segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Espiritismo na Arte ~


Parte II

– Comportamento de outros espíritos diante de o Esteta

As duas lições de o Esteta que vamos ler, têm por assunto a inspiração, considerada na sua causa e nos seus efeitos gerais, tanto na Terra como no espaço.

Nas nossas reuniões, essas lições prosseguem com regularidade a cada semana, porém, ainda ignoramos o nome e a personalidade verdadeira do seu autor. No entanto, observamos que os espíritos familiares do nosso grupo se afastam com respeito e apenas se calam diante dele; o guia do médium vem, após a partida de o Esteta, e diz-nos algumas palavras de amizade e de encorajamento, declarando-se “acanhado pela superioridade e a irradiação desse grande espírito”.

Qualquer que seja o valor do estilo, nós nos empenhamos em reproduzir fielmente o pensamento do autor, evitando com cuidado tudo o que pudesse alterar o seu sentido, mesmo em benefício da forma.

Terceira lição, de O Esteta

– Inspiração: causa, efeitos, formas – A verdadeira arte

|29 de Novembro de 1921|

“Eu gostaria de vos falar sobre a inspiração. É um procedimento de transmissão da luz divina; ela se produz sob diversas formas, porquanto a arte, com as suas inúmeras ramificações, se aproxima em graus diversos desse plano divino do qual vos falo.

Quando, no espaço, o espírito de um artista decidiu reencarnarleva com ele as amizades de seres queridos que, por causas diversas, devem ficar no espaço. Mas, por intuição, esses amigos enviarão a esse ser, aprisionado na carne, fluidos provenientes do seu meio e ideias que darão novo impulso à parcela de talento que existe nele e que, sob o domínio da carne, estaria bastante propensa a ficar adormecida.

A inspiração tem duas formas: uma pessoal, outra mais ampla, transmitida por espíritos elevados que haurem a arte das fontes mais puras e comunicam os seus efeitos a um ser que os emprega de forma ordenada pelos seus próprios meios e naturalmente.

A inspiração pessoal é a mais comum. Fica sabendo que um ser que é capaz de experimentar esse fenómeno já é evoluído; a sua evolução se realizará por etapas. Em cada uma das suas vidas, ele terá um período mais marcante que outros, aquele em que o trabalho foi mais obstinado e, por consequência, mais produtivo; dele resultarão aquisições que se acumularão no perispírito. Na existência seguinte, essas aquisições voltarão a aparecer sob a forma de um dom inato. Esse dom, para os que não são iniciados, se denominará inspiração. Mas essa inspiração não tem senão um carácter humano; em geral ela é fria, não sendo animada pelas luzes divinas.

Para tornar essa inspiração mais bela, mais elevada, é preciso impregná-la de ideal e de fluidos que emanam do foco divino.

Chegamos assim à segunda forma de inspiração. Fica sabendo que os amigos invisíveis velam pelos seres que eles sentem que são dignos de serem protegidos e encorajados. Do espaço, os espíritos superiores pressentem a pequena chama criada pela inspiração pessoal. Para torná-la mais brilhante, pela prece, se Deus o permite, esses guias irão buscar, nas esferas onde reinam radiações maravilhosas, os elementos da vida criadora que alimentarão essa pequena chama e dela farão brotar centelhas de talento.

Pode acontecer que o corpo humano seja um pouco perturbado por essas forças. Quando os átomos físicos não podem resistir a esse influxo, produz-se uma desordem no organismo. É o que explica os homens de talento terem, algumas vezes, falta de equilíbrio.

Eis a explicação material do fenómeno. O que sentirá o ser sob o efeito de uma inspiração? Se ele é suficientemente sensível, quando uma ideia, um pensamento que ele não podia prever, aflorar ao seu cérebro, ele o assimilará como um receptor telefónico que recebe ondas eléctricas e vibra à sua passagem. Ele é um pintor? De repente, sobre a sua paleta, ele encontrará o segredo da mistura das cores que irá produzir uma nova cor, adaptando-se admiravelmente ao movimento de traços que torna o rosto expressivo ou ao relevo que deve ser dado a um quadro que está em execução. Ele é um pensador? Um escritor? Um poeta? Desse mesmo cérebro brotarão a ideia, a imagem, a expressão que devem realçar e ilustrar a obra que tem necessidade de revestir uma forma mais elevada e mais colorida. Ele é um músico? No momento em que menos esperar, um acorde, uma série harmónica, uma melodia, virão, pela sua suavidade, a sua pureza, a sua riqueza, dar à sua composição, um brilho que ela não teria conseguido adquirir. Se o ser humano é, desde o seu nascimento, tornado por um ideal, podes calcular os novos tesouros que se ligarão a ele. A arte ideal é uma das formas da prece, o seu pensamento atrairá amigos invisíveis muito elevados; a ele será fácil fazer realçar o brilho da chama acesa anteriormente e, da alma do artista, brotarão obras inspiradas pelo belo e pelo divino.

Geralmente é necessário que um artista fique num meio são, porque a chama criadora que o anima pode extinguir-se, sob a influência de um ambiente fluídico carregado de moléculas materiais. A verdadeira arte não procura os prazeres da mesa, da carne, e aqueles dos quais o espírito e o cérebro não participam.

No vosso país, a França, tens artistas maravilhosos que criaram obras admiráveis em todos os domínios. Os artistas da Renascença constituíram, devo dizer, uma plêiade inspirada por um número não menor de grandes artistas do espaço. Esses artistas da Renascença haviam encontrado a sua fonte criadora na Antiguidade grega e latina. Após terem vivido na Grécia, no Egipto e em Roma, retornaram ao espaço. Lá seus conhecimentos se ampliaram, adquiriram um brilho, uma aparência particular e, quando reencarnaram, deixaram o paganismo para celebrar, em todos os domínios, a glória de Deus, da qual eles se tinham impregnado durante a sua última passagem nas esferas celestes. As suas vidas anteriores sobre a Terra haviam sido consagradas a um trabalho de base, isto é, à preparação dessa pequena chama que devia ser como um dos pólos atractivos da essência divina. É por essa razão que a obra dos pintores, dos escultores e dos músicos dessa época tem essa cor de piedade, de doçura, de quietude que não encontras na época presente.

