sábado, 22 de agosto de 2015

O Espiritismo na Arte ~

Parte II

Arte: meio de elevação e renovação; Arte: meio de aviltamento; O pensamento de Deus; Fonte das altas e sãs inspirações ~

|Fevereiro de 1922|

A arte, sob as suas formas diversas, como dissemos no artigo anterior, é a expressão da beleza eterna, uma manifestação da poderosa harmonia que rege o Universo; é o raio de luz que vem do alto e que dissipa as brumas, as obscuridades da matéria, e nos faz entrever os planos da vida superior. A arte é, por si mesma, plena de ensinamentos, de revelações, de luz. Ela arrasta a alma em direcção às regiões da vida espiritual, que é a verdadeira vida, e que a alma anseia tornar a encontrar um dia.

A arte bem compreendida é um poderoso meio de elevação e de renovação. É a fonte dos mais puros prazeres da alma; ela embeleza a vida, sustenta e consola na provação e traça para o espírito, antecipadamente, as rotas para o céu. Quando a arte é sustentada, inspirada por uma fé sincera, por um nobre ideal, é sempre uma fonte fecunda de instrução, um meio incomparável de civilização e de aperfeiçoamento.

Porém, nos nossos dias, muito frequentemente ela é aviltada, desviada do seu objectivo, escravizada por mesquinhas teorias de escola e, principalmente, considerada como um meio de chegar à fortuna, às honras terrestres. Emprega-se a arte para adular as más paixões, para superexcitar os sentidos, e assim se faz da arte um meio de aviltamento.

Quase todos aqueles que receberam a sagrada missão de conduzir as almas para o alto se eximiram dessa tarefa. Eles se tornaram culpados de um crime, recusando-se a instruir e a esclarecer as sociedades, perpetuando a desordem moral e todos os males que se precipitam sobre a humanidade. Esse comportamento explica a decadência da arte na nossa época e a ausência de obras importantes.

O pensamento de Deus é a fonte das altas e sãs inspirações. Se os nossos artistas soubessem beber nessa fonte, nela encontrariam o segredo das obras imperecíveis e as maiores felicidades. O Espiritismo vem oferecer-lhes os recursos espirituais de que a nossa época tem necessidade para se regenerar. Ele nos faz compreender que a vida, na sua plenitude, é apenas a concepção e a realização da beleza eterna.

Viver é sempre subir, sempre crescer, sempre acrescentar em si o sentimento e a noção do belo.

As grandes obras só se elaboram no recolhimento e no silêncio, à custa de longas meditações e de uma comunhão mais ou menos consciente com o mundo superior. O alarido das cidades não é conveniente ao voo do pensamento; ao contrário, a calma da natureza, a paz profunda das montanhas, facilitam a inspiração e favorecem a eclosão do talento. Assim, confirma-se, uma vez mais, o provérbio árabe: “O barulho é para os homens, o silêncio é para Deus!”

O espírita sabe que imensa ajuda a comunhão com o Além, com os espíritos celestes, oferece ao artista, ao escritor, ao poeta. Quase todas as grandes obras tiveram colaboradores invisíveis. Essa associação se fortifica e se acentua pela fé e pela prece, que permitem às forças do Alto penetrarem mais profundamente em nós e impregnarem todo o nosso ser. Mais do que qualquer outro, o espírita sente as correntes poderosas que passam sobre as frontes pensativas e inspiram as ideias, as formas, as harmonias, que são como os materiais dos quais o génio se utilizará para edificar a sua maravilhosa obra.

A consciência dessa colaboração dá a medida da nossa fraqueza; ela nos faz compreender qual parte cabe à influência de nossos irmãos mais velhos, dos nossos guias espirituais, daqueles que, do espaço, se inclinam sobre nós e nos assistem nos nossos trabalhos. Ela nos ensina a ficar humildes no sucesso. O orgulho do homem é que fez a fonte das altas inspirações secar. A vaidade, que é o defeito de muitos artistas, torna o seu espírito insensível e afasta as grandes almas que concordariam protegê-los. O orgulho forma uma espécie de barreira entre nós e as forças do Além.

O artista espírita conhece a sua própria indigência, mas sabe que acima dele, abre-se um mundo sem limites, pleno de riquezas, de tesouros incalculáveis, perto dos quais todos os recursos da Terra não são mais que pobreza e miséria. O espírita também sabe que esse mundo invisível – se ele souber tornar-se digno dele, purificando o seu pensamento e o seu coração – pode tornar mais intensa a acção do Alto, fazê-lo participar das suas riquezas pela inspiração e pela revelação e delas impregnar as obras que serão como um reflexo da vida superior e da glória divina.

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LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte II – Arte: meio de elevação e renovação; Arte: meio de aviltamento; O pensamento de Deus; Fonte das altas e sãs inspirações. 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Nas garras do pensamento crítico ~

O desprezo pela dialéctica |

   Dizia Engels, no artigo: “...não se pode desprezar impunemente a dialéctica.” E dizia bem. Senão, vejamos: observados os factos com o máximo rigor científico, através de centenas de sessões – nas quais se obteve, inclusive, na presença de Gabriel Delanne, a célebre e impressionante materialização de Bien-Boa, na casa do general Noel, na Argélia –, Charles Richet se convence da realidade dos fenómenos, escreve o Traité de Métapsychique, A Grande Esperança e O Sexto Sentido, mas só concorda com a sobrevivência depois que a poderosa dialéctica de Ernesto Bozzano lhe demonstra a obscuridade das teorias que atravancam a sua própria ciência (expressões da carta de Richet a Bozzano, publicada no número de 30 de maio de 1936, da revista londrina Psychic News).

