sexta-feira, 23 de junho de 2023

o grande enigma ~


Solidariedade comunhão universal 
(III)

Nas Almas evolvidas, o sentimento da solidariedade torna-se bastante intenso para se transformar em comunhão perpétua com todos os seres e com Deus. 

A Alma pura comunga com a Natureza inteira; inebria-se nos esplendores da Criação infinita. Tudo – os astros do céu, as flores do prado, a canção do regato, a variedade das paisagens terrestres, os horizontes fugitivos do mar, a serenidade dos espaços – tudo lhe fala uma linguagem harmoniosa. Em todas essas coisas visíveis, a Alma atenta descobre a manifestação do pensamento invisível que cobre o Cosmos. Este reveste para ela um aspecto encantador. Torna-se o teatro da vida e da comunhão universais, comunhão dos seres uns com os outros e de todos os seres com Deus, seu pai. 

Não há distância entre as Almas que se amam, porque se comunicam através da extensão. 

O Universo é animado de vida potente: vibra qual uma harpa sob a acção divina. As irradiações do pensamento o percorrem em todos os sentidos e transmitem mensagens de Espírito a Espírito, através do Espaço. Esse Universo que Deus povoou de Inteligências, a fim de que o conheçam e o amem e cumpram a sua Lei, Ele o enche de sua presença, ilumina-o com a sua luz, aquece-o com o seu amor. 

A prece é a expressão mais alta dessa comunhão das Almas. Considerada sob este aspecto, ela perde toda a analogia com as fórmulas banais, os recitativos monótonos em uso, para se tornar um transporte do coração, um acto da vontade, pelo qual o Espírito se desliga das servidões da Matéria, das vulgaridades terrestres, para perscrutar as leis, os mistérios do poder infinito e a ele submeter-se em todas as coisas: “Pedi e recebereis!” Tomada neste sentido, a prece é o acto mais importante da vida; é a aspiração ardente do ser humano que sente a sua pequenez e a sua miséria e procura, pelo menos por um instante, pôr as vibrações do seu pensamento em harmonia com a sinfonia eterna. É a obra da meditação que, no recolhimento e no silêncio, eleva a Alma até essas alturas celestes, onde aumenta as suas forças, onde a impregna das irradiações da luz e do amor divinos. Mas quão poucos sabem orar! As religiões nos fizeram desaprender a prece, transformando-a em exercício ocioso, às vezes ridículo. 

Sob a influência do Novo Espiritualismo, a prece tornar-se-á mais nobre e mais digna; será feita com mais respeito ao Poder Supremo, com maior fé, confiança e sinceridade, em completo destaque das coisas materiais. Todas as nossas ansiedades e incertezas cessarão quando tivermos compreendido que a vida é a comunhão universal e que Deus e todos os seus filhos vivem, em conjunto, essa vida. 

Então, a prece tornar-se-á a linguagem de todos, a irradiação da Alma que, nos seus transportes, agita o dinamismo espiritual e divino. Os seus benefícios se estenderão por todos os seres e particularmente por aqueles que sofrem, pelos ignorados da Terra e do Espaço. 

Ela chegará àqueles em quem ninguém pensa, que jazem na sombra, na tristeza e no esquecimento, diante de um passado acusador. Ela originará neles inspirações novas, fortificar-lhes-á o coração e o pensamento – porque não tem limites a acção da prece, assim como as forças e os poderes que ela pode pôr em elaboração para o bem dos outros. 

A prece, em verdade, nada pode mudar às leis imutáveis; ela não poderia, de maneira alguma, mudar os nossos destinos; o seu papel é proporcionar-nos socorros e luzes que nos tornem mais fácil o cumprimento da nossa tarefa terrestre. A prece fervente abre, de par em par, as portas da Alma e, por essas aberturas, os raios de força, as irradiações do foco eterno nos penetram e nos vivificam. 

Trabalhar com sentimento elevado, visando a um fim útil e generoso é, ainda, orar. O trabalho é a prece activa desses milhões de homens que lutam e penam na Terra, em benefício da Humanidade. 

A vida do homem de bem é uma prece contínua, uma comunhão perpétua com os seus semelhantes e com Deus. Ele já não tem necessidade de palavras, nem de formas exteriores para exprimir a sua fé: ela se exprime por todos os seus actos e por todos os seus pensamentos. Ele respira e se agita sem esforço numa atmosfera fluídica cheia de ternura pelos desgraçados, cheia de boa-vontade por toda a Humanidade. Essa comunhão constante se torna uma necessidade, uma segunda natureza. É graças a ela que todos os Espíritos de eleição se mantêm nas alturas sublimes da inspiração e do génio. 

Os que vivem no organismo e na materialidade e, cuja compreensão não está aberta às influências do Alto, esses não podem saber que impressões inefáveis faculta essa comunhão da Alma com o Espírito Divino. 

Todos aqueles que, vendo a espécie humana deslizar sobre os declives da decadência moral, procuram os meios de sustar a sua queda, devem esforçar-se por tornar uma realidade essa união estreita de nossas vontades com a vontade suprema! Não há ascensão possível, encaminhamento para o Bem, se, de tempos a tempos, o homem não se volta para o seu Criador e Pai, a fim de lhe expor as suas fraquezas, as suas incertezas, as suas misérias, para lhe pedir os socorros espirituais indispensáveis à sua elevação. E quanto mais essa confissão, essa comunhão íntima com Deus for frequente, sincera, profunda, mais a Alma se purifica e emenda. Sob o olhar de Deus, ela examina, expande as suas intenções, os seus sentimentos, os seus desejos; passa em revista todos os seus actos e, com essa intuição, que lhe vem do Alto, julga o que é bom ou mau, o que deve destruir ou cultivar. Ela compreende, então, que tudo quanto há de mal vem do eu e deve ser abatido para dar lugar à abnegação, ao altruísmo; que, no sacrifício de si mesmo, o ser encontra o mais poderoso meio de elevação, porque, quanto mais ele se dá, mais se engrandece. Deste sacrifício faz a lei de sua vida, lei que imprime no mais profundo do seu ser, em traços de luz, a fim de que todas as acções sejam marcadas com o seu cunho. 

De pé sobre a Terra, meu sustentáculo, minha nutriz e minha mãe, elevo os meus olhares para o Infinito, sinto-me envolvido na imensa comunhão da vida; os eflúvios da Alma universal me penetram e fazem vibrar o meu pensamento e o meu coração; forças poderosas me sustentam, aviventam em mim a existência. Por toda a parte onde a minha vista se estende, por toda a parte a que a minha inteligência se transporta, vejo, discirno, contemplo a grande harmonia que rege os seres e, por vias diversas, os faz rumar para um fim único e sublime. Por toda a parte vejo irradiar a Bondade, o Amor, a Justiça! 

Ó meu Deus! Ó meu Pai! Fonte de toda a sabedoria, de todo o amor, Espírito Supremo cujo nome é Luz, eu te ofereço os meus louvores e as minhas aspirações! Que elas subam a ti, qual um perfume de flores, qual sobem para o céu os odores inebriantes dos bosques. Ajuda-me a avançar na senda sagrada do conhecimento, para uma compreensão mais alta das tuas leis, a fim de que se desenvolva em mim mais simpatia, mais amor pela grande família humana; pois sei que, pelo meu aperfeiçoamento moral, pela realização, pela aplicação activa em torno de mim e em proveito de todos, da caridade e da bondade, aproximar-me-ei de ti e, merecerei conhecer-te melhor, comungar mais intimamente contigo na grande harmonia dos seres e das coisas. Ajuda-me a desprender-me da vida material, a compreender, a sentir o que é a vida superior, a vida infinita. Dissipa a obscuridade que me envolve; depõe na minha alma uma centelha desse fogo divino que aquece e abrasa os Espíritos das esferas celestes. Que a tua doce luz e, com ela, os sentimentos de concórdia e de paz se derramem sobre todos os seres! 

