segunda-feira, 25 de julho de 2022

o sentido da vida ~


Do Empirismo | à Ciência 
(II) 

E chegamos, assim, ao ponto em que os podemos defrontar com a religião no próprio terreno da ciência, que lhe parecia antagónico. Do empirismo supersticioso até ao limiar da ciência, que longo percurso tivemos de fazer! Mas ainda não estamos livres das práticas empíricas. Estas, pelo contrário, continuam a exercer poderosa atracção sobre os próprios adeptos do Espiritismo. 

Diz um velho ditado que o uso do cachimbo faz a boca torta. E muitos espíritas, não podendo deixar de aceitar os factos e as verdades com que tiveram de se defrontar, mas não tendo forças para sair prontamente dos hábitos adquiridos, procuram introduzir no Espiritismo práticas e sistemas alheios à natureza real da doutrina. O Espiritismo não é uma igreja, os centros e sedes de outras associações doutrinárias não são templos ritualistas, nem possuem sacerdotes para ministrar sacramentos, mas o espírita de boca torta não concebe um casamento sem a bênção da igreja ou um nascimento sem as águas lustrais do baptismo. 

E então se apega ao médium, tábua de salvação para vivos e mortos e, apela ao mundo dos espíritos, que lhe envie – eterna simplicidade do povo! – um espírito de padre, para ministrar os sacramentos que ele se recusa a tomar na própria fonte de origem, aqui na Terra! 

Mas ainda não é só. Alguns adeptos, inconformados com a simplicidade racional da doutrina, viciados ainda no transcendentalismo artificial das religiões ritualistas, procuram refúgio noutras concepções, que parecem mais vastas, mais profundas e mais ricas. É ainda a atracção do maravilhoso. Allan Kardec diz: 

“O sobrenatural se esvai à luz da ciência, da filosofia e do raciocínio, como os deuses do paganismo desapareceram à luz do Cristianismo.” 

Esses adeptos, porém, ainda não receberam luz suficiente das verdades espíritas e continuam fascinados pelo sobrenatural, maravilhoso. 

Alegam então que a Teosofia não se restringe aos problemas da sobrevivência e da intercomunicação, indo muito mais longe, na interpretação da própria natureza de Deus e na explicação de mistérios que os espiritistas ainda ignoram por completo. Afirmam que os rosa-cruzes possuem uma visão mais dinâmica e profunda do Universo, que certas escolas esotéricas e mentalistas possuem fórmulas capazes de resolver mais prontamente, do que pelos meios espíritas, os graves problemas do psiquismo. E há os que preferem as fórmulas nebulosas de sincretismo religioso, formas híbridas de ritualismo e de sistemas sacramentais, como as correntes de Umbanda, em que as superstições afro-caboclas se misturam exuberantemente aos elementos do culto católico-romano. E há os que, ansiosos por descobrir “mistérios” que o Espiritismo não aceita, se apegam a interpretações confusas, como as do chamado Redentorismo, ou ao misticismo incoerente e artificioso de Roustaing

A todos esses espíritas desprevenidos devemos lembrar que o esforço maior do Espiritismo é realizado no sentido de libertar o homem das suposições sem base, das explicações transcendentes, das superstições de tabus religiosos. O Espiritismo não deseja reforçar as tendências instintivas do homem para o maravilhoso, mas conduzi-lo com mão firme, segura e serenamente, para o conhecimento real das verdadeiras maravilhas do Universo, tanto as da natureza exterior quanto as do plano espiritual. 

A imaginação humana é muito fértil e não é difícil, a qualquer homem dotado de grandes recursos de inteligência, arquitectar um sistema de explicações do Universo, desde as formas rudimentares da matéria até aos esplendores da natureza divina. Também do espaço, muitos sistemas dessa espécie podem ser-nos transmitidos por espíritos “esclarecidos”, a título de revelação. Mas Kardec já nos deu a lição, dos seus ensinamentos e do seu exemplo, no tocante a essas revelações do tipo roustainguista

Há uma pauta segura para a avaliação das coisas, venham elas de cima ou aqui de baixo mesmo. Há uma linha de raciocínio que nos serve de guia seguro no labirinto das suposições e das teorias. E há o critério científico de observação, de comparação e de análise, que deve presidir ao trabalho do homem no terreno espiritual, como em qualquer outro. Por isso mesmo, no campo da religião, domínio aberto do empirismo e do maravilhoso, o Espiritismo nos oferece o antídoto da fé raciocinada, verdadeira vacina contra os exageros místicos e a chave de controlo para o desenvolvimento equilibrado da era da intuição, da qual se aproxima a humanidade. 
/… 


José Herculano Pires, O Sentido da Vida / Do Empirismo à Ciência (2 de 2), 12º fragmento desta obra
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509) 

terça-feira, 12 de julho de 2022

o grande enigma ~


Solidariedade comunhão universal 
(2 de 3) 

Todos os seres estão ligados uns aos outros e se influenciam reciprocamente: O Universo inteiro está submetido à lei da solidariedade. Os mundos nas profundezas do éter, os astros que, a milhares de quilómetros de distância, entrecruzam os seus raios de prata, conhecem-se, chamam-se e respondem-se. Uma força, que denominamos atracção, os reúne através dos abismos do Espaço. 

De igual maneira, na escala da vida, todas as Almas estão unidas por múltiplas relações. A solidariedade que as liga funda-se na identidade de sua natureza, na igualdade dos seus sofrimentos através dos tempos, na similitude dos seus destinos e dos seus fins. 

A exemplo dos astros dos céus, todas essas Almas se atraem. A Matéria exerce sobre o Espírito os seus poderes misteriosos. Qual Prometeu sobre a sua rocha, ela o encadeia aos mundos obscuros. A Alma humana sente todas as atracções da vida inferior; ao mesmo tempo percebe os chamados do Alto. 

Nessa penosa e laboriosa evolução que arrasta os seres, há um facto consolador sobre o qual é bom insistir: em todos os graus da sua ascensão, a Alma é atraída, auxiliada, socorrida pelas entidades superiores. Todos os Espíritos em marcha são auxiliados pelos seus irmãos mais adiantados e devem auxiliar, por sua vez, todos os que lhes estão abaixo. 

Cada individualidade forma um anel da grande cadeia dos seres. A solidariedade que os liga pode muito bem restringir um tanto a liberdade de cada um; mas, se esta liberdade é limitada em extensão, não o é na intensidade. 

Por mais limitada que seja a acção do anel, um só dos seus impulsos pode limitar toda a cadeia. 

É maravilhosa essa fecundação constante do mundo inferior pelo mundo superior. Daí vêm todas as intuições geniais, as inspirações profundas, as revelações grandiosas. Em todos os tempos, o pensamento elevado irradiou no cérebro humano. Deus, na sua equidade, nunca recusou o seu socorro nem a sua luz a raça alguma, a povo algum. A todos tem enviado guias, missionários, profetas. A verdade é uma e eterna; ela penetra na Humanidade por irradiações sucessivas, à medida que o nosso entendimento se torna mais apto para assimilá-la. 

Cada revelação nova é continuação da antiga. É este o carácter do Espiritualismo moderno, que traz um ensino, um conhecimento mais completo do papel do ser humano, uma revelação dos poderes recônditos que ele possui e também das suas relações íntimas com o pensamento superior e divino. 