Cesare Lombroso, o grande criminologista e psiquiatra, autor de severas críticas ao Espiritismo, encontrou-se, não apenas em uma, mas em várias sessões realizadas em Milão, Génova e Turim, com a materialização de sua própria mãe, graças à mediunidade de Eusapia Palladino, e proclama o facto com entusiasmo e emoção, na revista milanesa Luce e Ombra. Mas o professor Silva Mello descobre, algumas dezenas de anos mais tarde, no nosso país, que a médium era simplesmente “uma embusteira”, e afirma: “descobriu-se que ela fraudava de maneira sistemática e com a maestria de uma velha perita na questão”. Lombroso, como se vê, não fora mais do que um beócio, deixando-se empolgar pela emoção mais estúpida que se possa imaginar, quando tomou um boneco ou um farsante pela ressurreição de sua própria mãe! Que se admitisse a farsa numa comédia de Hollywood, vá lá, mas na vida de um homem como Lombroso é o que de mais grotesco se possa imaginar.

A frase de Engels aplica-se também, como uma luva, ao caso do trio H. G. Wells, Julian Huxley e G. P. Wells. Não cometeram eles, é verdade, a gafe de negar a realidade dos fenómenos. Pelo contrário, como o Dr. Troise, reconheceram, prudentemente, que os factos existem e não podem ser riscados da história ou apagados com a esponja da negação. No volume Science of Life, da colecção Man's mind and behaviour, traduzidos e publicados entre nós com os títulos A Nossa Vida Mental, colecção A Ciência da Vida, reconhecem eles: “Não podemos absolutamente rejeitar a evidência de tais fenómenos”. E acrescentam, aliás com muita oportunidade, censurando os que os negam:

“Lembremo-nos, segundo Richet, de que grandes cientistas, como Bouillaud, declararam que o telefone era ventriloquia, e cientistas ainda maiores, como Lavoisier, afirmaram decisivamente que não poderiam cair pedras do céu, pela razão muito simples de que no céu não há pedras...”

Não obstante – há, o desprezo pela dialéctica! –, terminaram apelando, num desesperado esforço de rejeição à tese espírita, ao “realismo” da Idade Média, para explicar os factos: “Quando filosofamos – dizem eles – nas horas de recolhimento e de silêncio, talvez essa filosofia não parta unicamente de nós, mas seja o próprio Homem, na plenitude de si mesmo, que se revele através dos nossos pensamentos”.

Entenderam os leitores? Esse Homem (com “H” maiúsculo) é a verdadeira ressurreição da múmia filosófica da controvérsia entre “nominalistas” e “realistas”, arrancada à força dos baús medievais para enfrentar a realidade fenoménica do Espiritismo, em plena era atómica.

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico – O desprezo pela dialéctica, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

sábado, 1 de agosto de 2015

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar as idades


A EXPERIÊNCIA ESPÍRITA DE VICTOR HUGO |

Victor Hugo possuía fé no plano divino do Universo, razão porque baseava o seu lirismo sobre essa profunda convicção. Confiava na lei do progresso e admitia que tudo evolui apesar das incertezas humanas. Quando o homem, orgulhosamente, se considera "o fim e a meta do universo", o poeta exclama: ''Acreditas que esta vida universal, que vai da rosa à árvore, da árvore ao animal, que se eleva insensivelmente da pedra a ti, se detem ante o declive do abismo do homem? Não, prossegue invencível e admirável, penetra no invisível e no imponderável, desvanece-se para ti, plena do azul de um mundo deslumbrante, penetra entre seres que estão em volta do homem e outros que estão longe dele, os espíritos puros, anjos, formados de raios, como o homem está formado de instintos. Prossegue através dos céus sempre elevados, sobe escalando as estrelas; dos demónios desencadeados, sobe até aos seres alados, ao espírito astro como o sol arcanjo; une, estreitando milhões de léguas, os grupos de constelações com as legiões azuis; povoa o alto, as bordas e o centro, e em todas as profundezas está em Deus".

A visão cósmica que possuía sobre o homem faz-nos recordar este maravilhoso texto mediúnico: "Habitante do espaço, fénix que renasce da matéria, peregrino dos mundos nos quais deixa um ser que foi e é, conta as suas horas por períodos de vida. Guerreiro incansável, veste-se de organismo para lutar e acrescentar aos seus domínios mais verdade e ao seu poder mais luz" (i)

A primeira sessão mediúnica de Victor Hugo foi publicada por Gustavo Simón (ver o seu livro "Les tables tournantes de Jersey", editorial Louis Conard, Paris), na qual se manifestou a sua filha Leopoldina, há pouco falecida em naufrágio, e lavrou a correspondente acta o célebre poeta e dramaturgo Auguste Vacquerie. Eis o relato:

"Quando se falava das mesas girantes nós duvidávamos. Havíamos feito experiências com elas, mas sem êxito certo. Víamos, sobretudo, na atenção que em todas as partes se dedicava a estes fenómenos uma armadilha da polícia francesa para distrair o espírito público das vergonhas do governo. Assim estávamos quando Mme. de Girardin veio a  Jersey para visitar Victor Hugo. Chegou na terça-feira, 6 de setembro de 1853.

"Falou-nos das mesas. Não giravam, apenas: falavam também. Convencionava-se com elas que as batidas que dessem seriam as letras do alfabeto e que se escreveria a letra na qual se detivessem. Assim se obtinham letra por letra e palavra por palavra, frases e páginas inteiras. Vimos nisto um paradoxo do génio encantador de Mme. de Girardin.

Tanto é que, na quarta-feira, enquanto tratava de falar à mesa com Victor Hugo, na sala de jantar, nós permanecíamos no salão. A mesa não falou. Mme. de Girardin disse que o fracasso se devia à mesa ser quadrada e que precisava-mos de uma redonda. Não a tínhamos. Na quinta, ela mesma trouxe uma pequena mesa de três pés que havia comprado em Saint Hélier, num bazar de jogos. No dia seguinte, voltou a experimentar sem êxito. Eu, particularmente, acreditava tão pouco nas mesas que fui deitar-me enquanto eles se punham a experimentar. No sábado, Victor Hugo e Mme. de Girardin jantaram em casa de um senhor de Jersey, M. Gordfray. Mme. de Girardin voltou a experimentar, inutilmente. No domingo à noite eis o que aconteceu.

