quinta-feira, 5 de setembro de 2024

pensamento espírita argentino ~


Capítulo II

Espiritismo dialéctico ~

Espiritismo dialéctico é a concepção científica, dínamo-genético da evolução, que explica as coisas, seres e fenómenos do Universo, no seu movimento causal e dinâmico e nas suas necessárias contradições, sucedendo-se e transformando-se, lenta e gradualmente ou por mutações bruscas, em virtude de uma lei natural, selectiva e finalista, sob a acção psicodinâmica do espírito, nas suas diversas formas e manifestações. Não é, como poderia supor-se, uma inovação sistemática, fundamental, da filosofia espírita: é a mesma doutrina (pelo que respeita os seus princípios fundamentais), tratada dialecticamente à luz da ciência moderna e em concordância com os fenómenos da natureza e da vida e, muito especialmente, com os da Psicologia e da História.

A dialéctica espírita é um método discursivo, aplicado às coisas no processo indefinido do seu desenvolvimento ou, melhor dito, induzido deste processo indefinido; é uma lógica superior, para elevar-se à concepção dínamo-genética da vida em todas as ordens e manifestações, indo do simples ao complexo, do particular ao geral e dos termos opostos à sua síntese, a fim de estabelecer a lei ou o princípio que rege cada ordem de coisas e o que é essencial em todas e em cada uma delas.

Elevar-se da realidade sensível à verdade inteligível é o objecto da verdadeira dialéctica; é a “viagem”, segundo o dizer de Platão, que nos eleva à região luminosa das verdades superiores, viagem que empreendeu Heráclito, pela primeira vez na história da Filosofia, afirmando que nada é, que tudo chega a ser na corrente incessante da vida.

Ter um conceito dínamo-genético do Universo e da vida é pensar a evolução com um critério dialéctico, considerando as coisas, não no repouso em que se apresentam, mas em movimento, como na realidade estão; não num lugar fixo do espaço, nem num determinado momento do tempo, mas num contínuo suceder, num perpétuo câmbio de formas e de qualidades, sem jamais serem coisas perfeitas; é considerar os factos da vida e da história, não isolados e sem conexão, mas nas suas relações e no seu encadeamento causal; é ver nos indivíduos, não agentes desvinculados completamente uns dos outros, mas unidos por vínculos afectivos específicos, relacionados entre si pelo meio social e geográfico, por factores externos, tanto de ordem material como espiritual; não é crer que a sociedade, com o seu determinismo económico e histórico, marche por um lado e o espírito humano com o seu determinismo psicológico, com a sua causalidade moral e espírita, por outro, sem engrenar este com aquela, nem aquela com este, mas considerar as suas influências respectivas numa constante reciprocidade de efeitos e causas, de acções e reacções, de impulsos e resistências, de contradições que se resolvem no tempo, na luta constante de interesses e ideais, com o triunfo das tendências revolucionárias, individuais e, por afinidade, colectivas, que por lei da mesma evolução se apartam das tendências gerais e conservadoras; é crer enfim que, se no processo incessante da História (dentro do limite da existência humana) os indivíduos formam a sociedade, esta, por sua vez, forma os indivíduos e os sujeita às condições de vida estabelecidas, ainda que novas tendências e iniciativas individuais apontem mais tarde novos rumos à sociedade e modifiquem as condições existentes com o máximo de progresso alcançado. Esta concepção dínamo-genética que o Espiritismo dialéctico oferece e que consideramos do mais alto valor filosófico, para melhor compreensão da evolução e da vida, não forma, todavia, um sistema de doutrina completamente separado de elementos estranhos e contrários, em muitos casos, a sua verdadeira essência. Ela se deduz logicamente dos factos e manifestações espíritas, tanto quanto dos fenómenos naturais e históricos. Os elementos doutrinários que a constituem encontram-se disseminados nas obras dos seus mais ilustres mestres.

O método dialéctico, mesmo com alguma diferença no modo de expressão, é que tem sido seguido pelos grandes filósofos espiritualistas, desde Sócrates e Platão até Hegel, e empregado por alguns autores espíritas, ainda que sem uniformidade de critério e sem a precisão e extensão devidas. Daí que o Espiritismo se ressinta no seu valor filosófico e que a sua interpretação doutrinária, no que concerne à evolução e ao modo em que esta se efectua, dê margem a opiniões diversas e contrapostas, a atitudes desde a mais revolucionária até à mais recalcitrante e conservadora, não obstante ser uma doutrina clara nos seus postulados, quando estudados sem preconceitos.

Se Alexandre Herzen pôde dizer, com razão, que a filosofia de Hegel, longe de ser conservadora, é a álgebra da revolução; se Marx e Engels, aproveitando-se do método dialéctico de Hegel, no sentido materialista (que, por ser assim, abrange um só aspecto da verdade) puderam dizer que a sua dialéctica é a álgebra prática que “não se inclina diante de nada e é, por sua essência, crítica e revolucionária”, também podemos afirmar que o Espiritismo, com os seus fenómenos de uma realidade superior, demolidores de velhos preconceitos em todas as ordens da vida, com o seu conceito palingenésico da evolução e a sua moral dinâmica e perfectível, é profundamente mais revolucionário, posto que aprofunda o problema do ser e do destino e o aclara à luz dos factos, assinalando ao espírito humano novas e mais prolongadas actividades, novos e mais dilatados horizontes aos seus ideais, que não ficam truncados com as conquistas (muito justas, sem dúvida) económicas e sociais, dentro do marco estreito da existência humana sobre o planeta que habita. A dialéctica espiritista neste caso vem a ser a álgebra superior, que ninguém poderá aprender definitivamente, mas que vai descobrindo novas equações, novos problemas, em progressão constante de vidas sucessivas, que produz uma revolução mais profunda e de mais vastas projecções, que abrange o espírito e a matéria (sem reduzi-los a termos unitários, como fazem respectivamente o idealismo e o materialismo) numa síntese geral, considerando-se estreitamente unidos e necessários para todas as manifestações da vida e do pensamento. (i)

Poucas pessoas ignoram o que é o Espiritismo na sua essência vulgar e simplista; mas é escassíssimo o número dos que têm estudado a causa dos factos e dos princípios filosóficos que eles encerram, arrastando pela borda o pesado lastro de preconceitos que nele infiltraram as religiões positivas.

Empregado o Espiritismo para resolver somente problemas metafísicos, próprios da velha escolástica, apenas à investigação do mais além, preso à velha moral das religiões, que ensina a respeitar falsos direitos e privilégios injustos, como coisas absolutamente necessárias e conformes à justiça divina e à causalidade moral de cada ser, perde o seu carácter de ciência integral e progressiva, e em vez de ser um ideal humano, propulsor do progresso e das causas nobres, aberto a toda a iniciativa de bem-estar social, a toda tendência renovadora e libertária, torna-se, nas mãos de espíritos mesquinhos, uma doutrina atrasada e conservadora, uma arma formidável para esmagar consciências e conter todo o impulso generoso que tenda a estabelecer um novo regime social, mais justo e conforme com as exigências do progresso.