Na minha próxima exposição, eu vos falarei da inspiração na vossa época. Nalguns ela também é bela, porém, as características não são as mesmas. A inspiração actual, onde se misturam novos pontos de vista, deve contribuir para uma transformação geral da humanidade, por uma evolução no pensamento, aproximando-se e comunicando-se com o mundo invisível, intermediário do plano divino.”

/…


LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte II – Comportamento de outros espíritos diante de o Esteta, Terceira lição (de O Esteta) – Inspiração: causa, efeitos, formas – A verdadeira arte, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Virgem e o Menino com Santa Ana, 1508 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

literatura do além-túmulo ~

Capítulo I

Entre as numerosas formas que revestem as manifestações mediúnicas de natureza inteligente, não nos devemos esquecer das que consistem na produção de obras literárias, às vezes bem volumosas, ditadas psicograficamente por entidades que dizem ser espíritos de mortos.

 Há necessidade de notar que grande número dessas produções mediúnicas não resistem a uma análise crítica, mesmo a mais superficial, de tal modo é evidente serem apenas o produto de uma elaboração onírico-subconsciente, de natureza grosseira e mais ou menos incoerente, com personalizações sonambúlicas que se formaram por sugestão ou auto-sugestão.

Essas personificações devem, em toda a parte, nesses casos, ter origem nos recursos do talento e da instrução própria às personalidades conscientes de que provêm, com a consequência de que as obras literárias dos supostos espíritos que julgam comunicar-se são, algumas vezes, tão rudimentares, que traem a sua origem, sem que se possa ter a menor dúvida a esse respeito.

Não é menos verdade que, ao lado dos pseudo-médiuns, encontram-se médiuns autênticos, por intermédio dos quais se obtêm, às vezes, obras literárias de grande mérito, que levam a uma reflexão séria e não podem ser atribuídas a uma elaboração subconsciente da cultura geral, muito limitada, que se reconhece nos médiuns que, materialmente, as escreveram. É então necessário deduzir logicamente daí que essas produções provenham de intervenções estranhas aos médiuns, tanto mais se se consideram não somente as provas que se deduzem da forma, estilo, técnica individual da obra literária e também da identificação de escrita, como outras provas não menos importantes.

Essas provas consistem, sobretudo, em indicações pessoais ignoradas de todos os assistentes e das quais se verifica, em seguida, a veracidade; em citações não menos verídicas e desconhecidas de todos, com referência a elementos históricos, geográficos, topográficos, filológicos, de natureza complexa e quase sempre rara, enfim, em descrições minuciosas, coloridas e vivas, de meios e costumes referentes a povos bem antigos, circunstâncias que não poderiam ser esquecidas pela hipótese cómoda da emergência subconsciente de noções adquiridas e, em seguida, esquecidas (criptomnesia).

Proponho-me, neste estudo, analisar as principais manifestações desse género, principalmente porque foram obtidos, ultimamente, ditados mediúnicos que revestem alto valor teórico, num sentido nitidamente espírita.

O que se obteve, no passado, nessa categoria de manifestações, só tem rara importância teórica; de qualquer forma, não me absterei de dizer algumas palavras a respeito delas.

Começo por um caso de transição referente a uma célebre obra literária. Tudo o que se pode dizer a seu respeito é que não é fácil considerar se as modalidades, pelas quais veio à luz, devem ser atribuídas a intervenções estranhas à médium ou bem a um estado de superexcitação psíquica, bastante frequente nas “crises de inspiração”, às quais são sujeitas as mentalidades geniais. Em todo o caso, trata-se de um facto interessante e instrutivo, dadas a notoriedade da autora e a influência considerável que a obra literária em questão exerceu sobre acontecimentos históricos e sociais de uma grande nação.

Quero referir-me à célebre escritora sra. Harriet Beecher-Stowe e ao seu bem conhecido romance A Cabana do Pai Tomás, o qual muito contribuiu para a abolição da escravatura nos Estados Unidos da América.

O meio familiar em que viveu Harriet Beecher-Stowe pode ser considerado como favorável a intervenções espirituais.

O prof. James Robertson assim fala na Light (1904, pág. 338):

“O marido, prof. Stowe, era médium vidente. Ele viu muitas vezes, à sua volta, fantasmas de defuntos, de maneira tão nítida e natural que por vezes lhe era difícil discernir os espíritos “encarnados” dos “desencarnados”.”

Quanto à sra. Beecher-Stowe, ela era também grande sensitiva, “sujeita a crises frequentes de depressão nervosa com fases de ausência psíquica”. Ela acolhera com entusiasmo o movimento espírita que se iniciara na América, havia alguns anos.

Relativamente ao seu grande romance A Cabana do Pai Tomás, extraio da Light (1898, pág. 96) as seguintes informações:

“A sra. Howard, amiga íntima da sra. Beecher-Stowe, forneceu essas curiosas indicações relativamente às modalidades nas quais o famoso romance foi escrito. As duas amigas estavam em viagem e pararam em Hartford para passarem a noite em casa da sra. Perkins, irmã da sra. Stowe. Elas dormiram no mesmo quarto. A sra. Howard despiu-se imediatamente e ficou, do seu leito, observando a sua amiga ocupada em pentear, automaticamente, os seus cabelos anelados, deixando transparecer no seu rosto intensa concentração mental. Nesse ponto, a narradora continua assim:

Finalmente Harriet pareceu sair desse estado e disse-me:

– Recebi, nesta manhã, cartas de meu irmão Henry que se mostra bastante preocupado a meu respeito. Ele teme que todos esses elogios, que toda esta notoriedade que se criou em torno de meu nome, produzam o efeito de provocar em mim uma chama de orgulho que possa prejudicar a minha alma de cristã.

Dizendo isto, pousou o pente, exclamando:

– O meu irmão é, incontestavelmente, uma bela alma, porém ele não se preocuparia tanto com esse caso se soubesse que esse livro não foi escrito por mim.

– Como – perguntei eu, estupefacta –, não foi você quem escreveu A Cabana do Pai Tomás?

– Não – respondeu ela –, não fiz outra coisa senão tomar nota do que via.

– Que está a dizer? Então você nunca foi aos Estados do Sul?

– É verdade, todas as cenas do meu romance, uma após as outra, se me desenrolaram diante dos olhos e eu descrevi o que via.

