sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

as vidas sucessivas | os elementos ~


Experiências magnéticas – Regressão da memória e previsão – Caso nº 3 – Eugénie, 1904

Na época em que eu fazia experiências em Voiron com Joséphine, encontrei em Grenoble um outro sujet que estudei com a mesma ordem de reflexões com o Dr. Bordier, director da Escola de Medicina e de Farmácia, bastante materialista por educação, porém de espírito aberto a modificar a sua opinião mediante a evidência dos factos.

Esse sujet era uma mulher de trinta e cinco anos chamada Eugénie, viúva com dois filhos, que ganhava a vida fazendo tarefas domésticas. Enquanto o seu marido era vivo, ela trabalhava numa fábrica de luvas e os dois ganhavam bons salários, sem necessidade de economias. A sua natureza é apática, muito franca e pouco curiosa. A saúde, excelente.

Eis o resumo de algumas sessões que tivemos na Escola de Medicina:

Quando se desprende sob a influência dos passes, Eugénie vê formarem-se sucessivamente: um fantasma azul à direita e, em seguida, um outro vermelho à esquerda; esses dois fantasmas reúnem-se a seguir num só, que apresenta a mesma forma do seu corpo físico e que se liga a este através de um laço luminoso. No meio desse laço há uma espécie de bola mais luminosa do que o restante e com a ajuda da qual ela vê simultaneamente os seus dois corpos separados. Ela acredita que se trata do seu espírito. (i)

(i) Obtive a mesma constatação em Paris com Laurent e relatei a observação nos Annales des Sciences Psychiques em setembro de 1895. Isso não se reproduz sempre; a bola brilhante (o corpo mental?) permanece algumas vezes num dos outros dois corpos e então Laurent apenas vê aquele corpo no qual ele não se encontra. (Albert de Rochas)

Ela está adormecida há alguns minutos com o auxílio de passes longitudinais aplicados de cima para baixo. Já a fiz recuar alguns anos. Ela só responde quando é interrogada e não responde se a pergunta é feita durante uma fase de letargia. É preciso, então, aprofundar o sono ou proceder a um despertar parcial para conduzi-la a uma das fases vizinhas, ao sonambulismo.

Continuo os passes longitudinais. Vejo uma lágrima cair-lhe dos olhos. Diz-me que tem vinte e cinco anos e que acaba de perder um filho.

Continuação dos passes – Surge-me a ideia de ver em que dará o instinto do pudor. Levanto levemente o seu vestido; ela o abaixa com vivacidade: “Não, agora não; não é conveniente durante o dia”. Ela me toma por seu marido, tem dezassete anos e casou-se há alguns meses.

Continuação dos passes – Sobressalto brusco com um grito de pavor. Ela viu aparecerem a seu lado os fantasmas da avó e de uma tia, falecidas havia pouco tempo e com alguns dias de intervalo. (ii) Tem agora catorze anos. Novamente levanto a sua saia; ela defende-se e comprime os joelhos. Pergunto-lhe de que tem medo e ela me responde que sabe que não se deve brincar assim com os rapazes.

(ii) Esta aparição, que ocorreu na idade à qual a levei, causou-lhe impressão bastante profunda. (A. de Rochas)

Ei-la agora com onze anos. Vai fazer a primeira comunhão. Os seus maiores pecados foram ter algumas vezes desobedecido à avó e sobretudo ter tirado um soldo (iii) do bolso de seu pai. Sentiu muita vergonha disso e pediu-lhe desculpas. Interrogada se preferia morrer a renunciar à sua religião, ela não responde, porém, a expressão do seu rosto mostra que não aspira ao martírio.

(iii) Soldo – moeda de cobre francesa equivalente à vigésima parte do franco. (N.T.)

Com nove anos – A sua mãe faleceu há oito dias; ela está bastante triste. O seu pai acaba de fazê-la deixar Vinay, onde é tintureiro, para mandá-la para Grenoble para casa do seu avô, a fim de que lá aprenda costura. Ela não tem mais necessidade de ir à escola: sabe ler, escrever e contar. Faço-a escrever.

Nova tentativa com o seu vestido. Ela me dá uma tapa dizendo: “Garoto vilão! Pare com isso!”

Com seis anos – Frequenta a escola em Vinay e já sabe escrever bem.

Com quatro anos – Toma conta de sua irmãzinha quando não está na escola. Começa a fazer exercícios gráfico-motores e a escrever algumas letras: aeiou. Não reage mais ao toque no seu vestido; o seu pudor não foi ainda desperto.

Agora ela é muito pequena. Não sabe a idade que tem, não fala ainda, diz apenas “papa”, “mamã”. Mais adiante falarei sobre as suas impressões durante os seus primeiros anos.

Passes transversais, despertando-a, fazem-na passar exactamente pelas mesmas fases e os mesmos estados de consciência.

Na sessão precedente, deixamos Eugénie na fase de bebé sendo amamentada por sua mãe. Aprofundando bastante o seu sono, determinei uma mudança de personalidade. Ela não estava mais viva, flutuava numa semiobscuridade, não tendo nem pensamento, nem necessidades, nem comunicação com ninguém.

Novos passes determinam um novo estado. Ela se vê dentro de um berço muito pobre. Chamam-na Ninie ou Apollonie. (iv)

(iv) Em poucas sessões, sobretudo no início das nossas experiências, apresentou-se, entre a personalidade actual e a de Apollonie, a de uma criança chamada como ela Eugénie Delpit, falecida muito jovem. A sua mãe teve doze filhos, dos quais a maioria morreu muito cedo; seria ela a reencarnação de um desses filhos que deixou poucos vestígios na sua memória ou seria um simples erro devido à sua imaginação actual? Ver-se-á um caso de intercalação análogo no caso nº 15. (Albert de Rochas)

Ainda mais distante no passado, ela está novamente a flutuar no espaço, num estado de calma comparável à experiência do limbo da igreja católica.

Não ousei levar mais longe o sono, pois a magnetização já durava mais de 45 minutos e ambos, Eugénie e eu, nos sentíamos esgotados; porém, pressionando o ponto frontal da memória sonambúlica, fiz aflorarem-lhe recordações ainda mais remotas. Ela tinha sido anteriormente uma menina, falecida muito jovem, em consequência de uma febre ocasionada pela dentição; vê os pais a chorar junto do seu corpo, do qual se desligou bastante rapidamente.

Procedi em seguida ao despertar, através de passes transversais.

Despertando, ela percorre em sentido contrário todas as fases assinaladas anteriormente e me dá novos detalhes provocados pelas minhas perguntas. Algum tempo antes de sua última encarnação, ela sentiu que era preciso reviver noutra família, aproximou-se daquela que deveria vir a ser sua mãe e que acabava de concebê-la; não entrou no feto, porém ficou à volta de sua mãe até ao momento em que a criança veio ao mundo. Então entrou pouco a pouco, “por ímpetos”, no pequenino corpo e só ficou completamente ligada a ele por volta dos sete anos. Até esse momento viveu parcialmente fora do seu corpo carnal, que ela via nos primeiros meses de sua vida como se estivesse colocada fora dele. (v) Não distinguia bem nessa época os objectos materiais que a cercavam, mas, por outro lado, percebia espíritos a flutuar à sua volta. Alguns, muito luminosos, protegiam-na contra outros, sombrios e maléficos, que procuravam influenciar o seu corpo fluídico; quando estes últimos o conseguiam, provocavam esses acessos de raiva que as mães chamam de pirraça.