ACTA

"Presentes Madame de Girardin, Madame Victor Hugo, Victor Hugo, Carlos Hugo, Francisco Victor Hugo, general Le Fló, M. de Trevenueu, Auguste Vacquerie.

"Mme. de Girardin e Auguste Vacquerie põem-se à mesa, colocando a mesinha redonda em cima de uma mesa grande quadrada. Ao fim de alguns minutos a mesa estremece.

"Mme. de Girardin: Quem és? (A mesa levanta um pé e não o baixa.)

"Mme. de Girardin: Existe alguma coisa que te preocupa? Se for assim, dá uma batida, se não, duas batidas. (A mesa dá uma batida.)

"Mme. de Girardin: O quê?

"- Losango.

"(De facto, estávamos sentados formando um losango, sentados em ambos os lados de um ângulo da mesa grande.)

"(A mesa se agita, vai e vem, recusa-se a falar. Eu me separo dela. O general Le Fló ocupa o meu lugar. Na mesa, Carlos Hugo e o general Le Fló.)

"General Le Fló: Diga em que penso.

"Mme. de Girardin, ao mesmo tempo: Quem és?

"- Filha.

"(O general Le Fló não pensava na sua filha. Eu penso no meu sobrinho Ernesto e pergunto:)

"- Em que penso?

"- Morta.

"Mme. de Girardin, bastante emocionada: - Filha morta?

"Eu volto a dizer:

''- Em que penso?

"- Morta.

"(Todos pensam na filha que Victor Hugo perdera.)

"Mme. de Girardin: Quem és?

''- Ame Soror.

"(Mme. de Girardin havia perdido a irmã. A mesa disse soror em latim para dizer que era irmã de um homem?)

"General Le Fló: Carlos Hugo e eu, que estamos à mesa, perdemos uma irmã cada um. De quem és irmã?

"- Dúvida.

"General Le Fló: Teu país?

"- França.

"General Le Fló: Tua cidade?

"(Nenhuma resposta. Todos sentimos a presença da morte. Todo mundo chora.)

"Victor Hugo: És feliz?

"- Sim.

"Victor Hugo: Onde estás?

"- Luz.

"Victor Hugo: O que se deve fazer para ir a ti?

''- Amar.

"(A partir deste momento, em que todos estamos emocionados, a mesa, como se se visse compreendida, já não vacila mais. Responde imediatamente ao ser interrogada. Quando demoramos para fazer-lhe uma pergunta, agita-se para a direita e para a esquerda.)

"Mme. de Girardin: Quem te envia?

''- Bom Deus.

"Mme. de Girardin, muito emocionada: Fala tu mesma, tens algo a dizer?

"- Sofri rumo ao outro mundo.

"Eu não estava absolutamente convencido. Não é que acreditasse precisamente que Mme. de Girardin nos enganava e dava os golpes voluntariamente. Mas eu me dizia que a força do desejo e a tensão do espírito podiam dar à sua mão uma pressão involuntária.

"Fomos buscar outra mesa, sobre a qual colocamos a pequena. Mme. de Girardin e Carlos Hugo colocam-se de maneira que cortam a mesa-suporte em ângulo recto. A mesa se agita.

"General Le Fló: Diz-me em que penso.

"- Fidelidade.

"(O general Le Fló pensava na sua mulher. Eu estava algo menos convencido. Parecia-me tão engenhoso e espiritual responder 'fidelidade' a um marido que pensa na sua mulher, que atribuía a resposta a Mme. de Girardin.)

"Victor Hugo escreve uma palavra em papel e o coloca, fechado, em cima da mesa.

"Auguste Vacquerie: Podes dizer-me o nome escrito aí dentro?

"- Não.

"Victor Hugo: Por quê?

"- Papel.

"Todas as respostas começavam a nos estranhar um pouco. Para estar mais seguro que não era Mme. de Girardin quem actuava, solicito colocar-me à mesa com Carlos Hugo. Ponho-me com ele. A mesa se move. Penso em um nome e digo:

"- Qual é o nome em que penso?

"- Hugo.

"De facto, este era o nome. Neste momento comecei a crer. Fazia alguns instantes que Mme. De Girardin estava emocionada e pedia-nos que não perdêssemos tempo com perguntas pueris. Pressentia uma grande aparição, mas nós, que duvidávamos, permanecíamos a desafiar a mesa a que respondesse a palavras escritas ou pensadas.

"Mme. de Girardin: Engana-nos?

"- Sim.

"Mme. de Girardin: Por quê?

"- Absurdo.

"Mme. de Girardin: Pois bem, fala tu mesmo.

"Importuna.

"Mme. de Girardin: Quem te importuna?

"- Um só.

"Mme. de Girardin: Aponte-o.

"- Ruivo.

"De facto, o Sr. de Trévenueu, muito ruivo, era o mais incrédulo de nós.

"Mme. de Girardin: Deseja que saia?

"- Não.

"Victor Hugo: Vês o sofrimento dos que te amam?

"- Sim.

"Mme. de Girardin: Sofrerão muito tempo?

"- Não.

"Mme. de Girardin: Voltarão rápido à França?

"(Não responde.)

"Victor Hugo: Depende deles para que possam voltar?

"- Não.

"Victor Hugo: Mas, voltarás?

"- Sim.

"Victor Hugo: Breve?

"- Sim.

"(Encerrado a uma e meia da madrugada.) Nota: Tudo o que antecede foi escrito imediatamente após a sessão por Auguste Vacquerie. A partir deste dia decidimos escrever as respostas da mesa no momento em que se produziam. Todas as actas seguintes foram recolhidas durante o transcurso das próprias sessões.''

