quinta-feira, 6 de junho de 2024

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria II – O Céu ~

Se houvesse um Deus – argumentam –, para que serviriam as irregularidades e desproporções enormes de volume e distância entre os planetas e o nosso sistema solar? Porquê essa completa ausência de ordem, de simetria, de beleza? Havemos de convir que é preciso ser um tanto pretensioso para admirar cenografias de bastidores teatrais e recusar ao mesmo tempo a beleza e a simetria às obras da Natureza. Parece-nos mesmo que é a primeira increpação que se faz neste sentido.

De resto, esses senhores não nos oferecem senão negações. Negação de Deus, da alma, do raciocínio e dos seus poderes, sempre, e em tudo, negação. Isso é o que propriamente lhes concerne, e nada mais. A sua pretensa consciência científica é simples burla. Os nossos espirituosos adversários não raro resvalam no plano raso das puerilidades. Um dentre eles adverte que a luz caminha com a velocidade de 75.000 léguas por segundo, achando que é pouco e que é ridículo para um Criador o não poder acelerá-la. Outro acha que a Lua também não gira suficientemente célere. “A Lua – diz o americano Hudson Tuttle – não gira senão uma vez sobre si mesma, enquanto completa a sua revolução em torno da Terra, de sorte que lhe apresenta sempre a mesma face. Assiste-nos o legítimo direito de perguntar porque, pois se houvesse nisso um intuito qualquer, a sua execução deveria ser assinalada.” Na verdade, o Criador foi assaz negligente deixando de admitir esses senhores na intimidade da sua técnica. Já se viu uma coisa assim? Deixá-los em completa ignorância dos fins que se propôs ao fazer rodar tão lerdamente a nossa amável Luazinha!

Mas, de facto: será que Deus não poderia ter tido melhor conduta a benefício de nossa instrução pessoal? Nós! “Por que, perguntamo-nos ainda (i), a força criadora não gravou em linhas de fogo (certo em alemão) o seu nome no céu? Porque não deu aos sistemas siderais uma ordem que nos desse a conhecer, de maneira evidente, a sua intenção e os seus desígnios?” Que estúpida divindade!

Com efeito, senhores, sois admiráveis e a vossa maneira de raciocinar iguala à vossa ciência, o que aliás não é pouco.

Que pena não terdes vós mesmos construído o Universo! Sim, porque então teríeis prevenido todos estes inconvenientes...

Mas, dizei-me: estais bem certos de conhecer integralmente a matéria para afirmar que ela substitui Deus, com vantagem?

Será que ela vos explica completamente o estado do Universo?

Que respondeis? – Sem dúvida, atada não nos é dado saber ao certo porque a matéria tomou tal movimento em tal momento, mas, a Ciência atada não dispõe da última palavra e não é impossível que ela nos revele um dia a época em que nasceram os mundos.” Tal a definitiva resposta desses senhores. Por ela, ainda se confessam um tanto ignorantes.

Que sucederá, então, quando se compenetrarem de que conhecem tudo, em absoluto? Ó Ciência! serão estes os frutos da tua árvore?

Aqui, é bem o caso de confessar, com o próprio Büchner, que a comummente invocada profundeza do espírito alemão é antes perturbação que profundeza de espírito. “O que os alemães chamam filosofia – acrescenta o mesmo escritor – não é mais que mania de jogar com ideias e palavras, e com o que se atribuem o direito de olhar outros povos por cima dos ombros.”

Não há sabedoria, inteligência, ordem, harmonia no Universo.

Semelhante acusação será mesmo feita a sério?

Por nós, temos que é lícito duvidar.

Em Outubro de 1604, uma magnífica estrela surgiu de improviso na constelação da Serpente.

Os astrónomos ficaram muito surpresos, por isso que uma tal aparição parecia contrária à harmonia dos céus. As estrelas variáveis ainda não eram conhecidas. Como, pois, nascera aquela? Fortuitamente? Engendrada ao acaso? Estas as interrogações de Kepler, quando sobreveio um pequeno incidente...

“Ontem – disse ele –, no curso das minhas elucubrações, fui chamado para o jantar. A minha mulher trouxe à mesa uma salada. – Pensas, disse-lhe eu, que, se desde os primórdios da Criação flutuassem no ar, sem ordem nem direcção, pratos de estanho, folhas de alface, grãos de sal, azeite e vinagre e pedaços de ovo cozido, o acaso os juntaria hoje para fazer uma salada? – Não tão boa como esta, seguramente – respondeu-me a bela esposa.”

Ninguém ousou considerar a nova estrela como produto do acaso e hoje sabemos que o acaso não tem guarida no mecanismo dos astros. Kepler viveu adorando a harmonia do mundo e só como extravagância admitia dúvidas a respeito. Os fundadores da Astronomia – CopérnicoGalileuTycho BraheNewton, todos são acordes no mesmo culto de Kepler. (ii)

Não são, portanto, os astrónomos que acusam o céu de falta de harmonia.

Ó mundos esplendorosos! sóis do infinito, e vós, terras habitadas que gravitais em torno desses focos brilhantes, cessai o vosso movimento harmonioso, sustai o vosso curso. A vida vos irradia da fronte, a inteligência mora nas vossas tendas e os vossos campos recebem, dos variados sóis que os iluminam, a seiva fecunda das existências. Sois levados, no infinito, pela mesma soberana mão que sustenta o nosso globo, mercê da suprema lei que inclina o génio à adoração da grande causa. Daqui, seguimos os vossos movimentos, mau grado às inomináveis distâncias que nos separam, e observamos que esses movimentos são regulados, qual os nossos, pelas três regras que a genialidade de Kepler vingou formular. Do fundo abismal dos céus, vós nos ensinais que uma ordem soberana e universal rege os mundos. Vós nos contais a glória de Deus em termos que deixam a perder de vista os com que a proclamava o rei-profeta, escreveis no céu o nome desse ente desconhecido, que nenhuma criatura pode sequer pressentir. Astros de movimentação maravilhosa, gigantescos focos da vida universal, esplendores do céu! – vós nos fazeis genuflectir, como crianças, à vontade divina e os vossos berços balançam confiantes na imensidade, sob o olhar do Omnipotente. Percorreis humildemente a rota a cada qual traçada, ó viajadores celestes! E desde os mais remotos séculos, desde as idades inacessíveis em que saístes do primitivo caos, eis-vos manifestando a previdente sabedoria da lei que vos conduz... Insensatos! massas inertes, globos cegos, brutos noctívagos, que fazeis? Parai, cessai com esse eterno testemunho...

