas conclusões, ainda recentemente, em pleno mar da cultura moderna, num trabalho como a monografia Por que creio na imortalidade pessoal. Os grandes sábios da era atómica, embora um cientista de grande evidência no terreno das pesquisas atómicas, como Artur Campton, confirme, em A posição do homem no Universo, as assertivas de Lodge, preferem fugir espavoridos da superstição da imortalidade para se refugiarem no panteísmo científico, que é, na realidade, a mais anti-científica de todas as teorias.

De facto, não negam os nossos homens da ciência, e os possíveis filósofos desta era de pesquisas, a imortalidade da alma. Entretanto, envolvendo essa imortalidade no conceito de eternidade das coisas, confundem o resultado das suas observações parciais com as linhas mais amplas da realidade universal e oferecem à humanidade exausta um imenso borrão, como perspectiva do seu próprio futuro. Apegados ao método científico de indução e dedução, esquecem-se da regra fundamental da convergência das provas, para a qual Ernesto Bozzano nos chama incessantemente a atenção, nos seus trabalhos. Generalizam sobre meia dúzia de conceitos ou de casos, desprezando a maioria, por considerá-los sob o prejuízo da superstição, espécie de pecado original da teologia científica, fonte impura e sempre suspeita, que atemoriza e espanta os ortodoxos.

Não podendo negar a continuidade da vida, que se patenteia a própria continuidade do Universo, e não querendo aceitar a sobrevivência individual, que lhes quebraria o dogma científico do monismo psicofísico, levam de volta o pensamento moderno ao panteísmo primitivo. Deus, embora não o chamem por esse nome, que também cheira a superstição, é a própria natureza, de que tudo provém e a que tudo retorna. As individualidades, sejam humanas, animais, vegetais ou minerais, nada mais são do que ondas que surgem e se apagam, rápidas e efémeras, na superfície do mar infinito da matéria, sucedendo-se através dos tempos, como as próprias ondas do mar. O homem é uma crista de água espumosa que se levanta de súbito na superfície, percorre um certo espaço-tempo e desaparece de novo no líquido comum. O que sobrevive não é o homem, mas apenas os seus elementos constitutivos, a sua matéria e a sua energia. O deus-natureza, caprichoso, ilógico, absurdo, é um monstro universal, de mil tentáculos e de milhões de faces, a criar e a tragar incessantemente as próprias criaturas, a se revelar e se esconder, num torvelinho infernal e numa verdadeira autofagia, mais desoladora e mais horrenda do que tudo o que possa ter imaginado a mitologia pagã e a ingénua teologia católica, a respeito dos domínios satânicos.

Entretanto o homem existe. O homem pensa, vive, sente, pode filosofar. Gogito ergo sum da metade cartesiana. E diante disso, procuram, os sujet-pensant da moderna cultura científica, uma parte de saída através de novo retrocesso filosófico, na volta ao realismo medieval. Vejamos o que dizem H. G. WellsJulian Huxley e G. P. Wells, por exemplo, em A nossa vida mental, tradução e notas de Almir de Andrade, título inglês Science of life, volume oitavo, Man’s mind and behaviour.

Embora sejamos mortais como indivíduos, podemos ser imortais como fases e partes transitórias da evolução contínua e imorredoura de uma realidade dotada de percepção consciente. Quando filosofamos, nas horas de recolhimento e de silêncio, talvez essa filosofia não parta unicamente de nós, mas seja o próprio homem que se revela, na plenitude de si mesmo, através dos nossos pensamentos.”

Durante o século XI, como se sabe, desencadeou-se no mundo filosófico a tremenda luta entre nominalistas e realistas, os últimos afirmando a existência real, positiva, dos universais, que nada mais eram que figuras colectivas das coisas existentes de maneira separada do mundo físico, e os primeiros sustentando a existência apenas destas coisas. Assim, para os realistas, à maneira do que Sócrates e Platão afirmavam sobre os conceitos “gerais”, os homens não são mais do que projecções materiais do Homem universal, a entidade colectiva existente no mundo das ideias. A esse idealismo escolástico são forçados a regressar, como vemos, os corifeus do pensamento científico moderno, quando se negam a aceitar as últimas consequências do esforço humano para o conhecimento mais amplo da vida e do mundo.