Para despojar o Espiritismo das influências conservadoras, dos preconceitos retrógrados que o desvirtuam e lhe tiram vigor como força social, como ideologia chamada a influir na marcha ascendente da humanidade, nada melhor do que abrir o livro da natureza e o da história e interpretar as suas lições à luz da ciência moderna e das manifestações espíritas: neles aprenderemos melhor que nos livros dos filósofos a verdadeira dialéctica dos factos e conheceremos o valor dos factores que os produzem e determinam e formaremos o nosso conceito espírita dínamo-genético da evolução, biológico e histórico. Assim saberemos, no final, como o Espiritismo deve orientar a conduta dos homens para que as consciências se fortifiquem frente aos factos que a vida oferece nas suas múltiplas e variadas manifestações.

/…

(i) O Espiritismo não considera o espírito absolutamente independente de toda a forma de matéria, nem tem a pretensão de saber o que é a matéria nem o espírito na sua essência; considera-os nas suas manifestações e estabelece as diferenças que são próprias de cada um. As manifestações dos espíritos vão sempre acompanhadas de formas subtis que, como já temos indicado, se chamam corpo etéreo, perispírito, etc.


Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, Capítulo II – Espiritismo dialéctico, 12º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Inquietações Primaveris ~


A Escada de Jacob ~

O nascimento e a morte determinam o trânsito especial entre o Céu e a Terra. Dia e noite, sem cessar, descem e sobem os anjos pela escada simbólica da visão bíblica de Jacob. Os anjos são espíritos, e o Apóstolo Paulo esclareceu que são mensageiros. Trazem e levam mensagens de um plano para o outro. São mensagens de amor, de estímulo, de orientação e encorajamento. As mensagens são dadas, na maioria, através das intuições, na Terra, aos destinatários encarnados. Mas há também as que são dadas por via mediúnica, através de um médium, ou através dos sonhos. Essa comunhão espiritual permanente é conhecida desde as épocas mais remotas. Mas só em 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em Paris, o problema foi encarado como positivo e levado à consideração dos sábios e das instituições científicas. As Igrejas Cristãs, tendo à frente a Católica Romana, levantaram-se contra essa colocação, que diziam simplória, de um grave problema teológico. Só os clérigos e os teólogos, segundo elas, tinham direito a tratar do assunto. Um século depois, a questão estava nas mãos das Ciências e a Ciência Espírita, fundada por Kardec, era colocada à margem do mundo científico, por não possuir um objecto legitimamente científico, material, ao alcance dos sentidos humanos. Richet levantara, na Metapsíquica, a tese do sexto sentido, e Kardec sustentava que os fenómenos mediúnicos, pelo facto mesmo de serem fenómenos, constituíam o objecto sensível da Ciência Espírita.

Em 1830 os professores Joseph Banques Rhine e William McDougall lançavam na Universidade de Duke, na Carolina do Sul (Estados Unidos da América) a nova Ciência da Parapsicologia, para a investigação desses mesmos fenómenos. E em 1840 ambos proclamavam, com os seus colaboradores, a prova científica da Clarividência. Dali em diante cresceu rapidamente no mundo o interesse pelo assunto e surgiram pesquisas e cátedras em todas as grandes Universidades da América e da Europa. Hoje a questão é pacífica no plano científico, e mesmo no religioso, pois a Igreja aceitou a realidade dos fenómenos e interessou-se efectivamente pelas pesquisas. A Parapsicologia avançou rapidamente, seguindo a trilha da Ciência Espírita, sem nenhum desvio.

Vencida a barreira dos preconceitos e das sistemáticas a que se apegavam numerosos cientistas, a Parapsicologia definiu-se como a Ciência do Homem. Rhine, ao aposentar-se na Universidade de Duke, estabeleceu a Fundação para a Pesquisa da Natureza Humana. A Parapsicologia sustenta a natureza espiritual do homem e as suas possibilidades de acção extensiva e intensiva no plano físico e mental ou espiritual. “A mente, que não é física, age sobre a matéria por vias não físicas”, declarou Rhine, apoiado por grandes nomes da Ciência em todo o mundo. Essa declaração mudou o panorama cultural do planeta. Hoje ninguém duvida, quando nasce uma criança, que se trata de um espírito humano reencarnado biologicamente na Terra. Embora ainda existam sectores científicos infensos à nova Ciência, firmou-se no mundo de maneira definitiva. Os cientistas que a negam ou rejeitam são considerados como retrógrados ou se definem a si mesmos como pertencentes a religiões que não devem aceitar os novos princípios.

A morte perdeu o sentido de negação da vida. Os fenómenos Teta, um dos últimos tipos de fenómenos paranormais pesquisados pela Parapsicologia, nada mais são do que as comunicações mediúnicas. Além do trânsito entre a Terra e o Céu – o mais movimentado do mundo – existe agora a comunicação permanente entre os homens e os espíritos. As descobertas físicas no plano das pesquisas sobre a estrutura da matéria mostraram que não vivemos num mundo tridimensional, mas multidimensional. Os que morrem na Terra passam para os planos da esfera semimaterial, de matéria rarefeita, que a circunda, e, conforme o seu grau evolutivo, para as hipóstases espirituais entrevistas por Plotino, na fase helenista da Filosofia Grega. Nas sessões espíritas, em todo o mundo, milhares de pessoas conseguem conversar com amigos e parentes mortos, que dão provas evidentes de sua sobrevivência após a morte. As restrições dos sistemáticos e preconceituosos continuam, mas a realidade impõe-se de tal maneira que essas restrições já diminuíram assustadoramente. A Terra espiritualiza-se, apesar do materialismo das religiões. E a morte já não amedronta milhares dos milhões de criaturas que morrem todos os dias.

Geralmente não se pensa no que isso representa para a Humanidade. Entregues às suas preocupações absorventes do seu dia a dia, homens e mulheres ainda vivem na Terra como há milhões de anos. Cuidam da vida sem se preocuparem com a morte. Essa posição anestésica é útil na Terra, mas desastrosa nos planos espirituais. Nas manifestações de espíritos (fenómenos teta) pode avaliar-se o prejuízo causado às criaturas por essa alienação à matéria. Embriagados pelos seus anseios de conquistas materiais, praticamente tragados pela vida prática, a maioria dos que morrem não têm a menor noção do que seja a morte. Entram em pânico após o trespasse, apegam-se depois a pessoas amigas de suas relações, perturbando-as sem querer ou procurando, através delas, sentirem um pouco da segurança perdida na Terra. Além desses prejuízos, a falta de educação para a morte causa o prejuízo maior dos desesperos, angústias existenciais e loucuras que hoje varrem a Terra em toda a sua extensão. Por outro lado é preciso considerar-se os prejuízos imensos produzidos pela ignorância das finalidades da vida. As próprias Ciências sofrem dessa ignorância, que lhe barra o caminho de descobertas necessárias para a melhoria das condições da vida terrena.