Detende o turbilhão colossal dos vossos cursos múltiplos. Protestai contra a força que vos avassala. Que significa essa obediência servil? Então, filhos da matéria, não será ela a soberana do espaço? Dar-se-á que haja leis inteligentes? Forças directoras? Nunca, jamais. Laborais num erro insigne, ó estrelas do infinito! sois vítimas do mais ridículo ilusionismo...

Escutai, pois: no fundo dos vastos desertos siderais, dormita obscuro um pequenino globo desconhecido. Não tendes acaso percebido, uma por outra vez, entre as miríades de estrelas que branqueiam a Via-Láctea, uma estrelinha de ínfima grandeza?

Pois bem, essa estrelinha, como vós, é também um sol e em torno dele rolam algumas miniaturas de mundos tão pequeninos que rolariam quais grãos de areia, na superfície de um de vós. Ora, sobre um dos mais microscópicos planos desses microscópicos mundículos, há uma raça de racionalistas e, no seio da raça, um núcleo de filósofos que acabam de declarar positivamente, ó magnificências! – que o vosso Deus não existe.

Soberbos pigmeus levantaram-se na ponta dos pés, pensando ver-vos assim de mais perto. Eles vos acenaram para que vos detivésseis e proclamaram, em seguida, que os ouvísseis e que toda a Natureza estava com eles. Em alto e bom som, se proclamam os intérpretes únicos dessa Natureza imensa. A lhes darmos crédito, pertence-lhes, doravante, o ceptro da razão e o futuro do pensamento humano está nas suas mãos. Firmemente convencidos estão eles, não só da verdade, mas, sobretudo, da utilidade de sua descoberta e da benéfica influência resultante para o progresso desta pequena humanidade. Ao demais fizeram constar que todos quantos lhes não compartilhassem a opinião estavam em contradita com a ciência natural e que a melhor qualificação cabível a esses dissidentes retardatários é de ignorantes obcecados. Não vos exponhais, portanto, a serdes tão desfavoravelmente julgadas por esses senhores, ó portentosas estrelas!

Procedei de maneira a distinguir o nosso imperceptível sol, o nosso átomo terrestre, a nossa vermínea racionalidade e, aderindo a esta declaração capital, paralisai o mecanismo do Universo e com ele a dimensão e harmonia; substituí o movimento pelo repouso, a luz pela treva, a vida pela morte e, depois, quando toda a capacidade intelectual for aniquilada, todo o idealismo banido da Natureza, suprimida toda a lei, atrofiada toda a força, o Universo se pulverizará, vós vos dispersareis em pó no bojo da noite infinita, e se o átomo terrestre ainda subsistir, os senhores filósofos, últimos viventes, estarão satisfeitos. Não mais se poderá dizer que haja inteligência na Natureza.

/... 
(i) Kraft und Steft; 8º.
(ii) Quanto mais aprofunda o homem os segredos da Natureza, mais se lhe desvenda a universalidade do plano eterno. “Si stelles, fixae – diz Newton (Phil. nat Principia math, Scholgen) –, sint centra similium systematum, hoec omnia simili consilio constructa suberunt uniuns dominio”. – Cf. também Képler, Harmonices Mundi.


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria II – O Céu 3 de 3, 13º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Diálogos de Kardec ~

§ II — MANIFESTAÇÕES VISUAIS
(in Manifestações dos Espíritos)

16. Por sua natureza e no seu estado normal, o perispírito é invisível, tendo isso de comum com uma imensidade de fluidos que sabemos existir, mas que nunca vimos. Pode também, como alguns fluidos, sofrer modificações que o tornam perceptível à vista, quer por uma espécie de condensação, quer por uma mudança na disposição molecular. Pode mesmo adquirir as propriedades de um corpo sólido e tangível e retomar instantaneamente o seu estado etéreo e invisível. É possível fazer-se ideia desse efeito pelo que acontece com o vapor, que passa do estado de invisibilidade ao estado brumoso, depois ao líquido, em seguida ao sólido e vice-versa.

Esses diferentes estados do perispírito resultam da vontade do Espírito e não de uma causa física exterior, como se dá com os gases. Quando um Espírito aparece, é porque ele põe o seu perispírito no estado apropriado a tornar-se visível. Entretanto, nem sempre é suficiente só a vontade para o fazer visível: é preciso, para que se opere a modificação do perispírito, o concurso de umas tantas circunstâncias que dele independem. É, preciso, ao demais, que ao Espírito seja permitido fazer-se visível a tal pessoa, permissão que nem sempre lhe é concedida, ou somente o é em determinadas circunstâncias, por motivos que nos escapam. (Veja-se: O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, capítulo VI.)

Outra propriedade do perispírito, essa peculiar à sua natureza etérea, é a penetrabilidade. Matéria nenhuma lhe opõe obstáculo; ele as atravessa a todas, como a luz atravessa os corpos transparentes. Daí vem que não há como impedir que os Espíritos entrem num recinto inteiramente fechado. Eles visitam o preso no seu cárcere tão facilmente como visitam a um que está no campo a trabalhar.