/… 


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, III Solidariedade | comunhão universal (3 de 3), 13º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali

domingo, 18 de junho de 2023

Saberes e o tempo ~


Estudo sobre os fluidos ~~ 

É tão importante a demonstração da existência dos fluidos, para a compreensão dos fenómenos espirituais, que devemos examinar esse problema sob todos os seus aspectos. A experiência espírita há demonstrado que a alma se encontra revestida de um envoltório material, mas invisível e intangível no estado normal e, que se move num meio físico que carece de peso. Urge, pois, apresentemos todas as razões que tendem a provar o facto capital da existência de um mundo imponderável, porém tão real como o em que vivemos. 

Acreditava-se, outrora, que a luz, a electricidade, o calor, o magnetismo, etc., eram substâncias inteiramente distintas umas das outras, dotadas de natureza própria, especial, que as diferençavam completamente. As pesquisas contemporâneas demonstraram falsa tal concepção. 

Nas primeiras idades da ciência, não só parecia que as forças eram separadas, mas também que o número delas se multiplicava ao infinito. Considerava-se cada fenómeno como a manifestação de uma certa força. Entretanto, pouco a pouco se reconheceu que efeitos diferentes podem derivar de uma causa única. Desde então, diminuiu consideravelmente o número das forças, cuja existência se admitia. Newton identificou a gravidade e a atracção, reconhecendo na queda da maçã e na manutenção do astro em sua órbita, efeitos de uma mesma causa: a gravitação universal. Ampère demonstrou que o magnetismo é apenas uma forma da electricidade. A luz e o calor, desde longo tempo, são tidos como manifestações de uma mesma causa: um movimento vibratório extremamente rápido do éter. 

Nos dias actuais, uma grandiosa concepção veio mudar de novo a face à ciência: a de que todas as forças da Natureza se reduzem a uma só. A energia ou a força (são sinónimos os dois termos) pode assumir todas as aparências, sendo, alternativamente, calor, trabalho mecânico, electricidade, luz e dar origem às combinações e decomposições químicas. Às vezes, a força como que se encontra oculta ou destruída. Simples aparência. Pode-se sempre encontrá-la novamente e fazê-la passar de novo pelo ciclo de suas transformações. 

Inseparável da matéria, a força é indestrutível, fazendo-se mister que à energia se aplique este princípio: na Natureza, nada se perde, nem se cria. 

É tão verdade isto, que, quando um movimento sofre brusca interrupção, imediatamente uma coisa nova aparece: é o calor. Assim, um pedaço de chumbo, colocado na bigorna, se aquecerá violentamente sob os golpes do martelo do ferreiro; uma bala de artilharia, batendo num alvo de ferro, poderá chegar à temperatura do rubro; as rodas de um comboio em marcha despedem centelhas, quando se accionam subitamente os freios. Se o movimento da Terra em torno do Sol cessasse instantaneamente, diz Helmholtz que a quantidade de calor gerado por esse facto seria tal, que faria passar ao estado de vapor toda a massa terrestre. 

Temos, portanto, que calor e movimento são duas formas equivalentes da energia, formas que mutuamente se substituem, tornando-se visível uma, quando a outra desaparece. Determinou-se exactamente a que quantidade de calor corresponde uma certa quantidade de movimento, medida a que se dá o nome de equivalente mecânico do calor

Torna-se então fácil de compreender que aquecer um corpo é aumentar-lhe o movimento interno, isto é, o das suas moléculas. Sabemos que, desde o átomo invisível até o corpo celeste perdido no espaço, tudo se encontra sujeito ao movimento. Tudo gravita numa órbita imensa ou infinitamente pequena. Mantidas a uma distância definida umas das outras, em virtude do próprio movimento que as anima, as moléculas guardam entre si relações constantes, que só se alteram pela adição ou subtracção de certa quantidade de movimento. Em geral, a aceleração do movimento das moléculas aumenta-lhes as órbitas e afasta-as umas das outras, ou, por outras palavras, aumenta o volume dos corpos. É justamente por isso que o calor se apresenta como fonte de movimento

Sob sua influência, as moléculas, afastando-se cada vez mais, fazem que os corpos passem do estado sólido ao líquido, em seguida ao de gás. Os gases, a seu turno, se dilatam indefinidamente, pela adição de novas quantidades de calor, isto é – de movimento – e, se se criar embaraço a essa expansão, ele exercerá considerável pressão sobre as paredes do vaso que o contenha. É assim que as moléculas dos gases ou dos vapores, em cativeiro nos cilindros das locomotivas, transmitem ao êmbolo a força que se emprega para produzir a tracção dos comboios, isto é, trabalho mecânico

Quando, pois, os movimentos moleculares de um corpo se mostrem agrupados de maneira a apresentar, uns com relações aos outros, centros fixos de orientação, diremos que esse corpo é sólido; 

Quando os movimentos moleculares de um corpo estejam agrupados de maneira que os centros desses grupos sejam móveis, uns com relação aos outros, o corpo é líquido; 

Quando as moléculas de um corpo se movem em todos os sentidos e colidem umas com as outras milhões de vezes por segundo, o corpo é chamado gás. (i) 

Convém notar que, à proporção que a matéria passa do estado sólido ao estado líquido, o volume aumenta; depois, do estado líquido ao gasoso, a dilatação do mesmo peso de matéria se torna ainda maior, de sorte que a matéria se rarefaz, ao mesmo tempo em que o movimento molecular se pronuncia. Um litro d’água, por exemplo, dá 1.700 litros de vapor, isto é, ocupa um volume 1.700 vezes superior ao que tinha no estado líquido; nessas condições, as atracções mútuas entre as moléculas diminuem e o movimento oscilatório das mesmas moléculas se torna mais rápido. 

Com efeito, segundo cálculos de probabilidades, (ii) os sábios chegaram a admitir que se pode considerar constante a velocidade média das moléculas para um mesmo gás, qualquer que seja a direcção do caminho percorrido. O valor dessa velocidade média, por segundo, à temperatura do gelo em fusão, isto é, a 0º e, à pressão barométrica de 760 mm, é de: 

461      metros para as moléculas do oxigénio; 
485      para as do ar; 
492      para as do azoto;
1.848   para as do hidrogénio. 

Tais velocidades são comparáveis à de um projéctil à saída de uma arma de grande alcance. A velocidade das moléculas é tanto maior, quanto mais leve é o gás, isto é, quanto menos matéria contém na unidade de volume. Logo, se num tubo fechado se fizer o vácuo tão perfeito quanto possível e se obrigarem as moléculas restantes a mover-se em linha recta, por meio da electricidade, obter-se-á o estado radiante que Crookes descobriu. 

Como muito se fala desse estado especial, expliquemos claramente em que ele consiste. 