Perguntei ainda:

– Pelo menos você regulou a sequência dos acontecimentos.

– De modo nenhum – respondeu-me ela –; a sua filha Annie me censura por ter feito morrer Evangelina. Ora, isso não foi por minha culpa; não podia impedi-lo. Senti-o mais do que todos os leitores; foi como se a morte tivesse atingido uma pessoa de minha família. Quando a morte de Evangelina se deu, fiquei tão abatida que não pude retomar a pena por mais de duas semanas.

Perguntei-lhe então:

– E sabia que o pobre pai Tomás devia, por sua vez, morrer?

– Sim – respondeu-me ela –, isso eu o sabia desde o princípio, porém ignorava de que morte iria morrer. Quando cheguei a esse ponto do romance, não tive mais visões durante algum tempo.”

Em outro número da mesma revista, (1918, pág. 325), relatou-se o seguinte episódio sobre o mesmo assunto:

“Certa tarde, a sra. Beecher-Stowe passeava sozinha, como de hábito, no parque. O capitão X. viu-a, aproximou-se dela e, descobrindo-se respeitosamente, disse-lhe: Na minha mocidade, li também com intensa emoção A Cabana do Pai Tomás. Permiti-me apertar a mão da autora do célebre romance. A escritora, septuagenária, estendeu-lhe a mão, notando, entretanto, vivamente:

– Não fui eu quem o escreveu.

– Como, não foi a senhora? – perguntou o capitão, surpreso –. Quem o escreveu então?
Ela respondeu:

– Deus o escreveu. Foi Ele quem ma ditou.”

Na primeira das duas passagens acima, que acabo de citar, nota-se uma emergência espontânea da subconsciência da autora, consistindo em visões cinematográficas que traçam a acção do romance, o que oferece grandes analogias com as modalidades da cerebração donde saíram romances de outros autores de génio, tais como Dickens e Balzac. Estes últimos, por sua vez, viam desfilar, subjectivamente, as cenas e os personagens que tinham imaginado. A diferença entre as suas visões e as da sra. Beecher-Stowe parece, então, consistir nesta última circunstância: eles assistiam ao desenvolvimento de acontecimentos que a sua imaginação consciente tinha criado, ao passo que a sra. Beecher-Stowe assistia, passivamente, ao desenrolar de eventos que não tinha criado e que estavam, muitas vezes, em oposição absoluta à sua vontade, pois que, por ela, não teria feito morrer duas santas personagens do seu romance.

Esta circunstância é importante e parece fazer distinguir as visões subjectivas, comuns aos escritores de génio, das tidas pela sra. Beecher-Stowe, da mesma maneira que as “objectivações de tipos”, estereotipadas e automatizadas, que se obtêm pela sugestão hipnótica, não apresentam nada de comum com as personalidades mediúnicas, independentes e livres, que se manifestam por intermédio de verdadeiros médiuns.

A presunção de que não se tratava de visões puramente subjectivas adquire mais eficácia ainda graças à segunda das duas passagens já citadas, na qual a sra. Beecher-Stowe declara, explicitamente, ter transcrito o seu romance como ele lhe fora ditado, o que prova que a célebre autora era médium escrevente, circunstância que se encontra confirmada por factos assinalados na sua biografia, segundo os quais ela era sujeita a “fases de ausência psíquica” que eram, com toda a verosimilhança, estados superficiais de transe.

Noutro ponto de vista, faço notar que a exclamação da sra. Beecher-Stowe: “Deus o escreveu”, subentende que o ditado mediúnico se realizou sob forma anónima, isto é, que o agente espiritual operante ocultava a própria individualidade, limitando-se, ao que parece, a cumprir na Terra a missão de que se encarregara: a de contribuir, eficazmente, graças a uma narrativa emocionante e pungente, para a obra humanitária da redenção de uma raça oprimida.

Julguei poder tirar do caso a conclusão que venho de narrar. Todavia, não insisto nela, considerando que estas induções não são suficientes para concluir a favor da origem realmente espírita do romance em questão.

É necessário, todavia, notar que as bases sobre as quais repousam as induções a favor de uma explicação puramente subjectiva dos estados da alma por que passou a autora, quando trabalhava no seu grande romance, parecem bem mais fracas, quando são analisadas, que as da interpretação espírita dos mesmos factos.

/... 


Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo, Capítulo I – A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher-Stowe. 2º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Victor Hugo | uma chama de fogo a iluminar as idades

~~~ Victor Hugo e as Vidas Sucessivas do Ser ~

O autor de Contemplações não negava as vidas sucessivas da alma; ao contrário, acreditava nelas como em uma teoria infinita pela qual o Ser, passando de um longínquo histórico a um novo tempo, se engrandece espiritualmente. Sentia-se protagonista da grande evolução palingenésica (i) da humanidade; por isso, as idades distintas do passado repercutiam vivamente em sua sensibilidade poética. A visão cosmológica que possuía aproximava-o do pensamento de Camille Flammarion, que pregou a doutrina da pluralidade dos mundos habitados em relação com a pluralidade da existência da alma. O universo era para o poeta como um palco no qual o espírito age para subir os degraus do infinito. Aceitava, pois, a concepção de Kardec resumida no lema: "Nascer, morrer, renascer e progredir sempre, esta é a lei". Neste aspecto, Victor Hugo coincidia com grandes poetas como GoetheWhitmanLamartineEmerson e outros que, por suas ideias palingenésicas, foram colocados sob o signo da Cruz Ansata (i).

Quando o poeta disse que "a origem tem um ontem e o túmulo um amanhã'' fez declaração pública de suas ideias filosóficas baseadas na reencarnação. O seu génio imenso e abrangente não resistia às limitações de uma existência única para a alma. Não obstante as interpretações teológicas, Hugo acreditava que Jesus havia falado de um homem palingenésico quando, dirigindo-se a Nicodemos, disse: "Necessário vos é nascer de novo".

Ler o seu estudo sobre As Almas é verificar de que forma o poeta penetrou no drama dos espíritos, cujas características particulares, tão diferentes entre si, comprovam os variados desenvolvimentos de cada ser, facto que revela o processo palingenésico vivido pelas almas. Para Victor Hugo, o homem não é um composto físico-químico que se perde no nada com a decomposição. Concebia o homem como um espírito reencarnado que traz a sua própria história realizada nas vidas anteriores. Nesse sentido, a poesia revela-se como uma acumulação de elevadas virtudes morais que se transformam em harmonia e beleza. Isto porque a beleza para o poeta palingenésico é uma expressão superior do Ser, pela qual penetra na essência religiosa da criação. O homem entra e sai do processo histórico mediante a lei da reencarnação e, à medida em que se liberta do mundo material, liga-se com a realidade do espírito imortal.

Victor Hugo participava dessa legião de espíritos iluminados a que pertenciam Giuseppe MazziniEmilio CastelarGiuseppe GaribaldiPi y Margal, os que se inspiravam moral e socialmente nas ideias palingenésicas. Mas em Hugo a intuição que o fez compreender que "a origem tem um ontem e o túmulo um amanhã'' manifestou-se com sonoridades enraizadas no cósmico e no divino. O seu génio poético permitiu-lhe sentir a presença do passado palingenésico tal como o percebeu na "Terra Santa" Alphonse de Lamartine. De facto, foi ali que o autor de Jocely se recordou de uma vida anterior relacionada com os tempos apostólicos.

Victor Hugo confirmou as suas convicções palingenésicas no final dos seus dias, quando disse: "Faz meio século que escrevo em prosa e verso; história, filosofia, drama, legenda, sátira, ode, canção; de tudo tenho tratado, mas sinto que não disse mais que a milionésima parte do que sinto em mim. Quando estiver no túmulo, direi: 'terminei a minha jornada' e não 'terminei a minha vida'. A minha existência recomeçará no outro dia. O túmulo não é um beco sem saída mas uma avenida. A minha obra é apenas um princípio e a sede do infinito prova que existe o infinito.

"Sou homem, mas sou uma partícula divina que, insignificante como sou, me sinto Deus porque eu também ponho ordem no meu caos interior.

"Viverei mil vidas futuras, continuarei a minha obra, de século em século escalarei todas as rochas, todos os perigos, todos os amores, todas as paixões, todas as angústias e depois da ascensão, mil vezes, livre, transformado, o meu espírito voltará à sua fonte, unindo-se com a realidade absoluta, como o raio de luz retorna ao Sol".

O grande poeta francês era um lírico profundamente religioso: daí os seus ímpetos por uma vida eterna e renovada pela reencarnação. Como muitos outros génios poéticos, uniu-se à concepção de um ser infinito e espiritual que nasce, morre e renasce. O seu espírito aspirava por "entrar e sair" da humanidade, a fim de participar existencialmente em todos os processos históricos e sentir-se protagonista em todos os episódios da história universal.

Este mistério palingenésico do homem e do universo é que porá a descoberto a Nova Poesia, a excelsa. A Gaia Ciência dos grandes poemas humanos e sobre-humanos. A nova poesia, como foi sentida por Hugo, Whitman, Goethe, NervoCapdevila e outros grandes poetas, revelará cada vez mais à humanidade que sem "vidas sucessivas" tudo estará desvinculado no grande processo da criação. Por outro lado, com o homem palingenésico, ou seja, o ser que nasce, morre e renasce tudo se une e entrelaça no universo. A história mostra-se como um processo universal determinado pelo ''processo individual" dos espíritos encarnados. Victor Hugo cantou esse renascimento incessante das almas para que o homem compreenda que ele está sempre presente em todos os períodos da história.

No poema O aparecido do seu livro Contemplações, a ideia do regresso palingenésico dos espíritos está dramaticamente descrita. Fala de uma mãe que adorava o seu filhinho e sonhava para ele um futuro radiante. Mas um dia, disse o poeta, "esse corvo chamado crupe penetrou bruscamente naquele lar feliz e, arrojando-se sobre o menino, pegou-o pela garganta". A mãe infeliz, vendo-se sem o filho querido, destruído pelas garras da morte, "ficou imóvel três meses, os olhos fixos, murmurando um nome ininteligível e olhando sempre para a mesma parte da parede".

Mais adiante, diz o poeta: "O tempo passou, passaram-se os dias, semanas e meses e aquela mulher soube que seria mãe pela segunda vez''.

Quando pressentiu a vinda do novo filho, a mãe "empalideceu e lançou um grito: – Quem é este ser estranho? exclamou. E, caindo de joelhos, acrescentou: 'Não, não o quero; o meu filho morto teria ciúmes e me pressionaria por acreditar que o houvesse esquecido e que outro ocupava o seu lugar: ''a minha mãe quere-o, concebe-o formoso, ri com ele e beija-o; mas eu, eu estou no túmulo! Não, não o quero! "Fazia-a falar assim a sua dor profunda".