17. As manifestações visuais ocorrem ordinariamente durante o sono, por meio dos sonhos: são as visões. As aparições propriamente ditas dão-se no estado de vigília, estando aqueles que as percebem no gozo pleno de suas faculdades e da liberdade de usá-las. Apresentam-se, em geral, sob forma vaporosa e diáfana, algumas vezes vaga e imprecisa. Frequentemente, não passam, à primeira vista, de um clarão esbranquiçado, cujos contornos pouco a pouco se acentuam. Doutras vezes, as formas apresentam-se nitidamente desenhadas, distinguindo-se os mais pequenos traços do rosto, ao ponto de poder descrevê-lo com precisão. Os ademanes e o aspecto assemelham-se aos que o Espírito tinha quando vivo.

18. Podendo assumir todas as aparências, o Espírito se apresenta debaixo daquela que mais reconhecível o possa tornar, se o quiser. É assim que, embora como Espírito nenhuma enfermidade corpórea lhe reste, ele se mostrará estropiado, coxo, ferido com cicatrizes, se isso for necessário a lhe comprovar a identidade. O mesmo se observa com relação ao traje. O dos Espíritos que nada conservam das fraquezas terrenas, a estes de ordinário constam amplos panos flutuantes e de uma cabeleira ondulante e graciosa.

Amiúde os Espíritos apresentam-se com os atributos característicos de sua elevação, como: uma auréola, asas os que podem ser considerados anjos, resplandecente aspecto luminoso, enquanto que outros trajam com o que recordam as suas ocupações terrestres. Assim, um guerreiro aparecerá com a sua armadura, um sábio com os livros, um assassino com um punhal, etc. A figura dos Espíritos superiores é bela, nobre e serena; os mais inferiores têm qualquer coisa de feroz e bestial e, por vezes, ainda mostram vestígios dos crimes que cometeram ou dos suplícios por que passaram, sendo-lhes essas aparências uma realidade, isto é, julgam-se quais aparecem, o que é para eles um castigo.

19. O Espírito que quer ou pode realizar uma aparição toma por vezes uma forma ainda mais precisa, de semelhança perfeita com um sólido corpo humano, de sorte a causar ilusão completa e dar a crer que está ali um ser corpóreo.

Nalguns casos e dado certas circunstâncias, a tangibilidade pode tornar-se real, isto é, pode tocar-se, apalpar a aparição, senti-la resistente como um corpo vivo e com o calor que se observa neste, o que não impede que ela se desvaneça com a rapidez do relâmpago. Pode, pois, uma pessoa estar na presença de um Espírito, trocar com ele palavras e gestos ordinários e supor que se trata de um simples mortal, sem suspeitar sequer que tem diante de si um Espírito.

20. Qualquer que seja o aspecto sob que se apresente um Espírito, ainda que sob forma tangível, pode ele, no instante em que isso se dê, somente ser visível para algumas pessoas. Pode, pois, numa reunião, mostrar-se, apenas, a um ou a diversos dos que nela estejam. De dois indivíduos que se encontrem lado a lado, pode acontecer que um o veja e toque e o outro nem o veja, nem o sinta.

O fenómeno da aparição a uma só pessoa, entre muitas que se encontrem reunidas, explica-se por ser necessária, para que ele se produza, uma combinação do fluido perispiritual do Espírito com o dessa pessoa. E, para que isso se dê, é preciso que haja entre esses fluidos uma espécie de afinidade que permita a combinação. Se o Espírito não encontra a necessária aptidão orgânica, o fenómeno da aparição não pode reproduzir-se; se existe a aptidão, o Espírito tem a liberdade de aproveitá-la ou não. Daí resulta que, se duas pessoas igualmente dotadas quanto a essa aptidão se encontram juntas, pode o Espírito operar a combinação fluídica apenas com aquela das duas a quem ele se queira mostrar. Se não a operar com a outra, esta não o verá. É como se se tratasse de dois indivíduos cujos olhos estivessem vendados: se um terceiro quiser mostrar-se a um dos dois apenas, somente dos olhos desse retirará a venda. A um, porém, que fosse cego, nada adiantaria a retirada da venda: ele, por isso, não adquiriria a faculdade de ver.

21. São muito raras as aparições tangíveis, sendo, no entanto, frequentes as vaporosas. São-no, sobretudo, no momento da morte. O Espírito que se libertou como que tem pressa de ir rever os seus parentes e amigos, quiçá para avisá-los de que acaba de deixar a Terra e dizer-lhes que continua a viver. Recorra cada um às suas lembranças e verificará que muitos factos autênticos desse género, aos quais não foi dada a devida atenção, ocorreram, não somente à noite, mas em pleno dia e em completo estado de vigília.

§ III — TRANSFIGURAÇÃO. INVISIBILIDADE

22. perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades que o dos Espíritos. Como já foi dito, o daquelas não se encontra confinado no corpo: irradia e forma em torno deste uma espécie de atmosfera fluídica. Ora, pode suceder que, em certos casos e dadas as mesmas circunstâncias, ele sofra uma transformação análoga à já descrita: a forma real e material do corpo se desvanece sob aquela camada fluídica, se assim nos podemos exprimir e, tomar por momentos uma aparência inteiramente diversa, mesmo a de outra pessoa ou a do Espírito que combina os seus fluidos com os do indivíduo, podendo também dar a um semblante feio um aspecto bonito e radioso. Tal o fenómeno que se designa pelo nome de “transfiguração”, bastante frequente e que se produz, principalmente, quando as circunstâncias ocorrentes provocam mais abundante expansão de fluido.

O fenómeno da transfiguração pode operar-se com intensidades muito diferentes, conforme o grau de depuração do perispírito, grau que corresponde sempre ao da elevação moral do Espírito. Cinge-se às vezes a uma simples mudança no aspecto geral da fisionomia, enquanto que doutras vezes dá ao perispírito uma aparência luminosa e esplêndida.

A forma material pode consequentemente desaparecer sob o fluido perispirítico, sem que se faça para isso necessário que o fluido assuma outro aspecto. Por vezes, apenas oculta um corpo inerte ou vivo, tornando-o invisível para uma ou para muitas pessoas, como o faria uma camada de vapor.