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(i) Daniel Suárez Artazu: Marietta y Estrella. Páginas de duas existências



Humberto Mariotti, Victor Hugo Espírita, A Experiência Espírita de Victor Hugo, 6º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~

O movimento pancéltico (III)

A França enviou, muitas vezes, ilustres representantes a essas assembleias. Ali compareceram, sucessivamente, os Srs. Henri Martin, Luzel, H. de la Villemarqué, de Blois, de Boisrouvray, Rio de Francheville e, mais recentemente, Le Braz, Le Goffic, etc. Em todos os lugares, as delegações francesas foram recebidas com grande honra e hospedadas em castelos ou em ricas casas burguesas. Quando elas desfilavam nas ruas das antigas cidades galesas ou na entrada das Assembleias, precedidas pelos seus tocadores de gaitas de foles, tocando a ária nacional galesa “Marcha dos homens de Harlech”, as multidões as ovacionavam. E, que contraste entre as delegações escocesas, compostas de pessoas de alta estatura, com as suas possantes gaitas de foles, e como, perto delas, as nossas gaitas de foles tinham fraca aparência!

A propósito dessa “Marcha dos homens de Harlech”, o Sr. Le Goffic lembra um facto histórico muito comovente. Na batalha de Saint-Cast, quando a armada inglesa desembarcava nas costas da Bretanha, uma companhia de fuzileiros galeses avançou ao encontro dos homens do Duque de Aiguillon, que defendiam o solo nacional. Das fileiras desses homens se elevou um canto no qual os galeses reconheceram o hino céltico e, de imediato, pararam hesitantes, admirados. O oficial inglês que os comandava interpelou-os rudemente, dizendo:

– Tendes medo?

– Não – responderam eles –, mas, pela ária que essa gente canta, reconhecemos que são homens de nossa raça. Nós também somos bretões.

A música celta, de uma melancolia penetrante, é rica e variada; os seus hinos, as suas melodias, os seus cantos populares são muito antigos e o Sr. Le Goffic foi levado a crer que os grandes compositores alemães se inspiraram nessas músicas. É certo que Haendel morou durante muito tempo na Inglaterra e conheceu as melodias populares galesas e escocesas. Certos trechos de Haydn e de Mozart se assemelham, de muito perto, às árias antigas que datam de dois ou de há três séculos passados.

Essas Assembleias, pelo seu cerimonial, podiam parecer antiquadas e suscitar zombarias de certos críticos ignorantes, mas eis o que escreveu a esse respeito uma testemunha ocular:

“Aqueles que viram, no círculo de pedras sagradas, levantar-se o arquidruida, um velho embranquecido e alto, com peitoral de oiro maciço, com a cabeça cingida de folhas de carvalho bronzeado, e que ouviram a sua oração para a multidão, inclinada e descoberta, a oração solene do Gorsedd; aqueles que prestaram atenção especialmente à emoção religiosa dessa gente e ao enorme suspiro que a sacudia, quando o arauto desenrolava a lista fúnebre dos bardos mortos, e depois ao entusiasmo que se erguia e tudo iluminava – quando esse mesmo arauto entoava a ária nacional galesa “A terra dos antepassados”, repetida em uníssono por um formidável coro de vinte mil vozes –, esses não mais sorriram do espectáculo e compreenderam a magia poderosa, a fascinação misteriosa que ele continua a exercer sobre a alma impressionável dos galeses.”

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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO I – Origem dos celtas, Guerra dos gauleses, Decadência e queda, Longa noite; o despertar, O movimento pancéltico, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: The Apotheosis of the French Heroes who Died for their Country During the War for Freedom_1802, pintura de Anne-Luis GIRODET-TRIOSON)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

teremos que modificar o nosso conceito da morte?

Estudos Científicos das Experiências de Quase Morte

A PERCEPÇÃO AMPLIFICADA DURANTE AS EQM

A paradoxal ocorrência de uma percepção muito intensamente lúcida e os processos de pensamento lógico disponíveis durante um período de circulação cerebral danificada coloca questões de especial perplexidade à compreensão actual da consciência e das suas relações com o funcionamento do cérebro.

Um elevado nível cognitivo, quer físico quer intelectual, e a complexidade de processos perceptivos durante o período de aparente morte clínica desafiam o conceito de que a consciência esteja localizada apenas no cérebro.

Parnia e outros (2001) e Parnia e Fenwick (2002) escreveram que os dados de vários estudos de EQM’s sugerem que essas experiências ocorrem com perda da consciência, o que é uma conclusão surpreendente, porque o cérebro está em estado de disfuncionalidade dado que o doente se encontra em coma profundo, as estruturas cerebrais, que sustentam a experiência subjectiva e a memória, devem encontrar-se severamente danificadas.

Experiências complexas tais como as que são descritas nas EQM não deveriam ter lugar, nem poderiam ser retidas na memória.

É de esperar que, tais doentes, não tivessem a capacidade de registar experiências subjectivas, como era o caso da grande maioria de sobreviventes a paragens cardíacas ou, na melhor das hipóteses, a estados de confusão no caso de falha de funções cerebrais.

O facto de que nas paragens cardíacas a perda de funções corticais precede a perda rápida da actividade do tronco encefálico constitui mais um reforço deste ponto de vista. Uma explicação alternativa seria de que as experiências em apreço tivessem aparecido durante a perda ou a recuperação da consciência.

A transição do estado consciente para o estado de inconsciência é rápida e afecta o sujeito de imediato. As experiências que acontecem durante a recuperação da consciência são confusas, o que não aconteceu nos casos em estudo. De facto, a memória é um indicador muito sensível de lesão cerebral e a extensão da amnésia anterior ou posterior à perda de consciência é uma indicação exacta quanto à severidade da lesão. Portanto não seria de esperar que acontecimentos sucedidos imediatamente antes ou depois da perda de consciência fossem nitidamente recordados.