Por mais atilados e dedicados que sejam os cientistas, se não tiverem conhecimento das leis fundamentais que regem o planeta e condicionam a Humanidade, não podem penetrar nas causas dos males e os problemas que enfrentam. É questão pacífica que a falta de conhecimento preciso e amplo do meio em que estamos nos deixa entregues a perigos que não podemos prever. É o que agora mesmo acontece, no caso da poluição perigosíssima do planeta pelas exigências do desenvolvimento industrial. A falta de interesse pela Ecologia mergulhou o mundo numa situação desastrosa, que ainda não sabemos como poderemos superar. A Ciência ateve-se aos efeitos, deixando as causas por conta da Filosofia e da Religião. Esta última fechou-se nos dogmas ilusórios, mandando às calendas a questão fundamental das causas. Entregues aos conhecimentos empíricos da realidade constatada nos efeitos, os homens conseguiram realizar a façanha trágica da poluição total do planeta, com os mais graves prejuízos para a vida humana, bem como os vegetais e os animais. Descuidamos da morte e perdemos a vida. Se não mudarmos urgente de atitude, transformaremos a Terra numa Lua sem atmosfera.

A nossa insistência na consideração escatológica da morte, na sua função essencialmente destruidora – negando-lhe o papel fundamental de controladora da vida e a de renovadora das civilizações –, parece ter provocado uma reacção na nossa própria estrutura ôntica que nos transformou em nadificadores de nós mesmos e de toda a realidade. O estranho privilégio que pretendemos, de sermos os únicos seres condenados ao nada, um Universo em que tudo se renova e se eleva, constitui a mais espantosa contradição de toda a História Humana. Essa contradição monstruosa deforma a figura do homem no mundo que ao contrário de imagem e semelhança de Deus, aparece como a fera mais temível do planeta, onde as feras selvagens são sistematicamente destruídas e devoradas pelo animal dotado de inteligência criadora, sentimento, moral, compreensão de sua espiritualidade e sensibilidade ética e estética. O humanismo apaixonado de Marx, que sonhava sem o saber com o Reino de Deus na Terra, negou-se a si mesmo ao formular a teoria do poder totalitário e absoluto de uma classe social contra as outras. Larissa Reissner, que lutou pelos bolchevistas de armas na mão, mostra-se desolada, nas páginas brilhantes de seu livro Homens e Máquinas, ao referir-se aos campos de trabalhos forçados da URSS, em que antigos e bravos companheiros de luta pagavam sob o poder soviético o preço de suas ilusões para o fortalecimento do Estado-Leviatã de Hobbes. A terrível dialéctica das revoluções sociais materialistas, sem Deus e sem coração, levou o Marxismo ao pelourinho da lei de negação da negação, negando-se a si mesma no processo histórico. Sem o respeito do homem por si mesmo, pela sua condição humana, todas as tentativas de melhorar o mundo acabam na asfixia da liberdade, nadificando o homem depois de transformá-lo em objecto. É essa também a contradição fundamental de Sartre em O Ser e o Nada e na Crítica da Razão DialécticaMas é precisamente das contradições entre a tese e antítese que podemos obter a síntese que nos dá a verdade possível de cada problema.

Os anjos que descem pela escada de Jacob, na alegoria bíblica, representam a tese da proposição existencial – a verdade possível do Céu, ou seja, dos planos divinos, entendendo-se por divino aquilo que supera a condição material. Mas são esses mesmos anjos que voltam para o Céu representando a antítese. O trânsito espacial resulta da síntese humana em que a proposta terrena e a resposta celeste se fundem no processo existencial da transcendência. Por isso Kardec rejeitou as revelações proféticas do passado, individuais e exclusivistas, que geraram as religiões da morte, estabelecendo o princípio das revelações conjugadas, de natureza científica, em que o mundo é a tese, o homem é a antítese e a verdade é a síntese. Essa síntese, como acentuou Léon Denis, é a mundividência espírita, de difícil compreensão para os anjos que descem e ficam na rotina terrena, no círculo vicioso das reencarnações repetitivas. A verdade possível é-lhes interditada, não por condenação divina, mas por opção própria. Quando eles romperem o círculo vicioso poderão compreender essa verdade, a verdade possível, ao alcance do homem que soube transcender-se. Na dialéctica espírita o homem propõe a tese, o espírito responde com a antítese e a Razão elabora a síntese do conhecimento possível. A religião, como ensinou Kardec, é a consequência da revelação espiritual fundida com a revelação científica. A verdade possível tem a sua legitimidade e a sua validade precisamente nessa fusão. Os limites da vida terrena condicionam a realidade humana às possibilidades cognitivas da mente humana actualizada na matéria. O espírito revela um princípio espiritual e o cientista revela a lei terrena a ela correspondente. Só nesse processo de perfeito equilíbrio o homem pode evitar os perigos do misticismo alienante, para viver na Terra em marcha para a transcendência, através da Existência. É esse o processo que permite a fusão dialéctica da Ciência com a Religião, como fundamento de toda a verdade possível na Era Cósmica. Por isso, não insistimos no Espiritismo por sectarismo ou proselitismo, mas pelo facto incontestável de só ele nos oferecer os instrumentos conceptuais necessários à conquista da realidade. Sem a fusão da afectividade com a razão não poderíamos atingir a síntese do conhecimento geral, na fragmentação dos efeitos sem o esclarecimento das causas. O método indutivo da Ciência permite-nos reunir os efeitos para a compreensão possível da causa única e transcendente.

/…


José Herculano Pires – Educação para a Morte, A Escada de Jacob, 13º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

terça-feira, 16 de julho de 2024

apóstolos de verdade ~


CULTO DE ADORAÇÃO A DEUS OU A JESUS (?)

Há muito tempo venho observando que se tornou hábito tanto nas sessões espíritas como nas reuniões, congressos e encontros, a invocação do nome de Jesus tanto no início dos trabalhos como no encerramento, o que, a meu ver, constitui um erro. Se não, vejamos.

As obras da Codificação deixaram bem claro dois pontos importantes: a existência de Deus e a personalidade de Jesus. Assim, para nós, espíritas só kardecistas, Deus é a "inteligência suprema, causa primária de todas as coisas" (L.E. cap. I), cabendo-nos, portanto, cumprir a Lei de Adoração, que "consiste na elevação do nosso pensamento a Deus" (idem, cap. II da parte III). Segundo disseram os Espíritos Superiores a Allan Kardec "é pela adoração que o homem aproxima a sua alma de Deus". Neste sentido, a prece nada mais é do que "um acto de adoração" pois, "orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com Ele". (idem,) E três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar a Deus, pedir-lhe alguma coisa em nosso benefício e dos outros, e agradecer-lhe o que temos recebido " (idem, n. 658 e 659). E Kardec, em "A Génese" (cap. I, nº 13) deixou bem claro que a Revelação Espírita sobre ser científica é também, e, principalmente divina, porque procede directamente de Deus, através dos seus emissários, os Espíritos Superiores sob a direcção do Espírito de Verdade.