"Quando amanheceu – continua o poeta – vendo que o seu marido era pai de outro filho, a mulher exclamou, agitada: É menino! O marido, porém, era o único que estava alegre em casa; a mãe permaneceu triste, sem esquecer o filho morto. Trouxeram-lhe o recém-nascido, deixou que viesse e o apertou no seu peito; imediatamente, porém, pensando sem cessar mais no filho morto do que naquele ali, preocupando-se mais com a mortalha do que com as mantas, exclamou: – Está só no túmulo aquele anjo! Mas, por um milagre que fez voltar a sua alegria, aquela mãe ouviu que o recém-nascido falava nos seus braços, com voz familiar, e dizia baixinho: – Sou eu!.. mas não o digas!"

De facto, o filho morto havia regressado através da grande lei da reencarnação. O ser chorado e tão desesperadamente invocado havia voltado às entranhas de sua mãe e por elas renascido para acalmar a sua dor e continuar, dessa forma, o seu ciclo de crescimento espiritual.

Com este poema, Victor Hugo venceu a escuridão, o túmulo e afirmou à cultura filosófica do seu tempo que o homem é uma entidade imortal que encarna e desencarna para alcançar estados superiores e divinos. Nesse mesmo poema deu à maternidade um novo significado filosófico e religioso quando diz: "Oh mães! O nascimento começa com o túmulo. A eternidade guarda mais do que um segredo divino".

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Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, VICTOR HUGO E AS VIDAS SUCESSIVAS DO SER, 7º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Victor Hugo | 1879, retratado por Léon Bonnat)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Nas garras do pensamento crítico ~

~ a tese das "materializações românticas" ~

Não se pense, porém, que o desprezo ficou no que dissemos. Longe disso, ele foi e vai muito para além. Quando se trata de contradizer o Espiritismo e de factos espíritas, tudo parece permitido aos homens de ciência e aos homens de letras. Não há fronteiras para a imaginação, nem limites para o raciocínio.

É assim que, ilustrando o volume com várias fotografias espíritas, os autores reproduzem um quadro de Tissot e o comparam à famosa fotografia da “cabeça materializada”, obtida por Notzing e madame Bisson, com a médium Eva Carriere. Para concluírem: “Antes da época dos flagrantes fotográficos, o grande pintor Tissot nos mostrou o que acreditava ser a reencarnação de uma mulher amiga, acompanhada do seu Espírito-guia; é uma bela pintura, onde ele reproduziu a impressão de verdadeira beleza, recebida numa sessão espírita. Os métodos mais rigorosos, que hoje se usam, já não permitem essas sublimações do testemunho visual: as câmaras fotográficas mostram as coisas como elas se passam. E vemos que essas figuras e rostos materializados começam pequenos e às vezes desproporcionalmente. Quaisquer que possam ser essas figuras e faces achatadas e amarfanhadas, não são, certamente, materializações em carne e sangue humano”.

Richet escreveu o Traité sem aceitar a tese espírita, mas contudo jamais cometeu a heresia de dizer que as materializações eram fantoches amarfanhados. Encontramos no Traité essa mesma cabeça de que se servem os Wells e Huxley, mas apresentada noutro sentido, ou seja, no bom e verdadeiro sentido que se lhe deve dar: como uma das mais belas fotografias já obtidas, revelando e documentando, de maneira insofismável, uma das fases do processo de materialização. Não tivéssemos essa e outras fotografias obtidas por Notzing e madame Bisson, e esses mesmos ilustres cavalheiros nos acusariam de não havermos surpreendido mais uma das fases daquilo que chamamos “processo de materialização”. Não teriam dúvidas em utilizar esse facto como argumento “poderoso” contra a teoria da formação progressiva do fantasma, com a matéria plástica do ectoplasma ou teleplasma.

Perguntaremos, porém, a esses ilustres divulgadores do conhecimento, se não tiveram a oportunidade de ver outras fotografias, como a médium Linda Gazzera, constantes do seu livro Fotografias de Fantasmas, no qual elas figuram, não através de clichês, mas nas próprias cópias fotográficas, para que não haja dúvidas.

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, A tese das “materializações românticas”, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

teremos que modificar o nosso conceito da morte?

A NEUROFISIOLOGIA DE UM CÉREBRO EM FUNCIONAMENTO NORMAL

Durante décadas foi feita uma extensa investigação para localizar as memórias no interior do cérebro, até ao presente sem êxito. Também nos deveríamos interrogar como uma actividade não material tal como a atenção concentrada e o pensamento podem corresponder a reacções observáveis (materiais) sob forma mensurável de actividade eléctrica, magnética e química, num determinado lugar do cérebro; mesmo um aumento no fluxo sanguíneo no cérebro (Roland, 1981) é observado durante uma tal actividade não material como o pensamento. Estudos neurofisiológicos revelaram as já citadas actividades através de EEG (electro encefalograma), MEG (magneto-encefalografia), RMFI (neuro imagem por ressonância magnética) e PET-Scannnig (tomografia computorizada) (Desmedt e outros, 1977; Roland e Friberg, 1985; Eccles, 1988).

Foi demonstrado que certas áreas do cérebro se mostravam metabolicamente activas em resposta ao pensamento e à sensação. Contudo, embora dando provas pelas funções das redes neurais como intermediárias para a manifestação de pensamentos (correlatos neurais), esses estudos não implicam necessariamente que tais células também produzam os pensamentos.

Está ainda por provar a suposição de que a consciência e as memórias resultam das funções cerebrais, porque até agora não há provas científicas para correlatos neurais de todos os aspectos da experiência subjectiva. 

Falta no presente prova directa de como os neurónios ou as redes neurais poderiam possivelmente produzir a essência subjectiva da mente e dos pensamentos. 

E como poderia a matéria “inconsciente” como o nosso cérebro produzir consciência, sendo o cérebro apenas composto de átomos, moléculas e células, com uma quantidade de processos químicos e eléctricos?

Não há exemplos conhecidos de emparelhamentos neuro-perceptivos, portanto há razões para duvidar que qualquer sistema neuro-perceptivo poderia emparelhar a experiência perceptiva em conteúdo, e daqui razões para duvidar da veracidade da teoria do “emparelhamento de conteúdos”.

A activação neural reflecte apenas o uso de estruturas. É difícil entender como padrões de activação neural poderiam por si mesmos originar os aspectos qualitativos das sensações registadas. 

Isso poderia ser como um rádio: pode activar-se ligando-o, sintonizar um certo comprimento de onda, mas não é possível influenciar o conteúdo do programa que se vai ouvir. Ligar um rádio não influencia o conteúdo do programa. 