Sabemos que os gases se compõem de um número indefinido de particulazinhas em incessante movimento e animadas, conforme a sua natureza, de velocidades de todas as grandezas. 

 Sabemos igualmente que, em consequência do número imenso, essas partículas não podem mover-se em nenhuma direcção, sem se chocarem, quase imediatamente, com outras partículas. 

Que se dará se, de um vaso fechado, se retirar grande parte do gás ali encerrado? É claro que, quanto mais diminuir o número das moléculas do gás, tanto menos oportunidade terão as que restarem de chocar-se umas com as outras. Pode-se, pois, induzir que, num vaso fechado, onde se faça cada vez maior vazio, crescerá a distância que qualquer molécula poderá percorrer, sem se chocar com outras. Teoricamente, o comprimento do percurso livre, isto é, o comprimento da distância que uma molécula qualquer poderá percorrer, sem colidir com outra, estará na razão inversa das moléculas restantes, ou, o que vem a dar no mesmo, na razão directa do vácuo produzido. 

Como, no estado gasoso ordinário, as moléculas se encontram em colisão contínua umas com as outras; como essa colisão contínua é precisamente o que determina as propriedades físicas do gás, segue-se que, se as moléculas percorrem espaços maiores sem se chocarem, dessa diferença na maneira de se comportarem, hão de decorrer propriedades físicas diferentes e, por conseguinte, um estado novo para a matériaO quarto estado será tão distante do estado gasoso, quanto este o é do estado líquido. Foi o que Crookes experimentalmente demonstrou. 

Aqui se acusa nitidamente a lei que assinalamos, segundo a qual quanto mais rarefeita é a matéria, tanto mais rápido é o movimento molecular. É tal a velocidade destas últimas partículas da matéria, que os metais mais refractários, submetidos ao bombardeamento das moléculas, não tardam a tornar-se rubros e mesmo a fundir-se, se a acção for suficientemente prolongada. Nesse estado, a matéria, se bem que excessivamente rara, ainda tem um peso apreciável, não por meio da balança, mas por meio do raciocínio. O vácuo produzido é tal, que, se supusermos a pressão barométrica ordinária, representada por uma coluna de mercúrio da altura de 4.800 metros, a pressão da matéria radiante não poderá equilibrar mais de um quarto de milímetro de mercúrio! Ela ainda tem peso, o que explica que conserva as suas propriedades químicas, porquanto não há dissociação. 

Mas, se acompanharmos a ciência nas suas induções, ser-nos-á possível conceber um estado em que a matéria se ache tão rarefeita que o seu movimento molecular a liberte da atracção terrestre. É o éter dos físicos que primeiro realiza essa concepção. Para serem compreensíveis os diversos aspectos da energia, imaginou-se o Universo cheio de uma substância imponderável, perfeitamente elástica, a qual, graças à sua subtileza, penetraria todos os corpos. Conforme vibre mais ou menos rapidamente, essa matéria dá lugar aos fenómenos que para nós se traduzem em sensações de calor, sendo as mais lentas as vibrações; de electricidade, se forem as mais rápidas; de raios obscuros, se for actividade química; finalmente, às vibrações excessivamente rápidas da luz visível e invisível. 

Será aí, porém, o limite extremo que não se possa ultrapassar nas pesquisas? Não, pois sabemos, pelas experiências espíritas, que os Espíritos possuem corpos fluídicos, que nenhuma das formas da energia pode influenciar. Nem os frios intensos dos espaços interplanetários, que chegam a 273 graus abaixo de zero, nem a temperatura de muitos milhares de graus dos sóis quaisquer influências exercem sobre a matéria perispirítica. É que esse invólucro da alma procede do fluido cósmico universal, isto é, da substância na sua forma primitiva. Nenhuma mudança poderá atingi-la; ela, na sua essência, é imutável. Não se encontra sujeita às decomposições, por não poder simplificar-se, uma vez que se encontra no estado inicial, último tempo a que hão de fatalmente ir ter todas as mutações. Mesclam mais ou menos o perispírito os fluidos do planeta a que o Espírito se encontra ligado. O trabalho da alma consiste justamente em desembaraçar o seu corpo fluídico de todas as escórias que se lhe agregaram, desde a origem da sua evolução. 

Entre esse estado perfeito – em que o mínimo de matéria é animado do máximo de força viva – e o estado sólido a 273° – em que o máximo de matéria contém o mínimo de movimentos vibratórios – há uma infinidade de graus que formam a escala de todas as modalidades possíveis da matéria. Estamos, pois, cientificamente autorizados a dizer que os fluidos não são simples criações da imaginação; que eles correspondem, no mundo físico, a realidades positivas, a estados ainda não descobertos, mas que a matéria radiante, os raios X, o fluido que impressiona as chapas fotográficas e o éter nos animam a conceber como existentes de facto. Não é de duvidar-se que pesquisas ulteriores farão se descubram mais tarde essas modificações tão variadas dos estados da substância primitiva, à medida que se aperfeiçoem os nossos meios de investigação e que a ciência voltar os seus olhos para o invisível e para o imaterial, em vez de se acantonar por sistema no domínio grosseiramente tangível e cujo território é tão limitado. 

Aliás, a força da evolução obriga fatalmente os retardatários a abrirem o intelecto às novas concepções. A fotografia do invisível, quer opere nas insondáveis profundezas da extensão, quer penetre no interior das substâncias opacas, patenteia ao espírito possibilidades que, há alguns anos apenas, seriam tachadas de utopias supersticiosas. Faz-se mister que a humanidade se liberte das enervantes afirmações dos materialistas. Soou a hora em que tem de cair o véu que tolhia a visão clara da Natureza. 

Apesar das mais extravagantes teorias, forjadas para explicarem os fenómenos espíritas sem a intervenção dos Espíritos, a verdade se evidencia de maneira esplêndida. Sim, temos uma alma imortal. Sim, as vidas sucessivas na Terra e no espaço são simples trechos do interminável caminho do progresso e todos nos encontramos em marcha para altos destinos. O sentimento da imortalidade, que sempre se manifestou em todas as idades do género humano, que se atestou, de modo tangível, em todas as épocas, por manifestações semelhantes às que hoje observamos, está prestes, enfim, a receber a sua explicação científica. Esplenderá então a moral sublime da solidariedade, da fraternidade e do amor, forçosa consequência das vidas sucessivas e da identidade de origem e de destino. Por termos o sentimento vivo de que soou a hora em que a ciência há de unir-se à revelação, é que todos os esforços empregam por trazer a nossa pedra ao edifício. Para todos os espíritos independentes, que se não achem cegos por ideias preconcebidas, são fora de dúvida que as descobertas contemporâneas acarretam firmes apoios ao espiritualismo. 

As especulações precedentes sobre a matéria no estado sólido, líquido ou gasoso justificam-se plenamente, como é fácil ver-se. Dado que, verdadeiramente, os gases são formados de átomos a moverem-se em todos os sentidos com prodigiosa rapidez, é claro que, resfriando-se esses gases, isto é, reduzindo-se-lhes o movimento, as suas moléculas se aproximarão. Se, ao demais, ajudarmos essa concentração por meio de pressões enérgicas, o gás há de passar ao estado líquido e de, afinal, solidificar-se, quando as suas moléculas possam exercer as mútuas atracções. É precisamente o que se dá. 