O homem, Espírito encarnado, tinha esquecido o seu verdadeiro papel. Sepultado na matéria, perdia de vista os grandes horizontes do seu destino; desprezava os meios de desenvolver os seus recursos latentes, de se tornar mais feliz, tornando-se melhor. A revelação nova lhe vem lembrar todas essas coisas. Vem despertar as Almas adormecidas, estimular a sua marcha, provocar a sua elevação. Ela ilumina os recônditos obscuros do nosso ser, diz as nossas origens e os nossos fins, explica o passado pelo presente e abre um porvir que temos a liberdade de tornar grande ou miserável, segundo os nossos actos. 

A Alma humana só pode realmente progredir na vida colectiva, trabalhando em benefício de todos. 

Uma das consequências dessa solidariedade que nos liga é que à vista dos sofrimentos de alguns perturba e altera a serenidade dos outros. 

Assim, é preocupação constante dos Espíritos elevados levar às regiões obscuras, às Almas retardadas nos caminhos da paixão e do erro, as irradiações do seu pensamento e os transportes do seu amor. Nenhuma Alma pode perder-se; se todas tiverem sofrido, todas serão salvas. No meio das suas provas dolorosas, a piedade e o afecto das suas irmãs as enlaçam e as arrastam para Deus. 

Como compreender, com efeito, que os Espíritos radiosos possam esquecer aqueles que outrora amaram, aqueles que partilharam as suas alegrias, as suas preocupações e, pensam ainda nas sendas terrestres? A queixa dos que sofrem, dos que o destino encadeia ainda nos mundos atrasados, chega até eles e suscita a sua generosa compaixão. Quando um desses apelos atravessa o Espaço, eles deixam as moradas etéreas para derramar os tesouros da sua Caridade nos escuros sulcos dos mundos materiais. Qual vibrações de luz, os transportes do seu amor se propagam na extensão, levando o consolo aos corações entristecidos, vertendo sobre as chagas humanas o bálsamo da Esperança. 

Muitas vezes, também, durante o sono, as Almas terrestres, atraídas pelas suas irmãs mais adiantadas, lançam-se com força para as alturas do Espaço, para se impregnarem dos fluidos vivificantes da pátria eterna. Ali, Espíritos amigos as cercam e as exortam, reconfortam e acalmam as suas angústias; em seguida, extinguindo pouco a pouco a luz em torno delas, a fim de que as pungentes lamentações da separação não as acabrunhem, elas as reconduzem às fronteiras dos mundos inferiores. O seu despertar é melancólico, mas agradável e, embora esquecidas da sua passagem pelas altas regiões, sentem-se elas reconfortadas e retomam mais alegremente os encargos da sua existência neste mundo. 

/… 


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, III Solidariedade | comunhão universal (2 de 3), 12º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, (detalhe) | 1950Salvador Dali)

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Saberes e o tempo ~


Capítulo III 

O mundo espiritual e os fluidos; A energia e os fluidos ~

Até há pouco, a Ciência negava a existência de estados imponderáveis da matéria e a hipótese do éter estava longe de ser unanimemente admitida, apesar da sua necessidade para tornar compreensíveis os diversos modos da força. Actualmente, já a negação não será talvez tão absoluta, pois que toda uma categoria de novos fenómenos veio mostrar a matéria revestida de propriedades de que nem se suspeitava. 

A matéria radiante dos tubos de William Crookes revela as energias intensas que parecem inerentes às últimas partículas da substância. Os raios X, que nascem no ponto em que os raios catódicos tocam o vidro da ampola, ainda mais singulares são, porquanto se propagam através de quase todos os corpos e têm propriedades fotogénicas, sem serem visíveis de si mesmos. Finalmente, as experiências espíritas de Wallace, de Beattie, de Aksakof consignam, fotografados, esses estados da matéria invisível, que concorrem para a produção dos fenómenos espíritas. 

Dr. Baraduc, o comandante Darget, o Dr. Adam, o Dr. Luys, o Sr. David e as experiências do Sr. Russel (i) põem de manifesto essas forças materiais que emanam constantemente de todos os corpos, mas, sobretudo, dos corpos vivos e, os clichés que se obtêm são testemunhos irrecusáveis da existência desses fluidos. (ii) 

Assistimos, presentemente, à demonstração científica desses estados imponderáveis da matéria antes tão obstinadamente repelidos. Mais uma vez, se confirma o ensino dos Espíritos, sendo a prova de veracidade das suas revelações dada por pesquisadores que não partilham das nossas ideias e que, portanto, não se podem suspeitar de complacências. 

É necessário que o público, ao ouvir-nos falar de fluidos, se habitue a não ver nessa expressão um termo vago, destinado a mascarar a nossa ignorância. É necessário fique ele bem persuadido de que estamos constantemente mergulhados numa atmosfera invisível, intangível pelos nossos sentidos, porém, tão real, tão existente, quanto o próprio ar. 

Não é certo que as maiores inteligências do século, os mais hábeis analistas, químicos e físicos hão vivido em contacto com o árgon, o novo gás que faz parte integrante do ar, sem lhe suspeitarem a presença? Esse exemplo deve inspirar modéstia a todos quantos orgulhosamente proclamam que sabem todas as coisas e que a Natureza nenhum mistério já lhes guarda. A verdade é que ainda somos muito ignorantes e que a nossa existência se escoa num lugar do qual só pequeníssima parte conhecemos. 

O de que todos se devem bem compenetrar é de que a atmosfera que nos circunda contém seres e forças cuja presença normal somos incapazes de apreciar. O ar se encontra povoado de miríades de organismos vivos, infinitamente pequenos, que não lhe turvam a transparência. No azul translúcido de um belo dia de verão volteia uma inumerável quantidade de sementes vegetais, que irão fecundar as flores. Ao mesmo tempo, o espaço se encontra atravancado de biliões de seres, aos quais foi dado o nome de micróbios. 

Todos esses seres evolvem dentro de gases cuja existência nada nos revela. O ácido carbónico, produzido por tudo o que tem vida ou se consome, mistura-se aos gases constitutivos do ar, sem que alguém o possa suspeitar. Quase todos os corpos emitem vapores que imergem nesse laboratório límpido e os nossos olhos permanecem cegos para todos esses corpos tão diversos, cada um com a sua função e a sua utilidade. 

Tampouco os nossos sentidos nos advertem dessas correntes que sulcam o globo e desorientam a bússola durante as tempestades magnéticas. Só raramente a electricidade se manifesta sob forma que nos seja apreciável. Ela não existe unicamente no instante em que o raio risca a nuvem, em que repercutem ao longe os roncos do trovão; antes, actua perpetuamente, por meio de lentas descargas, por meio de trocas incessantes entre todos os corpos de temperaturas diferentes. A própria luz não a percebemos, senão dentro de limites muito acanhados. Os seus raios químicos, de acção tão intensa, escapam completamente à nossa visão. 