Na colectânea de preces espíritas, que Kardec colocou no final de "O evangelho s/o Espiritismo", ele cita várias passagens do Novo Testamento, em que Jesus, o Homem de Nazaré, nos ensina como devemos dirigir-nos a Deus nas nossas preces, a começar pela "Oração dominical", que começa com um veemente apelo ao "Pai nosso que estais no céu". E o próprio Espírito de Santo Agostinho, que, segundo Erasto, Discípulo de São Paulo, foi "um dos maiores divulgadores do Espiritismo", disse que "a prece nos leva ao caminho que nos conduz a Deus". E nas preces que Allan Kardec nos apresenta, no final do seu livro, ele sempre começa invocando a figura de Deus Todo-Poderoso e não de Jesus. Justamente porque, para nós, espíritas não roustainguistas, Jesus não foi, nem é Deus, e sim um Espírito Superior, que, ao encarnar, na Terra, para cumprir uma sagrada missão, tomou um corpo de homem, e viveu trinta e três anos, deixando-nos um grande exemplo e uma sublime mensagem de amor, de paz e de esperança no futuro. Isto ficou bem evidente em "A Génese", cap. XV, que mostra a superioridade da natureza de Jesus, e em "Obras Póstumas", em que o querido mestre lionês nos prova, com todo o rigor científico que o caracterizava, que nem o próprio Jesus se considerava um Deus. É justamente o contrário do que afirmam a Igreja Católica e "Os Quatro Evangelhos de J.B.Roustaing".

E, para concluir, citamos o grande Léon Denis, que, no seu magnífico livro "Depois da morte", declarou o seguinte: "Quanto às teorias que de Jesus fazem uma das três pessoas da Trindade (dogma do Catolicismo) ou um ser puramente fluídico (dogma do docetismo/roustainguismo) uma e outra parecem pouco fundadas, porque Jesus revelou-se homem, sujeito ao temor , aos desfalecimentos. Como nós, homens, sofreu e chorou..." (p. 75). A propósito, tenho aberto, diante de mim, o livro "Doutrina Cristã", escrita pelo padre Francisco Pascucci, onde, na pág. 12, Jesus Cristo aparece como sendo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o que constitui um grande mistério para o Catolicismo Romano. O mesmo se encontra em "Os Quatro Evangelhos" de J. B. Roustaing, onde se lê que Jesus, que já foi criado perfeito, sem mácula, foi concebido pelo Espírito Santo, embora no seio de Maria, sua mãe carnal. Portanto, para os roustainguistas, Jesus também era Deus, embora eles garantam que não era nem Deus, nem homem, apenas um corpo fluídico, um agénere, mas com todas as prerrogativas de um Deus e a aparência de um homem. Por isso mesmo, tem que ser adorado, como se fosse o próprio Deus. Daí, certamente, o hábito que se criou de se invocar Jesus Cristo, nas preces e orações, na abertura e encerramento de qualquer reunião espírita.

Mas é claro que, nas nossas preces, devemos também dirigir-nos a Jesus, na certeza, porém, de que se trata de um intermediário, um intercessor, como Allan Kardec deixou bem evidente em "O Evangelho s/o Espiritismo", cap. XXVII, nº 9)…

O que não podemos nem devemos é continuar por aí, rezando a "Ave, Maria", como fazem os católicos, e como o próprio Chico fez muitas vezes.

NAZARENO TOURINHO ESTÁ CERTO

Em seu livro "Cartas a Jesus" – Edição Especial - disse, com muita propriedade o grande escritor, jornalista e conferencista Nazareno Tourinho, (i) de Belém / PA:

"... o que vem acontecendo, Jesus, é melancólico. Passaram-se vinte séculos depois da tua visita a este mundo. Os Evangelhos foram propagados no território de quase todas as nações, recebendo louvores em aldeias e metrópoles, porém até hoje os homens e as mulheres que te aceitam, de um modo geral, ainda não aprenderam nem sequer a orar a DEUS, como ensinaste: esquecendo o PAI, que está nos Céus, ou seja, em todos os lugares, oram quase sempre para ti, que deves recolher as preces com imensa tristeza, falando para o próprio coração: - Eles nem ao menos começaram a me entender!..." (pág. 18/19).

Bravos, valoroso Companheiro Nazareno Tourinho! É assim que se fala!...

/...


Erasto de Carvalho Prestes, in O Franco Paladino, Julho de 2003 / Órgão de divulgação do Espiritismo codificado pelo mestre Allan Kardec – Culto de Adoração a Deus ou a Jesus (?), 3º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria II – O Céu ~

Se houvesse um Deus – argumentam –, para que serviriam as irregularidades e desproporções enormes de volume e distância entre os planetas e o nosso sistema solar? Porquê essa completa ausência de ordem, de simetria, de beleza? Havemos de convir que é preciso ser um tanto pretensioso para admirar cenografias de bastidores teatrais e recusar ao mesmo tempo a beleza e a simetria às obras da Natureza. Parece-nos mesmo que é a primeira increpação que se faz neste sentido.

De resto, esses senhores não nos oferecem senão negações. Negação de Deus, da alma, do raciocínio e dos seus poderes, sempre, e em tudo, negação. Isso é o que propriamente lhes concerne, e nada mais. A sua pretensa consciência científica é simples burla. Os nossos espirituosos adversários não raro resvalam no plano raso das puerilidades. Um dentre eles adverte que a luz caminha com a velocidade de 75.000 léguas por segundo, achando que é pouco e que é ridículo para um Criador o não poder acelerá-la. Outro acha que a Lua também não gira suficientemente célere. “A Lua – diz o americano Hudson Tuttle – não gira senão uma vez sobre si mesma, enquanto completa a sua revolução em torno da Terra, de sorte que lhe apresenta sempre a mesma face. Assiste-nos o legítimo direito de perguntar porque, pois se houvesse nisso um intuito qualquer, a sua execução deveria ser assinalada.” Na verdade, o Criador foi assaz negligente deixando de admitir esses senhores na intimidade da sua técnica. Já se viu uma coisa assim? Deixá-los em completa ignorância dos fins que se propôs ao fazer rodar tão lerdamente a nossa amável Luazinha!

Mas, de facto: será que Deus não poderia ter tido melhor conduta a benefício de nossa instrução pessoal? Nós! “Por que, perguntamo-nos ainda (i), a força criadora não gravou em linhas de fogo (certo em alemão) o seu nome no céu? Porque não deu aos sistemas siderais uma ordem que nos desse a conhecer, de maneira evidente, a sua intenção e os seus desígnios?” Que estúpida divindade!

Com efeito, senhores, sois admiráveis e a vossa maneira de raciocinar iguala à vossa ciência, o que aliás não é pouco.

Que pena não terdes vós mesmos construído o Universo! Sim, porque então teríeis prevenido todos estes inconvenientes...

Mas, dizei-me: estais bem certos de conhecer integralmente a matéria para afirmar que ela substitui Deus, com vantagem?

Será que ela vos explica completamente o estado do Universo?

Que respondeis? – Sem dúvida, atada não nos é dado saber ao certo porque a matéria tomou tal movimento em tal momento, mas, a Ciência atada não dispõe da última palavra e não é impossível que ela nos revele um dia a época em que nasceram os mundos.” Tal a definitiva resposta desses senhores. Por ela, ainda se confessam um tanto ignorantes.