Tomamos as coisas actuais unicamente como termos de comparação, sem pretendermos uma analogia absoluta, que não existe.

23. Estes fenómenos talvez pareçam singulares, mas somente por não se conhecerem ainda as propriedades do fluido perispiríticoEste é, para nós, um novo corpo, que há de possuir propriedades novas e que não se podem estudar senão pelos processos ordinários da Ciência, mas que não deixam, por isso, de ser propriedades naturais, só tendo de maravilhosa a novidade.

/…


ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos, II MANIFESTAÇÕES VISUAIS, III TRANSFIGURAÇÃO. INVISIBILIDADE, 12º fragmento solto desta obra.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

domingo, 17 de março de 2024

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Motivos de Dificuldade nas Curas ~

   Há curas que se verificam com surpreendente facilidade e rapidez, dando às vítimas de graves perturbações e às suas famílias a impressão de um socorro divino especial. O nosso povo, de formação geralmente católica, está sempre disposto a se deslumbrar com milagres. Não há privilégios numa estrutura orgânica perfeita, como a do Universo, regida por leis infalíveis e teleológicas, ou seja, leis que dirigem tudo no sentido de fins previstos. A cura fácil e rápida decorre dos méritos pessoais do doente, de compensações merecidas por esforços despendidos por ele no seu desenvolvimento espiritual e em favor da evolução humana em geral. O objectivo da vida é o desenvolvimento das potencialidades que trazemos em nós como sementes de angelitude e divindade semeadas na imperfeição humana. Os que compreendem isso, se procuram conscientemente trabalhar para que essas sementes germinem mais depressa, adquirem créditos que lhes são pagos no momento exacto das necessidades. Quando Jesus dizia a um doente: “Perdoados foram os teus pecados”, não era porque ele fizesse um milagre naquele instante, mas porque o doente vencera a sua prova graças aos seus méritos.

   As doenças revelam desajustes da nossa posição existencial. Esses desajustes decorrem da liberdade de que dispomos face às exigências evolutivas. A dor, a angústia, as inibições são como campainhas de alarme prevenindo-nos de abusos ou descuidos. Sem a liberdade de errar não poderíamos desenvolver as nossas potencialidades espirituais. A ideia do castigo divino, do juízo de Deus condenando os que erram é uma maneira humana, antropomórfica, de interpretarmos os acidentes da nossa viagem na astronave planetária que nos faz rodar em torno do Sol. Podemos socorrer-nos dessa imagem para modificar a nossa antiquada maneira de ver e interpretar a nossa precária passagem pela Terra. Somos passageiros de uma nave cósmica, envoltos no escafandro de carne e osso, submetidos a experiências semelhantes às dos astronautas que, não podendo ainda atingir as estrelas, fazem exercícios em órbita planetária. Os acidentes de viagem, as falhas técnicas, as dificuldades, os fracassos perigosos, a dor e a morte dependem da nossa maneira de agir durante a viagem e da nossa perícia ou imperícia, do grau de responsabilidade, de perspicácia, de bom senso, de calma, de amor e respeito ao semelhante que conseguimos desenvolver. Deus, consciência Cósmica, não interfere no nosso aprendizado, mas também não está alheio ao que se passa connosco. Da mesma maneira que um telepata na Lua pode captar as mensagens mentais que lhe sejam enviadas da Terra ou de outras naves espaciais, a mente suprema de Deus capta, naturalmente, ligada a tudo o que se passa no Universo, nos seus mínimos detalhes. Se necessário, as entidades ao seu serviço serão enviadas a socorrer-nos. Por toda a parte os seres espirituais agem continuamente no universo. Como dizia o filósofo e vidente Tales de Mileto, na Grécia Antiga: “O mundo está cheio de deuses, que trabalham na terra, nas águas e no ar.” É fácil compreendermos isso se nos lembrarmos da infinidade de seres invisíveis e visíveis que enchem o Universo agindo em todos os sentidos, sob uma orientação secreta, como robôs vivos, para manterem as condições adequadas em cada organismo dos reinos naturais e em nós mesmos. Se isso se passa no plano material denso, com muito mais facilidade podemos imaginar essa vigilância infinita no plano espiritual. A Providência Divina é o modelo supremo, o arquétipo, de todas as formas de providência que os homens organizam na Terra. As grosseiras imagens de Deus e da sua acção no Universo, que as religiões nos deram no passado, são agora substituídas por visões mais lógicas, racionais e justas, graças aos progressos do homem, no conhecimento progressivo e incessante da realidade em que vivemos. São retrógrados todos aqueles que ainda se apegam, nos nossos dias, às ideias ingénuas de um passado de milhares de anos. Mal iniciamos os primeiros passos na Era Cósmica e já podemos compreender melhor a beleza e a ordem da Obra de Deus e a importância suprema dos seus objectivos que são, na verdade, o destino de cada um de nós.