Somos banhados, penetrados por todos esses eflúvios no meio dos quais nos movemos e longuíssimo tempo viveu a humanidade sem conhecer tais factos que, entretanto, sempre existiram. Foram necessárias todas as descobertas da ciência, para criarmos sentidos novos, mais poderosos, mais delicados do que os que devemos à Natureza. O microscópio nos revelou o átomo vivo, o infinitamente pequeno; a chapa fotográfica é, ao mesmo tempo, um tacto e uma retina, de incomparáveis finura e acuidade de visão. 

O colódio regista as vibrações etéreas que nos chegam dos planetas invisíveis, perdidos nas profundezas do espaço e, nos revela a existência deles. Apanha os movimentos prodigiosamente rápidos da matéria quintessenciada; reproduz fielmente a luz obscura que todos os corpos à noite irradiam. Se a nossa retina possuísse essa singular sensibilidade, seríamos impressionados pelas ondas ultravioletas, como o somos pela parte visível do espectro. 

Pois bem! essa chapa preciosa ainda nos presta o serviço de dar a conhecer os fluidos que emanam do nosso organismo, ou que nele penetram. Mostra-nos, com irresistível certeza, que em torno de nós forças existem, isto é, movimentos da matéria subtil, que se diferençam uns dos outros pelos seus caracteres particulares, por uma assinatura especial. Presentemente, já não se pode duvidar dessas modalidades, desses avatares da matéria. 

Há, envolvendo-nos, uma atmosfera fluídica incorporada na atmosfera gasosa, penetrando-a de todos os lados. São ininterruptas as suas acções: é todo um mundo tão variado, tão diverso nas suas manifestações, quanto o é a natureza física, isto é, a matéria visível e ponderável. Há fluidos grosseiros, como fluidos quintessenciados, uns e outros com propriedades inerentes ao respectivo estado vibratório e molecular, que os tornam substâncias tão distintas, quanto o podem ser, para nós, os corpos sólidos ou gasosos. 

Mas, que energias se manifestam nesse meio! Que de mudanças visíveis, de mobilidade, de plasticidade nessa matéria subtil! Quanto ela difere da pesada, compacta e rígida substância que conhecemos. A electricidade nos permite julgar da instantaneidade das suas transformações: é um prodígio, uma febre contínua. É bem a fluidez ideal para as tão leves, tão vaporosas, tão instáveis criações do pensamento. É a matéria do sonho, na sua impalpável realidade. 

Estudando a matéria gasosa, chegamos a imaginar esses estados transcendentes. Já, sob a forma radiante, vemos os átomos, movendo-se com velocidades fantásticas, produzirem fenómenos cuja intensidade, dada a massa de matéria posta em jogo, é realmente formidável e essa energia nos faz compreender a força, nas suas manifestações superiores de luz, electricidade, magnetismo, devidas às rapidíssimas ondulações do éter. 

Torna-se admissível que esses átomos animados de enormes velocidades rectilíneas, girando sobre si mesmos com vertiginosa rapidez, desenvolvam uma força centrífuga que anula a atracção terrestre. Sim, é mais que provável que eles se diferenciem entre si pela quantidade de força viva que individualmente contêm e podemos entrever a inesgotável variedade de agrupamentos que se constituem entre essas inúmeras formas de substâncias. 

É o mundo espiritual, o que nos cerca e penetra, no qual vivemos. Com ele entramos em relações por meio do nosso organismo fluídico. Porque possuímos um perispírito, possível se nos faz actuar sobre esse mundo invisível à carne. É pela nossa constituição espiritual que os Espíritos têm acção sobre nós e nos podem influenciar. 

/… 
(i) Veja-se a Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, 2º ano, número de julho de 1897 e, números de maio, junho e julho de 1898. 
(ii) Revue Scientifique, de 25 de dezembro de 1897, Influência dos metais sobre a chapa fotográfica, à distância e na obscuridade. 


Gabriel Delanne, A Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência; Capítulo III – O mundo espiritual e os fluidos; A energia e os fluidos, 11º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)

segunda-feira, 13 de junho de 2022

apóstolos de verdade ~


Apresentação ~
(Herculano Pires por Jorge Rizzini) 

Laureado pela Academia Brasileira de Letras e pela Câmara Brasileira do Livro, Caio Porfírio Carneiro (escritor sem vínculo com o Espiritismo) publicou no jornal “Linguagem Viva”, edição de outubro de 2000, uma crónica sobre Herculano Pires, da qual extraio os seguintes tópicos que retractam o mestre: 

“Parece que estou a ver Herculano Pires sentado no bar, em frente ao prédio dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, aqui em São Paulo, onde trabalhava, naquela tarde ensolarada, cercado de amigos, bebendo qualquer coisa, creio que nada alcoólico e, respondendo a nossas perguntas curiosas sobre Espiritismo. Era ele um estudioso e devoto da doutrina, kardecista famoso, convidado anualmente pela direcção do Bradesco para a festa na Cidade de Deus, criação do presidente do Banco, Amador Aguiar, para os funcionários. Era e sempre foi uma festa belíssima do dia de acção de Graças. Compareciam representantes de destaque das mais diversas religiões cristãs. O único que representava uma corrente espiritual não religiosa era Herculano Pires. Quando chegava a sua vez de falar e abria o verbo, encantava a todos. (...) Tipo mais ou menos gordo, estatura mediana, óculos, andar meio bamboleante, rosto cheio, corado, irradiava uma simpatia pessoal muito grande. (...) Não externava a sua cultura, a sua vasta leitura em praticamente todos os campos do conhecimento. Criatura modesta, cavalheiro de primeira linha, simples por natureza. Apenas quando soltava o verbo, como nas festas da Cidade de Deus, o vulcão vinha ao vivo, mostrava-se fulgurante, brilhante, dono de uma inteligência privilegiada.” 

Observações precisas, as de Caio Porfírio Carneiro

José Herculano Pires foi o que podemos chamar homem múltiplo. Em todas as áreas do conhecimento em que desenvolveu actividades – dentro e fora do movimento doutrinário – a sua inteligência superior iluminada pela Doutrina Espírita e pela cultura humanística brilhava com grande magnitude, fazendo o povo crescer espiritualmente. 

Herculano Pires foi mestre em Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia de Araraquara e membro da Sociedade Brasileira de Filosofia. Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e fundador do Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo, que presidiu por longos anos. Director da União Brasileira de Escritores e vice-presidente do Sindicato dos Escritores de São Paulo. Presidente do Instituto Paulista de Parapsicologia. Romancista, recebeu em São Paulo o “Prémio Municipal de Cultura” e foi reconhecido pela crítica como um dos renovadores do romance brasileiro. 

E, o que é mais importante: espírita desde os vinte e dois anos de idade, ninguém no Brasil e no estrangeiro mergulhou tão fundo nas águas cristalinas da Codificação Kardeciana e ninguém defendeu mais – e com mais competência do que ele – a pureza doutrinária, que colocava acima das instituições e dos homens, de que é exemplo a batalha dantesca que travou quando uma edição adulterada de trinta mil exemplares de O Evangelho Segundo o Espiritismo fora publicada por uma das maiores federações espíritas do Brasil. 

“Todo o espírita consciente de suas responsabilidades humanas e doutrinárias está no dever intransferível de lutar contra essas ondas de poluição espiritual que pesam na atmosfera terrena. Ninguém tem o direito de cruzar os braços em nome de uma falsa tolerância que os levará à cumplicidade”, declarou o mestre. (1) 

Para comer o pão da verdade só necessitamos dos dentes do bom-senso, dizia ele. 