Que sucederá, então, quando se compenetrarem de que conhecem tudo, em absoluto? Ó Ciência! serão estes os frutos da tua árvore?

Aqui, é bem o caso de confessar, com o próprio Büchner, que a comummente invocada profundeza do espírito alemão é antes perturbação que profundeza de espírito. “O que os alemães chamam filosofia – acrescenta o mesmo escritor – não é mais que mania de jogar com ideias e palavras, e com o que se atribuem o direito de olhar outros povos por cima dos ombros.”

Não há sabedoria, inteligência, ordem, harmonia no Universo.

Semelhante acusação será mesmo feita a sério?

Por nós, temos que é lícito duvidar.

Em Outubro de 1604, uma magnífica estrela surgiu de improviso na constelação da Serpente.

Os astrónomos ficaram muito surpresos, por isso que uma tal aparição parecia contrária à harmonia dos céus. As estrelas variáveis ainda não eram conhecidas. Como, pois, nascera aquela? Fortuitamente? Engendrada ao acaso? Estas as interrogações de Kepler, quando sobreveio um pequeno incidente...

“Ontem – disse ele –, no curso das minhas elucubrações, fui chamado para o jantar. A minha mulher trouxe à mesa uma salada. – Pensas, disse-lhe eu, que, se desde os primórdios da Criação flutuassem no ar, sem ordem nem direcção, pratos de estanho, folhas de alface, grãos de sal, azeite e vinagre e pedaços de ovo cozido, o acaso os juntaria hoje para fazer uma salada? – Não tão boa como esta, seguramente – respondeu-me a bela esposa.”

Ninguém ousou considerar a nova estrela como produto do acaso e hoje sabemos que o acaso não tem guarida no mecanismo dos astros. Kepler viveu adorando a harmonia do mundo e só como extravagância admitia dúvidas a respeito. Os fundadores da Astronomia – CopérnicoGalileuTycho BraheNewton, todos são acordes no mesmo culto de Kepler. (ii)

Não são, portanto, os astrónomos que acusam o céu de falta de harmonia.

Ó mundos esplendorosos! sóis do infinito, e vós, terras habitadas que gravitais em torno desses focos brilhantes, cessai o vosso movimento harmonioso, sustai o vosso curso. A vida vos irradia da fronte, a inteligência mora nas vossas tendas e os vossos campos recebem, dos variados sóis que os iluminam, a seiva fecunda das existências. Sois levados, no infinito, pela mesma soberana mão que sustenta o nosso globo, mercê da suprema lei que inclina o génio à adoração da grande causa. Daqui, seguimos os vossos movimentos, mau grado às inomináveis distâncias que nos separam, e observamos que esses movimentos são regulados, qual os nossos, pelas três regras que a genialidade de Kepler vingou formular. Do fundo abismal dos céus, vós nos ensinais que uma ordem soberana e universal rege os mundos. Vós nos contais a glória de Deus em termos que deixam a perder de vista os com que a proclamava o rei-profeta, escreveis no céu o nome desse ente desconhecido, que nenhuma criatura pode sequer pressentir. Astros de movimentação maravilhosa, gigantescos focos da vida universal, esplendores do céu! – vós nos fazeis genuflectir, como crianças, à vontade divina e os vossos berços balançam confiantes na imensidade, sob o olhar do Omnipotente. Percorreis humildemente a rota a cada qual traçada, ó viajadores celestes! E desde os mais remotos séculos, desde as idades inacessíveis em que saístes do primitivo caos, eis-vos manifestando a previdente sabedoria da lei que vos conduz... Insensatos! massas inertes, globos cegos, brutos noctívagos, que fazeis? Parai, cessai com esse eterno testemunho...

Detende o turbilhão colossal dos vossos cursos múltiplos. Protestai contra a força que vos avassala. Que significa essa obediência servil? Então, filhos da matéria, não será ela a soberana do espaço? Dar-se-á que haja leis inteligentes? Forças directoras? Nunca, jamais. Laborais num erro insigne, ó estrelas do infinito! sois vítimas do mais ridículo ilusionismo...

Escutai, pois: no fundo dos vastos desertos siderais, dormita obscuro um pequenino globo desconhecido. Não tendes acaso percebido, uma por outra vez, entre as miríades de estrelas que branqueiam a Via-Láctea, uma estrelinha de ínfima grandeza?

Pois bem, essa estrelinha, como vós, é também um sol e em torno dele rolam algumas miniaturas de mundos tão pequeninos que rolariam quais grãos de areia, na superfície de um de vós. Ora, sobre um dos mais microscópicos planos desses microscópicos mundículos, há uma raça de racionalistas e, no seio da raça, um núcleo de filósofos que acabam de declarar positivamente, ó magnificências! – que o vosso Deus não existe.

Soberbos pigmeus levantaram-se na ponta dos pés, pensando ver-vos assim de mais perto. Eles vos acenaram para que vos detivésseis e proclamaram, em seguida, que os ouvísseis e que toda a Natureza estava com eles. Em alto e bom som, se proclamam os intérpretes únicos dessa Natureza imensa. A lhes darmos crédito, pertence-lhes, doravante, o ceptro da razão e o futuro do pensamento humano está nas suas mãos. Firmemente convencidos estão eles, não só da verdade, mas, sobretudo, da utilidade de sua descoberta e da benéfica influência resultante para o progresso desta pequena humanidade. Ao demais fizeram constar que todos quantos lhes não compartilhassem a opinião estavam em contradita com a ciência natural e que a melhor qualificação cabível a esses dissidentes retardatários é de ignorantes obcecados. Não vos exponhais, portanto, a serdes tão desfavoravelmente julgadas por esses senhores, ó portentosas estrelas!

Procedei de maneira a distinguir o nosso imperceptível sol, o nosso átomo terrestre, a nossa vermínea racionalidade e, aderindo a esta declaração capital, paralisai o mecanismo do Universo e com ele a dimensão e harmonia; substituí o movimento pelo repouso, a luz pela treva, a vida pela morte e, depois, quando toda a capacidade intelectual for aniquilada, todo o idealismo banido da Natureza, suprimida toda a lei, atrofiada toda a força, o Universo se pulverizará, vós vos dispersareis em pó no bojo da noite infinita, e se o átomo terrestre ainda subsistir, os senhores filósofos, últimos viventes, estarão satisfeitos. Não mais se poderá dizer que haja inteligência na Natureza.

/... 
(i) Kraft und Steft; 8º.
(ii) Quanto mais aprofunda o homem os segredos da Natureza, mais se lhe desvenda a universalidade do plano eterno. “Si stelles, fixae – diz Newton (Phil. nat Principia math, Scholgen) –, sint centra similium systematum, hoec omnia simili consilio constructa suberunt uniuns dominio”. – Cf. também Képler, Harmonices Mundi.