A CONSCIÊNCIA NÍTIDA DURANTE A PARALISIA CEREBRAL?

Sem o aparecimento de outras teorias sobre as EQM’s, a noção assumida até aqui mas nunca provada cientificamente, de que a consciência e as memórias são produzidas por grande número de neurónios e se encontram localizadas no cérebro, deve ser colocada em discussão.

Como é possível que a consciência nítida relativa a factos ocorridos fora do corpo possa ser experimentada no momento em que o cérebro já não se encontra em funcionamento em período de morte clínica, mesmo com registo nulo de encefalograma (Sabom, 1998)?

Além disso, mesmo os doentes cegos descreveram percepções visuais durante as experiências fora do corpo durante EQM (Ring e Cooper, 1999).

O estudo científico das EQM leva ao limite as ideias médicas e neurofisiológicas acerca do alcance da consciência humana e das relações mente-cérebro.

ALGUNS ELEMENTOS DAS EQM

Antes de discutir com maior detalhe alguns aspectos neurofisiológicos do funcionamento do cérebro durante a paragem cardíaca, gostaria de reconsiderar certos elementos da EQM.

EXPERIÊNCIA FORA-DO-CORPO E MANUTENÇÃO DA IDENTIDADE

Nesta experiência as pessoas têm percepções reais de uma posição fora e por cima do seu corpo inerte.

Os protagonistas de EQM têm a sensação de terem largado o seu corpo como um casaco velho e, surpreendidos, verificam que mantém a sua própria identidade e a possibilidade preceptiva, as emoções e uma consciência nítida.

Esta experiência fora-do-corpo é cientificamente importante porque os médicos, enfermeiras e os parentes do doente podem conferir as declarações que ele relata, corroborando o preciso momento em que a EQM ou a experiência fora-do-corpo ocorreram – durante o período de ressuscitação cardiopulmonar (RCP).

Isto provará que uma tal experiência não pode ser uma alucinação, porque não ocorre com base na “realidade”, nem pode ser uma ilusão, por esta ser um juízo incorrecto de uma percepção correcta.

Teria a EQM de ser considerada uma espécie de percepção extrassensorial?

Este é o relato de uma enfermeira de uma Unidade de Cuidados Coronários (Van Lommel e outros, 2001):

“Durante um serviço nocturno chegou à Unidade de Cuidados Intensivos Coronários uma ambulância com um doente em coma, com cianose. Tinha sido encontrado num prado, há meia hora, em coma. Quando começámos a entubar o paciente reparámos que usava dentadura. Tirei-lha, tendo-a colocado no carrinho de apoio médico. Uma hora e meia depois o doente tinha recuperado o ritmo cardíaco e a pressão sanguínea, mas continuava entubado, ventilado e em estado de coma. Foi transferido para a unidade de cuidados intensivos para prosseguir em respiração artificial. Só mais de uma semana depois me encontrei novamente com o doente, agora já na enfermaria da cardiologia. No momento em que me viu disse: “Oh, aquela enfermeira sabe onde estão os meus dentes”. Fiquei surpreendidíssima e ele explicou: “Você estava lá quando eu fui trazido para o hospital, tirou-me a dentadura da boca e pô-la no carrinho com todos aqueles frascos em cima e arrumou depois os meus dentes na gaveta abaixo”.

Fiquei especialmente admirada porque me lembro de isso ter sucedido durante a altura em que ele estava em coma profundo e a ser sujeito à ressuscitação cardiorrespiratória (RCP). Parece que o doente se viu a si próprio deitado na cama e, olhando de cima, pôde observar as enfermeiras e os médicos atarefados com o processo da RCP. Também foi capaz de descrever com exactidão e pormenor a pequena sala onde fora ressuscitado e a aparência dos que ali estavam, incluindo eu mesma. Está profundamente impressionado pela experiência pela qual passou e já não tem medo da morte.”

A REVISÃO DA VIDA A TRÊS DIMENSÕES

Durante o episódio assim designado o sujeito sente presencialmente e revive, não apenas todos os actos como também todos os pensamentos da sua vida passada, analisando a interinfluência que estes operaram relativamente a si mesmo e a terceiras pessoas. Todas as acções tidas e pensamentos havidos parecem ter significado e estão devidamente memorizados.

Porque cada um dos protagonistas de EQM está ligado às memórias, emoções e dados da consciência de terceiras pessoas, por isso toma consciência dos próprios pensamentos, palavras e acções tidos para com elas no momento exacto em que ocorreram. Daqui a existência, durante a revisão de vida, de uma ligação com os campos da consciência de outras pessoas bem como com os seus próprios campos de consciência (interligação).

Os doentes analisam toda a sua vida rapidamente; o tempo e o espaço parecem não existir durante uma tal experiência. Instantaneamente encontram-se no local onde estiverem a pensar (“não localidade” – “non-locality”), e podem falar durante horas acerca do conteúdo da revisão de vida muito embora a ressuscitação possa ter durado apenas minutos. (Van Lommel, 2004).

Toda a minha vida até ao presente se me deparou numa revisão como que panorâmica, a três dimensões, e cada evento foi acompanhado pela consciência do bem e do mal ou com uma análise de causa e efeito. Não somente me foi dado entender o meu ponto de vista, mas também o sentir de todas as outras pessoas envolvidas, como se tivesse dentro de mim todos os seus pensamentos. Isto significa que entendi não apenas o que tinha feito e pensado, mas também de que modo tinha influenciado outros, como se me fosse dada visão em todas as direcções. Deste modo nem os vossos pensamentos são apagados. E sempre, durante toda a revisão, foi acentuada a importância do amor. Recapitulando, não sei qual foi a duração dessa revisão e da análise de vida, que pode ter sido longa dado que tudo foi mostrado, mas ao mesmo tempo parece ter durado apenas uma fracção de segundo, dado que vivenciei tudo no mesmo momento. O tempo e o espaço parece não terem existido. Tudo se passava em todos os lugares e ao mesmo tempo, e por vezes a minha atenção era chamada para qualquer coisa, e lá estava eu presente.