A Religião, a Filosofia e a Ciência atingiram um estágio superior, graças à contínua e irrevogável evolução da humanidade e dos seus processos mentais. Nesse estágio não é mais possível manter-se o divisionismo irracional, gerador de antagonismos irreconciliáveis, em que esses ramos do conhecimento humano têm vivido até agora. Chegamos, pois, à era da síntese, ao momento do encontro e fusão dessas partes distintas, para a formação do todo, do corpo único e vitorioso da concepção geral do Universo, por que anseiam o coração e a mente do homem. As forças que se opõem a esse avanço natural não podem fazer outra coisa senão barrar o caminho, desviando o curso normal desses ramos do conhecimento. Esse desvio, uma vez que o avanço foi sustado, não pode tomar outro rumo senão o do regresso ao passado.

O Espiritismo se afirma como a larga estrada do progresso para o pensamento humano, quando pensamos em tais coisas. Ele nos mostra a sua verdadeira natureza do ponto culminante das conquistas mentais e espirituais da humanidade, ao verificarmos que, sem interromper o avanço de nenhum dos ramos do conhecimento e sem voltar para trás, ele pode reuni-los, naquela síntese que nos leva da multiplicidade dos fenómenos ao princípio único que os rege.

Nem foi por outro motivo que sir Oliver Lodge afirmou, em Por que creio na imortalidade pessoal, ser o Espiritismo uma nova revolução copérnicaEle rompe o círculo fechado do pensamento moderno, estilhaçando as esferas de vidro dos novos céus superpostos de Ptolomeu, para colocar o homem diante do espaço infinito, em que os mundos gravitam e a humanidade se expande, para além do organocentrismo ortodoxo da biologia moderna.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Novo Panteísmo “Realista”, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Giovanna ~

V

Giovanna e Maurice haviam trocado os anéis benzidos pelo padre; a data de sua união estava marcada. Os dias passaram para eles, vertiginosamente, entregues que estavam à sua felicidade. Eles desconheciam que um espantoso flagelo avançava para eles, que a sua devastação já havia despovoado as planícies lombardas e que o ar puro das montanhas seria impotente para o deter. Mas que lhes importava, com efeito, as novidades de fora, os barulhos do mundo. O mundo para eles resumia-se em um só ser, o ser amado ! O seu pensamento, já não ia a não ser às regiões supra-terrestres.

Não sonhavam senão com o seu amor, com a vida que se abria diante deles tão bela, tão rica de promessas. Mas a Vontade Suprema iria reverter todas essas esperanças. Depois de haver entrevisto a felicidade ideal, Maurice devia voltar à sombria e desesperante realidade.

O tifo, violento, abatera-se sobre as margens do lago de Gravedona e o vale de Domaso foram sucessivamente atingidos. Alguns dias tinham penosamente passado e já muitas das moradas estavam vazias. A fumaça azulada já não se elevava acima dos telhados. O silêncio, esse silêncio cruel da morte e da perda, substituía o barulho do trabalho e das canções; grandes cruzes brancas apareciam sobre as portas das casas desertas. A foice da morte ceifava muitas existências entre estas famílias de pescadores e artesãos, mal vestidos, mal nutridos, de higiene duvidosa que ofereciam uma presa fácil ao flagelo. Durante quase todo o dia o sino da igreja tocava o dobre fúnebre e numerosos cortejos se encaminhavam para o cemitério.

A epidemia não poupou os Menoni. Marta foi atingida primeiro, depois a sua menina tombou doente. Todas as famílias, todas as moradas atingidas pelo flagelo foram abandonadas. Os médicos eram pouco numerosos. Nenhum cuidado em atender os parentes, os amigos; o isolamento, o sofrimento e a morte, eis o que podiam esperar aqueles que fossem contagiados. As lamúrias que ressoavam de todos os lados, a desolação geral, arrancaram Giovanna de sua quietude, de sua felicidade. A voz imperiosa do dever se elevava nela e dominava a voz do amor. Desdenhando o perigo, surda às súplicas de Maurice, partilhava de agora em diante o seu tempo entre os infelizes abandonados. O seu noivo, não podendo desviá-la do risco, imita-lhe o exemplo. Giovanna passa um mês inteiro na cabeceira dos moribundos; vários expiram debaixo dos seus olhos. Marta e a sua menina, morreram malgrado os seus cuidados. Até aos derradeiros momentos ela os assistiu, suportando com uma calma aparente o espectáculo das suas convulsões, respirando o sopro envenenado que exalavam dos seus lábios. Tanta fadiga e emoções acabaram com a jovem moça. Uma tarde em que, extenuada, voltava da vila com Maurice, teria caído no chão, desmaiada, se o seu noivo não a tivesse amparado nos braços.