   As dificuldades nas curas pela terapia espírita decorrem, portanto, das nossas atitudes e acções no passado e no presente. Se prejudicámos a evolução de criaturas e comunidades nos nossos avatares anteriores, é natural que agora tenhamos de suportar a sua companhia e sofrer a sua inferioridade no nosso ambiente individual. Nenhum mago ou sacerdote nos livrará disso, nenhum exorcismo nos libertará, mas a nossa compreensão espiritual do problema e o nosso desejo natural de reparar os erros do passado nos tornará livres através dos entendimentos possíveis que os fenómenos mediúnicos nos propiciam. Como ensinou Jesus, devemos aproveitar a oportunidade de estarmos no mesmo caminho com o adversário, para nos entendermos com ele. Se soubermos fazer isso com amor, chegaremos ao fim da caminhada comum como companheiros e amigos, prontos para novas conquistas na nossa evolução. A terapia espírita dá-nos o socorro possível na medida exacta da nossa capacidade de recebê-lo. Não é, porém, por meio de actos vulgares e interesseiros de caridade e nem de medidas artificiais de reforma interior que chegaremos a esse resultado. Lembremo-nos do jovem rico que procurou Jesus, perguntando-lhe o que faltava para ele merecer o Reino dos Céus. Jesus tocou-lhe no ponto decisivo da questão – o desapego dos bens terrenos –, mandando-o vender tudo o que possuía e distribuir o resultado aos pobres. O jovem entristeceu e retirou-se da presença do Mestre. Não era a fortuna em si que o prejudicava, mas o seu apego a ela, a sua incapacidade de compreender ainda o verdadeiro sentido da vida. Por isso também a definição de Paulo sobre a caridade, num arrebatamento espiritual do apóstolo, ainda não foi compreendida por nós. O apego às condições passageiras da vida terrena, aos seus bens transitórios, perecíveis, impede-nos de abrir o coração e a mente para a suprema e imperecível grandeza da realidade espiritual. Dar esmolas, socorrer as necessidades do próximo são apenas meios de aprendizagem que nos levam à libertação. Temos de ir além, de abrir a nossa mente e o nosso coração para ver, sentir, brotando em nós próprios, sem nenhum interesse inferior, a fonte oculta que não está no poço de Jacob, mas na realidade ôntica, espiritual, profunda da pobre mulher samaritana. Temos em nós toda a riqueza do Universo, com todas as suas constelações e todas as hipóstases da teoria de Plotino, mas continuamos apegados às vaidades e intrigas da Terra. A terapia espírita, que é a mesma de Cristo, oferece-nos a água-viva da sua nova concepção do ser e do mundo. Enquanto essa água não jorra em nós, não seremos curados.

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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Motivos de Dificuldade nas Curas (1 de 2), 13º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

pensamento e vontade ~


Conclusões |

(das forças ideoplásticas)

Está terminada a parte demonstrativa desta obra.

Resta-me falar das grandes transformações que devem dar-se, necessariamente, nos domínios das ciências biológicas, fisiológicas, psicológicas e filosóficas, graças ao novo conceito relativo à natureza do espírito humano, conceito esse absolutamente revolucionário, que os factos impõem.

Neste sentido, assim se exprime o Doutor Gustave Geley:

“Que quer dizer o vocábulo ideoplastia? Quer dizer moldagem da matéria viva, feita pela ideia.

A noção da ideoplastia, imposta pelos factos, é capital.

A ideia não é mais um atributo, um produto da matéria. Ao contrário, ela, a ideia, é que modela a matéria e lhe confere a forma e os seus atributos.

Noutros termos, a matéria, a substância única resolve-se, em última análise, num dinamismo superior que a condiciona, estando esse dinamismo também na dependência da ideia.

Ora, isso é o soçobro total da fisiologia materialista.

Disse-o Camille Flammarion, no seu livro admirável As forças naturais desconhecidas, que estas manifestações “confirmam o que, ao demais, sabemos, isto é, que a explicação puramente mecânica da Natureza é insuficiente e existe no Universo alguma outra coisa, além da pretensa matéria. Não é a matéria que rege o mundo, mas um elemento dinâmico e psíquico.”

Sim, as materializações ideoplásticas demonstram que o ser vivo não pode considerar-se um simples complexo celular.

Ele, o ser vivo, aparece-nos, antes de tudo, como um dínamo-psiquismo e o complexo celular que lhe forma o corpo não é mais que um retracto ideoplástico desse dínamo-psiquismo.

Assim, as formas materializadas, nas sessões, se beneficiam do mesmo processo de geração.

Não são mais nem menos miraculosas, nem supranormais, ou, se o preferem, são-no igualmente.

É o mesmo milagre ideoplástico que forma, a expensas do corpo materno, mãos, rosto, vísceras, todos os tecidos, o feto integral; como a expensas do corpo do médium se formam rostos, mãos, ou todo o organismo de uma materialização.

Esta singular analogia, entre a fisiologia normal e a dita supranormal, encontra-se até nos mínimos detalhes.

Um dos principais é este: – a ligação do ectoplasma ao médium por um laço nutritivo, verdadeiro cordão umbilical, comparável ao que liga o embrião ao organismo materno.” (Do Inconsciente ao Consciente, págs. 69-70).

Depois de haver evidenciado as grandiosas consequências biológicas, fisiológicas e psicológicas que a nova teoria sobre a potência criadora da ideia acarretará, julga-se o doutor Gustave Geley no dever de completá-la, notando que a faculdade ideoplástica, inerente à ideia, não representa mais que simples unidade entre as múltiplas faculdades supranormais, que constituem os atributos espirituais do Eu integral, sobrevivente. Diz ele:

“Certo é, pois, que o organismo, longe de ser o organizador da ideia, tal como ensina a teoria materialista, é, muito ao contrário, condicionado pela ideia e, só aparece como produto ideoplástico do que existe de essencial no ser, ou seja, o seu psiquismo subconsciente.

Mas, isto ainda não é tudo.

Esse subconsciente que em si tem as capacidades directoras e centralizadoras do Eu em todas as suas representações, tem também o poder de se elevar acima dessas mesmas representações.

As faculdades telepáticas de acção mento-mental ou de lucidez, são representações que escapam precisamente das condições dinâmicas ou materiais que as regem.

O subconsciente paira mesmo acima do quadro das representações, isto é, do tempo e do espaço, na intuição, na genialidade, na clarividência.

Assim, a tese sustentada por Carl du Prel nas suas obras de admirável intuição; que Frederic Myers baseou em sólida documentação e nós próprios fazemos sobre um raciocínio não contestado, oferece-se agora, em toda a sua amplitude, ao exame e discussão dos sábios e pensadores de boa fé.

Sem reserva, pode afirmar-se:

– Há no ser vivo um dinamismo psíquico que constitui a essência do “Eu” e, que se não pode ligar ao funcionamento dos centros nervosos.