ENCONTROS COM PARENTES FALECIDOS; TRANSMISSÃO DE PENSAMENTO; PREVISÕES; INTERLIGAÇÃO

Se houver encontros numa dimensão de outro mundo com parentes falecidos, eles são reconhecíveis pela sua aparência, sendo a comunicação feita por transmissões de pensamento. Também pode ser experimentada uma previsão, na qual tanto futuras imagens da vida pessoal como imagens mais gerais do futuro podem ocorrer.

De novo é como se o tempo e o espaço não existissem durante a previsão. Assim, durante as EQM também é possível efectuar contactos com os campos de consciência de parentes falecidos (interligação).

Por vezes são encontradas pessoas cuja morte era impossível ter-se conhecido; Algumas vezes pessoas desconhecidas são encontradas durante a EQM.

REGRESSO AO CORPO

Alguns doentes conseguem descrever como regressaram ao seu corpo, a maior parte pelo topo da cabeça, depois de terem sido informados “que não era ainda a sua altura” ou que “tinham ainda tarefas por cumprir”. O regresso consciente ao corpo é sentido como algo muito opressivo. Recuperam os sentidos dentro do seu corpo e é como se se sentissem “aprisionados” no seu corpo danificado, significando isso toda a dor e as restrições da sua enfermidade.

TRANSFORMAÇÕES DA PERSONALIDADE CAUSADAS PELA EQM

Praticamente a totalidade das pessoas que tiveram uma EQM perderam o medo da morte. Isso deve-se à convicção de que há uma continuidade para a consciência, que retém todos os pensamentos e factos vividos, mesmo quando se é considerado morto por quem está a ver ou mesmo por médicos. Você está separado do corpo sem vida, mantendo a sua identidade e a clara consciência com dotes perceptivos. Parece mesmo que somos mais do que apenas um corpo.

Todos estes elementos da EQM foram apercebidos durante o período de paragem cardíaca, durante o período de inconsciência aparente, durante o período de morte clínica!

Como é que será possível explicar todas estas vivências durante o período de perda temporária de todas as funções do cérebro devido a isquémia pancerebral?

Sabemos que as vítimas de paragem cardíaca perdem a consciência ao fim de segundos. Como é que sabemos se o seu eletrencefalograma é plano, e como poderemos estudar tal coisa?

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Dr. Pim van Lommel, As Experiências de Quase-Morte, A Consciência e o Cérebro Estudos Científicos das Experiências de Quase Morte; A Percepção Amplificada durante As EQM, A Consciência Nítida durante a Parelisia Cerebral? Alguns Elementos das EQM; Experiência Fora do-Corpo e Manutenção da Identidade, A Revisão da Vida a Três Dimensões, Encontros com Parentes Falecidos; Transmissão de Pensamento; Previsões; Interligações, Regresso ao Corpo, Transformações da Personalidade Causadas Pela EQM (3º fragmento) tradução para a língua portuguesa de palavra luz depois de autorizada pelo autor.
(imagem de contextualização: O Hospital Rijnstate, em Arnhem – Holanda)

sábado, 27 de junho de 2015

o sentido da vida ~

Cérebro | e Espírito

Não está totalmente errada a ciência moderna, ao considerar o homem sob o aspecto monista definido por Espinosa, O Espiritismo, na sua função de síntese dos conhecimentos humanos, abre largas perspectivas novas ao pensamento do século, permitindo sobretudo o esclarecimento de velhas questões e velhas rixas, que pareciam para sempre insolúveis. Assim, enquanto os defensores da biologia moderna acham intransponível o abismo que separa o dualismo de Descartes do monismo de Espinosa, o Espiritismo entende que tudo não passa de simples jogo de palavras, facilmente desfeito à luz dos seus princípios. De facto, se o biólogo afirma que o corpo e espírito são um todo único, e o teólogo responde que, pelo contrário, o espírito é independente do corpo, o Espiritismo não tem dificuldades em conciliar essas aparentes contradições, lembrando que, segundo um princípio de fisiologia, cada coisa pode mostrar-nos, de um ângulo diverso, uma diversa aparência. Nem por isso, entretanto, a realidade deixa de ser uma só.

O biólogo diz que o corpo e o espírito formam uma unidade indissolúvel e que não pode entender outra coisa. Do seu ponto de vista, ele está certo. Entramos aí no terreno da relatividade e precisamos compreender que a verdade do biólogo é relativa. Ele só estudou e conhece os processos vitais de natureza orgânica. Para ele, o espírito é o cérebro ou um simples complexo de funções vitais do córtex cerebral. As crianças prodígio romperam há muito a velha teoria do paralelismo psicofisiológico, mas o biólogo encontrou uma porta de escape nas curvas surpreendentes da hereditariedade. Ele é um homem que joga com dados materiais e que está firmemente disposto a negar qualquer possibilidade de fuga à realidade, para a explicação dos problemas que tem diante dos olhos. Para ele, a independência do espírito seria a negação de todo o seu aprendizado, tão laboriosamente efectuado até agora. A sua reacção é quase orgânica, instintiva, contra a ameaça dessa nova teoria.

Para o teólogo, o problema se apresenta da mesma maneira, mas de ângulo oposto. Enquanto o biólogo olha o indivíduo humano de baixo para cima, o teólogo o vê de cima para baixo. Ele não pode dizer a mesma coisa que diz aquele, nem pode concordar com a descrição que aquele lhe faz, de um fenómeno que ele “sabe” ser de outra maneira. A conciliação entre os dois é absolutamente impossível, enquanto não se conseguir arredar o biólogo e o teólogo dos seus respectivos lugares, para juntá-los num outro, que poderíamos considerar o interior do fenómeno. Só então eles poderiam verificar, directamente, que muitos dos seus dados estavam errados, sofrendo de um desvio de visão, embora muitos outros continuassem certos.