Herculano Pires, desde o ano da conversão ao Espiritismo ao de sua desencarnação, ou seja, durante quarenta e três anos ininterruptos, ampliou superlativamente a cultura espírita, propagou e defendeu os princípios doutrinários na Rádio, na TV, nos jornais, no livro e na tribuna. Ele foi o fermento de que nos fala o Evangelho. E, notemos, foi imbatível esse apóstolo de Allan Kardec! As suas principais batalhas doutrinárias estão relatadas nesta biografia com absoluta fidelidade, pois além de testemunhá-las, participei de algumas e seu vasto acervo doutrinário, incluindo o diário íntimo, (2) me fora cedido pela esposa. 

Reencontrei Herculano Pires nesta existência no ano de 1952 na cidade de São Paulo, na tradicional Livraria Teixeira – ponto de encontro de escritores e poetas. Tinha eu vinte e oito anos de idade e ele trinta e oito. É curioso: reencarnamos no dia 25 de setembro. Ele em 1914, durante a primeira grande guerra, e eu dez anos depois, durante a revolução de 1924. Mas a nossa amizade tem raízes em vidas anteriores – desde o tempo de Roma Imperial. Quando as nossas vozes eram ouvidas no senado romano trabalhamos secretamente em favor do triunfo das ideias revolucionárias de Cristo. E, como toquei agora em assunto tão delicado que, certamente, despertará a curiosidade dos leitores, convido-os a ler o trecho de uma conversa de Herculano Pires comigo e por mim gravada em 1972, trecho que somente hoje dou à publicidade, no qual relata ele uma encarnação sua no século XIX (ao tempo de Allan Kardec), quando foi eminente historiador, romancista e poeta português.  

O referido trecho do saudoso companheiro de batalhas espirituais encontra-se no fim deste volume. 

São Paulo, 1º de Dezembro de 2000. 

Jorge Rizzini 

~~*~

Apêndice 

Herculano Pires revela uma sua encarnação 

Na noite de 14 de julho de 1972 gravei em fita magnética a conversa que mantive com Herculano Pires no seu lar após os trabalhos mediúnicos. Trata-se de uma entrevista longa e informal, improvisada, durante a qual ele revelou uma sua encarnação. Eu lhe havia prometido que somente a divulgaria após a sua passagem para o Grande Além. Eis o trecho em questão: (3) 

(Rizzini) – Suponhamos que você, Herculano, estivesse vivendo no século XIX na França e visse nas livrarias de Paris O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, lançado nesse dia nas livrarias. Qual a sua impressão após a leitura da obra? 

(Herculano) – Jorge Rizzini, você me dá a oportunidade de fazer aqui (já que você não pretende divulgar imediatamente; esta é uma fita que vai ficar para o futuro. Eu nunca pensei que tivesse a oportunidade de falar para o futuro. Acho que é uma pretensão muito grande. Mas, em todo o caso, como você está a abrir essa porta, eu vou falar para o futuro). Eu queria dizer que no século passado (XIX) e, isto não é um sonho, uma ilusão, é uma convicção adquirida através de pesquisas que eu fiz e que nunca revelei a ninguém, levado por uma revelação; uma revelação inesperada através de um médium inteiramente ignorante do assunto e que me abriu o caminho para uma possibilidade muito interessante. Vamos esclarecer isto. No século XIX eu estive na França, realmente, mas não era francês. Eu era português. Eu morava em Portugal, onde tive uma encarnação. Eu fui parar a França como exilado. E como exilado tomei conhecimento do Espiritismo, mas não o aceitei porque eu era católico. E era um tipo católico muito comum, aliás, em Portugal, naquela época. Discordava dos padres, brigava com o clero e não aceitava muito o catolicismo. O meu desejo era encontrar uma forma de fazer o Cristianismo voltar ao seu estado primitivo, quer dizer, voltar à verdade pura do Cristo. Era este o meu desejo. Como naquela época eu era também jornalista, como sou hoje, isso ficou gravado em alguns jornais portugueses, o que se pode constatar. 

(Rizzini) – Um pormenor, Herculano. Você se lembraria do nome que tinha? 

(Herculano) – Eu não quero dizer, Rizzini. Você me perdoa isso, mas eu não quero dizer. Eu sei que nessa ocasião... 

(Rizzini) – Mas esta é uma entrevista para o futuro. 

(Herculano) – Sim, eu sei, mas o futuro depois verá. Mas eu tive, então, oportunidade de saber que se estava processando uma nova revelação, mas Portugal era um país profundamente católico e qualquer infiltração de outra religião lá seria prejudicial, porque o povo não estava à altura, segundo eu pensava, de aceitar uma nova concepção de Deus. Então, não adoptei o Espiritismo. Continuei católico até ao fim, mas um católico às avessas, porque continuamente em luta com o próprio clero. Então, eu diria a você: não tenho a certeza que eu vi algum livro espírita, mas sei que tive conhecimento do Espiritismo. Mas se eu visse O Livro dos Espíritos em Paris, nesse dia 14 de julho, naquela época (na data da tomada da Bastilha) eu, certamente, não teria o impacto que hoje me provocaria essa visão. Porque não sabia ainda o que era o Espiritismo, nem tinha possibilidade de saber que ele realizava aquele meu sonho: o sonho da volta ao Cristianismo primitivo. Só depois de passar para o mundo espiritual foi que eu tive contacto pleno com a nova revelação. Interessante: foi no Espaço que eu me tornei espírita. Quando eu vim para a Terra, portanto, nascendo aqui no Brasil dessa vez – e nascendo em Avaré, no Estado de São Paulo, no dia 25 de setembro de 1914... 

(Rizzini) – E no meio católico... 

(Herculano) – Também numa família católica. Tendo educação católica, eu, entretanto, já trazia ideias espíritas bem acentuadas, que se foram revelando em mim independentemente de qualquer influência exterior. De maneira que, agora sim, se eu tivesse depois disso um encontro com O Livro dos Espíritos numa livraria de Paris, para mim seria uma grande emoção, uma emoção extraordinária. 

(Rizzini) – E se você encontrasse numa das ruas do centro de Paris, de súbito, ao dobrar uma esquina, a figura de Allan Kardec? 

(Herculano) – Bem... Se eu o encontrasse agora, nesta época, quer dizer, depois que sou espírita, então para mim seria uma coisa extraordinária, porque Allan Kardec representa a figura exponencial dos novos tempos na Terra. Jesus veio para implantar no mundo o Reino de Deus – e realmente ele realizou esse trabalho maravilhoso, pois implantou-o no coração e na consciência dos poucos homens que foram capazes de compreendê-lo até hoje – e o Reino de Deus vai desenvolvendo-se lentamente através dos séculos, vai realizando-se apesar dos homens. De maneira que Jesus representou essa figura extraordinária, e Kardec é o seu continuador. Kardec foi aquele que veio trabalhar na era decisiva da implantação do Reino de Deus em maior amplitude. Kardec é quem trouxe a revelação que o Espírito de Verdade transmitiu; ele trouxe essa possibilidade extraordinária de abrir as perspectivas do mundo para uma era inteiramente nova que está nascendo aos nossos olhos neste momento, neste século XX. 