Só ultimamente se chegou a comprovar esses resultados que a teoria fazia prever. Assim é que o Senhor Cailletet mostrou que o oxigénio se liquefaz a 29 graus abaixo de zero, sob uma pressão de 300 atmosferas, ou, então, conforme o Sr. Wroblewski o determinou, sob a pressão de uma atmosfera, mas fazendo-se descer a temperatura a 184 graus abaixo de zero. O ar que respiramos se torna líquido, quando a temperatura é de 192 graus abaixo de zero. A dois graus de menos, também o azoto se torna líquido. De sorte que, se o Sol se extinguisse, isto é, se deixasse de nos dar o calor que mantém todos os corpos terrestres no estado actual, a Terra seria inabitável, porquanto o ar provavelmente se solidificaria, bem como o hidrogénio e todos os gases; já não haveria atmosfera e um frio mortal substituiria a animação e a vida. 

Incontestavelmente, reina continuidade em todas as manifestações da matéria e da energia. Todos os estados, tão diversos, das substâncias se ligam entre si por estreitos laços; não há barreira intransponível a separar os gases impalpáveis das matérias mais duras ou mais refractárias. Na realidade, uma continuidade existe perfeita nos estados físicos, que podem passar de um ao outro por gradações tão suaves, que racionalmente podem ser considerados formas amplamente espaçadas de um mesmo estado material. Tanto mais exacto isto é, quanto nenhum estado material possui qualquer propriedade essencial de que os outros não partilhem. 

Os sólidos, sob fortes pressões, se escoam como os líquidos e, os gases podem comportar-se como corpos sólidos pouco compressíveis. O Sr. Tresca, submetendo o chumbo a uma pressão de 130 quilogramas por centímetro quadrado, fez correr dele um veio líquido, qual se estivesse fundido. O Sr. Daubrée (iii) produziu erosões e arrancamentos em blocos de aço, pela força de gases violentamente comprimidos. O efeito foi semelhante ao que teria produzido o choque de um buril de aço energicamente accionado. 

Urge se compreenda que a grandeza do efeito que um corpo produz está longe de corresponder ao peso desse corpo. Assim, uma quantidade extremamente fraca de gás, diz o Sr. Daubrée, falando da dinamite, produz efeitos verdadeiramente assombrosos. O peso de um quilograma e meio de gás, actuando sobre um prisma de aço de 134 centímetros quadrados (o que corresponde ao peso de 162 miligramas por milímetro quadrado), produz nele, a par de diferentes escavações na superfície, o seguinte: 

1º) Rupturas, que somente pressões de um milhão de quilogramas seriam capazes de produzir, isto é, a pressão de um peso 600 mil vezes maior do que o do gás causador de tais despedaçamentos;

2º) Esmagamentos, que não podem corresponder a menos de 300 atmosferas. 

Postas em confronto com efeitos mecânicos determinados pelo raio, mostram essas experiências que as mais altas formas da energia se encontram sempre ligadas à matéria cada vez mais rarefeita

É, pois, por indução absolutamente legítima que acreditamos na existência dos fluidos, isto é, de estados materiais em que a força viva das moléculas ou dos átomos aumenta sem cessar, até ao estado primitivo, que se caracterizará pelo máximo de força viva no mínimo de matéria. Entre a matéria sólida e o fluido universal, depara-se com uma imensa série graduada de transições insensíveis, em que o movimento molecular vai em constante crescendo. Pode resumir-se no quadro seguinte tudo o que acabamos de examinar:

Na unidade de volume máximo de matéria, ligada ao mínimo de força viva, limite absoluto: 273º abaixo de zero.

Matéria no estado sólido.

· Minerais, metais, sais, etc.

· Orientação fixa dos agrupamentos moleculares, uns com relação aos outros.

· Oscilações restritas e movimentos de vibração das moléculas.

Matéria no estado líquido.

· A água, o vinho, o álcool, etc.

· Orientação móvel dos agrupamentos moleculares uns com relação aos outros.

· Oscilações lentas, mas começo do movimento de rotação das moléculas sobre si mesmas.

Matéria no estado gasoso.

· O ar, o hidrogénio, o oxigénio, etc.

· Movimentos rápidos de translação das moléculas em todas as direcções, acompanhadas de uma rotação mais pronunciada, à medida que a matéria se rarefaz.

Matéria no estado etéreo imponderável.

· Manifestando-se pelos fenómenos caloríficos, luminosos, eléctricos. vitais, etc.

· Movimentos de translação, mais rápidos do que no estado precedente; movimento rotatório dos átomos, desenvolvendo uma força centrífuga, que contrabalança a acção da gravitação.

Matéria no estado fluídico.

· Todos os fluidos do mundo espiritual. Caracterizados por movimentos cada vez mais rápidos das moléculas e dos átomos. Sempre imponderáveis.

Na unidade do volume: máximo de força viva com o mínimo de matéria.

Matéria no estado cósmico ou primordial.

· Máximo de movimentos atómicos. A matéria está no seu ponto extremo de rarefacção. Acha-se no estado inicial e contém, em potência, todos os estados enumerados acima.

/... 

(i) Jouffret, na Introdução à teoria da Energia, à pág. 67, diz: 
Calculou-se que, a uma pressão barométrica de 760 milímetros, o número médio dos choques, entre as moléculas gasosas, seria: 
1º – Para o oxigénio, por segundo, 2.065 milhões.
2º – Para o ar, por segundo, 4.760 milhões.
3º – Para o azoto, por segundo, 4.760 milhões.
4º – Para o hidrogénio, por segundo, 9.480 milhões.
Se a pressão barométrica fosse cem vezes menor, isto é, igual a 0m,0076, vácuo que apenas as melhores máquinas pneumáticas produzem, a média de percurso livre se tornaria cem mil vezes maior, isto é, igual a cerca de um centímetro; o número dos choques não seria mais do que 4.700 por segundo.
(ii) Deleveau, A Matéria, pág. 77., Briot, Teoria mecânica do calor, pág. 143.(iii) Resenhas, 9 de junho de 1883.


Gabriel Delanne, A Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência; Capítulo III – Estudo sobre os fluidos, 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509) 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

apóstolos de verdade ~


~ o menino ~ poeta 
(Herculano Pires por Jorge Rizzini) 

O ano de 1914 é um marco doloroso na história da humanidade. No dia 1º de agosto daquele ano a Alemanha declarou guerra à Rússia e dois dias depois à França. No dia seguinte invadiu a Bélgica. Vinte e quatro horas depois, exactamente à meia noite, a Inglaterra atacou a Alemanha. O rastilho de pólvora alastrou-se e antes de findar agosto o Japão investiu contra a China, tomando-lhe várias ilhas. A ânsia do poder enlouquecera a humanidade. A guerra espalhava-se rapidamente em todos os continentes, envolvendo também o Brasil. 

Primeira Guerra Mundial foi uma das provas mais estarrecedoras do atraso espiritual da humanidade. Durou exactamente quatro anos e três meses. Desencarnou e aleijou milhões de pessoas. Mas a Espiritualidade jamais deixara de enviar missionários à Terra e, na madrugada do dia 25 de setembro de 1914 (cerca de dois meses após eclodir a Primeira Grande Guerra) um Espírito Superior reencarnou na antiga Província do Rio Novo – hoje a bela cidade de Avaré no interior do Estado de São Paulo. Sua missão: defender a pureza doutrinária e consolidar a Doutrina Espírita em terras brasileiras. 