(v) As minhas mais antigas recordações remontam a uma cena da qual participei aos dezoito meses; vejo ainda a cena que muito me impressionou e vejo-me a mim mesmo em parte. De uma investigação feita com pessoas das minhas relações, concluo que esse fenómeno é bastante frequente. Como apoio para esta afirmação, citarei um trecho de uma carta que o Dr. Maxwel, então advogado geral em Bordeaux, me escreveu com a data de 18 de janeiro de 1905:

“Conheço uma sensitiva que educa um filho. Ela é um sujet bastante notável e vê naturalmente. A criança não é sua, mas foi-lhe confiada desde o nascimento. Ela, sobretudo na obscuridade, vê ao lado da criança uma sombra luminosa, de traços mais formados do que os da criança e um pouco maior do que esta. Essa sombra, quando a criança nasceu, estava mais afastada dela do que o está agora. Parece penetrar pouco a pouco dentro do corpo. A criança tem catorze meses e a penetração é de cerca de dois terços. Esta sensitiva frequentemente via o corpo astral dos moribundos desprender-se. Parece-lhe acinzentado, estendido acima do corpo e parece flutuar.” (A. de Rochas)

Após uma impressão bastante violenta, (vi) produzida na Escola de Medicina quando de sua passagem casual enquanto estava exteriorizada a um metro de uma estante em que havia um pires com uma quantidade bem pequena de sulfureto de cálcio fosforescente, Eugénie já não quis ir a esse estabelecimento e não pude continuar as minhas experiências com ela a não ser acidentalmente, quando a encontrava em casa de uma familiar sua, Sra. Besson. Foi então que, instruído pelas minhas sessões com Joséphine, a conduzi um dia em direcção ao futuro, através de passes transversais suficientemente prolongados, depois de alguns passes longitudinais destinados a adormecê-la.

(vi) Ela teve uma perna completamente paralisada e já não podia andar. (Albert de Rochas)

Eu a fiz envelhecer pouco a pouco. Com a idade de trinta e sete anos (ela na realidade tinha trinta e cinco), manifestou todos os sintomas do parto e a vergonha desse acontecimento, pois não se havia casado novamente. Isto devia passar-se em 1906. Alguns meses mais tarde ela parece afogar-se. Fi-la envelhecer dois anos; novos sintomas de parto. Pergunto-lhe onde está nesse momento. “Sobre as águas”, diz-me. Essa estranha resposta fez-me supor que ela divagava e reconduzi-a ao estado normal.

Ora, tudo o que ela havia predito realizou-se. Tornou-se amante de um operário da fábrica de luvas, com quem teve uma criança em 1906. Pouco depois, desesperada, atira-se ao rio Isère, e salvam-na, agarrando-a por uma perna. Enfim, em janeiro de 1909, deu à luz uma segunda vez, sobre uma das pontes do rio Isère, onde foi tomada subitamente pelas dores do parto quando voltava dos trabalhos domésticos.

Este caso seria verdadeiramente admirável se eu pudesse afirmá-lo de forma absoluta. Infelizmente, na casa da Sra. Besson, eu me contentava em produzir rapidamente alguns fenómenos, sem tomar nenhuma nota, e nem sequer me impressionei com as suas predições, que eu considerava ou incoerências ou previsões justificadas pela sua nova vida. Foi apenas quando os acontecimentos se produziram que as recordações da Sra. Besson e as minhas nos voltaram; porém, o quanto é preciso desconfiar das lembranças que despertam depois dos acontecimentos!

/…


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão / Caso nº 3 – Eugénie, 1904, 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites

sábado, 26 de outubro de 2024

o grande desconhecido ~


O Espírito como Elemento da Natureza |

Os conceitos de naturalidade e normalidade decorrem das experiências da Cultura Empírica e subsistem na Cultura Científica como resíduos daquela fase primária. Esses resíduos emocionais foram alimentados ao longo de todo o processo religioso, por enquadrarem-se na concepção mágica e mística do Universo Misterioso, inacessível à compreensão humana normal. As Religiões ligaram estreitamente esses conceitos aos do sagrado e do profano e não tiveram condições para superá-los. O misticismo é uma forma de alienação, de fuga necessária do homem à dureza da realidade objectiva, onde as leis da estruturação sensorial agem de maneira inflexível. O místico é um desertor do real. O anseio de transcendência no homem, não esclarecido na sua motivação, leva-o a rejeitar o real e buscar o sucedâneo de uma suposta realidade, imaginada como refinamento do real-sensível. Surgem daí as categorias do espiritual e do material, que se mostram confusas na fase mitológica e posteriormente geram a divisão arbitrária e misteriosa das concepções teológicas. Os principais factores desse processo são:

a intuição da indestrutibilidade do ser;
o medo da morte como aniquilamento total;
o desejo de libertação do condicionamento material.

O ser é o que é e recusa-se a deixar de ser. Ele se reconhece como forma existencial subjectiva integrada na estrutura objectiva da realidade material, mas sabe por experiência empírica que esse condicionamento material é efémero e terá fatalmente de se desfazer na morte. O instinto de conservação leva-o a reagir contra essa fatalidade. As provas de sobrevivência dadas pelos fenómenos mediúnicos não o satisfazem, pois essa sobrevivência espiritual o desliga do sensível, a única que lhe parece natural. Ele se apega a essa realidade através de uma concepção mística indefinida, que lhe permite aceitar a possibilidade de uma continuidade natural após a morte. As múmias e os mausoléus egípcios, o paraíso sensorial dos árabes e os dogmas religiosos da ressurreição no próprio corpo carnal atestam essa esperança no próprio processo histórico. Há pessoas cultas, ainda hoje, que não conseguem conceber a sobrevivência humana após a morte em termos espirituais. Condicionaram a sua mente, de tal maneira, ao mundo tridimensional, assustadas com os delírios da cultura religiosa, que temem afastar-se da segurança sensorial da matéria. A concepção materialista do mundo, tão absurda como a concepção mística, nasce da frustração do ser ante o pandemónio das alucinações do fabulário religioso. Kardec teve de agir com prudência na divulgação do Espiritismo, para que a reacção violenta e fanática das religiões não asfixiasse no berço a nova mundividência que nascia das suas pesquisas mediúnicas. Mas no seu livro O Céu e o Inferno colocou o Cristianismo sincrético da igreja no banco dos réus e mostrou que a mitologia dos clérigos era mais absurda e mais cruel do que a do mundo clássico mitológico. A vida eterna oferecida pela Igreja depende de quinquilharias sagradas, de crendices simplórias, de condicionamento mental a um dogmatismo irracional, enquanto os mitos do paganismo se radicavam na realidade empírica, nas experiências naturais do homem no mundo e na lei universal da metamorfose, da incessante transformação das coisas e dos seres ao longo do tempo e do processo histórico racional. A indestrutibilidade do ser não se condicionava, no pensamento mitológico, às exigências de uma corporação religiosa artificial e autoritária, mas às condições visíveis e palpáveis da realidade natural. A simbologia mítica não criava a loja de bugigangas, não dependia de um comércio de contrabandistas nas fronteiras despoliciadas da morte, mas de representações emotivas da sensibilidade humana ante os mistérios do mundo ainda indevassável. A indestrutibilidade do ser, e, portanto, a sua imortalidade, decorria espontaneamente da indestrutibilidade do mundo, em que as coisas e os seres se transformam por lei natural, sem depender de bênçãos ou maldições sacramentais. Os deuses nasciam das águas e da terra, como nascem todas as coisas. Essa naturalidade do pensamento mitológico foi rejeitada pela cultura teológica, que fugiu do real para o irreal, do natural para o imaginário.