Herculano Pires, certamente tomado por um súbito sentimento de pejo, não revelou o nome que tivera na existência anterior em Portugal, mas anos depois de sua desencarnação pesquisei a vida dos grandes vultos da literatura lusitana do século XIX e descobri inúmeros pontos de contacto (a começar pelo nome) entre ele e o célebre jornalista, romancista, poeta e historiador Alexandre Herculano, o qual ao tempo de Allan Kardec se exilara na França. O mesmo carácter impoluto e inflexível; o sentimento religioso; a oposição ao clero; o amor à literatura, particularmente à poesia e ao romance; e, sobretudo, a fidelidade à verdade. 

A propósito da extremada fidelidade à verdade, medite o leitor sobre o seguinte texto, mas procurando descobrir se o autor é o Herculano nascido em Portugal ou o brasileiro: 

“Quando a justiça de Deus põe a pena na destra do historiador, ao passo que lhe põe na esquerda os documentos indubitáveis de crimes que pareciam escondidos para sempre debaixo das lousas, ele deve seguir avante sem hesitar, embora a hipocrisia ruja em redor, porque a missão do historiador tem nesse caso o que quer que seja de divina.” (4) 

Parece-nos evidente tratar-se de um só Espírito. 

As informações sobre a reencarnação de Herculano Pires foram por mim guardadas, sigilosamente, durante décadas. Somente dias atrás, em conversa com Heloísa Pires, me referi à pesquisa, mas antes que lhe revelasse o resultado ela exclamou sorrindo: 

– Meu pai é a reencarnação de Alexandre Herculano. O pai, certa vez, comentou isso! 

Não foi, pois, por outra razão que quatro anos antes da desencarnação Herculano Pires redigira um extenso e belo artigo exaltando a sua antiga pátria e o renascimento do movimento espírita lusitano. (5) 

Não estamos, porém, dogmatizando, mesmo porque o julgamento final cabe, evidentemente, ao leitor. 

/... 
(1) Vide a obra Curso Dinâmico de Espiritismo, capítulo 20, editora Paidéia. 
(2) Herculano Pires desde menino gostava de fazer anotações num diário. Escreveu vários. Num deles anotou estes pensamentos: “Às vezes me pergunto por que este prazer mórbido de registar num diário os acontecimentos, os pensamentos, as emoções, as ocorrências de uma vida obscura. (...) O facto é que anoto, registo, comento, protesto, censuro e louvo para mim mesmo – ao menos assim me parece – mas nem por isso deixo de pensar, às vezes, que estes rabiscos possam ter um destino diferente, um endereço oculto.” Palavras proféticas, porque os rabiscos de Herculano Pires tinham, realmente, um endereço oculto: o meu, o de seu futuro biógrafo. 
(3) A entrevista completa encontra-se no meu livro Imortalidade
(4) Texto extraído do volume terceiro, página 192, da obra Opúsculos, de Alexandre Herculano (autor, inclusive, da História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal). 
(5) Vide a revista “Estudos Psíquicos”, de Lisboa, edição de junho de 1975. 


Jorge RizziniJosé Herculano Pires o Apóstolo de Kardec o Homem, a Vida, a Obra, Apresentação e, Apêndice – Herculano Pires revela uma sua encarnação, 1º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Jorge Rizzini, o homem) 