José Herculano Pires, filósofo, parapsicólogo, educador, romancista, poeta, jornalista, tradutor – esse legítimo apóstolo de Allan Kardec –, era filho primogénito de José Pires Correa (um farmacêutico que abandonaria a profissão para tornar-se um dos mais vibrantes jornalistas do interior paulista) e de Bonina Amaral Simonetti Pires, descendente de antiga família de Avaré e distinta pianista. O casal teve sete filhos: Herculano, Geraldo, Renê, Lourdes, Marília, Diógenes e Nancy, os dois últimos desencarnados com tenra idade. 

O nascimento de Herculano Pires se deu na residência de seus pais, uma ampla casa pintada de verde no meio do quarteirão da Rua Rio Grande do Sul, no Largo São João, onde José Pires Correa instalara também a sua farmácia. O parto não foi tranquilo... 

Em um diário íntimo escreveu Herculano Pires que ao nascer se viu em apuros: 

“Eram cinco horas de uma fria madrugada de setembro – fim de inverno e início da primavera –, quando abri os olhos para a visão caótica do mundo. Estávamos em 1914, ano da primeira guerra mundial. Nasci ameaçado pelo cordão umbilical que me apertava o pescoço. Mundo ingrato. Mal nascia e as próprias cordas da vida me agrediam na forma de tenazes da morte.” 

Nesse diário, em cujas páginas foram, infelizmente, registadas poucas reminiscências, ainda nos dá Herculano Pires informações sobre o seu nome e a sua infância: 

“Mamãe me contou que eu já trazia um nome. Não o trazia escrito na testa, mas na folhinha, pois o 25 de setembro é o dia de São Herculano. Tio Franco sugeriu que para reforçar a minha protecção – pois esse São Herculano não era muito conhecido – me dessem também o nome popular de São José. Assim, ao nome que eu trouxera, a família juntava outro.” 

E o menino, então reencarnado em família católica, ganhou o nome completo de José Herculano Pires. Não foi garoto robusto. 

“Tive uma infância com problemas de saúde que me acompanhariam por toda a vida. Mas a terra de Avaré e as águas do Rio Novo me fortaleceram. Na gripe de 1918, que completou no Brasil a matança da guerra na Europa, flutuei sobre as águas e continuei. O tifo era endémico na região e depois da gripe fez grandes devastações, mas dele também  me livrei.” 

Os problemas de saúde não impediram, no entanto, que a sua infância fosse feliz. Era Avaré uma cidade jovem por demais agradável. A paisagem era bucólica: as ruas de areia, a matriz, o Jardim São Paulo com a sua banda aos domingos e o coaxar dos sapos... O Rio Novo de águas cristalinas, onde homens e crianças pescavam, os carros de bois com as rodas rangendo alto no Largo da Estação e, naturalmente, o famoso trenzinho da Sorocabana soltando muita fumaça quando atingia 40 quilómetros por hora, a velocidade máxima... 

Avaré, embora pacata, uma vez por outra era sacudida por acontecimentos dramáticos. Quis a Espiritualidade que Herculano Pires presenciasse alguns, certamente para fazê-lo compreender, embora ainda criança, que a terra era um planeta de angústias e que muito havia por se fazer em prol da espiritualização do povo. 

Em seu diário escreveu ele: 

“Ainda criança, vi muita maldade fervendo em Avaré. Vi, à distância de um quarteirão, o velho João do Prado, grandalhão, sair de um cartório da Rua São Paulo, dar alguns passos e cair fulminado pelos tiros de revólver que um advogado lhe desfechara nas costas. Vi, no Largo do Mercado, um homem tombar esfaqueado por outro, esvaindo-se em sangue. Vi Rosinha casar-se por amor e por amor suicidar-se tomando formicida. Vi um homem com a cabeça arrebentada pela própria esposa. E vi crianças chorando na orfandade súbita, porque o pai e a mãe haviam sido mortos pela ferocidade de alguns parentes. E vi ainda – meu Deus, que horror! – um homem carregar pelas ruas da cidade, obrigado pela Polícia, o tronco carbonizado da vítima que tentara destruir pelo fogo.” 

Esses bárbaros crimes de morte, evidentemente, levaram Herculano Pires, menino ainda de cinco ou seis anos de idade, mas dotado de aguda inteligência, a pensar em Deus com frequência. A verdade é que já estava sendo preparado pelos Espíritos, a fim de, quando adulto, cumprir bem a sua missão. 

Notemos agora que desde menino tinha visões espirituais. Esse facto, que teria importância fundamental no decorrer de toda a sua vida, Herculano Pires revelou a Rizzini numa entrevista gravada. Ouçamos as suas palavras: 

“Não eram visões místicas. Eram visões reais. Eu via Espíritos andando pela casa, à noite. Ainda me lembro muito bem, eu era pequenino, me levantava, me firmava na guarda do berço e ficava olhando os Espíritos vagarem pela casa. Não eram apenas Espíritos de mortos. Eu via o Espírito de minha mãe, que estava viva, andar pela casa. Minha mãe dormia e o seu Espírito se desprendia. E isto eu via com bastante frequência. Esses factos provocaram alarme em casa porque, às vezes, via certos Espíritos que me assustavam e então eu gritava e acordava todo o mundo. Vinham saber de mim o que acontecera e meu pai dizia: “Ele está delirando, é preciso saber o que tem esse menino.” Mas, eu explicava o que tinha visto. Certa vez me aconteceu também um facto muito curioso. Eu já tinha uns sete ou oito anos e na casa do meu avô materno, em Avaré, havia um quintal muito grande (meu avô materno era italiano e minha avó materna brasileira). E eu, brincando com as crianças no fundo do quintal cheio de grandes mangueiras, de repente ouvi um estalo esquisito, estranho. Olhei para o lado. Vinha vindo uma velhinha, mais ou menos apressada, com um vestido que parecia estrangeiro e com meias listadas de vermelho e azul; listas circulares em torno da perna. E ainda me lembro também dos sapatões, para mim esquisitos... Ela não me deu satisfação, passou perto de mim e se dirigiu para uma espécie de depósito que havia no quintal, abriu a porta e entrou. A porta bateu e, com o estalo, voltei a mim. Quer dizer, saí daquele encantamento. Fui correndo desesperado para casa, gritando. Meu avô foi o primeiro a sair ao meu encontro: “O que há?”. Eu contei. “Repita isso!” Eu repeti. “Como era ela?” Eu contei. E dei dois detalhes de que hoje não me lembro. Então ele virou-se para minha avó e disse: “É minha mãe! É minha mãe!” Foi um fenómeno que ficou gravado na minha memória.” 

A família de Herculano Pires, já o dissemos, era, então, católica. É inegável que essas visões na infância tinham o objectivo maior de levá-lo, posteriormente, ao encontro do Espiritismo

Herculano Pires, quando criança, foi uma prova vigorosa da reencarnação. Ele trazia da Espiritualidade um lastro cultural vastíssimo adquirido em vidas anteriores e uma vocação perfeitamente definida. Menino notável, com nove anos de idade, calças curtas, ainda nos bancos de uma escola primária na cidade de Itaí, para onde a sua família se transferira em 1920, ele se revelou poeta. Já conhecedor das leis rígidas da arte poética (que prodígio!), o menino redigiu em versos decassílabos um soneto que é, ao contrário do que o vulgo pensa, a forma poética mais difícil de ser dominada. O tema escolhido pelo garoto foi o Largo São João, de Avaré; tema adulto e árido. 