O medo da morte como destruição total do ser humano tinha no paganismo a compensação da continuidade da alma além das dimensões da matéria. Sócrates expôs bem esse problema ao defender-se no tribunal de Atenas. Segundo a apologia que Platão lhe dedicou, Sócrates considerou a morte como natural e até mesmo conveniente na idade em que se encontrava. Lembrou que os juízes que o condenaram também já estavam condenados e analisou as duas alternativas da morte: sobreviver a ela e encontrar os sábios do passado no plano espiritual, o que seria uma felicidade, ou não sobreviver e dissolver-se no todo, o que seria o descanso total. De nenhum modo a morte o preocupava. A lei humana que o condenara apenas apressava o cumprimento inevitável da lei natural a que todos estão sujeitos. Ele era médium vidente e audiente, consultava sempre o seu daimon ou espírito protector, conhecia o problema da sobrevivência espiritual, mas falava a homens que não tinham essa experiência e usava o raciocínio mais apropriado ao momento. Esse episódio nos mostra que o medo da morte não era tão angustiante entre os gregos pagãos, que encontravam no pensamento dos filósofos uma consolação racional que a Igreja Cristã jamais ofereceu aos seus adeptos, sempre aterrorizados com o julgamento final, a ira de Deus e as crueldades eternas a que estariam sujeitos se caíssem nas garras do Diabo. Entre os celtas, nas Gálias devastadas pela brutal conquista romana, os bardos cantavam nas tríades druídicas, a felicidade dos que sobreviviam após uma existência dedicada ao cumprimento dos deveres humanos. A morte não os assustava. Mas o terror cristão da morte, na era teológica de deformação do Cristianismo, revestiu a morte com todos os aparatos trágicos de uma civilização insegura e angustiada, semeando o terror na mente popular. A pressão excessiva dessa forma coercitiva de terrorismo mental. Como em todos os excessos, a pressão esmagadora gerou a revolta e a descrença, levando os cristãos a optar pela segunda alternativa de Sócrates: o materialismo inconsequente, mas pelo menos racional.

Era natural e inevitável. Só a volta à experiência empírica poderia sustar a evasão mística, reconduzir os homens ao bom-senso, às medidas controladoras do pensamento racional. O desejo de libertação do condicionamento material, provocado pelo êxtase místico, pelos delírios da imaginação excitada, tinha de chocar-se com a dúvida metódica de Descartes e logo mais com o cepticismo desolador e o materialismo árido. Era necessário esvaziar o mundo das alucinações teológicas para que o homem voltasse a pisar o chão, a apalpar a terra. Kardec assinalaria, mais tarde, que a finalidade do Espiritismo era transformar o mundo, afastando o homem do egoísmo e do materialismo. Mas isso porque, no seu tempo, a vitória da razão já se definia, através das conquistas científicas de três séculos, do XVI ao XVIII, preparando o século XIX para a Renascença Cristã através do Espiritismo. Nessa fase, tão próxima da nossa, urgia restabelecer no homem a fé em termos de razão, mostrar-lhe que a insensatez mística devia ser corrigida pela experiência não menos insensata do materialismo. Se a mística levara o homem a querer fugir das limitações corporais através de cilícios e isolamentos negativos, que o afastavam das experiências da relação humana, o materialismo o levava a agarrar-se ao corpo, perdendo a visão espiritual da sua realidade subjectiva. A grande tarefa do Espiritismo se definia com clareza: era conter a emoção e a imaginação, ligar a fé à razão, unificar o psiquismo humano nos quadros da realidade terrena.

Era o que Jesus havia feito na Palestina, combatendo os excessos do misticismo judeu e as misérias do materialismo saduceu. O Espiritismo dava continuidade, quase dois mil anos depois, ao pensamento cristão desfigurado pelo sincretismo religioso dos clérigos ambiciosos, que não vacilavam em trocar o Reino de Deus pelos reinos da Terra. Kardec podia então proclamar a verdade simples que não havia sido aceite, por falta de condições culturais válidas: o espírito não era sobrenatural, mas natural, o parceiro da matéria na constituição de uma realidade única, a realidade espiritual e material do mundo e do homem. A conclusão de Kardec é límpida e simples: os espíritos são uma das forças da Natureza. Sem compreendermos isso não poderemos compreender o Espiritismo. Espírito e matéria são os elementos constitutivos de toda a realidade. Esses elementos são dimensionais, constituem dimensões diversas da realidade única. Não podemos dividi-los em natural e sobrenatural, pois ambos se fundem na unidade real da Natureza, como a Ciência actual o demonstra, sem ainda compreender as suas conexões profundas e subtis.

Léon Denis, discípulo e continuador de Kardec, considerou o Espiritismo como a síntese conceptual de toda a realidade. O mistério da Trindade, que se manifesta em forma mitológica ou mística em todas as grandes religiões do mundo, define-se na racionalidade espírita nos termos da explicação kardeciana:

Deus
Espírito
Matéria

Deus é a Inteligência Suprema, a Consciência Cósmica de que tudo deriva e que a tudo controla. Só Ele é sobrenatural, pois sobrepõe-se a toda a Natureza. É a Unidade Solitária da concepção pitagórica, que paira no Inefável. Esse é o seu aspecto transcendente. Mas Pitágoras nos fala de um estremecimento da Unidade que desencadeou a Década, gerando o Universo. E temos, assim, o aspecto imanente de Deus, que se projecta na sua criação e a ela se liga, fazendo-se espontaneamente a sua alma e a sua lei: Dessa maneira, o próprio Sobrenatural se torna Natural. A consciência Cósmica impregna o Cosmos e imprime-lhe o esquema infinito dos seus desígnios. Leibniz desenvolveu a teoria da mónada para explicar filosoficamente o processo da criação. As mónadas seriam partículas infinitesimais do pensamento divino que, como as sementes, trazem em si mesmas o plano secreto daquilo que vai ser criado. Da dinâmica das mónadas invisíveis aos nossos olhos formam-se os reinos naturais:

Mineral
Vegetal
Animal
Hominal
Espiritual.

Esse processo criador é explicado por Kardecsob orientação do Espírito de Verdade, como um desenvolvimento incessante das potencialidades monádicas, num fluxo evolutivo que sobe sem cessar dos reinos inferiores aos reinos superiores. Léon Denis explica esse fluxo numa expressão poética: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. Deus, a Lei Suprema, controla todo esse processo nos seus mínimos detalhes. A alma é a mónada, princípio individualizador que se caracteriza como princípio inteligente n’O Livro dos Espíritos. É assim que o espírito estrutura a matéria dispersa no espaço infinito. As hipóteses científicas do Universo Finito decorrem da incapacidade da Ciência para abranger a infinitude cósmica. Kardec adverte que, por mais que ampliemos os limites supostos do Universo, sempre haverá na nossa imaginação uma infinita continuidade do espaço cósmico. A consideração científica dos limites é puramente metodológica, determinada pela necessidade de ordenação na nossa mente. A própria Criação é infinita, incessante. Gustave Geley, metapsíquico francês, considera a mónada como um dínamo-psiquismo-inconsciente que dirige a constante metamorfose das coisas em seres, até chegar ao homem, que por sua vez, tomando consciência do seu destino, se transforma em anjo, integrando o reino espiritual da Angelitude, dos espíritos superiores.

Nessa cosmogonia dinâmica vemos que nada escapa do plano natural. Os espíritos nascem das entranhas da matéria, inseridos nela e nela se metamorfoseando. Os filósofos existenciais do nosso tempo referendam nas suas teorias essa concepção naturalista do espírito. Pois o que é o espírito senão a própria criatura humana? A morte nos mostra que o corpo perece, mas o espírito não. Ensinava o Padre Vieira: Quereis saber o que é a alma? Olhai um corpo sem alma. A Filosofia Existencial proclama: A existência é subjectividade pura. E a existência, no caso, é o espírito, que faz do homem um existente, um ser que existe, sabe que é e por que existe e busca a sua transcendência. A Vida é comum a todas as coisas e todos os seres, mas a Existência é a condição específica do homem, que não se limita a viver, mas luta por transcender-se. Nessa transcendência o homem passa da humanitude (do reino hominal) para a Angelitude (o reino espiritual). Sendo o espírito a nossa própria essência, o que somos realmente, com toda a nossa personalidade, é evidente que o espírito não é sobrenatural, mas natural, um elemento vivo e dinâmico da Natureza. Quando tomamos consciência dessa concepção espírita do mundo e do homem, a realidade se impõe à nossa mente, afugentando as confusas e incongruentes fabulações teológicas.