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~~~ Natureza da Revelação Espírita 
(IX) 

~~~ A Terceira Revelação

A primeira revelação estava personificada em Moisés, a segunda em Cristo e a terceira não o está em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é colectiva; reside nisso uma característica essencial de grande importância. É que ninguém, por consequência, se pode afirmar seu profeta exclusivo. Foi feita simultaneamente em toda a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e de todas as condições, desde o mais baixo ao mais elevado da escala, consoante a profecia relatada pelo autor dos Actos dos Apóstolos: «E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão visões e os vossos velhos sonharão sonhos; / E também do meu Espírito derramarei sobre o meu servo e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão.» (Actos dos Apóstolos, 2: 17, 18.) Não saiu de nenhum culto especial para servir um dia de ponto de encontro a todos(*) 

(*) O nosso papel pessoal no grande movimento das ideias que se prepara através do Espiritismo e que começa a acontecer, é o de observador atento que estuda os factos para daí retirar as consequências. Confrontámos todos os que nos foi possível reunir; comparámos e comentámos as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos do globo; depois, coordenámos tudo metodicamente; numa palavra, estudámos e demos a saber ao público o fruto das nossas investigações sem atribuir ao nosso trabalho outro valor que o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem nunca nos termos dado ares de chefe de doutrina, nem ter querido impor as nossas ideias a ninguém. Ao publicá-las, usámos de um direito comum e os que as aceitaram fizeram-no livremente. Se estas ideias encontraram numerosas simpatias, é por terem tido a vantagem de corresponder às aspirações de um grande número, com o que não nos podemos envaidecer, pois a sua origem não nos pertence. O nosso maior mérito é o da perseverança e devoção à causa que abraçamos. Em tudo isto fizemos o que outros podiam ter feito; é por isso que nunca tivemos a pretensão de nos julgarmos profetas ou messias e ainda menos apresentarmo-nos por tal. (N. do A.) 

Sendo as duas primeiras revelações produto de um ensinamento pessoal, foram forçosamente localizadas. Isso quer dizer que tiveram lugar num só ponto, à volta do qual a ideia se foi expandindo de uns para os outros; mas foram precisos muitos séculos para que atingissem os extremos do mundo, mesmo sem o invadirem por completo. A terceira tem isso de particular; não sendo personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diferentes e todos se tornaram centros ou focos de irradiaçãoAo multiplicarem-se estes centros, a sua radiação une-se a pouco e pouco, como os círculos formados por uma quantidade de pedras atiradas à água; de tal maneira que, em determinada altura, acabarão por cobrir a superfície total do globo. 

É esta uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se tivesse surgido num só ponto, se tivesse sido obra exclusiva de um homem, teria formado uma seita à sua volta; mas meio século teria talvez decorrido antes de ter atingido os limites do país onde tivesse nascido, enquanto que assim, dez anos depois, tem rebentos implantados de um pólo ao outro. 

Esta circunstância, espantosa na história das doutrinas, confere a esta uma força excepcional e uma força de acção irresistível; com efeito, se a comprimirmos num ponto, num país, é materialmente impossível comprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Por cada sítio onde seja reprimida, haverá mil ao lado onde florescerá. Ainda mais, se a extinguirmos num indivíduo, não podemos extingui-la nos Espíritos, que são dela a fonte. Ora, como os Espíritos estão em todo o lado e porque sempre existirão, se, por impossível, se conseguisse abafá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque assenta sobre um factofacto esse que está na natureza, e não podemos suprimir as leis da natureza. É disto que se devem então convencer os que sonharam com a aniquilação do Espiritismo. (Revista Espírita, Fevereiro de 1865, p. 38: Perpetuidade do Espiritismo.) 

No entanto, estes centros disseminados deveriam permanecer ainda algum tempo isolados uns dos outros, confinados como alguns estão a países longínquos. Era necessário entre eles um traço de união que os colocasse em comunhão de pensamento com os seus irmãos de doutrina, ensinando-lhes o que se fazia noutros lugares. Este traço de união, que terá faltado ao Espiritismo na antiguidade, encontra-se nas publicações que chegam a todo o lado, que condensam numa forma única, concisa e metódica, os ensinamentos dados em todos os sítios sob múltiplas formas e em diversas línguas. 

/… 


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 45 a 48 (IX), 11º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida. 
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 16 de maio de 2022

as vidas sucessivas | os elementos ~


Experiências magnéticas – Regressão da memória e previsão – Caso nº 2, Joséphine ~ 

(II de III) 

Tendo interrompido durante alguns meses as minhas experiências com Joséphine, fiz uma viagem a Paris e tentei ver que resultados daria o meu modus operandi com a senhora Lambert, um dos meus antigos sujets. Ver-se-á mais adiante uma exposição do seu caso, de como fui conduzido a orientá-la para o futuro ao invés do passado. 

Tão logo retornei a Voiron, tentei com Joséphine esse método de premonição sem nada dizer-lhe sobre as minhas experiências em Paris. Eis o resumo dos resultados obtidos. 


Primeira sessão ~

Adormeço Joséphine através de passes longitudinais de maneira a levá-la aos primeiros anos de sua juventude e, em seguida, desperto-a através de passes transversais. Quando ela retorna o seu estado normal, retoma a sensibilidade; continuo os passes transversais com o pretexto de libertá-la mais completamente. 

Depois de um minuto ou dois, ela me diz que a adormeço ao contrário de despertá-la. Fase de letargia bastante longa. Desperta numa fase de sonambulismo. Pergunto-lhe se continua em casa do Sr. C. Ela responde que não: deixou-o há três anos para voltar à sua terra natal em Manziat. Está em casa de seus pais e tem vinte e cinco anos. 

Novos passes transversais, nova fase de letargia durante a qual ela primeiramente permanece bastante calma, porém, após alguns instantes, mostra todos os sinais de um grande sofrimento. Torce-se sobre a cadeira, em seguida vira a cabeça e esconde o rosto com as mãos, chora e o seu pesar parece tal que a Sra. C., emocionada, se retira para outro aposento. 

Quando chega à fase seguinte de sonambulismo, parece ainda muito triste. Pergunto-lhe o que tem. Ela não quer responder e vira novamente a cabeça como se tivesse vergonha de alguma coisa. Suspeito a causa de seu tormento e pergunto-lhe se está casada agora. Ela me responde: 

– Não, ele não quer. No entanto, havia-me prometido. 

– Diga-me o seu nome; encarregar-me-ei de agir sobre ele, de fazê-lo raciocinar. 

– Você não conseguirá nada, já fiz tudo o que podia. 

Terminei descobrindo que ela continua na sua terra natal, que tem trinta e dois anos e que a sua infelicidade aconteceu há dois anos. Impossível conseguir o nome do sedutor. 

Empenho-a a se deixar levar sem se inquietar com nada. 

Na presença de sua dor, que nos emociona a todos, de tão vivamente expressa que é, reconduzo-a ao seu estado normal através de passes longitudinais, passando pelas mesmas fases de letargia e de sonambulismo, com as mesmas expressões de dor. 


Segunda sessão ~

O mesmo processo experimental: primeiramente regressão da memória através de passes longitudinais, depois a caminhada em direcção ao futuro através de passes transversais. Após o estado normal, a letargia calma. Desperta com a idade de vinte e cinco anos na sua terra natal. Segunda letargia com sinais de dor e de vergonha; segundo despertar com trinta e dois anos. Recordo-lhe as nossas antigas relações em Voiron e termino por persuadi-la a confiar-se a mim. Ela murmura confusa o nome de seu sedutor. É um jovem lavrador do local, Eugène F., com quem teve um filho. (i) 

A continuação dos passes transversais: terceira letargia; terceiro despertar. Ela tem então quarenta anos, continua em Manziat e está muito triste. O seu filho morreu há pouco tempo e Eugène casou-se com outra. 

Continuação dos passes transversais: quarta letargia; quarto despertar. Ela tem quarenta e cinco anos e ganha a vida costurando calças para um alfaiate. Está muito triste, já não tem notícias dos seus antigos patrões. Louise, a sua melhor amiga de Voiron, escreveu-lhe três cartas, depois a correspondência cessou. 