A suposição feita com base na doutrina do “emparelhamento de conteúdos” é de que a seguir à activação de certas redes neurais, os pensamentos e sensações irão ser do mesmo conteúdo. Isto parece extremamente inexplicável, incrível e improvável porque a activação neural é simplesmente activação neural; é simplesmente uma forma de codificar informação. Como é que diferenças de código poderão alguma vez originar diferenças nos pensamentos e nas sensações?

O cérebro contém cerca de 100 biliões de neurónios, 20 biliões dos quais estão localizados no córtex. Vários milhares de neurónios morrem por dia e há uma contínua renovação das proteínas e lípidos que constituem as membranas celulares, numa base temporal que varia entre dias e poucas semanas (Romijn, 1997). Cada neurónio projecta impulsos na direcção de centenas de sinapses, que podem estimular ou inibir outros neurónios e, durante a vida, o córtex cerebral modifica e adapta continuamente a sua rede neural, incluindo a troca de mudanças e de lugares das sinapses. O transporte de informação ao longo dos neurónios sucede predominantemente por acção dos seus potenciais de acção e durante a actividade cerebral a soma de todos os campos electromagnéticos de milhões de neurónios muda continuamente cada micro segundo.

Nem o número de neurónios, nem a exacta configuração das dendrites, nem a posição das sinapses, nem a activação dos neurónios parecem ser cruciais para as propriedades de processamento das informações. Mas são-no os padrões derivados, passageiros e altamente ordenados destes campos electromagnéticos gerados ao longo das árvores dendríticas das redes neurais especializadas. 

Estes padrões deveriam ser considerados como o produto final duma auto-organização caótica e dinâmica, que pode ser considerada como fenómeno biológico com coerência quântica (Romijn, 2002). Esta auto-organização pode ser considerada tal como um vórtice de água corrente.


A PROCURA DA CONSCIÊNCIA

Como poderia a consciência ser baseada nestes variáveis campos electromagnéticos ou relacionada com eles? Ao tentar encontrar resposta para esta questão, a influência (inibição e estímulo) de campos magnéticos e eléctricos localizados exteriormente sobre campos electromagnéticos em mutação constante das redes neurais durante o funcionamento normal do cérebro deveria ser agora discutida.

A pesquisa neurofisiológica está a ser posta em prática usando estímulos magnéticos transcranianos (TMS - Transcranial Magnetic Stimulation), durante os quais são produzidos campos magnéticos localizados (Hallett, 2000). A TMS pode estimular ou inibir diferentes partes do cérebro, dependendo da quantidade fornecida de energia, permitindo que faça uma cartografia funcional das regiões corticais e a criação de lesões funcionais passageiras.

Permite avaliar a função em regiões determinadas do cérebro à escala de milissegundos e pode estudar a contribuição das redes corticais em funções cognitivas específicas. Pode interferir com a percepção visual e motora interrompendo a processamento durante 80 a 100 milissegundos. O estímulo e a inibição intracortical conseguida durante o estudo de impulsos combinados com TMS reflecte a actividade interneural do córtex (Hallett, 2000).

A interrupção dos campos eléctricos de redes neurais locais em partes do córtex também prejudica o funcionamento normal do cérebro. Pela estimulação eléctrica do lobo temporal e parietal durante cirurgia para epilepsia, o neuro cirurgião e Prémio Nobel Wilder Penfield pôde por vezes induzir instantâneos de lembranças do passado (nunca uma revisão de vida), experiências com luz, som ou música e – apenas uma vez – descreveu uma experiência-fora-do-corpo (Penfield, 1958, 1975).

Estas experiências não produziram transformações na atitude de vida. O efeito do estimulo externo por magnetismo ou electricidade, depende da intensidade e da duração da energia utilizada. Por vezes o efeito estimulante ocorre quando somente uma pequena quantidade de energia é utilizada. Mas, durante estímulos com mais alta energia, sucede a inibição das funções locais do córtex pela extinção dos campos magnéticos e eléctricos das redes neurais do córtex.

Há pouco tempo, um doente operado por epilepsia relatou ter experimentado uma OBE (experiência fora do corpo) devido a inibição da actividade cortical causada por estímulos mais fortes das redes neurais no “Gyrus Angularis” (Blanke e outros, 2002). Outras causas da disfunção das redes neurais no córtex raramente produzem OBE (Blanke e outros, 2004). Teremos que concluir que estímulos artificiais localizados, com fotões reais (energia eléctrica ou magnética) perturbam ou inibem os campos electromagnéticos constantemente mutáveis das nossas redes neurais, por isso influindo e inibindo as funções normais do nosso cérebro.

Poderiam a consciência e as memórias ser o produto ou resultado desses campos electromagnéticos permanentemente mutáveis? Poderiam esses fotões ser os portadores da consciência (Romijn, 2001)? Alguns investigadores procuram criar inteligência artificial por tecnologia computorizada, na esperança de simular programas que evocam a consciência.

O físico quântico Roger Penrose (1996) advoga que as computações algorítmicas não podem simular o raciocínio matemático. 

Propõe hipóteses mecânicas quânticas para explicar as relações entre a consciência e o cérebro (Hameroff and Penrose, 1995). 

E Simon Berkovitch calculou que o cérebro tem uma absoluta incapacidade para produzir e armazenar todos os processos informativos de todas as nossas memórias com os pensamentos de uma vida inteira.

Necessitaríamos de 10 elevado à vigésima quarta potência (atenção: 10 elevado à vigésima quarte potência, um número inconcebível!...) operações por segundo, o que é impossível para os nossos neurónios (Berkovitch, 1993). Dever-se-ia concluir que o cérebro não possui capacidade de computação para guardar todas as memórias e pensamentos associados, não tem capacidade de recuperá-los, e parece não ser capaz de produzir consciência.


NOVO CONCEITO

A ciência, creio eu, é a busca de explicação de novos mistérios muito mais do que ficarmos presos a factos e conceitos velhos. Com as presentes noções médicas e científicas parece impossível esclarecer todos os aspectos das experiências subjectivas relatadas pelos doentes que passaram por EQM durante a perda transitória de todas as funções do cérebro.

Frederik van Eeden, o famoso médico e autor holandês mencionava, já em 1890 numa sua conferência a respeito do progresso científico de então: “Pessoalmente estou mais convencido do que nunca que o principal inimigo do progresso científico é rejeitar e recusar estudar de antemão e livre de preconceitos, factos aparentes, incompreensíveis ou estranhos” (Van Eeden, 1897, p. 226).