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, 2 – O Espírito como Elemento da Natureza, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O monge estuda as Escrituras | 1877, lápis e giz-estudo ao painel “A Educação de São Luís” Panteão, Paris (a mesma imagem, do monge, aos pés de Branca de Castela e de São Luís, nesse painel, óleo sobre tela) ambos de Alexandre Cabanel

sábado, 5 de outubro de 2024

O Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo VII ~

~~ Rumo ao Estado Metapsíquico ~

Se é possível que o espiritual exista na natureza humana, a sua descoberta só poderá obter-se mediante a exploração extrassensorial, segundo a prática da parapsicologia. O raciocínio metafísico e teológico já não convence o espírito crítico da idade actual. Daí que Lecomte du Nouy expressava acertadamente: “Não podemos combater os tanques com a cavalaria, nem os aviões com arcos e as flechas. Utilizou-se a ciência para solapar os fundamentos da religião. Devemos empregar a ciência para consolidá-la.” (i)

A parapsicologia não é uma evasão da realidade material; pelo contrário, é uma tomada de posse dessa realidade, para transformá-la noutra, mais lógica e firme, mediante a descoberta do númeno que a anima. É indubitável que esse espírito que rege a realidade visível será conquistado pela investigação parapsicológica e mediúnica, desde que, por medo às conclusões da verdade espiritual, não se detenha na periferia do Ser.

Apesar das reservas que se adoptem, para que a parapsicologia se abstenha de toda a hipótese que transcenda o domínio estritamente científico(ii) abre-se perante ela uma zona extracientífica que tem relação com o que se pode chamar o ser transcendente do homem. De maneira que manter a parapsicologia nessa ordem psíquica que se assenta apenas em actividades e funções do psiquismo humano, segundo deseja Robert Amadou, é não reconhecer a possível razão que assiste ao filósofo parapsicológico, em favor da imortalidade da alma, quando se defronta com essas tremendas realidades metapsíquicas que apresentam os fenómenos supranormais, como são as materializações de seres vivos, comprovadas e admitidas pelos maiores sábios da humanidade.

O experimentalismo crítico e analítico das ciências parapsicológicas será o único factor positivo que deterá a acção demolidora do materialismo. Não nos esqueçamos de que o chamado realismo marxista é mais poderoso que os milagres e as apelações da teologia. Acreditamos que os únicos elementos espirituais, que poderão salvar o sentido religioso do homem são as realidades do fenómeno espiritista, acompanhadas pelos esforços experimentais da parapsicologia. (iii)

Nos tempos novos, já não se trata de conformismo nem de crenças sem provas: esta atitude será agora a de uma parte mínima da humanidade, mas nunca a dessa maioria ateísta e antiespiritualista que nega enfaticamente hoje o que aceitou até ontem de maneira cândida. Se é certo que existe uma necessidade de acreditar, o desenvolvimento mental do homem exige novo modo de aceitar as crenças: aspira a crer sobre as bases de um seguro realismo religioso, sem medo de se enganar.

Contudo, os chefes das diversas igrejas existentes, em vez de acatarem como uma realidade escatológica o espiritismo, combatem-no em nome do Diabo, sem perceber que estão a desperdiçar uma das melhores oportunidades para refutar com ele as consequências do materialismo.

Se é certo que o período actual da parapsicologia é o que corresponde à era biológica, segundo o critério de Joseph B. Rhine, a partir de agora devíamos considerar a necessidade de inaugurar a era ontológica da parapsicologia. O problema do Ser, tão estudado no presente, através do que a filosofia denomina Conhecimento do homem, exige do trabalho parapsicológico a demonstração de novas noções ontológicas, que possam tapar a brecha, segundo Rhine, observada na natureza. Essa brecha é, indubitavelmente, o mistério do homem, isto é, a dramática questão apresentada pela filosofia existencial com respeito ao sentido do Ser, relegado apenas à náusea, à angústia, ao nada e à morte.

Que é o homem? Que somos? De onde viemos? E para onde vamos?

Eis aqui as apaixonantes questões que merecem uma resposta categórica.

Francisco Romero, um dos maiores filósofos argentinos, referindo-se ao tema do homem e à posição da filosofia em face desses problemas, escreveu o seguinte:

“O que a presente situação carece exigir da filosofia é uma definição precisa e concreta do homem, uma especificação nítida da sua posição no conjunto e do sentido da sua vida, de acordo com os mais firmes resultados do pensamento e da experiência psicológica e histórica: em suma, uma noção do homem, mais minuciosa, exaustiva e terminante do que as proporcionadas até agora.” (iv)

Como vemos, a necessidade espiritual de um conhecimento definitivo do homem está no íntimo de todos. A filosofia, mais do que em nenhuma outra época, aspira a solucionar o problema do homem. O Ser continua a ser um problema metafísico e religioso, apesar de tudo o que foi dito até agora. A situação dramática em que se encontra a filosofia torna-se mais desesperadora à medida que as teorias, hipóteses e petições de princípio se vão acumulando. Não nos esqueçamos que são numerosos os sistemas e as ideologias filosóficas e religiosas que pretendem interpretar o homem. Não obstante, nenhuma dessas formulações se mostrou capaz de derrotar esta sinistra concepção materialista do mundo: a filosofia do nada. Por outras palavras, o fúnebre sentido desta definição do existencialismo niilista: o homem, é um ser para a morte eterna.

O filósofo alemão Fritz J. Von Rintelen, num belo trabalho, exprimiu-se assim: “Nenhum sentimento já evoca a Deus, mas tão-somente ao Nada.” (v)

Esta conclusiva afirmação reflecte o verdadeiro sentir dos tempos novos. Já não se trata de afirmar a realidade espiritual do homem e da existência, mas procura matar-se o homem, levá-lo ao suicídio, através de um existir fundado no nada. A impressão que se poderia ter é a de que um demónio negador se alojara na mente humana, procurando apenas destruir o Ser espiritual que a anima.

De acordo com o sector materialista da humanidade é mais racional e, até mais científico, dizer que o homem morre para sempre, do que supor que viverá eternamente, na vida do espírito. Parece que, para o homem moderno, seria preferível ser pó ou nada a ser espírito imortal. E, segundo outros argumentos, é mais moral e até mais natural morrer para sempre do que viver eternamente.

A disputa suscitada pelo existencialismo, entre essência e existência, seria facilmente resolvida se a filosofia e a religião levassem em conta as manifestações espirituais dos fenómenos metapsíquicos e parapsicológícos.

Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, esforça-se por fazer prevalecer o Nada sobre o Ser ou a essência espiritual do homem.

Vemos nas suas páginas que o nada foi convertido em valor filosófico, para sustentar a morte eterna e definitiva do indivíduo. Mas não devemos espantar-nos com essa valorização do nada, já que, segundo a bíblia, Deus fez o homem do nada. Consequentemente, esse instinto do nada existencial ressurge com o existencialismo ateu, em forma catastrófica, do inconsciente da espécie, levando de roldão o ético e toda a finalidade transcendente do homem e do Universo.

O Nada, para Deus, era um valor criador; por isso, diz a bíblia que o Criador fez o mundo surgir do nada. Daí se conclui que o Ser e o mundo, como afirma o existencialismo niilista, estão condenados ao nada, o que vale dizer que esse existencialismo, não obstante o seu rigoroso ateísmo, é uma filosofia vinculada a Deus e à bíblia.

metapsíquica e a parapsicologia descobriram, entretanto, que o nada não é verdadeiro; comprovaram que na vida social existe o que Richet chamou de inabitual e, que os fenómenos transcendentais desse campo revelam uma teleologia, tanto para o Ser como para a civilizaçãoA metapsíquica prova que o mundo objectivo pode descentralizar-se, para que a essência psíquica se manifeste na vida espiritual da humanidade. Além disso, estabeleceu que a existência não é atributo exclusivo do homem e do seu mundo, mas que o existir é próprio de outros seres e entidades inteligentes, situados no mundo invisível que nos circunda.