Continuo os passes transversais e, já cansado, interrogo-a após alguns minutos de letargia aparente, sem me aperceber de que ela já havia avançado diversas fases. Está agora bastante velha, vive com esforço graças à sua costura, porém acabou por esquecer um pouco as tristezas. Falo-lhe então da morte. Pergunto-lhe se não deseja saber o que lhe acontecerá quando deixar esta vida. Ela diz que sim. “Para isso é necessário que eu a faça envelhecer ainda mais.” Ela hesita um pouco, mas acaba por aceitar quando lhe assegurei que a traria de volta ao seu estado actual. 

Novos passes transversais. Depois de dois ou três minutos ela volta-se para o encosto de sua cadeira com uma expressão de franco sofrimento, escorregando em seguida até ao chão. É a agonia e a morte. Continuo vivamente os passes para transpor esse mau momento e interrogo-a. Ela está morta; não sofre, porém não vê espíritos. Pôde seguir o seu enterro e ouvir o que diziam dela: “Foi bom para a pobre mulher; ela não tinha já razão para viver.” As preces do padre não lhe adiantaram grande coisa, porém a sua presença em torno do caixão afastou os maus espíritos. As ideias espíritas que ela havia adquirido em casa do seu antigo patrão foram-lhe muito úteis porque permitiram-lhe aperceber-se do seu estado. 

Não achei prudente desta vez levar mais longe a experiência. Trouxe o sujet ao seu estado normal através de passes longitudinais que provocaram, por ordem inversa, os mesmos gestos característicos da agonia e da sedução, durante as fases de letargia correspondentes. 


Terceira sessão ~

Um dos meus amigos, cujo genro havia recentemente desaparecido em circunstâncias misteriosas, havia-me enviado uma roupa que tinha pertencido ao desaparecido, suplicando-me que me esforçasse por obter alguns detalhes sobre o trágico acontecimento através de um dos meus sujets

Adormeci Joséphine, após haver colocado a tal roupa entre as suas mãos. Alguns minutos depois, determinei-lhe que procurasse alguma pista da pessoa a quem o objecto havia pertencido. Ela respondeu-me que não sentia nada. Imaginando que ela não estivesse suficientemente desligada do seu corpo físico, aprofundei-lhe o sono através de passes longitudinais. Constatei então, não sem admiração, que durante a fase de letargia que se seguiu à minha ordem ela se entregou à mesma mímica e à qual se abandonava logo que eu a impelia ao futuro, durante as sessões precedentes, através de passes transversais. (ii) Quando ela chegou à fase sonambúlica onde podia responder-me, tinha trinta e cinco anos. Continuei os passes longitudinais e cheguei assim progressivamente até à morte, passando pelo espectáculo da sua agonia e, em seguida, ao seu despertar na vida do espaço. Ela me confirmou o que já havia dito a respeito do seu estado: não sofria, mas encontrava-se numa obscuridade quase completa, iluminada de tempos em tempos por luzes frouxas. Percebia espíritos mais ou menos luminosos que flutuavam à sua volta, porém não podia comunicar-se com nenhum deles. As ideias espíritas que havia adquirido na casa dos seus antigos patrões permitiram-lhe suportar mais pacientemente o seu estado actual, apesar de serem bastante vagas, porque já fazia muito tempo que já não ouvia falar desse assunto. 

Enfim, continuando a magnetização, sentiu a necessidade de reencarnar; e foi durante uma fase de letargia que foi feita a sua entrada no ventre de sua mãe, caracterizada pela posição de feto que ela tomou. 

Agora ei-la menina; morre muito jovem ainda e não vê para que servem todas as reencarnações sucessivas. 

Retorna muito rapidamente ao estado normal sob a influência de passes transversais, auxiliados pela sugestão. 


Quarta sessão ~

Joséphine acaba de deixar a família C., onde achava o serviço penoso demais. Implorou-me que a tomasse provisoriamente ao meu serviço enquanto procurava outro emprego. 

Foi o que fiz. 

Essa quarta sessão teve sobretudo por finalidade provocar em Joséphine a revelação de factos bastante próximos para que eu pudesse controlá-los. 

Adormeço-a através de passes longitudinais conforme o habitual e levo-a ao estado que precede o seu nascimento na vida actual e, onde ela ainda é Jean-Claude. Confirma-me então tudo o que disse nas outras sessões. Pela pressão do meu dedo no meio de sua fronte, procuro saber exactamente em que época foi soldado em Besançon. Ele não me pode dar a data, mas, a meu pedido, diz-me que a grande festa dos soldados não era a 14 de julho, porém em 1º de maio. Era efectivamente no 1º de maio que era festejado o Dia de São Filipe, de 1830 a 1848 e, parece-me muito difícil explicar naturalmente esta recordação. 

Em seguida, trago Joséphine rapidamente à sua idade actual através de passes transversais e continuo esses passes envelhecedores que, como nas sessões precedentes, determinam primeiramente uma longa fase de letargia ao longo da qual se produz a mímica das dores do parto. (A fase de sonambulismo, onde nas sessões precedentes ela tinha vinte e cinco anos, passa-me despercebida, provavelmente porque eu havia dado um passo mais rápido que a sua progressão no tempo.) 

Ela tem agora trinta e cinco anos, o seu pai morreu, a sua mãe e o seu filho vivem ainda. Pergunto-lhe o que fez desde que deixou o casal C., em casa de quem ela havia trabalhado durante longo tempo em Voiron. Responde-me que primeiro trabalhou como doméstica na casa do coronel de Rochas, enquanto esperava uma vaga nas Galerias Modernas de Grenoble, a qual obteve depois de um mês e meio; mas que permaneceu apenas três meses como vendedora nessa grande loja, retornando então à casa dos seus pais aproximadamente no Dia de Todos os Santos (1904). Depois recebeu uma carta do coronel que a convidava a ir a Voiron para experiências. Dispunha-se a partir, quando a sua mãe faleceu. Desde então já não obteve notícias dele. (iii) 


Quinta sessão ~

Começo por pressionar a fronte de Joséphine e ela desperta. Ela recorda-se pouco a pouco da sua vida passada, que eu apenas faço aflorar rapidamente. Diz-me que, quando era pequena, antes de ser Philomène, se chamava Alice e que, antes de ser o homem que matou, tinha tido diversas encarnações, entre as quais uma de macaco, mas que não se recorda delas. Tudo de que se lembra é que sofria nos intervalos. Confirma-nos que há animais bons e maus. 

Digo-lhe em seguida que a adormecerei através de passes longitudinais e que desejo que caminhe para o futuro. Conta-me então que está empregada como vendedora nas Galerias Modernas, recebendo um franco e meio por dia, alimentada e alojada num quartinho que dá para uma rua de fundos (facto que, como eu já disse, não ocorreu). Faço-a passar rapidamente pela fase dolorosa que corresponde à sedução e na qual ela ainda se torce de dor. Quando pode responder-me, tem trinta e cinco anos. (iv) Falo-lhe de sua vida em Voiron; ela já não obteve mais notícias dos seus antigos patrões, excepto através da sua amiga Louise, (v) que lhe escreveu apenas três vezes. Recebeu, há sete ou oito anos, (vi) uma carta do coronel de Rochas convidando-a a ir à sua casa em Agnèles para experiências. Estava pronta para partir quando a sua mãe adoeceu, precisando então ficar perto dela. A mãe curou-se e morreu somente há dois anos (isto é, em 1919). 

/…  
(i) Tirei informações no local. Eugène F. lá vive actualmente, pertence a uma família de lavradores abastados e nasceu em 1885. Eugène e Joséphine moravam em casas vizinhas, têm a mesma idade e fizeram juntos a primeira comunhão. (A.R.
(ii) Disso parece resultar que o método de magnetização, ou seja, a direcção dos passes, não tem importância de maior. O essencial parece ser o relaxamento dos laços que unem ao corpo físico o corpo astral para permitir a este último retomar a direcção já por ele seguida ou a que se lhe sugere e, sem dúvida, para também lhe permitir retomar mais facilmente as formas diversas das épocas evocadas. (A.R.) 
(iii) Ela realmente veio a minha casa como camareira, onde permaneceu um mês; porém não pôde obter a vaga que desejava nas Galerias Modernas, partindo directamente de minha casa para a sua cidade. Ainda não lhe escrevi, pedindo-lhe que regressasse a Voiron para novas experiências. (A.R.) 
(iv) Ela tinha dezoito anos em 1904; estará com trinta e cinco anos em 1921. (A.R.) 
(v) Encontrar-se-á explicação mais adiante sobre o caso de Louise (caso nº 5). (A.R.) 
(vi) Consequentemente, 1921 menos oito, isto é, em 1913, ela teria então cerca de 27 / 28 anos. (A.R.) 