O Espiritismo realiza precisamente esse milagre. Não endossando o ponto de vista do biólogo, nem aceitando a posição do teólogo, ele se coloca em outro ângulo e consegue chegar à equação que parecia impossível. Pois, de facto, o corpo e o espírito são uma e a mesma coisa, desde o momento em que se verificou o fenómeno da encarnação, desde o instante em que eles se fundiram, para a experiência da vida terrena. Quando, porém, um novo processo se verifica – o da morte –, eles deixam de constituir a unidade transitória do indivíduo biológico, voltando cada qual à sua independência natural.

O apego dos biologistas à tese monista faz-nos lembrar o perigo de certas ilusões científicas que chegaram a durar séculos. Poderíamos citar, a propósito, a velha teoria geocêntrica ou a da invisibilidade atómica. Temos, assim, uma ilusão antiga e outra moderna. Mas comentemos um pouco mais a primeira, que serve admiravelmente aos nossos desígnios. Durante séculos, os homens de apegaram à ideia de que a Terra era o centro do Universo. Ainda hoje, são inúmeros os que defendem a tese da habitabilidade exclusiva do nosso pequeno planeta, negando a possibilidade da existência humana em outros corpos celestes. Mas o progresso dos conhecimentos levou a ciência a não mais admitir o geocentrismo, que é hoje uma teoria de museu.

No tocante ao problema do corpo e espírito, acontece coisa semelhante. Os homens continuam esposando uma teoria que poderíamos chamar, por analogia, de organocêntrica. Para eles, só há vida em organismos materiais, a possibilidade vital está centralizada nas chamadas formas vivas. Fora dessas formas, a vida é absolutamente impossível. Entretanto há factos que atestam o contrário. E não está longe o dia em que esses factos se imporão ao raciocínio científico, descentralizando-o dos chamados organismos vivos, a manifestação do fenómeno vital. As mesas giram, dizia Kardec. E as mesas aí estão, juntamente com a causa que as faz girar...

No livro A nossa vida mental, da série A ciência da vida, de H. G. Wells, Julian Huxley e G. P. Wells, encontramos um interessante capítulo sobre a questão espírita. Os autores colocam-se no ponto de vista materialista e, condenando aimaginosa explicação espírita dos fenómenos, que não negam, chegam por sua vez a imaginar explicações, negativas as mais curiosas, e a fazer afirmações nitidamente anticientíficas. Uma delas é a de que as materializações dos primeiros tempos do Espiritismo eram românticas, como a focalizada num célebre quadro de Tissot, e as de hoje são informes e rígidas. A fotografia informe que o livro estampa é uma das mais belas conquistas da fotografia psíquica, pertencente ao acervo dos trabalhos de Schrenck Notzing e Madame Bisson. Mostra uma cabeça materializada em processo de elaboração, o que é altamente significativo. Isso demonstra, sobretudo, que o fenómeno pode ser observado nas suas diferentes fases. Mas os materialistas não entenderam assim e inventaram que agora só obtemos figuras hediondas e abomináveis. Foi, sem dúvida, uma conclusão apressada. Mesmo porque, a fotografia pertence aos primórdios do Espiritismo científico, não é de hoje. E todos nós, que lidamos com os fenómenos espíritas, sabemos de materializações tão “românticas” quanto as de Tissot, assistidas no presente.

Outras conclusões interessantes desse livro referem-se às comunicações psicográficas. Segundo os autores, tais comunicações são desinteressantes e fúteis. Citam mesmo o caso de Raymond, de sir Oliver Lodge, frisando a diferença existente entre as cartas de jovem soldado e as suas comunicações. Não parece evidente que a avaliação de interesse pode variar de pessoa para pessoa, e que as diferenças notadas devem corresponder à diferença de vida neste plano e no outro? Mas os autores fazem questão de manter o seu ponto de vista materialista, e para isso chegam a dizer que as descrições do outro lado, feitas pelos espíritos, variam ao infinito, sendo incompatíveis umas com as outras, a tal ponto, que reciprocamente se destroem. Ora, todos os que já estudaram o assunto sabem que as coisas se passam de maneira exactamente contrária.

As descrições de Raymond, por exemplo, coincidem com as obtidas por Ochorowicz, as anotadas por Denis Bradley, as espontaneamente dadas por numerosos espíritos ao doutor Carl A.Wikland, em Los Angeles, ao doutor Oscar Parkes, em Londres, com as descrições feitas, aos milhares, nas sessões espíritas de vários países, os relatos publicados pela Revue Spirite, de Kardec, ao registado pela Society for Psychical Research, de Londres, e por último com as comunicações recebidas no Brasil pelo médium Chico Xavier. Poderíamos esgotar várias páginas de citações. Justamente o que mais impressiona, em tais casos, é a identidade, a confirmação de aspectos de um relato por outro, em lugares, épocas e através de médiuns diversos.

Só mesmo o desejo de negar a evidência, ou de pelo menos confundi-la, pode levar os nossos homens de ciência e de letras a tais atitudes. Mas quem quiser, por cima dos informantes suspeitos, verificar o que de real se passa no terreno das informações espíritas sobre o outro lado da vida, por certo há de ver que elas coincidem tão bem como as impressões de vários viajantes sobre um mesmo país estrangeiro.