A decadência espiritual do homem e da cultura contemporânea reclamam a colocação de problemas metafísicos e sociais, com o objectivo de alcançar novas interpretações da existência mais edificantes para o destino do espírito encarnado. Chegou a hora de uma metapsíquica existencialresistir a isso é deter a marcha das verdades espirituais. Charles Richet, provando este facto singular e dramático da evolução, declarou: “Amanhã, talvez, a metapsíquica terá o direito de elevar-se mais alto, nos rumos de uma moral, uma sociologia e uma teodiceia novas.” (vi)

Com efeito, a lei dos três estados, de Auguste Comteo teológico, o metafísico e o positivo, permite-nos acrescentar agora um quarto estado: metapsíquicoDesta maneira poderíamos inaugurar uma nova forma de conhecer as três grandes manifestações da história: a sociedade, o Espírito e a divindade. Acreditamos que o melhor campo de investigação metafísica é o próprio homem, porque nele está presente esse quarto estado, que Comte não chegou a conhecer: o estado metapsíquicoMas esse campo, para ser efectivo, deverá entrosar-se com a interpretação espírita do homem e da vida, já que nesta se encontra o fundamento filosófico, teosófico e religioso da continuidade do Ser. (vii)

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(i) Leconte du Nouy, O Destino Humano.
(ii) Revue Metapsychique, R. P. Reginaldo Omez, 1950.
(iii) O facto básico de deixar estabelecida a realidade de psi envolve um princípio de grande significação, aplicável a este problema da sobrevivência espiritual. Pois se não houvesse nenhuma evidência de algo que transcenda as leis físicas, se não houvesse nada que desafiasse os limites da interpretação mecanicista do homem e do mundo vivente, não valeria a pena pensar ainda no problema da sobrevivência. (Revista de Parapsicologia, n° 2 - ano 1955).
(iv) Miradas Sobre el Hombre, La Nación - Buenos Aires, 1950. (Edição de 21 de março).
(v) Lá Mística de Ia Muerte y Ia Filosofia Contemporanea, Critério, Buenos Aires, n.° 1.117.
(vi) Tratado de Metapsíquica, Charles Richet, pág. 37, edição espanhola, 1925.
(vii) Na Revista Espírita, de abril de 1858, Kardec aceitou a sugestão de um correspondente de acrescer à lei dos três estados, de Comte, o estado psicológico da evolução humana, iniciado com o espiritismo. O autor renova essa proposição, como vemos, com outra denominação. Essa coincidência e o desenvolvimento actual das pesquisas psíquicas, mostram que Kardec e o correspondente da “Revista” estavam certos. O leitor pode verificar o facto no volume I da colecção da “Revista”, lançada pela Edicel. É o editorial do número de abril, intitulado: “Período Psicológico”. (Nota de J.H.Pires).

Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo VII Rumo ao Estado Metapsíquico, 12º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali

terça-feira, 17 de setembro de 2024

O Mundo Invisível e a Guerra ~


~ A Justiça Divina e a Actual Guerra ~

|14 de julho de 1915|

Deus podia, do ponto de vista material, evitar a guerra, entretanto, do ponto de vista moral não podia fazê-lo, visto que uma das suas supremas leis exige que todos nós, individual ou colectivamente, soframos as consequências dos nossos actos.

Todas as nações empenhadas na presente guerra são culpadas, em diversos graus. A Alemanha levantou contra si as forças vingadoras, pelo seu orgulho insensato, o culto da força bruta, o desprezo ao direito, as suas mentiras e os seus crimes.

O orgulho excessivo acarreta sempre a queda e o fracasso: foi a sorte de Napoleão e será a de Guilherme II. As responsabilidades deste último são tremendas, porque a sua atitude não produz apenas hecatombes sem precedentes na História; ela poderia também retirar da Europa a coroa da civilização. Ele conseguiu iludir a opinião pública durante muito tempo, mas não enganará a justiça eterna.

Já o dissemos que, relativamente à França, a leviandade, a imprudência, o amor descontrolado dos prazeres deveriam atrair-lhe inevitavelmente duras provas. Assinalemos que foi um dia depois de um processo, onde a podridão nacional se destacava claramente, que a guerra explodiu.

O que existia de pior entre nós não eram os nossos defeitos, porém um estado de consciência que já não distinguia o bem do mal: é a pior das condições morais.

Os laços de família estavam afrouxados de tal modo que um filho era considerado como uma carga, daí o despovoamento que, como consequência dos nossos vícios, nos tornou fracos e diminuídos diante de um temível adversário; mas a alma francesa ainda conservava enormes recursos, podendo sair retemperada desse banho de sangue.

Diante da justiça divina, não são apenas a Alemanha e a França as nações responsáveis por enormes dívidas, pois entre os males que destacamos há muitos que se estendem por toda a Europa.

Encontramos por toda a parte criaturas semelhantes àquelas que existem em volta de nós, cujas consciências desapareceram e fizeram do bem-estar o objecto exclusivo das suas existências, como, aliás, certos políticos e estadistas que pretenderam dirigir os destinos de nosso país.

Deus permitiu que as calamidades tivessem um carácter geral, a fim de reagir contra essas doenças da consciência e esse baixo materialismo. Caso fossem apenas parciais, muitos teriam assistido com indiferença aos sofrimentos dos outros.

Para tirar as almas da letargia moral e do profundo mergulho na matéria era preciso que esse raio abalasse a sociedade até nos seus alicerces.

Já será suficiente a terrível lição que nos foi reservada? Se resultar inútil, se as causas morais da decadência e dos fracassos continuassem em nós, então os seus efeitos continuariam a produzir-se, reaparecendo a guerra com o seu cortejo de males.

É necessário, pois, que a vida nacional recomece em bases morais e que, terminando a tormenta, a alma humana aprenda a desfazer-se dos bens materiais, compreendendo-lhe o seu desvalor. Sem o que foram estéreis todos os sofrimentos e a nossa bela juventude foi ceifada sem benefícios para a França.

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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, V – A Justiça Divina e a Actual Guerra (2 de 4), 13º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

pensamento espírita argentino ~


Capítulo II

Espiritismo dialéctico ~

Espiritismo dialéctico é a concepção científica, dínamo-genético da evolução, que explica as coisas, seres e fenómenos do Universo, no seu movimento causal e dinâmico e nas suas necessárias contradições, sucedendo-se e transformando-se, lenta e gradualmente ou por mutações bruscas, em virtude de uma lei natural, selectiva e finalista, sob a acção psicodinâmica do espírito, nas suas diversas formas e manifestações. Não é, como poderia supor-se, uma inovação sistemática, fundamental, da filosofia espírita: é a mesma doutrina (pelo que respeita os seus princípios fundamentais), tratada dialecticamente à luz da ciência moderna e em concordância com os fenómenos da natureza e da vida e, muito especialmente, com os da Psicologia e da História.

A dialéctica espírita é um método discursivo, aplicado às coisas no processo indefinido do seu desenvolvimento ou, melhor dito, induzido deste processo indefinido; é uma lógica superior, para elevar-se à concepção dínamo-genética da vida em todas as ordens e manifestações, indo do simples ao complexo, do particular ao geral e dos termos opostos à sua síntese, a fim de estabelecer a lei ou o princípio que rege cada ordem de coisas e o que é essencial em todas e em cada uma delas.

Elevar-se da realidade sensível à verdade inteligível é o objecto da verdadeira dialéctica; é a “viagem”, segundo o dizer de Platão, que nos eleva à região luminosa das verdades superiores, viagem que empreendeu Heráclito, pela primeira vez na história da Filosofia, afirmando que nada é, que tudo chega a ser na corrente incessante da vida.