Viveu Herculano Pires em Itaí dos seis aos dez anos de idade. No dia 7 de setembro de 1922 (relembraria ele cinquenta anos depois em uma crónica), “era então um menino de oito anos e formava numa tropa de escoteiros, orgulhoso do meu uniforme cáqui e do meu lenço vermelho tatalando ao pescoço. Meu comandante era o professor Victorino, gordinho e baixo, também vestido de uniforme. E quem proferiu o discurso mais bonito e mais retumbante, comemorando o primeiro centenário da Independência do Brasil, foi naturalmente o meu pai. Na festinha da escola, em dias feriados, éramos dois, eu e a menina Adélia, minha namorada (os primeiros das duas turmas: masculina e feminina), que ficávamos em pé ladeando o mastro, na hora do hasteamento”. 

Quatro anos depois o seu pai, buscando melhoria financeira, fixou residência na cidade de Cerqueira César. Mas por pouco tempo. Voltou a residir com a família em Avaré, onde matriculou o filho na Escola de Comércio, fundada e dirigida pelo Professor Jonas Alves de Almeida, de quem, ao longo da vida, guardaria Herculano Pires a mais grata recordação. Mas não pôde concluir o curso. 

A vida profissional de José Pires Correa não era fácil. E assim, buscando sempre melhores condições para o sustento da família, tornou a residir na cidade de Cerqueira César. Herculano tinha, então, doze anos de idade e... continuava a escrever poesias. 

/... 


Jorge RizziniJosé Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, 1 – O menino poeta, 2º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)

sábado, 13 de maio de 2023

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~~~ Natureza da Revelação Espírita
(X) 

As duas primeiras revelações só poderiam ser o resultado de um ensino directo; deveriam impor-se à fé pela autoridade da palavra do mestre, não estando os homens suficientemente evoluídos para participarem na sua elaboração. 

Notemos, no entanto, entre elas uma variante muito sensível que diz respeito à evolução dos costumes e das ideias, apesar de terem sido feitas no mesmo povo e no mesmo meio, mas com cerca de dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica; não admite discussão e impõe-se a todo o povo pela força. A de Jesus é essencialmente conselheira; é livremente aceite e só se impõe pela persuasão; foi controversa mesmo em vida do seu fundador, que não desdenhou discutir com os seus adversários. 

A terceira revelação, vinda numa época de emancipação e de maturidade intelectual, em que a inteligência desenvolvida não se pode resumir a um papel passivo, em que o homem não aceita nada às cegas e quer ver para onde é conduzido, saber o porquê e o como de cada coisa, devia ser simultaneamente produto de um ensinamento e fruto do trabalho, da pesquisa e da livre observação. Os Espíritos só ensinam o estritamente necessário para se entrar no caminho da verdade, mas abstêm-se de revelar o que o homem pode encontrar por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, de controlar e submeter o todo ao cadinho da razão, deixando-o até por vezes adquirir experiência à sua custa. Fornecem-lhe o princípio, os materiais: compete-lhe a ele retirar daí benefícios e pô-los em acção (n.º 15). 

Tendo os elementos da revelação espírita sido dados em simultâneo, numa quantidade de pontos, a homens de todas as condições sociais e com diversos graus de instrução, é bem evidente que as observações não podiam ser feitas em todo o lado com os mesmos resultados; que as consequências a retirar daí, a dedução das leis que regem esta ordem de fenómenos, numa palavra, as conclusões a consolidar as ideias, só podiam sair do conjunto e da correlação dos factos. Ora, cada centro isolado, circunscrito a um círculo restrito, não vendo frequentemente mais do que uma só ordem de factos por vezes aparentemente contraditórios, não tendo geralmente a ver com uma mesma ordem particular de Espíritos e, além disso, entravados pelas experiências locais e pelo sectarismo, encontravam-se na impossibilidade material de abarcar o conjunto e, por isso mesmo, impotente para ligar as observações isoladas a um princípio comum. Apreciando cada um os factos sob o ponto de vista das suas convicções anteriores ou da opinião particular dos Espíritos que se manifestam, em breve teria havido tantas teorias e teses como centros, das quais nenhuma teria podido ser completada por falta de elementos de comparação e de controlo. Numa palavra, cada um deles se teria imobilizado na sua revelação parcial julgando possuir toda a verdade, por não saberem que em cem outros sítios se obtinha mais ou melhor. 

Por outro lado, é de notar que em sítio nenhum o ensino espírita foi dado de forma completa; este atinge um tão grande número de observações, em temas tão diversos que exigem quer conhecimentos quer aptidões mediúnicas especiais, que teria sido impossível reunir num mesmo ponto todas as condições necessárias. Devendo o ensino ser colectivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando os temas de estudo e de observação, como, em certas fábricas, a confecção de cada parte de um mesmo objecto é repartida por diversos operários. 

A revelação foi-se assim fazendo parcialmente, em diversos lugares e por uma quantidade de intermediários e, é desta maneira que ainda prossegue neste momento, pois nem tudo foi ainda revelado. Cada centro encontra, nos outros centros, o complemento do que obtém e é o conjunto, a coordenação de todos os ensinamentos parciais que constituem a doutrina espírita

Era então necessário agrupar os factos esparsos para verificar a sua correlação, reunir documentos diversos, as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e sobre todos os temas, para os comparar, os analisar, estudar-lhes as analogias e as diferenças. Sendo as comunicações feitas por Espíritos de todas as ordens, mais ou menos esclarecidos, era necessário apreciar o grau de confiança que a razão permitia conceder-lhes, distinguir as ideias sistemáticas individuais e isoladas das que tinham a sanção do ensino geral dos Espíritos, as utopias das ideias práticas; eliminar as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e da lógica sã, utilizar os erros de forma igualitária, os ensinamentos fornecidos pelos Espíritos, mesmo os de mais baixo nível, para conhecimento do mundo invisível, para formar com isso um todo homogéneo. Era preciso, numa palavra, um centro de elaboração independente de qualquer ideia preconcebida, de qualquer preconceito de seita, resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, fosse ela ou não contrária às suas opiniões pessoais. Este centro formou-se por si, por força das coisas e sem intuito premeditado (i)

Deste estado de coisas resultou uma dupla corrente de ideias: umas, indo das extremidades para o centro; outras, regressando do centro para a circunferência. Foi assim que a doutrina caminhou prontamente para a unidade, apesar da diversidade de fontes de onde emanou; as teses diferentes foram caindo a pouco e pouco, devido ao seu isolamento, perante o ascendente da opinião da maioria por não encontrarem aí ecos simpatizantes. De imediato se estabeleceu uma comunhão de ideias entre os diferentes centros parciais; falando a mesma língua espiritual, entendem-se e simpatizam de uma ponta à outra do mundo. 

Os Espíritos sentiram-se fortes, lutaram com mais coragem, caminharam com passo mais seguro, quando deixaram de se sentir isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um elo que os ligava à grande família; os fenómenos de que eram testemunhas nunca mais lhes pareceram estranhos, anormais, contraditórios, quando conseguiram ligá-los a leis gerais de harmonia, abarcar com um olhar o edifício e ver em todo este conjunto um objectivo grande e humanitário (ii)

Mas como saber se um princípio está a ser ensinado em todo o lado ou se não passa do resultado de uma opinião individual? Não estando os grupos isolados em condições de saber o que se diz noutros sítios, era necessário que um centro reunisse todas as instruções para fazer uma espécie de despojamento das vozes e levar ao conhecimento de todos a opinião da maioria (iii).