Ela voltou para casa e, acamou-se e, os assustadores sintomas manifestaram-se em seguida. Um círculo de fogo apertava as suas têmporas; zumbidos insólitos faziam barulho nos seus ouvidos; os calafrios a tomaram, uma cor arroxeada se estendeu em volta dos olhos. O mal fazia progressos rápidos; a vida de Giovanna fundia como cera macia sob o sopro do flagelo. A partir do dia seguinte, a sombra da morte flutuava-lhe na face. Maurice, pálido, desesperado, permanecia sempre perto dela, apertando-lhe as mãos geladas. Aproximando os seus lábios de sua boca descolorada, pedia a Deus que lhe permitisse aspirar a morte em um beijo.

Giovanna respondia docemente ao seu abraço. Os seus olhos, já brilhantes das luzes do lado de lá, fixavam-se sobre ele com uma expressão de calma, de doçura serena. Mesmo nesse momento solene, malgrado o sofrimento que despedaçava os seus membros, um sorriso resignado aclarava a sua face. À tarde, a agonia começou. Giovanna agitava-se convulsivamente, debatia-se sob uma opressão dolorosa, implorando a Deus aos gritos. A essas crises terríveis sucedia um abatimento profundo, uma imobilidade semelhante à morte. Somente, os lábios da jovem menina mexiam. Parecia conversar com os seres invisíveis. Por vezes, também, se lhe escutava murmurar o nome de Maurice. Um ligeiro aperto da mão, um último estremecimento e, Giovanna expira. A alma desse anjo retornava para Ele que a havia criado.

Maurice, esmagado pela dor, estava como um homem ébrio. As suas lágrimas, não podendo sair, recaiam sobre o seu coração e o afogava em ondas de um cruel desespero. A noite veio, colocaram-se velas acesas próximo do leito; um crucifixo repousava sobre o peito da morta cujos cabelos louros esparsos formavam uma coroa de ouro em volta de sua cabeça pálida. Soluços meio comprimidos elevaram-se dos cantos da sala. A tia, a velha ama de leite de Giovanna, algumas pobres pessoas a quem a morta havia socorrido, oravam e choravam. Maurice aproxima-se da janela amplamente aberta. Ironia da natureza! O disco brilhante da lua aclarava planícies e montes; aromas balsâmicos flutuavam no ar; a torrente, correndo sobre as pedras, fazia ouvir o seu alegre murmúrio ao qual respondia um rouxinol pousado sobre o alto dos galhos. No seio da noite tépida e perfumada, tudo eram luzes e cantos, tudo celebrava a felicidade de viver e, lá, sobre o seu virginal leito, a doce criança dormia já o sono eterno. Assim pensava Maurice; mil ideias sombrias, tumultuadas, cresciam no seu cérebro como vento de tempestade.

Qual é então o Deus cruel que brinca assim com o nosso coração! Haver-lhe mostrado a felicidade, ter-lhe tocado, para logo a furtar. Esses sonhos dourados, esses sonhos formados a dois, estariam para sempre desvanecidos! Esse cadáver que pernoitava ali era tudo o que restava de Giovanna?

Não a veria mais, não ouviria mais a sua voz, não veria mais nos seus olhos aqueles clarões de ternura que o inebriavam, que o reaqueciam deliciosamente. Mais algumas horas e já não teria nada dela, nada senão a lembrança, uma lembrança dilacerada, penetrante como que uma espada na alma ulcerada. Já não haveria mais as caminhadas a dois no vale, já não teria os passeios sobre o lago, na brilhante luminosidade do dia, já não usufruiria das conversas sobre o terraço na suave claridade das noites. Ele era triste, deprimido, até que a conheceu; como um raio, o seu olhar havia clareado a sua vida e, eis que, subitamente, tudo se extinguia. Estava acabado agora; a sua vida tinha-se detido; já não teria os sonhos alegres, já não respirava a esperança, agora o vazio, a solidão terrível, as trevas formar-se-iam à sua volta. Como o seu coração batia a golpes precipitados no seu peito, como a sua cabeça queimava! Um peso esmagador lhe fazia curvar a fronte, mergulhando-a nos seus joelhos. E chamava a morte, desejava-a ardentemente. - “Vem, dizia, leva-me com ela, envolva-nos no mesmo sudário, deite-nos na mesma cova; que a mesma pedra nos cubra !” Mas não, ela estava morta e ele falava-lhe, vivo. Que abismo se abria debaixo dos seus pés! E a revolta esmagava esta alma contra o implacável destino.