Ter um conceito dínamo-genético do Universo e da vida é pensar a evolução com um critério dialéctico, considerando as coisas, não no repouso em que se apresentam, mas em movimento, como na realidade estão; não num lugar fixo do espaço, nem num determinado momento do tempo, mas num contínuo suceder, num perpétuo câmbio de formas e de qualidades, sem jamais serem coisas perfeitas; é considerar os factos da vida e da história, não isolados e sem conexão, mas nas suas relações e no seu encadeamento causal; é ver nos indivíduos, não agentes desvinculados completamente uns dos outros, mas unidos por vínculos afectivos específicos, relacionados entre si pelo meio social e geográfico, por factores externos, tanto de ordem material como espiritual; não é crer que a sociedade, com o seu determinismo económico e histórico, marche por um lado e o espírito humano com o seu determinismo psicológico, com a sua causalidade moral e espírita, por outro, sem engrenar este com aquela, nem aquela com este, mas considerar as suas influências respectivas numa constante reciprocidade de efeitos e causas, de acções e reacções, de impulsos e resistências, de contradições que se resolvem no tempo, na luta constante de interesses e ideais, com o triunfo das tendências revolucionárias, individuais e, por afinidade, colectivas, que por lei da mesma evolução se apartam das tendências gerais e conservadoras; é crer enfim que, se no processo incessante da História (dentro do limite da existência humana) os indivíduos formam a sociedade, esta, por sua vez, forma os indivíduos e os sujeita às condições de vida estabelecidas, ainda que novas tendências e iniciativas individuais apontem mais tarde novos rumos à sociedade e modifiquem as condições existentes com o máximo de progresso alcançado. Esta concepção dínamo-genética que o Espiritismo dialéctico oferece e que consideramos do mais alto valor filosófico, para melhor compreensão da evolução e da vida, não forma, todavia, um sistema de doutrina completamente separado de elementos estranhos e contrários, em muitos casos, a sua verdadeira essência. Ela se deduz logicamente dos factos e manifestações espíritas, tanto quanto dos fenómenos naturais e históricos. Os elementos doutrinários que a constituem encontram-se disseminados nas obras dos seus mais ilustres mestres.

O método dialéctico, mesmo com alguma diferença no modo de expressão, é que tem sido seguido pelos grandes filósofos espiritualistas, desde Sócrates e Platão até Hegel, e empregado por alguns autores espíritas, ainda que sem uniformidade de critério e sem a precisão e extensão devidas. Daí que o Espiritismo se ressinta no seu valor filosófico e que a sua interpretação doutrinária, no que concerne à evolução e ao modo em que esta se efectua, dê margem a opiniões diversas e contrapostas, a atitudes desde a mais revolucionária até à mais recalcitrante e conservadora, não obstante ser uma doutrina clara nos seus postulados, quando estudados sem preconceitos.

Se Alexandre Herzen pôde dizer, com razão, que a filosofia de Hegel, longe de ser conservadora, é a álgebra da revolução; se Marx e Engels, aproveitando-se do método dialéctico de Hegel, no sentido materialista (que, por ser assim, abrange um só aspecto da verdade) puderam dizer que a sua dialéctica é a álgebra prática que “não se inclina diante de nada e é, por sua essência, crítica e revolucionária”, também podemos afirmar que o Espiritismo, com os seus fenómenos de uma realidade superior, demolidores de velhos preconceitos em todas as ordens da vida, com o seu conceito palingenésico da evolução e a sua moral dinâmica e perfectível, é profundamente mais revolucionário, posto que aprofunda o problema do ser e do destino e o aclara à luz dos factos, assinalando ao espírito humano novas e mais prolongadas actividades, novos e mais dilatados horizontes aos seus ideais, que não ficam truncados com as conquistas (muito justas, sem dúvida) económicas e sociais, dentro do marco estreito da existência humana sobre o planeta que habita. A dialéctica espiritista neste caso vem a ser a álgebra superior, que ninguém poderá aprender definitivamente, mas que vai descobrindo novas equações, novos problemas, em progressão constante de vidas sucessivas, que produz uma revolução mais profunda e de mais vastas projecções, que abrange o espírito e a matéria (sem reduzi-los a termos unitários, como fazem respectivamente o idealismo e o materialismo) numa síntese geral, considerando-se estreitamente unidos e necessários para todas as manifestações da vida e do pensamento. (i)

Poucas pessoas ignoram o que é o Espiritismo na sua essência vulgar e simplista; mas é escassíssimo o número dos que têm estudado a causa dos factos e dos princípios filosóficos que eles encerram, arrastando pela borda o pesado lastro de preconceitos que nele infiltraram as religiões positivas.

Empregado o Espiritismo para resolver somente problemas metafísicos, próprios da velha escolástica, apenas à investigação do mais além, preso à velha moral das religiões, que ensina a respeitar falsos direitos e privilégios injustos, como coisas absolutamente necessárias e conformes à justiça divina e à causalidade moral de cada ser, perde o seu carácter de ciência integral e progressiva, e em vez de ser um ideal humano, propulsor do progresso e das causas nobres, aberto a toda a iniciativa de bem-estar social, a toda tendência renovadora e libertária, torna-se, nas mãos de espíritos mesquinhos, uma doutrina atrasada e conservadora, uma arma formidável para esmagar consciências e conter todo o impulso generoso que tenda a estabelecer um novo regime social, mais justo e conforme com as exigências do progresso.

Para despojar o Espiritismo das influências conservadoras, dos preconceitos retrógrados que o desvirtuam e lhe tiram vigor como força social, como ideologia chamada a influir na marcha ascendente da humanidade, nada melhor do que abrir o livro da natureza e o da história e interpretar as suas lições à luz da ciência moderna e das manifestações espíritas: neles aprenderemos melhor que nos livros dos filósofos a verdadeira dialéctica dos factos e conheceremos o valor dos factores que os produzem e determinam e formaremos o nosso conceito espírita dínamo-genético da evolução, biológico e histórico. Assim saberemos, no final, como o Espiritismo deve orientar a conduta dos homens para que as consciências se fortifiquem frente aos factos que a vida oferece nas suas múltiplas e variadas manifestações.

/…

(i) O Espiritismo não considera o espírito absolutamente independente de toda a forma de matéria, nem tem a pretensão de saber o que é a matéria nem o espírito na sua essência; considera-os nas suas manifestações e estabelece as diferenças que são próprias de cada um. As manifestações dos espíritos vão sempre acompanhadas de formas subtis que, como já temos indicado, se chamam corpo etéreo, perispírito, etc.


Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, Capítulo II – Espiritismo dialéctico, 12º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Inquietações Primaveris ~


A Escada de Jacob ~

O nascimento e a morte determinam o trânsito especial entre o Céu e a Terra. Dia e noite, sem cessar, descem e sobem os anjos pela escada simbólica da visão bíblica de Jacob. Os anjos são espíritos, e o Apóstolo Paulo esclareceu que são mensageiros. Trazem e levam mensagens de um plano para o outro. São mensagens de amor, de estímulo, de orientação e encorajamento. As mensagens são dadas, na maioria, através das intuições, na Terra, aos destinatários encarnados. Mas há também as que são dadas por via mediúnica, através de um médium, ou através dos sonhos. Essa comunhão espiritual permanente é conhecida desde as épocas mais remotas. Mas só em 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em Paris, o problema foi encarado como positivo e levado à consideração dos sábios e das instituições científicas. As Igrejas Cristãs, tendo à frente a Católica Romana, levantaram-se contra essa colocação, que diziam simplória, de um grave problema teológico. Só os clérigos e os teólogos, segundo elas, tinham direito a tratar do assunto. Um século depois, a questão estava nas mãos das Ciências e a Ciência Espírita, fundada por Kardec, era colocada à margem do mundo científico, por não possuir um objecto legitimamente científico, material, ao alcance dos sentidos humanos. Richet levantara, na Metapsíquica, a tese do sexto sentido, e Kardec sustentava que os fenómenos mediúnicos, pelo facto mesmo de serem fenómenos, constituíam o objecto sensível da Ciência Espírita.