/... 
(i) O Livro dos Espíritos, a primeira obra que fez entrar o Espiritismo na via filosófica, pela dedução das consequências morais dos factos, que abordou todas as partes da doutrina, tocando nas questões mais importantes que levanta, foi, desde a sua aparição, o ponto de encontro na direcção do qual, espontaneamente, convergiam os trabalhos individuais. É notório que a publicação deste livro data da era do Espiritismo filosófico, que permanecera até então no domínio das experiências de curiosidade. Se este livro conquistou as simpatias da maioria, foi por ser a expressão dos sentimentos dessa mesma maioria e porque correspondia às suas aspirações; foi também porque cada um podia encontrar ali a confirmação e uma explicação racional para o que obtinha em particular. Se tivesse estado em desacordo com os ensinamentos gerais dos Espíritos, não teria tido nenhum crédito e teria rapidamente caído no esquecimento. Ora, a quem se uniram? Não foi ao homem, que não é nada por si mesmo, cavilha obreira que morre e desaparece, mas sim à ideia, que não morre quando emana de uma fonte superior ao homem

Esta concentração espontânea das forças dispersas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se reflectem simultaneamente os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações e as fraquezas; arquivos preciosos para a posteridade, onde será possível julgar os homens e as coisas com base em peças autênticas. Na presença destes testemunhos irrecusáveis, que acontecerá depois a todas as falsas alegações, às difamações da inveja e do ciúme? (N. do A.) 

(ii) Um testemunho significativo, tão notável como comovente, desta comunhão de ideias que se estabelece entre os Espíritos pela conformidade das convicções, são os pedidos de orações que nos chegam das regiões mais distantes, desde o Peru até aos extremos da Ásia, da parte de pessoas de religiões e de nacionalidades diversas que nunca vimos. Não será este o prelúdio de uma grande unificação em preparação? A prova das raízes sérias que o Espiritismo cria em todo o lado? 

É notável que, de todos os grupos que se formaram com a intenção premeditada de provocar uma cisão proclamando princípios divergentes, assim como os que, por razões de amor-próprio ou outras, não tendo o ar de estarem sujeitos à lei comum, se julgaram suficientemente fortes para caminharem sozinhos, suficientemente iluminados para não precisarem de conselhos, nenhum conseguiu constituir uma ideia preponderante e vital; todos se extinguiram ou vegetaram na sombra. Como poderia ser de outro modo, já que, para se evidenciarem, em vez de se esforçarem por dar um maior número de satisfações, rejeitaram dos princípios da doutrina precisamente o que lhe confere o maior atractivo, o que nela existe de mais consolador, de mais encorajador e de mais racional? Se tivessem compreendido o poder dos elementos morais que constituíram a unidade, não se teriam embalado numa ilusão quimérica; mas, tomando o seu pequeno círculo pelo Universo, só viram nos aderentes uma súcia que poderia facilmente ser derrubada por uma contra-súcia. Era enganar-se estranhamente sobre as características essenciais da doutrina e esse erro só poderia trazer decepções; em vez de quebrar a unidade, quebraram o único elo que lhes poderia dar força e vida. (Ver Revista Espírita, Abril 1866, pp. 106 e 111: O Espiritismo Sem os Espíritos; O Espiritismo Independente). (N. do A.) 

(iii) É este o objectivo das nossas publicações, que podem ser consideradas o resultado desse despojamento. Todas as opiniões são aí discutidas, mas as questões só são formuladas em princípios depois de terem sofrido a consagração de todos os controlos, porque só eles lhes podem conferir a força de lei e permitir que se façam afirmações. É por isso que não preconizamos com ligeireza nenhuma teoria e é nisso que a doutrina, procedendo do ensino geral, não é de modo nenhum o produto de uma tese preconcebida; é também o que lhe dá a força e garante o futuro. (N. do A.) 


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 49 a 53 (X), 12º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida. 
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 4 de maio de 2023

as vidas sucessivas | os elementos ~


Experiências magnéticas – Regressão da memória e previsão  Caso nº 2, Joséphine 
(III) 

Continuo os passes. Joséphine tem agora cerca de setenta anos. Em seguida, pouco a pouco, mostra-me o espectáculo de sua morte, revirando-se sobre a cadeira. 

Continuação dos passes; ela toma a posição do feto no ventre de sua mãe e, depois de algum tempo, pode responder às minhas perguntas; tem dois anos e chama-se Lili. Um pouco mais tarde tem três anos, chama-se Alice, o seu pai Claude e a sua mãe Françoise, porém não sabe nem o seu sobrenome, nem o nome do lugar onde mora. É muito feliz e mora numa linda casinha. Ela não está inteiramente no seu corpo e vê espíritos à sua volta: alguns bons, outros maus; quando estes últimos agem sobre ela, chora e faz manhas. 

Continuação dos passes. Ela entra numa fase de letargia durante a qual se revira sobre a cadeira e aperta o pescoço com a mão. A sua respiração está rouca e difícil. Quando sai dessa fase e pode falar, conta que morreu de uma angina; tinha quatro anos. Desprendeu-se rapidamente do seu corpo, continuou a ver os seus pais e a sua casa, mas ainda não compreende bem onde se encontra. 

Aprofundando o sono, ela se desprende mais completamente sem fase de letargia, vaga no espaço, está feliz, já não vê a Terra, mas vê espíritos luminosos; estes não lhe falam e ela não reconhece entre eles nem parentes nem amigos. Retoma pouco a pouco a lembrança das suas existências passadas, mas não se dá conta da razão de sua sucessão e de sua diversidade. 

Desperta através de passes transversais, passando rapidamente por todas as fases já assinaladas. Enfim, ei-la novamente Joséphine, com a idade de vinte e cinco anos. Pergunto-lhe brincando se deseja que eu a rejuvenesça mais. Responde-me que sim e a levo aos quinze anos. A sua sensibilidade está ainda exteriorizada, como ocorre durante todo o tempo em que dorme magneticamente. Sente tudo o que sinto, mesmo quando mordo a minha língua, o que ela não pode ver. 

Eu estava bastante embaraçado, querendo reconduzi-la ao seu estado normal e, desejava terminar a sessão, que já durava mais de duas horas. Mostrei-lhe a minha ansiedade. Ela tomou-me então as mãos e disse-me que ia fazer o necessário. Com efeito, após alguns minutos, sem passes de nenhuma espécie, ela abria os olhos, tinha retomado a sensibilidade normal e perdeu, seguindo a regra, toda a lembrança do que se tinha passado

Sexta sessão 

Adormeço Joséphine segurando-lhe as mãos e pergunto-lhe o que é preciso fazer para que ela vá ao passado ou ao futuroResponde-me que é suficiente desprender o seu corpo fluídico e que, em seguida, ela irá para onde eu quiser. Entretanto os passes transversais tendem a conduzi-la ao futuro. 

Continuo a aprofundar o seu sono simplesmente segurando-lhe as mãos, projectando fluido por minha vontade e dizendo-lhe para ver o que ela se tornará. 