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria II – O Céu 3 de 3, 13º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Diálogos de Kardec ~

§ II — MANIFESTAÇÕES VISUAIS
(in Manifestações dos Espíritos)

16. Por sua natureza e no seu estado normal, o perispírito é invisível, tendo isso de comum com uma imensidade de fluidos que sabemos existir, mas que nunca vimos. Pode também, como alguns fluidos, sofrer modificações que o tornam perceptível à vista, quer por uma espécie de condensação, quer por uma mudança na disposição molecular. Pode mesmo adquirir as propriedades de um corpo sólido e tangível e retomar instantaneamente o seu estado etéreo e invisível. É possível fazer-se ideia desse efeito pelo que acontece com o vapor, que passa do estado de invisibilidade ao estado brumoso, depois ao líquido, em seguida ao sólido e vice-versa.

Esses diferentes estados do perispírito resultam da vontade do Espírito e não de uma causa física exterior, como se dá com os gases. Quando um Espírito aparece, é porque ele põe o seu perispírito no estado apropriado a tornar-se visível. Entretanto, nem sempre é suficiente só a vontade para o fazer visível: é preciso, para que se opere a modificação do perispírito, o concurso de umas tantas circunstâncias que dele independem. É, preciso, ao demais, que ao Espírito seja permitido fazer-se visível a tal pessoa, permissão que nem sempre lhe é concedida, ou somente o é em determinadas circunstâncias, por motivos que nos escapam. (Veja-se: O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, capítulo VI.)

Outra propriedade do perispírito, essa peculiar à sua natureza etérea, é a penetrabilidade. Matéria nenhuma lhe opõe obstáculo; ele as atravessa a todas, como a luz atravessa os corpos transparentes. Daí vem que não há como impedir que os Espíritos entrem num recinto inteiramente fechado. Eles visitam o preso no seu cárcere tão facilmente como visitam a um que está no campo a trabalhar.

17. As manifestações visuais ocorrem ordinariamente durante o sono, por meio dos sonhos: são as visões. As aparições propriamente ditas dão-se no estado de vigília, estando aqueles que as percebem no gozo pleno de suas faculdades e da liberdade de usá-las. Apresentam-se, em geral, sob forma vaporosa e diáfana, algumas vezes vaga e imprecisa. Frequentemente, não passam, à primeira vista, de um clarão esbranquiçado, cujos contornos pouco a pouco se acentuam. Doutras vezes, as formas apresentam-se nitidamente desenhadas, distinguindo-se os mais pequenos traços do rosto, ao ponto de poder descrevê-lo com precisão. Os ademanes e o aspecto assemelham-se aos que o Espírito tinha quando vivo.

18. Podendo assumir todas as aparências, o Espírito se apresenta debaixo daquela que mais reconhecível o possa tornar, se o quiser. É assim que, embora como Espírito nenhuma enfermidade corpórea lhe reste, ele se mostrará estropiado, coxo, ferido com cicatrizes, se isso for necessário a lhe comprovar a identidade. O mesmo se observa com relação ao traje. O dos Espíritos que nada conservam das fraquezas terrenas, a estes de ordinário constam amplos panos flutuantes e de uma cabeleira ondulante e graciosa.

Amiúde os Espíritos apresentam-se com os atributos característicos de sua elevação, como: uma auréola, asas os que podem ser considerados anjos, resplandecente aspecto luminoso, enquanto que outros trajam com o que recordam as suas ocupações terrestres. Assim, um guerreiro aparecerá com a sua armadura, um sábio com os livros, um assassino com um punhal, etc. A figura dos Espíritos superiores é bela, nobre e serena; os mais inferiores têm qualquer coisa de feroz e bestial e, por vezes, ainda mostram vestígios dos crimes que cometeram ou dos suplícios por que passaram, sendo-lhes essas aparências uma realidade, isto é, julgam-se quais aparecem, o que é para eles um castigo.

19. O Espírito que quer ou pode realizar uma aparição toma por vezes uma forma ainda mais precisa, de semelhança perfeita com um sólido corpo humano, de sorte a causar ilusão completa e dar a crer que está ali um ser corpóreo.

Nalguns casos e dado certas circunstâncias, a tangibilidade pode tornar-se real, isto é, pode tocar-se, apalpar a aparição, senti-la resistente como um corpo vivo e com o calor que se observa neste, o que não impede que ela se desvaneça com a rapidez do relâmpago. Pode, pois, uma pessoa estar na presença de um Espírito, trocar com ele palavras e gestos ordinários e supor que se trata de um simples mortal, sem suspeitar sequer que tem diante de si um Espírito.

20. Qualquer que seja o aspecto sob que se apresente um Espírito, ainda que sob forma tangível, pode ele, no instante em que isso se dê, somente ser visível para algumas pessoas. Pode, pois, numa reunião, mostrar-se, apenas, a um ou a diversos dos que nela estejam. De dois indivíduos que se encontrem lado a lado, pode acontecer que um o veja e toque e o outro nem o veja, nem o sinta.

O fenómeno da aparição a uma só pessoa, entre muitas que se encontrem reunidas, explica-se por ser necessária, para que ele se produza, uma combinação do fluido perispiritual do Espírito com o dessa pessoa. E, para que isso se dê, é preciso que haja entre esses fluidos uma espécie de afinidade que permita a combinação. Se o Espírito não encontra a necessária aptidão orgânica, o fenómeno da aparição não pode reproduzir-se; se existe a aptidão, o Espírito tem a liberdade de aproveitá-la ou não. Daí resulta que, se duas pessoas igualmente dotadas quanto a essa aptidão se encontram juntas, pode o Espírito operar a combinação fluídica apenas com aquela das duas a quem ele se queira mostrar. Se não a operar com a outra, esta não o verá. É como se se tratasse de dois indivíduos cujos olhos estivessem vendados: se um terceiro quiser mostrar-se a um dos dois apenas, somente dos olhos desse retirará a venda. A um, porém, que fosse cego, nada adiantaria a retirada da venda: ele, por isso, não adquiriria a faculdade de ver.

21. São muito raras as aparições tangíveis, sendo, no entanto, frequentes as vaporosas. São-no, sobretudo, no momento da morte. O Espírito que se libertou como que tem pressa de ir rever os seus parentes e amigos, quiçá para avisá-los de que acaba de deixar a Terra e dizer-lhes que continua a viver. Recorra cada um às suas lembranças e verificará que muitos factos autênticos desse género, aos quais não foi dada a devida atenção, ocorreram, não somente à noite, mas em pleno dia e em completo estado de vigília.

§ III — TRANSFIGURAÇÃO. INVISIBILIDADE

22. perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades que o dos Espíritos. Como já foi dito, o daquelas não se encontra confinado no corpo: irradia e forma em torno deste uma espécie de atmosfera fluídica. Ora, pode suceder que, em certos casos e dadas as mesmas circunstâncias, ele sofra uma transformação análoga à já descrita: a forma real e material do corpo se desvanece sob aquela camada fluídica, se assim nos podemos exprimir e, tomar por momentos uma aparência inteiramente diversa, mesmo a de outra pessoa ou a do Espírito que combina os seus fluidos com os do indivíduo, podendo também dar a um semblante feio um aspecto bonito e radioso. Tal o fenómeno que se designa pelo nome de “transfiguração”, bastante frequente e que se produz, principalmente, quando as circunstâncias ocorrentes provocam mais abundante expansão de fluido.