Deste modo, representa um desafio científico discutir hipóteses que poderiam explicar:

– a relatada interligação com a consciência íntima de outras pessoas e de parentes falecidos;

– a possibilidade da vivência instantânea e simultânea (“não local”) de uma “revisão de  vida”;

– uma “antevisão” da vida de alguém numa dimensão livre do conceito convencional do espaço e do tempo, a que está ligado o nosso corpo, no qual todos os acontecimentos do  passado, do presente e do futuro coexistem; 

– a possibilidade de ter clara consciência com memórias, com sentido de identidade  pessoal, conhecimento e percepção fora e acima do próprio corpo sem vida.

Durante uma EQM chega-se ao ponto em que se processa o regresso ao corpo da consciência activa, a par com a percepção corporal do confinamento. 

Quase todos os aspectos da disponibilidade da consciência durante a paragem cardíaca têm o aspecto de um fenómeno quântico. Concluiríamos, como muitos outros, que os processos mecânicos quânticos poderiam ter criticamente a ver com a forma como a consciência e as memórias se relacionam com o cérebro e com o corpo durante as actividades diárias normais bem como durante a morte cerebral e a morte clínica.

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Dr. Pim van LommelAs Experiências de Quase-Morte, A Consciência e o Cérebro – A NEUROFISIOLOGIA DE UM CÉREBRO EM FUNCIONAMENTO NORMAL, A PROCURA DA CONSCIÊNCIA, NOVO CONCEITO (5º fragmento) tradução para a língua portuguesa de espiritismo cultura, depois de autorizada pelo autor.
(imagem de contextualização: O Hospital Rijnstate, em Arnhem – Holanda)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

o alvo da vida ~

Por esses dados, em torno de nós se estabelece a ordem; o nosso caminho se esclarece; mais distinto se mostra o alvo da vida. Sabemos o que somos e para onde vamos.

Desde então não devemos mais procurar satisfações materiais, porém trabalhar com ardor pelo nosso adiantamento. O supremo alvo é a perfeição; o caminho que para lá conduz é o progresso. Estrada longa que se percorre passo a passo.

À proporção que se avança, parece que o alvo longínquo recua, mas, em cada passo que dá, o ser recolhe o fruto de seus trabalhos, enriquece a sua experiência e desenvolve as suas faculdades.

Os nossos destinos são idênticos. Não há privilegiados nem deserdados. Todos percorrem a mesma vasta carreira e, através de mil obstáculos, todos são chamados a realizar os mesmos fins. Somos livres, é verdade, livres para acelerar ou para afrouxar a nossa marcha, livres para mergulhar em gozos grosseiros, para nos retardarmos durante vidas inteiras nas regiões inferiores; mas, cedo ou tarde, acorda o sentimento do dever, vem a dor sacudir-nos a apatia e, forçosamente, prosseguiremos a jornada.

Entre as almas só há diferenças de grau, diferenças que lhes é lícito transpor no futuro. Usando do livre-arbítrio, nem todos havemos caminhado com o mesmo passo e isso explica a desigualdade intelectual e moral dos homens; mas todos, filhos do mesmo Pai, nos devemos aproximar d'Ele na sucessão das existências, para formar com os nossos semelhantes uma só família, a grande família dos bons Espíritos que povoam o Universo.

Estão banidas do mundo as ideias de paraíso e de inferno eterno. Nesta imensa oficina, só vemos seres elevando-se por seus próprios esforços ao seio da harmonia universal. Cada qual conquista a sua situação pelos próprios actos, cujas consequências recaem sobre si mesmo, ligam-no e prendem. Quando a vida é entregue às paixões e fica estéril para o bem, o ser se abate; a sua situação se apouca. Para lavar manchas e vícios, deverá reencarnar nos mundos de provas e ali purificar-se pelo sofrimento. Cumprida a purificação, a sua evolução recomeça. Não há provações eternas, mas sim reparações proporcionais às faltas cometidas. Não temos outro juiz nem outro carrasco a não ser a nossa consciência, pois essa consciência, assim que se desprende das sombras materiais, torna-se um julgador terrível. Na ordem moral como na física só há efeitos e causas, que são regidos por uma lei soberana, imutável, infalível. Essa lei regula todas as vidas. O que, na nossa ignorância, chamamos injustiça da sorte não é senão a reparação do passado. O destino humano é o pagamento do débito contraído entre nós mesmos e para com essa lei.

A vida actual é a consequência directa, inevitável das nossas vidas passadas, assim como a nossa vida futura será a resultante das nossas acções presentes, da nossa maneira de viver. Vindo animar um corpo novo, a alma traz consigo, em cada renascimento, a bagagem das suas qualidades e dos seus defeitos, todos os tesouros acumulados pela obra do passado. Assim, na série das vidas, construímos por nossas próprias mãos o nosso ser moral, edificamos o nosso futuro, preparamos o meio em que devemos renascer, o lugar que devemos ocupar.

Pela lei da reencarnação, a soberana justiça reina sobre os mundos. Cada ser, chegando a possuir-se em sua razão e em sua consciência, torna-se o artífice dos próprios destinos. Constrói ou desmancha, à vontade, as cadeias que o prendem à matéria. Os males, as situações dolorosas que certos homens sofrem, explicam-se pela acção desta lei. Toda a vida culpada deve ser resgatada. Chegará a hora em que as almas orgulhosas renascerão em condições humildes e servis, em que o ocioso deve aceitar penosos labores. Aquele que fez sofrer sofrerá a seu turno.

Porém, a alma não está para sempre ligada a esta Terra obscura. Depois de ter adquirido as qualidades necessárias, deixa-a e vai para mundos mais elevados. Percorre o campo dos espaços, semeado de esferas e de sóis. Ser-lhe-á arranjado um lugar no seio das humanidades que os povoam. E, progredindo ainda nesses novos meios, ela, sem cessar, aumentará a sua riqueza moral e o seu saber. Depois de um número incalculável de vidas, de mortes, de renascimentos, de quedas e de ascensões, liberta das reencarnações, gozará vida celeste, tomará parte no governo dos seres e das coisas, contribuindo com as suas obras para a harmonia universal e para a execução do plano divino.

Tal é o mistério da psique – a alma humana –, mistério admirável entre todos. A alma traz gravada em si mesma a lei dos seus destinos. Aprender a soletrar os seus preceitos, aprender a decifrar esse enigma, eis a verdadeira ciência da vida. Cada farrapo arrancado ao céu da ignorância que a cobre, cada faísca que adquire do foco supremo, cada conquista sobre si mesma, sobre as suas paixões e os seus instintos egoístas permite-lhe uma alegria pura, uma satisfação íntima, tanto mais viva quanto maior for o trabalho executado.