Albertde RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 2 – Joséphine, 1904 (II de III) 10º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites

segunda-feira, 2 de maio de 2022

o grande desconhecido ~


O GRANDE DESCONHECIDO | 

Todos falam de Espiritismo, bem ou mal. Mas poucos o conhecem. Geralmente o consideram como uma seita religiosa comum, carregada de superstições. Muitos o vêem como uma tentativa de sistematização de crendices populares, onde todos os absurdos podem ser encontrados. Há os que o aceitam como nova Goécia, magia negra da Antiguidade disfarçada de Cristianismo milagreiro. Grandes cientistas se deixaram envolver nos seus problemas e se desmoralizaram. Outros entendem que podem encontrar nele a solução para todos os seus problemas, conseguir filtros de amor e os 13 pontos da Lotaria Desportiva. E na verdade os seus próprios adeptos não o conhecem. Quem se diz espírita arrisca-se a ser procurado para fazer macumba, despachos contra inimigos ou curas milagrosas de doenças incuráveis. Grandes instituições espíritas, geralmente fundadas por pessoas sérias, tornam-se às vezes verdadeiras fontes de confusão a respeito do sentido e da natureza da doutrina. O Espiritismo, nascido ontem, nos meados do século passado, é hoje o Grande Desconhecido dos que o aprovam e o louvam e dos que o atacam e criticam. 

Durante muito tempo ele foi encarado com pavor pelos religiosos, que viam nele uma criação diabólica para a perdição das almas. Falar em fenómenos espíritas era provocar votos de esconjuro. Ler um livro espírita era pecado mortal, comprar passagem directa para o Caldeirão de Belzebu. Médicos ilustres chegaram a classificar o Espiritismo como uma fábrica de loucos. Quando começaram a surgir os hospitais espíritas para doenças mentais, alegaram que os espíritas procuravam curar loucos que eles mesmos faziam para aliviar as suas consciências pesadas. E quando viram que o Espiritismo realmente curava loucos incuráveis, diziam que os demónios se entendiam entre si para lograr o povo. 

Hoje a situação mudou. Existem sociedades de médicos espíritas e as pesquisas de fenómenos mediúnicos invadiu as maiores Universidades do Mundo. Não se pode negar que a coisa é séria, mas definir o Espiritismo não é fácil. Porque ninguém o conhece, ninguém acredita que se precisa estudá-lo, pensam quase todos que se aprende a doutrina ouvindo espíritos. Os intelectuais espíritas são confundidos com médiuns. Quem escreve sobre Espiritismo não escreve, faz psicografia. Acham que para estudar a doutrina é preciso desenvolver a mediunidade e receber maravilhosas lições de Espíritos Superiores. 

Não obstante, o Espiritismo é uma doutrina moderna, perfeitamente estruturada por um grande pensador, escritor e pedagogo francês, homem de letras e ciências, famoso por sua cultura e os seus trabalhos científicos e que assinou as suas obras espíritas com o pseudónimo de Allan Kardec. Saber isto já é saber alguma coisa a respeito, mas está muito longe de ser tudo a Doutrina complexa, que abrange todo o campo do Conhecimento, apresenta-se enquadrada na sequência epistemológica de: 

a) Ciência – como pesquisa dos chamados fenómenos paranormais, dotada de métodos próprios, específicos e adequados ao objecto que investiga, tendo dado origem a todas as ciências do paranormal, até à Parapsicologia actual e ao seu ramo romeno, que se disfarça sob o nome pouco conhecido de Psicotrónica, para não assustar os materialistas. 

b) Filosofia – como interpretação da natureza dos fenómenos e reformulação da concepção do mundo e de toda a realidade segundo as novas descobertas científicas; aceite Oficialmente no plano filosófico, consta do Dicionário Filosófico do Instituto de França; no Brasil, reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Filosofia, constando do volume Panorama da Filosofia em São Pauto, edição conjunta do Instituto e da Universidade de São Paulo, coordenação do Prof. Luiz Washington Vitta. 

c) Religião – como consequência das conclusões filosóficas, baseadas nas provas da sobrevivência humana após a morte e nas ligações históricas e genésicas do Cristianismo com o Espiritismo; considerado como a Religião em Espírito e Verdade, anunciada por Jesus, segundo os Evangelhos; religião espiritual, sem aparatos formais, dogmas de fé ou instituição igrejeira, sem sacramentos. 

d) Essa sequência – obedece as leis da Gnosiologia, pelas quais o conhecimento começa nas experiências do homem com o mundo e se desenvolve nas ilações do pensamento, na cogitação filosófica e determina o comportamento humano dentro do quadro da realidade conhecida; como no Espiritismo essa realidade supera os limites da vida física, a moral se projecta no plano das relações do homem com a Divindade, adquirindo sentido religioso. 

Colocado assim o problema, a complexidade do Espiritismo se torna facilmente compreensível. Tudo no Universo se processa mediante a acção e o controlo de leis naturais, que correspondem à imanência de Deus no Mundo através de suas leis. Toda a realidade verificável é natural, de maneira que os espíritos e as suas manifestações não são sobrenaturais, mas factos naturais explicáveis, resultantes de leis que a pesquisa científica esclarece. O Sobrenatural só se refere a Deus, cuja natureza não é acessível ao homem neste estágio de sua evolução, mas será possivelmente, quando o homem atingir os graus superiores de sua evolução. Todas as possibilidades estão abertas e franqueadas ao homem em todo o Universo, desde que ele avance no desenvolvimento de suas potencialidades espirituais, segundo as leis da transcendência. 

Este volume procura dar uma visão geral do Espiritismo em forma de exposição livre, sem um esquematismo didáctico, mostrando as conotações da Doutrina com as posições culturais da actualidade. Não se trata da suposta actualização tentada por autores que desconhecem as dimensões do Espiritismo e não podem relacioná-la com os avanços científicos, tecnológicos, filosóficos e religiosos da actualidade. A actualização, no caso, é do método expositivo, que revela a plena actualidade da Doutrina e desenvolve alguns temas kardecianos em forma de exposição mais minuciosa, para melhor compreensão dos leitores. A actualização da linguagem e da terminologia doutrinárias nas obras de Kardec é uma pretensão descabida. Cada doutrina, científica ou filosófica, tem a sua própria terminologia, que só se transforma diante de novos factos ocorridos na pesquisa. Por outro lado, essas actualizações, como sabem os especialistas, geralmente se transformam em atentados à doutrina, pela falta de conhecimento dos que pretendem fazê-las. Uma doutrina actualiza-se na proporção em que evolui, com acréscimos reais de conhecimentos no desenvolvimento de seus princípios. Não existe, no mundo actual nenhum centro de pesquisas e estudos espíritas que tenha avançado legalmente além de Kardec, através da descoberta de novas leis da realidade espírita. O Espiritismo avança, pelos seus princípios e os seus conceitos, muito além da realidade actual. E mesmo que não avançasse, ninguém teria o direito de interferir na obra de Kardec, como na obra de qualquer outro cientista. É livre o direito de contestar através de outras obras, mas não há direito nenhum que permita a um pintamonos desfigurar as obras clássicas da cultura mundial. 

Os capítulos deste livro correspondem a exposições doutrinárias feitas pelo autor em várias ocasiões, em palestras feitas com debates, até mesmo em numerosas Faculdades de Teologia católicas e protestantes, bem como em debates de televisão. Por isso, são capítulos escritos em linguagem livre, dando ao leitor a possibilidade de discutir os problemas consigo mesmo, tentando refutar as teses expostas. Esperamos que os meios espíritas, particularmente aproveitem estes capítulos para uma incursão mais corajosa nas possibilidades de conhecimento que o Espiritismo nos oferece em todos os campos das actividades humanas e em face dos múltiplos problemas que nos desafiam nesta hora de transição da cultura humana. 

São anos de estudos, experiências, investigações e intuições espirituais que se acumulam nestas páginas, ao correr das teclas, mas sob rigoroso controlo da razão. Que no Espiritismo tudo deve ser rigorosamente submetido a apreciações e críticas racionais. 

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, O Grande Desconhecido 1º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O monge estuda as Escrituras | 1877, lápis e giz-estudo ao painel “A Educação de São Luís” Panteão, Paris (a mesma imagem, do monge, aos pés de Branca de Castela e de São Luís, nesse painel, óleo sobre tela) ambos de Alexandre Cabanel