O fenómeno da transfiguração pode operar-se com intensidades muito diferentes, conforme o grau de depuração do perispírito, grau que corresponde sempre ao da elevação moral do Espírito. Cinge-se às vezes a uma simples mudança no aspecto geral da fisionomia, enquanto que doutras vezes dá ao perispírito uma aparência luminosa e esplêndida.

A forma material pode consequentemente desaparecer sob o fluido perispirítico, sem que se faça para isso necessário que o fluido assuma outro aspecto. Por vezes, apenas oculta um corpo inerte ou vivo, tornando-o invisível para uma ou para muitas pessoas, como o faria uma camada de vapor.

Tomamos as coisas actuais unicamente como termos de comparação, sem pretendermos uma analogia absoluta, que não existe.

23. Estes fenómenos talvez pareçam singulares, mas somente por não se conhecerem ainda as propriedades do fluido perispiríticoEste é, para nós, um novo corpo, que há de possuir propriedades novas e que não se podem estudar senão pelos processos ordinários da Ciência, mas que não deixam, por isso, de ser propriedades naturais, só tendo de maravilhosa a novidade.

/…


ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos, II MANIFESTAÇÕES VISUAIS, III TRANSFIGURAÇÃO. INVISIBILIDADE, 12º fragmento solto desta obra.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

domingo, 17 de março de 2024

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Motivos de Dificuldade nas Curas ~

   Há curas que se verificam com surpreendente facilidade e rapidez, dando às vítimas de graves perturbações e às suas famílias a impressão de um socorro divino especial. O nosso povo, de formação geralmente católica, está sempre disposto a se deslumbrar com milagres. Não há privilégios numa estrutura orgânica perfeita, como a do Universo, regida por leis infalíveis e teleológicas, ou seja, leis que dirigem tudo no sentido de fins previstos. A cura fácil e rápida decorre dos méritos pessoais do doente, de compensações merecidas por esforços despendidos por ele no seu desenvolvimento espiritual e em favor da evolução humana em geral. O objectivo da vida é o desenvolvimento das potencialidades que trazemos em nós como sementes de angelitude e divindade semeadas na imperfeição humana. Os que compreendem isso, se procuram conscientemente trabalhar para que essas sementes germinem mais depressa, adquirem créditos que lhes são pagos no momento exacto das necessidades. Quando Jesus dizia a um doente: “Perdoados foram os teus pecados”, não era porque ele fizesse um milagre naquele instante, mas porque o doente vencera a sua prova graças aos seus méritos.

   As doenças revelam desajustes da nossa posição existencial. Esses desajustes decorrem da liberdade de que dispomos face às exigências evolutivas. A dor, a angústia, as inibições são como campainhas de alarme prevenindo-nos de abusos ou descuidos. Sem a liberdade de errar não poderíamos desenvolver as nossas potencialidades espirituais. A ideia do castigo divino, do juízo de Deus condenando os que erram é uma maneira humana, antropomórfica, de interpretarmos os acidentes da nossa viagem na astronave planetária que nos faz rodar em torno do Sol. Podemos socorrer-nos dessa imagem para modificar a nossa antiquada maneira de ver e interpretar a nossa precária passagem pela Terra. Somos passageiros de uma nave cósmica, envoltos no escafandro de carne e osso, submetidos a experiências semelhantes às dos astronautas que, não podendo ainda atingir as estrelas, fazem exercícios em órbita planetária. Os acidentes de viagem, as falhas técnicas, as dificuldades, os fracassos perigosos, a dor e a morte dependem da nossa maneira de agir durante a viagem e da nossa perícia ou imperícia, do grau de responsabilidade, de perspicácia, de bom senso, de calma, de amor e respeito ao semelhante que conseguimos desenvolver. Deus, consciência Cósmica, não interfere no nosso aprendizado, mas também não está alheio ao que se passa connosco. Da mesma maneira que um telepata na Lua pode captar as mensagens mentais que lhe sejam enviadas da Terra ou de outras naves espaciais, a mente suprema de Deus capta, naturalmente, ligada a tudo o que se passa no Universo, nos seus mínimos detalhes. Se necessário, as entidades ao seu serviço serão enviadas a socorrer-nos. Por toda a parte os seres espirituais agem continuamente no universo. Como dizia o filósofo e vidente Tales de Mileto, na Grécia Antiga: “O mundo está cheio de deuses, que trabalham na terra, nas águas e no ar.” É fácil compreendermos isso se nos lembrarmos da infinidade de seres invisíveis e visíveis que enchem o Universo agindo em todos os sentidos, sob uma orientação secreta, como robôs vivos, para manterem as condições adequadas em cada organismo dos reinos naturais e em nós mesmos. Se isso se passa no plano material denso, com muito mais facilidade podemos imaginar essa vigilância infinita no plano espiritual. A Providência Divina é o modelo supremo, o arquétipo, de todas as formas de providência que os homens organizam na Terra. As grosseiras imagens de Deus e da sua acção no Universo, que as religiões nos deram no passado, são agora substituídas por visões mais lógicas, racionais e justas, graças aos progressos do homem, no conhecimento progressivo e incessante da realidade em que vivemos. São retrógrados todos aqueles que ainda se apegam, nos nossos dias, às ideias ingénuas de um passado de milhares de anos. Mal iniciamos os primeiros passos na Era Cósmica e já podemos compreender melhor a beleza e a ordem da Obra de Deus e a importância suprema dos seus objectivos que são, na verdade, o destino de cada um de nós.

   As dificuldades nas curas pela terapia espírita decorrem, portanto, das nossas atitudes e acções no passado e no presente. Se prejudicámos a evolução de criaturas e comunidades nos nossos avatares anteriores, é natural que agora tenhamos de suportar a sua companhia e sofrer a sua inferioridade no nosso ambiente individual. Nenhum mago ou sacerdote nos livrará disso, nenhum exorcismo nos libertará, mas a nossa compreensão espiritual do problema e o nosso desejo natural de reparar os erros do passado nos tornará livres através dos entendimentos possíveis que os fenómenos mediúnicos nos propiciam. Como ensinou Jesus, devemos aproveitar a oportunidade de estarmos no mesmo caminho com o adversário, para nos entendermos com ele. Se soubermos fazer isso com amor, chegaremos ao fim da caminhada comum como companheiros e amigos, prontos para novas conquistas na nossa evolução. A terapia espírita dá-nos o socorro possível na medida exacta da nossa capacidade de recebê-lo. Não é, porém, por meio de actos vulgares e interesseiros de caridade e nem de medidas artificiais de reforma interior que chegaremos a esse resultado. Lembremo-nos do jovem rico que procurou Jesus, perguntando-lhe o que faltava para ele merecer o Reino dos Céus. Jesus tocou-lhe no ponto decisivo da questão – o desapego dos bens terrenos –, mandando-o vender tudo o que possuía e distribuir o resultado aos pobres. O jovem entristeceu e retirou-se da presença do Mestre. Não era a fortuna em si que o prejudicava, mas o seu apego a ela, a sua incapacidade de compreender ainda o verdadeiro sentido da vida. Por isso também a definição de Paulo sobre a caridade, num arrebatamento espiritual do apóstolo, ainda não foi compreendida por nós. O apego às condições passageiras da vida terrena, aos seus bens transitórios, perecíveis, impede-nos de abrir o coração e a mente para a suprema e imperecível grandeza da realidade espiritual. Dar esmolas, socorrer as necessidades do próximo são apenas meios de aprendizagem que nos levam à libertação. Temos de ir além, de abrir a nossa mente e o nosso coração para ver, sentir, brotando em nós próprios, sem nenhum interesse inferior, a fonte oculta que não está no poço de Jacob, mas na realidade ôntica, espiritual, profunda da pobre mulher samaritana. Temos em nós toda a riqueza do Universo, com todas as suas constelações e todas as hipóstases da teoria de Plotino, mas continuamos apegados às vaidades e intrigas da Terra. A terapia espírita, que é a mesma de Cristo, oferece-nos a água-viva da sua nova concepção do ser e do mundo. Enquanto essa água não jorra em nós, não seremos curados.