Evocando as lembranças de sua vida, depois os seus tristes anos de infância, Maurice via passar como um turbilhão as ilusões dissipadas, as alegrias tão curtas, tão vazias, evanescentes, as felicidades efémeras de sua juventude. Todas as sombras, todas as preocupações do passado, subiam como uma onda amarga do fundo de sua memória, submergindo nele as últimas esperanças. Em seu lugar, uma profunda sensação de isolamento, de abandono, permanecia. Todos aqueles que tinha amado haviam partido. A sua mãe, que morrera quando ele era apenas uma criança, depois o seu pai e, agora, aí estava Giovanna. Tudo o que havia alegrado a sua existência, tudo o que havia feito bater o seu coração iria resumir-se em três, sepulcros. - “Oh! – murmurava –, Ser invisível que se ri das nossas lágrimas, faz-nos então viver apenas para nos torturar? Entretanto não pedi para nascer. Por que me tiraste do nada, lá onde se dorme, onde se repousa, onde não se sofre! ”A alvorada veio aclarar com as suas pálidas luzes a triste cena da morte, Giovanna depositada no caixão, a chegada do padre, a partida para o cemitério. Semelhante a um autómato, Maurice seguiu o féretro, coberto de ramalhetes de rosas brancas, levadas pelas jovens meninas de Gravedona. Afundado na sua dor, ele não via nada do cerimonial fúnebre na igreja, não escutava certamente as salmodias lúgubres. O barulho surdo da terra caindo sobre as tábuas do caixão chamou-o então a si.

Os assistentes foram-se, a cova tapada, ele encontrava-se só, diante da sepultura de sua noiva. Então, de coração dilacerado em desalinho; lança-se sobre o solo, estendendo os braços por cima da morta; um soluço ergue-se-lhe no peito e um rio de lágrimas escorre-lhe dos olhos.

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Léon Denis, Giovanna_1880, V 7º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Retrato, pequena pintura que especialistas de arte italiana atribuem a Rafael Sanzio)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

o grande enigma ~


Deus e o Universo (V)

É a ti, ó Potência Suprema! Qualquer que seja o nome que te dêem e por mais imperfeitamente que sejas compreendida; é a ti, fonte eterna da vida, da beleza, da harmonia, que se elevam as nossas aspirações, a nossa confiança, o nosso amor.

Onde estás, em que céus profundos, misteriosos, tu te escondes? Quantas Almas acreditaram que bastaria, para te encontrar, o deixar a Terra! Mas tu te conservas invisível no mundo espiritual, quanto no mundo terrestre, invisível para aqueles que não adquiriram ainda a pureza suficiente para reflectir os teus divinos raios.

Tudo revela e manifesta, no entanto, a tua presença. Tudo quanto na Natureza e na Humanidade canta e celebra o amor, a beleza, a perfeição, tudo que vive e respira é mensagem de Deus. As forças grandiosas que animam o Universo e proclamam a realidade da Inteligência divina; ao lado delas, a majestade de Deus se manifesta na História, pela acção das grandes Almas que, semelhantes a vagas imensas, trazem às plagas terrestres todas as potências da obra da sabedoria e do amor.

E Deus está, assim, em cada um de nós, no templo vivo da consciência. É aquele o lugar sagrado, o santuário em que se encontra a divina centelha.

Homens! Aprendei a imergir em vós mesmos, a esquadrinhar os mais íntimos recônditos do vosso ser; interrogai-vos no silêncio e no retiro. E aprendereis a reconhecer-vos, a conhecer o poder escondido em vós. É ele que leva e faz resplandecer no fundo das vossas consciências as santas imagens do bem, da verdade, da justiça, e é honrando essas imagens divinas, rendendo-lhes um culto diário, que essa consciência, ainda obscura, se purifica e se ilumina.

Pouco a pouco, a luz se engrandece dentro de nós. De igual modo que gradualmente, de maneira insensível, as sombras dão lugar à luz do dia, assim a Alma se ilumina das irradiações desse foco que reside nela e faz desabrochar, no nosso pensamento e no nosso coração, formas sempre novas, sempre inesgotáveis de verdade e de beleza. E essa luz é também harmonia penetrante, voz que canta na alma do poeta, do escritor, do profeta, e os inspira e lhes dita as grandes e fortes obras, nas quais eles trabalham para elevação da Humanidade. Mas, sentem essas coisas apenas aqueles que, tendo dominado a matéria, se tornaram dignos dessa comunhão sublime, por esforços seculares, aqueles cujo senso íntimo se abriu às impressões profundas e conhece o sopro potente que atiça os clarões do génio, sopro que passa pelas frontes pensativas e faz estremecer os envoltórios humanos.