Em 1830 os professores Joseph Banques Rhine e William McDougall lançavam na Universidade de Duke, na Carolina do Sul (Estados Unidos da América) a nova Ciência da Parapsicologia, para a investigação desses mesmos fenómenos. E em 1840 ambos proclamavam, com os seus colaboradores, a prova científica da Clarividência. Dali em diante cresceu rapidamente no mundo o interesse pelo assunto e surgiram pesquisas e cátedras em todas as grandes Universidades da América e da Europa. Hoje a questão é pacífica no plano científico, e mesmo no religioso, pois a Igreja aceitou a realidade dos fenómenos e interessou-se efectivamente pelas pesquisas. A Parapsicologia avançou rapidamente, seguindo a trilha da Ciência Espírita, sem nenhum desvio.

Vencida a barreira dos preconceitos e das sistemáticas a que se apegavam numerosos cientistas, a Parapsicologia definiu-se como a Ciência do Homem. Rhine, ao aposentar-se na Universidade de Duke, estabeleceu a Fundação para a Pesquisa da Natureza Humana. A Parapsicologia sustenta a natureza espiritual do homem e as suas possibilidades de acção extensiva e intensiva no plano físico e mental ou espiritual. “A mente, que não é física, age sobre a matéria por vias não físicas”, declarou Rhine, apoiado por grandes nomes da Ciência em todo o mundo. Essa declaração mudou o panorama cultural do planeta. Hoje ninguém duvida, quando nasce uma criança, que se trata de um espírito humano reencarnado biologicamente na Terra. Embora ainda existam sectores científicos infensos à nova Ciência, firmou-se no mundo de maneira definitiva. Os cientistas que a negam ou rejeitam são considerados como retrógrados ou se definem a si mesmos como pertencentes a religiões que não devem aceitar os novos princípios.

A morte perdeu o sentido de negação da vida. Os fenómenos Teta, um dos últimos tipos de fenómenos paranormais pesquisados pela Parapsicologia, nada mais são do que as comunicações mediúnicas. Além do trânsito entre a Terra e o Céu – o mais movimentado do mundo – existe agora a comunicação permanente entre os homens e os espíritos. As descobertas físicas no plano das pesquisas sobre a estrutura da matéria mostraram que não vivemos num mundo tridimensional, mas multidimensional. Os que morrem na Terra passam para os planos da esfera semimaterial, de matéria rarefeita, que a circunda, e, conforme o seu grau evolutivo, para as hipóstases espirituais entrevistas por Plotino, na fase helenista da Filosofia Grega. Nas sessões espíritas, em todo o mundo, milhares de pessoas conseguem conversar com amigos e parentes mortos, que dão provas evidentes de sua sobrevivência após a morte. As restrições dos sistemáticos e preconceituosos continuam, mas a realidade impõe-se de tal maneira que essas restrições já diminuíram assustadoramente. A Terra espiritualiza-se, apesar do materialismo das religiões. E a morte já não amedronta milhares dos milhões de criaturas que morrem todos os dias.

Geralmente não se pensa no que isso representa para a Humanidade. Entregues às suas preocupações absorventes do seu dia a dia, homens e mulheres ainda vivem na Terra como há milhões de anos. Cuidam da vida sem se preocuparem com a morte. Essa posição anestésica é útil na Terra, mas desastrosa nos planos espirituais. Nas manifestações de espíritos (fenómenos teta) pode avaliar-se o prejuízo causado às criaturas por essa alienação à matéria. Embriagados pelos seus anseios de conquistas materiais, praticamente tragados pela vida prática, a maioria dos que morrem não têm a menor noção do que seja a morte. Entram em pânico após o trespasse, apegam-se depois a pessoas amigas de suas relações, perturbando-as sem querer ou procurando, através delas, sentirem um pouco da segurança perdida na Terra. Além desses prejuízos, a falta de educação para a morte causa o prejuízo maior dos desesperos, angústias existenciais e loucuras que hoje varrem a Terra em toda a sua extensão. Por outro lado é preciso considerar-se os prejuízos imensos produzidos pela ignorância das finalidades da vida. As próprias Ciências sofrem dessa ignorância, que lhe barra o caminho de descobertas necessárias para a melhoria das condições da vida terrena.

Por mais atilados e dedicados que sejam os cientistas, se não tiverem conhecimento das leis fundamentais que regem o planeta e condicionam a Humanidade, não podem penetrar nas causas dos males e os problemas que enfrentam. É questão pacífica que a falta de conhecimento preciso e amplo do meio em que estamos nos deixa entregues a perigos que não podemos prever. É o que agora mesmo acontece, no caso da poluição perigosíssima do planeta pelas exigências do desenvolvimento industrial. A falta de interesse pela Ecologia mergulhou o mundo numa situação desastrosa, que ainda não sabemos como poderemos superar. A Ciência ateve-se aos efeitos, deixando as causas por conta da Filosofia e da Religião. Esta última fechou-se nos dogmas ilusórios, mandando às calendas a questão fundamental das causas. Entregues aos conhecimentos empíricos da realidade constatada nos efeitos, os homens conseguiram realizar a façanha trágica da poluição total do planeta, com os mais graves prejuízos para a vida humana, bem como os vegetais e os animais. Descuidamos da morte e perdemos a vida. Se não mudarmos urgente de atitude, transformaremos a Terra numa Lua sem atmosfera.

A nossa insistência na consideração escatológica da morte, na sua função essencialmente destruidora – negando-lhe o papel fundamental de controladora da vida e a de renovadora das civilizações –, parece ter provocado uma reacção na nossa própria estrutura ôntica que nos transformou em nadificadores de nós mesmos e de toda a realidade. O estranho privilégio que pretendemos, de sermos os únicos seres condenados ao nada, um Universo em que tudo se renova e se eleva, constitui a mais espantosa contradição de toda a História Humana. Essa contradição monstruosa deforma a figura do homem no mundo que ao contrário de imagem e semelhança de Deus, aparece como a fera mais temível do planeta, onde as feras selvagens são sistematicamente destruídas e devoradas pelo animal dotado de inteligência criadora, sentimento, moral, compreensão de sua espiritualidade e sensibilidade ética e estética. O humanismo apaixonado de Marx, que sonhava sem o saber com o Reino de Deus na Terra, negou-se a si mesmo ao formular a teoria do poder totalitário e absoluto de uma classe social contra as outras. Larissa Reissner, que lutou pelos bolchevistas de armas na mão, mostra-se desolada, nas páginas brilhantes de seu livro Homens e Máquinas, ao referir-se aos campos de trabalhos forçados da URSS, em que antigos e bravos companheiros de luta pagavam sob o poder soviético o preço de suas ilusões para o fortalecimento do Estado-Leviatã de Hobbes. A terrível dialéctica das revoluções sociais materialistas, sem Deus e sem coração, levou o Marxismo ao pelourinho da lei de negação da negação, negando-se a si mesma no processo histórico. Sem o respeito do homem por si mesmo, pela sua condição humana, todas as tentativas de melhorar o mundo acabam na asfixia da liberdade, nadificando o homem depois de transformá-lo em objecto. É essa também a contradição fundamental de Sartre em O Ser e o Nada e na Crítica da Razão DialécticaMas é precisamente das contradições entre a tese e antítese que podemos obter a síntese que nos dá a verdade possível de cada problema.