É pena que os defensores extremados do “milagre” do córtex cerebral não tenham compreendido que as suas teorias sobre a imortalidade da espécie e sobre um outro aspecto perceptivo da matéria são muito mais complicadas e altamente improváveis do que a tantas vezes comprovada imortalidade pessoal.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Cérebro e Espírito, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Giovanna ~

IV
Maurice, nas suas caminhadas vagabundas, havia reencontrado várias vezes Luísa, a velha ama de leite. Tendo sabido conquistar a sua amizade, adquiriu a certeza de que seria bem acolhido na vila Esperança, e ali se apresentou um dia. Quem tivesse encontrado o advogado misantropo teria podido perceber, com surpresa, a emoção que ele sentia. O que planeava iria destruir ou realizar as suas esperanças? Ele foi muito bem recebido pela tia de Giovanna que, enfraquecida pela idade e pela doença, sentia chegado o momento de dar um suporte natural, um esposo, a sua sobrinha. Ela, autorizou Maurice a renovar as suas visitas, o que ele fez com frequência. Começaram então, para os jovens, as prolongadas conversas, as conversas familiares, sobre o terraço dominando o lago, durante as quais as suas almas se expandiam em mútuas confidências. Maurice contava a sua vida, a sua triste vida de criança privada de mãe, depois as decepções, os receios de sua juventude. Abria, como se o rasgasse, o seu coração a Giovanna. Ela consolava-o, confiava-lhe os seus sonhos, sonhos ainda cândidos, ainda puros como os de um anjo. E esses dois seres, aproximando-se mais e mais, aprendiam a se amar, mil laços secretos se formavam, os enlaçavam, os uniam em estreitas e poderosas malhas.

O dia em que, segundo os costumes da alta Itália, o noivado devia ser celebrado, foi logo fixado, e tudo foi preparado para esta festa íntima, na qual dois ou três velhos amigos deviam tomar parte. Na véspera desse dia, Maurice sobe ainda cedo à vila. Após a refeição da noite, os dois se dirigem para o terraço, de onde os seus olhares podiam estender-se sobre um mágico horizonte. Sentam-se em silêncio debaixo de um pomar de laranjeiras. Luísa se mantinha um pouco afastada.

A noite avança lentamente; estende sobre o lago o seu véu azulado, derramando um colorido uniforme sobre os campos de oliveiras, as vinhas, os bosques de castanheiros, as vilas e as aldeias. Enquanto que a sombra se adensava nos vales, os cumes das colinas, avermelhados pela púrpura do poente, pareciam-se bastante ao fogo de um incêndio. A noite subia aos poucos; as suas sombras arrastadas estendiam-se sobre as colinas; as luzes inumeráveis resplendiam nas janelas das vilas e das cabanas. As trevas envolviam inteiramente o lago e o seu conjunto de montanhas, mas, para Norte, as luzes do dia morrendo coloriam ainda de cores fantásticas o colosso dos Alpes. Como uma armada de gigantes dispostos em batalha, a Bernina, a Sella, o Monte-d'Oro, a Disgrazia, e vinte outros picos, apontavam para o céu os seus cimos orgulhosos, coroados de neve, sobre os quais o sol, antes de desaparecer no ocidente, lançava os seus raios fraccionados.

Em vão, a noite procurava apagá-los, eles lutavam com ela. Mas o seu véu passa enfim sobre essas frontes soberbas. As últimas luminosidades se extinguiram. A noite triunfava; só, iria reinar até à aurora.

Nesse momento, um concerto argentino se eleva nos ares. Em todas as aldeias, os sinos tilintavam. Era o Ângelus, a prece do entardecer, o sinal que evoca entre todos, os pescadores do lago, os lenhadores da floresta, os pastores da montanha, o pensamento de Deus. Giovanna e Maurice, sonhadores, recolhidos, observavam esse majestoso espectáculo; escutavam o som melancólico dos sinos, seguiam com o olhar as belas estrelas de ouro emergindo das profundezas do céu para subir lentamente, em legiões cerradas, para zénite. A poesia dessa noite preenchia as suas almas; as suas bocas estavam mudas, mas os seus corações se confundiam num enlevo profundo. Maurice rompeu o silêncio primeiro.

- Giovanna, disse ele, você pensa, às vezes, nessas esferas luminosas que se movem no espaço? Já se perguntou se são, como a nossa terra, mundos de sofrimento, habitados por seres materiais e atrasados, ou se almas mais perfeitas aí vivem no amor, na felicidade?

- Bem às vezes, respondeu ela, tenho visitado esses mundos. Protectores, amigos invisíveis, me levam quase todas as noites para essas regiões celestes. Com dificuldade tenho visto, que um grupo de espíritos, de longas vestes flutuantes, de fronte brilhante, me cercam, me chamam. Vejo a minha própria alma que, semelhante à deles, se liberta de meu corpo e os segue. Rápido como o pensamento, atravessamos os espaços imensos, povoados de uma multidão de espíritos; por toda a parte oceanos de vida desdobram as suas perspectivas sem limites. Por toda a parte retinem os cantos harmoniosos, de uma suavidade desconhecida na Terra. Percorremos esses arquipélagos estelares, essas esferas longínquas, bem diferentes de nosso globo. Em lugar de uma matéria compacta e pesada, muitos dentre eles são formados de fluidos leves, de brilhantes cores. Enquanto que os hóspedes da terra se arrastam penosamente na superfície do planeta, os habitantes desses mundos, de corpos subtis, aéreos, elevam-se facilmente, planam no espaço ambiente. Eles agem sobre esses fluidos leves e coloridos que compõem o centro de suas esferas; lhes dão mil formas, mil aspectos diversos.

Assim são os palácios admiráveis, colónias deslumbrantes, com inumeráveis pórticos, templos com abóbadas gigantescas, ornados de estátuas, de pilastras de gás, e cujas muralhas transparentes permitem entrever o seu interior. De todas as partes se erguem construções prodigiosas, abrigos da ciência e das artes, bibliotecas, museus, escolas, exposições, sempre invadidas pelas multidões. O ensinamento aí é dado sob a forma de quadros luminosos e cambiantes. A linguagem é uma espécie de música.

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Léon Denis, Giovanna_1880, IV (I de II) 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Retrato, pequena pintura que especialistas de arte italiana atribuem a Rafael Sanzio)