Esse dínamo-psiquismo essencial não é condicionado pelo organismo, mas, muito pelo contrário, tudo se passa como se organismo e funcionamento cerebral fossem por ele condicionados.” (Idem, págs. 142-143).

Esta nova definição científica do Ser vivente decorre irrefutável e segura, deste grande acontecimento: o de haver sido demonstrada pelos factos.

É a definição pela qual o Pensamento e a Vontade são forças plásticas e organizadoras.

E tão grande é o valor teórico dessa demonstração, que abre uma nova época científica, por desmoronar totalmente, antes de tudo, as imponentes, mas fictícias construções laboriosamente estabelecidas por numerosos grupos de investigações pertencentes a todos os ramos científicos, decalcadas no postulado da omnipotência da matéria, quando, na verdade, deverá o templo alicerçar-se no postulado diametralmente contrário, da omnipotência do espírito.

Advertirei, todavia, que a demolição do velho edifício científico não significa, de qualquer modo, que os representantes do saber tenham trabalhado em vão por todo um século.

Longe disso, o novo templo do saber há de ser reconstruído com os materiais preciosos retirados da demolição do templo velho.

Esses materiais eram bons, mas o fundamento estava mal colocado, uma vez que assente sobre as areias enganadoras das aparências fenoménicas, de mistura a prejuízos de escola e, por isso mesmo, fatalmente destinados a esboroarem-se, logo que a realidade, oculta sob as aparências, emergisse de uma análise mais profunda dos fenómenos vitais.

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Ernesto BozzanoPensamento e Vontade – Conclusões (1 de 4), 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgard Maxence)

sábado, 13 de janeiro de 2024

apóstolos de verdade ~


Música, uma necessidade pedagógica |

A música está em desuso no mundo actual, pois o que se ouve em geral é um arremedo de música, imposto pela mídia, mercadejado por gravadoras que desejam lucro fácil e rápido. O povo está deseducado para o ouvir. Sertanojo, funk, pagodão e outros excrementos poluem aos ouvidos. A maioria dos jovens desconhece que somos a terra de Caymmi e Tom JobimMozart e Beethoven, nem pensar. A não ser que alguma canção daqueles (como foi Pela luz dos olhos teus de Jobim) vire tema de novela da globo. Então, salva-se algo da ignorância e do esquecimento.

Entretanto, a música não é um apetrecho postiço na vida humana, é respiro vital da alma, é canal de expressão de sentimento e sensibilidade, sem o qual o espírito se embota e perde em altura cultural e espiritual. A música é patrimônio de um povo, da humanidade toda e precisa ser passada, reconhecida, cultivada para as novas gerações, sob pena de regressarmos à barbárie.

Mas é preciso saber apreciar o que é bom, o que tem complexidade harmônica, ritmo rico, poesia bem feita… e só se pode aprender isso através da educação. Por isso é inconcebível uma escola sem música.

Assim, é digno de celebração o fato de que a partir desse ano de 2011, as escolas públicas brasileiras estão obrigadas a inserir a música em seu currículo, pela lei nº 11.769, de 2008, sancionada pelo presidente Lula (eis uma coisa bem feita por ele).

A música deveria entrar pela porta da frente da escola e ocupar um lugar de destaque e não ser entendida como um detalhe postiço do currículo.

Como acreditamos numa educação interdisciplinar, que mexa simultaneamente com todas as áreas do conhecimento, toque ao mesmo tempo todos os sentidos e desperte o interesse de crianças com diferentes tipos de inteligência e vocação – a música ocupa aí um lugar central, pois ela pode ser o ponto de partida e o ponto de chegada de um bom projeto interdisciplinar.

A música pode ser o eixo de congregação e intercâmbio de toda a escola, em corais, recitais, concertos, bailados… mas não essa coisa morna de dançazinhas ensaiadas e comandadas por professoras de má vontade, para pais e mães tirarem fotinhos (como são as festas juninas, as festas das nações e que tais!). É preciso professores que tenham cultura musical, que saibam quem é Pixinguinha e Louis ArmstrongBach e Villa-Lobos. Que saibam como levar isso para as crianças, mostrando um trecho da Flauta Mágica de Mozart, um Singing in the Rain com Gene Kelly ou o velho Caymmi cantando Minha Jangada vai sair pro mar. Há métodos próprios para introduzir as crianças no que é bom e belo. Deve ser feito em doses homeopáticas, com as canções mais acessíveis. Não devemos começar a mostrar o que é ópera com um Richard Wagner ou introduzir música orquestral com uma peça atonal. Mas também não se deve vulgarizar e mostrar clássicos com ritmo de rock ou a  Rainha da Noite com Edson Cordeiro.

Sensibilidade, sutileza, sensatez e bom gosto – eis o que é desejável, para que a criança entre no mundo da boa música, com gosto e prazer, e queira mais. O objetivo dessa introdução da música na escola não é que todos saiam músicos (embora é bom que se descubram e se incentivem os talentos), mas que todos se tornem apreciadores da música, sensíveis, cultos e com isso dilatem a alma, sejam mais criativos e tenham um recanto de canto onde repousar.

Em outros países do mundo, na Europa e nos Estados Unidos, há uma cultura de se cantar em conjunto. Quase todo mundo na vida já participou de algum coral e quando se juntam amigos e famílias, canta-se e canta-se afinado. Isso faz bem ao espírito. Apesar de sermos um povo tão criativo e musical, perdemos essa dimensão, acachapados pela incultura da televisão, que não só tirou das famílias a conversa, mas também a música. Desliguemos a rede Globo e ouçamos música em casa. Cumpramos a lei e coloquemos música na escola e vai haver uma melhora geral na inteligência, na cultura, uma queda de violência e uma elevação dos espíritos.