Os anjos que descem pela escada de Jacob, na alegoria bíblica, representam a tese da proposição existencial – a verdade possível do Céu, ou seja, dos planos divinos, entendendo-se por divino aquilo que supera a condição material. Mas são esses mesmos anjos que voltam para o Céu representando a antítese. O trânsito espacial resulta da síntese humana em que a proposta terrena e a resposta celeste se fundem no processo existencial da transcendência. Por isso Kardec rejeitou as revelações proféticas do passado, individuais e exclusivistas, que geraram as religiões da morte, estabelecendo o princípio das revelações conjugadas, de natureza científica, em que o mundo é a tese, o homem é a antítese e a verdade é a síntese. Essa síntese, como acentuou Léon Denis, é a mundividência espírita, de difícil compreensão para os anjos que descem e ficam na rotina terrena, no círculo vicioso das reencarnações repetitivas. A verdade possível é-lhes interditada, não por condenação divina, mas por opção própria. Quando eles romperem o círculo vicioso poderão compreender essa verdade, a verdade possível, ao alcance do homem que soube transcender-se. Na dialéctica espírita o homem propõe a tese, o espírito responde com a antítese e a Razão elabora a síntese do conhecimento possível. A religião, como ensinou Kardec, é a consequência da revelação espiritual fundida com a revelação científica. A verdade possível tem a sua legitimidade e a sua validade precisamente nessa fusão. Os limites da vida terrena condicionam a realidade humana às possibilidades cognitivas da mente humana actualizada na matéria. O espírito revela um princípio espiritual e o cientista revela a lei terrena a ela correspondente. Só nesse processo de perfeito equilíbrio o homem pode evitar os perigos do misticismo alienante, para viver na Terra em marcha para a transcendência, através da Existência. É esse o processo que permite a fusão dialéctica da Ciência com a Religião, como fundamento de toda a verdade possível na Era Cósmica. Por isso, não insistimos no Espiritismo por sectarismo ou proselitismo, mas pelo facto incontestável de só ele nos oferecer os instrumentos conceptuais necessários à conquista da realidade. Sem a fusão da afectividade com a razão não poderíamos atingir a síntese do conhecimento geral, na fragmentação dos efeitos sem o esclarecimento das causas. O método indutivo da Ciência permite-nos reunir os efeitos para a compreensão possível da causa única e transcendente.

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José Herculano Pires – Educação para a Morte, A Escada de Jacob, 13º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

terça-feira, 16 de julho de 2024

apóstolos de verdade ~


CULTO DE ADORAÇÃO A DEUS OU A JESUS (?)

Há muito tempo venho observando que se tornou hábito tanto nas sessões espíritas como nas reuniões, congressos e encontros, a invocação do nome de Jesus tanto no início dos trabalhos como no encerramento, o que, a meu ver, constitui um erro. Se não, vejamos.

As obras da Codificação deixaram bem claro dois pontos importantes: a existência de Deus e a personalidade de Jesus. Assim, para nós, espíritas só kardecistas, Deus é a "inteligência suprema, causa primária de todas as coisas" (L.E. cap. I), cabendo-nos, portanto, cumprir a Lei de Adoração, que "consiste na elevação do nosso pensamento a Deus" (idem, cap. II da parte III). Segundo disseram os Espíritos Superiores a Allan Kardec "é pela adoração que o homem aproxima a sua alma de Deus". Neste sentido, a prece nada mais é do que "um acto de adoração" pois, "orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com Ele". (idem,) E três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar a Deus, pedir-lhe alguma coisa em nosso benefício e dos outros, e agradecer-lhe o que temos recebido " (idem, n. 658 e 659). E Kardec, em "A Génese" (cap. I, nº 13) deixou bem claro que a Revelação Espírita sobre ser científica é também, e, principalmente divina, porque procede directamente de Deus, através dos seus emissários, os Espíritos Superiores sob a direcção do Espírito de Verdade.

Na colectânea de preces espíritas, que Kardec colocou no final de "O evangelho s/o Espiritismo", ele cita várias passagens do Novo Testamento, em que Jesus, o Homem de Nazaré, nos ensina como devemos dirigir-nos a Deus nas nossas preces, a começar pela "Oração dominical", que começa com um veemente apelo ao "Pai nosso que estais no céu". E o próprio Espírito de Santo Agostinho, que, segundo Erasto, Discípulo de São Paulo, foi "um dos maiores divulgadores do Espiritismo", disse que "a prece nos leva ao caminho que nos conduz a Deus". E nas preces que Allan Kardec nos apresenta, no final do seu livro, ele sempre começa invocando a figura de Deus Todo-Poderoso e não de Jesus. Justamente porque, para nós, espíritas não roustainguistas, Jesus não foi, nem é Deus, e sim um Espírito Superior, que, ao encarnar, na Terra, para cumprir uma sagrada missão, tomou um corpo de homem, e viveu trinta e três anos, deixando-nos um grande exemplo e uma sublime mensagem de amor, de paz e de esperança no futuro. Isto ficou bem evidente em "A Génese", cap. XV, que mostra a superioridade da natureza de Jesus, e em "Obras Póstumas", em que o querido mestre lionês nos prova, com todo o rigor científico que o caracterizava, que nem o próprio Jesus se considerava um Deus. É justamente o contrário do que afirmam a Igreja Católica e "Os Quatro Evangelhos de J.B.Roustaing".

E, para concluir, citamos o grande Léon Denis, que, no seu magnífico livro "Depois da morte", declarou o seguinte: "Quanto às teorias que de Jesus fazem uma das três pessoas da Trindade (dogma do Catolicismo) ou um ser puramente fluídico (dogma do docetismo/roustainguismo) uma e outra parecem pouco fundadas, porque Jesus revelou-se homem, sujeito ao temor , aos desfalecimentos. Como nós, homens, sofreu e chorou..." (p. 75). A propósito, tenho aberto, diante de mim, o livro "Doutrina Cristã", escrita pelo padre Francisco Pascucci, onde, na pág. 12, Jesus Cristo aparece como sendo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o que constitui um grande mistério para o Catolicismo Romano. O mesmo se encontra em "Os Quatro Evangelhos" de J. B. Roustaing, onde se lê que Jesus, que já foi criado perfeito, sem mácula, foi concebido pelo Espírito Santo, embora no seio de Maria, sua mãe carnal. Portanto, para os roustainguistas, Jesus também era Deus, embora eles garantam que não era nem Deus, nem homem, apenas um corpo fluídico, um agénere, mas com todas as prerrogativas de um Deus e a aparência de um homem. Por isso mesmo, tem que ser adorado, como se fosse o próprio Deus. Daí, certamente, o hábito que se criou de se invocar Jesus Cristo, nas preces e orações, na abertura e encerramento de qualquer reunião espírita.

Mas é claro que, nas nossas preces, devemos também dirigir-nos a Jesus, na certeza, porém, de que se trata de um intermediário, um intercessor, como Allan Kardec deixou bem evidente em "O Evangelho s/o Espiritismo", cap. XXVII, nº 9)…

O que não podemos nem devemos é continuar por aí, rezando a "Ave, Maria", como fazem os católicos, e como o próprio Chico fez muitas vezes.

NAZARENO TOURINHO ESTÁ CERTO

Em seu livro "Cartas a Jesus" – Edição Especial - disse, com muita propriedade o grande escritor, jornalista e conferencista Nazareno Tourinho, (i) de Belém / PA:

"... o que vem acontecendo, Jesus, é melancólico. Passaram-se vinte séculos depois da tua visita a este mundo. Os Evangelhos foram propagados no território de quase todas as nações, recebendo louvores em aldeias e metrópoles, porém até hoje os homens e as mulheres que te aceitam, de um modo geral, ainda não aprenderam nem sequer a orar a DEUS, como ensinaste: esquecendo o PAI, que está nos Céus, ou seja, em todos os lugares, oram quase sempre para ti, que deves recolher as preces com imensa tristeza, falando para o próprio coração: - Eles nem ao menos começaram a me entender!..." (pág. 18/19).

Bravos, valoroso Companheiro Nazareno Tourinho! É assim que se fala!...

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Erasto de Carvalho Prestes, in O Franco Paladino, Julho de 2003 / Órgão de divulgação do Espiritismo codificado pelo mestre Allan Kardec – Culto de Adoração a Deus ou a Jesus (?), 3º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: São Luís com a coroa de espinhos, desenho de Alexandre Cabanel)