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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 5 de 5, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Saberes e o tempo ~

As famílias químicas ~

Procedendo à análise de todas as substâncias terrestres, chegaram os químicos a reconhecê-las devidas a inúmeras combinações de cerca (*) de 70 corpos simples, Isto é, de 70 elementos que se não puderam decompor. Fora, pois, de supor-se que há tantas matérias entre si diferentes, quantos corpos simples. Pura ilusão haveria aí, devido à nossa impotência para reduzir esses corpos a uma matéria uniforme, que então lhes seria a base. É o que pensavam Proust e Dumas, quando, no começo do século, procuravam descobrir, por meio da lei das proporções definidas, qual seria a substância única, isto é, aquela de que fossem múltiplos exactos os elementos dos corpos primários. Dumas chegou a mostrar que não é o hidrogénio, como então se acreditava, mas uma substância ainda desconhecida, cujo equivalente, em vez de ser a unidade, seria a metade desta: 0,5.

Os físicos partidários da teoria do éter – e hoje são todos – vão ainda mais longe do que os químicos. A matéria desconhecida, pela mesma razão de ter por equivalente 0,5, seria ponderável, até para os instrumentos de que o homem dispõe. Ora, o éter, que enche o Universo, é imponderável; donde se segue que a substância hipotética dos químicos, a ter por peso metade do hidrogénio, seria, quando muito, uma das primeiras condensações ou um dos primeiros agrupamentos do éter. Assim, pois, seria o éter, segundo os físicos, a matéria única constitutiva de todos os corpos.

“O estudo da luz e da electricidade – diz Angelo Secchi –, nos há levado a considerar infinitamente provável que e éter mais não é do que a própria matéria, chegada ao mais alto grau de tenuidade, a esse estado de rarefacção extrema a que se chama estado atómico. Consequentemente, todos os corpos seriam apenas agregados dos próprios átomos desse fluido.” (**)

Estas maneiras teóricas de ver se originam dos seguintes factos químicos:

1º) nos corpos simples existem verdadeiras famílias naturais;

2º) um grupo composto, cujos elementos se conheçam, pode desempenhar o papel de um corpo simples; um corpo dito simples pode ser decomposto;

3º) corpos formados exactamente dos mesmos elementos, reunidos estes, nas mesmas proporções, têm, entretanto, propriedades diferentes;

4º) a análise espectral revela a existência primitiva de uma só substância nas estrelas mais quentes, em geral o hidrogénio.

Examinemos rapidamente tão interessantes factos.

Se atentarmos nos diferentes corpos simples, convencer-nos-emos de que não são de ordem fundamental as suas divergências, visto que eles podem agrupar-se em séries de famílias naturais. Essa divisão, fundada em analogias manifestas que alguns deles apresentam, uns com relação aos outros, oferece uma vantagem que se não pode negar, porquanto, feito estudo profundo do corpo mais importante, a história dos outros, salvo questões de detalhes, se deduz naturalmente desse estudo. A semelhança na maneira de se comportarem mostra que essas matérias apresentam analogias de composição e, portanto, que elas não são tão dessemelhantes quanto pareciam à primeira vista.

Não lhes é peculiar a individualidade que apresentam os corpos simples. Há corpos compostos, como o cianogénio – formado pela combinação do carbono com o azoto –, que, nas reacções, desempenham o papel de um corpo simples. É claro que, se não houvesse podido separar os elementos constituintes do cianogénio, também ele houvera sido classificado entre os corpos simples. Aliás, com os métodos aperfeiçoados da ciência, tais como a análise espectral, já se pode saber que o ferro, por exemplo, é formado de elementos mais simples, embora ainda não se haja conseguido isolar estes últimos. Mas, o que não se conseguiu com relação ao ferro, William Crookes realizou com referência ao ítrio. Podemos, pois, prever próxima a época em que desaparecerá a demarcação entre os corpos simples. O mesmo poder de análise, que limitou a inumerável multidão das substâncias naturais, minerais, vegetais e animais, a alguns elementos apenas, certamente nos conduzirá à descoberta da matéria única de onde todas as outras derivam.

Os fenómenos da alotropia e da isomeria justificam essa expectativa.

/…
(*) Ainda não está definitivamente determinado o número dos corpos simples. Todos os dias, com efeito, se descobrem novos, principalmente no estado gasoso: o argónio, o metargónio, o criptónio, o zenónio, o neónio, etc.
(**) Unidade das forças físicas, pág. 604.


Gabriel Delanne, A Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência Capítulo II O tempo, o espaço, a matéria primordial, O estado molecular – As famílias químicas, 7º fragmento da obra.
(imagem: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)