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Abaixo um exemplo de algo delicado: uma Lied de Mozart, para crianças, de que fiz uma versão para o português. (Lied significa canção em alemão; é um gênero musical erudito geralmente para voz e piano, feito com poemas tirados da literatura, onde canto e instrumento interagem de maneira rica. O piano não é mero acompanhamento da voz, mas entretece a música junto com a linha melódica feita pela canto.)




SAUDADES DA PRIMAVERA

Vem logo, primavera

e traz um novo frescor!

E faz brotar na terra

perfumes, cores e flor!

Eu quero olhar de mansinho

miosótis e manacás

e ver pelo caminho

a relva bordada de paz!

Verdade é que na terra

em que por bem eu nasci

eterna primavera

vigora e brilha aqui!

Mas quando foge o inverno

Assopram ares tão bons!

Setembro amigo e terno

traz novas nuanças e tons!




Música: Wolfgang Amadeus Mozart • Versão para o português: Dora Incontri • Arranjo: Luciano Vazzoler & Moacyr Camargo• Voz: Dora Incontri • Piano: Luciano Vazzoler • Vozes das crianças: Beatriz Gross Barboza, Julia Fidelis Oriola, Letícia Barbosa Magalhães,  Luísa Carvalho Grossi de Almeida e Paola de Angelis • Regente do coro infantil: Bia de Luca

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Dora IncontriMúsica, uma necessidade pedagógica, publicado no seu blogue – Dora Incontri | Educação, cultura, arte e espiritualidade / 13 de junho de 2011, primeiro fragmento.
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, lápis e giz de Alexandre Cabanel)
(música em: Saudades da PrimaveraLied de Mozart, versão e cointerpretação de Dora Incontri)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


O País de Gales. A Escócia. A obra dos bardos 
(Cap. III)

Ilha de Man oferece-nos também um belo exemplo de ressurreição céltica. Ela possui um parlamento autónomo, uma sociedade preservadora da língua Manx, jornais, serviços religiosos de Manx, escolas, etc.

Quanto à Cornualha Inglesao seu dialecto, o córnico, também não está extinto como se pretende, pois um certo número de famílias ainda o falam.

Assim escreveu Le Goffic:

“O cornualhense, como o bretão de França, a quem se assemelha tão estranhamente, permaneceu em comunicação permanente com o Além. Ele vive, como um bretão, numa espécie de familiaridade dolorosa com os espíritos dos mortos, consultando-os, ouvindo-os e compreendendo-os.”

O País de Gales é considerado como o mais antigo e o mais importante foco ou escola de Bardismo. Eis o que Jean Reynaud escreveu sobre esse assunto na bela obra L’Esprit de la Gaule, página 310:

“Pode dizer-se que os druidas, convertendo-se ao Cristianismo, não se extinguiram totalmente no País de Gales, como na nossa Bretanha e noutros países de sangue gaulês. Eles tiveram, logo em seguida, uma sociedade, solidamente constituída, dedicada, principalmente na aparência, ao culto da poesia nacional, mas que, sob o manto poético, conservou com fidelidade a herança intelectual da antiga Gália: é a Sociedade Bárdica do País de Gales, que se manteve como sociedade ora secreta, ora legalizada, desde a conquista normanda e, após ter, primitivamente, transmitido por via oral a sua doutrina, como imitação da prática dos druidas, decidiu, durante a Idade Média, confiar secretamente à escrita as partes mais essenciais dessa herança.”

Na realidade, o bardo é um poeta, um orador inspirado. Podemos compará-lo aos profetas do oriente, a esses grandes predestinados sobre quem passa o sopro do invisível.

Na nossa época o título de bardo perdeu o seu prestígio, devido ao abuso realizado, mas se voltarmos ao sentido primitivo do termo, notaremos a presença de importantes personagens como TaliesinAneurinLlywarch-Hen, etc. Após tantos séculos, os seus sotaques viris, quando eles afirmam o seu patriotismo e a sua fé, fazem ainda vibrar as almas célticas.

Não devemos ver na obra dos antigos bardos um simples exercício do pensamento, um jogo do espírito ou uma música de palavras. Os seus versos e os seus cantos constituem um comentário e um desenvolvimento das Tríades, um ensino, uma arte que abre perspectivas imensas aos destinos da alma, elevando-a para Deus. Ela confere aos seus intérpretes uma espécie de auréola e de apostolado.

Esse ensino representa um adiantamento enorme sobre os tempos futuros. Tomemos, por exemplo, Le Chant du Monde (O Canto do Mundo), de Taliesin (segundo Barddas, cad. Goddeu, um livro celta). Diz este bardo:

“Grande viajante é o mundo; enquanto ele desliza sem parar, permanece sempre na sua estrada e, quanto à forma dessa estrada é admirável para que o mundo nunca saia dela!”

Ele descreve assim o caminho do globo através do espaço, muito antes das descobertas de Galileu que puseram fim ao antigo preconceito bíblico da imobilidade da Terra.

Sejam quais forem as constatações que se levantaram sobre a data exacta dessas obras, não se pode duvidar de que elas não sejam bem anteriores à ciência da Idade Média; o mesmo acontece com o conjunto das Tríades que afirmam a natureza espiritual do ser humano, a evolução da alma por vidas sucessivas através dos renascimentos, verdade que a ciência actual começa aos poucos a entrever.

Esses inspirados também eram videntes. As suas faculdades psíquicas lhe permitiam mergulhar no futuro e aí ler as vicissitudes, os reveses, as provas dolorosas que aguardavam os povos celtas. Mas eles sabiam que o ideal gravado neles não podia perecer. Eles sabiam que o sofrimento tempera as almas e que, mais tarde, esses povos restituiriam às civilizações, pervertidas pelos excessos do materialismo, o conceito elevado que constitui todo o valor da vida e mostra ao homem o caminho recto e seguro.

Os grandes antepassados voltaram mais de uma vez sobre a Terra, seja na Inglaterra, seja na França, em novos corpos. Eles tiveram nomes ilustres que nós poderíamos citar, mas abusaram tanto desses nomes célebres que preferimos deixar aos pesquisadores o cuidado de reconhecê-los entre aqueles que conduziram bem alto, através dos séculos, a tocha da arte poética e do pensamento radiante.