Passa pela fase do nascimento. Quando a interrogo, tem quarenta anos; conta-me que a sua mãe faleceu há quinze anos. 

Continuo a magnetização. Ela morre. A sua sensibilidade já não é então exteriorizada à sua volta como anteriormente. Encontro-a aturdida. Não sofre e encontra-se numa semi-obscuridade. Recorda-se vagamente das suas vidas precedentes; a recordação é avivada pela pressão exercida sobre o meio da fronte. Ela tem o sentimento de que a sedução da qual foi vítima é a punição do que fez na existência de Jean-Claude. Crê que se o Sr. de Rochas a tivesse advertido do que devia acontecer, nada teria mudado na sua existência. 

Reencarna como menina, chama-se Élise e, morre aos três anos, de uma angina. Nesse momento leva a mão ao pescoço e parece sofrer muito. Morre; a sensibilidade que tinha voltado em torno do seu corpo desaparece novamente. 

Morta, ela pensa na sua mãe e quer muito revê-la. Não sofre e encontra-se numa atmosfera bastante luminosa. 

Reencarna como menina, Marie, cujo pai, Edmond Baudin, é comerciante de sapatos em Saint-Germain-du-Mont-d’Or. A sua mãe chama-se Rosalie. Interrogo-a com dois, seis e doze anos; com esta idade pergunto-lhe em que ano nos encontramos, mas ela não sabe responder-me e encontra pretextos: não tem calendário, o seu pai também não, etc. Com dezasseis anos responde-me que estamos em 1970 e escreve o seu nome. (i) É uma sexta-feira, mas ela não sabe de que mês. Estamos na República. (ii) 

Trago-a de volta por sugestão, ainda segurando-lhe as mãos, mas esforçando-me para retirar o fluido. Ela passa pelas mesmas fases, na mesma ordem, mas em sentido inverso: erraticidade com insensibilidade periférica, morte com os sintomas da angina, erraticidade, nascimento com contorções apropriadas. 

Sétima sessão 

Nesta sessão propus-me descobrir o que adviria se, após a haver estimulado através de passes a caminhada para trás ou para adiante com Joséphine, eu deixasse a natureza dela agir sozinha

Adormeço-a através de passes longitudinais e, quando a interrogo, ela tem quinze anos. Pergunto-lhe se me vê; responde-me que não; no entanto, ouve a minha voz e pensa que é o diabo quem fala; porém não sente medo. Ela não conhece o Sr. de Rochas. 

Abandono-a então a si mesma. São 1:30. 

1:40 – Interrogo-a novamente. Ela permanece bastante tempo sem me responder. Quando me responde tem dez anos, não me vê, mas ouve-me. Encontra-se com jovens companheiros que não me ouvem e que lhe dizem que ela é louca. A sua sensibilidade é exteriorizada. 

2:10 – Ela tem cinco anos

2:25 – Ela não sabe a sua idade. Mama em sua mãe e mexe os lábios como que sugando. Chupa o meu dedo quando o apresento à sua boca. 

2:35 – Agita-se e parece sofrer. Ela é Jean-Claude morto. Desperto-a então através de passes transversais e abandono-a a si mesma quando atinge a idade de dois anos, na sua vida actual. 

2:50 – Ela continuou sozinha o movimento dado ao tempo. Tem agora quatro anos

Levou quinze minutos para envelhecer dois anos. Se continuasse da mesma forma ser-lhe-iam necessários para envelhecer quatorze anos (de quatro a dezoito anos) 1 hora e 45 minutos. Ela despertaria, portanto, naturalmente às 4:30

3:10 – Tem nove anos. Ouve-me e não me vê. Supõe que a minha voz é a do anjo da guarda. 

De 2:50 às 3:10 – Ela envelheceu cinco anos em vinte minutos. A rapidez do despertar acelera-se. 

3:25 – Ela tem doze anos

3:40 – Tem quatorze anos

Construindo a curva correspondente a esses dados, vê-se que ela chegará à sua idade actual (entre dezoito e dezanove anos) em torno de 4:00

4:08 – Despertar espontâneo. 

Oitava e última sessão 

Joséphine, não tendo podido obter a vaga que desejava nas Galerias Modernas, decidiu juntar-se de novo à sua mãe em Manziat. Adormeço-a uma última vez antes da sua partida, a fim de tentar pô-la em guarda contra a sedução que previu. 

Impulsiono-a em direcção ao futuro. Ela não me fala mais da sua vaga numa loja de Grenoble, porém o restante das suas previsões é exactamente conforme ao que me havia dito anteriormente. Passa pelas mesmas dores no momento do parto, a mesma vergonha, os mesmos desgostos quando dá à luz o seu filho sem que o pai tenha querido reconhecê-lo. 

No momento em que foi despertada, relembrei-lhe todos esses acontecimentos, todas essas emoções, através da pressão no meio da fronte. Fiz-lhe observar que ela não havia sido aceite como vendedora nas Galerias Modernas, como havia predito e, que, consequentemente, tudo o que ela anunciava, adormecida, podia ser apenas um sonho; entretanto, o que poderia tornar-se realidade seriam as consequências da sua falta se ela a cometesse. 

Sugeri-lhe recordar-se de todos os tormentos que tinha experimentado durante o seu sono quando fosse tentada a abandonar-se. 

No dia seguinte, tendo havido ocasião de retornar a este assunto, ela me diz sorrindo que um bem advertido vale por dois. 

Desde a sua partida para a província de Ain não mais obtive notícias suas. 

/… 
(i) Esse nome é escrito com a mesma letra que a sua normal. (A.R.) 
(ii) Nota de Hermínio C. Miranda – Resolvi testar a informação. Em 15 de maio de 1972, enderecei uma carta a M. Edmond Baudin, marchand de chaussures, Saint-Germain-du-Mont-d’Or, Puy-de-Dôme, França. Explicava ao hipotético destinatário – em francês que o amigo e confrade Newton Boechat revisou para mim – das razões que me levavam a escrever-lhe. Segundo pesquisas feitas em 1904, pelo seu compatriota coronel e engenheiro Albert de Rochas, ele, Baudin, e a sua esposa, Rosalie, deveriam ter uma filha, por nome Marie, já com cerca de dezoito anos de idade em 1972. Como estávamos interessados em confirmar ou negar a previsão, contávamos com a sua amável cooperação. O correio francês foi maravilhoso. Tentou todos os endereços possíveis. Vejo, pelos carimbos – a carta foi-me devolvida em 22 de junho de 1972 – que ela esteve a 20 de maio, em St. Germain-au-Mont-d’Or, no Rhône (nosso St. Germain era du-Mont-d’Or, e não au); no dia 23, em St. Germain-Lembron, no Puy de Dôme, e a 24, em St. Germain-l’Herm, também no Puy-de-Dôme. Em seguida, há uma nota Revoir 1er Adresse (tornar a ver o primeiro endereço). Depois disso, Retour a l’envoyeur (Devolução ao remetente). Não há, pois, um lugar por nome Saint-Germain-du-Mont-d’Or na França moderna. Depreende-se que não há, portanto, Edmond, Rosalie e Marie Baudin e, obviamente, Joséphine falhou na sua profecia a longo termo. Ou então o coronel enganou-se nas suas anotações, pois em 1904 não havia gravadores. Ou a família Baudin estaria vivendo alhures. 


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 2 – Joséphine, 1904 (3 de 3) 11º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)