Eis aí o céu prometido aos nossos esforços. O céu não está longe de nós, mas, sim, connosco. Felicidades íntimas ou remorsos pungentes, o homem traz, nas profundezas do ser, a própria grandeza ou a miséria consequente dos seus actos. As vozes harmoniosas ou severas que em si percebe são as intérpretes fiéis da grande lei, tanto mais potentes e imperiosas quanto mais elevado ele estiver na escala dos aperfeiçoamentos infinitos. A alma é um mundo em que se confundem ainda sombras e claridades, mundo cujo estudo atento nos faz cair de surpresa em surpresa. Nos seus recônditos todas as potências estão em germe, esperando a hora da fecundação para se desdobrarem em feixes de luz. À medida que ela se purifica, as suas percepções aumentam. Tudo o que nos encanta no seu estado presente, os dons do talento, os fulgores do génio, tudo isso nada é, comparado ao que um dia adquirirá, quando tiver atingido as supremas altitudes espirituais. Já possui imensos recursos ocultos, sentidos íntimos, variados e subtis, fontes de vivas impressões, mas o pesado e grosseiro invólucro embaraça-lhe quase sempre o exercício.

Somente algumas almas eleitas, destacadas por antecipação das coisas terrestres, depuradas pelo sacrifício, sentem as primícias desse mundo; todavia, não encontram palavras para descrever as sensações que as enlevam e os homens, na sua ignorância da verdadeira natureza da alma e das suas potências latentes, têm escarnecido disso que julgam ilusões e quimeras.

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LÉON DENIS, Depois da Morte, Parte Segunda / Os Grandes Problemas XII – O Alvo da Vida.
(imagem de contextualização: La Petite Esmeralda_1874, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

a pedra e o joio ~


O método de Kardec

Kardec nasceu no início do século XIX, numa fase de crescimento do processo cultural no mundo. Formou-se na cultura do século, sob a orientação de Pestalozzi, o mestre por excelência. Especializou-se em Pedagogia, que podemos chamar de Ciência da Cultura, e até aos cinquenta anos de idade exerceu intensas actividades pedagógicas, tornando-se o sucessor de Pestalozzi na Europa. Não se fez padre nem pastor, mas cientista e filósofo, na despretensão e na humildade de quem não procurava elevadas posições, mas aprimorar os seus conhecimentos. Adquiriu no estudo, nas actividades teóricas e na prática, o mais amplo conhecimento dos problemas culturais do seu tempo.

Vivendo em Paris, considerado então como o cérebro do mundo, impôs-se ao consenso geral como homem de elevada cultura, um intelectual por excelência. Colocado num momento fundamental da evolução terrena, viu e viveu o drama cultural da época. E só aos 50 anos de idade, maduro e culto, deparou com o problema crucial do tempo e procurou solucioná-lo em termos culturais. Esse problema resumia-se no seguinte: a cultura clássica, religiosa e filosófica, desabava ao impacto do desenvolvimento das Ciências, sem a menor capacidade para enfrentar o realismo científico e salvar os seus próprios valores fundamentais.

Formado na tradição cultural do Século XVIII, herdeiro de Francis BaconRené Descartes e Rousseau, compreendeu claramente que o problema do seu tempo repousava na questão do método. Os fenómenos espíritas se verificavam com intensidade, como uma espécie de reacção natural aos excessos do empirismo, no bom sentido do termo, que era a aplicação do método experimental a todo o conhecimento. A tradição espiritual rejeitava esses excessos, mas não dispunha de armas para combatê-los. Kardec resolveu aplicar o método experimental ao estudo dos fenómenos espíritas.

Logo aos primeiros resultados verificou que o  do problema estava no seguinte: o método experimental aplicava-se apenas à matéria, excluindo-se o espírito que era considerado como imaterial e portanto inverificável.

Mas se havia fenómenos espíritas era evidente que o espírito, manifestando-se na matéria, tornava-se acessível à pesquisa. Tudo dependia, pois, do método. Era necessário descobrir um método de investigação experimental dos fenómenos espíritas. Era claro que esse método não podia ser o mesmo aplicado à pesquisa dos fenómenos materiais, considerados como os únicos naturais. Mas por que os únicos? Porque as manifestações do espírito eram consideradas como sobrenaturais, regidas por leis divinas.

Já Descartes, no Século XVII, lutando contra o dogmatismo escolástico, mostrara a unidade de alma e corpo na manifestação do ser humano e advertira contra o perigo de confusão entre esses dois elementos constitutivos do homem. Kardec se sentia bem amparado na tradição metodológica e conseguiu provar que os fenómenos espíritas eram tão naturais como os fenómenos materiais. Ambos estavam na Natureza, espírito e matéria correspondiam a força e matéria, os dois elementos fundamentais de tudo quanto existe.

Daí a sua conclusão, até hoje não excedida, e confirmada na época pelas manifestações dos próprios Espíritos que o assistiam: a Ciência do Espírito correspondia às exigências da época. Mas era necessário desenvolvê-la segundo a orientação metodológica da Ciência da Matéria, pois essa orientação provara a sua eficiência. A questão era simples: na investigação dos problemas espirituais o método dedutivo teria de ser substituído pelo método indutivo. Mas essa questão tornava-se complexa porque a tradição espiritualista, cristalizada nos dogmas das igrejas, repelia como herética e profana a aplicação da pesquisa científica aos problemas espirituais.

Kardec enfrentou a questão com extraordinária coragem. Enfrentou sozinho, sem o apoio de nenhum poder terreno, todo o poderio religioso da época. Teve então de colocar-se entre os fogos cruzados da Religião, da Filosofia e da Ciência. Os teólogos o atacavam na defesa dos seus dogmas, a Filosofia o considerava um intruso e a Ciência condenava-o como um ressuscitador de superstições que ela já havia praticamente destruído. A vitória de Kardec definiu-se bem cedo. A Ciência Psíquica inglesa, a Parapsicologia alemã e a Metapsíquica francesa nasceram da sua coragem e das suas pesquisas. Mais de cem anos depois, Rhine e Mac Dougall fundariam nos Estados Unidos a Parapsicologia moderna, seguindo a mesma orientação metodológica de Kardec. E a sua vitória confirmou-se plenamente nos nossos dias, quando as pesquisas parapsicológicas endossaram as conclusões de Kardec e logo mais a própria Física e a Biologia fizeram o mesmo. A palavra paranormal, criada por Frederic Myers e hoje adoptada na Parapsicologia, substituiu em definitivo, no campo científico, a classificação errónea de sobrenatural dada aos fenómenos espirituais.

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José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. O método de Kardec, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)