/…


José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Motivos de Dificuldade nas Curas (1 de 2), 13º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

pensamento e vontade ~


Conclusões |

(das forças ideoplásticas)

Está terminada a parte demonstrativa desta obra.

Resta-me falar das grandes transformações que devem dar-se, necessariamente, nos domínios das ciências biológicas, fisiológicas, psicológicas e filosóficas, graças ao novo conceito relativo à natureza do espírito humano, conceito esse absolutamente revolucionário, que os factos impõem.

Neste sentido, assim se exprime o Doutor Gustave Geley:

“Que quer dizer o vocábulo ideoplastia? Quer dizer moldagem da matéria viva, feita pela ideia.

A noção da ideoplastia, imposta pelos factos, é capital.

A ideia não é mais um atributo, um produto da matéria. Ao contrário, ela, a ideia, é que modela a matéria e lhe confere a forma e os seus atributos.

Noutros termos, a matéria, a substância única resolve-se, em última análise, num dinamismo superior que a condiciona, estando esse dinamismo também na dependência da ideia.

Ora, isso é o soçobro total da fisiologia materialista.

Disse-o Camille Flammarion, no seu livro admirável As forças naturais desconhecidas, que estas manifestações “confirmam o que, ao demais, sabemos, isto é, que a explicação puramente mecânica da Natureza é insuficiente e existe no Universo alguma outra coisa, além da pretensa matéria. Não é a matéria que rege o mundo, mas um elemento dinâmico e psíquico.”

Sim, as materializações ideoplásticas demonstram que o ser vivo não pode considerar-se um simples complexo celular.

Ele, o ser vivo, aparece-nos, antes de tudo, como um dínamo-psiquismo e o complexo celular que lhe forma o corpo não é mais que um retracto ideoplástico desse dínamo-psiquismo.

Assim, as formas materializadas, nas sessões, se beneficiam do mesmo processo de geração.

Não são mais nem menos miraculosas, nem supranormais, ou, se o preferem, são-no igualmente.

É o mesmo milagre ideoplástico que forma, a expensas do corpo materno, mãos, rosto, vísceras, todos os tecidos, o feto integral; como a expensas do corpo do médium se formam rostos, mãos, ou todo o organismo de uma materialização.

Esta singular analogia, entre a fisiologia normal e a dita supranormal, encontra-se até nos mínimos detalhes.

Um dos principais é este: – a ligação do ectoplasma ao médium por um laço nutritivo, verdadeiro cordão umbilical, comparável ao que liga o embrião ao organismo materno.” (Do Inconsciente ao Consciente, págs. 69-70).

Depois de haver evidenciado as grandiosas consequências biológicas, fisiológicas e psicológicas que a nova teoria sobre a potência criadora da ideia acarretará, julga-se o doutor Gustave Geley no dever de completá-la, notando que a faculdade ideoplástica, inerente à ideia, não representa mais que simples unidade entre as múltiplas faculdades supranormais, que constituem os atributos espirituais do Eu integral, sobrevivente. Diz ele:

“Certo é, pois, que o organismo, longe de ser o organizador da ideia, tal como ensina a teoria materialista, é, muito ao contrário, condicionado pela ideia e, só aparece como produto ideoplástico do que existe de essencial no ser, ou seja, o seu psiquismo subconsciente.

Mas, isto ainda não é tudo.

Esse subconsciente que em si tem as capacidades directoras e centralizadoras do Eu em todas as suas representações, tem também o poder de se elevar acima dessas mesmas representações.

As faculdades telepáticas de acção mento-mental ou de lucidez, são representações que escapam precisamente das condições dinâmicas ou materiais que as regem.

O subconsciente paira mesmo acima do quadro das representações, isto é, do tempo e do espaço, na intuição, na genialidade, na clarividência.

Assim, a tese sustentada por Carl du Prel nas suas obras de admirável intuição; que Frederic Myers baseou em sólida documentação e nós próprios fazemos sobre um raciocínio não contestado, oferece-se agora, em toda a sua amplitude, ao exame e discussão dos sábios e pensadores de boa fé.

Sem reserva, pode afirmar-se:

– Há no ser vivo um dinamismo psíquico que constitui a essência do “Eu” e, que se não pode ligar ao funcionamento dos centros nervosos.

Esse dínamo-psiquismo essencial não é condicionado pelo organismo, mas, muito pelo contrário, tudo se passa como se organismo e funcionamento cerebral fossem por ele condicionados.” (Idem, págs. 142-143).

Esta nova definição científica do Ser vivente decorre irrefutável e segura, deste grande acontecimento: o de haver sido demonstrada pelos factos.

É a definição pela qual o Pensamento e a Vontade são forças plásticas e organizadoras.

E tão grande é o valor teórico dessa demonstração, que abre uma nova época científica, por desmoronar totalmente, antes de tudo, as imponentes, mas fictícias construções laboriosamente estabelecidas por numerosos grupos de investigações pertencentes a todos os ramos científicos, decalcadas no postulado da omnipotência da matéria, quando, na verdade, deverá o templo alicerçar-se no postulado diametralmente contrário, da omnipotência do espírito.

Advertirei, todavia, que a demolição do velho edifício científico não significa, de qualquer modo, que os representantes do saber tenham trabalhado em vão por todo um século.

Longe disso, o novo templo do saber há de ser reconstruído com os materiais preciosos retirados da demolição do templo velho.

Esses materiais eram bons, mas o fundamento estava mal colocado, uma vez que assente sobre as areias enganadoras das aparências fenoménicas, de mistura a prejuízos de escola e, por isso mesmo, fatalmente destinados a esboroarem-se, logo que a realidade, oculta sob as aparências, emergisse de uma análise mais profunda dos fenómenos vitais.

/…


Ernesto BozzanoPensamento e Vontade – Conclusões (1 de 4), 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgard Maxence)