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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO III – O País de Gales. A Escócia. A obra dos bardos 3 de 3, 13º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, OssianDesaixKléberMarceauHocheChampionnet, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

O Espiritismo na Arte ~


Parte IV

a França, a sua missão; a alma Céltica ~

(abril de 1922)

O talento da França é feito de equilíbrio e de harmonia. Apesar de certas faltas no passado, pode dizer-se que ele muitas vezes serviu de mediador entre as escolas mais diversas, entre os sistemas mais opostos. Ainda hoje, na ordem política, por exemplo, a França se mantém entre a reacção e a anarquia. Foi frequente assim, no decorrer da sua história, nos domínios da arte e do pensamento.

Vimos que a sua língua, que é uma das expressões do seu talento, apresenta as qualidades de precisão e de flexibilidade que fazem dela um maravilhoso agente de difusão e de propaganda. Ela sabe emprestar às ideias, ao mesmo tempo, a força e a graça e, é por aí que ela pode contribuir largamente para iniciar o mundo no conhecimento das leis superiores.

A literatura e a poesia francesas, melhor que todas as outras, souberam reproduzir todas as nuances do pensamento e do sentimento; a ternura, a energia, o encanto, a doçura infinita do ideal, numa palavra, todos os sonhos sobre-humanos da arte e da beleza.

O luminoso talento da França tem por papel, principalmente, reunir e fundir, numa média equilibrada, os dois talentos diferentes, o do Sul e o do Norte, da raça latina e das raças setentrionais. É, talvez, ao encontro desses elementos opostos, ao fluxo e refluxo dessas correntes diferentes, que se deve a mobilidade do seu espírito e a instabilidade por vezes enfadonha de seus desígnios; porém, sempre após os períodos de crise, em que o equilíbrio nela é alterado, o espírito nacional retorna a sua actividade e ao seu progresso.

A sua missão, portanto, parece ser a de fornecer aos outros povos, de espírito mais lento, as indicações, as directrizes das quais eles tiram uma aplicação prática e fecunda. É nesse sentido que a França é um agente maravilhoso de progresso e de evolução humana, pelo seu cuidado com a verdade e com a luz e, pela beleza das formas com as quais ela se compraz em revesti-las.

São essas qualidades que lhe darão um papel preponderante na difusão do Espiritismo filosófico e moral, enquanto que os países anglo-saxões estão interessados em representá-lo, principalmente sob o seu aspecto científico e experimental.

Após as suas horas de tentativas e de obscuridade, o génio da França, que não é outro senão a alma sempre viva e imortal da Gália, se ergue e, com um vigoroso esforço, se liberta dos atoleiros terrestres e se lança em direcção ao céu, para ali descobrir novos horizontes, novas perspectivas sobre o futuro e mostrá-las como objectivo à humanidade em marcha.

Para todos aqueles que sabem estudar e compreender o génio da nossa raça, sob o véu do cepticismo que por vezes a recobre, a alma céltica reaparece e, nas horas solenes, são os seus impulsos que determinam as resoluções viris, os actos decisivos.

É ela que inspira Jeanne d’Arc e pelas suas mãos livra a França do jugo dos ingleses; ainda é ela que provoca essa poderosa explosão espiritualista que, em época revolucionária, leva a todos a noção essencial de liberdade, assegurando assim o triunfo da alma moderna sobre as teorias deprimentes do determinismo e do fatalismo. É sempre ela que, nos dias sombrios de 1914, revela todas as forças vivas da nação e a conduz, heróica e sublime, diante do despotismo germânico e do militarismo teutónico (i); mais recentemente ainda, a alma céltica coloca a nação como um dique em oposição à onda vermelha do bolchevismo (ii).

A França tem maiores deveres que as outras nações, porque recebeu maiores dons, mais brilhantes qualidades. Assim, as suas responsabilidades são mais pesadas e mais extensas. Hoje, uma tarefa, mais importante do que todas as outras, se desenha para ela no mundo inteiro. Trata-se de iniciar os homens nas belezas de um futuro mais vasto, mais rico que aquele que as concepções filosóficas e religiosas puderam entrever. Trata-se de guiar a ascensão humana em direcção ao grau mais elevado do pensamento, onde se acendem os clarões de um novo dia, a aurora de uma civilização mais nobre e mais digna, livre dos flagelos que, até aqui, entravaram o caminho áspero e doloroso da humanidade.

As outras nações têm, cada uma, a sua tarefa importante, mas a França ultrapassa a todas pela variedade de suas aptidões e de suas actividades. É por isso que o mundo inteiro tem os olhos postos sobre ela, esperando o sinal que traçará a sua nova evolução.

Ó alma viva da França, desliga-te das pesadas influências materiais que ainda te oprimem, eleva-te até esse nobre ideal que é a tua missão adquirir e propagar no mundo! Somente quando a nova revelação for conhecida por todos os povos, quando ela tiver dado à sua expressão a forma magnífica do teu talento, é que os homens compreenderão o seu grande destino, bem como os deveres e os encargos que ele lhes impõe e, a justiça e a paz enfim reinarão sobre a Terra regenerada. E por esse meio o teu papel aparecerá aos olhos de todos. Tu serás respeitada pelas gerações e, a tua glória se iluminará com um brilho que nada poderá mais impedir!

/…
(i) Teutónico: relativo aos teutões, povo antigo da Germânia que habitava as margens do mar Báltico; relativo à Alemanha e aos alemães. (N.T., segundo o D.K.L.)
(ii) Bolchevismo: doutrina da ala esquerda maioritária do Partido Operário Social-Democrata Russo; o mesmo que Comunismo. (N.T., segundo o D.K.L.)


LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IV – A França, a sua missão; A alma céltica, 15º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Le Livre de la Paix, pintura de Edgard Maxence